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18/11/2013

FIQ 2013 (4)!

A surpresa do encontro com Peter Kuper, gênio dos quadrinhos contemporâneos, que tinha ido ao estande da NEMO para conhecer o editor.

01/05/2008

Kafka nos quadrinhos de Kuper.


Nos últimos quinze anos, a utilização de cores produzidas por computador tornou-se uma técnica muito difundida nos comics. Conciliada a um visual dinâmico e detalhista, a colorização digital tem sido um importante recurso para atrair a atenção dos leitores e mascarar a deficiência dos roteiros e desgaste dos super-heróis em geral. Mas, felizmente, nem só de truques mercadológicos se fazem os quadrinhos norte-americanos. Com criatividade, alguns autores continuam provando que os recursos técnicos mais elementares podem ser o bastante para se produzir um verdadeiro quadrinho-arte. Um bom exemplo disso é Desista!, uma adaptação de contos de Franz Kafka feita por Peter Kuper. Lançada no Brasil originalmente pela L&PM em 1997, essa inventiva HQ acaba de ser relançada pela Conrad, numa edição mais caprichada.

Desista! não foi a primeira adaptação de Kafka para os quadrinhos lançada no Brasil. Em 1987, a Press Editorial publicou Kafka em Quadrinhos, uma coletânea de HQs desenhadas pelo argentino Léo Durañona. Com influência dos desenhos do francês Moebius, esse trabalho mistura realismo e fantasia, embora peque pela falta de dinamismo. Desista! também não foi a última adaptação inédita do escritor tcheco publicada no Brasil, uma vez que em 2003 a própria Conrad já havia lançado A Metamorfose. Desenhada por Peter Kuper, A Metamorfose traduziu em setenta páginas de quadrinhos um dos textos mais famosos de Kafka: a história de Gregor Samsa, um homem que um dia acorda transformado numa enorme barata. Infelizmente, essa HQ não está disponível na loja da editora, mas talvez ainda possa ser encontrada, com alguma sorte, em sebos ou livrarias.

Quanto ao recém relançado Desista!, o livro traz nove contos de Kafka quadrinizados por Kuper. Ao contrário da maioria das adaptações de obras literárias, Desista! não apresenta um estilo visual realista ou naturalista, tampouco tenta reproduzir fielmente a sociedade em que Kafka viveu. A jogada de gênio e a grande virtude do quadrinista e ilustrador norte-americano estão no fato de ele ter buscado reproduzir o clima e o espírito dos textos kafkianos. Na caracterização dos personagens, na forma como estrutura as páginas e no visual pesado e conciso dos desenhos, a adaptação de Kuper consegue traduzir o elemento central dos contos de Kafka: a condição precária e angustiante do indivíduo, frente à opressão e ao absurdo do mundo. Num estilo expressionista, o brilhante autor da série Spy vs. Spy e da graphic novel O Sistema nos apresenta uma tradução perfeita, uma metáfora visual ideal para o texto original, sempre denso e um tanto claustrofóbico.

Em termos técnicos, além dos traços fortes e contrastados, a característica mais marcante de Desista! é sua peculiar forma de organizar e articular os desenhos nas páginas. Na maioria das HQs, o que liga um quadro àquele que o antecede e ao que o sucede é uma relação de interação, na qual o sentido de uma imagem completa e é completado por outra. No trabalho de Kuper, soma-se a isso uma relação orgânica entre as imagens, na qual partes de uma cena mesclam-se a elementos de outra ou surgem a partir de outra, adquirindo quase sempre novos sentidos. Por exemplo, o que ora é o mundo sob os pés do personagem, em seguida torna-se apenas parte de seu chapéu, enquanto em outra sequência é a silhueta de um guarda que se funde e confunde com uma parede de tijolos e os limites do quadro. O resultado é um trabalho de arte visual muito inventivo que, mais uma vez utilizando apenas recursos elementares e a criatividade, coloca possibilidades novas e originais para a arte dos quadrinhos.

A reedição de Desista! e outras histórias de Franz Kafka tem 72 páginas, formato 16cm x 23cm, capa cartonada com orelhas e impressão em preto e azul, custando R$22,00. Altamente recomendado e realmente imperdível para quem gosta de quadrinhos de qualidade!

10/12/2007

O Sistema enriqueceu a arte dos quadrinhos.


Publicado originalmente nos Estados Unidos como uma minissérie em três edições, e como uma edição única no Brasil, The System traz como epígrafe uma citação de William Blake: “Preciso criar um sistema para não ser escravizado pelo sistema de outra pessoa”. Aprofundando o sentido estético e as implicações histórico-sociais dessa frase, Peter Kuper produziu uma obra originalíssima. Dividido em três capítulos, somando pouco menos de cem páginas, O Sistema traz uma boa estrutura narrativa, com diagramações de página diversificadas, que seguem o ritmo do roteiro.

Mas se estes elementos são comuns no quadrinho-arte em geral, são outros os componentes que tornam a obra de Kuper uma história em quadrinhos incomum. Primeiro, a total ausência de balões de fala ou pensamento (característica que, por si, já elimina um signo gráfico de fácil reconhecimento). Nesta HQ, as únicas representações de som aparecem na forma de símbolos (como as “notas musicais”) ou de alusões visuais (como “ondas de choque”). Até mesmo os pensamentos expressam-se visualmente, através de sequências narrativas (nas quais vemos o que um personagem está “pensando”). Contudo, o que de fato estabelece a originalidade de O Sistema, uma história que se passa em Nova York nos anos 90, é a adequação temática do visual. Nesta obra, Peter Kuper (que já se mostrara um autor muito criativo no álbum Desista!, em que adapta para os quadrinhos contos de Franz Kafka) produz um visual que remete ao grafitismo: por suas formas de traços marcados e cores esfumaçadas que imitam o spray dos grafiteiros.

Sem heróis impolutos ou damas virginais, O Sistema representa (no estilo do humor político, com personagens tipificados) o cotidiano da metrópole contemporânea, com seu apelo ao consumo (do sexo à política institucionalizada), sua criminalidade (do tráfico de drogas à corrupção policial) e suas pequenas histórias cotidianas (das relações de amor e amizade à exploração alheia). Os verdadeiros “heróis” da história (num sentido baudeleriano) são uma strip-girl e um velho detetive alcoólatra, um casal gay, um mendigo e seu cachorro, uma skatista-hacker e um jovem grafiteiro. Outsiders e marginais, os personagens conquistam nossa simpatia, enquanto convivem com os poderosos, conspiradores, corruptos, corruptores, fanáticos e psicopatas que tornam A Grande Cidade vista liricamente por Will Eisner (autor que muito influenciou Kuper em suas soluções narrativas e escolhas temáticas) uma metrópole em que a vida está em risco a cada momento e o perigo à espreita em cada esquina.

Para além da crítica social, o roteiro de O Sistema é um entrelaçamento de histórias, um mosaico narrativo nada óbvio, em que vidas e ações, ambientes e acontecimentos encontram-se, sugerindo um grande “sistema” social do qual é quase impossível escapar. Se a alienação, a conivência ou a participação ativa da maioria dos personagens só vêm compor o quadro corrompido da grande metrópole, por outro lado, as contravenções de um outsider, as formas expressivas criadas por um artista anônimo e as relações afetivas autênticas assumem a condição de uma revolucionária contestação do sistema de produção-consumo predominante. Crítico e criativo, Peter Kuper realizou muito mais que uma história em quadrinhos tecnicamente inovadora. Em O Sistema, cada elemento do enredo, da narrativa e do visual constitui-se como um componente de uma obra, de um "sistema simbólico" que pode ser interpretado como uma alegoria da vida contemporânea. Alegoria esta que também não traz exatamente um happy ending.