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12/12/2007

Há 110 anos...


Planejada para ser um monumento aos novos tempos que se anunciavam no fim do século 19, Belo Horizonte é hoje uma grande cidade e, como tal, guarda suas contradições. Há exatos dez anos, no dia do Centenário de BH, publiquei um texto (agora atualizado e adaptado para este espaço), no qual relaciono o aniversário da cidade a duas obras em quadrinhos: a série Os Sobrinhos do Capitão e o álbum O Homem de Canudos. Espero que gostem, e parabéns a Belo Horizonte, pelos 110 anos!

Os Sobrinhos do Capitão.

No dia 12 de dezembro de 1897, enquanto se festejava a inauguração da nova capital da província de Minas Gerais, estreava no New York Journal a série The Katzenjammer Kids, que recebeu no Brasil o título Os Sobrinhos do Capitão. Criada por Rudolph Dirks, jovem alemão que se mudara para os Estados Unidos em busca de novas oportunidades, a HQ fôra idéia dos editores do jornal, que queriam publicar uma história inspirada numa das primeiras séries de sucesso dos quadrinhos: Max und Moritz do artista alemão Wilhelm Busch. Publicada no Brasil com o título Juca e Chico, a série de livrinhos contava as traquinices e confusões de dois meninos encrenqueiros.

Com a missão de repetir o sucesso de Juca e Chico, Dirks (na época com apenas 20 anos) criou Hans e Fritz, duas pestinhas que infernizavam a vida dos adultos, em especial da Mamãe e do Capitão. No início, os desenhos e roteiros aproximavam-se bastante do trabalho inspirador de Busch. Porém, Dirks logo definiria melhor a personalidade e as características visuais de seus personagens, que sempre tentavam roubar as tortas feitas pela Mamãe ou armar travessuras para o Capitão. Por tabela, com Os Sobrinhos do Capitão consumava-se o trabalho iniciado com Juca e Chico: a construção de um dos tipos mais recorrentes nos quadrinhos e desenhos animados, o das crianças endiabradas.

Brincando com o sotaque e as peculiaridades da cultura alemã, as páginas dominicais e tiras diárias produzidas por Dirks conquistaram o público norte-americano e os próprios imigrantes que chegavam aos milhares na época. E além de influenciar o imaginário popular, Os Sobrinhos do Capitão também representou um avanço na linguagem dos comics. Sendo um dos primeiros a definir a estrutura dos quadrinhos (como os conheceríamos ao longo do século 20), Dirks foi ainda um dos responsáveis pela consolidação do estilo de desenho cartunístico (de formas arredondadas e proporções reduzidas), uma vez que, até então, predominavam traços mais caricaturais.

Com a enorme popularidade de seus personagens, Dirks envolveu-se num processo judicial em 1914, quando tentou transferi-los para um jornal concorrente. Apesar de ter mantido o direito de desenhar os personagens que criara, o desenhista perdeu os direitos sobre o nome da série, passando a publicá-la com o nome The Captain and the Kids. Isso deu origem a uma situação incomum, pois enquanto Dirks desenhava Hans e Fritz para outro jornal, Harold Knerr assumiu seu lugar, o que fez com que duas séries distintas, mas com os mesmos protagonistas, fossem publicadas ao mesmo tempo.

A competição entre os desenhistas era um duelo de talentos que enriqueceu ambas as séries. Além das tradicionais travessuras de Hans e Fritz, os autores exploraram viagens a fantasiosas ilhas povoadas por piratas e nativos hostis (algo bem ao gosto do imaginário colonialista ocidental). Assim, motivados pela rivalidade criativa, Dirks e Knerr aprimoraram seus estilos, contribuindo para o desenvolvimento da arte e também da indústria dos quadrinhos.

O Homem de Canudos.

Cada cidade tem uma alma própria. Nos prédios que lhes dão forma e nas pessoas que lhes dão vida, as cidades refletem sua História. Logo, ter domínio sobre a História de uma cidade é muito mais que estabelecer monumentos e datas comemorativas; é influenciar a própria vida das pessoas. Por isso, às vezes, para apagar o que representa uma indesejável cidade, não basta destruir seus prédios; é necessário também eliminar aqueles que os construíram, como aconteceu há 110 anos, no povoado de Canudos no norte da Bahia.

Ao contrário do que muitos pensam, os monumentos históricos não são apenas as estátuas ou os prédios erguidos em comemoração a algum feito ou pessoa notável. Um acontecimento, por si só, pode tornar-se um monumento histórico, sobre o qual se constrói uma nação (como é o caso da Revolução Francesa, por exemplo). Assim como a construção da moderna Belo Horizonte, a destruição da sertaneja Canudos deveria ser um “monumento” à República do Brasil, que há pouco fôra proclamada. Mas isso se fez, é claro, às custas do sangue da população que esta mesma república deveria representar. Parte dessa história de contrastes, que marca o nascimento da república brasileira em fins do século 19, é contada em O Homem de Canudos, HQ desenhada pelo mestre Jô Oliveira.

Publicada na Itália em formato álbum, com o título L’uomo di Canudos, e ainda inédita no Brasil, a HQ é o amadurecimento de um trabalho de pesquisa e recriação em quadrinhos, iniciado nos primeiros anos da década de 1970 pelo ilustrador e quadrinista Jô Oliveira. A história começa algum tempo antes da destruição de Canudos, quando um jovem sertanejo chamado Francisco vê sua família ser assassinada pelos homens do coronel local. Para vingar a morte de seus pais e irmã, ele se junta a um grupo de cangaceiros. Vingado, Francisco parte para o interior do sertão, onde encontra peregrinos que se dirigem ao povoado de Canudos, onde vive um “homem santo”. Chegando à cidade prometida, Francisco acaba nomeado comandante das forças de defesa, pelo próprio Antônio Conselheiro.

Trazendo uma boa reconstituição de época, os desenhos de Jô Oliveira reproduzem ícones da cultura nacional, como o cangaceiro, o coronel, o beato e a própria seca do sertão. Contudo, se em seus primeiros quadrinhos os personagens e ambientes valorizavam a dimensão mítica do sertão, em O Homem de Canudos a reconstituição histórica do tema e o maior realismo dos desenhos ficam em primeiro plano. Tendo incorporado o grafismo da literatura de cordel (que tornou seus trabalhos aclamados nos anos 70), Jô Oliveira mostra um outro estilo nesse álbum, que se adequa perfeitamente à função de representar o cenário e os acontecimentos históricos retratados.

A história em quadrinhos é um importante veículo na formação da consciência e imaginário nacionais. Infelizmente, o mercado brasileiro é ainda muito pouco favorável aos autores locais, dificultando que obras brasileiras ocupem o merecido espaço nas bancas e livrarias. Se nos últimos anos nossos quadrinhos têm recebido mais atenção por parte das editoras, a situação ainda está longe de ser a ideal. Ter uma indústria de quadrinhos que privilegie a produção nacional e ofereça ao público temas e traços brasileiros deveria fazer parte de nossa formação como povo e nação. Não faltam qualidade e criatividade a nossos autores, e há ainda muitas obras por se produzir e outras que aguardam inéditas ou fora de catálogo. A HQ O Homem de Canudos é um bom exemplo!

01/12/2007

4 X 4


Nem só de Turma da Mônica é feito o quadrinho brasileiro. Esta afirmação mais que obvia nunca fez tanto sentido quanto nas semanas em que Belo Horizonte sediou a 3a Bienal Internacional de Quadrinhos, um 1997. Além dos convidados especiais e das exposições, a Bienal foi uma oportunidade para se ter contato com algumas novidades do mercado nacional. Aproveitando a deixa, realizei uma entrevista especial em que quatro talentosos desenhistas – Angeli, Jô Oliveira, Guga e Lourenço Mutarelli – respondem a quatro perguntas.
Atualmente, Angeli é um dos quadrinistas de maior sucesso no Brasil. Apesar de revelar-se “com preguiça e cansado dos quadrinhos”, o criador da Rê Bordosa continua, como seu personagem Bob Cusp, disparando para todos os lados. Jô de Oliveira foi um dos quadrinistas nacionais de maior destaque nos anos 70, quando lançou no Brasil e Europa suas HQs inspiradas na cultura popular e literatura de cordel. Por sua vez, o mineiro Guga, que se revela um “quadrinista bissexto”, possui um dos traços mais expressivos e originais do circuito dos fanzines e revistas independentes. Fechando este o quarteto, temos o paulista Lourenço Mutarelli, autor do que se pode chamar de um quadrinho autenticamente visceral.
Falando de temas gerais, mas sempre remetendo ao trabalho de cada artista, a entrevista mostra que a diversidade e originalidade que vemos nas páginas das revistas brasileiras reflete-se nas propostas e concepções de seus criadores, embora estilos de desenho tão particulares possam, às vezes, também guardar concepções bastante semelhantes.


1- Enquanto criador, o que os quadrinhos são para você?

Angeli- Os quadrinhos e o humor são as únicas formas de expressão que sei usar. Sou tímido e tenho dificuldade de expor minhas idéias com a fala. Os quadrinhos são uma forma de conversar com as pessoas sem colocar minha cara na frente.

Jô Oliveira- Toda a minha geração foi educada com os quadrinhos. Os quadrinhos são uma linguagem e quando você lida com eles, você lida com a imagem e a palavra ao mesmo tempo. Como eu sou nordestino também fui influenciado pela literatura de cordel. No meu trabalho eu misturei os quadrinhos e a literatura de cordel.

Guga- Tem duas coisas: primeiro, é o universo pessoal. O que uma pessoa desenha no quadrinho mostra o ponto mais profundo dela. O desenho mostra quem a pessoa é realmente. Além disso, mais que a literatura ou as artes plásticas, o quadrinho é o retrato da alma de um povo, é o ponto mais fundo de uma cultura. Por exemplo, o americano adora os super-heróis, que são a aspiração dos EUA.

Mutarelli- É uma pergunta que venho me fazendo todos os dias. O quadrinho é a forma de me expressar, com a qual consigo ser mais claro, mais preciso. Eu não fico satisfeito só com o desenho ou com o texto. Penso que meus desenhos são palavras que não consigo expressar, da mesma forma que as palavras que escrevo não deixam de ser desenhos.

2- Qual a importância do leitor, como ele entra em seu trabalho?

Angeli- Eu acho que o leitor é um bom ouvido, ele tá aqui pra escutar. Eu não penso no leitor quando faço meus quadrinhos, se pensasse eu ia acabar formatando meu trabalho. Acho que cada artista deve fazer algo que dê prazer, que ele goste. Fazer um trabalho em cima de pesquisa, para um público dirigido, é coisa de publicitário. O leitor é que deve se identificar com o trabalho.

Jô Oliveira- O leitor é tudo. É com ele que você dialoga. Apesar de meu trabalho ter tido uma grande repercussão por sua originalidade, infelizmente, eu não conseguia a aceitação dos editores.

Guga- Confesso que no meu caso ele não entra. É a última entidade na qual eu penso. Na verdade, quando você desenha uma HQ, você faz um mapa para se situar. O leitor é uma conseqüência, eu nunca penso nele.

Mutarelli- Quando faço meu trabalho eu não penso no leitor, às vezes penso em algumas pessoas que conheço. Me dá uma certa impressão de que o que fiz naquele papel ninguém mais vai ver, por isso consigo ser muito sincero e autêntico, na hora que desenho penso que não vou ser julgado. Mas quando o leitor comenta meu trabalho isso me dá uma sensação muito agradável, é como se alguém tivesse escutado meu grito de socorro.

3- O que você já alcançou com seus quadrinhos, e aonde você pretende chegar?

Angeli- Essa pergunta é difícil. Acho que alcancei bastante, eu tenho um público grande e interessante. Fiz uma revista própria e vendi muito. Consegui passar minhas idéias, o que penso das pequenas e das grandes coisas. E eu percebi que consegui passar este recado como queria, porque as pessoas já chegam em mim sabendo quem sou. Com tudo que consegui, se fosse num país civilizado, com um mercado fluente, eu estaria folgado. Eu gostaria de ajudar a solidificar o mercado de quadrinhos e acho que este é um trabalho em conjunto, de artistas e financiadores.

Jô Oliveira- Uma coisa que deu satisfação é que houve reconhecimento de meu trabalho. A partir disso pude publicar na Europa. Eu sempre procurei colocar o Brasil no meu trabalho. Procuro contar fatos interessantíssimos da história brasileira que são desconhecidos, ou foram esquecidos. Como não há um mercado para os quadrinhos brasileiros, trabalho com literatura infantil. Eu gostaria muito de fazer uma história para comemorar os 100 anos de Lampião.

Guga- Eu sempre estou voltado para o que quero alcançar, eu busco uma emoção, e sem dúvida a vitória do “bem sobre o mal” (com maniqueísmo, sim!). Tecnicamente busco um aprimoramento do traço.

Mutarelli- Eu não tenho um objetivo. Eu não faço quadrinho porque eu quero, faço porque ele pede para sair de mim. Não tenho nenhuma intenção, não penso em levar uma mensagem. A coisa simplesmente acontece.

4- Quem lê os seus trabalhos tem acesso a quem você é?

Angeli- Tem acesso a quem sou, mas com alguns exageros porque o humor é assim. As pessoas pensam que quando me encontrarem vão ver um cara junkão, lambendo o chão, mas não é bem assim. Mas também é assim.

Jô Oliveira- Não, não tem nada a ver. Meu quadrinho é mais ligado à minha infância. Meus quadrinhos foram feitos quando eu vivia na Hungria. Eu estudava artes plásticas e não tinha como concorrer com aqueles caras que tinham toda uma formação acadêmica. Aí, caiu um livro do Ariano Suassuna na minha mão e eu fui atrás das minhas raízes, reencontrando a literatura de cordel.

Guga- Eu creio que sim. Se eu escrever um conto, ou pintar um quadro, não. Mas quando você lê meu quadrinho, sim. Com o quadrinho é fácil, quando você lê uma HQ tem acesso a quem o autor é, ao que ele pensa.

Mutarelli- Com certeza quem lê meus livros vê minha alma. Eu costumava brincar que cada página que faço é uma fatia do meu inconsciente.