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02/05/2012

Quais são os 5 melhores filmes de super-heróis?


Há três anos, fiz aqui uma postagem convidando os leitores do Mais Quadrinhos a listarem seus filmes de super-heróis favoritos. O resultado foi uma das postagens com maior participação dos leitores do blog. (Valeu pessoal!) Passado esse tempo, novas produções vieram e creio que muitas das listas apresentadas podem ter se alterado. A minha mesmo sofreu mudanças: embora aquele que considero o melhor dos filmes de super-heróis ainda continue o mesmo, um novo filme foi acrescentado e as posições de outros se alteraram (nossa percepção das coisas, de fato, muda com o tempo).

Fica então o convite para postarem nos comentários sua lista com os 5 melhores filmes de super-heróis. Os meus favoritos são:

1. Superman – O Filme (o primeiro filme maduro e bem-produzido com um super-herói, uma excelente produção capaz de traduzir os quadrinhos para a telona, com efeitos especiais inovadores para a época. Até mesmo para alguém que jamais gostou do Super-Homem, a interpretação de Christopher Reeve tornou o personagem crível e interessante, enquanto um elenco coadjuvante, liderado por Marlon Brando e Gene Hackman, deu lastro à história. A última meia-hora deixa a desejar e as continuações, que não contaram com a direção de Richard Dooner, não valem muito a pena. Mas Superman – O Filme continua um clássico que merece ser visto!).

2. Homem de Ferro (o filme de estreia do excelente Robert Downey Jr. como super-herói superou todas as expectativas, com um roteiro interessante, bons efeitos, atuações na medida, diálogos inteligentes e uma trilha empolgante. Conciliando elementos realistas numa aventura fantasiosa, a produção do Marvel Studios é mais que apenas um bom entretenimento, além de ser melhor que a maioria das versões do personagem nos quadrinhos).

3. O Cavaleiro das Trevas (apesar do discutível ator no papel-título, o segundo filme do Homem-Morcego dirigido por Christopher Nolan me fez esquecer o decepcionante Batman Begins. É claro que uns 90% da força do filme estão na impressionante, incomparável e perturbadora atuação de Heath Ledger no papel do Coringa. Mas o roteiro também é bom, a produção bem-cuidada e o elenco coadjuvante está perfeito).

4. X-Men 2 (o primeiro filme dirigido por Bryan Singer com os heróis mutantes tinha seguido a fórmula de Superman – O Filme, conciliando respeito pelos quadrinhos, protagonistas desconhecidos mas adequados, atores talentosos e consagrados em papéis-chave e os melhores efeitos disponíveis na época. Contudo, X-Men – O Filme deixou a sensação de que faltava algo. Mas o que quer que estivesse faltando veio em X-Men 2, um filme tão bom que teve o efeito de até mesmo “melhorar” seu antecessor).

5. Os Vingadores (um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos, a produção escrita e dirigida por Joss Whedon realizou a façanha de reunir na telona alguns dos grandes ícones das HQs de super-heróis. Sendo trabalhada desde Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América, a trama de Os Vingadores só não alcançou melhor resultado por seus vilões lugar-comum e o final não muito original. Mesmo assim, a produção impecável e as fantásticas cenas com o Hulk fizeram do filme um dos melhores já feitos com super-heróis).

14/10/2010

O segundo “arco” dos X-Men de Warren Ellis (ou: não perca tempo e dinheiro!).


O roteirista inglês Warren Ellis conquistou um lugar de destaque no mercado de quadrinhos norte-americano. Tendo uma predileção por tramas envolvendo ficção científica e uma capacidade de apresentar novas perspectivas para temas já bastante explorados, sua estreia nas páginas da revista Astonishing X-Men foi aguardada com expectativa pelos leitores. No entanto, os números 25 a 30 da prestigiada série mutante ficaram muito aquém do que se podia esperar, destacando-se mais pelas páginas ilustradas pelo italiano Simone Bianchi, do que propriamente pelo trabalho de seu roteirista (uma resenha dessas primeiras edições pode ser lida aqui).

Ellis conseguiu se redimir um pouco nas duas edições da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, mas ainda precisava mostrar a que veio. Conceituado entre leitores e editores, o renomado roteirista ganhou uma segunda chance para mostrar algo menos decepcionante: o novo “arco” Exogenetic, publicado entre os números 31 e 35 da revista mutante. Terá ele então alcançado um resultado mais condizente com seus trabalhos anteriores (como Planetary ou Iron Man Extremis)? Terá ele conseguido apagar a sensação do “vamos ganhar um dinheiro fácil” deixada pelas edições anteriores? Na minha opinião, a resposta é um sonoro “Não!”.

Astonishing X-Men: Exogenetic começa com a agente Abigail Brand numa missão espacial para eliminar alienígenas da espécie conhecida como Ninhada (quem lia as revistas dos X-Men nos anos 80 está bem familiarizado com esses detestáveis aliens transmórficos). As coisas não saem muito bem e Abigail cai na Terra, tendo que ser resgatada por Ciclope & Cia. Quando tudo parece se acalmar, entra em cena outro vilão do passado: um gigantesco robô sentinela. Este, porém, tem a peculiaridade de ser composto por partes biológicas e estar ligado à trama envolvendo os alienígenas da Ninhada. Aí entra em cena o clone de um terceiro vilão do passado: Krakoa, a Ilha Viva.

Segundo revela Abigail, o que liga todas essas ameaças é um misterioso vilão com um extenso conhecimento sobre engenharia genética e o desejo de eliminar os mutantes (ou seja, nada muito diferente do que já vimos várias vezes). Veículos espaciais gigantes e a aparição de um clone do vilão pterodátilo Sauron só servem para reforçar a sensação de lugar-comum. No capítulo final, muita conversa fiada, ação mal representada e algum draminha envolvendo o misterioso vilão resultam num fechamento fraquíssimo. Com isso, todo o “arco” pode ser resumido a uma grande perda de tempo para quem venha a dedicar algumas horas a lê-lo, isso sem falar no dinheiro jogado fora.

Com uma história pouco inspirada, Exogenetic oscila entre desinteressantes sequências de combate e diálogos repletos de sarcasmo. Pior ainda são os desenhos de Phil Jimenez e Andy Lanning, cheios de borrões e (d)efeitos digitais criados pelo colorista Frank D’Armata, que formam um visual que pode ser descrito como “feio”. Assim, se nas primeiras edições para a Astonishing X-Men Ellis pôde contar com o talento de Simone Bianchi, nestas últimas sequer as imagens compensam. Mas, apesar da pouca qualidade e dos atrasos, antes da conclusão de Exogenetic, a Marvel já tinha começado a publicar a minissérie Astonishing X-Men: Xenogenesis, também escrita por Ellis.

No geral, não há o que se elogiar nas fracas histórias de Ellis para os X-Men, que se revelam cada vez menos interessantes e desde o início nada surpreendentes. De qualquer forma, para quem quiser tirar a prova, em breve elas poderão ser conferidas nas edições da Panini.

12/08/2010

Para os fãs dos X-Men.


Como falei numa postagem anterior, embora tivesse revistas em quadrinhos desde criança, foi em janeiro de 1987 que comecei a ler e colecionar HQs. A revista que deu início à minha coleção foi a Heróis da TV n°91, na qual fui capturado por uma página com uma reunião de heróis desenhada por John Byrne. Não demorou para eu começar a colecionar todas as revistas da Marvel e pouco depois as da DC Comics também (na época, as revistas eram relativamente muito mais baratas do que hoje, e seria viável colecionar todas as edições mensais da Abril apenas com o dinheiro de uma modesta mesada). A primeira edição de Superaventuras Marvel que comprei foi a n°57, de março daquele ano. E com ela veio a primeira história dos X-Men que eu li.

Apesar de a edição trazer na capa o personagem Mestre do Kung Fu, além de uma HQ e um texto sobre o herói Demolidor, o que chamou minha atenção foi a história dos X-Men (que então pronunciávamos “xis-mem”). Nela, os heróis mutantes enfrentavam um grupo de vilões vestindo roupas de época, que atendiam pelo nome de Clube do Inferno. Além da importante participação de Tempestade e Rainha Branca, tinha destaque um certo herói baixinho e de garras afiadas, que eu então ainda não conhecia (por incrível que pareça, há não muito tempo atrás, era possível que um adolescente jamais tivesse ouvido falar do Wolverine ou mesmo dos X-Men...). As revistas seguintes trouxeram histórias menos interessantes para mim, mas isso logo mudaria.

Enquanto eu acompanhava a marcante minissérie Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, nas páginas da Superaventuras Marvel começavam a ser publicadas as HQs ligadas à “Saga da Ninhada”. Embora os desenhos de Dave Cockrum não fossem dos meus preferidos, a temática futurista e a ambientação espacial dos roteiros de Claremont me agradavam em cheio. E se eu já me tornava um fã dos X-Men, fui conquistado de vez quando as revistas passaram a ser desenhadas pelo excelente Paul Smith, com sua primeira aventura dos heróis mutantes publicada na Superaventuras Marvel n°70. A edição seguinte, inteiramente dedicada aos X-Men e desenhada por Smith, foi uma das melhores daquela célebre revista e é, na certa, minha preferida.

Nos anos seguintes, acompanhei a minissérie e a revista própria dos X-Men, lançadas pela editora Abril. Em 1990, passei a acompanhar também as edições originais da Uncanny X-Men, então desenhadas por Marc Silvestri. No entanto, a queda na qualidade dos roteiros e a superexploração das “super-sagas” levou à minha progressiva perda de interesse por aqueles personagens. O visual interessante ainda me fez comprar as revistas desenhadas por Jim Lee, Whilce Portacio e John Romita Jr., além de algumas edições desenhadas por Joe Madureira. Mas, naqueles meados dos anos 90, meu interesse estava mais voltado para séries como Swamp Thing ou The Sandman e também para os quadrinhos de autores como Moebius, Hugo Pratt e Flavio Colin.

Só recentemente voltei a ler revistas dos heróis mutantes da Marvel, com o intuito de escrever resenhas aqui para o Mais Quadrinhos. Assim, somando textos que eu havia escrito para jornais ainda nos anos 90 e esses novos textos que passei a escrever, o resultado é um razoável arquivo de informações, que traça boa parte da trajetória dos X-Men. Então, para os fãs dos X-Men que acompanham este blog, preparei uma relação dos principais textos sobre os heróis mutantes, numa ordem cronológica das edições abordadas:

A história dos X-Men (1963-1976).
A história dos X-Men (1977-1982).
A história que definiu o futuro dos X-Men.
A marcante minissérie do Wolverine.
A história dos X-Men (1983-1986).
A história dos X-Men (1987-1992).
A verdadeira origem e história do Wolverine.
O melhor dos X-Men no cinema.
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2001-2002).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2002-2003).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2003-2004).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2004).
Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (I).
O pior dos X-Men e do Wolverine no cinema.
Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (II).
Um novo começo para os X-Men?
O primeiro “arco” dos X-Men de Warren Ellis.
Um novo “crossover” mutante da Marvel.

Fica então o convite, para aqueles que ainda não conhecem os textos ou queiram relê-los numa forma ordenada.

09/08/2010

Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (II).


Começando em tom nostálgico, mas também trazendo situações novas (que acabariam no filme X-Men – O Confronto Final), a revista dos heróis mutantes produzida por Joss Whedon e John Cassaday logo conquistou a predileção dos fãs. As coisas melhoram no segundo conjunto de histórias, que coloca em cena uma entidade de inteligência artificial, revelando ao final um complô envolvendo Emma Frost. E é exatamente com essa trama, que liga a antiga Rainha Branca ao Clube do Inferno e à terrível Cassandra Nova, que Astonishing X-Men n°13 se inicia.

Considerando o histórico e os poderes dos vilões envolvidos, jogos mentais e situações ilusórias não poderiam deixar de fazer parte do pacote. Com isso, a trama principal segue uma linha mais psíquica, concentrando-se na personalidade e conflitos pessoais do líder dos X-Men, Ciclope. E enquanto a história prossegue, os pontos mais memoráveis dessas HQs ficam por conta de uma “aula” sobre combate que tem (o não muito pedagógico) Wolverine como professor, e o aguardado encontro a dois de Kitty Pryde e Colossus (cujo “clímax” leva a um momento inusitado e engraçado).

Explorando bem a relação entre os personagens e pontuando o drama com doses de humor, o terceiro conjunto de histórias da Astonishing X-Men chega à metade com os X-Men (de novo) prestes a serem destruídos. E com integrantes mais poderosos e agressivos neutralizados, é Kitty Pryde quem assume o centro da ação. Ao final, porém, tudo se resume a um grande jogo mental, que deixa uma sensação de que não apenas os personagens foram ludibriados. Além disso, essa utilização de um recurso ficcional batido se soma a uma condução às vezes truncada, levando a uma conclusão abrupta.

Na verdade, o que acaba tendo mais relevância ali é a história paralela que vinha sendo narrada, com a qual as tramas iniciais (envolvendo o alienígena Ord e a entidade tecnológica Perigo) se intercalam, abrindo caminho para o que será o conjunto final de histórias de Whedon & Cassaday. Neste último ato, os X-Men são levados por Abigail Brand a Breakworld, um mundo alienígena onde a violência e a destruição dos inimigos são as leis principais. Lá, um antigo oráculo teria profetizado que o planeta seria destruído por um dos X-Men, o que acaba colocando em risco a existência do planeta Terra.

Com alguns momentos tranquilos (como as cenas de amor de Kitty Pryde e Colossus) e muitas sequências de luta (com destaque para Wolverine e Armadura), a história caminha para o fim, culminando no disparo de uma bala gigante contra a Terra. Embora a trama se embole um pouco no meio do caminho, os leitores recebem sua dose de ação e emoção. Então, não bastando as revistas que completam o quarto conjunto de seis histórias, Astonishing X-Men ganhou uma edição final dupla, com a participação de outros heróis, como Quarteto Fantástico, Dr. Estranho e Homem de Ferro.

Giant-Size Astonishing X-Men n°1 encerrou um trabalho que já somava vinte e quatro edições e se iniciara quatro anos antes. E embora comece numa página dupla com o Homem-Aranha e traga outros figurões da Marvel, a HQ enfoca dois personagens que provavelmente não figurariam numa lista de possíveis salvadores do mundo. O primeiro é Colossus, que protagoniza a única luta realmente relevante nessa revista e que, ao final, salva o Breakworld da destruição. A outra é Kitty Pryde, verdadeira protagonista dessa fase da revista, que no último instante sacrifica-se para salvar a Terra.

Desde sua primeira edição à frente da Astonishing X-Men, Joss Whedon “jogou para a torcida”. Privilegiando a nostalgia e resgatando elementos que haviam feito o sucesso dos X-Men no início dos anos 80, o roteirista soube explorar a personalidade e as interações dos personagens. Sem desconsiderar as contribuições trazidas pela New X-Men, seus roteiros seguiram mais a linha do entretenimento, com ação e ambientes de ficção científica. Algo que deveria ter sido evitado é a monotonia narrativa, causada às vezes por um excesso de páginas divididas em quadros horizontais de mesmo tamanho.

Quanto ao visual, pode-se dizer que muitos elementos das histórias não teriam funcionado ou não seriam tão efetivos se não fosse o ótimo trabalho de John Cassaday e da colorista Laura Martin (sua parceira também em Planetary). Apresentando grande regularidade ao longo da série, suas páginas privilegiam a ambientação e a caracterização, somando um traço fino e detalhado a uma colorização luminosa e repleta de efeitos gráficos. O resultado é um visual belo e dinâmico, não raras vezes impressionante e sempre capaz de imergir o leitor na sequência de imagens, promovendo a ilusão de realidade das histórias.

Embora tenha levado quatro anos para ser concluída, a história contada por Whedon e Cassaday se passa ao longo de poucas semanas. Com histórias concatenadas e tramas interligadas, as vinte cinco edições dessa fase privilegiam, assim, uma leitura em conjunto. Aclamada entre os leitores, a série ajudou a firmar a popularidade dos heróis mutantes, conquistada com os filmes lançados em 2000 e 2003. Um dos melhores exemplos da inteligente estratégia que levou a Marvel ao topo do mercado de revistas nos Estados Unidos, a fase de Joss Whedon e John Cassaday na Astonishing X-Men foi e continua sendo um grande sucesso comercial.

Após publicar os dois volumes com as doze edições iniciais, a Marvel lançou as coletâneas Torn e Unstoppable, também reunidas num volume estendido em capa-dura (embora os leitores brasileiros ainda aguardem o lançamento de Os Surpreendentes X-Men Volume 2). Em 2009, essa aclamada fase da Astonishing X-Men ganhou uma omnibus edition de 670 páginas. A Marvel lançou ainda uma versão montion comics de Gifted, que ganhará em breve uma edição de luxo, no DVD de estreia do selo Marvel Knights. Provas sucessivas de que os quadrinhos ainda são um ótimo negócio!

06/08/2010

Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (I).


Uma característica dos quadrinhos de super-heróis é a identificação dos leitores com determinado personagem (há aqueles que são fãs do Super-Homem ou do Homem-Aranha, outros do Batman ou do Hulk). Além disso, muitas vezes os leitores elegem suas fases favoritas, nas quais determinada equipe de autores ficou a cargo de uma revista. Um bom exemplo disso foi a fase em que a revista The Uncanny X-Men foi produzida por Chris Claremont e John Byrne. Por sua qualidade e importância, muitos consideram este período, entre 1977 e 1981, como o melhor dos heróis mutantes da Marvel.

Mais recentemente, outra fase dos “filhos do átomo” recebeu uma atenção especial dos leitores. Escrita por Joss Whedon (o criador do seriado Buffy, a caça-vampiros) e desenhada por John Cassaday (desenhista da série Planetary), a revista Astonishing X-Men foi lançada no primeiro semestre de 2004. E bem antes de a primeira edição chegar às lojas, os nomes dos autores envolvidos já causavam expectativa entre os fãs dos heróis mutantes. O que se viu, nas vinte e quatro edições e na revista dupla que fechou esse trabalho, correspondeu e até superou as expectativas dos leitores.

Pegando o fio da história de onde Grant Morrison havia deixado em New X-Men, a nova série começou com os heróis lidando com os desdobramentos do afastamento do Professor X e da morte de Jean Grey. Com Ciclope no comando do grupo e Emma Frost na coordenação da escola, um clima não muito amistoso predomina. Mas também há uma boa dose de nostalgia com o retorno da popular Kitty Pryde e de seu dragão Lockheed, além de algum estranhamento com o surgimento do vilão alienígena Ord. Para complicar um pouco mais as coisas, é anunciada uma “cura” para a condição mutante.

Filas de mutantes à frente do laboratório que desenvolveu a vacina genética (que foram parar mais tarde no filme X-Men – O Confronto Final), brigas entre os X-Men e dúvidas por parte do Fera dão a tônica dos primeiros capítulos da história. O herói Colossus, outro personagem popular entre os antigos leitores, ressurge dos mortos, enquanto as personagens Armadura e Abigail Brand fazem sua estreia. Em meio ao tumulto, a intervenção da S.W.O.R.D. desvenda a trama interplanetária envolvendo o alienígena Ord, enquanto a atuação dos X-Men neutraliza a ameaça, encerrando a sequência inicial de HQs.

As seis primeiras edições de Astonishing X-Men têm como característica principal o retorno de personagens e a volta a elementos tradicionais desses heróis (incluindo o “lançamento especial” em que Colossus arremessa Wolverine, e até imagens tiradas de antigas HQs). O próximo conjunto de histórias começa de forma incomum, com o supergrupo enfrentando um lagarto gigante. A ação faz parte do esforço de Ciclope para que sua equipe seja mais bem vista pelo público em geral, o que inclui o uso de uniformes com um pouco mais de cor (deixando para trás a fase do couro preto da série New X-Men).

Claro que a intromissão dos X-Men num “nicho de mercado” alheio não passa despercebida, e o Quarteto Fantástico logo aparece para marcar presença. Não demora para que os dois grupos de heróis unam forças e, já que “a união faz a força”, um simples monstrengo verde não é páreo para eles. Quando a poeira abaixa, comentários sarcásticos sobre os canadenses e, mais tarde, sobre Paris Hilton dão um gostinho extra à leitura. Mas, como não existe tranquilidade para os heróis mutantes, logo a Mansão X é atacada por um robô sentinela a mando de uma entidade tecnológica chamada Perigo.

É a partir da oitava edição que as coisas realmente “esquentam” em Astonishing X-Men; os capítulos que se seguem são pura luta entre os heróis e a inimiga de inteligência artificial. As boas sequências de combate são acompanhadas de uma pertinente narração em texto, e a resolução do conflito inclui o Professor X e uma discussão sobre a relação criador x criatura (que lembra bastante o que se vê no excelente Blade Runner). O encerramento deste segundo conjunto de HQs revela ocultos nas sombras os integrantes de um novo Clube do Inferno, que vêm arquitetando um ataque, através de Emma Frost.

Reeditadas nos Estados Unidos nas coletâneas Gifted e Dangerous, em seguida numa edição estendida em capa-dura, as doze primeiras edições de Astonishing X-Men foram publicadas no Brasil nas páginas de X-Men Extra e depois reunidas pela Panini na coletânea em capa cartonada Os Surpreendentes X-Men Volume 1. O conjunto de edições, que vinha se tornando cada vez mais interessante e empolgante a cada número, não se encerra ao final de Astonishing X-Men n°12, ficando em aberto o misterioso complô que será o tema central na sequência de HQs seguinte.

(CONTINUA)

24/07/2010

Os Supremos e os Ultimate X-Men se enfrentam em Ultimate War.


Quando chegava ao fim de sua fase na série Ultimate X-Men e em meio à produção da excelente The Ultimates, o roteirista Mark Millar escreveu uma minissérie que colocou frente a frete os dois grupos de heróis. Publicada pela Marvel no primeiro semestre de 2003, dividida em quatro edições, Ultimate War contou com os bons desenhos de Chris Bachalo, arte-final de Tim Townsend e cores de Paul Mounts.

Lançada em 2001 na trilha do sucesso de bilheteria e tendo como inspiração X-Men – O Filme, a série Ultimate X-Men chegou com um ritmo dinâmico e o traço comercial dos irmãos Adam e Andy Kubert. Apresentando um novo começo alternativo para os heróis mutantes, essa revista voltada ao público jovem logo se tornou um sucesso, atraindo leitores que haviam descoberto os personagens através do filme e não precisariam conhecer décadas de cronologia para entender suas HQs.

Lançada em 2002, The Ultimates por sua vez trouxe uma abordagem mais adulta e menos comercial dos super-heróis, em que cenas de luta dão lugar a diálogos e a ação bombástica é substituída por um ritmo mais compassado. Reinventando os heróis Marvel clássicos para o século 21, a revista ilustrada pelo talentoso Bryan Hitch superou as expectativas, sendo a melhor série de super-heróis dos últimos dez anos e também uma fonte de inspiração para os filmes da Marvel.

Reunindo os dois principais grupos da linha Ultimate, em termos estilísticos e narrativos, Ultimate War foi um encontro dessas duas abordagens distintas. Traduzida no Brasil como "Guerra Suprema", devido ao nome dado por aqui ao grupo liderado pelo Capitão América, a minissérie tem como grande vilão Magneto, dando inicialmente mais destaque aos Supremos do que aos X-Men. Ainda assim, pelas implicações de disputa racial, a história está mais para uma aventura mutante.

Tudo começa com um atentado terrorista na Ponte do Brooklyn, que deixa centenas de vítimas. Enquanto Thor e Homem de Ferro resgatam os corpos das vítimas, Capitão América, Viúva Negra e Gavião Arqueiro saem à captura da Irmandade dos Mutantes. Os X-Men só dão mesmo as caras na segunda edição, mas logo Os Supremos roubam de novo a cena. Embora os diálogos e a interação dos personagens seja a tônica principal, eles não funcionam tão bem quanto em The Ultimates.

Uma razão para isso está no estilo de desenho e nas escolhas narrativas dessa HQ. Em 1994 e 1995, Chris Bachalo era o melhor artista das revistas de super-heróis, com fases excepcionais nas séries Ghost Rider 2099 e Generation-X. Com o passar dos anos, porém, seu trabalho pendeu para o lado dos mangás e animes, ganhando mais estilização no traço e recortes na narrativa. Assim, apesar de seu desenho em Ultimate War ser interessante, ele não serve tão bem ao roteiro de Millar.

Não faltam referências ao clima político e a fatos ocorridos nos primeiros anos após o 11 de Setembro; com isso, as sequências de ação foram deixadas para o final da segunda e terceira edições, explodindo no último número da minissérie. Aí sim as coisas ficam interessantes, com Colossus encarando o Homem de Ferro, Tempestade enfrentando o Thor, Wolverine versus Capitão América, etc. Infelizmente, já é tarde e as páginas da minissérie chegam ao fim, com um pouco mais de conversa.

Uma possível conclusão é que a abordagem que funcionou tão bem em The Ultimates e um estilo visual que serve às HQs de ação de Ultimate X-Men acabaram de certa forma se anulando em Ultimate War. Como resultado, a história avança na trajetória dos Ultimate X-Men, à qual esta minissérie pertence. Para os rumos dos Supremos, a história não interfere realmente, não fazendo falta aos fãs desses heróis, vistos em sua melhor forma nas revistas assinadas por Millar e Hitch.

21/06/2010

Mais X-Men por Warren Ellis (ou: quero meu dinheiro de volta!).


Com vários trabalhos importantes para grandes editoras como a Marvel e a DC Comics, o roteirista inglês Warren Ellis conquistou um lugar de destaque no mercado de quadrinhos norte-americano. Tendo uma predileção por tramas envolvendo ficção científica e uma capacidade de apresentar novas perspectivas para temas já bastante explorados, sua estreia nas páginas da revista Astonishing X-Men foi aguardada com grande expectativa pelos leitores. No entanto, os números 25 a 30 da prestigiada série mutante ficaram muito aquém do que se podia esperar, destacando-se mais pelas páginas ilustradas pelo italiano Simone Bianchi, do que pelo trabalho de seu renomado roteirista. Ellis conseguiu se redimir um pouco nas duas edições da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, mas ainda precisava mostrar a que veio (para quem quiser saber mais, uma análise dessas primeiras edições pode ser lida aqui).

Conceituado entre leitores e editores, o roteirista ganhou duas outras chances de mostrar algo menos decepcionante: o novo “arco” Astonishing X-Men: Exogenetic e a nova minissérie Xenogenesis. Terá então Warren Ellis alcançado um resultado mais condizente com seus trabalhos anteriores? Terá ele conseguido apagar a sensação do “vamos ganhar um dinheiro fácil”, deixada pelas edições anteriores? Na minha opinião, a resposta é um sonoro “Não!”. Astonishing X-Men n°31 começa com a agente Abigail Brand numa missão espacial para eliminar alienígenas da espécie conhecida como Ninhada (quem lia as revistas dos X-Men nos anos 80 está bem familiarizado com esses detestáveis aliens transmórficos). As coisas não saem muito bem e ela cai na Terra, tendo que ser resgatada por Ciclope & Cia. Quando tudo parece se acalmar, entra em cena outro vilão do passado: um gigantesco robô sentinela.

Este, porém, tem a peculiaridade de ser composto por partes biológicas e estar ligado à trama envolvendo os alienígenas da Ninhada. Aí entra em cena o clone de um terceiro vilão do passado: Krakoa, a Ilha Viva. Segundo revela Abigail, o que liga todas essas ameaças é um misterioso vilão com um extenso conhecimento sobre engenharia genética e o desejo de eliminar os mutantes (ou seja, nada muito diferente do que já vimos várias vezes). No geral, as HQs oscilam entre desinteressantes sequências de combate e diálogos pouco inspirados e repletos de sarcasmo. Mas o pior, sem dúvida, fica por conta dos desenhos de Phil Jimenez, cheios de borrões e outros (d)efeitos digitais, que resultam num visual que só pode ser descrito como “feio” (e se nas primeiras edições para a Astonishing X-Men Ellis pôde contar com o talento de Bianchi, agora nem as imagens compensam a compra das revistas).

Sofrendo atrasos e hiatos, esse novo "arco" teve apenas os três primeiros capítulos publicados até agora (na Astonishing X-Men n°31 a 33). Sua penúltima parte já foi anunciada para o final deste mês e sua conclusão para o final de julho (isso, é claro, se não houver novos adiamentos). E mesmo antes da conclusão de uma história que vinha sofrendo atrasos, a Marvel anunciou e está publicando a minissérie Astonishing X-Men: Xenogenesis. Nesta nova aventura, os X-Men viajam até a África, não para assistir aos jogos da Copa e sim para investigar um “surto” de nascimento de bebês superpoderosos. O enredo parecia promissor, contudo, (numa HQ que trata da fictícia raça dos mutantes e cita dois ou três países africanos fictícios) Ellis aproveitou a oportunidade para fazer um sermãozinho sobre quão corruptos e criminosos são os governantes africanos (sobrando críticas até mesmo para Nelson Mandela), e aí a história se perdeu.

Com isso, o que acaba chamando atenção em Xenogenesis n°1 são os desenhos caricaturizados do canadense Karee Andrews (que havia trabalhado com Ellis numa das HQs curtas da minissérie Ghost Boxes). Fugindo ao estilo mais convencional das revistas de super-heróis e cheio de figuras e poses esquisitas, o traço não deve agradar muito aos fãs dos quadrinhos mutantes tradicionais. Outro ponto é que Andrews tomou algumas liberdades na caracterização dos X-Men, fugindo ao que se tem visto nas revistas dos heróis atualmente. Predileções de lado, os desenhos são mesmo o ponto mais interessante da revista (que ainda traz ao final a reprodução do roteiro, acompanhada de miniaturas das páginas a lápis). De qualquer forma, não há muito a se elogiar nas fracas histórias de Ellis para os X-Men, cada vez menos interessantes e nada surpreendentes (podendo em breve ser conferidas nas edições da Panini).

30/04/2010

Quais as melhores atuações / caracterizações em filmes de super-heróis?


Já propus algumas listas opinativas aqui no Mais Quadrinhos e elas sempre rendem vários comentários de vocês que acompanham o blog, o que é sempre muito legal! Então, aproveitando a estreia no Brasil de Homem de Ferro 2, bolei uma nova pergunta para saber a opinião de vocês. Convido a todos então para postarem um comentário com sua lista das atuações e/ou caracterizações preferidas em filmes de super-heróis. Vocês podem, é claro, aproveitar para comentar a minha lista ou a de outros leitores, especialmente se não concordarem com algo, pois um pouquinho de discussão é sempre divertido. Minha lista é a seguinte:

1. Patrick Stewart (X-Men – O Filme e X-Men 2): tendo uma aparência ideal para o papel, nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes o ator inglês está perfeito como o Professor Charles Xavier. Para mim, sua atuação é a melhor versão do personagem, incluindo os quadrinhos.

2. Christopher Reeve (Superman – O Filme): se ficasse simplesmente parado, vestido na fantasia colorida do Super-Homem, o ator norte-americano já seria a melhor encarnação do personagem. Mas se sua caracterização do Homem de Aço é perfeita no clássico de 1978, sua atuação dupla como Kal-El e Clark Kent consegue a façanha de convencer que uma troca de roupa e uma mudança de postura seriam capazes de esconder a identidade secreta de um super-herói.

3. Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas): é quase unânime a opinião de que o ator australiano realizou a mais impressionante encarnação que o Coringa já teve, sendo o ponto alto do segundo filme do Homem Morcego dirigido por Christopher Nolan. Ele só não ocupa um lugar melhor em minha lista por ter mais reinventado do que propriamente encarnado o personagem dos quadrinhos.

4. Hugh Jackman (X-Men – O Filme e X-Men 2): embora não seja baixinho nem mal-encarado, o ator australiano ficou bem convincente como Wolverine nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes. E se sua carreira deve muito a esse papel, grande parte do carisma dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer se deve à sua presença.

5. Michelle Pfeiffer (Batman – O Retorno): eu já era fã desde O Feitiço de Áquila, e ao vê-la vestida naquela fantasia de Mulher-Gato... O segundo filme do Batman dirigido por Tim Burton é bem legal. Mas se não fosse, ele já valeria a pena pela vilã mais linda dos filmes de super-heróis e seu delicioso “miau”.

12/04/2010

Um novo “crossover” mutante da Marvel.


Até meados dos anos 70, talvez ninguém apostasse que os X-Men se tornariam um dos títulos mais populares da história dos quadrinhos. Afinal, apesar do começo promissor pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby, e de uma boa fase com Roy Thomas e Neal Adams, na primeira metade daquela década os heróis mutantes passaram pelo pior momento de sua trajetória. As vendas caíram e, em 1970, a revista The X-Men passou a reeditar antigas histórias.

A situação só começaria a mudar em 1975, quando o roteirista Len Wein e o desenhista Dave Cockrum lançaram uma nova versão do grupo de heróis, no especial Giant-Size X-Men #1. Introduzindo personagens como Tempestade, Noturno, Colossus e Wolverine, esses autores revitalizaram a série, abrindo espaço para o sucesso que viria em seguida, quando a revista passou a ser escrita por Chris Claremont. Dois anos depois, seria a vez de o desenhista John Byrne se juntar ao título, dando início a uma ascensão que levaria os X-Men à liderança no mercado norte-americano. O fato é que, na virada para os anos 80, os mutantes eram os personagens mais populares das HQs de super-heróis.

Surgiram então minisséries como Wolverine (que marcou o sucesso astronômico desse herói) e novas revistas como The New Mutants (com uma nova geração de heróis), X-Factor (com a primeira geração de pupilos do Professor X) e Excalibur (misturando ex-X-Men e heróis britânicos em aventuras interdimensionais). Nessa época, a Marvel passou a investir em crossovers e super-sagas que interligavam várias revistas, reunindo seus principais personagens contra uma ameaça comum. Os mutantes, é claro, não ficaram de fora dessa onda. Assim surgiram, a partir de 1985, histórias como Guerras Asgardianas, Massacre dos Mutantes, A Queda dos Mutantes e Inferno.

O sucesso dos primeiros crossovers mutantes garantiu a repetição da fórmula no início dos anos 90, com Dias de um Futuro Presente e Agenda da Extinção. Contudo, logo viria uma das piores fases desses personagens. Com a Marvel beirando a falência, o ritmo dos grandes encontros diminuiu, embora tenham sido publicados a super-saga Massacre e o crossover A Era do Apocalipse. O que se seguiu então foram estreias e retornos, mortes e ressurreições de personagens, muitos equívocos e manipulação editorial, que minaram a popularidade dos heróis. Seria necessário o sucesso de X-Men – O Filme para que os heróis mutantes retomassem sua relevância.

Tornando-se novamente um título (ou como se diz hoje: uma “franquia”) muito rentável, os X-Men voltaram a multiplicar-se em diferentes revistas mensais, especiais e crossovers. Essa retomada levou, entre 2005 e 2007, às histórias House of M, Decimation e Endangered Species, nas quais a raça mutante é colocada em risco de extinção. Reduzidos a poucas centenas, os mutantes lutam agora para sobreviver e se adaptar à nova realidade, como se vê em Messiah Complex, Divided We Stand, Manifest Destiny e outras histórias de nome pomposo, publicadas entre 2007 e 2009. E tudo isso culmina, segundo os editores, em X-Men: Second Coming, o crossover mutante de 2010.

A exemplo do que fez com Siege, a Marvel promoveu o lançamento de Second Coming com uma revista gratuita. Além de um prólogo em tom lúgubre, que sugere que um dos heróis morrerá logo no primeiro capítulo, a edição traz listas de coletâneas dos X-Men, páginas com esboços das ilustrações de capas, anúncios de edições, informações sobre a personagem Fênix e uma listagem das revistas e especiais que formarão o novo crossover mutante. O título da história, com sua ressonância apocalíptica que remete à “segunda vinda" de Cristo, refere-se ao retorno da mutante Hope, a primeira criança a nascer depois que o gene mutante foi “desligado” pela Feiticeira Escarlate.

Embora sua distribuição gratuita não deixe muita margem para reclamações, X-Men: Second Coming Prepare não deixa uma sensação de “quero mais”, e sim de que faltou algo, de que ela poderia ter instigado mais o interesse do leitor. Para os fãs dos "filhos do átomo", fica a promessa de mais um crossover que adicionará novos acontecimentos à complexa trama dos heróis mutantes da Marvel. Já para alguém que acompanhou várias outras histórias do gênero, fica a certeza de algumas edições inteiramente dispensáveis e bastante drama superficial que não acrescentará muito à história dos quadrinhos.

28/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2004).


O futuro é o que vemos nos capítulos finais de Grant Morrison para a New X-Men. Pelo menos uma versão do futuro dos heróis mutantes, imaginada pelo roteirista escocês. Here Comes Tomorrow (publicada nos n°s151-154) começa um tanto enigmática, com frases que sugerem um conflito e os lados nesse conflito, sem explicar exatamente quem é quem. Mas logo tudo fica mais claro e surge um interessante contexto que lembra a HQ “Dias de um futuro esquecido”, se refeita nos moldes da trilogia Matrix. Em meio a tudo, muitas caras novas, mas também alguns rostos conhecidos, apesar de terem se passado 150 anos.

O Fera (cujo nome em inglês também pode ser traduzido como “a besta”) é o grande vilão, à frente de um exército de Noturnos geneticamente alterados. Wolverine, Cassandra Nova e um velho Robô Sentinela são aliados, a humanidade foi quase extinta e o mundo beira o apocalipse final. Para completar, entra em cena a Fênix. E tudo isso num dos melhores trabalhos de Marc Silvestri, responsável pelos desenhos destes quatro capítulos finais. O resultado é uma narrativa empolgante e um visual impressionante que justificam o dinheiro gasto nas HQs e constituem uma boa história de despedida.

A fase de Morrison à frente da New X-Men pode ser definida por algumas características básicas: a busca constante por novas ideias e ângulos de abordagem, bem como por dar aos heróis mutantes caracterização e contextualização atuais. A isso se somam a criação de diversos personagens singulares (como Cassandra Nova, Xorn e Fantomex) e também o destaque dado a coadjuvantes incomuns (como Barnell e Angel). Os pontos altos ficam por conta das histórias E is for Extintion, Riot at Xavier’s e Here Comes Tomorrow, sem falar em tudo que foi desenhado pelo excelente Frank Quitely.

Contudo, há também grandes falhas, a começar pelos desenhos ruins em vários capítulos. A isso se somam alguns roteiros preguiçosos, nos quais a história se arrasta por mais páginas do que deveria, dando a impressão de que não havia muito para ser contado ali. E há ainda os maneirismos de Morrison, como um gosto por diálogos ácidos e o uso de truques emocionais um tanto baratos, como o extermínio de dezesseis milhões de mutantes (que ecoa o extermínio dos seis milhões de judeus pelos nazistas) e o cenário da Nova York devastada por Magneto (que parece querer amplificar os atentados de 11 de Setembro).

Com boas ideias e personagens originais, a longa fase de Morrison à frente dos heróis mutantes talvez tenha tido, na verdade, um único defeito principal: a de ter sido longa demais (afinal muitas páginas e capítulos são completamente dispensáveis). Apesar disso, New X-Men é uma série de super-heróis que vale ser lida. Ao lado dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer, essa série foi responsável por consagrar a abordagem mais madura que tem beneficiado os heróis mutantes na última década. Sem falar que sua repercussão lançou as bases para o sucesso da Astonishing X-Men de Joss Whedon e John Cassaday.

(Para saber mais sobre as HQs dos X-Men e os trabalhos de Grant Morrison, clique nos marcadores abaixo.)

21/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2003-2004).


New X-Men n°142 é outra HQ de super-heróis nada convencional oferecida por Grant Morrison. Afinal, toda a ação se passa no Clube do Inferno, com Ciclope e Wolverine em meio a dançarinas sensuais e tragos de uísque. Os desenhos se sobressaem em relação à ação, embora às vezes o que chame mais atenção sejam os espaços vazios nas páginas ou desenhos que ocupam páginas inteiras, ainda que narrativamente nenhum desses dois recursos se justifique. Críticas à parte, o trabalho de Chris Bachalo e Tim Townsend corresponde ao tratamento visual que se pode esperar de uma revista Marvel de sucesso.

A edição n°143 traz um gigantesco laboratório em forma de cúpula, que guarda estanhos experimentos científicos. Lá, Wolverine e Ciclope, na companhia de Fantomex, enfrentam violões científicos, na busca por segredos envolvendo o projeto Weapon Plus. Já no n°144, bastante conversa no início e uma boa briga no fim colocam o heróis mutantes frente a frente com o supostamente mortífero Weapon XV. Embora em um ou outro ponto os desenhos não sejam narrativamente claros (algo que se repetiu nessas edições de Bachalo e Towsend), as camadas de detalhes e o dinamismo das imagens são o ponto alto da HQ.

Fechando a sequência em quatro partes (e a coletânea Assault on Weapon Plus), o n°145 nos leva a uma estação orbital que, segundo Fantomex, guarda os segredos sobre o passado de Wolverine, enquanto Ciclope serve só de companhia. Mas, embora Wolverine pareça ter descoberto informações importantes sobre seu passado, ao final da HQ os leitores ficam sem descobrir nada acerca disso, ganhando apenas uma explosão que deixa a estação orbital em pedaços. Com isso, os n°s142-145 destacam-se mesmo pelo visual detalhado e por terem dado um pouco mais de destaque a Wolverine.

Na revista seguinte, tem início uma história dividida em cinco partes, intitulada Planet X (que se estende dos n°s146-150, mais tarde reunidos numa coletânea homônima). Ilustrada por Phil Jimenez e Andy Lanning, a história começa num ritmo acelerado, mostrando Ciclope e Fantomex fugindo da explosão na estação orbital. E quando o alarme de emergência e uma ameaça paralela irrompem na Mansão X, Jean Grey sai ao resgate de Wolverine, enquanto Fera e Emma vão à busca de Ciclope e Fantomex. Tudo, porém, faz parte de uma armadilha orquestrada por um “traidor” entre os X-Men.

O primeiro capítulo de Planet X pode ser considerado o inverso das HQs mais fracas escritas por Morrison para os heróis mutantes. Nestas, um roteiro inconsistente e um ritmo arrastado acabam salvos por um desfecho surpreendente. Mas o que acontece em New X-Men n°146 é o contrário, pois um roteiro interessante e dinâmico acaba atrapalhado pelo velho truque de revelar que um dos heróis, e suposto traidor, é na verdade um antigo vilão, dado como morto ou desaparecido. Pois é isso que acontece, quando o mutante Xorn tira seu capacete para revelar ser ninguém menos que Magneto...

E assim, numa só tacada, Morrison eliminou o personagem mais interessante que ele havia criado para a série, além de reforçar que não existe respeito pela morte nas HQs de super-heróis. O capítulo seguinte começa com o triunfo de Magneto sobre Nova York (numa hora dessas por onde andam o Quarteto Fantástico, os Vingadores, o Homem-Aranha...?) e as mal-disfarçadas explicações de como e por que Xorn era Magneto numa máscara (quando um autor precisa justificar demais algo que fez, é porque fez algo de errado!). No mais, New X-Men n°147 não passa de alguns bons desenhos e muita conversa fiada.

A revista seguinte continua a historinha de Magneto, o terrorista soberano de Nova York, mas dá maior destaque à situação no espaço, envolvendo Wolverine e Jean Grey (cujo desfecho é, em certa medida, copiado no filme X-Men: O Confronto Final). Já a n°149 começa com diálogos fraquíssimos, prosseguindo com um enredo que se arrasta pelas páginas. Então, no capítulo final de Planet X, com a intervenção da Fênix e o sacrifício de uma personagem, tudo é simplesmente resolvido (repetindo um defeito de alguns roteiros de Morrison, onde o que parece uma grande ameaça acaba eliminado sem grande esforço).

(CONTINUA)

14/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2002-2003).


Após um começo bombástico em New X-Men n°s114-116, os roteiros do escocês Grant Morrison perderam um pouco da força e do foco nas edições que se seguiram. Além disso, desenhos de baixa qualidade em vários números prejudicaram a série, embora algumas ideias inventivas e situações interessantes tenham mantido as revistas acima da média dos quadrinhos de super-heróis. (Para mais detalhes sobre o primeiro ano de Morrison à frente dos heróis mutantes da Marvel, clique aqui.)

Em vários sentidos, o início do segundo ano da New X-Men repete os erros e os acertos de antes: os desenhos variam muito de estilo e qualidade, os roteiros trazem boas ideias, mas revelam-se inconsistentes no fim. A primeira dessas edições, New X-Men n°127, traz uma história focada no herói Xorn, sendo uma espécie de fábula moral sobre preconceito e suas consequências para o desenvolvimento da raça humana. Com desenhos de John Paul Leon e arte-final de Bill Sienkiewicz, estilisticamente a HQ é um tanto incomum para uma revista de super-heróis, embora tenha um desfecho bem previsível.

Já nos n°s129-130, os desenhos ficam por conta de Igor Kordey que, mesmo não sendo um desenhista ruim, não era o mais indicado para essa série da Marvel. Ao mesmo tempo, nessa sequência de histórias, Morrison parece ter tido como único propósito apresentar um novo personagem que havia imaginado: o mutante Fantomex (uma versão Matrix de Fantômas, anti-herói francês do início do século 20). O fato é que, salvo uma boa “sacada” em relação ao codinome Arma-X (onde o “xis” é relido enquanto o algarismo romano para o número dez), a HQ não interfere muito na vida dos heróis.

New X-Men n°131, ilustrada por Leon e Sienkiewicz, começa com um funeral em Paris e continua no caso amoroso psíquico-imaginário de Ciclope e Emma Frost. Já a edição seguinte, desenhada por Phil Jimenez e Andy Lanning, leva os leitores de volta a Genosha, ilha-país na qual dezesseis milhões de mutantes foram exterminados. Para a próxima revista, temos uma nova dupla de desenhistas, Ethan Van Sciver e Norm Rapmund, uma nova locação nas areias do Afeganistão e uma nova mutante chamada Dust (Poeira), com direito à primeira participação efetiva de Wolverine nesse segundo ano de Morrison.

Somando até ali sete edições (que seriam reunidas na coletânea New Worlds), o segundo ano de Morrison na série não tinha ido muito além de introduzir novos personagens conceituais, em meio a algumas boas “sacadas”. Felizmente, as coisas melhoram bastante a partir de New X-Men n°134, edição ilustrada por Keron Grant e Norm Rapmund. Com ela, tem início uma sequência de cinco HQs nas quais, pela primeira vez em várias edições, o roteirista parece não atirar para os lados, apresentando uma história mais coerente e interessante (que seria reunida na coletânea Riot at Xavier’s).

Mostrando um motim de jovens alunos da escola do Professor Xavier, as revistas abordam ao mesmo tempo os temas do preconceito contra as minorias e do perigo trazido pelas drogas. Trabalhando bem os personagens secundários, o roteiro deixa os X-Men tradicionais na periferia da ação, embora seu desfecho traga uma cena, envolvendo Scott, Emma e Jean Grey, que tem desdobramentos até as edições atuais dos heróis mutantes. E se o roteiro não decepciona, os desenhos do sempre ótimo Frank Quitely fazem de New X-Men n°s135-138 edições que valem a pena serem lidas e vistas.

A edição n°139 começa do ponto em que Morrison havia encerrado a revista anterior, com Jean Grey descobrindo o caso psíquico entre seu marido e Emma. O restante da edição, ilustrada por Jimenez e Lanning, mostra uma inquisição psíquica em que a Jean-Fênix atormenta uma indefesa Emma. Nada tão drástico, porém, quanto o aparente assassinato da ex-vilã ao final da revista, o que dispara a investigação que será o tema da edição seguinte. E com desenhos nada impressionantes e uma trama bem morninha, a revista n°140 só se salva por uma interessante revelação na última página.

Quanto ao n°141, além de solucionar parte do aparente assassinato, a revista serve apenas para reforçar que a morte é uma condição bastante contornável nas HQs de super-heróis. No saldo geral, essas três edições da série dão a sensação de um roteiro que se arrasta por mais tempo do que deveria e de desenhos bem abaixo do potencial de uma editora como a Marvel. Algo bem diferente é o que vemos nas quatro edições seguintes, intituladas Assault on Weapon Plus (nome também dado à coletânea das revistas New X-Men n°s139-145), ilustradas pelos competentes Chris Bachalo e Tim Townsend.

(CONTINUA)

08/07/2009

O primeiro “arco” dos X-Men de Warren Ellis (e Simone Bianchi).


Recentemente, a Panini começou a publicar a fase da Astonishing X-Men escrita pelo inglês Warren Ellis e ilustrada pelo italiano Simone Bianchi. Por coincidência, também acaba de ser lançado nos Estados Unidos o último capítulo do primeiro “arco” escrito por Ellis, que é também a última edição ilustrada por Bianchi. Aproveito então a oportunidade para fazer a análise das seis edições produzidas pela dupla e ainda dos dois números da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, também escrita por Ellis e desenhada por diferentes ilustradores, com capas ilustradas por Bianchi.

Devido ao sucesso dos filmes e a algumas boas HQs produzidas por autores como os escoceses Grant Morrison e Frank Quitely, na última década os X-Men voltaram ao primeiro plano dos quadrinhos. Com o lançamento em 2004 da série Astonishing X-Men, criada pelos norte-americanos Joss Whedon e John Cassaday, a Marvel consolidou um modelo editorial que soma qualidade autoral e bons resultados comerciais. Mas, como estava pré-determinado, após vinte e quatro edições e um especial elogiados pelo público e pela crítica, os autores deixaram a revista em 2008, abrindo caminho para o inglês Warren Ellis e o italiano Simone Bianchi. Contudo, famosos por trabalhos mais autorais, os atuais responsáveis pela Astonishing X-Men talvez não consigam agradar tão unanimemente quanto seus antecessores.

Estreando na Astonishing X-Men n°25, Ellis e Bianchi trabalharam no mesmo modelo editorial que a Marvel adotou para a primeira fase da revista. A fórmula é contratar autores renomados para produzirem uma série limitada que dará origem a coletâneas com seis capítulos cada, que depois ganharão reedições ampliadas com doze capítulos, sendo que provavelmente mais tarde tudo será reunido num único calhamaço com centenas de páginas (a omnibus edition). Mas, desta vez, a fórmula pode não funcionar tão bem, já que a Marvel reuniu numa mesma série comercial dois autores com trabalhos marcantemente pessoais. Isso é o que vemos nas primeiras páginas produzidas pela dupla, que não repetem o caráter mais clássico da fase anterior, baseando-se em temas recorrentes e num estilo pessoal inconfundível.

Na primeira página de Astonishing X-Men n°25, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. O que vemos a seguir, no entanto, não é nada tão dramático: Wolverine dormindo numa árvore, Fera cantarolando, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos, a chegada de Tempestade... Sucedem-se então questões acerca da qualidade do café, diálogos cheios de implicâncias e cinismo, explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo...

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato envolvendo mutantes. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações pseudo-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para a série anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. E é exatamente isso (e um pouco mais de ação) o que vemos em Astonishing X-Men n°26, quando acompanhamos os X-Men numa viagem a um “cemitério de espaçonaves”, onde o mutante assassino se encontra. É introduzido aí o elemento que dá título a esses capítulos: “Ghost Box”, um poderoso aparato de origem extradimensional (sim, novamente Ellis apresenta uma trama envolvendo viagens e conflitos num “multiverso”).

Em Astonishing X-Men n°27, os heróis mutantes estão de volta à base em São Francisco, onde temos mais diálogos ácidos e explicações “científicas”. Mas como os X-Men de Ellis não “esquentam cadeira”, logo partimos numa viagem até uma misteriosa região da China. Em Astonishing X-Men n°28, exploramos a cidade celestial dos mutantes chineses, onde são dadas algumas explicações sobre genética extradimensional. Para agradar aos leitores, o roteirista concede aos X-Men alguma ação contra monstros mutantes, adicionando uma peça ao mistério: o nome de um ex-x-man que andava fora de circulação há algum tempo. Surpreendentemente, isso é quase tudo que vemos nos quatro capítulos iniciais de “Ghost Box”. Assim, no conjunto, as primeiras histórias de Ellis para os X-Men deixam a sensação de muita conversa para pouca história.

Se temáticas e idéias emprestadas de outros trabalhos dão base a “Ghost Box”, o elemento marcante das HQs são as páginas criadas pelo desenhista Simone Bianchi, em parceria com outros artistas italianos. No traço de Bianchi, todos os personagens ganharam novas feições e caracterizações incrivelmente detalhadas (embora nem sempre agradáveis). Refletindo-se nas composições de página e divisões de quadros, o visual privilegia sobreposições e diagonais, elementos decorativos e uma narrativa oblíqua. Áreas em branco e recortes, sombras em aguada e cores mais apagadas dão um tom frio às páginas, combinando com o tema da história. Com tudo isso, as imagens criadas por Bianchi & Cia. são visualmente impressionantes, mas destoam um pouco do dinamismo que se costuma esperar de uma revista dos X-Men.

Com um estilo tão elaborado e trabalhoso, Bianchi e seus colaboradores não conseguiram acompanhar a periodicidade mensal da série (mais uma prova de que padrões editoriais e qualidade artística nem sempre combinam). Para compensar, a Marvel lançou a minissérie em duas edições Astonishing X-Men: Ghost Boxes, escrita por Ellis e ilustrada por diferentes desenhistas, tendo apenas capas ilustradas por Bianchi (o que se fez para manter uma unidade visual com a série principal). Com duas histórias de oito páginas em cada edição (além do texto original dos roteiros e de reproduções das páginas a lápis), a minissérie mostra acontecimentos em quatro Terras diferentes, envolvendo tramas e invasões extradimensionais (um tema excessivamente recorrente nos trabalhos de Ellis, bastando citarmos Authority e Planetary).

Na primeira das quatro histórias, vemos o trabalho dos veteranos Alan Davis e Mark Farmer, numa HQ centrada no mutante assassino que apareceu em Astonishing X-Men n°26. As três narrativas seguintes têm artistas menos conhecidos e são narradas na perspectiva de três diferentes X-Men (Emma Frost, Ciclope e Armadura). A primeira história curta de Ghost Boxes, com sua temática dos universos paralelos, tem um gostinho da Captain Britain que Davis produziu para a Marvel Britânica nos anos 80. Já as HQs seguintes, ilustradas por Adi Granov, Clayton Crain e Kaare Andrews, têm um visual mais sombrio e um tom pós-apocalíptico. No geral, sem diálogos cínicos e tendo roteiros mais concisos, o trabalho de Ellis nas duas edições da minissérie é até mais interessante do que o visto nos capítulos da série regular.

Astonishing X-Men n°29 começa ainda na cidade celestial chinesa, onde os X-Men continuam buscando informações sobre a invasão extradimensional. Com imagens amplas e poucos quadros por página, duas páginas de um só quadro e uma outra página dupla, mais uma vez o destaque são as imagens produzidas por Bianchi e seus colaboradores. Quanto ao roteiro de Ellis, novamente sobra conversa e falta história. Em Astonishing X-Men n°30 as coisas não mudam muito: o roteiro deixa a desejar e as imagens são espetaculares (ainda melhores, aliás, que nas edições anteriores). Com direito a uma página-pôster na despedida de Bianchi do título, esta edição final fecha deixando a sensação de que Ellis ainda precisa mostrar a que veio (o que ele poderá fazer na continuação da série, em parceria com Phil Jimenez).

A edição final da parceria Ellis & Bianchi mal esfriou e a Marvel já anunciou para meados de agosto o lançamento da coletânea em capa-dura Astonishing X-Men: Ghost Box. Já para quem quiser conferir em português, a atual fase dos heróis mutantes é publicada no Brasil nas páginas de X-Men Extra da Panini. E para saber mais sobre os heróis mutantes da Marvel e outros temas tratados nesta postagem, clique nos marcadores abaixo.

10/05/2009

Os X-Men de Warren Ellis e Simone Bianchi.


Devido ao sucesso dos filmes e a algumas boas HQs produzidas por autores como os escoceses Grant Morrison e Frank Quitely, na última década os X-Men voltaram ao primeiro plano dos quadrinhos. Com o lançamento em 2004 da série Astonishing X-Men, criada pelos norte-americanos Joss Whedon e John Cassaday, a Marvel consolidou um modelo editorial que soma qualidade autoral e bons resultados comerciais. Como estava pré-determinado, após vinte e quatro edições e um especial elogiados pelo público e pela crítica, os autores deixaram a revista em 2008, abrindo caminho para o inglês Warren Ellis e o italiano Simone Bianchi. Contudo, famosos por trabalhos bastante peculiares, os novos responsáveis pela Astonishing X-Men talvez não consigam agradar tão unanimemente quanto seus antecessores.

Estreando na Astonishing X-Men n°25, Ellis e Bianchi deverão trabalhar no mesmo modelo editorial que a Marvel adotou para a primeira fase da revista. A fórmula é contratar autores renomados para produzirem uma série limitada que dará origem a coletâneas em capa cartonada com seis capítulos cada, que depois ganharão reedições em capa-dura com doze capítulos, sendo que mais tarde tudo será reunido num único calhamaço com centenas de páginas (a omnibus edition). Mas, desta vez, a fórmula pode não funcionar tão bem, já que a Marvel reuniu numa mesma série comercial dois autores com trabalhos marcantemente pessoais. Isso é o que vemos nas primeiras páginas produzidas pela dupla, que não repetem o caráter mais clássico da fase anterior, baseando-se em temas recorrentes e num estilo pessoal inconfundível.

Na primeira página de Astonishing X-Men n°25, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. O que vemos a seguir, no entanto, não é nada tão dramático: Wolverine dormindo numa árvore, Fera cantarolando, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos, a chegada de Tempestade... Sucedem-se então questões acerca da qualidade do café, diálogos cheios de implicâncias e cinismo, explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo...

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato envolvendo mutantes. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações para-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para a série anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. E é exatamente isso (e um pouco mais de ação) o que vemos em Astonishing X-Men n°26, quando acompanhamos os X-Men numa viagem a um “cemitério de espaçonaves”, onde o mutante assassino se encontra. É introduzido aí o elemento que dá título a esses capítulos: “Ghost Box”, um poderoso aparato de origem extradimensional (sim, novamente Ellis apresentará uma trama envolvendo viagens e conflitos no “multiverso”).

Em Astonishing X-Men n°27, os heróis mutantes estão de volta à base em São Francisco, onde temos mais diálogos ácidos e explicações para-científicas. Mas como os X-Men de Ellis não “esquentam cadeira”, logo partimos numa viagem até uma misteriosa região da China. Em Astonishing X-Men n°28, exploramos a cidade celestial dos mutantes chineses, onde são dadas algumas explicações sobre genética extradimensional. Para agradar aos leitores, o roteirista concede aos X-Men alguma ação contra mutantes locais, adicionando uma peça ao mistério: o nome de um ex-x-man que andava fora de circulação há algum tempo. Surpreendentemente, isso é quase tudo que vemos nos quatro capítulos iniciais de “Ghost Box”. Assim, no conjunto, as primeiras histórias de Ellis para os X-Men deixam a sensação de muita conversa para pouca história.

Se temáticas e idéias emprestadas de outros trabalhos dão base a “Ghost Box”, o elemento marcante das HQs são as páginas criadas pelo desenhista Simone Bianchi, em parceria com outros artistas italianos. No traço de Bianchi, todos os personagens ganharam novas feições e caracterizações incrivelmente detalhadas (embora nem sempre agradáveis). Refletindo-se nas composições de página e divisões de quadros, o visual privilegia sobreposições e diagonais, elementos decorativos e uma narrativa oblíqua. Áreas em branco e recortes, sombras em aguada e cores mais apagadas dão um tom frio às páginas, combinando com o tema da história. Com tudo isso, as imagens criadas por Bianchi & Cia. são visualmente impressionantes, mas um tanto estáticas, destoando do dinamismo que se espera de uma revista dos X-Men.

Com um estilo tão elaborado e trabalhoso, parece que Bianchi e seus colaboradores não conseguiram acompanhar a periodicidade mensal da série. Para compensar, a Marvel lançou a minissérie em duas edições Astonishing X-Men: Ghost Boxes, escrita por Ellis e ilustrada por diferentes desenhistas (trazendo apenas capas de Bianchi). Com duas histórias de oito páginas em cada edição, além dos roteiros originais e de reproduções das páginas a lápis, a minissérie mostra acontecimentos em quatro Terras diferentes. Na primeira história, vemos o trabalho dos veteranos Alan Davis e Mark Farmer, numa HQ centrada no mutante assassino que apareceu em Astonishing X-Men n°26. As três histórias seguintes têm artistas menos conhecidos e são narradas na perspectiva de três diferentes X-Men (Emma, Ciclope e Armadura).

A primeira história curta de Ghost Boxes, com sua temática dos universos paralelos, tem um gostinho da Captain Britain que Davis produziu para a Marvel nos anos 80. Já as HQs seguintes, ilustradas por Adi Granov, Clayton Crain e Kaare Andrews, têm um visual mais sombrio e um tom pós-apocalíptico. No geral, sem diálogos cínicos e tendo roteiros mais concisos, o trabalho de Ellis nas duas edições da minissérie é até mais interessante do que na série regular (mas vale, é claro, aguardar a conclusão de seu primeiro conjunto de seis histórias para chegarmos a um veredicto definitivo). O quinto capítulo de “Ghost Box” já foi lançado nos Estados Unidos em Astonishing X-Men n°29, estando o capítulo final programado para junho. Esta nova fase dos heróis mutantes deverá chegar ao Brasil em breve nas páginas de X-Men Extra da Panini.

08/05/2009

Os Novos X-Men de Grant Morrison em coletâneas da Panini.


Iniciada em meados de 2001, a fase de Grant Morrison à frente dos X-Men chegou trazendo mudanças, a começar pelo título da revista, que passou a se chamar New X-Men (ganhando um inteligente trabalho de formatação do logotipo). São evidentes algumas influências de X-Men – O Filme, como o destaque dado à função escola da Mansão X, e sobretudo o uniforme de couro preto adotado pelos heróis mutantes. Lançadas no Brasil em edições mensais da Panini, as histórias de Novos X-Men já ganharam por aqui duas coletâneas: E de Extinção e Imperial, que reúnem o primeiro ano de Morrison como roteirista dos heróis mutantes (embora tragam as mesmas edições, a organização das coleções da Panini diferem das da Marvel, que serviram de base para este texto).

Logo nas primeiras páginas, o roteirista escocês apresenta a temática central de seu primeiro ano à frente dos X-Men: uma possível extinção dos humanos causada pelos mutantes. Tudo é apresentado numa interessante correlação com a provável extinção do homem de neanderthal pelos homo sapiens. E isto ao mesmo tempo em que Morrison introduz uma nova vilã: Cassandra Nova, um ser poderoso cujo passado guarda uma intrigante ligação com o Professor X. Em seguida, temos alguns diálogos espirituosos entre os personagens principais, reflexões de Fera sobre sua nova forma física, referências a problemas conjugais entre Jean Grey e Ciclope, alguma ação contra robôs sentinelas e o genocídio de dezesseis milhões de mutantes.

As três primeiras HQs de Morrison com os X-Men terminam numa luta mortal, com a entrada de Emma Frost para o grupo de super-heróis e a promessa de uma nova era para o Professor X e seus pupilos. O capítulo seguinte (desenhado na horizontal e lançado originalmente em New X-Men Annual 2001) nos leva à China (país que parece ser uma fixação para os roteiristas britânicos), onde conhecemos o mutante Xorn, cujo cérebro é uma pequena estrela. Nas HQs que se seguem, conhecemos mais personagens coadjuvantes, como Barnell, Angel e John Sublime, numa história envolvendo experiências e contrabando de órgãos mutantes. O fato mais relevante, porém, é o ressurgimento de Cassandra Nova, através de uma possessão psíquica.

No restante do primeiro ano de Morrison com os X-Men, entra em cena o Império Shi’ar e Jean Grey assume aspectos da Fênix, enquanto somos levados em viagens espaciais e jornadas psíquicas. Mas, com sua abordagem cerebral e suas situações “realísticas”, não é de se espantar que a fase de Morrison não tenha agradado a muitos fãs. No conjunto, apesar de algumas idéias interessantes, E de Extinção e Imperial deixam a sensação de promessa não-cumprida. Emma Frost ganha um novo poder, Fera revela uma nova orientação sexual, temos um cérebro numa bolha de vidro e outras coisas que se espera de um roteiro de Morrison. Mas falta consistência nas histórias, faltam explicações para alguns acontecimentos e tudo se resolve fácil demais no fim.

Outro problema está no visual das HQs. Tudo começa muito bem com três edições desenhadas por Frank Quitely. Há uma história na horizontal desenhada Leinil Francis Yu, que até não é ruim. As coisas, no entanto, pioram muito depois, com desenhos de um Ethan Van Sciver ainda cru e edições ilustradas por um certo Igor Kordey que jamais deveria ter sido escalado para desenhar uma revista de super-heróis. O que salva é o retorno de Frank Quitely para mais três boas edições (incluindo a da viagem psíquica, claramente inspirada por artistas como Escher e Moebius). No geral, Novos X-Men merece uma lida (ou pelo menos seus três primeiros capítulos merecem). Mas é melhor não esperar o brilhantismo de outros trabalhos de Morrison, nem uma qualidade constante nos desenhos.

(As coletâneas E de Extinção e Imperial ainda estão disponíveis em lojas especializadas. E para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos de Morrison ou dos X-Men, basta clicar nos nomes em destaque abaixo.)

06/05/2009

O pior dos X-Men e do Wolverine no cinema.


Aguardado com grande expectativa, X-Men – O Filme tornou-se um sucesso de bilheteria que deu origem à atual onda de produções hollywoodianas com personagens dos quadrinhos. Lançada três anos depois, a continuação X-Men 2 trouxe uma evolução do gênero, tornando-se provavelmente a melhor produção cinematográfica já feita com os heróis Marvel. Com sucesso de público e recursos milionários garantidos, a terceira parte da “trilogia” dos heróis mutantes tinha tudo para ser um fechamento com “chave de ouro”. Contudo, X-Men: O Confronto Final foi uma verdadeira decepção. E como Hollywood não “larga o osso” facilmente, chegou aos cinemas no último dia 30 de abril X-Men Origens: Wolverine, uma coisa tão ruinzinha que nem merece ser chamada de “filme”, mas sim de mero caça-níqueis hollywoodiano (e me fez até alterar novamente minha postagem com a lista das "Piores adaptações cinematográficas do século")!

Lançado em maio de 2006, X-Men: O Confronto Final, ou simplesmente X-Men 3, pôde contar com o mesmo elenco das produções anteriores, mas tinha um desfalque significativo. Não tendo chegado a um acordo com a 20th Century Fox, Bryan Singer assinou um contrato com a Warner Bros. para dirigir o que seria o fiasco chamado Superman Returns (mas essa é outra história...). O que importa é que, sem a mesma concepção e direção dos dois primeiros filmes, a terceira parte da trilogia seria de longe a pior. Há até uma boa sequência “exterminador do futuro” que se passa na Sala do Perigo e uma versão bacana do Fera e da Kitty Pryde, além de terem finalmente acertado no visual da Tempestade. Mas, em termos gerais, o que há de bom pára por aí. Dirigido por Brett Ratner, o longa traz uma história fraca e meio sentimentalóide, sem mostrar nada da elegância e originalidade dos dois primeiros filmes.

Em muitos sentidos, X-Men 3 é o inverso de X-Men – O Filme. Neste, há um fantasioso aparelho capaz de transformar humanos em mutantes; no outro, há uma fantasiosa droga capaz de transformar mutantes em humanos. Enquanto O Filme introduz personagens e cria laços pessoais, O Confronto Final atola em melodramas mutantes, lançando na tela hordas de figuras irrelevantes e estereotipadas. Professor-X e Magneto voltam a se confrontar na terceira parte da trilogia, mas não temos nada do equilíbrio e da força das atuações vistas na primeira parte (até o visual de Wolverine, perfeito no início da trilogia, eles conseguiram atrapalhar com uma perucona esquisita). Enfim, os recursos restritos e efeitos falhos da primeira parte não se repetem na terceira, que nem por isso consegue ser um filme melhor. X-Men 3, enfim, não passa de uma mistura fraquinha de ação, drama e efeitos visuais. Mas o pior ainda estava por vir!

Embora eu me considere uma pessoa até articulada, faltam-me palavras para descrever quão ruim é X-Men Origens: Wolverine. Enquanto roteirista, também fico abismado com o fato de alguém ter recebido muito dinheiro para escrever algo tão fraquinho e cheio de furos. Além disso, em suas quase duas horas, não há sequer um diálogo ou situação que não seja o mais completo lugar-comum (com direito a cenas tiradas de Akira, Superman – O Filme e até da abertura de Os Simpsons). A base para a história foi a dispensável minissérie Origem e o diretor (cujo nome nem perderei tempo procurando) parece só não ter assistido ou lido as coisas certas para fazer um bom filme sobre Wolverine (que seriam no caso X-Men 2 e a HQ Arma-X). Nesse filmeco de ação militarista e situações de mau-gosto, até os efeitos especiais são falhos (na sequência de luta final, Wolverine, Victor e Arma XI parecem bonequinhos de video game).

Em resumo, é lastimável o fato de Bryan Singer ter deixado incompleto seu trabalho na trilogia dos heróis mutantes (pois ele poderia ter avançado em relação ao que havia conseguido com X-Men 2, criando algo realmente memorável para os fãs de quadrinhos). Ainda assim, X-Men: O Confronto Final tem bons efeitos e é um filme assistível. Já X-Men Origens: Wolverine é um caso bem diferente, tratando-se de um lixo cinematográfico que não vale o trabalho de sair de casa e muito menos o preço do ingresso (ainda bem que, para escrever este texto, gastei apenas R$6,00, aproveitando a promoção de terça-feira!). Só resta torcer para que este tenha sido o último filme dos X-Men e do Wolverine, pelo menos pela próxima década (mesmo porque, apesar dos músculos que arrancam suspiros das mocinhas, Hugh Jackman está ficando meio velhinho para interpretar o Wolverine).

04/05/2009

O melhor dos X-Men no cinema.


Lançados em 1963 pela Marvel Comics, os X-Men tornariam-se nas décadas seguintes o grupo de super-heróis mais popular e rentável dos quadrinhos. Tanto que, além de dar origem a toda uma linha de revistas de heróis mutantes nos anos 80, os X-Men ganharam uma série de animação nos anos 90 (cujas principais consequências foram tornar Wolverine um personagem amplamente conhecido e ensinar aos leitores brasileiros a correta pronúncia do nome do grupo, uma vez que até então nós falávamos “xis-mem”). Com a crescente popularidade entre os leitores de quadrinhos e o público da série de animação, a idéia de um filme para o cinema seria algo quase natural. Assim, após alguns anos de produção e meses de muita expectativa por parte dos fãs, em julho de 2000 estreou X-Men – O Filme, sucesso de bilheteria que inaugurou a atual onda de adaptações de HQs para o cinema.

Dirigido por Bryan Singer, X-Men – O Filme seguiu alguns dos elementos de Superman – O Filme, a melhor adaptação cinematográfica de super-heróis já feita (não é mera coincidência que o diretor do longa de 1978, Richard Donner, seja um dos produtores executivos da produção de 2000). Como o filme que lhe serviu de exemplo, o longa dos X-Men pôde contar com um diretor que entendia o projeto, atores consagrados que lhe davam lastro e protagonistas relativamente desconhecidos que se adequavam bem a seus papéis. Embora Tempestade e Ciclope pareçam meros elementos decorativos, por sua vez Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Sir Ian McKellen), Wolverine (Hugh Jackman) e Vampira (Anna Paquin) não deixam a desejar. E se Jean Grey e Homem-de-Gelo parecem deslocados, Mística e Dente-de-Sabre são ótimas surpresas, superando em muito suas versões quadrinísticas.

Ao lado de boas atuações e caracterizações, a maior qualidade de X-Men – O Filme é o respeito pelos quadrinhos, em sua tentativa de uma abordagem realista do tema (tratado na verdade como uma história de ficção científica). Há é claro algumas alterações (como as roupas de couro preto que causaram controvérsia entre os fãs), algumas liberdades (como a relação afetiva entre Wolverine e Vampira, que nas HQs acontecia entre Logan e Kitty Pryde) e alguns excessos (como o aparelho que funciona à base de eletromagnetismo, emitindo uma radiação que origina poderes mutantes). Além disso, os mesmos efeitos visuais de ponta que permitiram a existência de um filme com muitos vôos, rajadas óticas e garras retráteis, mostram suas limitações em vários momentos, comprometendo a verossimilhança das cenas. Há também problemas com as sequências de luta demasiadamente coreográficas.

Contando com a consultoria de Stan Lee, o roteiro de X-Men – O Filme tem falhas, mas é eficiente em apresentar a temática da perseguição e do preconceito sofridos pelos mutantes. E se nos quadrinhos a identificação dos mutantes com minorias raciais, sexuais ou religiosas é um traço importante, num filme voltado a um público mais amplo esse fato é ressaltado. Logo, não é por menos que a primeira cena se passa num campo de extermínio nazista, ou que o ator Ian McKellen tenha sido convencido por Bryan Singer de que uma história com super-heróis podia servir de metáfora para o preconceito contra os homossexuais. Mensagens à parte, o filme tem alguns ótimos momentos, como as três cenas em que Professor Xavier e Magneto se contrapõem (no senado, em frente à estação de trem e na cela de plástico) ou as três sequências principais com Wolverine e Vampira (na estrada, na Mansão-X e no vagão de trem).

Disponíveis na versão para DVD X-Men 1.5, as cenas cortadas mostram que a história era ainda mais centrada em Vampira. Contudo, na versão para os cinemas, parece ter se buscado um equilíbrio entre os personagens (que acabou não sendo alcançado). A Tempestade Halle Berry, por exemplo, não tinha muito o que fazer com poucas cenas relevantes e uma ridícula peruca branca. Por sua vez, os intérpretes de Ciclope (James Marsden) e Jean Grey (Famke Hanssen) deixam claro, nos extras do DVD, que não tinham conhecimento ou muito respeito pelos quadrinhos que inspiraram seu trabalho. Já o Wolverine Hugh Jackman é um caso completamente diferente, pois (embora não conhecesse de antemão seu personagem) o ator mostrou empolgação desde o início, sendo perfeito no papel que mudaria sua carreira. Para completar, há o duelo entre Patrick Stewart e Ian McKellen, que acrescenta qualidade ao filme.

Ao ser exibido em 2000, X-Men – O Filme deixou uma sensação de algo que ficou pela metade, de uma adaptação que não é ruim, mas que poderia ter sido muito melhor. Felizmente, o sucesso de bilheteria garantiu uma continuação, que se tornaria a melhor versão dos heróis da Marvel já feita para o cinema. Lançado em maio de 2003, também dirigido por Bryan Singer e contando com o mesmo elenco de base, X-Men 2 tem todas as virtudes do primeiro filme, corrigindo seus principais erros. Uma produção bem mais madura, essa continuação traz um roteiro muito melhor, efeitos especiais e visuais impecáveis, cenários e figurinos ainda mais convincentes e até mesmo uma música-tema mais empolgante. Começando por sua primeira cena, o filme provou que tinha vindo para agradar: numa sequência fantástica, Noturno invade a Casa Branca, dá uma surra nos seguranças e quase mata o presidente.

A seguir, novos vilões são introduzidos e temos um ataque à Mansão-X, com direito a garras retalhadoras e novos poderes mutantes. O público também descobre um pouco mais sobre o nebuloso passado de Wolverine (nos moldes da HQ Arma-X de Barry Windsor-Smith). Halle Berry (depois de um Globo de Ouro e um Oscar) ganhou mais importância e um cabelo menos falso (e o que parece estranho é o cabelo de Wolverine nas cenas que Hugh Jackman teve que filmar quando já protagonizava o filme Van Helsing). Como até Ciclope e Jean Grey estão mais convincentes, todos os X-Men principais têm o devido espaço na continuação, não faltando ainda momentos relevantes para Homem-de-Gelo, Pyro, Vampira ou até Colossus. Isso sem falar na vilã Mística, que volta para exibir suas perícias acrobáticas e marciais nos belos contornos da modelo e atriz Rebecca Romjin-Stamos. Professor-X e Magneto retornam perfeitos.

X-Men 2 é indiscutivelmente um filme superior ao primeiro, tendo até o efeito de “melhorar” X-Men – O Filme (eu, por exemplo, tenho hoje uma opinião bem mais favorável do que a que tive ao sair do cinema em 2000). Além disso, as produções cinematográficas influenciaram os quadrinhos dos heróis mutantes na época, estabelecendo uma identidade com o que Grant Morrison fazia em New X-Men e servindo de base para o trabalho de Mark Millar em Ultimate X-Men. Com o sucesso de público das duas primeiras produções cinematográficas, era grande a expectativa por um terceiro filme, no qual Bryan Singer & Cia. pudessem completar sua “saga”. Em entrevistas, diretor e produtores chegaram a falar de suas idéias para a terceira parte da trilogia. Mas então um “S” e muitos dólares entraram no caminho, e Bryan Singer trocou os “filhos do átomo” pelo “filho de Krypton”. E sem o competente diretor, X-Men 3 acabou sendo algo lastimável!