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05/04/2009

O Spirit de Will Eisner, na “adaptação” cinematográfica de Frank Miller.


A ligação de Frank Miller com as HQs do Spirit de Will Eisner e os filmes de crime e violência urbana vem desde o início de sua carreira, quando ele inovou os quadrinhos de super-heróis com seus desenhos e roteiros para a revista Daredevil. A utilização inteligente dos recursos narrativos introduzidos por Eisner somada ao emprego de um ritmo cinematográfico moderno deram às revistas do Demolidor um dinamismo e uma riqueza narrativa raros nos quadrinhos de super-heróis até então. Por tudo isso, era de se esperar que a adaptação cinematográfica de The Spirit, escrita e dirigida por Miller, fosse no mínimo um bom filme e especialmente fiel e respeitoso à obra que lhe serviu de inspiração. Infelizmente, nem de longe é isso que acontece!

A verdade é que não podemos reclamar que não fomos avisados de que Miller estava mais interessado em celebrar seu estilo gráfico pessoal do que propriamente homenagear seu mestre e amigo. Já no cartaz do filme, desenhado pelo próprio diretor, o contraste em preto e branco marcado, com partes em vermelho gritante, tem muito mais a ver com a série Sin City do que com a própria The Spirit. E bastou ver o trailer do filme, com suas cenas em preto e branco saturados, para ficar evidente que Miller gostou tanto da adaptação de seu próprio quadrinho para os cinemas que resolveu repetir o visual, fugindo completamente ao espírito da obra de Eisner. Quanto ao filme em si, a lista de erros, falhas e insultos é tão extensa que mal sei por onde começar!

O visual é sombrio e feio. Os detalhes em branco estourado cansam. Os diálogos são clicherescos e tediosos. Alguns momentos mergulham no mais profundo kitsch sentimentalóide. O ritmo às vezes cai num arrastar que se prolonga por muito mais do que deveria e um pouco além. As cenas de briga parecem saídas de uma sessão de luta livre mal ensaiada. Há até mesmo tiradas de humor forçadas que devem agradar a alguém com extremo mau-gosto. Com isso, em seus momentos mais “dinâmicos”, o longa-metragem não passa de uma comédia pastelão mal escrita e pessimamente iluminada. O que me leva à pergunta de quarenta milhões de dólares: o filme tem mesmo uma história? Uma que valha a pena ser assistida? Pergunto, pois a produção é tão chata e pretensiosa que com vinte minutos eu já estava pedindo para que acabasse! Mas só acabou após intermináveis uma hora e quarenta minutos...

O Comissário Dolan, Ellen, Silken Floss, Plaster of Paris, Octopus... Todos os personagens no filme parecem errados ou excessivos ou diminuídos. Só Sand Saref parece na medida. Também, com a beleza e as medidas da atriz Eva Mendes, fica difícil para qualquer diretor errar feio. Diga-se de passagem, Miller segue os passos de Quentin Tarantino e faz uma ponta no início do filme, para logo morrer e não deixar saudades em ninguém. Quanto ao próprio Spirit, da primeira sequência em que ele aparece até as últimas, Miller fez de tudo para não fazer jus ao personagem humano e simpático criado por Eisner. Praticamente um super-herói invulnerável, imitando a voz e os saltos do Batman e recitando falas de um Rorschach mais sentimental, o Spirit cinematográfico tem pouco ou quase nada do herói clássico dos quadrinhos.

Em resumo, The Spirit é um péssimo filme. Usando termos mais técnicos, eu diria que se trata de lixo cinematográfico puro e simples. Uma obra dispensável que conquistou sem grande esforço um lugar de desonra ao lado de produções como A Liga Extraordinária e Mulher-Gato. Se você ainda não foi ao cinema assistir a esse filme, minha sugestão é que não vá. Economize seu tempo e dinheiro. Ele não vale o esforço de sair de casa. Ainda assim, se fizer questão de conferir a “adaptação” de Frank Miller da obra-prima de Will Eisner, bem, espere até sair em DVD. Ou mesmo espere até passar na tevê. Antes de encerrar, porém, devo fazer uma derradeira ressalva: os créditos finais com os story boards de Miller ao fundo ficaram bem bacanas. Aliás, o autor de O Cavaleiros das Trevas e Sin City deveria voltar a se dedicar ao que sempre fez bem, que é desenhar quadrinhos!

04/06/2008

Pixel “manda bala” com 100 Balas.


Com o fim da série Sandman em 1996, a supervisora editorial do selo Vertigo, Karen Berger, iniciou um processo de reformulação da linha de quadrinhos adultos da DC Comics, apostando em novos gêneros e autores. Uma das séries lançadas nessa fase foi 100 Balas, criada por Brian Azzarello e Eduardo Risso. Para quem perdeu as primeiras edições, a Pixel relançou recentemente as cinco primeiras HQs dessa série de crime e vingança, enquanto, a título de experiência, lança também uma sequência de quatro revistas mensais.

Quadrinhos envolvendo detetives, policiais e bandidos fizeram muito sucesso nos anos 30 e 40, refletindo as questões sociais da realidade norte-americana da época. Com isso, personagens como Dick Tracy, Spirit, Batman e Homem-Borracha fizeram carreira ajudando a polícia a solucionar crimes e manter “a lei e a ordem”. Nas últimas décadas, porém, aconteceu uma alteração nos personagens enfocados e nos ambientes retratados, acompanhada de uma mudança na própria lógica narrativa. Os tradicionais quadrinhos de detetive e as revistas policiais passaram a ser substituídos pelo que podemos chamar de histórias de crime.

O resultado foi uma busca por enredos menos maniqueístas e mais realistas, acompanhada de deslocamentos nos papéis tradicionais do “mocinho” e do “bandido”. Uma violência urbana crua, incompetência e corrupção policial, personagens falíveis e excluídos dos benefícios de uma sociedade que os tenta ignorar, esses são os principais elementos das novas histórias de crime. Nos quadrinhos, o sucesso da série Sin City foi o grande catalisador de um renovado gênero noir. Por suas características temáticas e visuais, inegavelmente a herdeira e prolongadora da linha iniciada por Frank Miller foi 100 Balas de Brian Azzarello e Eduardo Risso.

A premissa básica é esta: um enigmático homem, que se identifica pelo nome Agente Graves, aproxima-se de uma determinada pessoa e lhe entrega uma maleta contendo uma arma, cem balas que não podem ser rastreadas e provas irrefutáveis contra alguém que tenha destruído sua vida. Além disso, Graves promete à pessoa escolhida imunidade legal para levar a cabo sua vingança contra quem a prejudicou. No geral, os roteiros de 100 Balas buscam retratar os subúrbios e submundos das grandes cidades, tendo como protagonistas pessoas comuns que acabam se deixando levar pelas circunstâncias. Já os desenhos primam por representar diferentes grupos étnicos, baseando-se fundamentalmente num contraste entre preto e branco.

A coletânea 100 Balas: Atire primeiro... traz as cinco primeiras histórias da série, acompanhadas de uma HQ curta, em 128 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço de R$14,90. Nas três primeiras partes, somos apresentados ao Agente Graves, ao Sr. Shepherd e a Dizzy Cordova, uma jovem recém-saída da prisão, que receberá a “dádiva” das cem balas. Já na história curta que se segue, na noite de Natal uma velhinha vai à delegacia, arrependida por ter aceitado a oportunidade de se vingar, três anos antes. Na sequência final em duas partes, é a vez de um ex-empresário, que viu sua vida desmoronar ao ser injustamente acusado, apostar sua sorte numa vingança, não sabendo que, na verdade, ele não passa de um peão numa trama maior.

Elementos da trama de conspiração que envolve a série anunciam ser desvelados em 10 Balas: Parlez Kung Voux 1, uma revista de 48 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço R$ 7,90. Primeira de quatro revistas que a Pixel programou lançar mensalmente, a edição traz os números 12 e 13 da série original. Passada em Paris, a história mostra a volta de Dizzy Cordova, agora trabalhando diretamente para o Agente Graves e o Sr. Shephard. A despeito da mudança de cenário, não faltam as cenas em bares, sequências de brigas e até um pouco da nudez feminina que Azzarello e Risso pegaram emprestado de Miller e tornaram a marca registrada de suas próprias revistas. Para quem tem acompanhado a série, a edição faz o prenúncio de grandes revelações.

Pessoalmente, à parte o efeito sonoro e emblemático do título, desde o início sempre questionei por que alguém precisaria de "cem balas" para matar outra pessoa. Mais que isso, a lógica “olho por olho” que embasa a série sempre me incomodou. O fato, contudo, é que a premiada 100 Balas é um sucesso também entre os leitores brasileiros, ganhando atenção mais que especial da Pixel.

27/01/2008

Nossos parabéns a Frank Miller!


Frank Miller é hoje mundialmente conhecido como o autor das HQs que originaram os filmes Sin City e 300, além de ser o diretor do futuro filme Will Eisner’s The Spirit. Mas esse quadrinista norte-americano, que completa 51 anos hoje, já foi muito mais que uma estrela menor na constelação de Hollywood. Do início dos anos 80 até meados dos anos 90, seu trabalho influenciou os quadrinhos norte-americanos, dando origem a algumas das mais importantes HQs das últimas décadas.

Em postagens anteriores, já abordei sua prestigiada fase na revista Daredevil, sua marcante abordagem na minissérie Wolverine, além do inovador Ronin e do revolucionário O Cavaleiro das Trevas. Também falei de suas colaborações com David Mazzucchelli em A Queda de Murdock e Batman: Ano Um, bem como de suas parcerias com Bill Sienkiewicz na Graphic Novel do Demolidor e na minissérie Elektra Assassina. Mas, após essa sequência de importantíssimos trabalhos, Miller passou um tempo afastado dos quadrinhos. Nesse período, ele fez sua primeira aproximação com o cinema, produzindo o roteiro inicial do lastimável Robocop 2.

Quando voltou às HQs em 1990, Miller lançou a muito aguardada e bastante decepcionante graphic novel Elektra Vive, escrita e desenhada por ele, com cores pintadas por Lynn Varley. Na sequência, boa parte de seus trabalhos seria produzida em colaboração com outros desenhistas. Assim surgiram Give me Liberty em parceria com David Gibbons, Hard Boiled ilustrada por Geof Darrow, Robocop vs Exterminador desenhada por Walter Simonson e O Homem sem Medo com desenhos de John Romita Jr., isso sem falar na edição 11 da revista Spawn e na perfeitamente esquecível Spawn/Batman, ambas produzidas com Todd McFarlane. Contudo, o trabalho mais importante de Frank Miller em seu “retorno” aos quadrinhos foram as edições da série Sin City.

Lançada originalmente nas páginas da revista Dark Horse Presents, a primeira história de Sin City teve ótima repercussão, sendo reunida em livro e dando origem a uma bem-sucedida sequência de minisséries lançadas pelo selo Legend. Negando a superexploração visual pela qual os comics passavam na época, com suas HQs policiais em preto e branco, Miller resgatou elementos que andavam meio esquecidos nos quadrinhos norte-americanos. Efeitos de luz e sombra, uma história que justifique as sequências de ação, não existindo apenas em função delas, e uma narrativa que tenha um "fio condutor" são alguns dos elementos recuperados em Sin City. Além disso, nas seções de cartas das minisséries, Miller engajou-se num longo e acalorado debate contra os sistemas de censura do mercado norte-americano de quadrinhos. Mas o que mais impressionou em Sin City foi seu visual.

Alguns elementos, como um traço característico e conciso ou a narrativa rápida e com pouco texto, foram sendo aperfeiçoados por Miller ao longo de sua carreira. O que Sin City trouxe de inovador foi um uso peculiar do contraste entre luz e sombra. Esse novo estilo é composto principalmente por massas de preto e branco, empregadas de tal forma que os quadros parecem sempre iluminados por um clarão. Na verdade, esse recurso não foi criado originalmente por Miller, sendo em parte influenciado por Hugo Pratt, mas principalmente por Alberto Breccia, o desenhista argentino da série Mort Cinder. Nesta, a luminosidade e as sombras são utilizadas com o objetivo de reforçar o clima de tensão e mistério das histórias, enquanto no trabalho de Miller o efeito é empregado para destacar os personagens e as sequências de ação. Contudo, o quadrinista norte-americano parece ter se acostumado demais ao estilo e temáticas de Sin City, fazendo com que os volumes seguintes começassem a ser apenas “mais do mesmo”.

Enquanto trabalhava em novas HQs de Sin City, Miller produzia roteiros para diferentes desenhistas. Assim surgiram Martha Washington Goes to War e outras edições com a personagem desenhada por Dave Gibbons, a premiada The Big Guy and Rusty com as detalhadas ilustrações de Geof Darrow, bem como a apocalíptica e surrealista Bad Boy, produzida em parceria com Simon Bisley, como parte de uma aberta campanha contras as restrições aos temas abordados nos quadrinhos. Outro exemplo disso foi a revista Tales to Offend, na qual Miller apresenta o personagem Lance Blastoff, um mercenário interplanetário sem escrúpulos que vive atrás de diversão e dinheiro, matando dinossauros e poluindo reservas ambientais. Ao fim da década de 1990, Miller ainda lançaria com Lynn Varley a minissérie 300, sua estilizada e superestimada versão para a batalha das Termópilas.

O novo século trouxe Miller de volta à DC Comics e a um dos personagens que o consagraram no início de sua carreira. Os resultados, no entanto, foram o absolutamente dispensável DK2 e o meramente comercial All Star Batman, este último desenhado por Jim Lee. Mas, talvez cause ainda mais arrepios a anunciada “Santo Terror, Batman!”, HQ em que o quadrinista promete mostrar o Homem-Morcego enfrentando os terroristas da Al-Qaeda. De qualquer forma, com o sucesso das adaptações de Sin City e 300, além do esperado filme Will Eisner’s The Spirit, o futuro de Frank Miller parece cada vez mais ligado ao cinema. E se seus quadrinhos dos últimos anos deixaram muito a desejar, podemos sempre celebrar suas obras do passado, dando nossos parabéns a esse importante quadrinista.

Para saber mais sobre os trabalhos de Frank Miller, clique no nome em destaque abaixo.

05/11/2007

Legend, um selo de qualidade nos quadrinhos.


Nos anos 80, os quadrinhos de super-heróis da Marvel e DC passaram por uma das melhores fases de sua história. A influência das HQs européias e japonesas, os trabalhos produzidos pelos autores ingleses e uma maior sofisticação das edições deram origem a uma revolução qualitativa nos comics. Em 1993, alguns dos autores responsáveis por aquele excepcional momento decidiram se juntar para lançar o selo Legend.

A idéia de reunir um grupo de quadrinistas (baseando-se na qualidade de seus trabalhos e objetivando a manutenção dos direitos autorais das HQs e personagens) partiu de Frank Miller e John Byrne. Segundo Miller, esta era uma idéia antiga que voltou à tona em 1992, quando Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld criaram a Image Comics (editora que sacudiu o mercado norte-americano de quadrinhos, abalando a hegemonia da Marvel e DC).

No início da década de 1990, Miller e Byrne estavam envolvidos em projetos lançados pela Dark Horse (editora que se tornara conhecida por lançar quadrinhos autorais e adaptações de filmes para as HQs). Miller havia escrito as minisséries Liberdade (desenhada por Dave Gibbons) e Hard Boiled (ilustrada por Geof Darrow), e estava produzindo a série Sin City. Já Byrne começava a desenvolver a série Next Men (que originalmente havia sido planejada para ser a base do universo Marvel 2099).

Motivados pelos resultados alcançados pela Image, Miller e Byrne resolveram reunir um grupo de quadrinistas, que contava com o talento de Mike Mignola, Dave Gibbons, Arthur Adams, Mike Allred, Paul Chadwick e Geof Darrow. Assim nascia o selo Legend, com o qual as histórias e personagens do grupo seriam publicadas pela Dark Horse, mas permanecendo como propriedade de seus autores. Os variados estilos, a originalidade e a identificação do trabalho com seu autor eram elementos marcantes nas revistas do Legend (algo muito diferente de se ter um bando de desenhistas-dublês que copie o estilo de um autor mais famoso).

Através do selo, Miller passou a publicar as novas histórias com a personagem Martha Washington (desenhadas por Dave Gibbons), as novas minisséries de Sin City, além de lançar a HQ The Big Guy and Rusty (desenhada por Geof Darrow). John Byrne levou para Legend a série Next Men, com seus super-heróis de um mundo sombrio. Paul Chadwick chegou com as HQs de Concreto, um introspectivo personagem dividido pelo desejo de ser um herói e os problemas causados por seu corpo monolítico. Arthur Adams lançou a série Monkeyman and O’Brien, com as histórias de um gorila extradimensional e sua companheira fortona. Mike Allred transferiu para o selo seu personagem Madman, uma estranha mistura do Capitão Marvel com o Monstro de Frankenstein. Mike Mignola trouxe Hellboy, uma série de histórias estreladas por um heróico demônio simiesco.

A experiência do selo Legend não durou muito, mas séries como Sin City e Hellboy frutificaram em várias continuações, mesmo após o selo deixar de ser usado (e se hoje as criações de Miller e Mignola alcançam notoriedade internacional através dos filmes de Hollywood, isso em grande parte se deve à semente lançada em 1993). O fato é que as revistas com o selo Legend não seguiam o padrão de produção industrial dos comics em geral, aproximando-se da forma como os artistas europeus criam suas HQs. Sem se preocupar em criar personagens e histórias para serem transformados em brinquedos ou desenhos animados, os integrantes do grupo Legend mostraram como conciliar interesses editoriais e qualidade artística. E esta é uma lição que não deveria ser esquecida!