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03/10/2018

Mais Quadrinhos: Entrevistas, resenhas e artigos!


Um lançamento da Balão Editorial, Mais quadrinhos: entrevistas, resenhas e artigos é resultado de mais de duas décadas de produção de textos sobre os quadrinhos. O livro traz um amplo panorama sobre a trajetória da arte e da linguagem das HQs.

Uma coletânea de textos bastante diversificados, a obra fala de vários autores consagrados, como os norte-americanos Will Eisner e Jack Kirby, os europeus Hugo Pratt e Moebius e o japonês Osamu Tezuka. O Brasil ganha destaque com análises das obras dos mestres Ziraldo, Henfil, Shimamoto e Colin. Também têm espaço resenhas sobre importantes séries e graphic novels, além de entrevistas com desenhistas renomados. O livro pode ser adquirido em plataformas e livrarias virtuais como a AMAZON.

07/01/2013

20 anos de quadrinhos independentes!


Como eu disse aqui, em outra postagem, 1993 foi “um ano ímpar” por vários motivos. Para mim, em especial, foi meu ano de estreia como editor independente. Como expliquei naquela postagem:

Foi em março daquele ano que lancei minha primeira publicação: um fanzine em xérox e formato ofício, com quadrinhos e matérias, feito em parceria com o desenhista Erick Azevedo. Era o artesanal Replicantes, que teve apenas dois números, o primeiro em março daquele ano e o segundo em junho do ano seguinte. Apesar de suas limitações e até mesmo precariedade, essa primeira experiência editorial despertou em mim o gosto por publicar meus quadrinhos (o que eu voltaria a fazer em 1995 com o fanzine Ideário e nos anos seguintes com as revistas Solar e Caliban).

Agora em 2013, portanto, completam-se 20 anos de minha primeira experiência como editor de quadrinhos, e ando pensando muito em lançar algo, mesmo que seja uma edição simples para marcar a data, ou talvez até mesmo retome de vez a aventura independente. Quem sabe... Vamos ver o que este novo "ano ímpar" nos reserva.

Por ora, aos colegas e leitores de quadrinhos, independentes ou não, meus votos de boa sorte ao longo de 2013!

30/05/2011

Falando sobre a editora


Desde o anúncio, há duas semanas, do lançamento de uma nova editora de quadrinhos, a NEMO foi assunto em vários saites e blogs (valeu pela divulgação, pessoal!). Com isso, além do Mais Quadrinhos, também tive a oportunidade de falar sobre nosso projeto editorial em entrevistas para outros veículos digitais. Então, para quem quer saber um pouco mais sobre o que temos em mente e estamos preparando, seguem em ordem de publicação três entrevistas sobre a NEMO (sendo a última delas a mais extensa e detalhada):

Universo HQ

Blog dos Quadrinhos

Ah! Cidade

26/10/2009

SOLAR em novo ensaio espanhol e entrevista para o Universo HQ.


Meu leitor e amigo de terras de España, Ismael, que já havia escrito um interessantíssimo ensaio sobre SOLAR: Renascimento, publicou agora em seu blog um novo ensaio que ilumina boa parte da simbologia oculta nas páginas de SOLAR: Solo Sagrado. A análise de Ismael é tão atenta que em alguns pontos ela traz à tona elementos simbólicos que não haviam sido conscientemente dispostos por mim (dando uma prova de que muitas vezes uma obra ultrapassa as intenções conscientes de seu autor, ampliando-se nas leituras feitas pelos leitores). Não deixem então de conferir os ensaios iniciáticos de Ismael, a quem fica aqui registrado meu agradecimento.

Mais SOLAR! Quando lancei a revista SOLAR: Renascimento, o colaborador do Universo HQ Lielson Zeni fez uma extensa entrevista de preparação para uma resenha que ele escreveu, com questões gerais sobre meu trabalho e específicas sobre o personagem Solar. A parte principal dessa entrevista acaba de ser publicada numa matéria do amigo Sidney Gusman, podendo ser lida aqui. Aproveitando a oportunidade, com o consentimento de Lielson, reproduzo aqui as partes de nossa conversa que ficaram de fora da matéria. Assim, todos poderão conhecer um pouco mais sobre meu trabalho e minhas ideias. Mas não deixem também de ler as demais perguntas no Universo HQ!


Como você começou a ler quadrinhos?

Quando criança, eu costumava ganhar revistas em quadrinhos, especialmente de super-heróis, pois eu adorava o desenho animado Superamigos. Também ganhava algumas com personagens de seriados da tevê, como Sítio do Pica-Pau Amarelo e Spectromen. Durante toda minha infância, a maior influência cultural que tive foi a televisão, e eu era fã de coisas como Jornada nas Estrelas e os heróis da Hanna-Barbera. No início de 1987, meu desenho preferido era Thundercats e com o sucesso do programa foi lançada uma revista em quadrinhos. Quando vi a propaganda, fiquei louco para comprar a revista, mas quando consegui ir a uma banca, ela já tinha acabado. Comecei então a folhear as revistas de super-heróis que estavam em exposição e uma cena com um monte de super-heróis reunidos chamou minha atenção. Era uma página da Heróis da TV n°91, de uma aventura dos Vingadores desenhada por John Byrne. Gostei tanto que comprei e foi com aquela revista, meio por acaso, que comecei a ler e colecionar quadrinhos. E aqui ainda estou, 22 anos depois.

Como essa leitura se tornou em vontade de produzi-los?

Na verdade, meu caso foi diferente, pois comecei a escrever e desenhar quadrinhos em 1986, antes de comprar a primeira revista de minha coleção. Eu tinha 11 anos e estava naquela fase em que os adultos começam a implicar com a gente para pararmos de brincar com bonecos Comandos em Ação e Transformers. Para evitar as implicâncias, eu guardei os brinquedos e passei a brincar no papel, criando minha primeira HQ, que foi uma supersaga de ficção científica intitulada: “X – A Batalha Final”. Não havia qualquer qualidade artística ou pretensão autoral naquelas 20 páginas arte-finalizadas com caneta esferográfica e coloridas com lápis de cor. Mas foi com ela que tudo começou para mim, como uma brincadeira criativa. Depois que comecei a colecionar quadrinhos em 1987, passei a desenhar e escrever quadrinhos de super-heróis, que basicamente copiavam os X-Men e os Vingadores da Marvel.

Sei que você lê muita literatura e filosofia. Quais são suas influências principais dessas áreas? É influenciado pelo cinema e artes plásticas? E quem são seus quadrinistas de referência?

As influências da literatura e filosofia variam de roteiro para roteiro. Faço muita pesquisa e as influências acabam dependendo de cada trabalho. Em ALIENZ, por exemplo, temos elementos da Física Quântica e da Teoria do Caos. Em SOLAR, temos os mitos indígenas brasileiros. Realmente depende do trabalho. Em relação às artes acontece a mesma coisa, pois pode ser a influência de Guimarães Rosa em ESTÓRIAS GERAIS ou de Ingmar Bergman em FANTASMAGORIANA. Especificamente no caso dos quadrinhos, como queria me tornar um bom autor de quadrinhos, procurei pesquisar e estudar o maior número de autores possível. Mestres como Jack Kirby, Hugo Pratt, Moebius e Flavio Colin influenciaram muito meu trabalho, assim como John Byrne que me transformou num leitor de quadrinhos e Frank Miller que foi o responsável por eu me apaixonar de vez por essa linguagem artística. E há, sobretudo, a influência de Alan Moore, que é meu roteirista favorito e alguém com quem aprendi muito.

De onde surgiu a ideia de usar leis do incentivo pra publicar?

Surgiu da mais pura falta de alternativas para publicar a série SOLAR. Em meados dos anos 90, a situação para os autores brasileiros era ainda pior do que é hoje e eu não conseguiria uma editora para minha HQ. Ao mesmo tempo, eu precisava conseguir recursos para pagar ao desenhista Ricardo Sá para ele poder continuar a se dedicar à série e também para pagar a impressão da revista. As leis de incentivo estavam surgindo e, em 1995, consegui a aprovação para os 7 primeiros números da revista SOLAR, pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Embora já tivessem acontecido outras iniciativas com financiamento público, acredito que a SOLAR tenha sido a primeira revista em quadrinhos a ser aprovada por uma lei de incentivo.

Qual o maior entrave para publicação de uma revista de HQ no Brasil?

Em termos diretos, o desinteresse dos editores e o preconceito de grande parte dos leitores em relação aos quadrinhos brasileiros. Em termos mais estruturais, as baixíssimas taxas de leitura e a péssima distribuição de renda na sociedade brasileira.

Você acha que o futuro das HQs é os álbuns em livrarias ou acredita em uma volta à distribuição em bancas?

Acho que o futuro dos quadrinhos, se eles quiserem ter um futuro a longo prazo, seria uma conciliação entre veiculação gratuita pela Internet, edições periódicas mais baratas e edições em álbuns e livros mais elaborados. Os quadrinhos precisam continuar formando leitores jovens, por isso veiculações pela Internet e edições mais acessíveis são uma alternativa importante. Ao mesmo tempo, o público mais maduro e com maior poder aquisitivo pode investir nas coletâneas e edições especiais, que ajudam inclusive os quadrinhos a deixarem de ser vistos como uma arte menor ou como apenas “coisa de criança”.

Muita gente acha que o principal problema dos quadrinhos nacionais é, salvo exceções, o roteiro. O que você pensa disso?

Eu penso que isso é uma bobagem. O principal problema dos quadrinhos brasileiros é a falta de interesse dos editores e leitores brasileiros em geral. Além disso, basta ver os trabalhos de autores como Lourenço Mutarelli para sabermos que temos sim ótimos roteiros de quadrinhos no Brasil. Há é claro muita porcaria sendo publicada por aí, mas isso não justifica se dizer que no Brasil não se escrevem bons quadrinhos. Pessoalmente, a resposta que dou para isso são as próprias HQs que escrevo, coisas como ESTÓRIAS GERAIS, FANTASMAGORIANA, QUANTUM, APÓCRIPHA, MUIRAQUITÃ, ALIENZ, entre outros trabalhos.

Como funcionam suas parcerias com os desenhistas? Quem é responsável pela aparência de Gabriel e de Solar, por exemplo?

Sua pergunta tem dois sentidos: um profissional e outro criativo. No primeiro sentido, busco estabelecer uma relação que seja o mais profissional possível com os desenhistas, assinando contratos e pagando pelo trabalho, que passa a ser de direito exclusivo meu. Pagar aos desenhistas foi uma necessidade que surgiu já na primeira versão do Solar, pois sendo um pai de família o desenhista Ricardo Sá não poderia se dedicar ao projeto apenas por diversão. Quando passei a trabalhar com outros desenhistas, mantive esse acordo profissional, pois sou um editor exigente e para exigir qualidade tenho que oferecer uma contrapartida, que no caso é pagar pelas páginas. Esse esquema funcionou bem por muito tempo e possibilitou que obras como ESTÓRIAS GERAIS fossem produzidas e possam hoje ser reeditadas. No outro sentido, criativo, eu passo para o desenhista todas as informações básicas sobre os personagens e ele vai trabalhando o visual até chegarmos a um resultado satisfatório. Assim, tudo começa com minhas ideias, mas tem a marca final do estilo do desenhista. O próprio Gabriel variou muito no traço dos diferentes desenhistas que trabalharam na versão original e também no desenho do Rubens Lima nesta versão atual.

30/09/2009

As entrevistas e textos da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos.


Integrando as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte (MG), a 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, o evento teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros. A Bienal contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres.

O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner.

Na época, eu produzia uma página semanal com crítica de quadrinhos para um jornal de BH e não perdi a oportunidade de entrevistar alguns desses convidados. Em novembro daquele mesmo ano, essas entrevistas foram reunidas na quarta edição de minha revista Caliban (cuja capa ilustra esta postagem). Aproveito então a aproximação da sexta edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, herdeiro da Bienal de 1997) para postar esta nova lista de entrevistas do Mais Quadrinhos, incluindo alguns textos que contam como foi aquele fantástico momento das HQs na capital mineira.

Will Eisner:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/uma-entrevista-com-will-eisner.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/meu-encontro-com-will-eisner.html

Paolo Serpieri:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/06/uma-entrevista-com-o-criador-de-druuna.html

Bryan Talbot:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/07/uma-entrevista-com-bryan-talbot.html

Angeli, Jô Oliveira, Guga e Mutarelli:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/4-x-4.html

A capital brasileira dos quadrinhos:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/capital-brasileira-dos-quadrinhos.html

08/08/2009

Nilson, o guerrilheiro do cartum.


Nilson Adelino Azevedo é, como ele mesmo costuma se definir, “o cartunista anônimo mais famoso de Belo Horizonte”. Consciente da função política e da importância social dos cartuns e quadrinhos, Nilson criou personagens como o Negrim, inspirado nas experiências de sua infância no interior de Minas Gerais, e A Caravela, uma série de histórias em quadrinhos e tirinhas sobre as Grandes Navegações (do ponto de vista dos marinheiros). Em sua incansável “guerrilha do traço”, ele publicou charges e cartuns no Pasquim e em alguns dos principais jornais do país, além de ser um dos criadores do Humordaz e companheiro de Henfil na luta contra a Ditadura. Nos últimas décadas, Nilson está afastado da grande imprensa, encontrando espaço na imprensa alternativa e sindical. Aproveito então a data de seu aniversário para compartilhar com vocês uma entrevista que fizemos em 1997. Parabéns então a Nilson e muito obrigado!

Comece do princípio...

Eu nasci em Belo Horizonte, no dia 8 de agosto de 1948. Mas me considero de Raul Soares, que é uma cidade da Zona da Mata (de Minas Gerais), porque eu fui pra lá com um ano, e todo meu inconsciente, toda minha vida afetiva, tudo que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma expansão do tempo que vivi no interior. Raul Soares “me deu régua e compasso”. Inclusive, a noção de Infinito me veio pela primeira vez olhando uma latinha de Pó Royal. O dia que eu vi a latinha de Pó Royal, com a latinha desenhada no rótulo, e nela outra latinha desenhada, e outra desenhada dentro desta, e assim por diante... eu entendi pela primeira vez, mais ou menos pelos 9 ou 10 anos, o que era o Infinito.

Você também descobriu os desenhos e os quadrinhos lá em Raul Soares?

Pelo que meus pais me contaram, com 2 ou 3 anos eu já rabiscava a parede. Eu cresci envolvido pelos quadrinhos, minhas irmãs eram colecionadoras fanáticas de quadrinhos do Flash Gordon, do Príncipe Valente, do Batman. Aí, eu comecei a ler todos os quadrinhos, e a desenhar todos os estilos, copiando os desenhistas. Sem saber, eu estava estudando.

Por que você optou pelo desenho de humor?

Eu escolhi este desenho, que chamo de cartum, porque ele permite uma variação maior, uma expressividade muito maior do que o desenho acadêmico, do que o desenho do quadrinho de herói. Uma das coisas mais fantásticas que o cartum estabelece é fazer o leitor ver que a realidade pode ser desenhada de uma maneira que não é o retrato, que não é o desenho acadêmico. Isso provoca na inteligência do leitor uma grande reviravolta.

O desenho é uma forma de fazer política...

Política pra mim é você mudar diretamente o real. A arte, a filosofia, o humor são maneiras de você mudar o simbólico, que pode ajudar a mudar o real. Eu uso o “estilo cartum” na charge e no quadrinho. Ele permite a crítica, mas também a caracterização carinhosa de nós mesmos, em oposição àquela imagem ridícula que tem nos produtos norte-americanos. A maioria dos quadrinhos publicados no Brasil são importados, e a imagem que nos chega através do cinema, da televisão e da publicidade quase que de uma maneira absoluta são dos Estados Unidos; e aí o problema maior é o da exclusão. Eu estou incluindo a nós mesmos, eu estou incluindo o Terceiro Mundo ao nos desenhar de uma forma que não é ridícula. Essa inclusão é feita justamente para combater a exclusão que vem de lá.

Quando você descobriu os quadrinhos brasileiros ou o Brasil nos quadrinhos?

Aconteceu uma virada na minha vida quando eu vi o primeiro número do Pererê, em 1960. O Ziraldo é de Caratinga, uma cidade vizinha da minha, e eu tomei um susto porque toda a geografia, as brincadeiras, os costumes, as comidas da minha região estavam desenhadas no Pererê. O Ziraldo desenhava o roceiro com dignidade, não ridicularizava o roceiro como fazem os “Cassetas e Picaretas” ou o Angeli. O Ziraldo é da linha do Oswald de Andrade; é para os quadrinhos o que o Glauber é para o cinema, o que o Caymmi é para a música.

Você me disse que criou o Negrim porque queria fazer histórias com o Pererê.

Quando eu tinha 16 anos, fiz uma história que o Ziraldo desenhou e publicou no último número do Pererê, de março de 64. O Ziraldo me colocou como personagem desta história, mas eu passei noites sem dormir com medo de que o Pererê tivesse sido fechado pela Ditadura porque a minha história mexia com Tiradentes. Então eu criei o Negrim para substituir o Pererê, primeiro para mim.

E quando o Negrim deixa de substituir o Pererê só pra você?

Em 1969, o André Carvalho estava à frente do Gurilândia, o suplemento infantil do Estado de Minas, e ele teve o peito de tirar a histórias da Luluzinha e colocar três desenhistas brasileiros no lugar, um deles era eu. O Negrim foi um sucesso absoluto, chegou a ter 73% de “Ibope”, isso durante três anos e meio. Mas eu já tinha estreado em 1967, como cartunista no Cartum JS, um suplemento de humor dirigido pelo Ziraldo, publicado aos domingos pelo Jornal dos Sports. Quando acabou o Cartum JS eu passei para O Cruzeiro que tinha um suplemento de humor chamado O Centavo, dali fui pro Pasquim.

Você ainda estava em Minas?

É, foi em 1974 que eu fui pro Rio, morei lá por 8 meses, na pior época da Ditadura, a transição do Médici pro Geisel. Eu voltei pra Minas no final de 1974, completamente derrotado pela censura, não havia onde trabalhar lá. Aqui, eu comecei a publicar charges diárias no Jornal de Minas e, junto com o Lor, comecei a fazer o cartum sindical. Nós criamos também o Humordaz, que foi outro sucesso estrondoso no Estado de Minas, e que virou uma página que saía todo sábado, com o melhor pessoal de texto e todos os cartunistas que tinham por aqui. Nós também fizemos o almanaque Humordaz que foi fechado pela censura no número três.

E quando o Henfil entra na história?

Eu já conhecia o Henfil desde a época do Cartum JS. Em 1979, eu fui visitá-lo em São Paulo e ele falou comigo: “Nilson, tá acontecendo tudo em São Paulo, o Rio já era! Tudo tá aqui: o ABC, o Lula, a música, o teatro, a OAB”. Realmente ele estava certo. Eu fiquei lá de 1979 a 1982 e participei da História do Brasil. Esse tempo todo eu trabalhei na Folha e na imprensa alternativa. Em 1982, eu voltei pra Belo Horizonte porque não aguentava mais São Paulo, fiquei doente lá. Voltei com a intenção de nunca mais sair de Minas.

Como você vê a atuação da imprensa no Brasil?

Durante a Ditadura se você fosse fazer uma passeata, podia ser preso e torturado, podia até desaparecer. Durante muito tempo o que a gente podia fazer era uma guerra de opinião, na qual a imprensa alternativa tinha um papel fundamental, um exemplo é o Pasquim. Hoje, você não tem uma imprensa alternativa na dimensão que tinha naquela época pra rebater as bobagens escritas pela “imprensa mega-medíocre”. Nós achávamos que, com o fim da Ditadura, a grande imprensa se abriria para que pudéssemos publicar e fazer tudo que não pudemos antes. Mas isto não aconteceu. A imprensa resolveu transformar o jornal, que era um veículo de informação, em um veículo de prestação de serviços.

Para finalizar, o que é seu trabalho?

Eu sou brasileiro, de Terceiro Mundo, em meu trabalho é muito mais difícil não refletir isso, que refletir. Eu ajo naturalmente. Claro que eu pesquiso, que eu procuro, mas pra mim é muito mais difícil copiar do que criar. Os rótulos que o pessoal coloca, “socialista”, “cristão”, “ressentido”, “brontossauro”, não dizem nada. O que eu sou reflete a minha coisa humana como um todo. Eu nunca me surpreendi pensando: “agora eu vou fazer um desenho político!”. Sempre que eu sento pra desenhar, senta o Nilson inteiro, o ser humano inteiro: brasileiro, de Terceiro Mundo, cristão, hipocondríaco, e sai o que eu sou. Eu sou do PT e outro rótulo que eles colocam pra bloquear meu trabalho na grande imprensa é dizer que eu seria um porta-voz do partido, isso não é verdade. Quando eu faço minha charge ou quadrinho, eu não sou “do PT”, eu sou o ser humano Nilson tentando falar com a humanidade inteira, até com os inimigos.

02/08/2009

Quadrinhos independentes em entrevista, parte2.


Parte final de nossa entrevista e as questões de Lídia Basoli abordam especificamente alguns de meus álbuns e revistas, como Estórias Gerais e Solar, gerando uma conversa interessantíssima e bastante informativa. Não deixem de ler!

Fale um pouco da sua relação com o mestre Flavio Colin.

Desde que descobri os quadrinhos de verdade eu me tornei um fã absoluto do trabalho do mestre Colin. Em 1997, quando produzia a revista Caliban, eu descobri o endereço dele e enviei uma carta com os dois primeiros números da revista. Para minha surpresa ele respondeu sem demora (sua carta foi até publicada no número 3 da revista). Mantivemos contato e eu falei a ele sobre trabalharmos juntos numa história. Quando tive a idéia para o que viria a ser o álbum Estórias Gerais não pensei em outro desenhista! Fiz o convite, acertamos os detalhes financeiros e começamos a trabalhar no projeto. Durante e depois da produção do EG mantivemos uma correspondência regular e vários contatos por telefone. Além do EG, produzimos algumas HQs menores, somando com as capas 190 páginas desenhadas. Infelizmente, com sua morte não pudemos realizar um novo álbum sobre o qual havíamos conversado. Era uma grande alegria e honra para mim o fato de ele me considerar e chamar de amigo. Fiquei realmente muito triste com sua morte, pois era uma pessoa realmente muito querida (embora não tenhamos jamais nos encontrado pessoalmente). Os quadrinhos brasileiros perderam ali seu maior gênio e um dos maiores artistas dos quadrinhos mundiais.

Solar e Caliban foram duas produções suas dos anos 1990. Depois houve Mirabilia e as propostas de álbum Estórias Gerais e Quantum e tantas outras. Como está sua produção hoje?

Idéias para novos personagens, histórias e edições nunca me faltaram. O que costuma faltar para realizá-las são tempo e recursos. Já concluí meu trabalho de roteiro para Solar: Solo Sagrado, que pode ser a última revista independente que lançarei. Assim, hoje minha produção autoral está parada. Eu ainda teria muitos quadrinhos para criar, mas se acontecerem provavelmente todos os meus futuros trabalhos autorais sairão por editoras.

Há entre essas produções alguma que lhe foi mais especial? Por quê?

Gosto muito de álbuns e revistas temáticos como Fantasmagoriana, Quantum, Apócripha e Alienz. E gosto de meus quadrinhos de terror e suspense, como Mirabilia, Mystérion, Monstros e Muiraquitã. Mas, enquanto personagem, tenho uma relação especial com o Solar (tanto que o estou relançando agora) e também, enquanto obra, com o álbum Estórias Gerais (que é meu trabalho mais bem acabado, premiado e reconhecido).

Qual a sua opinião sobre o trinômio “produção, divulgação e distribuição” para os quadrinhos independentes de BH e do Brasil?

A produção é a paixão e o que nos faz estar aqui; a divulgação é o que pode nos levar a algum lugar; e a distribuição é em grande parte o que limita nossas possibilidades.

Em uma das respostas você coloca que Solar: Solo Sagrado pode ser a última revista independente que você vai lançar e também que a saída para os quadrinhos brasileiros não está na produção independente. Dessa forma, qual a saída que você vê para a maioria da produção sobre quadrinhos que está sendo produzida hoje no Brasil? O que deve ser melhorado ou de que maneira poderia ser divulgado os quadrinhos e os quadrinistas brasileiros?

Bom, eu vejo a produção de quadrinhos de maneira profissional. Por isso mesmo, pago aos desenhistas que trabalham nas minhas revistas, para poder exigir qualidade e cumprimento de prazos (o que nem sempre consigo, infelizmente). Embora minhas edições se paguem e se esgotem com o tempo, elas não rendem o bastante para pagar por meu próprio trabalho de roteirista e editor (como costumo dizer, meus quadrinhos se sustentam, mas não me sustentam). Só que eu cheguei a um ponto em que não posso mais me dedicar aos quadrinhos apenas por paixão, por isso Solar: Solo Sagrado pode ser minha última revista independente. Se eu continuar produzindo quadrinhos autorais deverá ser através de editoras.
Quanto à segunda parte de sua pergunta, já venho trabalhando com quadrinhos independentes há anos e para mim é muito claro hoje que há limitações na produção independente que não podem ser superadas. É claro que é possível fazer bons trabalhos no esquema independente, mas nada se compara aos recursos e às possibilidades de uma publicação num esquema mais profissional ou editorial mesmo. No meio independente hoje, o que chega mais perto de uma publicação profissional são os álbuns lançados pela Graffiti, nos quais os autores recebem para produzir os trabalhos (pois acredito realmente que todos devemos receber por um trabalho de qualidade). E respondendo à questão sobre a “saída” para os quadrinhos brasileiros, na minha opinião a única saída para termos no Brasil uma produção sustentável e que se desenvolva com o tempo (gerando trabalhos cada vez melhores e mais rentáveis) seria um meio-termo entre a eficiência empresarial e comercial dos estúdios Maurício de Sousa e a qualidade artística e autoral da Graffiti. Se as editoras investissem em quadrinhos brasileiros com potencial comercial e qualidade autoral (como aconteceu com revistas como Aventuras do Anjo, Pererê, Fradim, Chiclete com Banana e a própria Turma da Mônica) teríamos um mercado que se sustentaria e daria emprego a vários quadrinistas que hoje só têm a opção de publicar de forma independente.

Deixe um recado para quem está começando a trabalhar com quadrinhos.

Trabalhe muito para melhorar sempre. Estude os grandes mestres e os principais artistas dos quadrinhos. Não abandone os estudos regulares, pois um diploma poderá lhe fazer falta! Leia muito sobre História, Arte, Filosofia, Ciência. Não apenas copie os japoneses e os norte-americanos, o Alan Moore, o Moebius ou o Angeli. Busque seu próprio caminho. Tente lançar suas revistas ou publique pela Internet. Talvez não seja uma boa estratégia fazer dos quadrinhos o plano A profissional para sua vida. Enfim, faça o melhor que puder, divirta-se no processo e boa sorte!

01/08/2009

Quadrinhos independentes em entrevista, parte1.


Mais uma entrevista no Mais Quadrinhos e desta vez o entrevistado sou eu mesmo! Há alguns meses, a jornalista Lídia Basoli, que participa da revista Café Espacial, entrou em contato comigo para uma entrevista / artigo sobre o movimento de quadrinhos em BH. A matéria saiu neste sábado no informativo do 4° Mundo e aproveito então para reproduzir, nesta e numa próxima postagem, as questões de nossa entrevista. Obrigado a Lídia pela oportunidade de falar sobre meus trabalhos e minha trajetória; e boa leitura a todos!

Você começou a ler e fazer quadrinhos quando era criança. Quais os personagens que mais lhe influenciaram?

Na verdade, eu já não era criança. Tinha 11 anos quando criei minha primeira HQ. Mas só comecei a colecionar e ler quadrinhos aos 12. Naquela época, as primeiras influências de personagens que tive foram de coisas como X-Men e Vingadores.

A idéia do Estúdio HQ surgiu em 1997 em forma de associação de quadrinistas. Como você vê essas associações / coletivos como o próprio 4° Mundo hoje?

A idéia para o Estúdio HQ surgiu bem antes de 1997. Lembro-me de uma reunião que participei com o Erick Azevedo, o Fabiano Barroso e o Piero Bagnariol ainda no início daquela década. Acho que o Erick e o Fabiano trabalharam na Solar n°7, lançada em 1996, já como uma participação do Estúdio HQ. Bom, eu vejo essas iniciativas como uma forma de os quadrinistas independentes somarem forças visando a um objetivo comum. Neste sentido, elas sempre podem trazer bons resultados.

Com certeza, a falta de apoio faz com que editoras e quadrinistas se tornem "independentes" buscando um novo espaço de divulgação. Como você avalia essa situação em BH e no Brasil?

A situação hoje é melhor do que quando comecei, pois há mais pessoas e revistas no Brasil produzindo quadrinhos independentes. Mas faltaria ainda buscar um amadurecimento maior dos trabalhos, pois não se preocupar com a qualidade desde o início é um erro (e eu só digo isso porque já li afirmações em contrário publicadas em espaços ligados ao 4° Mundo). Se um leitor der chance a uma revista independente e encontrar ali um trabalho muito ruim, possivelmente ele não dará uma segunda chance à produção independente. De qualquer forma, tenho convicção hoje de que a saída para os quadrinhos brasileiros não está na produção independente.

Parece que sem a Lei Municipal de incentivo à cultura haveria muito mais dificuldade para a produção dos quadrinhos. Essas leis realmente suprem essa carência de apoio ou não?

Bom, desde 2002 eu não publico nenhuma revista ou álbum através de leis de incentivo. Então, não acho que as leis sejam indispensáveis.

E o tão famigerado eixo Rio-São Paulo para os quadrinhos? Você sente que houve uma diferença de atitude dos anos 1990 para cá?

Uma vez eu li numa revista de outro estado alguém falando do eixo “Rio-São Paulo-Minas” que atrapalharia a produção nacional. Na época eu dei uma risada porque Minas não faz parte de qualquer eixo (do mal ou do bem). Há o FIQ que acontece aqui a cada dois anos, mas isto é outro caso. Tudo que foi feito em termos de produção de quadrinhos aqui, desde os anos 90, foi feito por iniciativa de pessoas como eu, o pessoal da Graffiti, do extinto Estúdio HQ e do antigo Estúdio Big Jack, entre outros. O que acontece é que a maior parte das editoras que publicam quadrinhos está no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e isso faz uma grande diferença, em termos de acesso aos editores.

A influência do cenário quadrinístico de BH para o Brasil é notória, ainda mais depois da grande explosão que foram os anos de 1990. Como estão e quem são os independentes de BH hoje?

Tem eu que estou meio que parando, o incansável Lacarmélio (Celton), o pessoal da Graffiti que ampliou seu trabalho, e mais umas duas ou três pessoas que lançam trabalhos de vez em quando. Há também o pessoal que trabalha com tiras, como a Chantal, o João Marcos e o Cleuber (este de vez em quando). Se esqueci de alguém, peço desculpas!

Fale sua opinião sobre o trabalho do Celton (Lacarmélio de Araújo).

O Lacarmélio é um lutador, uma das pessoas que produzem quadrinhos independentes há mais tempo no Brasil. Uma figura realmente ímpar e quase folclórica, que conseguiu fazer de seus quadrinhos sua vida e que praticamente se identificou com seu personagem Celton.

Outros nomes famosos dos quadrinhos de BH são Cleuber Cristiano com as maravilhosas tiras do Arroz Integral, Luciano Irrthum com um traço pra lá de ácido e o grande Nilson Azevedo. Há ainda uma boa produção? Quais outros artistas de BH que você admira?

Quando falamos de “artistas de BH” o ideal seria dizermos “artistas mineiros”, pois muitos como o Nilson não foram criados aqui. Além do próprio Nilson, com quem aprendi muito sobre a arte dos quadrinhos, temos por aqui artistas geniais como o Marcelo Lelis, o João Batista Melado e o Guga Schultze, além do Cleuber, do Irrthum, da Chantal e do João Marcos. Acho que este seria o primeiro time dos quadrinhos por aqui atualmente.

(CONTINUA)

27/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte3.


Última parte de nossa entrevista e Brian Bolland fala de como desenhar super-heróis (em quê nós discordamos sobre o quão bem ele faz isso), de suas fantásticas capas para Animal Man e The Invisibles, seus projetos pessoais, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais.

Wellington Srbek: Ninguém desenha os personagens da DC melhor que o senhor! Seu estilo detalhado com linhas clássicas e cores brilhantes dá a eles volume, peso, personalidade e vida. Seu desenho tem algo da “Era de Prata” e é ao mesmo tempo completamente moderno. O senhor tem uma abordagem conceitual para como os super-heróis devem parecer?

Brian Bolland: Bem, eu cresci como um fã da “Era de Prata” e certos desenhistas daquela era eram meus ídolos. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. Temo que nunca fui um grande fã de Jack Kirby. Eu era mais fã dos artistas do que dos personagens e mais ligado nos quadrinhos como artefatos colecionáveis do que nas histórias. Eu queria muito desenhar como Neal Adams, mas nunca consegui isso. Eu sou fissurado em desenhos que sejam tecnicamente e anatomicamente bem desenhados, mas eu tenho consciência de que tem que haver muito mais que isso. Eu não acho que eu seja particularmente bom nos super-heróis. Meu trabalho parece mais europeu, uma vez que fico feliz com personagens que estejam parados, posando ou congelados no tempo, no lugar da ação agitada que é requerida pelos quadrinhos norte-americanos de super-heróis. De fato me é pedido ocasionalmente para recriar uma capa da “Era de Prata” e desenhar no estilo de Premiani, Kane or Curt Swan (e esses trabalhos são mais cópias na verdade!). Eu adoro a limpeza e a clareza das capas dos anos 60.

WS: Eu simplesmente adoro suas capas para a Animal Man! Elas trazem imagens marcantes e significativas que contribuem muito para as histórias. A da número 5, por exemplo, é uma obra-prima! Como era o processo criativo nessa série? O senhor lia os roteiros e então bolava os conceitos para as capas?

BB: Obrigado. Eu realmente prefiro capas especificamente ligadas à história em vez da imagem-pôster genérica. Eu me desespero quando o editor diz: “faça simplesmente uma cena de ação”. Eu respondo: “Sim, mas o que exatamente eles estão fazendo?!” Eu sempre pensei que a 2000 AD tinha uma mistura de ação, terror e comédia que funcionava muito bem e eu não estava vendo muito dessa combinação nos quadrinhos norte-americanos da época. Eu gosto dessa combinação e as capas da Animal Man permitiam-me fazê-la. Se me recordo corretamente, para criar as capas eu geralmente tinha o roteiro para ler. Eu lia e colocava estrelas marcando as páginas que tinham algo acontecendo que eu pensava que poderia dar uma capa. Muitas vezes, eu tinha idéias que me diziam algo que provavelmente não tinha sido notado [por outros]. A capa da n°39, por exemplo, é minha homenagem à capa da House of Mystery n°1, de 1951. A n°45 é uma paráfrase ou reciclagem de capa da Judge Dredd n°1 da Eagle. Minha grande favorita é a da Animal Man n°25.

WS: Suas capas para a série The Invisibles são estética e tecnicamente diferentes de suas capas para a Animal Man. Quais foram os principais desafios do trabalho nessa complexa série de Grant Morrison?

BB: O primeiro desafio foi o fato de que os roteiros não estavam disponíveis. Na verdade, eu logo passei a gostar disso e as capas ganharam uma vida própria. Elas eram uma combinação daquilo que a editora Shelly Roeberg queria, do que Grant Morrison queria (quando ela conseguia falar com ele ao telefone) e de qualquer idéia que surgisse na minha cabeça. As últimas doze edições eram apenas eu deixando minha mente voar livre. Especialmente as últimas capas das coletâneas. Eu poderia analisar cada capa e apontar todos os segredos por trás delas, mas isso tomaria um livro inteiro.

WS: Seu trabalho é reconhecido pelos desenhos detalhados, os belas texturas e contrastes em P&B, as expressões faciais intensas, as composições eficientes e por aí vai... O que mudou no seu processo criativo agora que o senhor não produz mais trabalhos em papel (substituído pelo comutador)?

BB: A única coisa que mudou foi a parte técnica. No fim, o computador é apenas um meio para eu alcançar o que quero. Eu estou extremamente feliz em deixar para trás todos os materiais complicados, como pincéis, canetas, aerógrafos e todas as tintas, nanquins e acrílicas. Coisas todas que precisavam ser lavadas. Agora eu posso desenhar e arte-finalizar sem quaisquer problemas e tenho ocasionalmente algumas vantagens extras como a cópia de imagens. Foto-colagem quando quero.

WS: Além de incríveis super-heróis, o senhor também desenha mulheres belíssimas e algumas páginas cômicas. Mas este é um lado de seu trabalho menos conhecido. Por favor, fale a seus fãs brasileiros sobre as séries The Actress & The Bishop e Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian surgiu como uma reação ao tempo que eu estava gastando em meus desenhos e minha obsessão por desenhar bem. Minha velocidade lenta estava impedindo que idéias surgissem num ritmo mais rápido. Então eu decidi que deveria desenhar uma página em duas horas e o personagem-título veio da primeira página que desenhei. Mas ele ganhou vida própria e agora eu gasto mais tempo desenhando-o. The Actress & the Bishop nasceu de uma simples ilustração que eu fiz em meu portifólio para a editora francesa Editions Deesse. Eu queria escrever e desenhar essa HQ tão bem quanto eu conseguisse. Havia uma particular qualidade inglesa nela e para contrariar o fato de que, pelo seu título, as pessoas possam pensar que ela é pornográfica ou algo assim, eu resolvi que iria escrevê-la em versinhos infantis. Eu curtia muito os filmes do Peter Greenaway. Eles tinham obsessões com números e contagem e coisas assim. As rimas em The Actress & the Bishop eram uma forma de dar a mim mesmo uma estrutura obsessiva.

WS: O senhor está produzindo agora capas para a nova minissérie em seis partes The Last Days of Animal Man (a ótima capa para o número 1 já foi comentada em uma postagem anterior aqui no Mais Quadrinhos, tendo me dado o impulso inicial para realizar esta entrevista). Depois disso, quais são seus projetos futuros?

BB: Mais viagens. Estou trabalhando num livro de fotos de uma semana que passei em Burma em 1988. Já mencionei isso? Estou produzindo uma nova história de The Actress & the Bishop. Continuando as capas para Jack of Fables, enquanto me quiserem nisso! Outros projetos pipocam, mas quem sabe se conseguirei acabar realizando-os.

WS: Brian Bolland, muito obrigado por esta entrevista! E obrigado pelo brilhante e belo trabalho!

BB: Obrigado a você!

23/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte2.


Segunda parte de nossa entrevista exclusiva e Brian Bolland fala sobre a obra-prima dos quadrinhos de super-heróis A Piada Mortal (atualmente disponível no Brasil em reedição de luxo pela Panini). Ele também nos conta como foi trabalhar com Alan Moore nessa marcante graphic novel, fala sobre quadrinhos “sombrios & violentos” e censura editorial.

Wellington Srbek: A idéia inicial para uma história especial com o Batman e o Coringa foi sua e foi também o senhor que sugeriu o nome de Alan Moore para roteirista do que veio a ser A Piada Mortal. Como foi trabalhar com Alan Moore nesta marcante graphic novel?

Brian Bolland: A primeira metade de sua pergunta está correta. Após Camelot eu estava na posição de escolher o que gostaria de fazer para a DC. Alan Moore, Kevin O'Neill, Dave Gibbons, Mick McMahon, etc. eram todos amigos meus dos tempos da 2000 AD. Alan e eu tínhamos alguns projetos que nós quase produzimos juntos, entre os quais estava uma revista Batman / Juiz Dredd. Alan e Dave tinham acabado de obter um grande sucesso com Watchmen. Eu era fascinado com o Coringa. Eu tinha visto o filme da década de 1920 O Homem que Ri [brilhantemente encarnado pelo ator alemão Conrad Veidt], do qual, dizem, Jerry Robinson tirou a idéia. Alan me perguntou que tipo de coisa eu gostaria de desenhar.
Naqueles tempos (e ainda hoje para mim, na verdade) o negócio de escrever quadrinhos e o de desenhar quadrinhos são completamente separados. O roteirista se senta em casa e escreve. O roteiro é enviado ao desenhista que o desenhará; e um não interfere no processo do outro. Foi assim com A Piada Mortal. Então, se me pergunta “como foi trabalhar com Alan?”, minha resposta é: eu pedi a Alan que a escrevesse. Ele a escreveu. Eu a desenhei.

WS: A Piada Mortal foi um quadrinho do Batman como nenhum outro antes. Foi também a história de origem do Coringa contada pela primeira vez. Foi realisticamente violenta e insana, sendo em parte responsável pela tendência dos quadrinhos “sombrios e violentos” que predominaram nas revistas de super-heróis no fim dos anos 80 e início dos 90. Mas, a despeito de toda a violência e das cenas terríveis, A Piada Mortal tem um dos desenhos mais belos e detalhados já feitos para o Batman. Quais são seus sentimentos em relação a essa incrível HQ?

BB: Quando o roteiro chegou, ele de fato continha coisas que ele não teria se eu o tivesse escrito. Eu pessoalmente jamais contaria uma história de origem do Coringa, por exemplo. Mas olhando para ela mais tarde, eu agora vejo que as partes que eu não teria incluído parecem bastante icônicas hoje. Eu às vezes penso que nós artistas britânicos que trabalhamos na 2000 AD trouxemos o caráter “sombrio & violento” conosco, quando fomos trabalhar para a DC.

WS: A primeira edição brasileira de Camelot 3000 teve uma cena de Tristan e Isolda censurada pelos editores daqui. E me parece que os editores da DC fizeram algo semelhante numa das páginas de A Piada Mortal, substituindo (ou te pedindo para substituir) os seios nus de Bárbara Gordon por um close do rosto dela. O senhor já teve algum problema com censura editorial?

BB: Eu nunca tive PROBLEMAS com censura editorial. Alguém na DC deve ter falado algo sobre aquela cena da Bárbara Gordon. Eu mudei aquele único quadro e acho que a melhorei. Eu sou ciente de todos os tipos de coisas que você não pode colocar numa capa. Nudez está fora de questão. Eu uma vez desenhei uma capa com o Robin que tinha umas estátuas gregas no fundo, que eu copiei de fotos. Entre as estátuas havia cinco mamilos visíveis. Todos foram apagados! Eu uma vez desenhei uma capa que tinha o Batman fumando um charuto. Bem, era o Hugo Strange com barba, vestido como Batman fumando um charuto. Não pude fazê-la. Talvez eles a tenham rejeitado em favor de uma idéia melhor, mas eu considero que existem várias regras não escritas que você não pode violar, e o Batman não pode ser visto fumando. E há questões legais. Eu uma vez desenhei uma capa do Batman que tinha o que parecia ser um membro da Ku Klux Klan montado num cavalo. Tivemos que acrescentar um logo no peito dele para mostrar que ele pertencia a alguma outra organização branca supremacista, pois a Ku Klux Klan tem advogados que poderiam processar!
Em agosto de 2009 vou viajar para uma convenção em Singapura. Para a ocasião, estamos imprimindo um livro contendo alguns dos meus esboços a lápis. Acabou que, infelizmente, vários dos desenhos, incluindo meus esboços favoritos da Tank Girl, não podem ser incluídos devido à postura muito conservadora das autoridades daquele país. Eu acredito que meus livros Bolland Strips! e The Art of Brian Bolland não estarão à venda lá pelo mesmo motivo.

WS: Depois de ter nos dado a versão definitiva do Coringa em A Piada Mortal, nós não vimos muitas outras histórias desenhadas pelo senhor. Quais são as razões para isso?

BB: Bem, após A Piada Mortal, muitos trabalhos me foram oferecidos. Tive que recusar muitos deles, mas as pessoas diziam “se você fizesse ao menos a capa...”. Produzir capas significa que, apenas daquela única vez, eu posso desenhar um monte de personagens que de outra maneira eu não desenharia. No verão de 1988, eu saí no que pensei que seria uma longa viagem pelo Oriente, então eu não estava disponível para compromissos de trabalho de longo prazo. Além disso, tendo trabalhado com o melhor roteirista e tendo me sido dado tanto tempo quanto eu quisesse para desenhar e eu mesmo arte-finalizar [A Piada Mortal], eu não queria dar um passo para trás. Desde Alan, eu não desenhei uma história significativa escrita por outro roteirista. Exceto por MIM. Eu de fato escrevi e desenhei "An Innocent guy" em Batman Black & White, "The Kapas" em Strange Adventures e "The Princess & the Frog" em (como era o nome?) True Romance. Além de Mr. Mamoulian e The Actress & the Bishop. Mas falaremos deles mais tarde.

A seguir: Animal Man, The Invisibles, fantásticas capas, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais!

19/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte1.


Sou capaz de comprar uma revista em quadrinhos simplesmente por ela ter uma capa desenhada por Brian Bolland. Mesmo! Tornei-me um fã desse brilhante artista britânico desde que vi seu trabalho pela primeira vez em A Piada Mortal, a marcante graphic novel do Batman e do Coringa escrita por Alan Moore. Em seguida vieram suas espetaculares capas para a revista Animal Man e outros trabalhos que o colocaram entre meus desenhistas favoritos dos quadrinhos. Nesta entrevista em três partes, Brian Bolland fala de seus primeiros trabalhos, suas histórias com Juiz Dredd, Camelot 3000, seus melhores trabalhos para a DC e muito mais. Espero que gostem!

Wellington Srbek: É realmente uma honra estar falando com o senhor! Vamos começar com uma pergunta biográfica: onde e quando nasceu e como a arte dos quadrinhos entrou em sua vida?

Brian Bolland: Em primeiro lugar, uma divulgaçãozinha do meu livro The Art of Brian Bolland, no qual respondo essa questão da forma mais completa e longa que eu possivelmente consigo. Então, resumindo: nasci em 26 de março de 1951 (no mesmo dia que o estimado desenhista José Luis García-Lopez e do biólogo e ateísta Richard Dawkins). Próximo à cidade inglesa de Boston (a Boston original, diga-se de passagem). Os quadrinhos norte-americanos começaram a ser importados para a Grã-Bretanha em 1959. Comecei a me interessar por eles em 1960-61, quando eu tinha dez anos. Comecei a desenhar minhas próprias versões amadorescas deles, mais ou menos na mesma época.

WS: O senhor tem uma formação em Artes e design gráfico, mas suas páginas e capas de quadrinhos mostram um profundo conhecimento e um verdadeiro amor por esta forma de arte. Que artistas de quadrinhos mais influenciaram sua visão e seu estilo?

BB: Eu passei cinco anos em diversas escolas de arte. Os quadrinhos não tinham ainda penetrado no ambiente das escolas de arte. Eu passei aquele tempo estudando toda a arte moderna e contemporânea. Parte dela eu gostava. Parte dela eu não gostava. Nunca fui muito bom com os Impressionistas. Quando ainda estava na escola de arte, eu gostava de Salvador Dali e René Magritte. Eu era impressionado com Ingres.

WS: Tenho dois ou três exemplares da reedição norte-americana da série Powerman que o senhor, Dave Gibbons e outros quadrinistas produziram para o mercado nigeriano. Acredito que esse foi seu primeiro trabalho pago com quadrinhos e também uma oportunidade para aprender o ofício de desenhista, certo?

BB: Está correto!

WS: Então vieram as histórias com o Juiz Dredd e as capas para a 2000 AD, que fizeram as pessoas realmente prestarem atenção em Brian Bolland. Como conseguiu esse trabalho e como era trabalhar na 2000 AD?

BB: Lá atrás, na segunda metade dos anos 60, havia os fanzines de quadrinhos. Pessoas como Dave Gibbons e meu amigo de perto de onde eu morava, Dave Harwood, eram atuantes neles. Em 1972, alguns de nós nos reunimos numa convenção de quadrinhos no Waverley Hotel em Londres. Em 1977, um dos meus amigos dos tempos de fanzinagem, Nick Landau, estava trabalhando como editor na 2000 AD e me pediu que desenhasse uma história do Juiz Dredd, substituindo um desenhista que tinha dado o fora. Eu tinha o mesmo agente que o Dave Gibbons (que foi quem nos conseguiu o trabalho em Powerman). Ele já tinha me conseguido trabalho em capas para a 2000 AD. Eu amava trabalhar na 2000 AD. Todas as pessoas envolvidas estavam entusiasmadas com esse novo personagem de sucesso. As histórias eram ótimas, e engraçadas. Nós estávamos impressionados com o trabalho de Mick McMahon. Infelizmente, a empresa que era a dona da 2000 AD não estava tratando muito bem os artistas freelance.

WS: Creio que o senhor foi o primeiro artista a trabalhar para o mercado norte-americano no que se costumou chamar de “a invasão britânica”. Por favor, conte a seus fãs brasileiros como isso aconteceu.

BB: Outro de meus amigos do universo dos fanzines era Richard Burton (não o ator!). Ele conhecia Paul Levitts, um outro ex-fanzineiro, de Nova York. Paul costumava publicar o The Comic Reader. Agora ele é uma figura importante na DC. Em 1979, Richard ouviu de Paul que o desenhista norte-americano Joe Staton iria a Londres para uma convenção e precisaria de uma mesa para trabalhar enquanto estivesse aqui. Ele desenhava a Green Lantern naquele tempo. Joe e sua esposa Hilarie vieram ficar conosco e eu assistia enquanto ele trabalhava na mesa de desenho de minha esposa, que ela não estava usando na época. Quando Joe soube que eu era um fã do Lanterna Verde desde que tinha dez anos, ele telefonou para seu editor, Jack C. Harris, e disse que estava no apartamento desse artista inglês e o que Jack achava de me deixar desenhar a capa daquela edição. Foi uma decisão arriscada da parte do Jack. Ele provavelmente havia visto meu trabalho em Juiz Dredd, que tinha sido visto apenas por uns poucos entusiastas nos Estados Unidos. Naquele tempo, antes das máquinas de fax ou dos e-mails ou dos computadores, parecia difícil trabalhar para o outro lado do Oceano Atlântico, então levou alguns anos até que resolvêssemos a logística da coisa.

WS: Camelot 3000 foi seu primeiro trabalho mais expressivo para a DC, e é também sua obra mais extensa. O que o senhor pode nos dizer sobre esta série em doze edições (agora graphic novel)?

BB: Bem, trabalho constante não veio da DC para mim logo de cara. Levou um tempo para eles descobrirem o que fazer comigo. Então o editor Len Wein e o roteirista Mike Barr tiveram a idéia para Camelot 3000. Fui escolhido para desenhá-la. Fui mandado numa viagem promocional para a San Diego Comic Convention e outros lugares. Eu nunca tinha sido tratado tão bem antes. Acho que aquela foi a primeira “maxissérie” impressa no padrão prestige, em papel de melhor qualidade que a usual.

A seguir: A Piada Mortal!

27/05/2009

Sete perguntas para o desenhista Rubens Lima.


Conheci Rubens Lima no início de 2008, quando eu procurava um desenhista para a reformulação de meu herói Solar. Rubens havia lido a versão original do personagem e se interessou em trabalhar comigo no novo projeto. Acertamos valores, prazos e iniciamos o trabalho. Em abril passado, lançamos Solar: Renascimento que foi a estréia de Rubens como desenhista de quadrinhos. Em breve lançaremos a revista Solar: Solo Sagrado, na qual seu trabalho deu um incrível salto qualitativo. Na pequena entrevista a seguir, vocês poderão saber um pouco mais sobre este promissor artista brasileiro.

Para começar, Rubens, algumas informações biográficas para os leitores do blog saberem um pouco mais a seu respeito: quando e onde você nasceu? É casado? Tem filhos? Gosta de futebol?

Vamos começar como uma declaração. Sou Brasileiro, casado, pai de dois filhos, tenho 29 anos, nascido em 23 de fevereiro, num dia de jogo do GALO [Clube Atlético Mineiro] contra o Palmeiras, pelo campeonato brasileiro do ano anterior.

Como e quando os quadrinhos passaram a fazer parte de sua vida?

Através do meu avó e do meu tio. Meu avó foi o primeiro a me proporcionar contato com uma revista em quadrinhos, a comics mesmo, uma Batman: Digital Justice. E o meu tio (na época residente de Medicina) me incentivou a leitura antes mesmo desta Batman, que eram os quadrinhos Disney, do Tio Patinhas, Pato Donald, que me cativaram de uma forma que acho que hoje só incentivaria uma criança se fosse um jogo de uma plataforma como PS3 ou coisa similar, tamanho meu deslumbramento naquele dia (detalhe que no mesmo dia fui também apresentado ao A Nightmare on Elm Street [A Hora do Pesadelo] e The Friday 13th [Sexta-Feira 13], marcante não?!).

Antes de Solar seus principais trabalhos foram ilustrações para livros de RPG e literatura de fantasia, certo? Você tem uma predileção pelo gênero da fantasia medieval ou isso foi uma circunstância de trabalho?

Tenho certeza que os dois, então diria que tive uma sorte tremenda, pelo casamento das oportunidades, mas Solar me acendeu de novo aquela chama do cotidiano, de que aquilo que faz parte do nosso dia-a-dia é muito mais interessante do que as comics se prestam tratando só do fim do universo, de um conquistador voraz ameaçando um planeta indefeso ou se esses ícones vão ao banheiro! Sabem, tem uma vida, dureza!

Em termos técnicos e de estilo, como foi fazer a transição da ilustração para os quadrinhos e da fantasia medieval para algo mais urbano e cotidiano?

Foi duro na época. Os 3 primeiros capítulos eu posso dizer muito claramente que são muito focados no direcionamento editorial do que um trabalho de entendimento profundo da minha parte sobre o que se tratava a história pra dispor das coisas certas no traço, mas a partir da transição do capítulo 4 para o capítulo 5, acredito que encontrei o ponto que você, Wellington, entendia como a transposição mais próxima da sua nova concepção do Solar.

Quando iniciamos nossa colaboração na reformulação do Solar, você me disse que um dos motivos para se interessar pelo trabalho era o fato de o Solar original ter tido um significado para você quando o leu nos anos 90. Queria que falasse um pouco sobre isso.

Acredito que tenha a ver com um fechamento de um ciclo semi-profissional pra algo maior, sabe! Uma transição da adolescência pra fase adulta, em que pra mim era necessário participar de algo que eu vi quando garoto e ter a certeza de que podia fazer melhor do que foi feito à época (na concepção do traço).

Agora que você está desenhando as últimas páginas de nossa colaboração na série Solar, qual seu balanço pessoal deste trabalho? Para mim, há uma incrível evolução do capítulo 1 ao capítulo 7.

A evolução é notável, foi enriquecedor de todas as formas, profissionalmente cresci, aprendi muito, me tornei um profissional melhor, além de tudo isto, ganhei um amigo, uma pessoa sincera acima de tudo. No final, entre mortos e feridos salvaram-se todos.

Para encerrar, como você vê o mercado de ilustração e quadrinhos no Brasil hoje? Quais são suas perspectivas para o segundo semestre e os próximos anos?

Até tivemos uma discussão sobre este assunto, e tenho perspectivas diferentes em relação ao mercado de quadrinhos. Enquanto não houver uma política para auxiliar as publicações nacionais, como diminuição dos impostos, e não o apoio a um só projeto específico que não contribui para um crescimento geral, mas sim para um ganho exclusivo, não vejo crescimento uniforme do mercado, continuando as publicações a serem tratadas como projetos, e não como um produto a ocupar um espaço no cotidiano e nas prateleiras do Brasil. No caso das ilustrações, o espaço é muito maior e tem editoras que pagam quantias até decentes, apesar de serem trabalhos esparsos, que já conta com gente boa atuando, ou seja, tem que ralar pra ficar bom, pra entrar.

10/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte3.


Parte final de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchmen, explica tudo sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e também quais são seus novos e futuros projetos.

Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfonia: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e simetrias. As duas analogias nos dão a idéia de “um todo que é mais do que a soma de suas partes”. Mas, para o senhor, o que Watchmen representa?

Dave Gibbons: Sim, eu creio que, você sabe, no próprio livro nós fizemos analogias ao mecanismo do relógio (a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos internos de um relógio). Dito isto, eu sempre considerei a abordagem de Alan para a escrita um pouco tipo a abordagem de Mozart para a música, você sabe, ele vê a coisa toda em sua cabeça, ele tem a sinfonia toda em sua cabeça, com todas as partes, ele escreve muito detalhadamente. E então, enquanto desenhista, você essencialmente interpreta isso, você essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então... Sim, eu creio que essa é uma analogia muito boa, e eu acho que meio que a tomo como sendo o que Watchmen representa para mim, você sabe, qualquer coisa escrita, qualquer coisa conjunta, sempre acontece parte por parte, e só mesmo depois de tudo acabado é que você pode se reclinar e admirar a paisagem. Então, ahn... Sim! É uma sinfonia, é um mecanismo de relógio.

WS: O senhor acaba de lançar Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Por favor, fale-nos desse livro.

DG: Bem, como eu disse, ele foi publicado pela Titan, tem 257 páginas, traz um monte de esboços, os rascunhos para as páginas da série inteira, traz páginas do roteiro de Alan, cartas que trocamos, traz cartas para a DC, traz fotos da divulgação [da série original], traz páginas não-publicadas, traz estudos que nunca utilizamos, traz esquematizações e planos, e também traz um comentário escrito por mim (ah, minha história de como Watchmen veio a existir, desde bem no início). Ahn, ele também traz um ensaio muito interessante de John Higgins, sobre como ele a coloriu. E [o livro] é exclusivamente sobre a revista em quadrinhos, ele não faz qualquer menção sobre... ah... o filme ou qualquer coisa relacionado a isso. Eu queria que ele fosse uma celebração da, você sabe, experiência criativa que Alan e eu tivemos, que foi uma experiência criativa muito positiva e agradável. Ele não se detém nas áreas da... ah... contenda ou disputas entre Alan e a DC Comics, porque não se trata desse tipo de livro (você sabe, um livro assim pode muito bem aparecer no futuro, [mas] é um outro livro). Realmente, é uma muito detalhada e muito densa celebração de como foi criar Watchmen.

WS: Um amigo me trouxe dos Estados Unidos seu pôster promocional para o filme Watchmen. Logo, acredito que o senhor está feliz com essa adaptação da HQ. Quais são suas expectativas para o filme?

DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, desde minha primeiríssima conversa com Zack Snyder eu tive uma boa sensação sobre ela. E certamente cada nova coisa que vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi metade das cenas do filme em agosto, e eu gostei demais (não estava acabado, muito da computação gráfica não estava pronto, mas foi absolutamente envolvente e fascinante). Desde então, eu vi... ah... ambos os trailers e vi os vinte e cinco minutos mais ou menos de cenas que Zack mostrou aos jornalistas, e estou tomando parte da “turnê” de Watchmen e… Sim, eu sinto que foi feito devidamente, que foi feito tão bem quanto qualquer um poderia razoavelmente esperar. Ahn, e... eu estou realmente aguardando para vê-lo nos cinemas e ver como todos reagirão a ele. Eu tenho a sensação de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. É claro que há aqueles fãs empedernidos, absolutamente radicais (que eu compreendo) para os quais nada a não ser uma adaptação palavra por palavra, imagem por imagem, linha por linha, jamais agradará. Creio [porém] que você precisa ser um pouco mais realista quanto a isso. No final das contas, creio que é preciso ter algo que seja um bom filme, algo que o espectador de cinema mediano considere que valha a pena ir assistir.

WS: Recentemente, o senhor terminou a saga de Martha Washington, escrita por Frank Miller, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são seus planos para 2009 e o futuro próximo?

DG: Bem, no que diz respeito a Martha Washington, nós vamos reunir tudo num formato estendido, com mais de 500 páginas, será uma edição definitiva e trará novas introduções escritas por Frank e por mim, e eu espero que traga toda e qualquer aparição de Martha. Porque as aparições dela foram relevantes esparsadamente, nós queremos reunir tudo de forma que os leitores possam ler tudo num só lugar. Eu recentemente fiz uma HQ curta de Hellblazer para a DC, a qual eu escrevi [e que será publicada este mês, na edição especial n°250 da revista de John Constantine] (um personagem que estranhamente me agrada). Ahn... Realmente agora meu tempo está tomado pela promoção de Watchmen, pelo licenciamento, consultoria. Ahn, eu espero trabalhar num projeto de direitos autorais reservados no ano que vem, com um roteirista com o qual eu nunca trabalhei antes (não posso realmente dizer mais nada sobre isso, porque obviamente simplesmente não me cabe definir como isso será anunciado). Mas, sim, eu estou mesmo é curtindo a "turnê" do circo Watchmen e esperando o filme ser lançado e, algum tempo depois, voltar a fazer algum trabalho honesto.

WS: Muito obrigado por esta entrevista!

DG: Muito obrigado por seu interesse e saudações para meus fãs e amigos aí na América do Sul!

05/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte2.


Parte2 de nossa entrevista e Dave Gibbons explica como surgiu a obra-prima Watchmen, como foi sua abordagem do descomunal roteiro de Alan Moore e também seus principais desafios ao criar um trabalho tão extenso e sempre visualmente coerente.

Wellington Srbek: “Chronocops” para a 2000 AD e “For the man who has everything” para o anual de 1985 do Super-Homem são duas de minhas parcerias Moore/Gibbons favoritas...

Dave Gibbons: Minhas também.

WS: Todavia, nada que se compare à obra-prima Watchmen, que foi um “salto quântico” na qualidade e complexidade do trabalho que vocês estavam fazendo então. Como e quando o projeto surgiu?

DG: É meio uma longa história. Eu na verdade escrevi um livro intitulado Watching the Watchmen (publicado pela Titan, a qual não sei se tem planos para uma edição brasileira, embora o livro conte a história completa). Alan e eu nos encontramos numa convenção em 1980, nos anos seguintes nos tornamos amigos e trabalhamos juntos em histórias curtas para a 2000 AD, que culminaram em “Chronocops”. Ahn... Nós realmente queríamos trabalhar juntos em algo mais longo, que foi o motivo pelo qual escrevemos para a DC as propostas [de reformulação] de Desafiadores do Desconhecido e Ajax o Marciano, mas nada disso veio à luz, porque os personagens já tinham sido prometidos a outros escritores e desenhistas. Então, você sabe, quando tivemos a chance de trabalhar em algo maior, nós pulamos sobre ela. E Alan sempre gostou de contar às pessoas sobre as histórias nas quais ele estava trabalhando, mesmo antes de tê-las começado. Ele tende a planejar as coisas em grande detalhe antes de começar. Ele costumava me contar sobre coisas em que estava trabalhando com outras pessoas. Mas eu, na verdade, soube de Watchmen através de um amigo mútuo, um cara chamado Michael Colins (se me lembro bem), ah, que disse: “Oh, você ouviu falar que Alan está trabalhando num projeto que vai tratar os personagens da Charlton para a DC?”. Eu liguei imediatamente para Alan, ele me enviou a sinopse, e eu realmente gostei dela e disse que gostaria de desenhar o projeto, e ele disse: “Ótimo!”. Umas duas semanas depois disso, eu fui aos Estados Unidos e numa convenção me reuni com Dick Giordano, que era o editor administrativo da DC, e eu disse: “Sabe esse projeto que Alan está fazendo com os personagens da Charlton, eu realmente gostaria de desenhá-lo”. E Dick disse: “O que Alan acha disso?”. E eu disse: “Ele quer que eu desenhe”. E Dick disse: “É seu!”. Então, foi bem assim que o projeto surgiu.

WS: Olhando as páginas de roteiro ao final de Absolute Watchmen, parece-me que você desenvolveu um sistema para trabalhar com Alan Moore, marcando seu texto com diferentes cores (amarelo para a informação visual principal, vermelho para detalhes e azul para o diálogo). Enfim, qual foi sua abordagem desse roteiro?

DG: Bem, os roteiros do Alan são sempre muito “palavrosos”, muito “conversativos”, tratando muito de te dar opções, falando em torno do objeto e, você sabe, dando a você provavelmente mais informação do que você realmente poderá usar. Assim, uma das coisas que você tem que fazer é assumir o controle do roteiro e tirar dele o que você precisa para desenhá-lo da forma como você o vê. Assim, eu achei que o sublinhamento era uma maneira muito boa de fazer isso. E também, após umas duas leituras, eu gosto de fazer esboços reduzidos das páginas, o que significava então que eu podia transferi-los para a prancha de desenho e eu podia fazer o letreramento dos diálogos. Eu estava então suficientemente familiarizado com a história, e eu provavelmente não tinha que olhar para o roteiro de novo, eu não precisava ler três dúzias de páginas para descobrir o que eu tinha que desenhar. Então, sim, de muitas maneiras minha parte era a de fazer uma seleção.

WS: Watchmen é uma complexa revista em quadrinhos de super-heróis realística, um premiado trabalho que muitos consideram a melhor graphic novel já criada. Minha pergunta é: qual foi seu principal desafio ao criar esse quadrinho?

DG: Ahn... Bem, eu suponho que seja o desafio que como um artista de quadrinhos você sempre tem, que é contar a história em imagens. E neste caso era uma história muito detalhada, muito complexa, muito rica, com várias nuances, que requeria que personagens fossem desenhados em diferentes idades, em diferentes locais. Assim, ele realmente testou minhas habilidades de desenho, minha capacidade de apresentar personagens consistentemente críveis, minha simetria de fundo, a dimensão do real. Foi realmente, você sabe, apenas uma versão exagerada dos desafios que se tem em qualquer outro trabalho.

WS: Lendo Watchmen do início ao fim nós temos essa sensação de uma realidade completa em 360°. O senhor, é claro, é um desenhista muito habilidoso, mas é admirável como as mais de 400 páginas da HQ têm sempre esse visual coerente, com as sugestivas cores feitas por John Higgins. Como o senhor fez para alcançar tal coerência num trabalho tão extenso?

DG: Bem, novamente é como a resposta para a última questão. O que desenhar quadrinhos realmente se trata é de alcançar coerência, fazendo coisas consistentes, e nunca arrancando o leitor da história por ter desenhado algo que não encaixa. Ou seja, eu fiz... Novamente, em meu livro Watching the Watchmen você pode ver diagramas, planos, esquematizações de coisas (como o vidro de perfume voando pelo ar, após Lauren tê-lo lançado em Marte, [esquematização que fiz] para ter certeza de que o movimento estava consistente e que ele se movia crivelmente contra o fundo fixo de estrelas). Provavelmente, esse é um trabalho que ninguém irá notar, todavia é algo que num nível subliminar dá aquela sensação de que um lugar realmente existe ou de que algo realmente aconteceu. Havia uma série de quadrinhos chamada Dan Dare (uma série de ficção científica), para a qual eles na verdade tinham o tempo e o orçamento para construir modelos e tudo mais, e quando você a lia, você realmente sentia que estava vendo algo desenhado do real, você sabe, que aquelas coisas incríveis tinham sido desenhadas do real. E embora eu tenha desenhado Watchmen de uma forma estilizada, eu queria que ele tivesse aquele sentimento de consistência interna. E, você sabe, quando está desenhando quadrinhos, de qualquer maneira você já traduz realidade em código e, na minha forma de pensar, os melhores artistas de quadrinhos são gente como Jack Kirby ou Steve Ditko, que claramente não desenham de forma realística, mas que têm um código consistente para interpretar a realidade. Assim, esse é o tipo de coisa que eu tentei fazer quando desenhei Watchmen. E, como você diz, as cores de John Higgins são fantásticas, e certamente ele teve muito trabalho para mantê-las consistentes e bem de acordo com o que acontecia na revista... na história, melhor dizendo. Às vezes, você sabe, ele já tinha colorido algo, antes de perceber que devia ter sido colorido de outra maneira. Mas, felizmente, ele pôde cuidar dessas questões na Absolute Edition, fazendo a colorização enfim completamente consistente.

A seguir: mecanismos, sinfonias, filmes e mais...

01/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte1.


Dave Gibbons é um dos mais importantes autores britânicos de quadrinhos. Entre diversos trabalhos, ele foi o desenhista de Watchmen, a série em doze partes escrita por Alan Moore, que muitos consideram a melhor graphic novel já criada. Nesta entrevista exclusiva em três partes, feita por e-mail e MP3, Dave Gibbons fala de antigos trabalhos, da criação da obra-prima Watchmen, do que ele pensa sobre a adaptação para o cinema que estréia em março de 2009, de seu novo livro, projetos futuros e muito mais.

Wellington Srbek: É uma honra estar conversando com o senhor.

Dave Gibbons: Obrigado! Uma honra estar conversando com você.

WS: Por favor, diga a seus fãs brasileiros onde e quando o senhor nasceu e como os quadrinhos entraram em sua vida?

DG: Ahn... Eu nasci em Londres. Eu nasci em 1949, muito, muito tempo atrás (mais tempo do que eu realmente gostaria de pensar). E como os quadrinhos entraram em minha vida? Bem, eu acho que quando pequeno eu costumava ganhar quadrinhos infantis, você sabe, animais familiares, coelhos, ursos, e esse tipo de coisa. E eu também ganhava uma revista em quadrinhos britânica chamada The Beano, ainda publicada até hoje, que tem sido publicada desde os anos 30 (é a revista na qual todos os britânicos pensam quando ouvem a palavra “quadrinhos”). Ahn... Eu também tenho a clara lembrança de, por volta dos sete anos, ter ganhado do meu avô minha primeira revista do Super-Homem... ahn... e eu acho que daquele minuto em diante os quadrinhos me conquistaram.

WS: O senhor começou sua carreira trabalhando em séries de terror e ação, mas foi nas revistas de ficção científica 2000 AD e Doctor Who que pôde desenvolver seu trabalho. Os primeiros quadrinhos norte-americanos que o senhor desenhou (as histórias de Green Lantern Corps) também tinham a ver com a FC. Enfim, o senhor tem uma predileção por aquele gênero em específico?

DG: Bem, eu tenho. Eu venho sendo um leitor de ficção científica a maior parte de minha vida. Não tenho lido muita ficção científica nos últimos tempos (eu acho que há um limite para quantas vezes você pode ler as palavras “hiperpropulsão” e “teletransporte”). Eu passei a ler [histórias de] crime, [obras de] não-ficção e tudo mais. Eu ainda tenho amor pela ficção científica, e acho que ela funciona particularmente bem nos quadrinhos. Você pode fazer qualquer coisa nos quadrinhos, então porque fazer algo que seja completamente cotidiano? É importante ser capaz de desenhar coisas de forma que pareçam críveis. Então, desenvolver-se no cotidiano é na verdade algo muito bom. Ah... Mas eu penso que quando você quer explorar as possibilidades da linguagem um pouco mais, você quase inevitavelmente direciona-se para coisas que vão além da vida comum. E a ficção científica, você sabe, é certamente algo assim.

WS: O senhor se tornou internacionalmente famoso trabalhando em quadrinhos de super-heróis norte-americanos, mas já tinha trabalhado previamente numa série africana de super-heróis: Powerman. Era uma espécie de Super-Homem negro publicado na Nigéria, certo? Dê-nos uma idéia do quê era esta série.

DG: Eu trabalhava através de um agenciador de artistas em Londres. Ele foi contatado por uma agência de publicidade da Nigéria, com a idéia de produzir alguns quadrinhos para o mercado nigeriano. Na época, a maioria das reedições nigerianas dos quadrinhos norte-americanos e britânicos traziam, você sabe, pessoas brancas e loiras, e eles [da agência de publicidade] pensaram que seria uma boa idéia (eu imagino que do ponto de vista mercadológico e publicitário era mesmo uma boa idéia) dar às pessoas negras seus próprios heróis. Nós ficamos admirados de que não tivesse gente na Nigéria que pudesse desenhar e escrever os quadrinhos, mas eles disseram que, você sabe, possivelmente nós começaríamos o trabalho e depois, você sabe, criadores locais assumiriam. Ahn... Bom, havia um par de revistas: uma chamada Powerman, uma chamada Pop. Powerman trazia Powerman, e também um xerife, um xerife negro, um escravo liberto no Velho Oeste, e uma história sobre uma invasão alienígena na qual os alienígenas invadiam a África, em vez de a América do Norte. Havia uma outra [revista] chamada Pop, que trazia uma enfermeira negra e um par de outras idéias das quais eu realmente não consigo me lembrar. Elas eram escritas por roteiristas britânicos e desenhadas por mim, Brian Bolland, Carlos Ezquerra (que depois veio a desenhar Judge Dredd) e eram revistas quinzenais, em P&B com uma cor adicionada (vermelho). Brian Bolland e eu nos alternávamos nas edições, comigo de vez em quando ajudando Brian quando ele estava atrasado no prazo de entrega. Elas foram posteriormente impressas na África do Sul, com o fato bem infeliz de que lá parecia haver “quadrinhos de Apartheid”, você sabe, os brancos tinham os quadrinhos deles e os negros tinham os quadrinhos deles. Mas essa nunca foi a intenção com o trabalho original, e parecia que qualquer pessoa branca que nós tínhamos desenhado era um malvado loiro ariano do pós-guerra feito de encomenda, que o Powerman despachava no ato.

WS: O senhor fez parte da “invasão britânica” que mudou os quadrinhos norte-americanos nos anos 80, seguindo o sucesso de Alan Moore na revista do Monstro do Pântano. Naquele momento, o senhor sentia que estavam fazendo uma revolução nos quadrinhos norte-americanos, e produzindo trabalhos que se tornariam clássicos?

DG: Eu suponho que houve algo como uma invasão britânica, que começou na verdade com Barry [Windsor-]Smith no início dos anos 70. Ele foi o primeiro cara britânico que eu tenho notícia de ter trabalhado para os quadrinhos norte-americanos. Depois do Barry Smith, eu acho que Brian Bolland foi o próximo britânico a publicar [nos quadrinhos norte-americanos], ele fez algumas capas para a Green Lantern no final dos anos 70. Ahn... Na verdade, eu comecei a trabalhar para a DC antes do Alan, e estávamos tentando fazer as coisas seguirem para a DC, quando eu recebi um telefonema uma noite ...ahn... do Len Wein, perguntando se eu tinha o número do Alan Moore, porque achava que ele poderia, você sabe, fazer uma boa tentativa de escrever a revista do Monstro do Pântano, e como todos sabemos Alan não fez uma “boa tentativa”, ele revolucionou completamente o personagem, a ponto de realmente produzir um clássico. Ahn... Eu suponho que, você sabe, fosse uma ambição para nós britânicos, que crescemos lendo quadrinhos norte-americanos, um dia trabalhar nos quadrinhos norte-americanos, e dado que o mercado deles era muito melhor (eles pagavam mais, devolviam todo o trabalho, até mesmo davam as pranchas para desenharmos), não é de se admirar que tenhamos ficado muito felizes em trabalhar para eles. E eu acho que, você sabe, nós entendíamos os personagens deles bem o bastante para desenhá-los num estilo similar, embora tivéssemos uma levemente diferenciada... ah... visão britânica deles. E a postura britânica é meio que sempre ser levemente desconfiado de pessoas que sejam superiores, e talvez tenhamos trazido um pouco disso para os super-heróis. Contudo, deve ser dito que se não amássemos realmente os personagens, eu não acho que poderíamos ter feito o que fizemos com eles.

A seguir: Watchmen!

30/06/2008

Cleuber, um último rebelde do Rock.


Cleuber Cristiano é um dos mais talentosos quadrinistas da nova geração. Desde o final dos anos 90, temos visto seus desenhos e suas idéias em publicações independentes de todo o país, com destaque para sua melhor e mais original criação, a banda de rock-grunge-underground Arroz Integral. Numa tarde dessas, em 2001, fui até sua casa para uma entrevista e, ao som de Nirvana, rodeados de desenhos, pôsteres de rock e mulheres seminuas, tivemos uma conversa honesta sobre sucesso, Arroz Integral e rock’n’roll.

Nós os conhecemos pelas tirinhas, mas quem são Crof, Berly e Nico?


Nico é um cara que não tem muita perspectiva de vida, é um cara mais na dele. Ele tem a banda como um refúgio do mundo real, do mundo social, saca? O Berly é o “muleque” que tem a capacidade de se igualar a gênios como Albert Einstein, mas ele reprime isso, reprime os conceitos dele, talvez ele se sente assim pela própria sociedade mesmo e ele prefere se esconder, fingir que não é nada. O Crof é a peça principal do Arroz Integral, porque ele é o cara que sonha alto, tem alto astral, é empolgado demais, saca? Acho que é ele “que não deixa a peteca cair”.

Nico usa vestido e tem o mesmo nome da alemã que cantava com o Velvet Underground...

Que massa, cara, eu não sabia! Fiquei feliz por saber isso...

Pois é. Os leitores não têm razão de confundi-lo com uma mulher?

Têm. Ele era bicha. O Arroz Integral tem que revelar muita coisa ainda.

Kurt Cobain (líder da banda Nirvana, que se suicidou com um tiro em 1994) é seu grande ídolo. O que você tem a dizer a ele?

A ele!? Porra, essa... Deixa eu pensar... O Rock tá uma porcaria sem ele, por isso eu formei minha banda.

Qual das duas? A do mundo real ou a dos quadrinhos?

A Dowdy.

Suas tirinhas expressam bem o que seria o espírito grunge. Mas o que hoje é chamado de “grunge” faz jus ao Arroz Integral?

Não. O conceito grunge que é transmitido nas tirinhas é mais a filosofia underground do que o próprio grunge. Na verdade o Arroz Integral não é uma tirinha grunge, é uma tirinha comum.

Mas a influência do grunge de Seatle na origem do Arroz Integral é evidente.

É porque eu acho que o grunge tinha muito do underground, era diferente, era mais tosco do que hoje. Eu procurei passar essa visão que eu tive do grunge, que é o lance mais importante prum público do quadrinho. Eu acho importante registrar a passagem do Rock dos anos 80 e 90 no quadrinho, cinema, onde for, mas tem que ser lembrado, saca?

Apesar de falar de uma realidade restrita, a das bandas iniciantes, suas tirinhas conquistaram um público de poucos mas significativos leitores. A que você atribui isso?

Ao underground e aos verdadeiros fãs do Arroz Integral, são eles que fizeram tudo e estão fazendo.

A idéia dos “discos quadrados” é uma boa metáfora para o quadrinho independente. Mas você não sente uma vontadezinha mórbida de fazer muito sucesso?

(risos) De um dia ser igual ao Robert Crumb! O porquê de ser igual ao Crumb é porque eu acho muito massa o que ele fez. Não, eu não acho, não... Mas eu gosto dos trabalhos dele, e muito. Peraí cara, agora é sério! Eu só quero que a grande massa veja meu trabalho, mas minha intenção não é explorar o leitor, como o Angeli faz. Eu não penso em fazer tirinha pra ficar milionário, mas que pelo menos dê pra comer e vestir.

Suas tirinhas têm se tornado mais críticas com o tempo. Por quê?

Ah... Humm... Vai de acordo com o que eu tô vivendo, cara. Onde eu vejo alguma coisa que tem que ser criticada eu critico. Eu acho que através da crítica é que se faz as pessoas pararem pra pensar duas vezes.

Agora que você está envolvido com outra banda, a Dowdy (cantando e tocando guitarra), haverá tempo para o Arroz Integral?

Não. Só se eles quiserem abrir show pra gente... (risos) Tem que saber separar as coisas e eu estou me organizando pra isso.

O que o futuro reserva para os integrantes do Arroz? Sucesso, suicídio, overdoses ou mais arte?

Hummm... Só o Henfil sabe!

O Henfil?

É. Porque ele tá no Céu. Eu num faço plano pro Arroz Integral, eu num sei como vai sair o próximo número do fanzine.

Por fim a velha pergunta de sempre, como criador o que os quadrinhos são para você?

Uma bosta! Tô zuando, num vai escrevê isso aí, não.

Claro que vou!

Na verdade significa muita coisa. Quando eu tava na primeira série eu tomei bomba porque eu não sabia nada. Foi só quando minha mãe comprou uma revista em quadrinhos pra mim que eu passei de ano. O quadrinho é uma arte sem limite. Ponto final.