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08/05/2008

Os 70 anos de um gênio chamado Moebius.


O francês Jean Giraud, mais conhecido internacionalmente pelo pseudônimo Moebius, é o criador de uma obra absolutamente original e inovadora. Dono de um traço inconfundível e também incrivelmente mutável, esotérico e surrealista, futurista e atemporal, inimitável e muito copiado, um gênio da luz e do espaço, ele mudou definitivamente a história dos quadrinhos e das artes visuais na segunda metade do século 20. Por tudo isso e muito mais, eu não poderia deixar de homenageá-lo no dia em que completa setenta anos.

A carreira de Jean Giraud teve início em meados dos anos 50, com quadrinhos de faroeste (então um dos gêneros mais populares na Europa). Em 1963, ele começou a desenhar para a revista Pilote a história "Fort Navajo", escrita por Jean-Michel Charlier. Fazendo bastante sucesso, essa HQ deu origem à série de álbuns do Tenente Blueberry, personagem ao qual o desenhista retornaria várias vezes ao longo das décadas e que tornou Giraud um nome conhecido na França. Mas o melhor ainda estava por vir! Os primeiros sinais surgiram no início dos anos 70, em ilustrações isoladas, bem como numa HQ curta, autobiográfica e surrealista chamada “O Desvio”. Trazendo a assinatura GIR, esse trabalho abriu caminho para novas realidades visuais.

Foi o que se viu quando a Pilote publicou a história “O homem é bom?”, trabalho que chamou a atenção de todos por seu visual inovador e final surpreendente. No último quadro, os leitores encontraram a assinatura do autor: MOEBIUS (pseudônimo que o desenhista já havia utilizado em histórias cômicas nos anos 60). Adotando o nome do matemático germânico responsável pela descoberta em 1858 da “fita de Möbius”, com essa nova alcunha Giraud pretendia sacudir as convenções artísticas. Para tanto, na companhia dos amigos Jean-Pierre Dionnet e Phillippe Druillet, Moebius fundou o grupo Les Humanoïdes Associes, responsável pela revista de ficção & fantasia Métal Hurlant (que serviria de base para o lançamento, em 1977, da norte-americana Heavy Metal).

Através das páginas da revolucionária publicação francesa, Moebius assombrou e maravilhou o mundo com seus trabalhos mais originais e impactantes. Dizem as lendas dos quadrinhos que, por volta de 1974, o desenhista teria experimentado o peyote, uma planta alucinógena e cerimonial utilizada por índios da América do Norte. Verdade ou não, essa experiência teria sido a responsável pela criação de Arzach, uma série de quatro HQs curtas sem balões que narram as aventuras de um misterioso guerreiro que cavalga um gigantesco pássaro-fóssil. Com roteiros simples e ilustrações fabulosas, repletos de imagens do inconsciente e arquétipos de vida e morte, essas pequenas histórias tiveram o impacto de verdadeiras “bombas”.

Pura narrativa visual, sempre onírica e violenta, às vezes cômica e erótica, Arzach projetou o nome Moebius para a galeria dos maiores artistas dos quadrinhos. Mas era apenas o começo! Nos anos seguintes, o artista francês produziu (às vezes em parceria com roteiristas) diversas histórias curtas, nas quais os estilos e técnicas variavam de acordo com o clima e temática do roteiro. Assim surgiram a irônica “É um universo pequeno”, a poética “A Balada” e a soturna “O Longo Amanhã” (publicadas no Brasil pela L&PM na coletânea O homem é bom?). Marcantes por seu simbolismo hermético e desenhos magníficos, com finais apocalípticos e pessimistas, HQs como “Absoluten Calfeutrail” fizeram sucesso em revistas de ficção e fantasia mundo afora. E não parou por aí!

No clima satírico dos anos 70, Moebius produziu para o jornal France-Soir a HQ em seis episódios “A caçada pelo francês em férias”, na qual estréia o personagem Major Grubert. De forma independente, certa noite o artista desenhou duas páginas de uma história inexistente, bem no clima nonsense dos anos 70. Ao ver aquelas páginas, Dionnet gostou tanto que pediu a Moebius que desse prosseguimento à história para que ela fosse publicada na Métal Hurlant. O desenhista aceitou a proposta, mas acabou se esquecendo de produzir a continuação, tendo que inventar na última hora as duas páginas para a edição seguinte. A partir do terceiro capítulo, o Major Grubert entra em cena, originando A Garagem Hermética (lançada no Brasil pela L&PM com título Major Fatal e relançada pela Globo em Os Mundos Fantásticos de Moebius).

Tendo alcançado fama internacional, no início dos anos 80, o desenhista presenteou os fãs com um de seus melhores trabalhos: os primeiros álbuns da série Incal, escrita por Alejandro Jodorowski. Misto de aventura futurista, sátira social e parábola metafísica, as aventuras de John Difool trazem Moebius no mais alto estilo! Com várias reminiscências de trabalhos anteriores, as páginas do álbum O Incal Negro, por exemplo, são uma síntese perfeita entre detalhe e concisão, ação e composição. Trabalho de um artista maduro e talentoso, não é raro seus quadros explodirem em luzes e cores ou abrirem em amplidões e profundidades que parecem transpor o espaço restrito da página de papel (infelizmente, a maior parte disso se perdeu na recolorização feita para edições mais recentes, como a lançada pela Devir).

Em 1988, Moebius proporcionou aos leitores mais uma viagem fantástica: o álbum Os Jardins de Aedena, visualmente belíssimo e inspirado na espiritualidade oriental. Na mesma época, a Marvel lançou (pelo selo Epic) a coleção Moebius, com as principais obras do artista. A qualidade artística vista ali não se repete, porém, nos últimos capítulos de Incal e na graphic novel do Surfista Prateado (trabalhos voltados ao mercado norte-americano). Paralelamente, nas últimas décadas, Moebius produziu diversas ilustrações, desenvolvendo as paisagens oníricas e as imagens surrealistas que fizeram sua fama (além de pôsteres feitos por encomenda, com personagens da Marvel e DC). Muito ligado a temas esotéricos, o desenhista chegou até mesmo a ilustrar uma edição especial do livro O Alquimista de Paulo Coelho.

As realidades fantásticas, personagens e situações inspiradoras criadas por Moebius logo extrapolaram os limites dos quadrinhos. Influenciando as artes visuais em geral e até mesmo a moda, ainda nos anos 70 o artista francês passou a ser convidado a colaborar em produções cinematográficas. Além de ter influenciado o visual do clássico Blade Runner e trabalhado nos filmes Alien, Tron e O Quinto Elemento, ele desenhou máquinas, roupas e story boards para uma adaptação não realizada do livro Duna. Até mesmo Federico Fellini declarou sua admiração pelas imagens criadas pelo quadrinista, dizendo-se incapaz de reproduzi-las num filme. Moebius também trabalhou e inspirou diversos filmes de animação, como um desenho baseado em Incal e o longa-metragem em homenagem a Little Nemo de Winsor McKay.

Os primeiros trabalhos do iugoslavo Enki Bilal, os quadrinhos que o brasileiro Watson Portela produziu nos anos 80, o mangá Nausicaä de Hayao Miyazaki, elementos de Ronin de Frank Miller e Hellboy de Mike Mignola são apenas alguns exemplos mais evidentes de obras e autores influenciados por Moebius. A partir dos anos 90, HQs desenhadas pelo próprio autor tornaram-se mais raras, destacando-se o álbum Le Monde d'Édena publicado pela Casterman em 1994. Mais recentemente, foram lançados os primeiros volumes de
Inside Moebius, trabalho reflexivo e confessional, desenhado em estilo mais caligráfico e “diluído”, no qual o desenhista se encontra (e discute) com seus mais conhecidos personagens, além de uma versão mais jovem de si mesmo.

Pelos trabalhos citados aqui e por muitos outros, Jean Moebius Giraud tornou-se um dos artistas mais originais e influentes da história dos quadrinhos. Um autor cuja importância fundadora talvez só possa ser comparada à de nomes como Jack Kirby, Osamu Tezuka e Hugo Pratt. Para todos nós, fica a fascinação (e a quase incredulidade) diante de imagens que vão muito além do espaço físico do papel. Imagens de mundos fantásticos, sonhos e pesadelos, de voluptuosas mulheres nuas, de heróis improváveis, espaços infinitos e luz. Muito antes das melhores conquistas dos efeitos visuais e da computação gráfica, Moebius produziu com arte e ilusão a mais pura magia visual. Por tudo isso, devemos agradecer e dar nossos parabéns ao genial Jean Giraud - Gir - Moebius!

01/12/2007

Mozart Couto, um maestro dos quadrinhos.


Os quadrinhos brasileiros sempre se destacaram pela qualidade excepcional dos desenhos. Não importando o tema ou o gênero do roteiro, nossas HQs sempre se notabilizaram pelo talento de seus desenhistas. Um exemplo é o desenhista Mozart Couto. Com um traço original, que tanto se adapta ao clima sombrio das histórias de terror, quanto à luminosidade épica das histórias de ficção & fantasia, Mozart tornou-se um dos nomes mais conhecidos de nossos quadrinhos. Um verdadeiro maestro de uma sinfonia de cores, luzes e sombras. Saiba um pouco mais sobre este artista e sua obra nesta entrevista exclusiva concedida em 2001.

Fale-nos de como você descobriu os quadrinhos, e quando decidiu tornar-se um quadrinista.

Desde bem criança, gostava de quadrinhos. Várias pessoas na minha família gostavam (por parte de pai e de mãe; aliás, meus pais leram muito quadrinhos na infância), e isso acabou contribuindo para que eu começasse bem cedo a pensar que seria um quadrinista. Com dezesseis anos, acho que comecei a acreditar que seria quadrinista, só não sabia como, nem a quem procurar. Com dezessete ou dezoito, mandei material para a Ebal que recusou. Um ano depois descobri as revistas da Grafipar nas bancas, abertas à colaboração de autores nacionais, daí, enviei umas histórias e entrei para o quadro de colaboradores.

Inicialmente você se tornou mais conhecido pelas HQs de terror. A opção por este gênero foi uma escolha pessoal ou uma imposição do mercado (como aconteceu com outros quadrinistas brasileiros)?

Nem tanto. Eu gostava de fazer coisas do gênero. Queria fazer um terror um pouco diferente daquelas histórias clássicas de vampiros e lobisomens, mas eu gostava. Já o erótico, sempre fiz por exigência do mercado.

Atualmente o gênero ficção & fantasia caracteriza a maioria de suas HQs. Através destes quadrinhos, o que você pretende expressar?

Um universo (a ser explorado) que o ser humano ainda não explorou com o cuidado necessário. Todo um universo ligado ao que trazemos no nosso inconsciente individual e coletivo.

Mesmo num estilo “acadêmico” e em gêneros específicos (como terror ou ficção), seus desenhos nascem de um traço muito original. Quem foram seus mestres? Fale-nos um pouco deles.

Foram muitos, desde os conhecidos desenhistas de super-heróis dos anos 60/70, até os líderes da “revolução francesa” da Métal Hurlant, como Moebius, e mais recentemente, autores japoneses. Os brasileiros da época do Shimamoto, Colin, Jayme Cortez, Seto, também têm sua parcela de “culpa” nessa história. Aliás, desde muito cedo eu dividia meu interesse pelas histórias do Horácio, do Maurício de Sousa, com os personagens de Disney e Pernalonga, pouco depois passei a me interessar pelos heróis, e pelas revistas de terror publicadas em São Paulo naquela época, só com autores brasileiros.

Sendo um dos desenhistas mais talentosos dos quadrinhos, a que você atribui o fato de vermos tão raramente seus trabalhos?

Por uma razão muito simples: não temos mercado sólido de HQ no Brasil. Temos revistas variadas, publicações “flutuantes”, algumas já estabelecidas porque dirigidas para um público específico, mas não temos um mercado que possa dar espaço mais constante para um quadrinista que gosta de trabalhar com HQ adulta e de ficção.

Qual seria o caminho para a produção brasileira conquistar o devido espaço e o merecido reconhecimento?

Isso é muito difícil de responder, mas acho que leitores, autores e editores têm que pensar parecido. Conseguirem se desvencilhar dos parâmetros que usam para determinar o que é “bom” (muita gente ainda pensa que o que é “bom” é só o que os americanos fazem), e partirem para uma produção livre. Mas o leitor precisa estar aberto para o que verá, e aprender a gostar desse “quadrinho diferente” que pode aparecer. O resto ficaria por conta de resolver problemas de investimentos e retornos financeiros.

Você lançou um saite com seus trabalhos. A Internet é uma opção para a profissionalização dos quadrinhos brasileiros, ou apenas mais um meio de divulgação de nossos talentos?

Por enquanto tenho visto como meio de divulgação, mas penso que a profissionalização pode surgir na medida em que os meios atuais de acesso melhorarem, o comércio eletrônico ficar mais comumente usado e que novas formas de veiculação dos quadrinhos por esse meio forem sendo criadas. Mas isso ainda está muito confuso porque está muito novo.

Em algumas de suas HQs, há referências à cultura oriental. Sua trajetória como autor de quadrinhos reflete uma espécie de busca espiritual?

Sim. Eu penso que na Índia se foi mais longe a nível de “viagem interior”. O pensamento oriental, principalmente o indiano, dos yogues, sempre esteve muito arraigado naturalmente em mim, mesmo antes de eu ter acesso a essas leituras. Já passei por várias fases nessa “busca”, e isso refletiu nos meus quadrinhos, às vezes de forma metafórica, noutras de forma mais explícita. Eu continuo nesse “processo”, e você pode ver isso na minha HQ “Koan”, que está em minha homepage. Tenho, além dessa, outras histórias bem atuais e inéditas, que mostram não só minhas transformações internas como transformações na própria técnica de desenhar e escrever, resultantes das anteriores. Esse material deverá sair numa coletânea muito interessante que trará trabalhos de todas minhas “fases”. Mas isso ainda está em projeto.

Como o quadrinista Mozart Couto se define?

Como uma pessoa que trabalha com muita honestidade.

Para finalizar, uma pergunta que costumo fazer: como criador, o que são os quadrinhos para você?

A maneira mais límpida de colocar meu “interno” para o outro.

11/11/2007

30 anos de Heavy Metal.


Em abril de 1977, surgiu nos Estados Unidos uma revista que mudaria a história dos quadrinhos ocidentais. Levando o que havia de mais revolucionário nas HQs européias para um mercado viciado aos padrões de sucesso, a Heavy Metal chegou para transformar e influenciar a produção de quadrinhos em todo o mundo.

Desde a década de 1960, os quadrinhos na Europa passavam por uma verdadeira revolução. Refletindo as transformações históricas e sociais, os trabalhos dos quadrinistas europeus introduziram novas temáticas, narrativas, técnicas e estilos de desenho. Esse movimento de renovação tornou-se mais claro e avassalador a partir do surgimento do grupo Les Humanoïdes Associés. Formado pelos quadrinistas Jean-Pierre Dionnet, Moebius e Phillippe Druillet, o grupo lançou nos anos 70 a revista Métal Hurlant.

Especializada em quadrinhos de ficção científica e fantasia, a Métal Hurlant tornou-se referência para quadrinistas em toda a Europa. Basta dizer que foi em suas páginas que surgiu Arzach, a revolucionária série de HQs sem balões, com as aventuras de um misterioso guerreiro que cavalga um gigantesco pássaro-fóssil. Com roteiros simples e desenhos fabulosos, estas pequenas histórias tiveram o impacto de verdadeiras “bombas” que colocaram o nome Moebius na galeria dos maiores artistas dos quadrinhos mundiais.

O sucesso da revista européia chamou a atenção de editores norte-americanos que, em 1977, decidiram lançar uma versão norte-americana: a Heavy Metal. Tendo como destaque traduções das HQs da Métal Hurlant, como a série Urm de Phillippe Druillet, a nova revista também abriu espaço para artistas norte-americanos, como Richard Corben com sua série Den. Misturando sexo, drogas, violência e ficção científica, trazendo inúmeros estilos e técnicas, as HQs da Heavy Metal conquistaram fãs em todo o mundo, popularizando os quadrinhos de vanguarda e inspirando a criação de várias versões e cópias estrangeiras.

A partir dos anos 80, contudo, a revista trocou a diversidade experimental e a contestação sociocultural por uma posição mais estável no mercado. Nos anos 90, a revista chegou até a ganhar uma breve edição brasileira. Nesse período, passaram por suas páginas ilustres colaboradores, como Simon Bisley, Enki Bilal, Milo Manara, Paolo Serpieri e Miguelangelo Prado. Mas, embora continue influenciando e trazendo um pouco do que há de melhor nos quadrinhos mundiais, a Heavy Metal de hoje não tem a mesma importância de sua versão de 30 anos atrás.