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01/10/2016

Warp (edição digital)!


Em fins de 1996, enquanto produzia a última edição da série Solar, eu me preparava para lançar uma nova revista, a Caliban. Nesta nova publicação independente, além da continuação da história do herói Solar, eu lançaria novos personagens. O primeiro deles foi o alienígena Warp.

Lançado em agosto de 1997 na Caliban n°1, com desenhos de Laz Muniz, o personagem Warp é, em certo sentido, uma paródia. Na época, um sanguinário herói mutante da Marvel experimentava uma incrível popularidade, ganhando clones e mais clones nas HQs de super-heróis. Com tantas garras afiadas rodando pelo mercado, nosso Warp chegou propondo uma visão mais crítica, buscando uma contextualizãção da violência tão comum em outras revistas.

Sendo uma paródia (não é à toa que o personagem fica repetindo o que outros falam), ele foi também um quadrinho bem divertido de se fazer, embora tenha tido apenas três roteiros produzidos e somente dois desenhados e publicados, o segundo na na Caliban n°4 (com a capa pintada por Carlos Fonseca, que ilustra esta postagem).

16/05/2013

Exposição "HQ BR 21".

Está aberta ao público, a partir desta quinta-feira, no Sesc Belenzinho em São Paulo, a exposição "HQ BR 21", que reúne trabalhos de diversos autores brasileiros deste século. Com uma incrível diversidade de estilos, técnicas, temáticas e formas de produção e apresentação, a mostra vale muito ser conferida, ficando "em cartaz" até o dia 10 de agosto. 

Como a foto acima mostra, participo da exposição com peças ligadas ao álbum Estórias Gerais: a revista Caliban n°7 de 1998, na qual o trabalho foi citado pela primeira vez e trouxe a publicação original da HQ "Estória de Onça"; o convite do primeiro lançamento do álbum; a própria edição independente de 2001; e também a edição definitiva lançada pela editora Nemo em 2012.


Quem curte quadrinhos e estiver em São Paulo, não deixe de conferir a exposição!

20/03/2013

Galeria de Capas.

Em março de 1996, foi lançada minha primeira publicação profissional: a revista Solar n°1. Na galeria que ilustra esta postagem, vocês encontram as capinhas das 25 publicações independentes (revistas, álbuns e edições especiais) com HQs minhas, que lancei entre 1996 e 2009 [basta clicar na imagem para ampliá-la e poder copiar e vê-la em detalhes]. 

A coleção começa e termina com o Solar, meu principal personagem, que continua presente em meus projetos atuais e planos futuros (as datas entre parênteses são relativas ao período de produção das HQs):


Solar n°1-7 (1996)
Caliban n°1-7 (1997-1998)
Estórias Gerais (1998)
Mirabilia (1999-2000)
Quantum (2001)
Fantasmagoriana (2001)
Mystérion (2001-2002)
Apócripha (2002-2003)
Muiraquitã (2002-2004)
Monstros (2005)
Alienz (2006-2007)
Solar: Renascimento (2004-2008)
Solar: Solo Sagrado (2008-2009)

Ao ver essa coleção de edições independentes, não posso deixar de pensar em todo o trabalho, esforço, aventura e alegrias por trás dessas capinhas. Quem sabe, um dia, não volto às edições independentes, e acrescento mais algumas imagens a essa galeria...

29/08/2012

Uma capa especial do Mestre Shima...

A revista Caliban está completando 15 anos. Algo muito bacana nessa publicação foi a diversidade de desenhistas que apareceram em suas páginas, alguns deles tendo publicado ali pela primeira vez.

Outra coisa muito bacana foi a participação especial de grandes nomes de nossos quadrinhos! Tivemos uma ilustração inédita por Mozart Couto e a publicação de uma carta e mais tarde da HQ em cores "Estória de Onça" desenhada pelo Mestre Colin (essa HQ seria mais tarde incluída nas publicações do álbum Estórias Gerais por editoras, como na recente "edição definitiva" pela NEMO: http://grupoautentica.com.br/nemo/estorias_gerais/791).

E como todos podem conferir acima, a Caliban teve também uma capa especial pintada pelo grande Mestre Shima, que dispensa é claro qualquer apresentação!

28/08/2012

Há 15 anos...

Aproveitando que agosto ainda não chegou ao fim, vale registrar o aniversário de 15 anos da Caliban, revista que estreou em agosto de 1997.

Nela, retomei a série Solar, com o primeiro capítulo do livro "Solo Sagrado", além de lançar novos personagens, como o Warp, e também de publicar HQs curtas.

Nos meses e semestres seguintes, a revista somaria mais seis edições, concluindo em dezembro de 1998 com a edição dupla com a qual eu ganharia meu primeiro Troféu HQ MIX.

21/03/2012

Solar em estilo mangá!


Na mais recente sequência de postagens sobre meu personagem Solar, falamos nos comentários sobre uma HQ em estilo mangá. Pois aqui temos uma página da aventura “Jogos da Mente”, na qual o herói ganhou traços e narrativa inspirados nos quadrinhos japoneses.

A HQ foi produzida para mim pelo Estúdio Big Jack, em 1998, e publicada na revista Caliban n°7. Num jogo com o próprio título, a história brincava com a possibilidade de que, se Solar existisse de fato, logo seria produzida uma revista em quadrinhos sobre ele. E o estilo, é claro, seria aquele que já cativava os jovens leitores brasileiros.

Nascendo de uma jogada de metalinguagem, a HQ ficou bem legal, tendo seu lugar como penúltimo capítulo da "versão original" do herói. Agora, olhando para frente, acompanhem o Mais Quadrinhos nos próximos dias, em que veremos Solar com outros traços e estilos...

07/03/2012

Solar, há 15 anos...



Em 2012, minha revista Caliban completa 15 anos. Lançada em agosto de 1997, ela substituiu a revista Solar, trazendo novos personagens e dando continuidade à “saga” do herói (para mais informações sobre ele, basta clicar no marcador abaixo).

A imagem acima mostra a primeira aparição de Solar nas páginas da Caliban. Os desenhos são de Erick Azevedo, com arte-final de Sidney Telles; algumas páginas à frente, teríamos ainda desenhos de Luciano Irrthum. Com isso, essa foi, sem dúvida, uma das HQs mais bem desenhadas da versão original de Solar, e continua sendo um de meus roteiros favoritos para o personagem.

Tanto é que este capítulo foi reestruturado e acabou também fazendo parte da versão reformulada lançada em 2009, incluindo a narrativa original do rei-urubu


Mais sobre Solar na próxima postagem!

13/05/2010

Solar Mangá.


Em dezembro de 1998, lancei a revista Caliban n°7, que traz os dois últimos capítulos da versão original do herói Solar. Além da conclusão da história iniciada quatro anos antes, a edição conta com um penúltimo capítulo desenhado num estilo que difere do restante da série. Isso se deve ao fato de meu roteiro mostrar uma história em quadrinhos dentro da história em quadrinhos. A ideia é que, se o Solar existisse realmente, alguém acabaria produzindo uma revista em quadrinhos comercial baseada nele. Assim, o que temos ali é um número da revista fictícia As Incríveis Aventuras de SOLAR.

Como na época os mangás começavam a fazer um enorme sucesso no Brasil, contratei o Estúdio Big Jack para desenhar a HQ num estilo que imitasse os quadrinhos japoneses. O resultado ficou bem bacana, sendo o capítulo mais “super-heroístico” e também mais metalinguístico da versão original do Solar (na revista impressa, o leitor lê as vinte primeiras páginas da HQ como se fosse apenas uma nova história do personagem feita com um tratamento diferente, indo descobrir somente nas duas últimas páginas que se trata de uma história dentro da história).

12/05/2010

O Golem em quadrinhos.


Em 1997, lancei a revista Caliban, na qual dei continuidade à história do personagem Solar, além de publicar outras séries e também HQs curtas. Uma das séries criadas para a nova revista foi O Golem, que traz uma versão livre do personagem do folclore judaico, numa trama envolvendo magia e referências à peça A Tempestade de William Shakespeare (da qual eu já havia tomado emprestado o nome para a revista).

Publicada nos números 2 a 5 da Caliban, essa história de quarenta páginas foi criada por mim, tendo desenhos, arte-final e letras produzidos por diferentes desenhistas do Estúdio HQ (muito atuante no cenário quadrinístico da época) e Big Jack (que iniciava então suas atividades). A verdade é que essa HQ foi criada numa época em que produzíamos uma revista mensal, de forma meio improvisada e com muita paixão!

30/09/2009

As entrevistas e textos da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos.


Integrando as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte (MG), a 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, o evento teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros. A Bienal contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres.

O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner.

Na época, eu produzia uma página semanal com crítica de quadrinhos para um jornal de BH e não perdi a oportunidade de entrevistar alguns desses convidados. Em novembro daquele mesmo ano, essas entrevistas foram reunidas na quarta edição de minha revista Caliban (cuja capa ilustra esta postagem). Aproveito então a aproximação da sexta edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, herdeiro da Bienal de 1997) para postar esta nova lista de entrevistas do Mais Quadrinhos, incluindo alguns textos que contam como foi aquele fantástico momento das HQs na capital mineira.

Will Eisner:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/uma-entrevista-com-will-eisner.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/meu-encontro-com-will-eisner.html

Paolo Serpieri:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/06/uma-entrevista-com-o-criador-de-druuna.html

Bryan Talbot:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/07/uma-entrevista-com-bryan-talbot.html

Angeli, Jô Oliveira, Guga e Mutarelli:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/4-x-4.html

A capital brasileira dos quadrinhos:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/capital-brasileira-dos-quadrinhos.html

05/01/2009

Caliban: desafios, idéias e quadrinhos.


A primeira edição da revista Caliban, lançada em agosto de 1997, encerrava com o texto “Manifesto Caliban”, no qual eu apresentava, em tom desafiador, a proposta e as motivações da revista. Já na edição n°5, de janeiro de 1998, publiquei o texto “Caliban Manifesto”, no qual explicava um pouco melhor a razão para o título da revista. Nesta postagem, reapresento os dois textos para que vocês possam saber mais sobre o que era aquela revista de quadrinhos, idéias e desafios.

- Manifesto Caliban -
Onde evocamos nossa origem ancestral
e manifestamos que queremos ser perigosos.


Bem-vindos ao banquete-ritual! Nosso mestre de cerimônias é Caliban. Isso mesmo! Aceitamos o nome pelo qual nos chamou Shakespeare: somos bárbaros e perigosos! Não somos os nativos colonizados da periferia de Patópolis ou o indolente “mexicano que dorme”. Mas também não somos os canibais estereotipados. Somos, sim, antropófagos culturais.
Não rejeitamos o quadrinho estrangeiro. Queremos devorá-lo, assimilando o que ele tem a oferecer de original e fecundo. Adoramos os mestres Tezuka, Kirby, Pratt, Moebius, Eisner, e muitos outros. Não somos xenófobos... Temos gosto apurado. Os europeus inventaram os quadrinhos; os norte-americanos inventaram os comics - não discutimos paternidades! O que queremos é ampliar, renovar, reutilizar, traduzir para nosso mundo, recriar a partir de nossa realidade.
Nossos heróis são o Corto Maltese, o Brucutu e o Pererê. As heroínas: Valentina, Mafalda e Grauna. Não estamos hermeticamente fechados nos universos habitados por clones dos clones de clones de um certo super-herói. Já descobrimos a literatura, a filosofia, a história, o cinema, a pintura - o mundo real. Viva Homero, Chaplin e Picasso! Mas viva também (e sempre) Henfil, Guimarães Rosa e Darcy Ribeiro!
Contra o consenso totalizante e os modismos estéreis, contra a narrativa fragmentária e paralisante, propomos o diálogo criativo, a trama instigante, o quadrinho vivo! Desafiamos o leitor a entrar em nossos mundos e ir além, a recriar e criar novas realidades, superando nosso trabalho.
Contudo, Caro Leitor, se estas linhas - onde humildemente copiamos Mários, Oswalds e Outros - vos causam aborrecimento, esquecei-as e pensai que não passam de devaneios de um louco. Caso contrário, prestai atenção no que digo, pois queremos evoluir e nos transformar sempre, para fazermos jus ao clã de Pindorama.
Tupi or not tupi? Oh yes, Caliban é a resposta.

- Caliban Manifesto -

Desde que foi lançado o primeiro número da revista Caliban, algumas pessoas manifestaram interesse pelo significado de seu nome. Naquela edição de estréia, foi publicado o "Manifesto Caliban", no qual já havia referências a William Shakespeare, pois Caliban é o nome de um dos personagens da peça A Tempestade. Sendo um anagrama da palavra canibal, este nome e o personagem a que ele é atribuído representam os nativos incivilizados que habitariam o Novo Mundo.
Embora não existissem realmente, os fantásticos canibais das ilhas caribenhas povoavam o imaginário e a imaginação dos europeus. Shakespeare, que muito se inspirou na cultura clássica e popular, foi buscar no relato de viajantes os elementos para dar vida a seu bárbaro personagem. Pela pena do dramaturgo inglês e de outros que voltaram sua atenção para as Américas, entramos para História sob o signo da barbárie, como um híbrido de cão e homem, incapaz de controlar seus impulsos de voracidade, lascívia e destruição.
Paradoxalmente, a imagem que projetaram do Outro é o espelho que mais nitidamente revelou as intenções e motivações dos próprios europeus. Como o personagem Próspero, senhor das artes ocultas, os homens do Velho Mundo aqui chegaram impondo-se através do poderio de suas artes nefastas: a traição, a guerra bacteriológica (não-intencional) e a pólvora. Neste espelho de Próspero que é a América, os europeus enxergaram a imagem inversa daquela que tinham de si mesmos. Ou seja: se acredito que sou o representante da civilização cristã, aquele Outro que desconheço, e que tanto difere de mim em sua aparência e hábitos, nada mais pode ser, senão meu oposto.
Apesar dos europeus ainda se referirem aos latino-americanos em termos como “novos bárbaros”, há muito tempo já não inspiramos medo. Desde Rousseau (que se inspirou nos índios ao idealizar seu Bom Selvagem), para os europeus as Américas são mais exóticas, que ameaçadoras. Porém, o surgimento do titã norte-americano e de movimentos de resistência como a Revolução Cubana mostraram que, se não somos o bestial Caliban, também não somos o nativo Uga-uga que, trajando seu inconfundível saiote de palha de coqueiro, curva-se às vontades de prósperos colonizadores.
Enfim, por que o nome Caliban? Porque a disputa que se estabelece quando duas civilizações se encontram não se restringe ao mundo material, existindo também no plano das idéias e consciências. Se os europeus criaram a arte dos quadrinhos e os norte-americanos deram-lhe a forma dos comics, apropriamo-nos destas linguagens, mas não rezamos o credo do colonizador. Em A Tempestade, Caliban diz a Próspero que por este ter lhe ensinado a falar, então que as palavras que ele venha a proferir sejam para amaldiçoá-lo. Nós, que também aprendemos uma linguagem estrangeira, não faremos tanto. Ao invés de amaldiçoar, nossa escolha é representar e discutir nossa própria cultura, história e realidade, através dos quadrinhos.
Ser um voraz Caliban que cria a si mesmo.

Especial agradecimento aos autores e obras: William Shakespeare (A Tempestade); Tzvetan Todorov (A Conquista da América); Richard Morse (O Espelho de Próspero); Roberto Retamar (Caliban).

28/12/2008

A capital brasileira dos quadrinhos.


Por mais objetivo que se queira ser, toda história é narrada de um ponto de vista, constituindo uma versão dos acontecimentos. Assim, este texto constitui-se como um relato subjetivo, baseado em memórias e documentação do próprio autor. A história que aqui conto se passa na década de 1990, quando uma verdadeira “cena quadrinística” tomou forma e se desenvolveu em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Talvez para alguém que não tenha vivido aquele momento possa parecer exagero, mas como escrevi numa matéria de jornal na época, entre 1995 e 1998, BH foi a capital brasileira dos quadrinhos.

Tudo começou no início daquela década. Fanzines em xérox, aspirantes a quadrinista e os mais diversificados projetos surgiam a cada dia. Na onda de um mercado de quadrinhos em crescimento e relativo amadurecimento, várias lojas especializadas se sucederam: Livro Arbítrio, Valer, Mandarim, Gibis & Afins. Numa escola da periferia de BH, teve lugar a exposição de um grupo de desenhistas auto-intitulados os “Mutanóides Associados”. No antigo prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, o italiano Piero Bagnariol ministrava um curso de quadrinhos. O mesmo Piero, que trocou as ondas do Mediterrâneo pelas montanhas de Minas, logo estrearia o programa BOOM!, veiculado por um dos primeiros canais a cabo locais.

O burburinho em torno dos quadrinhos começava a ser notado. Em 1994, a livraria Leitura Savassi assumiu o papel de principal loja especializada da cidade. No ano seguinte, uma ampliação de sua seção Quadrinhos/RPG foi montada na Leitura Amazonas. Para inaugurar o espaço, em maio de 1995, fui convidado para ser um dos organizadores da BHQ (Primeira Convenção de Quadrinhos de Belo Horizonte). Na noite de abertura, uma verdadeira multidão de fãs de quadrinhos superlotou o espaço em busca de lançamentos importados e raridades do mercado nacional. A programação durou uma semana e contou com vídeos, palestras, debates e oficinas. O evento foi um sucesso e teria uma segunda edição no ano seguinte.

Ainda em 1995, estreei uma página semanal com crítica de quadrinhos no jornal Hoje em Dia. No ano seguinte, quando fui convidado para levar meus textos sobre quadrinhos para o jornal O Tempo (lançado em novembro de 1996), a página sobre quadrinhos do Hoje em Dia foi mantida a cargo de Paulo Dias e Gustavo Marcarenhas. Na mesma época, o jornalista Marcelo Castilho Avelar já escrevia uma seção de críticas de HQs para o Estado de Minas (sendo a única mantida, de forma esporádica, até hoje). Também entre 1995 e 1996, foi minha vez de levar os quadrinhos para a telinha, quando produzi o quadro “Quadrinhos & Afins” para o programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Lojas especializadas, convenções, páginas de jornal, matérias na tevê... Isso já faria de 1995 um ano singular. Mas teve mais!

Primeiro a Legenda, revista do Núcleo de Quadrinhos da Universidade Estadual de Minas Gerais. Em seguida, a experimental e inovadora Graffiti - 76% Quadrinhos, capitaneada por Piero Bagnariol e Marcos Malafaia. E enquanto eu produzia as edições do fanzine Ideário, consegui a aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura para os sete números da revista Solar, lançada em 1996. A ela se seguiriam as sete edições da Caliban, lançadas entre 1997 e 1998, também com o apoio da Lei de Incentivo. Essas e outras publicações, além de toda a movimentação em torno dos quadrinhos, acabaram dando origem ao Estúdio HQ. Chegando a reunir algumas dezenas de pessoas, a associação tinha uma sede própria, atuando na organização de festas de lançamento, distribuição das publicações e como espaço de confluência para pessoas interessadas em criar e publicar quadrinhos.

Pode-se dizer que um dos efeitos indiretos daquela cena quadrinística dos anos 90 foi a realização em BH da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Afinal, foram a efervescência criativa e a repercussão midiática de nosso movimento de quadrinhos que associaram fortemente o nome da cidade a essa arte. Assim, quando surgiu a proposta para que BH sediasse a Bienal, já estava disseminada a idéia de que os quadrinhos eram parte importante de sua vida cultural. Integrando as comemorações pelo centenário da capital, o evento aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, a 3ª Bienal teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros.

O evento contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres. O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira, Lourenço Mutarelli e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner (não perdi, é claro, a oportunidade de fazer entrevistas com esses convidados da Bienal, as quais você pode conferir aqui no blog).

No ano seguinte, incentivado pelo sucesso da Bienal, o movimento de quadrinhos em BH ganhou força total! Novas edições de revistas (como os últimos números da Caliban), o surgimento de jovens quadrinistas (como Cleuber da tira Arroz Integral), o retorno de veteranos (como Lacarmélio da revista Celton) e o reconhecimento dos talentos locais (como Guga, Irrthum e Chantal) fizeram de 1998 um ano especial para todos que estiveram envolvidos. O coroamento disso tudo veio com a 3ª BHQ, organizada pelo Estúdio HQ, com financiamento da Leitura Savassi e participação do recém-fundado Estúdio Big Jack (que se tornaria um dos principais produtores de quadrinhos e animações publicitárias da cidade).

Aquela convenção foi, no entanto, uma espécie de “canto do cisne” de nosso movimento de quadrinhos. O ano de 1999 trouxe dispersão de participantes e iniciativas que não se concretizaram. Para completar, a realização do primeiro FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) teve, para muitos de nós, o efeito de um “balde de água fria”. O fato é que a organização do evento não teve a devida participação dos produtores locais, funcionando como um desestímulo para nosso trabalho. Mas, seja pelos motivos que forem, o movimento de quadrinhos de BH já não tinha a força dos anos de 1995 a 1998. Para aqueles que participaram, porém, ficou certamente a memória de uma época única, em que BH foi a capital brasileira dos quadrinhos.