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30/09/2009

As entrevistas e textos da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos.


Integrando as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte (MG), a 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, o evento teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros. A Bienal contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres.

O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner.

Na época, eu produzia uma página semanal com crítica de quadrinhos para um jornal de BH e não perdi a oportunidade de entrevistar alguns desses convidados. Em novembro daquele mesmo ano, essas entrevistas foram reunidas na quarta edição de minha revista Caliban (cuja capa ilustra esta postagem). Aproveito então a aproximação da sexta edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, herdeiro da Bienal de 1997) para postar esta nova lista de entrevistas do Mais Quadrinhos, incluindo alguns textos que contam como foi aquele fantástico momento das HQs na capital mineira.

Will Eisner:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/uma-entrevista-com-will-eisner.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/meu-encontro-com-will-eisner.html

Paolo Serpieri:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/06/uma-entrevista-com-o-criador-de-druuna.html

Bryan Talbot:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/07/uma-entrevista-com-bryan-talbot.html

Angeli, Jô Oliveira, Guga e Mutarelli:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/4-x-4.html

A capital brasileira dos quadrinhos:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/capital-brasileira-dos-quadrinhos.html

05/04/2009

O Spirit de Will Eisner, na “adaptação” cinematográfica de Frank Miller.


A ligação de Frank Miller com as HQs do Spirit de Will Eisner e os filmes de crime e violência urbana vem desde o início de sua carreira, quando ele inovou os quadrinhos de super-heróis com seus desenhos e roteiros para a revista Daredevil. A utilização inteligente dos recursos narrativos introduzidos por Eisner somada ao emprego de um ritmo cinematográfico moderno deram às revistas do Demolidor um dinamismo e uma riqueza narrativa raros nos quadrinhos de super-heróis até então. Por tudo isso, era de se esperar que a adaptação cinematográfica de The Spirit, escrita e dirigida por Miller, fosse no mínimo um bom filme e especialmente fiel e respeitoso à obra que lhe serviu de inspiração. Infelizmente, nem de longe é isso que acontece!

A verdade é que não podemos reclamar que não fomos avisados de que Miller estava mais interessado em celebrar seu estilo gráfico pessoal do que propriamente homenagear seu mestre e amigo. Já no cartaz do filme, desenhado pelo próprio diretor, o contraste em preto e branco marcado, com partes em vermelho gritante, tem muito mais a ver com a série Sin City do que com a própria The Spirit. E bastou ver o trailer do filme, com suas cenas em preto e branco saturados, para ficar evidente que Miller gostou tanto da adaptação de seu próprio quadrinho para os cinemas que resolveu repetir o visual, fugindo completamente ao espírito da obra de Eisner. Quanto ao filme em si, a lista de erros, falhas e insultos é tão extensa que mal sei por onde começar!

O visual é sombrio e feio. Os detalhes em branco estourado cansam. Os diálogos são clicherescos e tediosos. Alguns momentos mergulham no mais profundo kitsch sentimentalóide. O ritmo às vezes cai num arrastar que se prolonga por muito mais do que deveria e um pouco além. As cenas de briga parecem saídas de uma sessão de luta livre mal ensaiada. Há até mesmo tiradas de humor forçadas que devem agradar a alguém com extremo mau-gosto. Com isso, em seus momentos mais “dinâmicos”, o longa-metragem não passa de uma comédia pastelão mal escrita e pessimamente iluminada. O que me leva à pergunta de quarenta milhões de dólares: o filme tem mesmo uma história? Uma que valha a pena ser assistida? Pergunto, pois a produção é tão chata e pretensiosa que com vinte minutos eu já estava pedindo para que acabasse! Mas só acabou após intermináveis uma hora e quarenta minutos...

O Comissário Dolan, Ellen, Silken Floss, Plaster of Paris, Octopus... Todos os personagens no filme parecem errados ou excessivos ou diminuídos. Só Sand Saref parece na medida. Também, com a beleza e as medidas da atriz Eva Mendes, fica difícil para qualquer diretor errar feio. Diga-se de passagem, Miller segue os passos de Quentin Tarantino e faz uma ponta no início do filme, para logo morrer e não deixar saudades em ninguém. Quanto ao próprio Spirit, da primeira sequência em que ele aparece até as últimas, Miller fez de tudo para não fazer jus ao personagem humano e simpático criado por Eisner. Praticamente um super-herói invulnerável, imitando a voz e os saltos do Batman e recitando falas de um Rorschach mais sentimental, o Spirit cinematográfico tem pouco ou quase nada do herói clássico dos quadrinhos.

Em resumo, The Spirit é um péssimo filme. Usando termos mais técnicos, eu diria que se trata de lixo cinematográfico puro e simples. Uma obra dispensável que conquistou sem grande esforço um lugar de desonra ao lado de produções como A Liga Extraordinária e Mulher-Gato. Se você ainda não foi ao cinema assistir a esse filme, minha sugestão é que não vá. Economize seu tempo e dinheiro. Ele não vale o esforço de sair de casa. Ainda assim, se fizer questão de conferir a “adaptação” de Frank Miller da obra-prima de Will Eisner, bem, espere até sair em DVD. Ou mesmo espere até passar na tevê. Antes de encerrar, porém, devo fazer uma derradeira ressalva: os créditos finais com os story boards de Miller ao fundo ficaram bem bacanas. Aliás, o autor de O Cavaleiros das Trevas e Sin City deveria voltar a se dedicar ao que sempre fez bem, que é desenhar quadrinhos!

27/03/2008

Spirit de Will Eisner, por Darwyn Cooke.


A Panini começa a publicar neste mês as seis primeiras edições da série Will Eisner’s The Spirit, escritas e desenhadas por Darwyn Cooke, com arte-final de J. Bone e cores de Dave Stewart. Lançada em dezembro de 2006, a nova revista chegou com a proposta de atualizar esse personagem clássico dos quadrinhos, tornando-o mais atraente ao público do século 21 e antecipando a chegada do filme dirigido por Frank Miller. Mas, apesar do visual interessante e da boa produção gráfica, será que o novo Spirit faz jus ao original?

De seu refúgio subterrâneo num velho cemitério de Central City, o detetive mascarado Denny Colt surgiu, em 1940, para combater o crime e revolucionar os quadrinhos norte-americanos. Publicado em vários jornais e revistas, Spirit foi definido por Will Eisner como sendo: “um homem comum, oficialmente morto, mas vivendo na verdade sob uma identidade secreta; era vulnerável; podia ser ferido, como qualquer outro ser humano, e não possuía um único superpoder”. Em várias histórias, o simpático herói de chapéu e terno azul aparecia como um simples coadjuvante, em outras chegava a ser vencido por seus inimigos, tendo que ser salvo por interferência de outros personagens ou por pura sorte. Na verdade, Spirit era um pretexto para Eisner e seus assistentes contarem histórias com ação e suspense, nas quais o tema era a condição humana.

Publicada até 1952, a série The Spirit trouxe, sobretudo, preciosas contribuições para a linguagem e a temática dos quadrinhos, reinventando sua narrativa e incorporando elementos do cinema, literatura e, é claro, da vida real. Com isso, ao longo dos anos, diversos autores manifestaram sua gratidão às lições artísticas aprendidas com a HQ noir de Eisner. Não faltaram também edições de tributo, como Spirit Jam e The New Adventures, lançadas pela Kitchen Sink nos anos 90, além de seguidas reedições das HQs originais. A mais recente delas é a bela coleção The Spirit Archives, lançada pela DC Comics, com vinte e quatro volumes em capa-dura, reunindo a série completa, de 1940 a 1952. O que talvez não se esperasse é que, tendo adquirido os direitos de publicação do personagem, a editora fosse dar o passo além, produzindo novas histórias com o detetive mascarado.

A primeira investida da DC foi o especial Batman & Spirit, escrito por Jeff Loeb e desenhado por Darwyn Cooke, que não passa de uma apresentação do herói de Central City aos leitores mais acostumados com o cavaleiro de Gotham. Então, no mês seguinte, a editora lançou Will Eisner’s The Spirit, dessa vez com Cooke assinando também as histórias. Hábil em criar um clima de época para HQs passadas nos anos 40 e 50, na nova série, porém, o quadrinista canadense optou por uma ambientação contemporânea. E talvez esteja aí o “calcanhar de Aquiles” desse trabalho. Não quero estragar o prazer de quem possa se interessar em ler a série lançada pela Panini, mas atualizar o Spirit, colocando-o diante de questões político-sociais de hoje ou dando-lhe um telefone celular, pode sim torná-lo mais familiar aos leitores do século 21, ao mesmo tempo em que mata o “espírito” original do personagem.

Na edição de estréia, Spirit liberta uma apresentadora de tevê das garras de perigosos bandidos. Na edição seguinte, ele se envolve com uma mulher-fatal em busca de se vingar de um cruel ditador do Oriente Médio. O número 3 começa com assassinatos num restaurante de Central City, levando a uma recriação da história de como Denny Colt tornou-se o Spirit. A seguir, uma viagem à fronteira com o México, um encontro com uma agente federal, tiros e explosões dão o tom da edição. O quinto número, com um humor bastante questionável e um tema não muito original, trouxe Spirit às voltas com antigos vilões e uma estranha guloseima que lhe plagia a imagem. O golpe final veio numa HQ que mistura uma banda de rock e um asteróide azul, numa batida metáfora para a dependência de drogas.

Apesar de desenhos bem ruins em sua penúltima edição, as revistas produzidas por Cooke & Cia. têm um visual tecnicamente competente. Mais uma vez, o traço cartunizado do autor combina bem com as cores e efeitos de computação gráfica produzidos por seus colaboradores. Por outro lado, não vemos nem uma sombra das invenções narrativas e gráficas trazidas por Eisner na série clássica. E se a opção na nova série foi por divisões de página mais regulares, o único elemento narrativo mais formalista é a regra de, sempre após a introdução da trama, abrir uma página dupla com o título da HQ e o nome The Spirit incorporado à cena. Em resumo, com suas referências veladas à CNN e outras atualidades, seu conservadorismo político-social e ainda que traga os vilões e coadjuvantes do passado, a nova série não chega aos pés da original. A versão produzida por Cooke não tem o “charme” do original de Eisner.

Ao contrário do que acontece em outras artes mais tradicionais, as noções de “clássico” ou “obra-prima” são muito frágeis em se tratando dos quadrinhos, podendo sofrer não só os ataques do tempo, mas também serem vítimas dos oportunismos empresariais. O resultado é que mesmo as criações mais renomadas podem acabar se desgastando ou perdendo sua força, em nome da exploração comercial e do interesse financeiro. Por seu prestígio e qualidade, isso provavelmente não acontecerá com The Spirit de Will Eisner. Quanto à versão século 21, podemos dizer que ela prova que Darwyn Cooke é um ótimo desenhista, mas deveria deixar os roteiros por conta de autores mais capazes e inventivos. Para ler outros textos sobre Eisner e Cooke, clique nos nomes destacados abaixo.

01/03/2008

Will Eisner no coração da tempestade.


Will Eisner foi sem dúvida um dos grandes inovadores dos quadrinhos, sendo um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, das possibilidades expressivas e temáticas das HQs norte-americanas. O autor falecido em 2005 levou para as páginas de suas histórias o cotidiano e os conflitos pessoais dos habitantes das grandes cidades, representando-os através de um estilo inconfundível. E é isso que encontramos nas páginas de No Coração da Tempestade, graphic novel lançada no Brasil em 1996, em dois volumes pela editora Abril.

Concluída em 1990, No Coração da Tempestade é, segundo o próprio autor, “uma mal-disfarçada autobiografia”. Nas primeiras páginas encontramos Willie (Eisner), um jovem cartunista norte-americano convocado para servir o exército, em plena Segunda Guerra Mundial. Na viagem em direção a uma base militar, enquanto outros recrutas passam o tempo conversando ou lendo jornais, Willie mergulha em suas lembranças. Utilizando um artifício engenhoso, o autor imprime um caráter de “memória” à sua narrativa: as imagens que Willie vê através da janela do trem remetem a lembranças de seu passado. Assim, uma garota andando de bicicleta faz surgir lembranças de uma antiga namorada, um menino vendendo jornais faz com que ele se lembre de seu primeiro emprego.

Somos, assim, convidados a uma viagem em que as imagens saem da memória de Willie, direto para o papel. Contudo, em momento algum, o personagem assume explicitamente a função de narrador, sendo na verdade a figura central de uma HQ repleta de muitos outros personagens. Boa parte das páginas é dedicada à história de seus pais: ora é sua mãe que conta suas desventuras nos Estados Unidos do início do século 20, ora é seu pai que narra porque foi parar na América, após trabalhar como pintor em Viena. Mas, confusões de infância, interesses eróticos e o início da carreira como cartunista são lembranças que devolvem Willie ao centro da narrativa. Trabalho de um verdadeiro mestre, a história é contada com uma precisa variação de formas e disposições de quadros, aliada a um eficiente emprego das massas de claro e escuro.

O universo descrito em No Coração da Tempestade é o do final do século 19 e da primeira metade do século 20. Relações familiares, crises sociais e o clima de guerra compõem o “pano de fundo” para a trajetória da família de Willie. Os subúrbios nova-iorquinos (com seus imigrantes multinacionais) e os cafés europeus (com seus artistas e vida cultural agitada) fornecem o ambiente para a história contada por Eisner. Os personagens, construídos a partir de experiências pessoais do autor ou relatos de seus pais possuem um incrível realismo. Como se tornou recorrente nos trabalhos do quadrinista, uma questão presente ao longo dessa HQ é o preconceito sofrido pelos judeus. Mas aqui o autor não nos mostra a perseguição aberta e violenta empreendida pelos nazistas nos anos 30 e 40, mas o preconceito das pessoas comuns, presente no dia-a-dia.

No Coração da Tempestade foi o melhor lançamento em quadrinhos a chegar às bancas em 1996. E isso apesar da impressão e acabamentos meramente comuns, empregados pela Abril Jovem. Assim, como a obra está esgotada há algum tempo e a Devir vem lançando outras graphic novels de Will Eisner, seria um bom momento para uma reedição de No Coração da Tempestade, desta vez com o cuidado e a qualidade de impressão que o trabalho merece.

27/02/2008

A Força da Vida de Will Eisner.


Dando continuidade à publicação das graphic novels de Will Eisner, a Devir lança agora A Força da Vida. Com impressão especial na capa e 152 páginas impressas em sépia sobre papel chamois, a edição chega às livrarias ao preço de R$ 38,00. Ambientado na década de 1930, durante os anos da Grande Depressão econômica nos Estados Unidos, o livro traz a essência dos melhores trabalhos do mestre da “arte sequencial”.

Em termos estilísticos e temáticos, A Força da Vida enquadra-se na sequência de ótimas obras que Eisner lançou a partir de 1978 (Um contrato com Deus, Nova York: A Grande Cidade, O Edifício) e que deram origem à tradição das graphic novels norte-americanas. Criada há vinte anos, a HQ traz uma narrativa bastante diversa, que mistura páginas de quadrinhos, textos ilustrados, representações de cartas e reportagens ou até mesmo a compilação de dados meteorológicos. Produzida por alguém que viveu no ambiente e época retratados (a nova York dos anos 30), a obra traz uma notável riqueza na representação dos personagens, cenários e contexto. Não é por menos que, no traço característico do mestre, pessoas e acontecimentos vão surgindo e interagindo, ganhando vida e sentido a cada capítulo.

É interessante notar que A Força da Vida não constitui exatamente uma trama linear (sendo mais uma espécie de “novela” do que propriamente um “romance” gráfico). O que o livro nos apresenta são um tema e vários personagens, ao longo de capítulos que vão se entrelaçando. O tema já está presente no título, é a “força da vida” que nos impele adiante mesmo nas situações mais adversas, e ainda que nos questionemos sobre o sentido de nossa existência ou sobre a existência ou não de um Deus. Os personagens (como não poderia ser diferente numa obra de Eisner) são pessoas comuns, capturadas em breves instantâneos ou longas sequências da vida nas grandes cidades. São os injustiçados e os perseguidos das grandes lutas sociais, os heróis e os vilões dos pequenos dramas cotidianos, os apaixonados e os desesperançados, jovens e velhos, pessoas como nós, tratadas com lirismo e respeito.

O título do livro também dá nome ao primeiro capítulo e reaparece na parte em que um dos personagens centrais se põe a questionar o sentido da vida, diante de uma indefesa barata (talvez um eco intertextual de Franz Kafka?). E embora o inseto seja bastante relevante nas primeiras páginas, ele desaparece no decorrer do livro, retornando para um desfecho temático, no capítulo final. O que ganha força à medida que os capítulos se sucedem são os elementos do contexto histórico, que surgem do cotidiano dos personagens ou provocam a interação entre eles. É assim que ficamos sabendo dos conflitos envolvendo o movimento comunista e sindical em Nova York, de como surgiu e se estabeleceu a máfia italiana naquela cidade ou das dificuldades e desafios impostos pela Grande Depressão. E uma vez que Eisner passou a juventude num bairro de forte presença judaica, vários personagens da HQ têm essa origem cultural. Logo, o início da perseguição nazista na Alemanha, que levaria ao Holocausto dos judeus na Segunda Guerra Mundial, tem um papel importante no desenrolar dos fios narrativos da obra.

Seguramente, A Força da Vida não é a obra mais genial de Will Eisner. Ainda assim, é um trabalho que eleva e enriquece a arte dos quadrinhos, sendo também um título que não deve faltar na coleção dos admiradores do grande mestre norte-americano. E para aqueles que quiserem ler uma entrevista exclusiva que fiz com ele ou saberem mais sobre seu trabalho, basta clicar no nome WILL EISNER abaixo.

15/11/2007

Frank Miller: demolindo padrões dos quadrinhos.


Em 1979, um jovem e desconhecido desenhista chamado Frank Miller assumiu o lápis da revista Daredevil da Marvel Comics. No início, ele apenas desenhava as histórias escritas por Roger McKenzie, mas em pouco tempo passou a colaborar com o roteirista, para em seguida assumir também os roteiros. O fato é que, quando Miller desenhou sua primeira edição da Daredevil, a revista estava em vias de ser cancelada. Quando ele a deixou, em 1983, a publicação havia se tornado uma das mais vendidas e influentes do início dos anos 80, fazendo do Demolidor um personagem de primeira linha da Marvel, e de Frank Miller um nome conhecido e respeitado nos quadrinhos.

As histórias e os desenhos de Miller, complementados pela arte-final precisa de Klaus Janson, trouxeram uma ambientação e um realismo raros nos quadrinhos de super-heróis. Seus enquadramentos mostrando personagens de corpo inteiro, bem como seus “cortes” rápidos, valorizavam as sequências de ação, evidenciando a influência da narrativa cinematográfica moderna. Suas diversificadas e criativas divisões de página sublinhavam o “clima psicológico” dos roteiros, seguindo a risca os ensinamentos do mestre Will Eisner. E, é claro, há o elemento que conquistou os jovens leitores norte-americanos e brasileiros nos anos 80: a influência do mangá Lobo Solitário de Kazuo Koike e Goseki Kojima, do qual Miller pegou emprestado não apenas sequências de quadros, mas também samurais, ninjas, katanas, estrelinhas mortais e toda sorte de elementos japoneses. Não é à toa que, após salvar a revista do desaparecimento, Miller apresentou sua principal criação: a personagem Elektra, uma antiga namorada do Demolidor, que se tornara uma sensual assassina ninja.

Com grande atenção aos detalhes e à construção psicológica dos personagens, Miller se fez valer de narrativas paralelas (em que os leitores seguem ao mesmo tempo duas linhas de ação) e também de enquadramentos subjetivos (em cenas desenhadas a partir do ponto de vista de um personagem). Tornou-se célebre a página em que o Demolidor aponta uma arma para o rosto do Mercenário, com a "câmera" se aproximando do olho do vilão nas passagens de quadro, até o momento extremo, quando a sequência é cortada e aparece o dedo do Demolidor puxando o gatilho. O herói não aparece, mas toda a tensão e a carga emocional que envolve a cena estão presentes nos olhos do vilão. Se não bastasse a inovação narrativa, o tema em si era bastante incomum para os comics, pois mostra o protagonista da história fazendo roleta-russa com o assassino de sua amada. Para os padrões dos quadrinhos de super-heróis, algo revolucionário! Miller tocou em temas nunca vistos em histórias da Marvel, tudo com uma abordagem direta. Ele utilizou a vida cotidiana e o pequeno mundo do crime presente nas grandes cidades. Seus heróis eram tão realistas quanto seus vilões: pessoas com problemas comuns, paixões e medos.

Com a qualidade e a boa repercussão alcançada por suas histórias, Miller tornou-se uma espécie de “autor oficial do Demolidor”, e isso mesmo após sua saída da revista Daredevil. Mas para a alegria dos fãs, ele não demoraria muito a retornar às HQs do “homem sem medo” e da enigmática Elektra. Em parceria com o artista Bill Sienkiewicz, Miller criou em 1986 a Graphic Novel do Demolidor e a minissérie Elektra Assassina (obras que inovaram a estética dos quadrinhos de super-heróis, abrindo espaço para HQs com arte pintada). Ao mesmo tempo, ele retomou os roteiros da revista Daredevil, com a ótima série de histórias que ficou conhecida no Brasil como A queda de Murdock (desenhada pelo talentoso David Mazzucchelli). No início dos anos 90, Miller retornaria aos personagens que fizeram sua fama em duas histórias: Elektra Vive, uma graphic novel que demorou mais de cinco anos para ser concluída (gerando uma enorme expectativa entre os leitores, mas não correspondendo no fim) e Demolidor - O Homem Sem Medo, minissérie desenhada por John Romita Jr. (que repete a fórmula de Batman: Ano Um, mas sem o mesmo resultado).

Tendo sido um marco para os quadrinhos de super-heróis no início dos anos 80, as primeiras histórias de Frank Miller para o Demolidor contribuíram para mostrar aos editores que o público estava pronto e, sobretudo, desejava histórias mais sofisticadas com desenhos mais elaborados. Consideradas hoje um clássico dos quadrinhos de super-heróis, essas histórias foram relançadas no Brasil pela Panini em 2003, sendo recentemente reunidas pela Marvel no volume Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson Omnibus HC, um calhamaço de capa dura e 816 páginas, ao preço de $99.99 US. Quando as histórias foram lançadas originalmente, não foi necessária tanta sofisticação editorial: bastaram simples revistinhas em papel-jornal, que custavam apenas cinquenta centavos de dólar e traziam o talento inovador de um jovem desenhista que demoliu velhos padrões dos quadrinhos.

14/11/2007

Meu encontro com Will Eisner.


Em outubro de 1997, Will Eisner visitou Belo Horizonte (MG) como convidado do projeto Conferências do Centenário e da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Para minha felicidade, eu estava “no lugar certo, na hora certa”! Na primeira manhã da visita de Eisner à cidade, fui interprete em sua coletiva para imprensa e tive o prazer de acompanhá-lo numa visita às exposições da Bienal. No dia seguinte, nós nos reencontramos rapidamente, quando pude presenteá-lo com um exemplar da revista SOLAR, em que faço uma pequena homenagem a The Spirit (a foto ao lado registra este momento e foi publicada numa revista da época). O texto a seguir saiu como uma matéria especial para um jornal de BH e foi atualizado para sua veiculação aqui. Ele relata como foi meu encontro com este mestre da "arte sequencial", falecido em janeiro de 2005.

É comum se dizer que as obras de um grande artista refletem sua alma. Essa frase pode não ser uma verdade absoluta, mas ela certamente se aplica a Will Eisner, o criador da série The Spirit e um dos mais importantes autores da história dos quadrinhos. Dedicando-se à criação e estudo das HQs por mais de sete décadas, ele foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, estética e temática desta arte. Isso lhe garantiu reconhecimento e deferência não apenas por parte dos amantes dos quadrinhos, mas também daqueles que vêem as artes em geral como formas de expressão pessoal e interação entre as pessoas. Tendo sido um dos grandes artistas do século 20, em sua visita a Belo Horizonte Will Eisner mostrou-se sempre amável e acessível àqueles que se aproximavam para entrevistá-lo, pedir um autógrafo ou simplesmente trocar algumas palavras.

Se The Spirit foi fruto de um processo de desenvolvimento que, segundo seu criador, corresponderia à sua própria evolução enquanto artista, desde que surgiu em 1940 o personagem tornou-se um caso muito especial na galeria de heróis dos quadrinhos norte-americanos. Como o próprio Will Eisner o definia, Spirit é um herói com as fraquezas e limitações, medos e paixões dos seres humanos comuns. E ao introduzir em suas histórias questões da existência humana, Eisner mostrou que os heróis dos quadrinhos podiam ser mais que figuras unidimensionais que se espancam enquanto bradam falas cheias de clichês. Com The Spirit, os comics tornaram-se mais humanos.

De fato, algo inegável nos trabalhos deste grande mestre é a empatia. Da mesma forma que seu autor se mostrou amável e atencioso, suas histórias e desenhos são capazes de cativar a atenção valendo-se de uma simplicidade poética. Partindo de questões concretas do mundo real, seus roteiros criam situações que envolvem o leitor, tornando-o um cúmplice no desenrolar da trama. Afinal, como disse Eisner, “o leitor de quadrinhos jamais é um espectador passivo”.

Em obras-primas como Nova York - A Grande Cidade, o desenhista mostra-nos seu universo pessoal, através de impressões e opiniões sobre o mundo contemporâneo. Com um traço que se vale da precisão e da expressividade para dar vida a personagens e situações únicos, esse verdadeiro cronista da vida nas grandes cidades fazia poesia através de imagens. A “belíssima Belo Horizonte” que ele encontrou em 1997 não tem nada da “pequena cidade provinciana” sobre a qual ouvira falar, aproximando-se mais da clássica Nova York de seus livros, onde as contradições e conflitos da sociedade moderna tornam-se visíveis e o ritmo da vida ainda permite-nos vislumbrar personagens especiais perdidos na multidão.

Para um artista com décadas de atuação, o segredo da permanência de seus personagens e histórias é a simplicidade dos mesmos; é o fato de lidarem com questões básicas da existência que se mantêm ao longo do tempo. Mas, se a vitalidade do artista se refletia na permanência de sua obra, a paixão com que Eisner se referia aos quadrinhos era resultado da contínua renovação desta forma de arte, que a cada convenção ou bienal lhe presenteava com novidades como o “expressivo traço” de Henfil ou as “fortes imagens” dos desenhos de Marcelo Lelis.

Talvez a rápida transformação e superação do mundo que ele interpretava com tanto lirismo tenha sido o fato que levou Eisner a interromper as aventuras de Spirit, nos anos 50. O que ele não poderia prever é que seu personagem continuaria vivo, através de reedições e de uma fiel legião de fãs, ou que quando retornasse aos quadrinhos, na década de 1970, ele fosse o principal responsável pela formação de um novo gênero, as graphic novels. Como era de se esperar, alguém que iniciou duas grandes revoluções qualitativas sabia como poucos identificar os mecanismos de funcionamento e as especificidades dessa linguagem artística, como ele fez nos livros teóricos Quadrinhos e Arte Seqüencial e Narrativas Gráficas.

Se fôssemos comparar os quadrinhos a outras artes, teríamos que comparar Will Eisner a artistas como Picasso ou Fellini. Compreendendo e revolucionando as linguagens que escolheram, cada qual interpretou o mundo a partir de um ponto de vista particular, conciliando personalidade e universalidade. Transformando a estética, reinventando a linguagem, apropriando-se do clássico para popularizar a arte, eles deixaram suas impressões sobre o século 20. Mas é claro que dentre esses artistas, Will Eisner é o que tem menor reconhecimento. A desprestigiada arte por ele escolhida para se expressar continua não sendo tratada com a devida atenção e seriedade.

Se o leitor que percorreu estas linhas ainda não conhece a genialidade de Will Eisner, espero que minhas palavras tenham contribuído para despertar seu interesse. Tendo conhecido pessoalmente o criador, pude perceber que a paixão, vitalidade e grandiosidade de sua obra eram reflexos dele mesmo. Meu encontro com Will Eisner foi um daqueles momentos incomparáveis em que se recupera uma profunda paixão pelo que se faz. Enfim, não é todo dia que se conhece um grande gênio!

Uma entrevista com Will Eisner.


O norte-americano Will Eisner foi um dos grandes mestres da história dos quadrinhos. Nascido em 1917, ele iniciou sua carreira nos anos 30, sendo um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, estética e temática da “arte sequencial” (nome pelo qual ele chamava os quadrinhos). Dominando a arte de contar uma história com imagens, Eisner levou para as páginas de suas HQs o cotidiano e os conflitos pessoais dos habitantes das grandes cidades, representando-os através de um estilo inconfundível. Em suas obras, a subjetividade e o cotidiano são elementos predominantes, evidenciando o trabalho de um observador atento que relata com consciência e lirismo a vida através dos quadrinhos.

Em outubro de 1997, o inventor das graphic novels esteve em Belo Horizonte (MG) para participar da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Na época, eu trabalhava como crítico de quadrinhos para um jornal de BH, e tive a oportunidade de entrevistá-lo pouco antes de sua vinda. O tema de nossa conversa feita por fax foram os quadrinhos como forma de arte.

O senhor já esteve no Brasil antes. Quais são suas expectativas em relação a Belo Horizonte?

Sim, eu já estive no Brasil várias vezes. Falaram-me muito sobre Belo Horizonte, de que é um lugar muito bonito. Espero encontrar colegas aí, para trocar idéias sobre os quadrinhos.

Em 1996, comemorou-se no mundo inteiro o que seria o centenário dos quadrinhos. O senhor concorda com quem diz que Yellow Kid foi a primeira história em quadrinhos? O que nos diz dos trabalhos de Rudolph Töpffer e Wilhelm Bush (considerados por muitos os verdadeiros criadores da linguagem dos quadrinhos)?

Definir a origem dos quadrinhos é muito difícil, pois a utilização literária de imagens data de séculos atrás. A Igreja na Europa usou esta forma de comunicação durante a Idade Média. Creio que podemos considerar Yellow Kid como sendo o começo da publicação em massa dos quadrinhos, ele foi a primeira tira diária a ser publicada. Certamente, Töpffer foi muito importante, mas ele não foi parte da ampla popularização desta mídia.

Qual seria o papel social dos quadrinhos na atualidade, e qual seu significado histórico?

Os quadrinhos são uma forma de literatura popular, como tal, eles refletem as transformações de nossa cultura. Eles continuam proporcionando um veículo narrativo profundamente ligado à sociedade moderna. Historicamente, os quadrinhos têm dado voz às relações sociais. Os quadrinhos de jornal, muitas vezes, lidam com relações étnicas e servem como uma introdução à compreensão de vizinhos que tenham uma origem cultural diferente.

O que o senhor acha dos quadrinhos publicados pelas grandes editoras norte-americanas?

Os quadrinhos publicados pelas grandes editoras nos Estados Unidos geralmente seguem a tendência dominante nos gostos e interesses dos jovens. Super-Heróis, o sustentáculo das grandes editoras, fornecem um suporte mitológico para as fantasias destes jovens. Mas algumas das grandes editoras estão atendendo a gostos mais sofisticados. Um desenvolvimento muito positivo.

Em seus trabalhos, o senhor nos mostrou que as histórias em quadrinhos podem ser muito mais que apenas diversão, assim, eu lhe devolvo uma pergunta de seu último livro The Graphic Storytelling [inédito no Brasil na época da entrevista]: “até onde os quadrinhos podem ir na abordagem de temas sérios”?

Eu sempre acreditei que os quadrinhos são capazes de lidar com um conjunto de temas mais amplo e mais significativo. Enquanto uma linguagem literária, esta mídia deve ser capaz de lidar com todo o conjunto dos conflitos humanos. Como o cinema e o teatro, a Arte Seqüencial também tem certas limitações, como a ausência do som e da música. No caso do cinema, é o fato dos personagens terem pouca profundidade. O futuro dessas artes reside em sua habilidade em superar o estigma de sua forma e trabalhar conteúdos mais sérios.

Suas obras lidam com as dimensões trágica e cômica da vida. Na sua opinião a vida se assemelha mais a uma tragédia ou a uma comédia?

Nossa!... A vida é tragicômica. Em meu trabalho eu lido com o que penso ser a questão fundamental, que é a batalha pela existência. Por isso, crio obras para um público adulto, que tenha mais experiência de vida.

Qual o futuro dos quadrinhos na era da computação?

A nova era do computador não alterará a estrutura básica dos quadrinhos. A história em quadrinhos é fundamentalmente uma narrativa contada com imagens. Ela não está irrevogavelmente ligada à impressão. Quando a tecnologia dos computadores evoluir, os quadrinhos encontrarão um lugar, pois sua linguagem se adequa claramente a ela. As regras da narrativa gráfica ainda se aplicarão.