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21/12/2008

Sandman e outras edições da Pixel.


Para quem curte séries de quadrinhos com temática mais adulta, a melhor pedida nos últimos tempos têm sido os lançamentos da Pixel. Após uma reestruturação administrativa no início deste semestre, a editora que faz parte do grupo Ediouro deixou de lado os álbuns europeus e as HQs nacionais, concentrando-se nas séries norte-americanas dos selos Wildstorm e Vertigo. Além das revistas periódicas Pixel Magazine e Fábulas Pixel, a editora tem levado às bancas e livrarias coletâneas com quadrinhos consagrados e encadernados que reúnem os exemplares não-vendidos de seus especiais.

Está à venda desde novembro Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume1 (144 páginas, formato reduzido 17cm x 24cm, capa cartonada com impressão especial e orelhas, vendido por R$29,90). A coletânea traz os quatro primeiros capítulos da série recolorizados, mostrando a captura de Morpheus por um grupo ocultista inglês, sua fuga e seus primeiros movimentos para recuperar os poderes e colocar ordem de novo em seu reino. As HQs são desenhadas por Sam Kieth e Mike Drindenberg, num estilo sombrio com elementos cartunizados que cria um clima ideal para as histórias, lembrando as clássicas antologias de terror (como a Tales from the Crypt da EC Comics ou as revistas da própria DC, das quais Gaiman resgatou coadjuvantes como Caim e Abel ou as Três Bruxas).

A edição traz ainda a “Proposta para Sandman”, publicada pela DC em The Absolute Sandman Volume1 e inédita até agora no Brasil. O extenso texto, acompanhado de estudos para o visual do Mestre dos Sonhos (incluindo esboços feitos pelo próprio Gaiman), é verdadeiramente um atrativo à parte nessa reedição. Além disso, inteligentemente, os editores brasileiros decidiram incorporar à sua coleção os conteúdos do livro Capas na Areia (as ilustrações das capas e os comentários de Gaiman e McKean), fechando essa primeira coletânea da Pixel uma seção de notas explicativas. E ao que tudo indica esse primeiro volume teve uma ótima vendagem, pois a editora decidiu antecipar o lançamento da parte final da primeira história do Mestre dos Sonhos.

Já está nas livrarias Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume2 (132 páginas, também em formato reduzido 17cm x 24cm, capa cartonada com impressão especial e orelhas, ao preço de R$29,90). Essa segunda coletânea da Pixel traz as quatro últimas partes da história, concluindo com a estréia da irmã mais velha do Mestre dos Sonhos, a Morte. Na parte dos extras, mais páginas extraídas do livro Capas na Areia, incluindo a HQ curta de Gaiman e McKean “A Última História de Sandman”. Completam este segundo volume uma introdução escrita pelo editor Leandro Luigi Del Mantlo, o responsável pelo lançamento de The Sandman no Brasil nos anos 80. Para quem ainda não escolheu o presente de Natal, Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume1 e 2 pode ser uma ótima pedida!

Outro lançamento para os fãs dos quadrinhos adultos da DC Comics é 100 Balas - Segundas Chances (128 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, vendido por R$16,90). Este segundo encadernado da série reúne dois especiais da Pixel, correspondendo aos números 6 a 11 da revista original. Com roteiro de Brian Azzarello e desenhos de Eduardo Risso, as HQs misturam tramas criminais, dramas cotidianos e alguns tiros, um pouquinho de sexo e muito sangue. Já Como Matar um Wildcat - Completo (160 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, vendido por R$16,90) reúne as edições 7 a 12 da segunda fase da revista norte-americana, além de uma HQ curta da Wild C.A.T.s n°50 (que encerrou a primeira fase da revista original).

Como Matar um Wildcat - Completo tem tudo para agradar aos fãs da série, trazendo bastante ação, super-heróis violentos, ciborgues e alienígenas, com destaque para as páginas desenhadas por Sean Phillips. O mesmo deve acontecer com Authority: Transferência de Poder - Completo (200 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, ao preço de R$19,90) que reúne as duas edições da minissérie. Com HQs publicadas nos números 22 a 29 da revista original, a edição tem como destaque os detalhados desenhos de Frank Quitely, com o tipo de ação e os personagens que consagraram a série da Wildstorm. À venda em bancas e livrarias, os três encadernados da Pixel são uma segunda chance para quem deixou passar as revistas em separado ou para quem quiser conhecer essas séries de sucesso.

Recentemente, no entanto, o editor Cassius Medauar anunciou no blog da Pixel sua saída da editora. A notícia causou descontentamento e muitas especulações entre os leitores, deixando uma dúvida sobre o futuro do projeto iniciado em 2006 e a continuação da publicação das séries e coleções em andamento.

10/11/2008

Os 20 anos de Sandman!


Em meados dos anos 80, com o sucesso do roteirista inglês Alan Moore à frente da revista Swamp Thing (Monstro do Pântano), a DC Comics decidiu “sair à caça” de outros roteiristas da Grã-Bretanha. Mais cultos e não tendo os vícios de seus colegas norte-americanos, os autores britânicos iniciaram então uma revolução qualitativa no mercado de quadrinhos. Um dos primeiros frutos da chamada “invasão britânica” foi a minissérie Orquídea Negra, lançada em 1988, com roteiro de Neil Gaiman e páginas pintadas por Dave McKean. O competente trabalho da dupla abriu as portas para um novo projeto: The Sandman. Uma mistura de realidade e ficção, terror e fantasia, a revista surgida há vinte anos é centrada na figura de Morpheus, o Mestre dos Sonhos, uma entidade que personifica os sonhos e o ato de sonhar.

Lançada em fins de 1988 e concluída no início de 1996, The Sandman foi uma das melhores séries de quadrinhos já produzidas. O nome de seu protagonista já havia sido utilizado em dois outros heróis da DC Comics nos anos 40 e 70, mas a versão de Neil Gaiman para os anos 80 e 90 partia de uma concepção completamente nova. Reunindo referências à literatura, filosofia, história, mitologia e aos quadrinhos, o roteirista construiu todo um universo ficcional, do qual fazem parte também personagens históricos (como William Shakespeare, Robespierre, Harun Al Rashid e Marco Polo). Muito premiada durante sua publicação, o prestígio da obra só fez aumentar após seu encerramento, projetando internacionalmente o nome de seu criador. Merecem também destaque especial as belas e às vezes estranhas capas criadas por Dave McKean (geralmente pinturas, colagens ou fotomontagens).

Um fator marcante nas primeiras edições da série é a influência dos roteiros de Alan Moore para o Monstro do Pântano. Aliás, Gaiman cita o nome de seu precursor logo nos primeiros parágrafos da “Proposta para [a publicação de] Sandman”, um extenso texto acompanhado de estudos para o visual do Mestre dos Sonhos (publicado pela primeira vez em The Absolute Sandman Volume1). Nele, Gaiman apresenta detalhadamente os fundamentos de sua concepção para o personagem e os principais coadjuvantes e ambientes da série, bem como a correlação com versões anteriores de Sandman e as sinopses de nove capítulos. Chama atenção não só o quanto da série já estava esboçado em seu nascimento, mas também alguns elementos que foram alterados ao longo do caminho (por exemplo, parece que inicialmente Gaiman havia imaginado os Perpétuos não como sete irmãos, e sim como uma tríade formada por Sonho, Morte e Destino).

Sucesso de público e de crítica, The Sandman foi a primeira série da DC Comics a ser inteiramente reeditada em forma de livro. Além disso, sua popularidade motivou a editora a investir em uma nova linha de “quadrinhos com temática adulta”: o selo Vertigo, lançado em 1993. E pode-se dizer que tudo isso se deveu quase exclusivamente aos roteiros de Gaiman. Afinal, até mesmo os fãs mais ardorosos do Mestre dos Sonhos têm de reconhecer que algumas edições da revista trouxeram desenhos de baixíssima qualidade (que chegam a prejudicá-la, quando consideramos a obra como um todo). É importante lembrarmos que o que define uma HQ de qualidade é o conjunto formado por uma boa história, contada com um ritmo narrativo e um visual adequados. E a verdade é que esse conjunto qualitativo, em vários momentos, não esteve presente nas páginas de The Sandman (particularmente nos arcos "Casa de Bonecas” e “Um jogo de você”).

As deficiências nos desenhos não impediram, contudo, que a revista alcançasse um prestígio nunca antes visto nos quadrinhos norte-americanos (o qual por vezes chega a ser um tanto exagerado). Somando setenta e cinco números, um especial (Sandman: Orpheus), HQs curtas e galerias de ilustrações, a série também deu origem a um livro ilustrado (Sandman: Dream Hunters), uma graphic novel campeã de vendas (Sandman: Endless Nights) e duas minisséries (com a Morte), além de novas revistas periódicas, escritas por outros roteiristas, mas inspiradas nos conceitos e personagens de Gaiman (como The Dreaming e Sandman Presents). Em 2007, a DC Comics deu início à belíssima coleção The Absolute Sandman, em quatro volumes com estojo, formato estendido, capa-dura em imitação de couro, papel de alta qualidade, vários extras com ilustrações e textos especiais, além da recolorização dos primeiros trinta e oito capítulos (do capítulo 39 em diante a colorização não precisou ser refeita).

No Brasil, Sandman já passou por duas coleções completas: a primeira e mais fiel à revista original lançada pela Globo em 1989, e a luxuosa reedição estendida, com capa-dura e em dez volumes, lançada nos últimos anos pela Conrad (sem contar aqui a inacabada e péssima reimpressão pela Brainstore). Para aqueles que não puderam acompanhar as edições anteriores, inicia-se agora uma nova coleção de Sandman, desta vez pela Pixel, que optou por um formato e uma organização inéditos. Serão ao todo dezessete volumes (reunindo os setenta e cinco números da revista e incluindo Sandman: Orpheus), seguidos de três especiais (O Mundo de Sandman, Noites Sem-Fim e Caçadores de Sonhos). A Pixel utilizará as versões recolorizadas e também os principais conteúdos extras de The Absolute Sandman. Além disso, inteligentemente, os editores brasileiros decidiram incorporar à sua coleção os conteúdos do livro Capas na Areia, com as ilustrações das capas e os comentários de Gaiman e McKean.

Em meio a todo o sucesso e prestígio, The Sandman chegou ao fim, a pedido do próprio Gaiman (que declarou ter concluído a história que gostaria de contar). O roteirista então passou a se dedicar a edições especiais e, particularmente, a projetos em outras mídias, como cinema, tevê e literatura. Nos últimos anos, ele retornou aos quadrinhos em duas minisséries para a Marvel: 1602 e Eternals. Mas o fato é que nenhuma de suas obras mais recentes chegou aos pés da importância e repercussão de The Sandman, um marco nos quadrinhos norte-americanos, que assumiu a condição de clássico e continuará a habitar a imaginação de leitores por muitos e muitos anos. Enfim, só me resta desejar a Neil Gaiman, neste 10 de novembro, meus parabéns por sua obra-prima e um feliz aniversário!

11/08/2008

A despedida de Sandman.


Lançada em 1988 e concluída em 1996, The Sandman foi uma das melhores séries de quadrinhos já produzidas. Muito premiada durante sua publicação, o prestígio dessa obra só fez aumentar após seu encerramento, projetando internacionalmente o nome de seu criador, o roteirista inglês Neil Gaiman. Lançada no Brasil inicialmente pela editora Globo, a saga do Mestre dos Sonhos ganhou uma luxuosa reedição pela Conrad, que chega agora a seu décimo e último volume. Sandman: Despertar tem excelente qualidade gráfica, com capa-dura e 200 páginas em formato estendido, incluindo várias ilustrações produzidas por Dave Mckean, uma seção de auto-retratos dos autores envolvidos e outra com notas informativas, sendo vendido ao preço de R$69,90.

Reunindo as edições 70 a 75 da revista original, o último volume de Sandman é uma história sobre partidas e despedidas, sobre o “trabalho de luto” por amigos e amores que se vão, e também uma sábia reflexão sobre o sentido de nossas existências. Com a morte do Sandman Morpheus no volume anterior, é hora de todos prestarem suas homenagens. Ao mesmo tempo, seguindo a tradição inglesa de “o rei está morto; vida longa ao rei”, é também a hora de reconhecer o novo monarca do Sonhar, o Sandman Daniel. E é exatamente em torno disso que giram as três primeiras histórias do livro, ilustradas por Michael Zulli, nas quais somos testemunhas dos funerais de Morpheus.

Com a presença de soberanos de terras imaginárias, deuses das mitologias antigas, personagens saídos de histórias e também de pessoas comuns, os ritos fúnebres do Mestre dos Sonhos tiveram a devida “pompa e circunstância”. Compareceram também os membros de sua família, além de poucos e verdadeiros amigos, e de antigas namoradas e amantes. Podemos, assim, dizer que Morpheus teve um funeral invejável, não pela “pompa e circunstância”, mas pelo fato de ter sido amado e, ao final, compreendido. E enquanto nos narrava essa história, Gaiman despedia-se do personagem que o consagrou, falando-nos profundamente sobre perda e a necessidade de se seguir em frente.

Já o quarto capítulo trata da importância de prestarmos contas de nossos atos e escolhas. E não haveria personagem mais adequado para este capítulo do que Robert Gadling, o homem que tem a escolha de jamais morrer e que a cada cem anos encontrava-se com Morpheus para beber e conversar. Num passeio com sua namorada por um parque temático “medieval”, o imortal inglês acaba mergulhando nas lembranças de um passado que preferia esquecer e também recebendo a visita de uma querida irmã de Sandman. Além de contar uma história com dois de seus personagens favoritos, Gaiman utiliza “Luto Dominical” para falar do vergonhoso envolvimento inglês no tráfico de escravos africanos.

As páginas de Zulli para os quatro primeiros capítulos do livro representam bem o clima de luto. Suas imagens sombrias e pesadas evidenciam o trabalho minimalista de um desenhista que, se não era um talento nato, conseguiu com persistência estabelecer um estilo próprio, de beleza peculiar. Essa impressão é o oposto da que temos com o quinto capítulo de Sandman: Despertar, ilustrado por Jon J. Muth. Um virtuose da ilustração, Muth transpõe para o papel imagens quase etéreas, que imitam a leveza das antigas ilustrações e caligrafia chinesas, ao mesmo tempo em que traduzem o clima onírico de um roteiro que narra os encontros de um velho sábio com as duas versões de Sandman.

Por fim vem “A Tempestade”, capítulo no qual o Mestre dos Sonhos se encontra pela última vez com William Shakespeare. O dramaturgo inglês já havia aparecido na HQ “Homens de Boa Fortuna”, na qual faz um acordo com o Rei dos Sonhos, e também em “Sonho de uma noite de verão”, na qual entrega a primeira de duas peças que escreveria para Morpheus. Mostrando um Shakespeare envelhecido, cansado e melancólico, esse capítulo final mistura elementos da vida do escritor, a trechos de sua última peça. Mais uma homenagem de Gaiman a um de seus autores favoritos, a história desenhada por Charles Vess é um fechamento à altura para uma grande série de quadrinhos.

Uma HQ bem elaborada, o capítulo final de Sandman trata também de como as escolhas e suas consequências influenciam nossas vidas e as das pessoas à volta. Sem ter o valor de seu trabalho reconhecido pela mulher e sendo cobrado por sua filha por não ter sido um pai presente, Shakespeare se pergunta “se valeu a pena” viver pela arte. Poderíamos responder que “sim”, a esse autor de obras que continuam relevantes quase quatrocentos anos após sua morte. Ainda assim, esse é um questionamento que deve rondar os pensamentos de Gaiman e de todos que dedicam a vida à criação artística, muitas vezes deixando de lado o que outras pessoas chamam de “felicidade”.

Prova de que as HQs podem se igualar às melhores criações literárias de nosso tempo, esse último volume de Sandman não me agradou tanto quando o li pela primeira vez. Foi preciso que alguns anos se passassem e que eu amadurecesse para poder apreciar a beleza e compreender a profundidade dessa história em quadrinhos. Coincidentemente, há alguns dias eu conversava com uma querida amiga sobre escolhas e a passagem do tempo, sobre amor e perda. Ao acabar de ler Sandman: Despertar, fecho as páginas desse belo livro com aquela boa sensação que a verdadeira arte pode nos dar: a de que outras pessoas também sentem o que sentimos e de que, no fim, não estamos sós.

28/05/2008

A Monstrous Talent: an interview with Steve Bissette, part5.


To finish, Steve Bissette speaks about a new book on Neil Gaiman's works and also his plans for the future.

Wellington Srbek: It seems to me that your dearest creation, your “pet” project is Tyrant, a comic book series about the life and death of a Tyrannosaurus Rex. You have put lots of love and research in that one, haven’t you?

Steve Bissette: Yes, sure did. I loved doing it, and I'm still mighty proud of what was completed. I hope to return to it one day, though I'll never again be at the creative peak I was at in 1994-97 when I was doing Tyrant. Such is life.

WS: Your last work for a mainstream publisher was the Swamp Thing-related “Jack in the Green” short story, written by Neil Gaiman and inked by John Totleben. I think you have partially answered this question already, but please explain to us why you had announced your retirement from the comics industry after that work in 1999.
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SB: Well, the long answer is already online -- go to: http://albert.nickerson.tripod.com/creatorsbillofrightsbist8.html.
Some of that reiterates the whole 1963 debacle, which I've just articulated anew for you above, Wellington; forgive the redundancies, please.
Since that all emerged from my old friend Dave Sim challenging me, note that Dave Sim's response is buried here (scroll down a ways, it's there): http://groups.yahoo.com/group/cerebus/message/103644.
Beyond that, there's also some follow-up on http://www.creatorsrights.com/. Go to: Creators Rights Forum Index -> Creator's Rights Discussions on the discussion board. And then: the thread entitled: "Post subject: Steve Bissette's letter: Dave Sim and 1963..." -- my letter, and Dave's reply, are there complete, followed by some conversation about relevant issues.
The last straw for me in 1999 was the realization comics was a dead end professionally. I won't go into the particulars, beyond the larger issues addressed in my letter to Dave Sim. It's not important any longer.
To touch upon a key point in my letter to Dave Sim, linked above, I'd arrived at a point in life I saw my teachers at the Kubert School reach in their late 40s. As a result of seeing my own situation as a life cycle issue in part, I didn't take it personally, but it was clearly time to leave the room for good.
My farewell signature at the end of "Jack-in-the-Green" really was my farewell. I'd had it with the comics industry, and nobody cared I was leaving, really. Neil's script summed up all my feelings about the community I'd once been part of: the village was ravaged with plague and there was nothing left to 'live for' there. Torch it. So, I did -- I torched it, via the story, and I left. That last page spoke volumes for me, there was and would be no better grace note to depart with.

WS: In the last decade, you have worked as a teacher and also written short stories, essays and critics. There’s for instance a new book on Neil Gaiman’s works to be published later this year. But you are also preparing a comeback to the comics medium, right? Something involving Tyrant and the 1963 characters you own. What can you tell us about that?

SB: Ah, let's see what happens. I have plans and hopes and dreams, like anyone, but as the old joke goes, "How do you make God laugh? Make a plan." We'll see what really comes to fruition in time.
I'm DONE in the American comics industry. That's over. Nothing has changed there in the years since I announced my retirement in 1999, except for the worse. Don't bother looking for me there.
But that hardly means I've been unproductive. I'm drawing some new comics for publication these days, and enjoying it. I'm being selective about doing it pretty much exclusively for venues supporting younger cartoonists -- the Accent UK Zombies anthology, Trees & Hills (a local New England coalition of cartoonists), and CCS or CCS-related projects, like Sundays, Dead Man's Hand and the upcoming Secrets & Lies. I do it only if I'm invited. That's worthwhile to me just now; there's no money in any of it, so fuck it, I do it for love only, in part to support the new generation's efforts.
Any fantasies you may harbor that existing publishers want my work can be easily remedied by the hard reality of the situation. I've had plenty of fruitless, time-wasting tangos, from a year of dancing with the late Byron Preiss over an aborted trio of Swamp Thing novels (Byron would not negotiate the contract, and then refused to pay the advance) to the various 1963 reprint ventures, including two overtures from Image and a rather hilarious exchange with DC Comics. As I've noted on my blog in the past, the only offers I've fielded in the past seven years in comics were from publishers fishing for free Bissette work. That, I can do myself, thank you; I've published, co-published, and self-published. If there's no money in it, I'm quite capable of doing everything myself, thanks, and choose not to, especially in the current market.
Let's see, there's other things: I've done some illustrations for friends's book projects and magazine articles, and I wrote a book-length essay for Rick Veitch that may see print later this year. There's a t-shirt company that's licensing my art, which is cool, and a cell phone game of The Fury was licensed in 2007; I've got my own projects with The Fury, N-Man and Hypernaut underway, and posted some new material on those on my blog. If it's fun and personally satisfying, I'll do it; otherwise, life is too short.
I occasionally get to dabble with the wedding of comics and cinema, which I enjoy. My son Daniel and I drew up a dummy Christian comic tract for my friend Lance Weiler's Head Trauma (2007), and that was great fun; Lance involved me creatively in the process, and we crafted individual panels and pages to resonate with the film after Lance showed me the rough edit of the film, which was a very satisfying collaborative venture. I subsequently packaged a "Jersey Devil" mini-comic for the DVD re-release of Lance Weiler and Stefan Avalos's seminal digital feature The Last Broadcast, working with some of the pioneer students at CCS. I'm presently working with a couple of filmmakers on short film adaptations of some of my own comics stories; I can't say much about that now, except to note I've seen the rough edit on the first short film, and that's fun for me, too. There's no money in any of this, either, which is fine -- I retain legal rights to my properties, and co-own the films with the filmmakers, so it's all good. As long as it's pleasurable, I pursue it.
I've got a few irons in the fire with the book industry; the grass isn't any greener there, I've no illusions about that, but it is where comics have gone and where my passion as a writer is most relevant. I've had some luck, good and bad, over the years. It's going well of late. Most recently, I co-authored The Prince Of Stories: The Many Worlds Of Neil Gaiman for St. Martin's Press, working with Hank Wagner and my dear friend Chris Golden. I'm illustrating the limited hardcover edition for Cemetery Dance right now. I illustrate a book a year, and have since 1988, but nobody in comics notices or gives a hoot about that. My pal Joe Citro and I are working on a new project, a companion to our still-popular regional book The Vermont Ghost Guide, and that'll be fun, and I'm working on a graphic novel anthology project based on swamp monster stories I penned over the years. But we'll see what find a home, and what doesn't -- I've little control over it, save for my own investment of love, time and work.
I occasionally try to get some fire going for Tyrant again. Nobody in a position to help me is clamoring for it, though, and I can't afford the enormous investment of time and energy I once gave to it sans a venue -- and so it goes. Before beginning work full time teaching at the Center for Cartoon Studies (back in 2005), I approached Chris Staros at Top Shelf with Tyrant -- his response: if I'd had a SECOND full volume of NEW WORK ready to go, Top Shelf would be interested. If not, no go. Since my whole overture concerning a Tyrant collection of existing material being published was to fire off a 'signal flare' to see if it's financially viable to continue working on the project, having Chris expecting me to have one-to-three years of NEW work in hand first pretty well defeated that proposition. If I had that, I'd still be self-publishing. As it is, I just can't afford the time -- though I hope to change that in the near future, if I can find a perch anywhere in the book industry for the project.
For now, though, CCS and my family are all that matter -- and the most rewarding places to put my energy. At CCS, I am creatively engaged in the next generation of cartoonists, and I get to share some of what I know; it's important that each generation passes on its knowledge to the next, as Joe Kubert did for me. That's a real strong drive for me right now, far more important than almost anything else -- except for my relationships with my now-adult children, my beloved wife Marge, and my immediate circle of friends and family. I'm happy to stay close to home these days, and invest my public life 150% into CCS. No more conventions for me.
But that doesn't mean no more comics. I draw for myself all the time, and some of it sees print. CCS has rekindled a lot of old flames, and I'm drawing more new comics for myself than I have in years.
Who knows? Someday, a rich publisher who happens to be a Bissette fan may make it possible for me to continue into my sunset years, if I'm not too old to hold a pen and a brush. If I'm too old then, well, c'est la vie. For the time being, I'm plenty active, and have plenty to do and more to look forward to.
It's been a great run, all in all, and some of my work is still in print around the world. I still get fan mail and letters expressing how my work touched people's lives, changed them for the better. I'm thankful, I've been pretty lucky over the years. That's more than a lot of cartoonists get in one lifetime.

WS: Thank you a lot for this interview, Steve!

SB: I'm constantly amazed how global the readership for some of the work I've done truly is. My deepest thanks to all in Brazil who may have laid eyes on Swamp Thing or something else I may have had a hand in, and I hope it repays in some measure all the pleasure I've derived over the years from the doing of it.
I should also add that I'm a huge fan of the José Mojica Marins films and comics, particularly his Zé do Caixão character, films and comics from the 1960s. I was privileged to meet, interview and dine with José when he first came to America's 'Chiller Theatre' convention in New Jersey over a decade ago, and thanks to DVD have managed to see all his extant films since then.
I also love many other Brazilian films and comics, though it's the more unusual films -- like Joaquim Pedro de Andrade's adaptation of Mário de Andrade novel Macunaíma, and the marvelous Como era gostoso o meu francês, which was made around the same time (1969-71) -- I tend to gravitate to. Thanks to a number of fans in Brazil, I've been able to trade for copies of the Brazilian DVD releases of these films recently, as well as a few of the recent low-budget zombie films made in your country. I love it all!

06/04/2008

Sandman: Entes Queridos em edição luxuosa.


The Sandman foi a melhor série dos quadrinhos norte-americanos nos anos 90. Seu criador, o roteirista inglês Neil Gaiman, afirmou em diversas ocasiões ter se surpreendido com o sucesso de uma revista que ele imaginava durar apenas vinte números. O fato, porém, é que o Mestre dos Sonhos conquistou uma legião de fãs, acumulando prêmios e reedições ao longo dos anos. Agora, com uma ótima produção gráfica, a Conrad lança Sandman: Entes Queridos, o mais extenso e um dos melhores volumes da série.

A HQ que abre a edição é “O Castelo”, história curta em que Gaiman nos convida a um passeio pela morada do Rei dos Sonhos, onde encontramos alguns de seus principais auxiliares. Produzido em parceria com o eficiente Kevin Nowlan e publicado originalmente na revista Vertigo Jam, esse pequeno conto acaba sendo uma introdução bastante adequada para Entes Queridos. Lançado nos Estados Unidos entre 1993 e 1995, The Kindly Ones foi o clímax dramático da série, com sua trama inspirada nas tragédias gregas e fazendo uma espécie de revisita aos demais “arcos de histórias” (termo pelo qual os volumes de Sandman ficaram conhecidos).

Trazendo o primeiro dos treze capítulos da história, The Sandman n°57 foi bastante aguardada pelos leitores, chegando com frisos dourados na capa, um roteiro excelente, desenhos, cores e letras perfeitos (diga-se de passagem, essa talvez tenha sido a revista que mais gostei de ler nos anos 90). Gaiman e seus colaboradores iniciavam ali uma jornada repleta de mitologia clássica, povoada de personagens carismáticos e marcada por diálogos simplesmente precisos. E se os leitores na década de 1990 tiveram que esperar mais de um ano para ler a conclusão dessa verdadeira “saga”, os de hoje têm o benefício de poderem conhecer tudo de uma só vez.

Sandman: Entes Queridos é o que se pode chamar (copiando o título do livro de Gabriel García Márquez) de a “crônica de uma morte anunciada”. Basta lembrar que no volume anterior, Fim dos Mundos, os leitores já haviam presenciado o que parecia ser o cortejo fúnebre do Mestre dos Sonhos. E se Entes Queridos é uma “tragédia”, nada mais apropriado do que apresentar uma história da qual o público já saiba o fim (não deixando por isso de se envolver, emocionar e aprender com o que presencia pelo caminho). Sim, Morpheus morre no último capítulo, cumprindo exemplarmente um “destino trágico”, que é aquele no qual, por mais que atue buscando o contrário, o herói acaba contribuindo para sua trágica sina (exemplo: por mais que tente fugir, Édipo acaba matando seu pai e se deitando com sua mãe).

As primeiras páginas de Entes Queridos servem como um prólogo, no qual presenciamos um chá de fim de tarde na casa das três Moiras (entidades irmãs responsáveis por tecer os destinos dos homens e dos deuses, também conhecidas como as Parcas). Escritor afeito a metáforas, Gaiman não perde a oportunidade de iniciar aí várias referências ao próprio ato de contar histórias (com isso, o primeiro quadro dos capítulos é uma metáfora visual para o “fio da história”, ora na forma de um novelo, ora como um cabo de energia ou um fio de telefone). Além disso, o roteirista sempre demonstrou uma fascinação por tríades femininas, e acabamos revendo as três damas das primeiras páginas transfiguradas, mais tarde, nas Três Bruxas (de Macbeth) e também nas temíveis Fúrias (da mitologia clássica), entre outras entidades mitológicas. E a mitologia tem, de fato, um lugar central nessa trama.

Quem leu Vidas Breves sabe que o Mestre dos Sonhos tirou a vida de alguém da própria família, o que era considerado uma ofensa gravíssima na Antiguidade. A punição para ela ficava a cargo das Erínias (na versão grega) ou Fúrias (na versão romana), que desencadeavam os mais diversos infortúnios, culminando na destruição de quem praticara o crime de sangue. Não é à toa, portanto, que o título original do penúltimo volume de Sandman refere-se exatamente àquelas entidades vingadoras. Afinal, uma tradução mais apropriada para The Kindly Ones seria “As Benevolentes”. Esse era o eufemismo pelo qual as Fúrias eram chamadas, numa forma de superstição antiga, por se ter medo de nomeá-las diretamente. Aliás, no capítulo 4 da HQ, alguns personagens chegam a ser referir a isso, sugerindo chamá-las de “the kindly ones” (“as bondosas” na tradução da Conrad).

Mas nem só de mitologia clássica se faz Entes Queridos, uma HQ que funde realidade e ficção, terror e fantasia, citações literárias e referências televisivas, tudo costurado com uma narrativa impecável. A história começa de forma corriqueira, com a heroína aposentada Hipolyta Hall passeando com seu filhinho Daniel (que fôra concebido no Reino dos Sonhos). Passamos depois para um irrequieto Corvo Matthew (às voltas com uma crise existencial) e somos reapresentados a alguns dos funcionários do Sonhar (como o faz-tudo Merv, a fada Nuala e o bibliotecário Lucien). Os acontecimentos começam a se acelerar quando Daniel desaparece misteriosamente e entram em cena personagens saídos de volumes anteriores. O que vemos nos capítulos 1 a 5 e 7 (as partes 6 e 8 são interlúdios) é uma escalada narrativa conduzida de forma magistral por Gaiman, que ainda nos presenteia com passagens engraçadas e diálogos brilhantes.

Mas nem só de seu roteiro se faz Entes Queridos, pois para termos uma ótima HQ são necessários desenhos da melhor qualidade. E é exatamente isso que vemos na maior parte das mais de trezentas páginas desse volume (em que se destacam algumas das mais belas da série Sandman). Embora dois capítulos e algumas sequências tenham sido produzidos por outros desenhistas (provavelmente por questões de prazos editoriais), a maior parte do trabalho ficou por conta do talentosíssimo Marc Hempel. Seu traço cartunizado e conciso, conciliado às cores de Daniel Vozzo, dá origem a imagens expressivas e comunicativas, servindo tanto para ressaltar os elementos mais cotidianos do roteiro, quanto os aspectos mais arquetípicos dos personagens (vide as Moiras ou os deuses nórdicos). E pode-se dizer que raras vezes o próprio Mopheus pareceu tão melancólico, exótico ou ameaçador.

A soma de todas essas virtudes é uma belíssima HQ em que o protagonista tem inicialmente uma participação colateral, personagens secundários assumem o primeiro plano e, ao final, temos uma conclusão inteligente e uma emocionada despedida. Para coroar o trabalho, um epílogo em que revemos as damas das primeiras páginas de volta ao papel das Moiras e às voltas com chás da tarde, biscoitos da sorte e metáforas metalinguísticas. Sim, no geral, Entes Queridos é uma obra-prima e provavelmente o melhor volume de Sandman. É também um dos últimos grandes trabalhos de Neil Gaiman, que tem deixado a desejar em seus quadrinhos feitos para a Marvel, isso sem falar em seus roteiros para o cinema (devo confessar que ainda não me interessei por ler sua literatura). De qualquer forma, este penúltimo volume é um clímax mais que à altura de uma das melhores séries dos quadrinhos nas últimas décadas.

Sandman: Entes Queridos é um livro “de peso” (tanto em termos literários, quanto literais). Além das quatorze HQs, o volume traz as capas originais criadas por Dave McKean, um pertinente prefácio, um pequeno posfácio e uma detalhada seção de notas (embora algumas importantes citações literárias e referências a personagens da série tenham passado despercebidas pelos editores). Impresso em tamanho estendido (19xm x 28cm), com capa-dura e trezentas e sessenta páginas de miolo, a edição chega às lojas custando R$94,00. Embora o preço seja meio “salgado”, a qualidade artística da HQ e a boa produção gráfica do livro devem garantir a satisfação dos novos e antigos fãs de Morpheus. E mesmo para quem não acompanhou a série desde o início, mas gosta de boas histórias com muitos elementos mitológicos, esse volume é uma ótima pedida. Você na certa vai encontrar em Sandman muito mais valor literário e até mesmo “magia” que em qualquer livro de Harry Potter.

05/04/2008

Duas versões de Sandman, num teatro da meia-noite.


Lançada no Brasil pela editora Metal Pesado em 1998, Sandman: Teatro da Meia-Noite foi relançada em 2007 pela Pixel como parte do álbum em capa-dura Dias da Meia-Noite. Escrita por Neil Gaiman e Matt Wagner e ilustrada por Teddy Kristiansen, essa HQ especial da Vertigo surgiu como uma edição comemorativa para marcar o encontro das duas principais versões de Sandman.

A história de Teatro da Meia-Noite tem como fio condutor uma trama envolvendo sexo e criminalidade, elementos comuns nas aventuras de Wesley Dodds, o Sandman detetive. Entretanto, são as sequências representando sonhos, a exemplo das que aparecem na série The Sandman, que servem para sobrepor as figuras do Mestre dos Sonhos e do herói clássico dos anos 30 e 40. Além do roteiro de qualidade, merecem destaque nessa HQ as páginas produzidas por Teddy Kristiansen, que utiliza técnicas de pintura para reforçar o clima de suspense e mistério da história.

Embora Wesley Dodds tenha aparecido na primeira história do Mestre dos Sonhos, publicada em The Sandman nº1, os dois personagens não haviam se encontrado pessoalmente, o que justificou essa edição especial. Fazendo parte da cultura popular e da literatura germânica, o Sandman, ou Homem de Areia, seria o responsável pelo sono e pelos sonhos dos mortais, os quais ele adormeceria utilizando sua areia mágica. Inspirando-se nesse folclórico personagem, o roteirista Gardner Fox e o desenhista Bert Christman criaram, em 1939, o primeiro Sandman dos quadrinhos.

Chamando-se Wesley Dodds, o primeiro Sandman não possuía super-poderes, valendo-se de uma máscara e uma arma de gás sonífero para combater o crime. Embora tenha alcançado um razoável sucesso, o personagem passou algum tempo esquecido, até ser recriado pelos quadrinistas Joe Simon e Jack Kirby em 1974. Contudo, essa nova versão do herói, que tinha como identidade secreta o nome Garrett Sanford, teve vida breve. A verdadeira consagração do nome Sandman viria através de um personagem completamente diferente, lançado no fim de 1988.

Criado pelo roteirista inglês Neil Gaiman, o novo Sandman é o Mestre dos Sonhos, a entidade que personifica o universo onírico e o ato de sonhar, aproximando-se mais da figura mitológica original. Durando setenta e cinco edições lançadas entre 1988 e 1996, a revista The Sandman alcançou sucesso de público e reconhecimento da crítica. Isso se deveu principalmente aos bons roteiros de Gaiman, embora também tenham se tornado a “marca registrada” da revista as capas criadas pelo artista Dave McKean, utilizando técnicas de pintura, colagem e computação gráfica.

Os bons resultados da revista The Sandman incentivaram a editora DC Comics a criar o selo Vertigo, dedicado a quadrinhos de terror e suspense. Além disso, o sucesso do trabalho de Gaiman & Cia motivou uma reformulação do Sandman original, que ganhou em 1993 as páginas da revista Sandman Mystery Theatre. Com histórias escritas por Matt Wagner, as HQs envolviam crime e mistério, sendo ambientadas na Nova York clássica dos anos 30 e 40, e tendo como protagonista, é claro, Wesley Dodds, o Sandman detetive. No Brasil, essas HQs foram publicadas inicialmente na revista Vertigo da editora Abril.

07/01/2008

Eternos de… Neil Gaiman e John Romita Jr.?


A editora Panini está concluindo o lançamento no Brasil de Eternos, minissérie escrita por Neil Gaiman e desenhada por John Romita Jr., a partir dos personagens criados pelo mestre Jack Kirby. Lançada nos Estudos Unidos em sete edições reunidas posteriormente num caprichado volume de capa dura, Eternals pode até ter agradado a alguns, mas deixa muito a desejar quando consideramos os autores envolvidos.

Uma raça de seres imortais e superpoderosos, os Eternos foram criados por Jack Kirby em 1976. Tendo acabado de retornar à Marvel após um período na concorrente DC Comics, Kirby buscava um novo projeto no qual trabalhar. Após produzir uma adaptação do filme 2001: Uma odisséia no espaço de Stanley Kubrick e sob a influência do livro Eram os deuses astronautas? de Erich Von Däniken, o co-criador do “Universo Marvel” mergulhou no conceito da evolução humana influenciada por alienígenas. Assim surgiram os Celestiais (alienígenas gigantescos e quase onipotentes), responsáveis pela criação dos Eternos (uma casta de humanos geneticamente alterados) e o Povo Mutável (um grupo menos geneticamente agraciado). Apesar de ser outra criação inspirada de Jack Kirby, as especulações filosóficas de The Eternals não fizeram muito sucesso com o público da época, o que levou a interferências editorais e o cancelamento da série em 1978.

A nova versão dos personagens lançada em 2006 surgiu numa visita de Neil Gaiman aos escritórios da Marvel. Após a minissérie 1602, o roteirista inglês vinha pensando num novo projeto para a editora norte-americana, quando o editor-chefe Joe Quesada sugeriu que ele recriasse os demiurgos cósmicos de Jack Kirby. O desenhista escolhido para o projeto acabaria sendo John Romita Jr., que já havia trabalhado com vários outros personagens criados pelo mestre dos quadrinhos de super-heróis. Com um roteirista inovador e um talentoso desenhista, a proposta da nova série (intitulada simplesmente Eternals) seria definir um lugar para aqueles deuses e semideuses na continuidade dos demais personagens da Marvel. No primeiro capítulo, a série vai muito bem, com o “mito” de criação proposto por Kirby sendo recontado e as peças da trama principal sendo posicionadas. Os desenhos também são muito bons, alternando do minimalista ao monolítico, quando necessário. Todavia, não demora muito para as coisas desandarem.

A partir do capítulo dois, a trama principal começa a se perder em meio subtramas envolvendo conspirações políticas e reality shows com aspirantes a super-heróis. Há ainda os romances e draminhas cotidianos envolvendo os Eternos em suas “identidades civis” (que parecem um pastiche dos Perpétuos). Ao longo da série, a qualidade do desenho também não se mantém, variando entre algumas boas páginas e outras nada excepcionais. Há quadros, inclusive, nos quais a colorização por computador mais atrapalha que ajuda, enquanto em outros os desenhos parecem ter sido feitos meio às pressas. Do ponto de vista da criação visual, Romita Jr. soube aproveitar a fonte de inspiração, embora um ou dois personagens sejam melhores no original. Mas falando em “original”, o que não é nada original são algumas soluções do roteiro de Gaiman, como a idéia do herói superpoderoso com amnésia e a forma como o problema principal é solucionado no último capítulo, copiadas da série Miracleman de Alan Moore (embora a última página guarde uma surpresa para os leitores de São Paulo).

Eternos não é uma história em quadrinhos ruim (principalmente se levarmos em consideração a baixa qualidade média das revistas da Marvel). Mas ela também não é nenhuma obra-prima, deixando ao fim a sensação de que faltou algo. De certa forma, talvez o maior problema da HQ esteja nos nomes envolvidos. Afinal, um leitor tem direito de esperar trabalhos muito acima da média, quando os nomes envolvidos são Neil Gaiman (The Sandman, Os livros da magia) e John Romita Jr. (X-Men, Daredevil).