
A partir do ano 2000, com o sucesso de produções como
X-Men – O Filme e
Homem-Aranha, os estúdios de Hollywood encontraram um novo filão muito prolífico e incrivelmente lucrativo: os filmes de super-heróis. Assim, ao longo desta década, sucederam-se produções milionárias que levaram às telas alguns dos principais heróis da Marvel e DC. E apesar de fiascos como
Superman – O Retorno e
Demolidor, o gênero prosperou colecionando sucessos e boas sequências, como
X-Men 2 e
Homem-Aranha 2 (embora a terceira parte dessas “trilogias” tenha decepcionado). Com a atenção do público e da mídia e o apoio dos estúdios, em 2008 esse gênero cinematográfico nos trouxe o excelente
O Cavaleiro das Trevas (do qual já falei
aqui) e o surpreendente
Homem de Ferro, cuja sequência assisti neste feriado de 1° de maio.
Embora eu goste bastante das atuações do Robert Downey Jr. (
Chaplin,
Assassinos por Natureza), não assisti ao primeiro filme do Homem de Ferro nos cinemas. Depois de produções fraquinhas, como
Quarteto Fantástico e
Elektra (que assisti na tevê a cabo), eu andava muito desconfiado dos filmes baseados nos heróis da Marvel. Como não sou um grande fã do personagem e os ingressos do cinema já andavam meio caros, preferi deixar para assistir em DVD. Para minha surpresa, descobri que o Homem de Ferro cinematográfico era bem melhor do que eu esperava. A produção é bem cuidada, os efeitos especiais e visuais muito bons, o elenco bem escolhido (a começar pelo protagonista), os diálogos interessantes e a trilha empolgante, tudo com um roteiro que se apropria de forma inteligente de elementos dos quadrinhos.
O filme dirigido por Jon Favreau é surpreendentemente bom, embora traga uma duplicidade em sua estrutura (que acaba sendo uma virtude e não um defeito). Nas primeiras sequências, temos a violência das cenas de guerra e dos guerrilheiros do Afeganistão, contrapostas ao estilo de vida
playboy de Tony Stark, com dinheiro, carrões e mulheres à disposição. Até aí, o que temos é o lado mais realista do filme, que lhe dá verossimilhança. Então, entra em cena o lado mais fantasioso de
Homem de Ferro, quando Tony Stark, refém numa caverna, dribla a morte e, munido apenas de peças de foguete, constrói um reator energético que funciona sem qualquer fonte externa (!?), além de uma armadura mecanizada a prova de balas e resistente ao fogo. Neste ponto, o filme exige do expectador o máximo da chamada “suspensão da descrença”.
Com a fuga de Tony Stark da caverna (que não é a de Ali Babá, nem a de Bin Laden) e seu retorno ao mundo civilizado (ou seja, ao complexo militar-industrial norte-americano), o filme passa a variar entre seu contexto realista e os acontecimentos fantasiosos. Se de um lado temos a falta de escrúpulos do empresário Obadiah Stane (Jeff Bridges), do outro temos a criação da nova e ultratecnológica armadura, produzida na garagem de Tony Stark (outra caverna mágica). E enquanto a presença do Coronel James Rhodes (Terrence Howard) e da secretária Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) trazem um ar humano e familiar (contemplando ainda os públicos negro e feminino), a presença dos robôs sentimentais e a aparição pós-créditos de Nick Fury (encarnado por Samuel L. Jackson) reforçam o aspecto fabuloso da história.
Essa duplicidade entre contexto e ação se expressa nas duas lutas decisivas do filme: a eliminação dos guerrilheiros muçulmanos e o combate contra o vilão Stane em sua armadura maligna. O interessante é que, apesar de distintas (em seu realismo e seu aspecto fantasioso), as duas lutas integram harmonicamente o mesmo filme, o que nos lembra que vivemos num tempo em que as cenas de guerra e os
video games sanguinolentos muitas vezes se confundem. Por isso, em sua mistura de crônica e aventura, em sua expressão da cultura e da barbárie de nossos dias,
Homem de Ferro é um filme de super-heróis diferenciado e também um ótimo entretenimento. E enquanto possibilita algumas reflexões, essa produção aponta um outro caminho para esse gênero cinematográfico. Caminho este não seguido por sua continuação.
(CONTINUA)