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08/12/2009

O sombrio Homem Animal de Jamie Delano.


Jamie Delano foi o primeiro dos roteiristas britânicos a ser contratado pela DC Comics no rastro do sucesso de Alan Moore com a revista Swamp Thing. Não por acaso, sua estreia na editora foi com a série Hellblazer, estrelada pelo mago John Constantine, criado nas HQs do Monstro do Pântano por seu predecessor e conterrâneo. E mais do que o trabalho de Moore, foram as histórias de Delano que definiram o caráter e a biografia do cínico ocultista londrino. Ficando à frente de Hellblazer entre 1988 e 1991, o roteirista inglês alcançou bastante sucesso, contribuindo com um dos três pilares principais do que viria a ser o selo Vertigo (sendo os outros dois a própria Swamp Thing de Alan Moore e The Sandman de Neil Gaiman). Mas Delano ainda traria outra contribuição à linha de “quadrinhos adultos” da DC, ao assumir em 1992 a série Animal Man, à qual imprimiu um tom mais metafísico e sombrio.

Um personagem de terceiro escalão na galeria dos heróis DC, o Homem Animal ganhou relevância em 1988, ao ser reformulado por Grant Morrison. Responsável pela Animal Man n°1 ao 26 e pela edição com a “Origem Secreta” do herói, o roteirista escocês criou uma série inteligente, repleta de elementos metalinguísticos e que, em parte, celebra os quadrinhos de super-heróis mais ingênuos da chamada “Era de Prata”. Tornando difusas as barreiras entre realidade e ficção, incorporando temáticas filosóficas e metaficcionais, a fase de Morrison à frente da revista influenciaria as histórias do Homem Animal nos anos seguintes. Mas, apesar do interessante trabalho feito por seu sucessor imediato, o irlandês Peter Milligan, nas mãos do norte-americano Tom Veitch a série perdeu força e leitores. Era preciso dar-lhe um novo direcionamento. E esse novo rumo veio em meados de 1992, quando Jamie Delano trocou as páginas da Hellblazer pelas da Animal Man.

Já na primeira edição, o novo tom sombrio fica evidente, afastando a série da influência de Morrison e aproximando-a das concepções metafísicas da Swamp Thing de Moore. Trazendo o primeiro capítulo de “Carne e Sangue”, Animal Man n°51 começa com o Homem Animal vivendo numa fazenda do interior dos Estados Unidos, na companhia de sua esposa Ellen e de sua filha Maxine, enquanto seu filho Cliff fora morar com um estranho tio-avô em São Francisco. Uma noite de amor ao luar, um pesadelo infantil premonitório e o atropelamento de um cão dão o tom da história e antecipam o que virá pela frente. Para completar, o texto de Delano reforça sensações físicas, remetendo à “carne e sangue” do título. As coisas começam a complicar quando o Homem Animal parte em busca de seu filho. O resultado é catastrófico, pois além de não se reencontrar com Cliff, o herói acaba atropelado e estraçalhado pelo trailer do psicótico Tio Dudley.

Além da influência estilística presente desde o início, começam a surgir aí várias semelhanças com a Swamp Thing. Afinal, em sua primeira HQ para aquela série, Moore “matou” o Monstro do Pântano, limpando o terreno para as mudanças que introduziria a partir da edição seguinte. E é exatamente o que Delano fez em sua edição de estreia na Animal Man, que abre espaço para o surgimento do “Vermelho”, dimensão metafísica animal, similar ao “Verde” que vemos nas histórias do Monstro do Pântano. E se no segundo roteiro de Moore para a Swamp Thing temos uma autópsia do herói vegetal, em sua segunda edição com o Homem Animal, Delano nos mostra o cadáver de Buddy Baker cambaleando por um necrotério. E da mesma forma que seu predecessor, o herói também tem que passar por um processo de renascimento nas edições seguintes (no seu caso partindo de um piolho e depois uma libélula, até ressurgir de um ovo, numa forma híbrida).

Apesar dos diversos pontos em comum e da inegável influência das histórias de Alan Moore para a Swamp Thing, o trabalho de Jamie Delano tem alma e qualidade próprias. Com ótimos textos e concepções interessantes, o roteirista deu uma guinada na série Animal Man, direcionando-a para o lado do terror (e distanciando-a das discussões envolvendo o gênero super-heróis que caracterizaram a fase de Grant Morrison). Para isso, contribuíram enormemente os desenhos de Steve Pugh, com sua abordagem cotidiana e sua carga de sombras. O único ponto artístico em comum com o passado são as fantásticas capas ilustradas por Brian Bolland, que mais uma vez acrescentaram força às histórias. Mas até mesmo essa ligação duraria pouco, uma vez que Bolland deixou o título após a conclusão de “Carne e Sangue”. O fato é que, a partir da Animal Man n°57, a revista em sua nova fase sombria e metafísica passava a integrar o selo Vertigo, que era então lançado pela DC.

Provas da ampla e duradoura influência das HQs de Alan Moore para a Swamp Thing, as primeiras histórias de Jamie Delano para a Animal Man têm qualidade própria, reforçada pelas capas de Brian Bolland e os desenhos de Steve Pugh. Essas marcantes histórias inauguraram uma nova fase do Homem Animal e o levaram a integrar o selo Vertigo, mas não tiveram reedições nos Estados Unidos, permanecendo inéditas no Brasil.

29/07/2009

Origens recontadas dos heróis DC.


Na época da série 52, a DC Comics produziu e lançou uma coleção de HQs de duas páginas com a versão resumida das origens de vários de seus personagens. Uma espécie de reedição das populares “origens secretas” publicadas até 1990, essa nova coleção The Origin of... foi uma forma de a editora familiarizar novos e antigos leitores com seu elenco de personagens. Com roteiros escritos por Len Wein, Mark Waid e Scott Beatty, as histórias contaram com a participação de diversos desenhistas, incluindo nomes de destaque do momento (como Ivan Reis, Ethan Van Sciver, J.G.Jones) e veteranos consagrados (como Adam Hughes, Kevin Nowlan, Bruce Timm, Kelley Jones, Arthur Adams).

Neste último time, o desenhista que mais contribuiu com páginas desenhadas foi, surpreendentemente, Brian Bolland. Exímio no desenho de belas personagens femininas, o artista inglês foi o responsável pelas páginas da origem de Zatanna. Tendo definido o visual do Coringa para toda uma geração de leitores (com A Piada Mortal), Bolland também foi o responsável pela HQ do principal vilão do Batman, escrita por Waid a partir daquela apresentada por Alan Moore. Para esta coleção The Origin of..., no entanto, o melhor trabalho de Bolland está nas páginas feitas para o Homem Animal (que ilustram esta postagem), com um roteiro de Mark Waid baseado na versão proposta por Grant Morrison.

As páginas das origens de Zatanna, Coringa e Homem Animal, bem como as demais HQs de The Origin of... estão disponíveis online (os textos, é claro, estão inglês e para acessar as páginas basta clicar nos links anteriores).

27/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte3.


Última parte de nossa entrevista e Brian Bolland fala de como desenhar super-heróis (em quê nós discordamos sobre o quão bem ele faz isso), de suas fantásticas capas para Animal Man e The Invisibles, seus projetos pessoais, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais.

Wellington Srbek: Ninguém desenha os personagens da DC melhor que o senhor! Seu estilo detalhado com linhas clássicas e cores brilhantes dá a eles volume, peso, personalidade e vida. Seu desenho tem algo da “Era de Prata” e é ao mesmo tempo completamente moderno. O senhor tem uma abordagem conceitual para como os super-heróis devem parecer?

Brian Bolland: Bem, eu cresci como um fã da “Era de Prata” e certos desenhistas daquela era eram meus ídolos. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. Temo que nunca fui um grande fã de Jack Kirby. Eu era mais fã dos artistas do que dos personagens e mais ligado nos quadrinhos como artefatos colecionáveis do que nas histórias. Eu queria muito desenhar como Neal Adams, mas nunca consegui isso. Eu sou fissurado em desenhos que sejam tecnicamente e anatomicamente bem desenhados, mas eu tenho consciência de que tem que haver muito mais que isso. Eu não acho que eu seja particularmente bom nos super-heróis. Meu trabalho parece mais europeu, uma vez que fico feliz com personagens que estejam parados, posando ou congelados no tempo, no lugar da ação agitada que é requerida pelos quadrinhos norte-americanos de super-heróis. De fato me é pedido ocasionalmente para recriar uma capa da “Era de Prata” e desenhar no estilo de Premiani, Kane or Curt Swan (e esses trabalhos são mais cópias na verdade!). Eu adoro a limpeza e a clareza das capas dos anos 60.

WS: Eu simplesmente adoro suas capas para a Animal Man! Elas trazem imagens marcantes e significativas que contribuem muito para as histórias. A da número 5, por exemplo, é uma obra-prima! Como era o processo criativo nessa série? O senhor lia os roteiros e então bolava os conceitos para as capas?

BB: Obrigado. Eu realmente prefiro capas especificamente ligadas à história em vez da imagem-pôster genérica. Eu me desespero quando o editor diz: “faça simplesmente uma cena de ação”. Eu respondo: “Sim, mas o que exatamente eles estão fazendo?!” Eu sempre pensei que a 2000 AD tinha uma mistura de ação, terror e comédia que funcionava muito bem e eu não estava vendo muito dessa combinação nos quadrinhos norte-americanos da época. Eu gosto dessa combinação e as capas da Animal Man permitiam-me fazê-la. Se me recordo corretamente, para criar as capas eu geralmente tinha o roteiro para ler. Eu lia e colocava estrelas marcando as páginas que tinham algo acontecendo que eu pensava que poderia dar uma capa. Muitas vezes, eu tinha idéias que me diziam algo que provavelmente não tinha sido notado [por outros]. A capa da n°39, por exemplo, é minha homenagem à capa da House of Mystery n°1, de 1951. A n°45 é uma paráfrase ou reciclagem de capa da Judge Dredd n°1 da Eagle. Minha grande favorita é a da Animal Man n°25.

WS: Suas capas para a série The Invisibles são estética e tecnicamente diferentes de suas capas para a Animal Man. Quais foram os principais desafios do trabalho nessa complexa série de Grant Morrison?

BB: O primeiro desafio foi o fato de que os roteiros não estavam disponíveis. Na verdade, eu logo passei a gostar disso e as capas ganharam uma vida própria. Elas eram uma combinação daquilo que a editora Shelly Roeberg queria, do que Grant Morrison queria (quando ela conseguia falar com ele ao telefone) e de qualquer idéia que surgisse na minha cabeça. As últimas doze edições eram apenas eu deixando minha mente voar livre. Especialmente as últimas capas das coletâneas. Eu poderia analisar cada capa e apontar todos os segredos por trás delas, mas isso tomaria um livro inteiro.

WS: Seu trabalho é reconhecido pelos desenhos detalhados, os belas texturas e contrastes em P&B, as expressões faciais intensas, as composições eficientes e por aí vai... O que mudou no seu processo criativo agora que o senhor não produz mais trabalhos em papel (substituído pelo comutador)?

BB: A única coisa que mudou foi a parte técnica. No fim, o computador é apenas um meio para eu alcançar o que quero. Eu estou extremamente feliz em deixar para trás todos os materiais complicados, como pincéis, canetas, aerógrafos e todas as tintas, nanquins e acrílicas. Coisas todas que precisavam ser lavadas. Agora eu posso desenhar e arte-finalizar sem quaisquer problemas e tenho ocasionalmente algumas vantagens extras como a cópia de imagens. Foto-colagem quando quero.

WS: Além de incríveis super-heróis, o senhor também desenha mulheres belíssimas e algumas páginas cômicas. Mas este é um lado de seu trabalho menos conhecido. Por favor, fale a seus fãs brasileiros sobre as séries The Actress & The Bishop e Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian surgiu como uma reação ao tempo que eu estava gastando em meus desenhos e minha obsessão por desenhar bem. Minha velocidade lenta estava impedindo que idéias surgissem num ritmo mais rápido. Então eu decidi que deveria desenhar uma página em duas horas e o personagem-título veio da primeira página que desenhei. Mas ele ganhou vida própria e agora eu gasto mais tempo desenhando-o. The Actress & the Bishop nasceu de uma simples ilustração que eu fiz em meu portifólio para a editora francesa Editions Deesse. Eu queria escrever e desenhar essa HQ tão bem quanto eu conseguisse. Havia uma particular qualidade inglesa nela e para contrariar o fato de que, pelo seu título, as pessoas possam pensar que ela é pornográfica ou algo assim, eu resolvi que iria escrevê-la em versinhos infantis. Eu curtia muito os filmes do Peter Greenaway. Eles tinham obsessões com números e contagem e coisas assim. As rimas em The Actress & the Bishop eram uma forma de dar a mim mesmo uma estrutura obsessiva.

WS: O senhor está produzindo agora capas para a nova minissérie em seis partes The Last Days of Animal Man (a ótima capa para o número 1 já foi comentada em uma postagem anterior aqui no Mais Quadrinhos, tendo me dado o impulso inicial para realizar esta entrevista). Depois disso, quais são seus projetos futuros?

BB: Mais viagens. Estou trabalhando num livro de fotos de uma semana que passei em Burma em 1988. Já mencionei isso? Estou produzindo uma nova história de The Actress & the Bishop. Continuando as capas para Jack of Fables, enquanto me quiserem nisso! Outros projetos pipocam, mas quem sabe se conseguirei acabar realizando-os.

WS: Brian Bolland, muito obrigado por esta entrevista! E obrigado pelo brilhante e belo trabalho!

BB: Obrigado a você!

25/07/2009

A brilliant artist from cover to cover: an interview with Brian Bolland, part3.


Last part of our exclusive interview, and Brian Bolland talks about drawing DC super-heroes, the fantastic Animal Man and The Invisibles covers, his personal projects, funny strips, gorgeous women and a lot more.

Wellington Srbek: Nobody draws DC characters better than you! Your detailed style with classic lines and bright colors gives them volume, weight, personality and life. It has something of the “Silver Age” and at the same time is completely modern. Do you have a conceptual approach to how super-heroes should look like?

Brian Bolland: Well, I grew up as a Silver Age fan and certain artists from that era were my idols. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. I never got into Jack Kirby I'm afraid. I was more a fan of the artists than of the characters and keener on the comics as collectable artifacts than of the stories. I seriously wanted to draw like Neal Adams but never managed it. I'm a stickler for art that's technically and anatomically well drawn but I realize there has to be much more than that. I don't think I'm particularly good at super-heroes. My work looks rather European in that I'm happier with characters that are still, poised or frozen in time rather than the kinetic action that's required from American super-hero comics. I do get asked occasionally to re-create a Silver-age cover and draw in the style of Premiani, Kane or Curt Swan. (They're more swipes really!) I do love the cleanness and the unclutteredness of the 60s covers.

WS: I simply love your Animal Man covers! They are powerful and meaningful images that add a lot to the stories. The #5 cover for instance is a masterpiece! How was the creative process on that series? Did you read the scripts and come up with the concepts for the covers?

BB: Thanks. I much prefer story-specific covers as opposed to the generic poster shot. I despair when and editor says "just do an action shot." I reply "Yes, but what exactly is it they're doing?!" I always thought 2000 AD had a mixture of action, horror and comedy that worked very well and I wasn't seeing quite that combination in American comics at the time. I'm happy with that combination and the Animal Man covers allowed me to do that. If I remember correctly I usually had a script to read for the covers. I went along and put stars on the pages of script where something was happening that I thought would make a cover. Quite often I was coming up with ideas that meant something to me that probably wouldn't have been noticed. Cover #39 for instance is my homage to the cover of House of Mystery #1 from 1951. #45 is a spoof or a re-cycling of the cover of the Eagle Judge Dredd #1. My absolute favorite is Animal Man #25.

WS: Your covers to The Invisibles series are aesthetically and technically different from your Animal Man covers. What were the main challenges working on that complex Grant Morrison’s series?

BB: The first challenge was the fact that the scripts weren't available. Soon I actually liked that and the covers took on a life of their own. They were a combination of what editor Shelly Roeberg wanted, what Grant wanted (when she could get him on the phone) and whatever idea popped into my mind. The last 12 were just me letting my mind run free. Especially the final trade paperback covers. I could analyse each cover and point out all the secrets hidden in them but it would take a whole book.

WS: Your artwork is well known for the detailed drawings, the beautiful black & white contrasts and textures, the intense facial expressions, the strong compositions and so on… What has changed on your creative process now that you don’t produce “real artwork” on paper anymore?

BB: The only thing that's changed is technical. The computer is just a means of achieving what I would have wanted anyway. I'm extremely happy to leave behind all the treacherous tools like brushes, pens, airbrushes and all the paints, inks and acrylics. All of which had to be washed. Now I can pencil and ink without any problems and I have some extra perks like tracing occasionally. Photo-collage when I want it.

WS: Besides amazing super-heroes, you also draw the most gorgeous women and some very funny strips. But this is a side of your work that is less known, so please tell your Brazilian fans something about The Actress & The Bishop and Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian came as a reaction to the time I was spending on my drawings and my obsession about drawing well. My slow speed was preventing ideas tumbling out at a quicker rate. So I decided I'd draw a page in two hours and the title character came from the first page I drew. But it took on a life of its own and now I spend longer drawing it. My only concession is that I only draw it when I feel like it. The Actress & the Bishop grew from a single plate I did in my portfolio for French publishers Editions Deesse. I wanted to write it and draw it as well as I could. It had a particular Englishness about it and to counter the fact that people might think from its title that it would be pornographic or something I thought I'd write it like a nursery rhyme. I was very keen on the films of Peter Greenaway. They had in them obsessions about numbers and counting and things like that. The rhyming in the Actress & the Bishop was a way of giving myself an obsessive structure.

WS: You are now producing covers to the new Animal Man 6-part mini-series. I just loved #1 cover! After this, what are your future projects?

BB: More traveling. I'm working on a book of photos of a week spent in Burma back in 1988. Did I already mention that? I'm doing a new Actress & the Bishop story. Continuing Jack of Fables covers as long as they'll have me! Other projects bubble away but who knows of I'll get round to doing them.

WS: Thanks very much for this interview, Mr. Bolland! And thanks for the brilliant and beautiful work!

BB: Thanks to you.

12/06/2009

O novo velho Homem Animal.


Pelos motivos apontados na postagem anterior, o Homem Animal tornou-se um personagem relevante para os quadrinhos de super-heróis e bastante querido pelos leitores. Após o fim da fase de Grant Morrison, as histórias do herói ficaram a cargo dos roteiristas Peter Milligan, Tom Veitch e Jamie Delano (com o qual a série passou a fazer parte do selo Vertigo). Apesar de alguns bons roteiros, ao assumir um tom mais sombrio a série acabou sendo cancelada. E pensando bem, embora as três coletâneas que reúnem a fase escrita por Morrison tenham sido incorporadas ao selo Vertigo, a estética e a temática dessas HQs têm mais a ver com as revistas regulares do “Universo DC”.

Tanto é que, nos últimos anos (em parte graças ao próprio Grant Morrison), o Homem Animal voltou a ser visto na companhia de outros super-heróis DC, tendo papel de destaque na série 52. Mais uma vez resgatado do “Limbo dos Quadrinhos”, o herói acaba de ganhar uma minissérie na qual deveremos ver seus “últimos dias”. Escrita por Gerry Conway, desenhada por Chris Batista e trazendo capas ilustradas por Brian Bolland, The Last Days of Animal Man se passa num futuro próximo e mostra um Buddy Baker quarentão, às voltas com problemas no casamento e com a perda de seus superpoderes.

Tendo sido anunciada com algum destaque pela editora, em seu primeiro número a minissérie não vai muito além de uma HQ de super-heróis regular. A história se passa na cidade de San Diego, que começa a se recuperar da devastação causada por uma tempestade. O clima festivo é logo interrompido pelo ataque do vilão Bloodrage que, por sua vez, é interrompido pela atuação do herói local, o Homem Animal. Então, no meio da luta, Buddy Baker toma consciência de que seus poderes estão lhe faltando (para quem quiser conferir, essa sequência inicial pode ser conferida na prévia disponibilizada pela DC).

Recuperando-se a tempo, o Homem Animal consegue suplantar a ameaça. Seus problemas, no entanto, estão apenas começando. A HQ assume então um caráter mais cotidiano, com discussões conjugais e questões de trabalho. Ao fim, uma nova luta nos lembra que estamos lendo uma revista de super-heróis. No geral, os desenhos seguem um padrão mais técnico do que expressivo, alcançando um resultado apenas regular. Aliás, algo que também não foge à regra é o espaço ocupado pela publicidade: são catorze páginas de anúncios para uma revista com vinte e duas páginas de quadrinhos!

O que realmente se sobressai nesta primeira edição de The Last Days of Animal Man é a interessantíssima capa ilustrada por Brian Bolland. A imagem é uma citação à capa da revista Animal Man n°1, produzida há vinte e um anos pelo próprio Bolland. Ao mostrar o herói e os bichos na mesma posição da capa original, mas substituindo-os por seus esqueletos, a nova imagem sugere criativamente o subtexto apocalíptico da minissérie (uma sugestão: clique nas imagens dessas duas postagens, salve-as em seu computador e veja-as em sequência; o resultado “antes e depois” é bem bacana!).

Como não faz parte da cronologia regular da DC (por se passar num futuro próximo), The Last Days of Animal Man pode ser publicada em breve pela Panini. Mas, para alguém que se acostumou a ver o Homem Animal em histórias inteligentes e até bem-humoradas, esta nova minissérie ainda precisa provar a que veio. Por enquanto, ficamos pelo menos com as novas belas capas de Brian Bolland.

10/06/2009

O saudoso Homem Animal de Grant Morrison.


O Homem Animal costumava ser um super-herói de terceiro escalão, sem grande importância ou popularidade. Mas, em meados de 1988, isso mudou completamente! Com o enorme sucesso e a ótima repercussão das histórias do Monstro do Pântano escritas por Alan Moore, a DC Comics saiu literalmente à caça de novos roteiristas britânicos que repetissem o feito. Assim, o que ficou conhecido como “a invasão britânica” incluiu nomes como Jamie Delano, Neil Gaiman e, é claro, Grant Morrison, o principal responsável por resgatar o Homem Animal do “Limbo dos Quadrinhos”.

O controvertido roteirista escocês pretendia apresentar à DC apenas a proposta de uma graphic novel do Batman (que se tornaria Asilo Arkham), mas os editores queriam algo mais. Assim, no trem para Londres, Morrison elaborou a proposta para uma minissérie com o esquecido super-herói de estranhos poderes animais. O projeto foi aceito e Morrison elaborou sua minissérie nos moldes do trabalho de Alan Moore para a revista Swamp Thing. Os editores gostaram tanto do trabalho, que propuseram a ele que transformasse o projeto da minissérie numa revista mensal.

Morrison teria então entrado em pânico, pois não fazia idéia do que fazer numa série mensal e não desejava continuar imitando o estilo de Moore. A resposta encontrada foi “O Evangelho do Coiote”, uma das mais inspiradas HQs de super-heróis já produzidas. Lançada na revista Animal Man n°5, a história mostra o encontro do personagem-título com um similar do coiote dos desenhos animados da Warner, numa narrativa repleta de metalinguagem e elementos da simbologia cristã. Marcante e inovadora, aquela edição estabeleceu a temática e o tom das vinte e uma edições seguintes e da Secret Origin do personagem.

Ao longo da série, Morrison resgatou personagens esquecidos, desenvolveu o tema dos direitos dos animais e mergulhou na metalinguagem. O resultado foram HQs inteligentes, conscientes e inovadoras. Quadrinhos de super-heróis nos quais o próprio gênero super-herói se torna um tema em discussão. Uma narrativa “metaficcional” na qual o protagonista se volta para o leitor e diz: “Eu posso ver você!”. Não faltando ainda um ato final no qual criador e criatura, Homem Animal e Grant Morrison, encontram-se para debater o sentido da vida. Em resumo, um trabalho realmente imperdível!

Os desenhos da série, quase sempre produzidos por Chas Truog e Doug Hazlewood, não eram os melhores do mundo, mas davam conta do recado (combinando inclusive com a estética da “Era de Prata” que a revista valorizava). Além disso, em se tratando do visual, Animal Man tinha um trunfo imbatível: as fantásticas capas produzidas por Brian Bolland (que podem ser conferidas em sequência no saite Cover Browser). Interpretando ou sintetizando os temas de cada edição, alguns dos trabalhos do ilustrador inglês são bastante engenhosos e realmente memoráveis. Bolland é também o capista da recém-lançada Last Days of Animal Man (assunto da próxima postagem).

Por seu caráter original e inovador, as vinte e sete histórias do Homem Animal produzidas por Grant Morrison & Cia. entraram para a história dos quadrinhos norte-americanos. Publicada há mais de vinte anos, esta série é prova de que com talento e inteligência até mesmo o mais idiota dos super-heróis pode se tornar um personagem interessante e relevante. Afinal, ao lado de Swamp Thing, Hellblazer e Sandman, a revista Animal Man foi uma das bases para a criação do selo Vertigo. Publicada no Brasil pelas editoras Abril e Brainstore, essa saudosa série merece uma reedição à altura!

27/02/2009

O estranho mundo de Grant.


Histórias inusitadas e absurdas, estreladas por personagens estranhos e bizarros foi a receita que levou o escocês Grant Morrison ao estrelato dos quadrinhos na segunda metade dos anos 80. Em seus principais trabalhos dessa fase, elementos incomuns e até metalinguísticos surgem a todo momento, questionando as barreiras entre a ilusão de realidade (que se tem durante a leitura de uma HQ) e a consciência de que o que se lê não passa de uma obra ficção. Somadas a isso, diversas referências artísticas e discussões de natureza metafísica fizeram das séries Zenith, Homem Animal e Patrulha do Destino obras revolucionárias dos quadrinhos de super-heróis. Mas a semente da revolução, na verdade, foi plantada no início da década de 1980, por outro renomado roteirista britânico.

Escrita pelo inglês Alan Moore e lançada em 1982 nas páginas da revista Warrior, a série Marvelman (Miracleman) foi a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico. A qualidade e a repercussão desse trabalho acabaram influenciando outros autores britânicos e norte-americanos, o que originou todo um novo estilo de se escrever quadrinhos de super-heróis. À brilhante recriação de Marvelman feita por Moore, seguiriam-se outras ao longo dos anos 80 e especialmente após Crise nas Infinitas Terras (“maxissérie” cujo objetivo foi botar ordem na cronologia da DC Comics). Tendo estabelecido um novo marco zero para seus personagens, a editora norte-americana contratou quadrinistas de destaque para recriar seus principais heróis. Com o sucesso de Alan Moore (novamente ele!) à frente da revista do Monstro do Pântano, a editora enviou emissários à Grã-Bretanha, literalmente à caça de novos talentos (o que geraria a chamada “invasão britânica” da segunda metade dos anos 80).

Ao lado de nomes como Neil Gaiman e Jamie Delano, Grant Morrison foi um dos escolhidos pela DC para escrever a reformulação de um de seus personagens. Morrison havia começado sua carreira no final dos anos 70, publicando séries e HQs curtas em revistas alternativas. Seu primeiro trabalho de destaque poderia ter sido The Liberators para a Warrior, mas a revista do editor Dez Skinn foi cancelada em 1985, na edição de estréia do roteirista escocês. No ano seguinte, Morrison conseguiu seus primeiros trabalhos curtos para a Doctor Who e a 2000 AD. Nas páginas desta última, ele lançaria em 1987 Zenith, uma série diretamente influenciada pelo racionalismo do Marvelman de Alan Moore (sim, mais uma vez ele!) e que trazia elementos absolutamente similares, tais como super-heróis tratados como "mostros" ou "tigres", criados por um vilão cientista com a participação de entidades alienígenas.

Contudo, em seu primeiro trabalho com super-heróis, Morrison já mostrava os traços de sua personalidade. Um cantor de rock com superpoderes, Zenith se revela um anti-herói egoísta e desinteressado em qualquer questão mais nobre ou grandiosa do que alcançar o estrelato. Uma visão cínica e absolutamente contemporânea dos super-heróis, o personagem serve na verdade de pretexto para Morrison apresentar uma história que lida com temas como a relação entre caos e ordem, ou o questionamento do que é a realidade. Tais temas tornariam-se recorrentes no trabalho do roteirista, que então mostrava alienígenas inspirados nos textos de H. P. Lovecraft para propor uma discussão metafísica sobre os fundamentos do universo em que vivemos. Tendo uma boa repercussão, a primeira das quatro “Fases” de Zenith (todas lançadas no Brasil pela Pandora) abriria para Morrison as portas do mercado norte-americano, no qual ele estrearia em 1988 com a série Homem Animal.

Como o próprio Morrison admitiu, nas quatro primeiras histórias de seu Homem Animal (publicado no Brasil a partir de 1990 na revista DC 2000), ele estava inegavelmente imitando Alan Moore (eh, de novo!). Mas, como os editores da DC haviam gostado de seu trabalho e pedido para expandir a série, ele se encontrou diante de um dilema, pois não queria e não se sentia confortável em continuar sendo um clone de outro autor, ao mesmo tempo em que não tinha idéia de o que fazer numa revista mensal. A resposta e a solução vieram com “O Evangelho do Coiote”, uma das mais inspiradas e originais HQs de super-heróis já escritas e sem dúvida um dos melhores e mais importantes trabalhos de Morrison. Lançada na quinta edição da Animal Man, a história mostra o encontro do personagem-título com um similar do coiote dos desenhos animados da Warner, numa narrativa repleta de metalinguagem e elementos da simbologia cristã (um belo resumo disso é a fantástica capa desenhada por Brian Bolland, que ilustra esta postagem).

Tornando mais difusas as barreiras entre realidade e ficção, “O Evangelho do Coiote” traçou o rumo que a série tomaria, que incluía a tentativa de resgate do clima mais leve e humorado das revistas da DC dos anos 60. Afinal, a partir da publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen em 1986, grande parte dos roteiristas de quadrinhos tentou imprimir um maior realismo aos super-heróis, levando os dilemas, as contradições e a violência do mundo real para as HQs. Esta tendência não agradava a Morrison, que respondeu através de uma inteligente tensão entre mundo real e mundo ficcional. Mesmo que o roteirista jamais tenha lido Isto não é um cachimbo de Michel Foucault, a influência de um pensamento pós-estruturalista é evidente nas histórias do Homem Animal. Nelas, Morrison mostra a tradicional busca do personagem pela compreensão de seus poderes (a capacidade de assumir as habilidades de qualquer animal), além de engajá-lo na luta pelos direitos dos animais (o próprio autor era vegetariano na época). Mas a verdadeira razão de ser da série é a construção de uma grande narrativa metaficcional.

Depois de se encontrar com o coiote Astuto, de se envolver em discussões sobre “a continuidade” com personagens saídos do "Limbo dos Quadrinhos", de ultrapassar os limites da página e de se dirigir ao leitor e dizer: “Eu posso ver você!”, o Homem Animal acaba encontrando-se com o “Criador” (de suas histórias). Ao longo da série, o encontro criador / criatura foi sendo preparado por Morrison, e o resultado é um sincero diálogo a respeito do sentido da vida. Embora a metalinguagem já não fosse então uma novidade nos quadrinhos, a série escrita por Morrison foi a primeira a levar às últimas consequências a situação de um super-herói ter “consciência” de que não passa de um personagem criado para entreter um público com um sádico desejo por violência (que somos nós, leitores). Sem dúvida, Homem Animal é uma obra inovadora e inspirada, que não perdeu sua força passados vinte anos, merecendo ser lida e relida.

Antes mesmo de concluir seu trabalho com o Homem Animal, Morrison recebeu da DC o convite para assumir a revista Doom Patrol (a Patrulha do Destino, que teve as primeiras HQs dessa fase lançadas no Brasil pela Metal Pesado, nos anos 90). O resultado foi uma das mais estranhas, originais e absurdas séries já publicadas no mercado norte-americano, algo mais próximo do nonsense de Alice no País das Maravilhas do que do clima de ação dos quadrinhos de super-heróis. Um cérebro numa caixa de metal que discute filosofia cartesiana com um gorila falante; um halterofilista usando uma tanguinha de leopardo que ao flexionar seus músculos é capaz de mudar o mundo ao redor por telepatia; uma garota-macaco que além de ser atormentada pelos dilemas da puberdade é assombrada pelos fantasmas psíquicos que cria; vilões que formam grupos chamados a “Irmandade do Dada” ou o “Culto do Livro Não-Escrito”; uma história chamada ”A Pintura que comeu Paris”: estes são apenas alguns exemplos das “esquisitices” de Morrison, que parece não levar nada a sério. Mas isso é o que ele quer que nós pensemos!

Através de uma atmosfera surrealista, em seus roteiros Morrison discute princípios religiosos, a falência da razão, a linguagem das artes-plásticas, a autonomia das realidades discursivas, além de criticar a censura e tratar de temas-tabu como a violência sexual contra a mulher. Sem dúvida um trabalho riquíssimo e original, por vezes um pouco hermético, mas sempre honesto com sua proposta de pôr em questão a relação entre realidade e ficção, o conflito entre ordem e caos (que parecem reflexos da própria vida do autor na época). Os temas de seus trabalhos iniciais para a DC voltaram a ser vistos em trabalhos menos extensos como as graphic novels Asilo Arkham e Mystery Play, os especiais Batman: Gothic e Sebastian O e as minisséries Kid Eternity e Flex Mentalo. O trabalho de Morrison em Homem Animal e Patrulha do Destino seria um dos fundamentos do selo Vertigo, para o qual ele escreveria as séries The Invisibles e The Filth.

Um mago praticante, Grant Morrison tornou-se um dos grandes nomes dos quadrinhos norte-americanos, tendo em seu currículo fases bem-sucedidas à frente dos dois principais grupos de super-heróis: a Liga da Justiça da DC e os X-Men da Marvel. Com um trabalho tão provocativo, não faltaram é claro algumas polêmicas ao longo dos anos, incluindo ofensas trocadas com Alan Moore (envolvendo de um lado Watchmen e do outro Asilo Arkham). O fato, porém, é que as carreiras destes dois brilhantes magos-escritores estarão sempre ligadas, pelas reações que o trabalho de um gerou no do outro, bem como pelos vários paralelismos que podemos traçar (por exemplo entre a Linha ABC e os Sete Soldados ou entre Supermo e All Star Superman). Mas se ambos contribuíram fundamentalmente para os quadrinhos e a cultura Ocidental é porque, mesmo trilhando caminhos paralelos, cada um buscou sua própria história. E se Moore "se aposentou" dos quadrinhos das grandes editoras, por sua vez Morrison assumiu o papel de principal roteirista, desenvolvendo maxisséries como 52 e séries especiais para medalhões como Super-Homem e Batman.

Nos dois casos, no entanto, a contribuição mais decisiva e os trabalhos mais revolucionários foram as séries produzidas nos anos 80. Num momento em que Alan Moore lançou a recriação racionalista dos super-heróis, levada às últimas consequências por Grant Morrison, e que os quadrinhos "realistas" e violentos nascidos das obras do roteirista inglês foram criticados criativamente pelas obras de seu colega escocês. No fim, com toda a vaidade pessoal e a rivalidade criativa, quem saiu ganhando foi o leitor, que pôde acompanhar alguns dos melhores quadrinhos produzidos nas últimas décadas!