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08/08/2009

Nilson, o guerrilheiro do cartum.


Nilson Adelino Azevedo é, como ele mesmo costuma se definir, “o cartunista anônimo mais famoso de Belo Horizonte”. Consciente da função política e da importância social dos cartuns e quadrinhos, Nilson criou personagens como o Negrim, inspirado nas experiências de sua infância no interior de Minas Gerais, e A Caravela, uma série de histórias em quadrinhos e tirinhas sobre as Grandes Navegações (do ponto de vista dos marinheiros). Em sua incansável “guerrilha do traço”, ele publicou charges e cartuns no Pasquim e em alguns dos principais jornais do país, além de ser um dos criadores do Humordaz e companheiro de Henfil na luta contra a Ditadura. Nos últimas décadas, Nilson está afastado da grande imprensa, encontrando espaço na imprensa alternativa e sindical. Aproveito então a data de seu aniversário para compartilhar com vocês uma entrevista que fizemos em 1997. Parabéns então a Nilson e muito obrigado!

Comece do princípio...

Eu nasci em Belo Horizonte, no dia 8 de agosto de 1948. Mas me considero de Raul Soares, que é uma cidade da Zona da Mata (de Minas Gerais), porque eu fui pra lá com um ano, e todo meu inconsciente, toda minha vida afetiva, tudo que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma expansão do tempo que vivi no interior. Raul Soares “me deu régua e compasso”. Inclusive, a noção de Infinito me veio pela primeira vez olhando uma latinha de Pó Royal. O dia que eu vi a latinha de Pó Royal, com a latinha desenhada no rótulo, e nela outra latinha desenhada, e outra desenhada dentro desta, e assim por diante... eu entendi pela primeira vez, mais ou menos pelos 9 ou 10 anos, o que era o Infinito.

Você também descobriu os desenhos e os quadrinhos lá em Raul Soares?

Pelo que meus pais me contaram, com 2 ou 3 anos eu já rabiscava a parede. Eu cresci envolvido pelos quadrinhos, minhas irmãs eram colecionadoras fanáticas de quadrinhos do Flash Gordon, do Príncipe Valente, do Batman. Aí, eu comecei a ler todos os quadrinhos, e a desenhar todos os estilos, copiando os desenhistas. Sem saber, eu estava estudando.

Por que você optou pelo desenho de humor?

Eu escolhi este desenho, que chamo de cartum, porque ele permite uma variação maior, uma expressividade muito maior do que o desenho acadêmico, do que o desenho do quadrinho de herói. Uma das coisas mais fantásticas que o cartum estabelece é fazer o leitor ver que a realidade pode ser desenhada de uma maneira que não é o retrato, que não é o desenho acadêmico. Isso provoca na inteligência do leitor uma grande reviravolta.

O desenho é uma forma de fazer política...

Política pra mim é você mudar diretamente o real. A arte, a filosofia, o humor são maneiras de você mudar o simbólico, que pode ajudar a mudar o real. Eu uso o “estilo cartum” na charge e no quadrinho. Ele permite a crítica, mas também a caracterização carinhosa de nós mesmos, em oposição àquela imagem ridícula que tem nos produtos norte-americanos. A maioria dos quadrinhos publicados no Brasil são importados, e a imagem que nos chega através do cinema, da televisão e da publicidade quase que de uma maneira absoluta são dos Estados Unidos; e aí o problema maior é o da exclusão. Eu estou incluindo a nós mesmos, eu estou incluindo o Terceiro Mundo ao nos desenhar de uma forma que não é ridícula. Essa inclusão é feita justamente para combater a exclusão que vem de lá.

Quando você descobriu os quadrinhos brasileiros ou o Brasil nos quadrinhos?

Aconteceu uma virada na minha vida quando eu vi o primeiro número do Pererê, em 1960. O Ziraldo é de Caratinga, uma cidade vizinha da minha, e eu tomei um susto porque toda a geografia, as brincadeiras, os costumes, as comidas da minha região estavam desenhadas no Pererê. O Ziraldo desenhava o roceiro com dignidade, não ridicularizava o roceiro como fazem os “Cassetas e Picaretas” ou o Angeli. O Ziraldo é da linha do Oswald de Andrade; é para os quadrinhos o que o Glauber é para o cinema, o que o Caymmi é para a música.

Você me disse que criou o Negrim porque queria fazer histórias com o Pererê.

Quando eu tinha 16 anos, fiz uma história que o Ziraldo desenhou e publicou no último número do Pererê, de março de 64. O Ziraldo me colocou como personagem desta história, mas eu passei noites sem dormir com medo de que o Pererê tivesse sido fechado pela Ditadura porque a minha história mexia com Tiradentes. Então eu criei o Negrim para substituir o Pererê, primeiro para mim.

E quando o Negrim deixa de substituir o Pererê só pra você?

Em 1969, o André Carvalho estava à frente do Gurilândia, o suplemento infantil do Estado de Minas, e ele teve o peito de tirar a histórias da Luluzinha e colocar três desenhistas brasileiros no lugar, um deles era eu. O Negrim foi um sucesso absoluto, chegou a ter 73% de “Ibope”, isso durante três anos e meio. Mas eu já tinha estreado em 1967, como cartunista no Cartum JS, um suplemento de humor dirigido pelo Ziraldo, publicado aos domingos pelo Jornal dos Sports. Quando acabou o Cartum JS eu passei para O Cruzeiro que tinha um suplemento de humor chamado O Centavo, dali fui pro Pasquim.

Você ainda estava em Minas?

É, foi em 1974 que eu fui pro Rio, morei lá por 8 meses, na pior época da Ditadura, a transição do Médici pro Geisel. Eu voltei pra Minas no final de 1974, completamente derrotado pela censura, não havia onde trabalhar lá. Aqui, eu comecei a publicar charges diárias no Jornal de Minas e, junto com o Lor, comecei a fazer o cartum sindical. Nós criamos também o Humordaz, que foi outro sucesso estrondoso no Estado de Minas, e que virou uma página que saía todo sábado, com o melhor pessoal de texto e todos os cartunistas que tinham por aqui. Nós também fizemos o almanaque Humordaz que foi fechado pela censura no número três.

E quando o Henfil entra na história?

Eu já conhecia o Henfil desde a época do Cartum JS. Em 1979, eu fui visitá-lo em São Paulo e ele falou comigo: “Nilson, tá acontecendo tudo em São Paulo, o Rio já era! Tudo tá aqui: o ABC, o Lula, a música, o teatro, a OAB”. Realmente ele estava certo. Eu fiquei lá de 1979 a 1982 e participei da História do Brasil. Esse tempo todo eu trabalhei na Folha e na imprensa alternativa. Em 1982, eu voltei pra Belo Horizonte porque não aguentava mais São Paulo, fiquei doente lá. Voltei com a intenção de nunca mais sair de Minas.

Como você vê a atuação da imprensa no Brasil?

Durante a Ditadura se você fosse fazer uma passeata, podia ser preso e torturado, podia até desaparecer. Durante muito tempo o que a gente podia fazer era uma guerra de opinião, na qual a imprensa alternativa tinha um papel fundamental, um exemplo é o Pasquim. Hoje, você não tem uma imprensa alternativa na dimensão que tinha naquela época pra rebater as bobagens escritas pela “imprensa mega-medíocre”. Nós achávamos que, com o fim da Ditadura, a grande imprensa se abriria para que pudéssemos publicar e fazer tudo que não pudemos antes. Mas isto não aconteceu. A imprensa resolveu transformar o jornal, que era um veículo de informação, em um veículo de prestação de serviços.

Para finalizar, o que é seu trabalho?

Eu sou brasileiro, de Terceiro Mundo, em meu trabalho é muito mais difícil não refletir isso, que refletir. Eu ajo naturalmente. Claro que eu pesquiso, que eu procuro, mas pra mim é muito mais difícil copiar do que criar. Os rótulos que o pessoal coloca, “socialista”, “cristão”, “ressentido”, “brontossauro”, não dizem nada. O que eu sou reflete a minha coisa humana como um todo. Eu nunca me surpreendi pensando: “agora eu vou fazer um desenho político!”. Sempre que eu sento pra desenhar, senta o Nilson inteiro, o ser humano inteiro: brasileiro, de Terceiro Mundo, cristão, hipocondríaco, e sai o que eu sou. Eu sou do PT e outro rótulo que eles colocam pra bloquear meu trabalho na grande imprensa é dizer que eu seria um porta-voz do partido, isso não é verdade. Quando eu faço minha charge ou quadrinho, eu não sou “do PT”, eu sou o ser humano Nilson tentando falar com a humanidade inteira, até com os inimigos.

26/06/2009

Os 40 anos do Pasquim!


Com a morte do jornalista e humorista Sérgio Pôrto em 1968, saiu de circulação o jornal Carapuça, por ele editado. Para não perder o filão editorial, o diretor da Distribuidora Imprensa Altair de Souza e o publicitário Murilo Reis decidiram investir no projeto de um novo semanário de humor. Por sua vez, os humoristas e jornalistas brasileiros ansiavam por mais espaço e liberdade, devido ao fechamento de vários veículos e as restrições sobre o trabalho na grande imprensa, após o AI-5.

Juntou-se assim “a fome com a vontade de comer” e, após meses de reuniões envolvendo Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, entre outros, decidiu-se por um projeto geral que levaria o nome Pasquim. Na época em que aconteciam essas reuniões, Henfil já fazia bastante sucesso no Rio de Janeiro, mas não foi chamado imediatamente para participar do novo jornal de humor. Porém, em uma de suas idas ao Maracanã, no intervalo do jogo, ele foi abordado pelo jornalista Sérgio Cabral que lhe fez o convite para se juntar à equipe. Tentou desconversar, mas acabou aceitando participar.

O Pasquim pode ser considerado uma vitória do riso naqueles tempos de generais de cara fechada. Editado em formato tablóide, o semanário de humor estreou há exatos 40 anos, no dia 26 de junho de 1969. E a despeito do texto de Millôr Fernandes vaticinando que o Pasquim não duraria três meses (caso fosse fiel à sua proposta de independência), a tiragem inicial de catorze mil exemplares esgotou-se imediatamente. Aquele “jornal de Ipanema” tornava-se um sucesso de público, e em breve não se restringiria às praias do Rio. Como costuma se dizer, o Pasquim representou uma revolução de descontração e inconformismo na séria e bem-comportada imprensa brasileira da época. Para Henfil:

“O Pasquim foi o Maracanã! O futebol no Rio realmente cresceu muito depois do Maracanã. Futebol em Minas só depois do Mineirão. O humor só depois do Pasquim. Foi a primeira experiência de juntar todos, de tendências as mais diversas e às vezes opostas. Pessoas pensando de maneira oposta e o negócio deu certo.”

Não há duvida de que o caráter inovador e corajoso do Pasquim foi a chave para seu sucesso, numa época de ostensivo ataque à inteligência e à criatividade do país. Mas o jornal era, sobretudo, uma diversificada soma de opostos e complementares, que se valeu da ampla experiência pública de seus integrantes nos principais jornais e revistas do país (Millôr e Ziraldo, por exemplo, haviam se tornado nomes nacionais através das páginas de O Cruzeiro ainda nos anos 50). Ao ser perguntado pelo amigo Tárik de Souza se o sucesso estrondoso do Pasquim, que se concretiza e estabelece em 1970, deveu-se à ditadura militar, Henfil respondeu:

“Eu acho que não, porque foi um amadurecimento dessas pessoas todas. Veja um negócio: o Paulo Francis. Era um cara que vinha, caminhos os mais confusos, né? Esteve em teatro, crítica de teatro, passou para a política, até pegar um estilo na política muito pessoal de escrever. Millôr Fernandes vinha de uma série de experiências, mas uma coisa muito pessoal! Impossível de compartilhar com outros, era ele e ele. Com o amadurecimento dele, a tentativa quando fez a Pif-Paf já era uma coisa de trabalhar junto! Equivaleria, por exemplo, a você chegar para um cantor de muito sucesso e convencer a ele, o maior cantor do mundo, que ele tem que fazer parceria com outros, talvez até menores. O Millôr já estava se preparando para isso, tanto que ele tentou juntar gente através do Pif-Paf. E o Jaguar, que era um cara que tinha uma experiência da Última Hora, com um cartunzinho, tinha uma experiência na revista Senhor com uma coisa maior e etc. Ele veio amadurecendo e estava na hora do Jaguar, para fazer personagem, para fazer o Sig e aquela coisa toda. Ziraldo! A mesma coisa. Tinha uma experiência mais pulverizada. Fazia de tudo! De repente o Ziraldo começou a se politizar! De repente, não! A partir do governo JK, o Pererê, que era uma coisa para a área infantil, começou a se politizar. Fortuna e o Claudius cresceram, nos seus desenhos, na sua visão, naquela coisa toda. Eu, com experiência diária no Jornal dos Sports, uma série de coisas, estava pronto para aquilo. Então... Funcionou todo esse negócio com pessoas que não se entendiam. A única unanimidade era o Jaguar. Era um saco de gatos!”

Para o criador dos fradinhos, no surgimento e sucesso do Pasquim, “a ditadura teve um único papel: ajudar a inviabilizar nos jornais a linguagem pessoal dessas pessoas que acabamos de citar. Então eles tinham que fazer fora destes jornais!”. Para o próprio Henfil, o novo jornal surgiu como a oportunidade esperada para politizar mais seu trabalho, que ele sentia limitado nas charges sobre o futebol. Chamado a continuar com o humor esportivo no Pasquim, ele se recusou. Era a vez do fradinho Baixinho!

(O texto desta postagem faz parte de meu livro inédito A Revolução de Fradim, adaptado a partir de minha tese de Doutorado sobre o genial Henfil e sua revolucionária revista Fradim.)

04/01/2008

A revolução de Fradim.



Hoje completam vinte anos da morte de Henrique de Souza Filho, o Henfil. Dono de um traço originalíssimo, esse mineiro nascido em Ribeirão das Neves foi um dos mais importantes cartunistas brasileiros de todos os tempos. Humorista genial, Henfil criou personagens marcantes (como os Fradins e a Grauna), além de escrever livros e textos para jornais e revistas (como a série Cartas da Mãe) e produzir crônicas e quadros para tevê (como o TV Homem). Entre suas criações mais importantes está a revista Fradim, lançada entre 1973 e 1980 pela Codecri (editora ligada ao jornal alternativo Pasquim). Lançada em plena Ditadura Militar, a revista revolucionou os quadrinhos brasileiros, com a coragem e a expressão inegável de um riso que liberta (tema de minha tese de doutorado e título de um dos livros que lancei pela Marca de Fantasia).

Surgidos em julho de 1964 na revista mineira Alterosa, os Fradinhos Baixinho e Cumprido eram, a princípio, uma dupla de silenciosos desordeiros, desenhados num traço ainda amador. Com o cancelamento da revista, Henfil transferiu-se para jornais de Belo Horizonte, nos quais aprimorou seu desenho e aprofundou seu senso crítico, além de produzir charges sobre os times de futebol da capital mineira. E foram as charges futebolísticas que garantiram ao jovem cartunista um convite para se transferir para a matriz do Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro. No novo emprego, Henfil alcançou projeção nacional ao criar novas mascotes para os times de futebol cariocas (como o popularíssimo Urubu do Flamengo). Conseguindo uma incrível identificação com o público, o desenhista foi convidado a fazer charges futebolísticas para o Pasquim, que reuniria nomes como Ziraldo, Jaguar e Millôr. Contudo, Henfil tinha outros planos para o jornal; planos chamados “Fradinhos”.

Sob o clima asfixiante do recém-decretado AI-5 (que limitou as liberdades civis e ampliou os poderes da Ditadura), o contestador Pasquim chegou como uma válvula de escape e uma resposta da criatividade frente à opressão. Nesse processo, o papel de Baixinho e Cumprido seria fundamental: começando num tímido quarto de página, em quatro meses eles já tinham conquistado a contracapa do jornal, de onde avançaram para as páginas centrais (evidenciando a enorme repercussão junto aos leitores). Quando perguntado sobre o efeito causado por seus personagens, Henfil refletiu: “Olha, o Fradinho foi catártico! As pessoas estavam arrasadas com a Ditadura, né? Porque ela começou muito branda em 64, 65, quer dizer, em 68 é que a Ditadura se instalou no Brasil para valer. E as pessoas estavam arrasadas. Então vinha um personagem que vinha voando a dez mil enquanto a realidade estava voando a cem metros e derrubando latas de lixo” (Como se faz humor político, p.36).

O que Henfil chamou de “catártico” corresponde à identificação dos leitores com o sádico Baixinho. Numa época de cala-bocas e policiamentos, o incontrolável Fradinho chegava contestando a “moral e os bons costumes”, rebaixando tudo a um nível visceralmente humano (pois não era nada comum ver um personagem de quadrinhos arrotando, fazendo xixi ou apontando o dedo para as injustiças sociais). E tudo feito num estilo incrivelmente original, um desenho vivo chamado por Henfil de “traço caligráfico”. Consolidando-se na preferência dos leitores do Pasquim e no imaginário social da época (“TOP! TOP!”), Baixinho e Cumprido ganharam, em abril de 1971, o Almanaque Fradinhos 1. Totalizando 68 páginas em formato tablóide gigante, a publicação reproduzia a origem na Alterosa e alguns lances dos primeiros anos de Baixinho e Cumprido, culminando nos eventos de sua morte e ressurreição (pois em dado momento Henfil se assustou com a identificação dos leitores com o sadismo do Baixinho e decidiu “matar” os personagens, para poder retomar o controle sobre eles).

O sucesso do Almanaque motivou Henfil a investir numa publicação seriada, lançando em setembro de 1973 a Fradim n°2 (70 mil exemplares e tamanho 27cm x 18cm). Com 32 páginas em papel-jornal e formato vertical, a edição trazia histórias inéditas do Baixim e Cumprido, além de reedições das HQs da Turma da Caatinga, com Grauna, Zeferino e Bode Orelana (publicadas no Jornal do Brasil). Após as cinco primeiras edições, a revista foi temporariamente suspensa, voltando a ser publicada em março de 1976, dessa vez num formato horizontal. Com 48 páginas em papel de melhor qualidade, a nova Fradim trazia as HQs do Baixim e da Grauna, sendo completada em edições seguintes por charges (em que Henfil abordava os problemas do Brasil da época), as seções “Cartas de um Subdesenvolvido” (com sua correspondência nos anos em que viveu nos Estados Unidos) e “Fala Leitor!” (com os comentários e opiniões do público), além de anúncios dos jornais em que o cartunista colaborava (desenhados por ele ou comentados por seus personagens). Produzida numa época de contestação política e cultural, a revista Fradim era o produto quase artesanal de uma personalidade incrivelmente criativa.

No fim dos anos 70, a Fradim foi publicada sem periodicidade definida (às vezes com mais de um ano separando uma edição, da seguinte), chegando ao fim no número 31, em dezembro de 1980. Tendo influenciado e inspirado várias outras publicações alternativas, a Fradim era uma revista singular: produto da indústria cultural e obra quase artesanal; série em quadrinhos com ótima vendagem e publicação que fugia aos padrões mercadológicos; desenho que apelava à emoção e instrumento de um projeto de conscientização; uma obra-prima dos quadrinhos produzida por um autor que aspirava ser “a mão do povo que desenha” (como revelou à Versus Edição Especial Quadrinhos no auge de sua popularidade, em 1976). De fato, Henfil foi o cartunista brasileiro mais influente dos anos 70, enquanto sua obra transcendia as páginas das publicações e os limites tradicionais do humorismo (tendo importante papel nas campanhas pela Anistia e pelas Diretas Já). Assim como seus irmãos Betinho e Chico Mário, Henfil era hemofílico e contraiu o vírus da AIDS numa transfusão de sangue nos anos 80. Vindo a falecer em 4 de janeiro de 1988, antes de completar 44 anos, “o filho da Dona Maria” deixou uma obra genial e intensamente humana. O testemunho de uma vida e de uma época; a expressão viva de um riso que liberta.

Texto baseado em meu livro inédito A revolução de Fradim.