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24/10/2010

Os 50 anos da Pererê!


Quem acompanha este blog desde o início deve se lembrar de uma postagem sobre a revista Pererê de Ziraldo. Aquele texto trouxe um resumo de meu livro inédito sobre essa importantíssima série de nossos quadrinhos. Passaram-se alguns anos e, infelizmente, o livro continua inédito. Mas, para celebrar os 50 anos da revista criada por Ziraldo e aproveitando a data de seu aniversário, publico aqui um trecho de “Pererê, uma aventura brasileira”. Parabéns então a Ziraldo e vida longa a Pererê e sua turma!

Em 1960, Ziraldo trabalhava no Departamento de Promoções e Relações Públicas de O Cruzeiro, uma das mais bem-sucedidas revistas e editoras da época. Entre trabalhos de Péricles, Millôr Fernandes, Carlos Estevão e Borjalo, a cada semana a revista publicava um novo cartum de Ziraldo, protagonizado pelo personagem Pererê. Trazendo temas variados numa abordagem humorística, os cartuns tinham pouco texto escrito (ou mesmo nenhum), valorizando o estilo de desenho sintético de seu autor.

Provavelmente, os leitores de O Cruzeiro que acompanhavam a série de cartuns notaram uma diferença na edição que chegou às bancas em 8 de outubro. Logo na primeira página da revista era anunciado que o Pererê estava mudando de casa: o personagem deixava O Cruzeiro para estrear uma nova revista em quadrinhos mensal criada especialmente para ele. Nas duas semanas seguintes, a Pererê ganhou anúncios de página inteira em O Cruzeiro, o que evidencia o investimento da editora no novo projeto.

Lançada naquele mesmo mês de outubro de 1960, em meio aos movimentos em favor da nacionalização das histórias em quadrinhos (o estabelecimento de reservas de mercado em favor dos desenhistas e personagens brasileiros), Pererê tornou-se rapidamente um sucesso, equiparando-se em vendagem a Luluzinha, a revista em quadrinhos de maior sucesso publicada pela editora de O Cruzeiro. No formato de 26 cm de altura por 18 cm de largura (semelhante ao dos comic books norte-americanos), Pererê foi a primeira revista em quadrinhos em cores inteiramente produzida por autores brasileiros com personagens brasileiros. Cada edição totalizava 36 páginas, com capas impressas em papel envernizado e miolo impresso em papel-jornal (desse total, em média, 4 páginas eram utilizadas para a veiculação de anúncios de revistas em quadrinhos também publicadas por O Cruzeiro).

Quando a revista chegou às bancas pela primeira vez, Juscelino Kubitschek ainda era o presidente, embora Jânio Quadros já tivesse sido eleito para sua sucessão e João Goulart reeleito para a vice-Presidência (a votação para os dois cargos fazia-se então em separado). Alcançando a impressionante tiragem de 120 mil exemplares, Pererê teve 43 edições, lançadas entre outubro de 1960 e abril de 1964, um dos períodos mais agitados e conturbados de nossa história. Voltada para o público infantil, com uma produção gráfica relativamente simples e trazendo na capa um selo de “Aprovado pelo Código de Ética” (copiado das revistas norte-americanas), Pererê não levantava suspeitas ou questionamentos sobre as mensagens que veiculava. Descrita por Ziraldo (em depoimento concedido a mim em agosto de 1999) como a “maior curtição de sua vida”, a revista era produzida segundo ele com “total autonomia criativa”:

“Era uma revista infantil. Eu podia contar as minhas histórias como quisesse. A Pererê era até um pouco, digamos, ‘comunista’ para a época. O editor nem ligava. Vai ver, nem lia. A revista fazia o maior sucesso. Bastava isto pra ele. Eu adorava bolar as histórias. Eu sabia que sabia fazer isto muito bem, diferente dos velhos clichês, nada de luta do mal contra o bem. Você vê que não tem, nunca teve bandido nas minhas histórias. Era tudo curtição, rememoração das fantasias de infância. Era um barato. E o artista gráfico deitava e rolava nas onomatopéias...”

Na produção das edições de Pererê, Ziraldo contava com o auxílio de uma equipe de profissionais de artes gráficas. Assim ele descreveu o processo de produção da revista:

“Eu fazia a revista com três meses de antecedência. Ou quatro, não me lembro. Tanto que fui dispensado em dezembro de 63 e a revista foi até abril de 64. Eu bolava as histórias, fazia tudo a lápis. Tinha três profissionais comigo. Um fazia o nanquim em cima do meu traço. Nunca aprendeu a fazer o traço. Chamava-se Paulo Abreu. Morreu logo depois que a revista parou. O outro era um famoso e grande letrista de quadrinhos de todas as publicações brasileiras, trabalhara na Ebal, no Globo, em toda parte. Um craque. Chamava-se João Barbosa. Também já morreu. O outro era o que indicava as cores no overlay, com papel de seda e lápis de cor (o cara do fotolito tinha que adivinhar a proporção das cores). Esse se chamava Heucy Miranda. Aliás ainda se chama, aprendeu a desenhar tudo, é um grande animador de desenho-animado e desenha o Pererê melhor do que eu. Uma figura!!!”

Apesar da qualidade e de todo o sucesso, a revista acabou sendo cancelada pela editora de O Cruzeiro (na capa do último número, a data indicada é "1 de abril de 1964", dia do golpe militar que destituiu o então presidente João Goulart, pondo fim ao período democrático iniciado em 1946). De qualquer forma, basta a leitura de algumas das histórias de Pererê para se perceber a originalidade e a qualidade dessa obra-prima dos quadrinhos.

(Talvez continue algum dia no livro “Pererê, uma aventura brasileira”...)

10/01/2009

Qual é seu personagem dos quadrinhos favorito?


Nós, leitores de quadrinhos, costumamos ter personagens preferidos, que acompanhamos em revistas, álbuns, filmes, animações... É claro que os motivos para gostarmos deste ou daquele personagem são pessoais e às vezes nem mesmo sabemos os porquês. No meu caso, percebi que os personagens que hoje considero meus favoritos são ligados às obras das quais mais gosto (mas que não são necessariamente as melhores que já li, em termos artísticos).

Sempre tive a curiosidade de saber quais são os personagens favoritos de outros leitores, o que me motivou a escrever esta postagem. Assim, gostaria de contar com a participação dos leitores do Mais Quadrinhos. Abaixo, está a lista dos meus personagens favoritos (atualmente). Optei por uma lista com cinco nomes, mas a sua pode ter quantos nomes quiser (se possível na sua ordem de predileção). Na minha lista, também indiquei as obras específicas que me fazem gostar deles, mas se preferir pode fazer uma lista simples (só citando os nomes). Então vamos lá!

1. Monstro do Pântano (especialmente nas revistas Swamp Thing #21-27 e #34-36, produzidas por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben).

2. Marvelman / Miracleman (em tudo que Alan Moore escreveu para o personagem, com exceção de alguns capítulos pessimamente desenhados).

3. Batman (na maior parte dos episódios de Batman: The Animated Series de 1992-1993 e também na HQ Mad Love, criada por Paul Dini e Bruce Timm).

4. Pererê (na série produzida por Ziraldo entre 1960 e 1964).

5. Grauna (nas HQs que Henfil publicou na revista Fradim n°s 9 a 14).

Fico aguardando então os comentários com sua lista de personagens favoritos dos quadrinhos. Abraços!

30/01/2008

Um pouco da história dos quadrinhos brasileiros.


Nesta quarta-feira, comemorou-se o “Dia do Quadrinho Nacional”. Para marcar a data, republico aqui um texto em que faço um breve apanhado da trajetória dos quadrinhos em nosso país. A imagem que ilustra esta postagem é da série Nhô Quim de Angelo Agostini (e foi retirada da primeira edição da Phênix, revista da história dos quadrinhos, uma interessante iniciativa de pesquisa que, infelizmente, durou pouco).

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos autores, uma história dos quadrinhos no Brasil revelaria talentos de nível internacional e artistas que certamente figurariam entre os grandes nomes dessa arte. Começando com a série Nhô Quim, lançada em 30 de janeiro de 1869 pelo desenhista Angelo Agostini, a galeria das HQs brasileiras teria como um de seus marcos fundadores o surgimento, em 1905, da revista O Tico Tico, que trouxe colaborações do ilustrador J. Carlos e publicou a série infantil Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criada por Luíz Sá.

Também marcariam a memória dos leitores HQs como Garra Cinzenta de Francisco Armond e Renato Silva, publicada em 1937. Mas, como é comum na trajetória dos quadrinhos no Brasil, um início promissor foi seguido por um período de “vacas magras”, no qual passaram a predominar as tirinhas norte-americanas veiculadas por publicações infanto-juvenis. Somente na década de 1950 os quadrinhos brasileiros ganhariam de fato novo destaque (como na revista infantil Era uma vez...). Mas a mesma sociedade que se escandalizava com as peças de Nelson Rodrigues proibia e condenava à marginalidade os “catecismos” pornográficos (do hoje festejado) Carlos Zéfiro.

Em 1959, estreou uma das mais duradouras revistas em quadrinhos totalmente produzidas no Brasil: As Aventuras do Anjo, que projetaria nacionalmente o nome do desenhista Flavio Colin. Já neste primeiro trabalho (que adaptava para os quadrinhos um famoso seriado da Rádio Nacional), Colin apresentou seu traço sintético e a busca pela valorização da cultura e realidade brasileiras, que o tornariam um dos quadrinistas mais originais e reconhecidos do Brasil. Naquele mesmo ano, o Brasil ganharia seu primeiro super-herói: o Capitão 7, que seria seguido de vários outros, a começar por Raio Negro, personagem criado por Gedeone Malagola em 1965.

Certamente, porém, o espaço privilegiado para os quadrinistas brasileiros nos anos 60 foram as revistas de terror. Com o desaparecimento das publicações desse gênero nos Estados Unidos, algumas editoras brasileiras (como a renomada Outubro) passaram a investir em produções locais. Nas páginas daquelas revistas, surgiram ou consagraram-se nomes como Jayme Cortez e Eugenio Colonnese, além do mestre Julio Shimamoto responsável por HQs antológicas como “Os Fantasmas do Rincão Maldito”. A saga dos quadrinhos de terror brasileiros ainda geraria muitos frutos, semeando publicações regulares até os anos 80.

Mas voltando aos anos 60, a influência modernista e o nacionalismo da Era JK tomaram conta da sociedade, refletindo-se nas páginas de uma das mais autênticas experiências dos quadrinhos brasileiros: a revista Pererê, criada por Ziraldo (e publicada em cores mensalmente pela editora de O Cruzeiro entre 1960 e 1964). Na mesma época, também começava a projetar-se (através das tirinhas do personagem Bidu e das primeiras HQs da futura Turma da Mônica) o desenhista Maurício de Sousa, que se tornaria o mais bem-sucedido empresário dos quadrinhos no Brasil.

Nos anos de repressão e censura da Ditadura Militar, surgiu uma incrível força de resistência. Para surpresa de muitos (que consideravam os quadrinhos apenas “uma inocente distração”), jornais como O Pasquim lançaram uma nova geração de desenhistas contestadores, encabeçada por Henfil (que com suas HQs dos Fradins e da Grauna provou que os quadrinhos podem tratar de questões sociais sem deixar de lado a arte). Na mesma linha, surgiriam novos talentos do cartum, como Nilson, Lor, Edgar Vasques e muitos outros. Numa seara bem diversa, trabalhando a partir da estética do cordel e da xilogravura, Jô Oliveira chegou da Hungria com seu original e marcante A Guerra do Reino Divino. E o Nordeste ainda nos daria outros batalhadores, como os autores-editores Antônio Cedraz e Henrique Magalhães, entre tantos outros.

Uma nova explosão dos quadrinhos brasileiros aconteceria nos anos 70, através da imprensa alternativa e de publicações independentes que privilegiavam os estilos pessoais e a cultura latino-americana (como Versus, Bicho e Risco). Já outras incorporavam influências das HQs de futurismo e fantasia de publicações como Métal Hurlant e Heavy Metal, sendo Mozart Couto e Watson Portela dois importantes destaques dessa corrente. Outra vertente na época seguia a linha do quadrinho underground norte-americano e francês, quando Angeli, Laerte e Glauco conquistaram legiões de fãs que hoje prestigiam as coletâneas de seus trabalhos. Mas, em termos artísticos, poucos alcançaram tanto quanto Luiz Gê (que nas páginas da Circo apresentava trabalhos que nada deixam a dever ao melhor quadrinho de autor europeu).

Nos anos 80, aconteceu uma nova retração no mercado de quadrinhos, amenizada por experiências esporádicas de pequenas editoras e pela iniciativa dos autores. O fanzineiro Marcatti e o desenhista Lacarmélio (conhecido pelo nome do personagem Celton) são representantes célebres da geração que montou suas gráficas e editoras caseiras de onde saíram os fanzines e revistas independentes que (em mimeógrafo, xérox ou tipografia) continuaram a trajetória dos quadrinhos brasileiros. Se os anos 90 começaram com outra crise econômica que inibiu ainda mais a produção de HQs, a relativa estabilidade de meados da década e as facilidades editoriais trazidas pela computação deram um novo alento aos quadrinhos brasileiros. O resultado imediato foi o surgimento de inúmeras revistas e grupos de desenhistas por todo o país, além de álbuns e coletâneas com os trabalhos de autores originais, como Ofeliano, Lourenço Mutarelli, Fernando Gonsales, Marcelo Lelis, Fábio Zimbres e muitos outros que poderíamos citar aqui.

Nos últimos anos, embora tenha havido um maior interesse por parte dos editores, a situação mercadológica dos quadrinhos brasileiros não melhorou. Em outras palavras, o mercado brasileiro de quadrinhos continua não pertencendo prioritariamente (como deveria ser) aos autores brasileiros. A despeito disso, vários jovens talentos têm surgido, através de edições independentes e também organizando-se em grupos (como o recém-lançado
Coletivo Quarto Mundo). E isso sem falar na Internet, espaço cada vez mais ocupado por nossos quadrinhos, como comprovou a longa relação de saites e blogs divulgada pelo jornalista Paulo Ramos. Por tudo isso (e por ainda mais que ficou de fora deste breve apanhado), só me resta dizer: viva o quadrinho brasileiro!

01/12/2007

Ziraldo, o pai da Pererê.


Uma das mais significativas experiências dos quadrinhos brasileiros foi a série Pererê, produzida entre 1960 e 1964 por Ziraldo e uma equipe de desenhistas (que aparecem na imagem que ilustra esta postagem, “curtindo” a edição de estréia da revista). Reproduzo aqui a entrevista que fiz com esse importante escritor, ilustrador e humorista brasileiro, para a realização de minha dissertação de mestrado, em 1999.

Qual era sua autonomia criativa em relação ao editor da revista?


Era total. Era uma revista infantil. Eu podia contar as minhas histórias como quisesse. A revista era até um pouco, digamos, “comunista” para a época. O editor nem ligava. Vai ver, nem lia. A revista fazia o maior sucesso. Bastava isto pra ele.

Descreva o processo de criação da revista: prazos e profissionais envolvidos.

Eu fazia a revista com três meses de antecedência. Ou quatro, não me lembro. Tanto que fui dispensado em dezembro e a revista foi até abril de 1964. Acabou quando tinha que acabar. Eu bolava as histórias, fazia tudo a lápis. Tinha três profissionais comigo. Um fazia o nanquim em cima do meu traço. Nunca aprendeu a fazer o traço. Chamava-se Paulo. Morreu logo depois que a revista parou. O outro era um famoso e grande letrista de HQ de todas as publicações brasileiras, trabalhara na Ebal, no Globo, em toda parte. Um craque. Chamava-se João Barbosa. Também já morreu. O outro era o que indicava as cores no overlay, com papel de seda e lápis de cor. O cara do fotolito tinha que adivinhar a proporção das cores. Este se chamava Heucy Miranda. Aliás ainda se chama, aprendeu a desenhar tudo, é um grande animador de desenho animado e desenha o Pererê melhor do que eu. Uma figura!!!

Qual era a tiragem e o percentual de vendas da Pererê, entre 1960 e 1964?

Acho que vendia 130.000 em 1963. Vendia igual à Luluzinha e mais do que as revistinha da Abril. Maurício ainda não existia como fazedor de revista.

O que há de sua infância em Caratinga (MG) na criação das HQs da revista?

Tudo.

Em termos estilísticos, quem e o que influenciou o visual, o texto e a narrativa da Pererê?

Levei um susto quando li a Luluzinha pela primeira vez. A linguagem da Marge era cinematográfica. Me lembro de uma história em que a Luluzinha saía do quarto e ia se encontrar com o Bolinha pra dar um pau nele, por qualquer razão, não me recordo. Aí, ela sai do quarto e até chegar ao bolinha, sem uma só fala, ela gasta uma página ou mais, mostrando a Luluzinha saindo do quarto, descendo a escada da casa, saindo de casa, fechando a porta da rua, caminhando pela calçada, até chegar à casa do Bolinha. Sem uma fala, sem um balão. Era um tempo perfeito de narração que criava um clima fantástico. Quadrinho com clima. Fiquei fascinado. Alguns meses depois de estar publicando o Pererê fui procurado pelo Watson Macedo, o famoso diretor das chanchadas do Oscarito e do Grande Otelo. Ele me disse: “Me deram suas revistinhas para eu ler. Você não é desenhista de HQ, você é um roteirista. Tenho aqui uma história. Faça um roteiro pra mim.” Eu fiz. Foi a última chanchada, a primeira em cores. Chamava-se Rio, verão e amor e foi o canto do cisne do Macedo.

As HQs de Pererê já trazem uma preocupação com a produção cultural e o caráter original de suas obras posteriores; o Ziraldo artista gráfico e escritor já estava presente nas páginas da Pererê. Qual relação você estabelece entre esta obra em quadrinhos e sua posterior trajetória como criador?

Eu vinha da publicidade. Trabalhava com anúncios e lay-outs. E assinava o Graphis. E conhecia o Steinberg, todos os cartazistas europeus do metrô de Paris, Herbert Leupin, o Hervé Morvan, o Piatti, o Raymond Savignac. Tanto que eu achava HQ uma arte menor em todos os aspectos. Sabia que fazia aquilo bem feito mas achava fácil. Eu queria era desenhar que nem o Steinberg, o Ronald Searle, o André François. Tanto que quando a Editora Cruzeiro decidiu parar o Pererê eu sofri muito mas não insisti em procurar outra editora porque queria recuperar meu desenho, que a HQ tinha aprisionado. Tive que sair correndo atrás do Jeremias com seus pés de ferro-elétrico e suas pernas de gafanhoto, suas mãos gigantescas, para voltar a ser um desenhista de humor, tão bom como o Jaguar, o Fortuna e o Millôr. Se eu tivesse me realizado na HQ, acho que o Galileu hoje, com trinta nove anos de mídia seria mais importante para o Brasil do que o Tintin é para a Bélgica ou o Mickey para os Estados Unidos (ou o mundo!).

Em Pererê, que foi “a maior curtição de sua vida”, como conviviam o Ziraldo artista e o publicitário?

Eu adorava bolar as histórias. Eu sabia que sabia fazer isto muito bem, diferente dos velhos clichês, nada de luta do mal contra o bem. Você vê que não tem, nunca teve bandido nas minhas histórias. Era tudo curtição, rememoração das fantasias de infância. Era um barato. E o artista gráfico deitava e rolava nas onomatopéias...

Por que a revista foi cancelada em abril de 1964?

Bom... a ameaça da República Sindical do Jango já tinha ido para o brejo. O Cruzeiro não fazia o Pererê porque eles eram idealistas ou tinham visão comercial. Eles já estavam conspirando. E achavam que a república do Jango era inevitável. E se prepararam para as modificações que certamente viriam: a nacionalização da HQ, uma batalha nossa, da rapaziada que desenhava na época, todo mundo na onda das reformas de base. Em dezembro de 1963 eles já sabiam que o Jango não resistiria e o encanto pela revista acabou. Eu não recebia nada pela revista. Tinha um alto salário no O Cruzeiro como Relações Públicas e não fazia nada nesta área. Ficava era desenhando o Pererê. Aí, saí do Cruzeiro com a turma do Odilo Costa Filho. Fiquei sem salário, sem dinheiro. Fui combinar com o editor: “O senhor vai ter que me pagar tanto para fazer o Pererê.” Se ele botasse aquele custo na conta da revista, ela não ia dar o lucro que dava. Aquela despesa com meu salário era debitada a O Cruzeiro, que nadava em dinheiro. Saia na urina. E aí, meu editor me disse: “Não temos o menor interesse em continuar com sua revista. Só podemos pagar o que estamos pagando até agora.” A revista vendia 120.000 exemplares e as despesas com o Paulo Abreu, o João Barbosa e o Heucy eram o dobro do pagamento simbólico que eles me davam. Ele disse: “Ou você faz pelo mesmo preço, ou paramos a revista.” Eu me lembro que o pagamento era qualquer coisa em torno de dois salários mínimos. Eu ganhava muito mais de cem salários mínimos como Relações públicas do Cruzeiro. Fiquei na miséria. Saí da sala do editor aos prantos. Eu não queria que o Pererê morresse, mas como um velho escorpião sai me dizendo: “Ôba, vou poder salvar a qualidade do meu desenho.” Sempre tive esta coisa maluca de achar que tudo de mal que lhe acontece tem um lado positivo. Não sei de onde tirei isto.

Nos anos 70, Pererê foi reeditado em livro e ganhou uma nova série pela Abril. Como surgiram esses projetos e qual sua relação com a série original?

A rapaziada que trabalhava na Abril, principalmente Ygaiara, tinha sido formado lendo o Pererê. Eu tinha um fã-clube lá, enorme. E eles viviam insistindo: “Vem fazer o Pererê com a gente. Temos roteiristas, desenhistas, letristas, tudo.” Eu fui. No final do décimo número, eu senti que estava perdendo o poder sobre os personagens, não tinha tempo de refazer todos os roteiros, às vezes meus personagens se comportavam de uma maneira que não me parecia correta, aquilo foi me dando uma angústia. E o pagamento não dava pra eu largar tudo e só fazer o Pererê. Eram sessenta e quatro páginas por mês, mais de trezentos quadrinhos, como é que eu ia desenhar tantos quadrinhos, bolar tantas histórias? Parei de novo, que fazer? Mas acho que vou reeditar tudo. Revistas desaparecem. Livros ficam para sempre. Vou fazer que nem o Quino fez com a Mafalda. Publica um Todo Pererê em livros [esta coleção chegou a ser iniciada pela editora Salamandra]. Vai vender pouco, talvez nem pague o investimento. Mas deixa o Pererê intacto pro próximo século.

Para você, os quadrinhos são uma arte?

São. Eram e a gente não sabia. E agora todo mundo sabe e já a faz como arte.

07/11/2007

Pererê, uma aventura brasileira.


Em abril de 1964, foi lançado o último número da revista Pererê, uma das mais memoráveis e bem-sucedidas experiências dos quadrinhos brasileiros. Escrita e desenhada por Ziraldo, com arte-final de Paulo Abreu, cores de Heucy Miranda e letras de João Barbosa, em suas 43 edições mensais, a Pererê marcou época e deixou saudades. Saudades de um Brasil que era feliz.

A aventura em quadrinhos de Ziraldo & Cia. começou no fim dos anos 50, quando o cartunista mineiro trabalhava na equipe de produção da revista O Cruzeiro. Sendo a publicação nacional mais importante da época, O Cruzeiro trazia reportagens especiais sobre nossa cultura e sociedade, matérias sobre comportamento e moda, além de colunas políticas e páginas de cartuns (as “piadas desenhadas”).

A equipe de humoristas daquele importante semanário era uma verdadeira constelação: Péricles, Carlos Estêvão, Millôr Fernandes, Borjalo e o próprio Ziraldo, que passou a publicar cartuns silenciosos estrelados por um saci pererê. Timidamente, ocupando meias-páginas, nascia (ainda que em esboço) um dos principais heróis de nossos quadrinhos.

Em meio ao clima nacionalista da época, os editores de O Cruzeiro decidiram lançar revistas em quadrinhos com personagens brasileiros. A primeira e mais duradoura delas foi exatamente a Pererê, lançada em outubro de 1960. Conquistando leitores por todo o país, a primeira revista em quadrinhos brasileira totalmente colorida tinha a impressionante tiragem mensal de 120 mil exemplares. Com um desenho moderno e cores vivas, reinventando a narrativa quadrinística e dialogando com a cultura, a revista do Saci tinha a cara e a alma do Brasil.

Além de seu protagonista de uma perna só, a série trazia os simpáticos personagens da Mata do Fundão: o valente índio Tininim, a onça Galileu Bonifácio, o macaco Allan, o tatu Pedro Vieira, o jabuti Moacir e o coelho Geraldinho. Havia ainda a amorosa Mamãe Docelina e o intelectualizado corujão General Nogueira. Embelezando as páginas, apareciam as meninas Boneca de Piche e Tuiuiu, musas de Saci e Tininim, mas também motivos de disputas dos meninos com os rivais Rufino e Flecha Firme. E por falar nos “vilões” da revista (que na verdade não tinham nada de maus), o onção Galileu não podia dormir no ponto, senão acabava capturado pelos caçadores Compadre Tonico Macedo e Seu Neném Moreira, sempre às voltas com as mais mirabolantes armadilhas.

Passadas num ambiente natural e valorizando a vida no campo, aquelas aventuras tinham muito das memórias da infância de Ziraldo na pacata Caratinga (MG). Mas a Pererê também tinha um pé no mundo moderno, afinal, o Saci e seus amigos costumavam viajar para fazer compras na “cidade” ou para visitar o Rio (de Janeiro). Por dentro das novidades e ligados em eventos importantíssimos como a Copa do Mundo, amigos do Tarzan e admiradores da Arte Modernista, os meninos da Mata do Fundão só não gostavam muito da televisão, preferindo um bom livro de aventuras. E para causar espanto naqueles verdadeiros superamigos, só mesmo a aparição de um disco voador ou de um alienígena em pessoa.

Cultura popular e ficção científica, humor e aventura, cartum e literatura são alguns dos ingredientes de uma mistura de sucesso, uma série em quadrinhos na qual a diversão anda de mãos dadas com a arte. Mostrando um Brasil cheio de vida e orgulho de si próprio, habitado por índios e gente-de-faz-de-conta, animais falantes e heróis camaradas, a revista Pererê acabou no dia da mentira, em 1° de abril de 1964. Começava então uma outra época, triste e sombria, chamada Ditadura Militar, na qual era proibido dizer ou escrever tudo o que se pensava. Amigo da festa e da alegria, o esperto Saci de Ziraldo já não podia viajar livremente, montado em seu fiel redemoinho de vento.

Mas, depois de muita luta, felizmente aquele tempo triste e sombrio virou história. E hoje os antigos leitores da Pererê podem reencontrar o Saci e sua turma, enquanto os novos leitores podem viajar pela deliciosa descoberta daquele Brasil que era feliz. As histórias originais da Turma da Mata do Fundão podem ser encontradas nos álbuns da coleção Todo Pererê da editora Salamandra. Vale conferir!

Texto baseado em meu livro inédito Pererê, uma aventura brasileira.