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12/02/2008

O Novo Universo Marvel versão Warren Ellis e Salvador Larroca.


Em 2006, foi anunciado com alvoroço o lançamento de newuniversal, nova série em que o roteirista Warren Ellis e o desenhista Salvador Larroca recriariam os principais personagens e conceitos do Novo Universo Marvel (que então completava 20 anos). Os primeiros números se esgotaram logo após o lançamento, ganhando reimpressões e prometendo um duradouro sucesso comercial. Ainda assim, os autores decidiram interromper o trabalho na sexta edição (com a qual se concluiu a suposta “primeira temporada” da revista), deixando uma promessa de retorno para 2008. Mas a pergunta que me faço é: será que vale a pena?

Com suas 144 páginas, a coletânea das seis primeiras edições da série (newuniversal: everything went white) começa com uma rápida introdução de três de seus principais personagens: John Tensen (um policial ferido em serviço que se tornará Justice), Kenneth Connel (um cara comum do interior norte-americano que encarnará Star Brand) e Izanimi Randal (uma garota de San Francisco que assumirá a figura de Nightmask). Após o Evento Branco (acontecimento astronômico de natureza inexplicada), a vida dessas e de outras pessoas se transforma radicalmente. Nas edições seguintes, ainda somos apresentados a Jenny Swann (uma engenheira tecnológica que vestirá a armadura Spitfire), Emmett Proudhawk (um índio lakota capaz de se comunicar com o Grande Espírito) e Phillip L. Voight (um velho agente encarregado de executar pessoas com poderes sobre-humanos), isso sem falar numa cidade européia de milhares de anos com seus defensores superpoderosos e em três supostos seres do futuro que colocam o governo norte-americano em pânico.

A coletânea newuniversal: everything went white é um livrinho bacana, com ótima impressão e tudo mais. Considerando a inspiração no conceito fundamental do Novo Universo Marvel, o volume tinha tudo para trazer também uma ótima HQ de super-heróis e ficção científica. Porém, não é bem isso que acontece. Embora tenha alguns momentos interessantes, o roteiro de Warren Ellis não passa de “um roteiro de Warren Ellis”. Algumas doses de violência explícita, uma trama superestrutural que beira a grandiloquência e uma certa insistência em acrescentar “conteúdo” aos diálogos acabam levando a um roteiro que poderia ter sido muito melhor do que realmente é (um cruzamento forçado do Novo Universo, com os quadrinhos de Alan Moore e a série Arquivo-X). Quanto às ilustrações de Salvador Larroca com as cores de Jason Keith, podemos dizer que, por alguns instantes, elas até enganam com seu efeito de bem-acabadas. Porém, no instante em que nos lembramos de que estamos lendo uma HQ, as imagens excessivamente estáticas e sombreadas acabam mais prejudicando que contribuindo para a narrativa (o uso de atores como modelos para vários personagens também não ajuda muito).

Num saldo geral, por sua qualidade técnica e enredo mais cerebral, newuniversal é uma HQ de super-heróis acima da média. Mas não é uma obra que se possa chamar de “imperdível” (pessoalmente, prefiro o volume com as sete primeiras HQs originais de Star Brand, também lançado em 2006). Por seu visual e diálogos, a criação de Ellis, Larroca e Keith parece mais a transposição de episódios de uma série de tevê, do que propriamente uma história em quadrinhos. O interessante é que, na mesma época em que a “primeira temporada” de newuniversal era lançada, estavam sendo exibidos os episódios da primeira temporada de Heroes, série de tevê que também bebeu na fonte criativa do Novo Universo Marvel.

10/02/2008

Novo Universo Marvel: uma boa idéia que deu errado.


Em maio de 1987, os formatinhos da Abril com os heróis Marvel trouxeram na penúltima página um anúncio em que se destacavam as silhuetas em azul de vários personagens. No mês seguinte, uma propaganda similar revelava, com as devidas linhas e cores, toda uma galeria de novos personagens. Logo abaixo do desenho, um texto fazia a convocação: “prepare-se para conhecer novos heróis, novas lendas, O NOVO UNIVERSO”. E assim os leitores brasileiros foram apresentados ao chamado “Novo Universo Marvel”, publicado por aqui ao longo de um ano, nas revistas Força-Psi e Justice (que traziam a moldura negra que diferenciava as revistas dessa linha, das publicações com os heróis tradicionais).

Lançado nos Estados Unidos em 1986, The New Universe nasceu de uma idéia do editor-chefe Jim Shooter, como parte das comemorações pelos vinte e cinco anos da Marvel (contados a partir do lançamento da revista Fantastic Four em 1961). Mas houve também uma motivação mais comercial, já que na época a editora via sua principal concorrente, a DC Comics, reconquistar uma considerável parcela do mercado (após Crise nas Infinitas Terras e com as reformulações de seus principais super-heróis). Shooter percebeu então a oportunidade de lançar uma nova linha de heróis que, embora tivessem superpoderes, habitavam uma realidade mais próxima à do mundo contemporâneo, com explicações e implicações mais verossímeis para um leitor dos anos 80 (ao invés de mutantes, para-normais; no lugar de deuses ou tramas mirabolantes, pessoas comuns com dramas cotidianos).

O Novo Universo foi a versão Marvel para os super-heróis mais racionalistas dos anos 80 (uma proposta que começou com Marvelman de Alan Moore e talvez tenha se completado com Animal Man de Grant Morrison). A premissa básica era a de que após um misterioso clarão cósmico, conhecido como Evento Branco, pessoas comuns descobriram-se dotadas de poderes sobre-humanos (sim, qualquer semelhança com uma série de tevê chamada Heroes não é mera coincidência!). Assim surgiram personagens como Justice, Máscara Noturna, Trovão, P.N.7, Força-Psi e Star Brand (traduzido no Brasil como “Estigma, a marca da estrela”). Contudo, em meio a problemas editoriais, o Novo Universo sofreu atrasos, cortes de orçamento e dificuldades na escolha de uma equipe à altura da complexidade do projeto. Ainda assim, enquanto proposta criativa, o Novo Universo trouxe elementos bastante interessantes e algumas inovações.

A mais bem-acabada das séries foi Star Brand, a história do mecânico Ken Connell que, após o encontro com um alienígena, herda os poderes da “arma mais poderosa do universo” (uma versão diferenciada da história básica de como o Lanterna Verde Hal Jordan conseguiu seus poderes). Nos primeiros capítulos da série, escritos por Jim Shooter e desenhados por John Romita Jr., o herói enfrenta terroristas árabes, problemas amorosos com suas duas namoradas e a ameaça do suposto alienígena que chama de Velho. Como um todo, porém, o Novo Universo acabou não sendo um sucesso comercial (o que contribuiu para a tumultuada saída de Shooter da Marvel). Algumas alterações e correções editoriais foram feitas, entre elas a escolha de John Byrne como roteirista-desenhista de Star Brand (em HQs publicadas no Brasil na revista Superaventuras Marvel). Mas as mudanças não foram o bastante para impedir o cancelamento da linha de revistas, em 1989.

Personagens e elementos saídos do Novo Universo apareceram em revistas regulares da Marvel, ao longo dos anos. Mas o verdadeiro retorno da linha aconteceu em 2006, quando foi comemorado seu aniversário de vinte anos, com a publicação de cinco revistas da série Untold Tales of the New Universe (trazendo histórias inéditas dos personagens Estigma, Justice, Máscara Noturna, Força-Psi e P.N.7), além de coletâneas com as primeiras HQs de Estigma e P.N.7. Para completar, a Marvel anunciou com grande alvoroço o lançamento de newuniversal, revista escrita por Warren Ellis e desenhada por Salvador Larroca, recriando os principais personagens e temas do projeto original.

Apesar dos problemas e erros, o Novo Universo marcou época, antecipando uma concepção de super-herói que faz sucesso hoje na tevê. Com isso, talvez o Novo Universo Marvel deva mesmo ser lembrado como uma boa idéia que deu errado.

01/02/2008

Heroes: o seriado que poderia ter sido.


Nesta sexta-feira, foi ao ar pelo Universal Channel mais um episódio da segunda temporada de Heroes. Grande sensação da tevê em 2007, a série criada por Tim Kring (com colaboração dos quadrinistas Tim Sale e Jeff Loeb) apresenta pessoas comuns que se descobrem dotadas de poderes sobre-humanos. Com elementos de ficção científica e HQs de super-heróis, bem como várias idéias “emprestadas” de outras criações, no início de sua primeira temporada Heroes prometia fazer história, mas talvez não passe de um bom exemplo de que um sucesso avassalador também pode fazer muito mal.

A série parte de uma ambientação cotidiana, com sequências passadas em cidades como Nova York e Tóquio, além de personagens coadjuvantes e figurantes que compõem um quadro verossímil da sociedade atual. É nesse contexto que surgem Hiro (um empolgado japonês com o poder de interferir no continuum espaço-temporal), Claire (uma garota capaz de se auto-regenerar rapidamente), Nathan (um político com o poder de voar), Isaac (um artista capaz de pintar e desenhar o futuro), Niki (uma bela mulher com dupla personalidade e força descomunal) e Peter (um jovem enfermeiro que assimila superpoderes). Os caminhos desses e de outros “heróis” acabam se cruzando quando eles se vêem diante da ameaça de Sylar (um misterioso assassino devorador de poderes) e de uma iminente explosão nuclear em Nova York (que marcará o desenrolar de toda a primeira temporada). O resultado: uma frase-tema marcante (“salve a líder de torcida, salve o mundo”), uma trama cativante (pelo menos até o episódio 11) e um enorme sucesso de público (que chamou a atenção do estúdio e dos canais responsáveis pela série).

Deve-se dizer que, desde o primeiro instante, a originalidade não foi uma das características mais fortes de Heroes. A começar pelo conceito de heróis que descobrem seus superpoderes após um evento astronômico e que não usam vestimentas coloridas (que eram as premissas básicas do “Novo Universo Marvel” lançado em meados dos anos 80, com seu “Evento Branco” e sua abordagem mais cotidiana dos super-heróis). Os dois primeiros filmes dos X-Men dirigidos por Brian Singer também tiveram um papel na estética de Heroes (sem falar no fato de terem provado que produções misturando vários atores e diversos superpoderes eram viáveis e rentáveis). Há ainda o fato de que muitos dos poderes e aspectos dos personagens parecerem reedições de heróis dos quadrinhos (sendo os casos mais evidentes o viajante do espaço-tempo, o homem-radioativo e o filho do relojoeiro, surgidos de características do Dr. Manhattan, criado por Alan Moore e Dave Gibbons em Watchmen). Ainda assim, Heroes (com sua trama de conspiração ao estilo Arquivo-X) logo conquistou a atenção do público, graças a alguns momentos inspirados e a seu melhor personagem: o carismático Hiro Nakamura (interpretado por Masi Oka).

Alguns momentos marcantes: a chegada de Hiro a Nova York (semelhante à cena do capítulo final de Watchmen em que Ozymandias comemora sua vitória); as sequências em que Hiro folheia a revista em quadrinhos que conta seu futuro (numa boa interação com as páginas desenhas por Tim Sale); a aparição do emblemático “Hiro do Futuro” (conceito retirado da HQ dos X-Men “Dias de um futuro esquecido”, produzida por Chris Claremont e John Byrne); e isso sem falar na que talvez seja a cena mais surpreendente, quando a personagem Claire “ressuscita” num necrotério e olha para o próprio tórax aberto numa autópsia recém-iniciada (ou como ela mesma exclama: “holly sh**!”). A cada episódio, a história ganhava novos elementos e o interesse do público ia aumentando, até o primeiro grande clímax da trama (ao final do episódio 11). O fato é que Heroes conquistou uma legião de fãs nos Estados Unidos, tornando-se um fenômeno internacional em 2007 e chamando a atenção dos executivos da tevê. E foi aí que as coisas começaram a dar errado, pois mais recursos financeiros e interferências externas acabaram por deturpar a série.

A chegada de atores mais experientes e conhecidos, como George Takei (Jornada nas Estrelas), Christopher Eccleston (Doctor Who) e Malcolm McDowell (Laranja Mecânica), marcou essa virada negativa da série. A partir do episódio 12, alterações, remendos, erros e furos no enredo passaram a ser mais constantes (culminando no enganoso episódio do futuro apocalíptico). Mais decepcionantes ainda foram as alterações no personagem Hiro, que (de um cara comum com um trabalho assalariado) passou a ser um aspirante a samurai com um pai milionário. Se não bastasse, o último episódio da primeira temporada foi uma decepção, não correspondendo à expectativa gerada (a luta entre Sylar e os demais “heróis” foi simplesmente uma bobagem).

Então, veio a segunda temporada, que podemos definir como uma mistura de Smallville e Lost com filme-B japonês e novela mexicana. Como dizem, “tem gosto pra tudo”; mas, na minha opinião, Heroes acabou sendo o seriado que poderia ter sido.