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05/11/2017

Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos!


Lançado em formato e-book pela Balão Editorial, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos reúne dezenas de artigos escritos para jornais e internet, tendo como tema os quadrinhos, filmes, seriados e desenhos de super-heróis. Partindo das origens desse gênero tão popular e abordando as principais revistas e personagens, desde os anos 1930 até fins do século XX, o livro traça um amplo panorama desse importante fenômeno cultural.

Disponível na página da editora, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos também pode ser adquirido em outras plataformas e livrarias virtuais como a AMAZON.

31/12/2009

O incomparável “Livro III” de Miracleman.


Quando o “Livro III” de Miracleman começou a ser publicado no primeiro semestre de 1987, haviam se passado cinco anos desde que o personagem fora relançado nas páginas da Warrior. Nesse meio-tempo, Alan Moore deixou de ser um roteirista inglês relativamente desconhecido para se tornar (ao lado de Frank Miller) um dos astros do mercado norte-americano. Ele já havia alcançado grande reconhecimento ao reformular o Monstro do Pântano (lançando as raízes para o que viria a ser mais tarde o selo Vertigo) e deixava todos na época estupefatos com sua dissecação dos super-heróis chamada Watchmen (a melhor e mais influente abordagem “realista” desse gênero). Com o próprio Marvelman / Miracleman, o roteirista já havia inovado ao lançar a primeira reformulação racionalista de um personagem tradicional (que influenciava as recriações dos principais heróis da DC e a concepção básica do Novo Universo Marvel). Então, superando as expectativas, em seu volume final de Miracleman, Moore foi mais além!

Na segunda metade dos anos 80, no rastro de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, e sob o rótulo do “realismo”, uma onda de quadrinhos mais sombrios e violentos tomou conta das revistas de super-heróis. Estando no auge de sua carreira, esbanjando talento e criatividade, Moore não se contentou em seguir as tendências do mercado e produziu Miracleman: Olympus, uma HQ de super-heróis quase surrealista. Publicado entre os números 11 e 16 da revista, esse terceiro volume foi o único a contar com apenas um artista, o talentosíssimo John Totleben. E uma vez que as histórias eram publicadas cinco anos após o início da série, brilhantemente, Moore incorporou essa informação à narrativa, fazendo de Olympus um livro narrado em retrospectiva. Tudo começa num maravilhoso e monumental palácio-montanha, construído sobre os escombros de Londres, onde o herói que ascendeu à condição de divindade começa a refletir sobre “a sensação de se viver numa mitologia” (enquanto escreve suas memórias num livro de páginas de aço).

As metáforas e referências mitológicas perpassarão o “Livro III”, a começar pelos títulos de seus capítulos: “Cronos”, “Aphrodite”, “Hermes”, “Pantheon”, “Nemesis” e “Olympus”. E é nesses termos que os dois agentes alienígenas vistos ao final do “Livro II” são reapresentados, já que pertencem à civilização dos Qys, responsável pela tecnologia do “infraespaço”, e vieram à Terra destruir as criaturas geradas através dela, sendo assim equiparados ao titã Cronos que devorava / destruía seus filhos. Ou como expressa poeticamente o próprio Miracleman: “Eu não os conhecia então enquanto titãs, eu não sabia que Cronos havia chegado para confiscar os raios de um delinquente Zeus. Isso foi antes de tais conceitos serem definidos, ou inscritos, incandescentes, no aço imortal”. O que se segue é um embate entre monstros alienígenas transmorfos e um surpreso herói superpoderoso, tudo numa dinâmica e variada sequência narrativa, embelezada pelo expressivo traço de Totleben e o poético texto de Moore. Em outros termos: um começo nada menos que genial!

Ao descobrirem sobre Winter (a filha de Miracleman e Liz Moran), os agentes alienígenas concluem que sua missão é mais complexa do que pensavam. Com isso, enquanto um deles neutraliza o pai, o outro parte em busca da filha, mas todos acabam surpreendidos pela intervenção de Miraclewoman (a personagem superpoderosa que se manifestara no último capítulo do “Livro II” e permanecia desconhecida). Comparada na narração à deusa Afrodite, ela será o centro das atenções no segundo capítulo, que narra a história de como essa heroína também foi criada por Gargunza. Ressalta-se aí o tom sensorial e sensual da narrativa, unido às imagens detalhadas e amplas que, em conjunto, reforçam o caráter erótico e quase surrealista da HQ. O resultado é um dos raros quadrinhos de super-heróis que lida com o tema da sexualidade de uma forma madura. Ao final do capítulo, sabemos um pouco mais sobre a intrincada trama concebida por Moore e presenciamos a chegada de um casal de Warpsmiths (superpotência interestelar inimiga dos Qys).

Os Warpsmiths surgiram na Warrior n°4, no interlúdio “The Yesterday Gambit” (que mostra uma possível batalha futura entre Miracleman e Kid Miracleman), voltando a aparecer na história “Cold war, cold warrior” (publicada nos números 9 e 10 da Warrior, e mais tarde republicada em cores pela Eclipse). Mantendo uma espécie de “Guerra Fria” com os Qys, os Warpsmiths são alienígenas capazes de dobrar o espaço-tempo à sua vontade, sendo identificados com o veloz deus Hermes. Passado num mundo extraterrestre, esse terceiro capítulo pode ser comparado a outras tentativas de se criar civilizações alienígenas. Contudo, a concepção original e o texto simbolista de Moore têm uma ousadia temática e um caráter peculiar que causam ao leitor o estranhamento de se estar diante de algo que parece mesmo alienígena (por exemplo, no caso do-da rei-rainha Qys: uma gigantesca massa celular disforme e hermafrodita). E se tudo se acerta entre as superpotências interestelares, é quando Miracleman retorna à Terra que as coisas começam a se complicar.

Humana, num mundo agora povoado por seres imortais e superpoderosos, Liz Moran entra em crise. Antes mesmo de engatinhar, Winter voa de seu berço e começa a discorrer sobre o estado mental de sua mãe. As coisas se “normalizam” um pouco quando Miracleman e Miraclewoman são convidados a visitar a estação espacial da qual os Warpsmiths passaram a monitorar a Terra. De lá, eles descobrem um outro ser superpoderoso, Firedrake, que teria a natureza apolínea de um “portador do fogo divino”. Com ele, o “glorioso Panteão” estava completo e a transformação do mundo numa utopia poderia começar. Mas, como em todo paraíso, aquele também tinha uma serpente. Vivendo numa instituição para jovens infratores, Johnny Bates (ainda um menino, por ter permanecido no ”infraespaço” por quase vinte anos) é atormentado pelo sádico Kid Miracleman (preso em seu inconsciente), enquanto sofre humilhações e agressões de outros internos. Quando estes o violentam, ele não suporta mais e se transforma em Kid Miracleman.

O que vem a seguir é Miracleman n°15, talvez a mais violenta HQ de super-heróis já produzida. Na época, Moore se referiu a ela dizendo que, após completar Watchmen, que considerava sua “declaração final sobre os super-heróis”, ele se viu às voltas com a obrigação de produzir uma outra declaração final sobre o gênero. E pode-se dizer que, neste caso, ele não deixou “pedra sobre pedra”! Lançada no final de 1988, a revista explora o que aconteceria se seres superpoderosos e virtualmente indestrutíveis se enfrentassem nas ruas de uma grande metrópole. Tendo de um lado Miracleman, Miraclewoman, Firedrake e os Warpsmiths, de outro o cruel e amoral Kid Miracleman, o resultado é a mais terrível devastação e carnificina. Mostrando chuvas de mãos e pés decepados, rios de sangue, corpos mutilados e descarnados, as imagens são tão explícitas e absurdas que chegam a ter um efeito surrealista. E se os desenhos já dizem muito, o texto repleto de metáforas e simbolismo dá uma dimensão épica a esse encontro do herói com seu nemesis.

Passados mais de vinte anos desde sua publicação, a penúltima edição de Moore para a Miracleman permanece inigualável em sua proposta de expor a violência implícita às HQs de super-heróis, levando-a a suas últimas consequências. Ela pode ser considerada também um dos melhores trabalhos de Totleben (que enfrentou muitas dificuldades durante seu trabalho na série, devido a uma doença degenerativa que atingiu seus olhos, limitando seu campo de visão e impedindo-o de trabalhar por longos períodos). Na edição final de Moore & Totleben, publicada apenas em fins de 1989, o herói feito divindade conclui sua narrativa sobre como um maravilhoso mundo novo foi construído sobre os escombros de Londres (pois como ele havia concluído antes: “não há nenhuma casa de deuses que não tenha sido construída sobre ossos humanos”). Ao longo do caminho, intervenções na política internacional, a limpeza do meio ambiente, a paz mundial, o fim da miséria e até mesmo superpoderes para todos e a ressurreição dos mortos tornam-se possíveis.

Em meio à construção da utopia (ou ditadura), temos uma sequência de sexo aéreo com Miracleman e Miraclewoman, um ritual fúnebre de sexo grupal dos Warpsmiths e um trecho polêmico em que Winter (então uma menina de quatro anos) refere-se a suas experiências sexuais na temporada que passou no espaço. Mas mesmo um “mundo perfeito” não está livre de problemas, afinal há os que não aceitaram a nova ordem mundial imposta pelas divindades cósmicas. A própria Liz Moran optou por não se converter num ser superpoderoso, preservando sua humanidade. Condição esta que Miracleman havia deixado para trás ao “enterrar” Mike Moran num capítulo anterior, embora parecesse nostálgico dela mais tarde, ao segurar um crânio nu (qual um contemplativo Hamlet). O capítulo final de Miracleman: Olympus, que tratou de maravilhas e imortalidade, conclui com uma apropriada reflexão sobre as escolhas e limitações que nos definem a todos, as quais chamamos de humanidade. E nunca antes uma série de super-heróis foi tão filosófica e pertinente!

Inovadora e inspiradora em seu início, irregular e prejudicada em sua continuação, a fase de Alan Moore à frente de Marvelman / Miracleman concluiu como uma das mais brilhantes e originais revistas de super-heróis já produzidas. Mesmo com a saída do roteirista, sua influência sobre a série permaneceria notável. Afinal, apesar das diferenças de proposta, o trabalho de Neil Gaiman (no “Livro IV” e no inacabado “Livro V”) e dos outros roteiristas que lidaram com o personagem (na minissérie Miracleman: Apocrypha) partiu do que havia sido construído por Moore (quando não de uma simples frase ou cena de uma de suas histórias). E tendo servido de modelo para outras HQs da época, a influência de Miracleman pode ser notada em trabalhos posteriores, como por exemplo Astro City de Kurt Busiek (cujo primeiro capítulo é um plágio de “Um sonho de voar”) e Authority de Warren Ellis (cuja primeira revista imita a devastação vista em “Nemesis”). Mas, apesar do prestígio e importância, a trajetória de Miracleman perneceria tumultuada.

Em 1994, a Eclipse foi à falência e seu acervo de personagens foi parar num leilão judicial. Com isso, em 1996, Todd McFarlane deu um lance de alguns milhares de dólares e comprou a editora “de porteira fechada”. Um problema é que esse leilão não levou em conta as diversas propriedades autorias sobre os personagens. O próprio Miracleman é um caso complexo, já que Moore havia passado seus direitos para Gaiman, mas outros autores (como Alan Davis) também se consideram proprietários das HQs produzidas a partir de 1982. Além disso, McFarlane e Gaiman acabaram se desentendendo sobre pagamentos relativos ao uso da personagem Angela (criada por Gaiman para a série Spawn). Para complicar, em 2001, McFarlane lançou uma estátua de Miracleman e divulgou que ele participaria da revista Hellspawn. Então, com parte dos lucros da minissérie 1602 (publicada pela Marvel), Gaiman criou a companhia Marvels and Miracles LLC, voltada a resolver a situação de Miracleman, o que deu início a um processo judicial contra McFarlane.

Passaram-se alguns anos até que um juiz decidiu a questão, definindo que McFarlane não tinha direitos sobre o personagem. Mas, a saga jurídica de Marvelman / Miracleman não se encerrou aí. No mesmo processo, descobriu-se que, ainda em 1982, o editor Dez Skinn não teria pago a Mick Anglo pelos direitos de usar o personagem na Warrior, o que gerou um novo entrave judicial. Então, em 2009, o editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, anunciou que Marvelman passava a fazer parte do acervo da editora (o que é bastante irônico, já que essa mesma editora havia criado os primeiros problemas judiciais para o personagem). O fato é que isso trouxe a possibilidade de o herói voltar a ser publicado, e também de que Gaiman conclua sua fase à frente da série. Mas, embora um acordo já tenha sido feito com Anglo e Moore, há ainda muitos acertos a serem feitos com os diversos autores que trabalharam na série. Logo, aos antigos e futuros leitores, só resta aguardar o dia em que Marvelman ganhará novas edições, à altura de sua qualidade e importância!

(No Brasil, Marvelman / Miracleman foi publicada no início dos anos 90 pela pequena editora Tannos. Nas quatro revistas em P&B que lançaram, os editores publicaram o “Livro I” completo e alguns capítulos do “Livro II”, além das HQs especiais “The Yesterday Gambit” e “Cold war, cold warrior”. A qualidade gráfica das edições deixava a desejar, com revistas em tamanhos e tipos de papel diferentes, mas a Tannos teve o mérito de tornar disponível aos leitores brasileiros ao menos uma parte dessa obra-prima dos quadrinhos.)

28/12/2009

O irregular “Livro II” de Marvelman / Miracleman.


Com a qualidade e a originalidade do “Livro I” de Miracleman, podia-se esperar algo ainda mais marcante para sua continuação. Porém, envolto em problemas editoriais, brigas pessoais, falta de talento de uns e aparente desinteresse de outros, o “Livro II” da série deixou a desejar. Trazendo os últimos capítulos publicados na Warrior e HQs produzidas pela Eclipse, essa segunda parte é a menos constante em termos visuais e a mais fraca em termos de roteiro. O fato é que, com seus desentendimentos com Dez Skinn e começando a trabalhar na série Swamp Thing, Alan Moore parecia não estar mais tão interessado em Miracleman. Para piorar, como a Marvel Comics havia criado dificuldades para a publicação da série na Warrior, o roteirista decidiu retaliar não permitindo a republicação de suas histórias com o Capitão Bretanha; isso irritou seu parceiro no trabalho, o desenhista Alan Davis, que não se interessou por continuar a desenhar a Miracleman (ao que consta, o acordo com a Eclipse, que levou a série para os Estados Unidos, também o teria desagradado).

Nas páginas da própria Warrior, o “Livro II” já havia contado com o trabalho de outro desenhista, o expressivo John Ridgway (responsável pelos capítulos especiais “Young Marvelman: 1957” e “The Red King Syndrome” partes 1 & 2). Assim, pode-se dizer que o problema não estava em se substituir o desenhista principal (Davis) e sim na escolha de quem o substituiria. Na certa, o nada talentoso Chuck Beckum não foi a melhor escolha! Responsável por alguns dos capítulos finais da história (que possivelmente haviam sido escritos ainda para a Warrior, embora não tivessem sido desenhados até então), Beckum fez um trabalho tão fraco que pode ser considerado um dos piores (senão o pior) desenhista a ter trabalhado numa HQ de Alan Moore. Para melhorar um pouco a situação, as duas histórias seguintes (escritas já para a Eclipse e publicadas na Miracleman n°9 e 10) trouxeram o desenho razoável de Rick Veitch. Mas, desenhos à parte, os roteiros do “Livro II” também têm altos e baixos, não apresentando a mesma força do que havia sido mostrado até então.

Esse segundo volume de Miracleman gira em torno de duas informações apresentadas em capítulos anteriores. Primeiro, que o Doutor Gargunza, ao invés de um vilão fantasioso, foi na verdade o cientista à frente do programa Zaratustra. Segundo, que Liz Moran está grávida, embora o pai da criança não seja seu marido, e sim Miracleman. A história então progride a partir do rapto de Liz por Gargunza, que pretende se apossar do “miraclebaby”. Na companhia de Mr. Cream, Miracleman parte em busca de sua esposa, massacrando os capangas do vilão. Esse é o enredo básico da história e seu lado menos interessante, que serve mais como um pretexto para Moore contar em detalhes a história por trás do projeto Zaratustra. Tudo começa com o nascimento de Gargunza no México em 1910, tem uma passagem pelo Rio de Janeiro dos anos 20 (onde, sabe-se Deus como, o vilão conseguiu um “taco de beisebol” para cometer um assassinato), chegando enfim à Alemanha, onde ele trabalhou num programa de engenharia genética do Terceiro Reich.

Enquanto aguarda o nascimento do “miraclebaby”, Gargunza prossegue na narração de sua história pessoal, tendo como ouvinte uma atenta Liz Moran. Ele conta então sobre como desertou da Alemanha hitlerista e foi acolhido pelo governo inglês, interessado em seus conhecimentos científicos. A seguir, o vilão revela sua motivação em tudo isso, e como seus planos se tornaram possíveis numa noite de 1948, quando “o céu caiu”, ou seja, quando uma nave alienígena caiu no interior da Inglaterra (vale comentar que, em muitos pontos, a série escrita por Moore antecipa em detalhes a trama que seria vista, uma década mais tarde, no seriado Arquivo-X). O que vem a seguir é uma mais detalhada narração de todo o processo (pseudocientífico) envolvido no projeto Zaratustra. Não faltam referências a raptos de órfãos, clonagem, implantes mentais e memórias fantasiosas, tudo relacionado à tecnologia do “infraespaço”. Para completar, um brilhante lance de metalinguagem, no qual Moore explica porque Miracleman teve como modelo o Capitão Marvel.

Conciliando elementos da psicanálise, da história e da ficção científica, a maior parte do “Livro II” trata da ligação de Gargunza com Miracleman, expressa por vezes como a tradicional relação “vilão x herói” (particularmente no ótimo capítulo “The Red King Syndrome”), mas também “criador x criatura” ou mesmo “pai x filho” (não falta sequer uma cena copiada do filme Blade Runner). Já os dois últimos capítulos desse volume (publicados nos números 9 e 10 da revista) trazem um desfecho da história e também uma transição para o volume seguinte. No primeiro deles, testemunhamos o nascimento da “miraclebaby”, numa sequência de parto explícito (mesmo!) que causou enorme comoção e controvérsia quando publicada. O capítulo seguinte intercala cenas domésticas de Liz e Mike Moran às voltas com sua “precoce” filhinha, diálogos mentais de Johnny Bates com seu alter ego Kid Miracleman e a presença de dois agentes alienígenas, que levam à manifestação de mais uma personagem superpoderosa (que só será conhecida no volume seguinte).

Iniciado num momento em que Alan Moore começava sua carreira no mercado norte-americano e já não tinha o melhor dos relacionamentos com seu editor na Warrior, o “Livro II” de Miracleman parece ter sofrido os efeitos de um certo desinteresse de seu principal autor. Além disso, ao ser retomada pela Eclipse após uma interrupção, a série não contou com o elegante traço de Alan Davis, padecendo dos desenhos muito pobres de Chuck Beckum. Mas, apesar dos problemas e deficiências, o segundo volume de Miracleman tem seus méritos e alguns momentos interessantes (talvez seu maior defeito seja ter se estendido mais do que deveria). De qualquer forma, consta que Moore estava tão insatisfeito com o trabalho na série que havia decidido deixar tudo de lado. Felizmente (para os leitores e para a história dos quadrinhos), a definição de que o talentosíssimo John Totleben seria seu parceiro no “Livro III” fez com que o roteirista voltasse atrás. O resultado foi Miracleman: Olympus, a mais brilhante HQ de super-heróis já escrita!

(CONTINUA...)

24/12/2009

O inovador “Livro I” de Marvelman / Miracleman.


Criado por Mick Anglo em 1954, Marvelman foi o primeiro e o mais popular super-herói britânico. Uma cópia mal-disfarçada do Capitão Marvel (Shazam), o personagem também se transformava ao dizer uma “palavra-mágica” e tinha uma “família” de jovens ajudantes. Mas, apesar do enorme sucesso inicial, mudanças nos interesses do público levaram, em 1963, ao cancelamento das revistas da Família Marvelman. O personagem permaneceria em “animação suspensa” por quase duas décadas, até ser resgatado pelo roteirista Alan Moore e o editor Dez Skinn. Relançado em março de 1982, na revista Warrior n°1, Marvelman provaria-se novamente um sucesso, desta vez não entre as crianças, mas entre os leitores adolescentes e alguns profissionais dos quadrinhos. Trazendo uma concepção inovadora para os super-heróis, as histórias originais criadas por Moore ajudariam a transformar esse gênero de quadrinhos (sendo a primeira dentre as várias reformulações racionalistas de antigos heróis a serem lançadas ao longo dos anos 80).

Com o sucesso da nova versão do super-herói, Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe de Anglo. Mas, devido à utilização do nome do personagem no título da revista, a Marvel Comics (que se considera dona da palavra marvel no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente. É interessante notar que o nome Marvelman (surgido em 1954 na revista que lançou o personagem) antecede a utilização do nome Marvel Comics, o que tornaria infundadas as alegações da editora norte-americana (não fosse seu maior poderio econômico). O fato é que a disputa judicial dificultou a continuação da série, causando também desavenças entre Skinn e Moore, o que resultou na suspensão de Marvelman no número 21 da Warrior (que, sem seu personagem mais popular, chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985). Aquele, contudo, não seria o fim de Marvelman, que logo retornaria num outro formato e com um novo nome.

Desde o início, uma das intenções de Skinn era negociar com editoras norte-americanas reedições das séries publicadas na Warrior. Com o prestígio que a revista havia alcançado entre alguns leitores e profissionais dos quadrinhos nos Estados Unidos, o editor via ali a oportunidade de entrar num mercado muito maior e mais rentável. É claro que as HQs saídas da Warrior teriam que ser reduzidas do formato magazine para o comic book e ganhariam cores, tendo seus capítulos de cinco a oito páginas agrupados em revistas de vinte a trinta páginas. A mudança mais significativa, porém, seria a sofrida exatamente pelo personagem Marvelman, que (para evitar problemas com a Marvel Comics em seu próprio país) acabaria sendo rebatizado como Miracleman (nome que, por ironia do destino, havia aparecido pela primeira vez justamente numa revista da sucursal britânica da Marvel, numa cena em que um assassino de super-heróis interdimensional fulmina um herói com as feições de Marvelman, mas que ali é denominado “Miracleman”).

O acordo feito entre o editor inglês e a norte-americana Eclipse Comics permitia a republicação dos capítulos de Marvelman lançados na Warrior e previa a retomada da série do ponto em que havia sido interrompida. Foi assim que, em meados de 1985, chegou às lojas dos Estados Unidos a primeira edição de Miracleman, que somaria um total de dezesseis números escritos por Moore, reunidos mais tarde em três coletâneas (que serviram de base para a análise que faço aqui). A série começa com “Um sonho de voar”, no qual um inglês de meia-idade chamado Mike Moran se vê mais jovem, voando na companhia de outros dois super-heróis, todos prestes a pousar numa estranha nave. O que se segue é uma explosão atômica, da qual aparentemente apenas Moran (Miracleman) teria saído com vida, para despertar desse pesadelo, ao lado de sua esposa, Liz. Apesar de uma terrível dor de cabeça, ele tem que levantar e sair para cobrir um protesto antinuclear numa usina atômica. O fato é que, a partir daí, sua vida jamais será a mesma.

Desenhado pelo meticuloso Garry Leach, o primeiro capítulo de Miracleman já mostra alguns elementos da concepção mais racionalista dos super-heróis proposta por Moore. Partindo de situações mundanas, trazendo uma ambientação cotidiana e ancorada em fatos da realidade da época, a HQ apresenta um acontecimento plausível que serve de pretexto para o esquecido herói redescobrir seus poderes. Em meio a um ataque de terroristas, Moran é arrastado semiconsciente e, ao passar por uma porta de vidro, vê a inscrição invertida “cimota”. Essa é a chave para seu passado como super-herói, pois ao pronunciar a palavra-mágica “Kimota” ele se transforma, pela primeira vez após muitos anos, em Miracleman. Imune a balas e superpoderoso, o herói não demora a derrotar os terroristas. Porém, mais que um retorno triunfante, as oito páginas dessa reestreia são exemplo da genialidade de seu roteirista, anunciando a técnica desconstrutivista que Moore utilizaria na série (e em trabalhos posteriores, como Swamp Thing e Watchmen).

Em 1954, na sua criação de Marvelman a partir do Capitão Marvel, Mick Anglo manteve a ideia de uma palavra-mágica, substituindo a popular e mística “Shazam” pela moderna e científica “Kimota”. Sendo esta uma corruptela da palavra atomic, ao situar seu primeiro roteiro numa usina atômica, Moore evidenciou de forma crítica as ligações do personagem com o imaginário da época em que foi criado (lembrando que nos anos 50 a energia atômica era um símbolo relativamente positivo, estando relacionado à origem e aos poderes de vários personagens). E a ligação entre o herói britânico e seu modelo norte-americano voltou a ser exposta no segundo capítulo, quando Miracleman se apresenta a Liz e lhe conta como ele recebeu seus poderes do mago astrofísico Guntag Barghelt (inspirado no venerável mago Shazam), fala de seus amigos Young Miracleman e Kid Miracleman (copiados do Capitão Marvel Jr. e da Mary Marvel) e também de seus inimigos, como o gênio do crime Doutor Gargunza (inspirado no inigualável vilão Doutor Silvana).

Aqui, Moore deixa claro que tinha em mente mais que uma boa história, e sim toda uma concepção inovadora. Afinal, ao ouvir a história narrada pelo alter ego de seu marido, Liz não consegue conter o riso, expondo o caráter fantasioso e ingênuo das HQs de super-heróis tradicionais, em contraposição ao que seria o “mundo real” em que ela vive (que é na verdade uma parte da concepção trazida pela história da qual ela faz parte). As fronteiras entre as memórias fantasiosas de Miracleman e a realidade crua do mundo de Moran tornam-se mais nítidas quando entra em cena Johnny Bates, o antigo Kid Miracleman, que não morreu e acabou se tornando um milionário inescrupuloso. Então, o que vemos nos capítulos 3, 4 e 5 é a evolução de um encontro amistoso, que leva a um questionamento mútuo e explode num conflito titânico. Nele, referências à poesia de William Blake, uma prosa de ressonância wagneriana e alusões a tigres, dragões, anjos, monstros e tempestades dão o tom de uma das melhores sequências de luta já feitas num quadrinho de super-heróis!

Primorosa em seus roteiros e textos, a série não fica para trás em termos de desenho, ganhando em dinamismo quando Garry Leach foi substituído por Alan Davis, na passagem do terceiro para o quarto capítulo. (Não posso deixar de observar, contudo, uma pequena contradição na lógica interna da história, segundo a qual Mike Moran e Miracleman possuem corpos distintos, que trocam de lugar quando pronunciam a palavra “Kimota”; assim, enquanto uma identidade habita o “mundo real”, a outra é transferida para uma dimensão de animação suspensa, intitulada “infraespaço”. Após sua luta com Bates, Miracleman fica bastante ferido e, segundo lemos num balão, Moran deixou sua identidade de herói de lado por dois meses; mas, ao dizer novamente a palavra “Kimota”, Miracleman reaparece quase completamente recuperado dos ferimentos. A contradição está no fato de que, segundo a própria história, o “infraespaço” é uma dimensão fora do tempo e, portanto, não poderia haver qualquer recuperação nos ferimentos de Miracleman.)

Um envolvimento governamental na origem de Miracleman é sugerido nos capítulos 5 e 6. Com isso, em meio a uma trama mais complexa, o sétimo, oitavo e nono capítulos intercalam ação e conspiração, apresentando uma misteriosa agência governamental (Spook Show), um dúbio assassino de aluguel (Mr. Cream) e um abobado “super-herói” (Big Ben). Tudo culmina no capítulo 10, “Zarathustra”, em que Moore revela a conspiração envolvendo a criação da Família Miracleman. O título do capitulo vem de Assim falava Zaratustra de Friedrich Nietzsche, que traz a ideia de um “super-homem” (ou “além-do-homem”), que teria inspirado o governo britânico a criar seres superpoderosos, utilizando a tecnologia de uma nave alienígena caída na Terra. Em resumo, conciliando filosofia, literatura e realidade cotidiana, misturando características de séries de espionagem, ficção científica e super-heróis, por sua qualidade e originalidade, o “Livro I” de Miracleman tornou-se um marco dos quadrinhos e uma das HQs mais influentes das últimas décadas.

(CONTINUA...)

21/04/2009

In Pictopia, uma pequena jóia de Alan Moore & Cia.


O roteirista inglês Alan Moore consagrou-se nos anos 80 por seu trabalho em séries e histórias extensas, a maior parte delas com algumas centenas de páginas. Por sua qualidade e originalidade, trabalhos como Miracleman e Watchmen revolucionaram e transformaram os quadrinhos de super-heróis, tornando-se clássicos imperdíveis. Enquanto se dedicava a esses verdadeiros monumentos do gênero, Moore também produziu histórias curtas para coletâneas e revistas de antologias. A melhor delas é provavelmente “In Pictopia!”, uma pequena jóia de treze páginas que usa a metalinguagem para falar de perda da identidade, decadência qualitativa e desvalorização do passado. Tudo isso com direito a um visual expressivo e doses equilibradas de nostalgia e emotividade.

“In Pictopia!” foi publicada em dezembro de 1986 no número 2 de Anything Goes! (revista lançada pelo editor Garry Groth com o objetivo de angariar fundos para as despesas de um processo judicial sofrido pelo The Comics Journal). Trazendo uma capa de Frank Miller, três ilustrações inéditas de Jack Kirby, HQs curtas de Jayme Hernandez e Sam Kieth, entre outros trabalhos, a antologia tinha como destaque principal a história escrita por Moore. Inicialmente, o roteirista havia se oferecido para produzir duas histórias de quatro páginas, que acabaram substituídas por um roteiro de oito páginas intitulado “Fictopia”. Ao chegar às mãos do desenhista Donald Simpson, o roteiro acabou sendo estendido para treze páginas e rebatizado como “In Pictopia!” (ao que consta, Moore concordou com essas alterações, que de fato levaram a um melhor resultado). O trabalho contou ainda com a participação dos desenhistas Peter Poplaski e Mike Kazaleh, do letrista Carl Stalling e do colorista Eric Vincent.

A história começa às cinco e meia da manhã, no quarto de Nocturno the Necromancer, personagem que tem as características gerais e um nome que lembra Mandrake o Mágico (detetive das tiras de aventura, criado por Lee Falk e Phill Davis). Como acontece todas as manhãs, o personagem é acordado antes da hora pelos gritos e murmúrios de seu vizinho de lado, Sammy Sleephead, que tem mais um pesadelo erótico com a própria mãe. Como de costume, Nocturno se levanta, coloca sua roupa (que inclui cartola, bengala e capa) e sai para conferir “quanto se perdeu”. Nas escadas ele encontra um marinheiro brutamontes e uma vizinha que, enquanto seu marido está ausente “secando”, tem que ganhar a vida se prostituindo. Para alguém que afirma viver nas áreas “em preto e branco” da cidade, até que a vida do narrador / protagonista tem muitos tons de cinza. De qualquer forma, Nocturno sabe e logo nos deixa saber que “só os super-heróis podem bancar uma vida em cores”.

Deprimido, o mágico encaminha-se para o “gueto” onde vivem os animais engraçados dos quadrinhos infantis e de humor. Mas dura pouco a satisfação trazida pelo ambiente nostálgico repleto de piadas visuais. A falta de oportunidades de “trabalho” havia levado pobreza e desolação até mesmo para aquela outrora animada região de Pictopia. Nocturno dirige-se então para os limites da cidade, onde sabe que encontrará seu velho amigo Flexible Flynn, uma evidente paráfrase do Homem-Borracha (super-herói cômico criado pelo genial Jack Cole). O amigo flexível lhe faz então um comentário sobre como o horizonte, preto e esfumaçado, parece cada dia mais próximo. Nocturno não nota qualquer diferença e ambos retornam à cidade para tomar uma cerveja. Já no bar testemunhamos um sóbrio monólogo feito por um embriagado Flynn, acerca de pessoas que estão desaparecendo ou sendo substituídas e também sobre as “gangues de novos heróis” que andam pela cidade, ameaçadoras.

Cansado da “paranóia” do amigo, Nocturno deixa o bar, encontrando em seguida um grupo de novos heróis que, por diversão, tortura uma versão do Pateta. O mágico começa então a acordar para a sombria realidade que toma conta de Pictopia. Identidades desfiguradas e o apagamento do passado tornaram-se parte de uma rotina silenciosa de perda e descaracterização. Mas pode ser tarde demais para ele e seu amigo! Como lhe explica um agente de demolição, aquela cidade das figuras estava mudando e na nova capital da ficção “algumas coisas simplesmente não se adequam mais à continuidade”. Imaginando-se num pesadelo, Nocturno corre atormentado pelas ruas, não encontrando mais cenários antes familiares e próximos. Chegando enfim aos limites da cidade, ele se agarra à cerca, tentando discernir o que se encontra naquele horizonte tomado por uma horripilante “massa industrial”. Neste momento, não há como não nos compadecermos do desespero do personagem.

Repleta de referências veladas ou explícitas a quadrinhos clássicos (como Little Nemo, Popeye, Betty Boop, Fantasma, Brucutu, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão...), “In Pictopia!” olha para trás e, em tom nostálgico, fala de queridos personagens que foram deixados de lado por um mercado sempre em busca do próximo sucesso. Mas a HQ também se volta para o que seria, em 1986, o futuro dos quadrinhos norte-americanos, quando super-heróis e anti-heróis cada vez mais violentos e “realísticos” tomariam conta das revistas. Aliás, é impressionante como os “novos heróis” desenhados por Donald Simpson e seus parceiros assemelham-se aos personagens de visual agressivo, lançados pela Image Comics a partir de 1992. Vale lembrar também que grande parte da “violência” e do “realismo” que tomou conta das revistas de super-heróis a partir da segunda metade dos anos 80 se deve especialmente ao trabalho de Alan Moore em Watchmen e A Piada Mortal.

Moore buscou reverter um pouco do efeito negativo que suas obras tiveram sobre os quadrinhos de super-heróis, produzindo a partir de 1993 séries que resgatavam a fantasia e ingenuidade das antigas revistas. Mas a abordagem metalinguística que vemos em 1963 e Supremo (que muitas vezes identifica o “continuum” da Física com a “continuidade” das revistas) já estava presente na brilhante, tocante e inovadora “In Pictopia!” (diga-se de passagem, esta história pode ter influenciado a criação da revolucionária “O Evangelho do Coiote”, escrita por Grant Morrison para a série Animal Man). Essa HQ curta de Moore & Cia. voltou a ser publicada em 2003, com uma nova colorização, na antologia biográfica The Extraordinary Works of Alan Moore (ao que parece, no entanto, ela foi excluída da recente versão revisada do livro). “In Pictopia!” merece ser lida por sua lúcida antevisão de uma indústria crescentemente padronizada e desumanizada, mas sobretudo por ser um relato ficcional emocionante e humano. Enfim, uma pequena jóia em meio à extensa obra do genial Alan Moore!

23/03/2009

Marvelman e a recriação genial dos super-heróis.


A história do personagem britânico Marvelman (que seria mais tarde rebatizado como Miracleman) começa nos Estados Unidos, no início dos anos 50. Na época a Fawcett Comics, editora responsável pelas aventuras do Capitão Marvel e sua “Família”, enfrentava um infame processo judicial movido pela National Periodical / DC Comics. No processo, a editora do Super-Homem acusava a concorrente de ter infringido os direitos autorais de seu personagem. A verdade, no entanto, era que em várias ocasiões as revistas do Capitão Marvel haviam superado as vendas das publicações do Homem de Aço, o que motivou a ação judicial baseada numa infundada acusação de plágio (afinal, o Capitão Marvel original é muito diferente do Super-Homem e até mesmo mais interessante que seu predecessor). No fim, o maior poder econômico da DC prevaleceu e a Fawcett, além de pagar uma indenização vultuosa, foi obrigada a suspender definitivamente a publicação do Capitão Marvel.

Acontece que o simpático herói da palavra mágica “Shazam!” também fazia sucesso na Grã-Bretanha, onde era reeditado por L. Miller & Son. Mas, com a suspensão da publicação do personagem nos Estados Unidos, Len Miller logo veria uma importante fonte de renda desaparecer. O sagaz editor não pensou duas vezes: contratou o estúdio do roteirista e desenhista Mick Anglo para produzir uma cópia mal-disfarçada do Capitão Marvel. Nas palavras do próprio Anglo (reproduzidas pelo editor Dez Skinn em seu texto especial sobre Marvelman, para a Warrior n°1): “Um dia Len me ligou e disse que queria me ver com urgência. Seu suprimento de material americano para a série Capitão Marvel havia sido repentinamente cortado. [Ele me perguntou:] Você tem alguma idéia? [...] Eu rapidamente respondi a ele que tinha um monte de idéias, e acabei recebendo uma demanda regular de trabalho pelos próximos seis anos”. Assim, por um artifício editorial, em fevereiro de 1954 nascia Marvelman, o mais popular super-herói britânico de todos os tempos.

No processo de transformação do Capitão Marvel em Marvelman, a capa foi deixada de lado e no lugar da roupa vermelha surgiu uma azul. Em vez de moreno, o novo personagem era loiro, trocando a identidade secreta de Billy Batson por Mike Moran. O herói britânico não deixaria de ter uma palavra mágica, substituindo a popular “Shazam!” pela bombástica “Kimota!”. Os demais membros da Família Marvel não foram esquecidos: Capitão Marvel Junior e Mary Marvel deram lugar a Young Marvelman e Kid Marvelman, originando a Família Marvelman. E para não quebrar a ligação dos leitores com as publicações, a numeração das revistas não foi zerada (a despeito da mudança de nome). Além disso, as HQs produzidas pelos roteiristas e desenhistas britânicos mergulhavam em elementos da fantasia e da ficção científica, sendo até mais ingênuas que as similares norte-americanas. O trabalho agradou em cheio, e segundo Anglo: “Os novos títulos foram recebidos com vendas crescentes e uma chuva de cartas de garotos entusiasmados”.

Publicadas entre 1954 e 1963, as revistas (inicialmente) semanais Marvelman e Young Marvelman somaram quase trezentas e cinquenta edições cada uma, tendo ainda a companhia mensal de Marvelman Family que somou trinta edições (isso sem falar em duas dezenas de anuais e álbuns especiais, livros para colorir, brinquedos, jogos e até mesmo uma carteirinha do fã-clube do herói). Em suma, um sucesso mercadológico! Contudo, na virada para os anos 60, nem todos os garotos britânicos eram fãs das revistas de Marvelman & Cia., com seus miolos em P&B e sua impressão em papel-jornal de baixa qualidade. Muitos preferiam mesmo os super-heróis das coloridas revistas da DC e Marvel, saídas do outro lado do Atlântico. Entre os meninos que prestigiavam as HQs do Flash ou do recém-lançado Quarteto Fantástico, estava um certo Alan Moore. Um dia, porém, não encontrando uma de suas revistas preferidas, o garoto resolveu dar uma chance a Mavelman. Por algum motivo, daquela vez as histórias do herói britânico conseguiram lhe agradar bastante.

Mais ou menos na mesma época, Moore leu uma reedição da revista de humor norte-americana Mad, que trazia a história “Superduperman”. Uma criação do genial Harvey Kurtzman e do talentoso Wally Wood, a HQ era uma inteligente sátira ao Super-Homem. Para Moore, o que Kurtzman fez naquele trabalho foi aplicar uma “lógica do mundo real” aos super-heróis, buscando alcançar o máximo de efeito cômico. Inspirado por “Superduperman”, o jovem fã de quadrinhos imaginou então uma história no estilo: o que aconteceria se Marvelman esquecesse sua palavra mágica? (e aquilo que na época não passou dos devaneios de um leitor, tempos depois se tornaria a semente de uma revolução). O que acabou caindo no quase total esquecimento foi o próprio Marvelman, depois que a L. Miller & Son foi à falência em 1963. Mas, passado o tempo, o promissor autor de quadrinhos Alan Moore disse, numa entrevista em 1981, que gostaria que alguém relançasse Marvelman para que ele pudesse escrevê-lo, pois tinha uma idéia “absolutamente brilhante” de como fazer isso.

Numa feliz coincidência, o editor Dez Skinn leu a entrevista e estava justamente pensando em resgatar Marvelman para uma antologia de quadrinhos que planejava lançar. Skinn entrou então em contato com Moore, que redigiu uma proposta para a reformulação do herói. Empregando uma técnica de desconstrução e partindo de seu devaneio juvenil, o roteirista criou uma história na qual um Mike Moran de meia-idade segue a vida, tendo se esquecido de que fôra o herói Marvelman (apenas “um sonho sobre voar” recorrente lhe dá alguma pista sobre aquele passado). Para completar, Moore inspirou-se na HQ “Superduperman” para aplicar uma “lógica do mundo real” aos super-heróis, voltada nesse caso a um efeito dramático (e não cômico, como no trabalho de Kurtzman). Dessa forma, é um incidente com terroristas numa usina nuclear que faz o personagem se lembrar da palavra mágica “Kimota!” (atomic de trás para frente). E assim, em março de 1982 nas páginas da Warrior n°1, ressurgia Marvelman e começava também uma revolução nos quadrinhos de super-heróis!

Com periodicidade mensal, a Warrior era publicada em P&B, formato magazine (21cm x 30cm), trazendo séries divididas em capítulos de cinco a oito páginas. A maior parte dos direitos autorais sobre personagens e histórias permanecia com os roteiristas e desenhistas, que se sentiam assim motivados a produzir seus melhores trabalhos. Inovadora, a revista chegava aos pontos de venda com bons desenhos e uma incomum mistura de terror, aventura, suspense e ficção científica (incluindo aí a originalíssima V for Vendetta, criada por Moore em parceria com David Lloyd). Logo de saída, Marvelman tornou-se a principal atração da Warrior, enquanto a genialidade dos roteiros era notada por autores de quadrinhos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Nos capítulos iniciais, a série contou com o minucioso traço de Garry Leach (que acumulava o cargo de diretor de arte da revista). A partir do sexto capítulo, Marvelman passou a ter os dinâmicos desenhos de Alan Davis (que na época também passava a colaborar com Moore nas séries Captain Britain para a Marvel UK e D.R. and Quinch para a 2000 AD).

Com o sucesso da nova versão, Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe de Mick Anglo. Mas, devido à utilização do nome do personagem no título da revista, a Marvel Comics (que se considera dona da palavra marvel no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente. É interessante notar, porém, que o nome Marvelman (surgido em 1954 na revista que lançou o personagem) antecede a utilização do nome Marvel Comics, o que tornaria infundadas as alegações da editora norte-americana (não fosse seu maior poderio econômico). O fato é que a disputa judicial dificultou a continuação da série, causando também desavenças entre Skinn e Moore, o que resultou na suspensão de Marvelman no número 21 da Warrior (deixando incompleto o “Livro II” da série). Sem seu personagem mais popular e não sendo uma campeã de vendas, a revista chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985. De qualquer forma, sua contribuição para a história dos quadrinhos ocidentais já estava assegurada.

Desde o início, exemplares da Warrior chegavam aos Estados Unidos, sendo apreciados por novos artistas, que viam ali exemplos a serem seguidos. Marvelman em especial teve grande influência, por ser uma obra inovadora no gênero predominante naquele mercado. Os desenhos impecáveis criados por Leach e Davis já valiam uma olhada mais atenta. No entanto, o diferencial eram mesmo os roteiros de Moore, com sua aplicação de uma “lógica do mundo real” aos super-heróis. Trazendo textos marcantes e uma trama inteligente e contemporânea, Marvelman mistura História e ficção científica, maravilhamento e vida cotidiana, não faltando elementos intertextuais e metalinguísticos (que explicam o desaparecimento do herói por quase vinte anos e até mesmo como ele veio a ser um plágio do Capitão Marvel). Brilhante e original, a série foi a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico, abrindo caminho para a reformulação dos heróis da DC Comics, para o Novo Universo Marvel e para obras revolucionárias como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Enfim, um clássico genial e imperdível!

10/01/2009

Qual é seu personagem dos quadrinhos favorito?


Nós, leitores de quadrinhos, costumamos ter personagens preferidos, que acompanhamos em revistas, álbuns, filmes, animações... É claro que os motivos para gostarmos deste ou daquele personagem são pessoais e às vezes nem mesmo sabemos os porquês. No meu caso, percebi que os personagens que hoje considero meus favoritos são ligados às obras das quais mais gosto (mas que não são necessariamente as melhores que já li, em termos artísticos).

Sempre tive a curiosidade de saber quais são os personagens favoritos de outros leitores, o que me motivou a escrever esta postagem. Assim, gostaria de contar com a participação dos leitores do Mais Quadrinhos. Abaixo, está a lista dos meus personagens favoritos (atualmente). Optei por uma lista com cinco nomes, mas a sua pode ter quantos nomes quiser (se possível na sua ordem de predileção). Na minha lista, também indiquei as obras específicas que me fazem gostar deles, mas se preferir pode fazer uma lista simples (só citando os nomes). Então vamos lá!

1. Monstro do Pântano (especialmente nas revistas Swamp Thing #21-27 e #34-36, produzidas por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben).

2. Marvelman / Miracleman (em tudo que Alan Moore escreveu para o personagem, com exceção de alguns capítulos pessimamente desenhados).

3. Batman (na maior parte dos episódios de Batman: The Animated Series de 1992-1993 e também na HQ Mad Love, criada por Paul Dini e Bruce Timm).

4. Pererê (na série produzida por Ziraldo entre 1960 e 1964).

5. Grauna (nas HQs que Henfil publicou na revista Fradim n°s 9 a 14).

Fico aguardando então os comentários com sua lista de personagens favoritos dos quadrinhos. Abraços!

17/11/2007

Warrior: 25 anos de uma revista definitiva.


Em março de 1982, era lançada na Grã-Bretanha a Warrior. Talvez você nunca tenha ouvido falar dessa revista, mas o fato é que com ela teve início uma revolução qualitativa que influenciaria os rumos dos quadrinhos ocidentais nas últimas décadas. Para ilustrar esta afirmação, basta dizer que foram nas páginas da Warrior que estrearam as séries Marvelman (Miracleman) e V for Vendetta (V de Vingança), duas das mais importantes e inovadoras criações de Alan Moore.

A Warrior foi uma cria do editor inglês Dez Skinn, que fizera carreira editando revistas para a sucursal britânica da Marvel, como a Doctor Who Weekly que trazia HQs, bastidores e curiosidades sobre uma popular série da tevê britânica (cuja versão mais recente vem sendo exibida no Brasil desde 2006 pelo canal a cabo People & Arts). Seguindo o padrão britânico, sua nova revista de antologia era publicada em preto & branco, formato magazine (21cm x 30cm), e trazia séries divididas em capítulos de cinco a oito páginas. Na introdução para o número de estréia, o editor propunha: “Se a Warrior representa um progresso na evolução das revistas em quadrinhos britânicas, apenas você [leitor] pode decidir, mas nós definitivamente sentimos que é nosso primeiro passo na estrada da liberdade”.

A liberdade criativa a que se referia Skinn tinha como correlato a manutenção pelos autores de boa parte dos direitos autorais sobre personagens e histórias. Com isso, roteiristas e desenhistas sentiam-se motivados a produzir seus melhores trabalhos, pois estes continuariam a lhes pertencer parcialmente (diferente do que acontecia, por exemplo, com as HQs publicadas na popular e bem-sucedida 2000 AD). Após dez meses de preparativos e ensaios, a Warrior chegou aos pontos de venda com uma incomum mistura de terror, aventura, suspense, ficção científica e super-heróis. E Skinn parecia até antever o efeito que sua publicação teria: “Enquanto as grandes editoras de quadrinhos parecem estar num período de regressão criativa [algo não muito diferente de hoje], nós esperamos que nossa tentativa, nossa pequena revista num mar de outras, acenda bastante interesse para fazer as coisas caminharem de novo”.

Os destaques da primeira edição? Uma bem-bolada HQ de duas páginas criada por Dave Gibbons, uma história medieval desenhada por John Bolton, um anúncio publicitário ilustrado por Brian Bolland e, é claro, as estréias de V for Vendetta com desenhos de David Lloyd e de Marvelman com desenhos de Garry Leach (esta última acompanhada de um texto sobre a trajetória editorial deste que foi o primeiro super-herói britânico). Embora Skinn afirme que o objetivo era “acertar logo de primeira”, a Warrior foi mesmo tomando forma definitiva nas edições seguintes, com o surgimento de novos personagens e substituições de artistas (em especial a entrada de Alan Davis como desenhista de Marvelman, no lugar de Garry Leach que iria desenhar a HQ “Warpsmith: cold war, cold warrior”, capa do número 10).

O auge da Warrior veio com o número 11, que trazia os capítulos finais do "Volume I" de V for Vendetta e do "Livro Um" de Marvelman. Na edição seguinte, a capa marca a estréia de uma nova série escrita por Alan Moore: The Bojeffries Saga (uma versão bastante cáustica de A Família Addams) com desenhos de Steve Parkhouse. Esse número 12 trouxe ainda a HQ "Young Marvelman: 1957", um roteiro de Moore desenhado por John Ridgway, e o capítulo “This Vicious Cabaret” em que o enigmático V canta e toca piano. Já na Warrior n°16 uma atração especial para o Natal de 1983: a HQ “Christmas on Depravity", desenhada por Curt Vile (pseudônimo de Alan Moore) e escrita por Pedro Henry (pseudônimo de seu amigo Steve Moore). Mas, naquele mesmo ano em que a revista firmava sua proposta e começava a conquistar prêmios, seus maiores problemas começaram.

Com o sucesso da versão criada por Alan Moore, Dez Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe do criador do personagem, Mike Anglo. Contudo, a Marvel Comics (que se considera a dona da palavra “marvel” no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente, dificultando a continuação da série na Warrior e causando desavenças entre Skinn e Moore (o que levou ao aborto do projeto Nightjar, que teve o primeiro capítulo desenhado por Bryan Talbot e antecipava elementos que Moore utilizaria mais tarde no personagem John Constantine). Como resultado das disputas jurídicas e brigas pessoais, Marvelman foi suspensa no número 21 da Warrior. Sem sua série mais popular e não tendo alcançado um sucesso de vendas avassalador, a publicação chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985. De qualquer forma, sua contribuição para a história dos quadrinhos ocidentais já estava assegurada.

No formato magazine da Warrior, as páginas de V for Vendetta desdobravam-se no contraste em preto & branco dos desenhos de Lloyd (algo que se perde na edição em cores e formato reduzido da DC Comics). Além disso, o texto rebuscado e a trama política compostos por Moore eram então algo muito incomum para quadrinhos de aventura e mistério. Quanto a Marvelman (publicado no Brasil, via edição norte-americana, com o título Miracleman), a série de Moore, Leach e Davis teve um enorme impacto, sendo a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico, nos anos 80. Estes dois trabalhos ficariam incompletos até 1989, quando Moore escreveu seus capítulos finais para as editoras DC Comics e Eclipse respectivamente. De qualquer forma, foi após despontar no mercado britânico, com HQs para a Warrior e também a 2000 AD, que Alan Moore acabou contratado pelo editor Lein Wein para assumir os roteiros da revista Swamp Thing (Monstro do Pântano). E aí, como se diz, “o resto é história”!

Para os interessados, todos os números da Warrior ainda podem ser encontrados à venda em lojas virtuais
britânicas e norte-americanas.