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14/11/2016

Para Leonard Cohen, com amor

Dear Leonard,

Começo me desculpando por chamá-lo pelo primeiro nome, em vez de utilizar um mais solene “Mr. Cohen”. Mas você gostava de chamar o público de suas apresentações de “friends”, então me sinto convidado a chamá-lo de Leonard. Você que, com suas canções singulares e arrebatadoras, se tornou alguém tão familiar nos últimos 15 anos. Alguém tão significativo para mim, que ler a notícia de seu falecimento foi como levar um soco no peito. Um forte golpe, que me deixou com um aperto no coração e sem muitas palavras com as quais responder. Foi algo como perder um amigo de longa data, ou um grande mestre.

Lembro-me que, ainda criança, eu já tinha ouvido canções como “Suzanne” e “So long, Marianne”, pois trechos delas tocavam numa propaganda de TV anunciando coletâneas de discos com sucessos de décadas passadas, nesse caso, dos anos 60. Mas nosso primeiro encontro realmente significativo para mim foi em 1994, numa sala de cinema, logo na abertura de Assassinos por Natureza de Oliver Stone, em que somos magnetizados por seu timbre ecoante e abismal na incomparável “Waiting for the miracle”. E você volta a emprestar sua voz a cenas do filme, e é com ela que vemos subirem os créditos ao final, ao som da profética “The Future”.

Eu era então jovem e absolutamente dedicado ao ofício dos quadrinhos, de forma que música e poesia eram periféricas em minha vida. Isso mudaria, porém, no começo de 2001, quando um fim de namoro deixou-me sentindo totalmente perdido. Fiquei sem a amada da época e sem um rumo certo, prosseguindo como uma sombra de mim mesmo. Quando consegui me organizar um pouco melhor, era hora de encontrar novos sentidos e resolvi começar por “descobrir o rock”. Fiz uma lista de músicas e saí para comprar CDs com clássicos dos Beatles e dos Stones, The Doors e mais. A maior parte desse “mais” sendo Bob Dylan, em vários CDs e vinis.

Eu já começava e me tornar fã de carteirinha de Dylan, quando me lembrei daquela voz incrível na abertura daquele filme de 1994. Foi aí que meu amigo e mestre nos quadrinhos, Nilson Azevedo, contou-me de quem era aquela canção e quão fantástico era o cantor e compositor canadense chamado “Leonard Cohen”. Naqueles meados de 2001, Nilson fez algo que eu mesmo faria para outras pessoas ao longo dos anos seguintes, que é oferecer essa senha, hoje menos secreta, quase pop até, para um universo inteiro de melodias e letras, beleza e sabedoria. E bastou ouvir sua coletânea "The Greatest Hits" para logo voltar às lojas de discos, obstinadamente em busca de CDs e vinis que tivessem o nome “Leonard Cohen” na capa.

“Time out of mind” de Dylan e o seu “Songs of love and hate” me resgataram da “avalanche” que havia coberto minha alma e me ajudaram a encontrar um rumo novo em 2001. Claro que os processos de cura deixam suas cicatrizes, e um coração partido jamais se refaz o mesmo de antes, mantendo algumas fissuras. O que é parte dos maravilhosos paradoxos da vida, pois como nos conta uma de suas lindas canções: “há uma falha em todas as coisas / é assim que a luz adentra”. E o coração partido se regenerou, para amar mais e de novo, depois e agora, tendo ganhado fissuras pelas quais a poesia, de Dylan, de Drummond e a sua em especial, chegou para fazer de mim alguém outro.

E você, dear Leonard, nos ensinou tanto sobre a vida e o mundo, sobre amor ao próximo e amar a Humanidade! É claro que você ter ensinado não quer dizer que nós aprendemos, não é mesmo? De qualquer forma, com o tempo que passa, como têm feito sentido para mim seus versos que falam: “não se prenda ao que já passou / ou ao que ainda está por vir”... Viver o presente, cada momento plenamente, outro ensinamento seu, um discípulo budista de origem judaica, que citava Jesus em várias de suas canções e talvez tenha sido a melhor personificação de um monge-trovador, a cantar as verdades e os reveses, as delícias e as amarguras do amor, físico e espiritual.

Não vou aqui repetir a lista de suas canções que mais gosto, pois na certa acabaria por deixar alguma de fora. Afinal, você é o único músico de quem tenho todos os discos. Que Dylan não me ouça dizer isso... E como foram excelentes seus mais recentes discos de estúdio e os CDs e DVDs de apresentações ao vivo! Nestes últimos, em particular, é possível ver como você se sentia realizado durante sua Grand Tour, entrando correndo no palco, reverenciando seus virtuosos companheiros e companheiras de turnê, brincando com as plateias pelo mundo, saindo de cena dançando e sorrindo. Confesso que achei seu último disco de estúdio muito sombrio, mas o título já nos avisava disso, e de fato estamos em tempos pouco iluminados.

Mas já me delonguei demais nesta carta, dear Leonard. Passa do meio-dia, de um dia chuvoso e frio. Dizem que hoje teremos a maior Lua dos últimos 70 anos, mas por aqui parece que só um milagre permitirá que a vejamos. De qualquer forma, continuemos esperando pelos milagres, certo? Bem, levei alguns dias para poder sequer pensar em te escrever algo, e acabei escrevendo mais do que imaginaria a princípio. Pois, na verdade, tudo que está dito nas linhas acima pode ser resumido num: Obrigado, mestre, por tantos belos ensinamentos, por tantas belas canções de amor e sabedoria, trilha com a qual sigo a estrada da vida!
W. Srbek

20/04/2012

O show de Bob Dylan.

A primeira vez que reparei de fato no nome Bob Dylan, deve ter sido quando li Watchmen, já que Alan Moore cita músicas dele (“Desolation Row” e “All along the watchtower”) ao final de dois capítulos da série. Uns 10 anos depois, em 1997, eu estava numa loja de discos e, numa gaveta de CDs em promoção, tinha um recém-lançado do Dylan, importado, a “preço de banana”. Comprei, cheguei em casa, escutei, e não gostei muito. Ainda bem que a gente evolui com o tempo...

Passados alguns anos, em 2001, depois de levar um pé-na-bunda homérico de uma namorada, fiquei sem rumo na vida (tadinho!). Resolvi, então, “descobrir o rock”. Fiz uma lista de cantores e bandas, e fui à Galeria do Rock em BH comprar uns CDs. Na lista estava algum disco de Bob Dylan que tivesse “Like a Rolling Stone”. Naquele dia, comprei uns cinco CDs (eu estava sem namorada, então tinha um dinheirinho sobrando...), incluindo Sex Pistols, The Clash, Lou Reed e mais alguém de quem não me lembro (do Leonard Cohen eu me tornaria fã um pouco mais tarde).

De todos,The Best of Bob Dylan foi o que fez mais sucesso comigo. Nas semanas e meses seguintes, peguei as complexas letras para traduzir, corri atrás dos discos originais (em CD ou em vinil), comprei seu ótimo MTV Unplugged, li sua biografia, reportagens... Enfim, tornei-me fã absoluto de seu trabalho. Tudo bem que não cheguei a ter pôsteres pregados na parede, nem camisetas com suas fotos. Mas seu estilo único de cantar era presença em quase todos os meus dias, e sua poesia genial e singular não saía de minha mente. Para mim, só faltava ir a um show do Dylan...

No meio dessa história toda, lembrei do CD que eu tinha comprado “a preço de banana” em 1997. Resolvi escutar. Passados 4 anos, o CD continuava o mesmo, mas sua música tinha se tornado profunda, única, significativa! Ainda bem que a gente evolui com o tempo... Em 1997, eu não tinha ainda capacidade para perceber que grande disco era Time out of Mind, ganhador de três Grammy Awards, incluindo “Álbum do Ano”. Mas, em 2001, aquele disco simplesmente ressoou em mim, e me ajudou a curar o “coração partido” (valeu, Dylan!).

Time out of Mind foi o primeiro disco de inéditas dele em muito tempo e, depois de mergulhar no Blues e em outras raízes musicais norte-americanas, Dylan retornava em grande estilo (e em um novo estilo). Seguiram-se então Love and Theft, Modern Times, Together Through Life, além de um disco de Natal e de várias coletâneas com apresentações ao vivo e sobras de estúdio (sem falar em DVDs com documentários e apresentações). Creio que este texto já comprovou o quanto sou admirador dele, mas o fato é que Dylan se tornou uma forte influência até em meu trabalho como autor de quadrinhos (não é à toa que ele é citado nos agradecimentos de Quantum e Apócripha). Só faltava para mim, é claro, ir a um show dele. E isso aconteceu ontem!

Uma boa regra na vida, para não se decepcionar, é não criar expectativas. Então, não criei expectativas sobre o show de Bob Dylan no péssimo Chevrolet Hall (um ambiente que está mais para quadra de colégio do que para casa de espetáculos). Para mim, bastava ir lá e ver o cara cantando algumas de suas músicas (embora eu dispensasse a falta de respeito das pessoas que resolveram fumar num lugar fechado, e daquelas que simplesmente queriam abrir caminho aos empurrões). Meus amigos, eu não criei expectativas, mas mesmo que tivesse criado eu teria ficado plenamente satisfeito: foi um showzasso!!!

Acompanhado de sua fantástica banda, Dylan tocou alguns dos grandes clássicos de sua carreira e também músicas dos novos CDs. Tudo, é claro, no vocal “rouco” e grave dos discos mais recentes, com palavras às vezes cuspidas ou aceleradas, e muito "som pesado" em algumas canções, além dos solos de sua famosa gaita em vários momentos. A acústica do lugar não ajudava, então, mesmo alguém que conhece praticamente todas as canções dele teve dificuldades para reconhecer duas ou três músicas (inclusive porque nos shows Dylan e banda tocam num ritmo diferente do que temos nos discos). Para completar a performance, "a lenda do Rock" não dispensou expressões faciais engraçadas, poses teatrais, trejeitos, olhares e outras peculiaridades dylanianas.

Os pontos altos da noite: "Things have changed", "Thunder on the mountain", "Ballad of a thin man", "Desolation Row", “All along the watchtower” e o climax: Dylan, banda e nós, o público, APAVORANDO em "Like a rollng stone" (cujo famoso refrão era entoado por todos mais ao ritmo da interpretação dos Stones, que propriamente na versão de seu compositor). Pode ter passado despercebido para a maioria das pessoas, mas no canto direito do palco, sobre uma grande caixa, como alguma espécie de colar pendente em volta, estava uma estatueta dourada, uma espécie de amuleto que Dylan deve levar em seus shows pelo mundo; nada menos que o Oscar que ele recebeu pela música "Things have changed", tema do filme Garotos Incríveis.

Provavelmente, quem foi ao show esperando ver o Bob Dylan da década de 1960, deve ter se decepcionado, pois, aos 70 anos, ele continua criando novas músicas e não canta mais as antigas no timbre e com os arranjos de cinquenta anos atrás. Já eu não tenho do que reclamar! Fui a um dos melhores shows de minha vida (apesar do ambiente), e em ótima companhia (pois é, meus jovens: um amor se vai, para dar lugar a outro que vem)! No mais, valeu Dylan: pelo grande show de ontem, e pela grande música e inspiração vida afora!

23/06/2009

Arroz Integral volta em coletânea pela Marca de Fantasia.


Conheci Cleuber e os meninos do Arroz Integral em 1998, numa convenção de quadrinhos em Belo Horizonte (MG). Na época, o movimento quadrinístico na cidade passava por sua melhor fase, com autores e publicações surgindo a cada dia. No meio de muita novidade, pastas, portifólios e originais, os desenhos aparentemente mal-acabados das primeiras tiras do Arroz Integral chamaram minha atenção.

Fiel à irreverência e à sinceridade que seriam as bases do underground e do grunge, Cleuber passou a desenhar exclusivamente o Arroz Integral. Nos anos seguintes, ele lançou fanzines, estabeleceu um estilo, reinventou esse estilo, explorou ao máximo o pequeno universo das bandas iniciantes. Com isso, a cada tira e nas HQs de página inteira, ele desenvolveu (quase intencionalmente) uma série original, inteligente e engraçada.

Misturando dilemas e sonhos juvenis, a série Arroz Integral pode ser resumida numa palavra: “nostalgia”. Não exatamente o sentimento definido nos dicionários, mas um certo estado de espírito então cultivado por Cleuber, como sendo: “aquela mesma velha nostalgia de sempre”. Esta característica é percebida em seus melancólicos personagens, que tentam manter a identidade, ao mesmo tempo em que buscam um lugar ao sol no mundo do rock.

As historinhas de Crof, Nico e Berly simbolizam uma esperança teimosa: a persistência em produzir quadrinhos no Brasil (sem apoio, nem recursos). E assim, contra todas as probabilidades, Cleuber seguiu retratando novos acontecimentos e revelando faces surpreendentes dos meninos do Arroz Integral (basta ver o chocante “novo visual”). Com o tempo, sua proposta criativa também amadureceu, gerando histórias mais críticas e bem-estruturadas e desenhos mais elaborados e cativantes.

Pela amizade com o autor e por acreditar no trabalho, em 2002 editei e lancei a revistinha O Melhor do Arroz Integral e em 2003 O Lado B do Arroz Integral. Com fãs espalhados pelo Brasil, as pequenas edições não demoraram muito a desaparecer. Contudo, devido à impossibilidade de se dedicar profissionalmente aos quadrinhos, Cleuber acabou deixando de lado as tirinhas e HQs. Para os fãs do Arroz Integral, os últimos anos sem seus ruídos e rabiscos foram de um silêncio ensurdecedor.

Mas a espera está chegando ao fim! Cleuber voltou a desenhar as aventuras e desventuras de seus personagens mais carismáticos. E para celebrar este novo começo, estamos lançando pela Coleção Biografix da editora Marca de Fantasia Os maiores sucessos do Arroz Integral (64 páginas, R$10,00). Reunidas nessa coletânea estão todas as tiras e HQs publicadas nas duas revistinhas que lancei, além da história inédita “Lixo” (nossa “faixa bônus” especial para os fãs do trio de BH).

Enfim, para aqueles que ainda não conhecem Nico, Crof e Berly, este livro é uma ótima pedida. Já para os fãs fiéis do Arroz Integral, este novo “disco quadrado” é a oportunidade ideal para matar a saudade, enquanto as novas historinhas não chegam. “Aquela mesma velha nostalgia de sempre” está de volta! Vida longa ao Arroz Integral!

(Para encomendar o livro, basta entrar em contato com o editor Henrique Magalhães: editora@marcadefantasia.com.)

02/07/2008

Saudades do Arroz Integral!


Conheci Cleuber e o Arroz Integral há dez anos, numa convenção de quadrinhos em Belo Horizonte (MG). Na época, o movimento quadrinístico na cidade passava por sua melhor fase, com autores e publicações surgindo a cada dia. No meio de muita novidade, pastas, portifólios e originais, os desenhos aparentemente mal-acabados das primeiras tiras do Arroz Integral chamaram minha atenção.

Fiel à irreverência e à sinceridade que seriam as bases do underground e do grunge, Cleuber passou a desenhar exclusivamente o Arroz Integral. Nos anos seguintes, ele lançou fanzines, estabeleceu um estilo, reinventou esse estilo, explorou ao máximo o pequeno universo das bandas iniciantes. Com isso, a cada tira e nas HQs de página inteira, ele desenvolveu (quase intencionalmente) uma série original, inteligente e engraçada.

Misturando dilemas e sonhos juvenis, a série Arroz Integral pode ser resumida numa palavra: “nostalgia”. Não exatamente o sentimento definido nos dicionários, mas um certo estado de espírito então cultivado por Cleuber, como sendo: “aquela mesma velha nostalgia de sempre”. Essa característica é percebida em seus melancólicos personagens, que tentam manter a identidade, ao mesmo tempo em que buscam um lugar no mundo do rock.

As aventuras de Crof, Nico e Berly simbolizam uma esperança teimosa: a persistência em produzir quadrinhos no Brasil (sem apoio, nem recursos). E assim, contra todas as probabilidades, Cleuber seguiu retratando novos acontecimentos e revelando faces surpreendentes dos meninos do Arroz Integral. Com o tempo, sua proposta criativa também amadureceu, gerando histórias mais críticas e bem-estruturadas e desenhos mais elaborados e cativantes.

Pela amizade com o autor e por acreditar no trabalho, em 2002 editei e lancei a revistinha O Melhor do Arroz Integral e no ano seguinte O Lado B do Arroz Integral. Com fãs espalhados pelo Brasil, as pequenas edições não demoraram muito a desaparecer. Contudo, devido à impossibilidade de se dedicar profissionalmente aos quadrinhos, Cleuber acabou deixando de lado as tirinhas, HQs.

Para os fãs de Cleuber e do Arroz Integral, os últimos cinco anos sem seus ruídos e rabiscos foram de um silêncio ensurdecedor. Para aqueles que ainda não conhecem as tiras e HQs de Nico, Crof e Berly, restam alguns exemplares disponíveis na loja virtual da Marca de Fantasia. Por hora, fica a torcida para que Cleuber retorne aos quadrinhos e possa lançar novos “discos quadrados” com o Arroz Integral.

30/06/2008

Cleuber, um último rebelde do Rock.


Cleuber Cristiano é um dos mais talentosos quadrinistas da nova geração. Desde o final dos anos 90, temos visto seus desenhos e suas idéias em publicações independentes de todo o país, com destaque para sua melhor e mais original criação, a banda de rock-grunge-underground Arroz Integral. Numa tarde dessas, em 2001, fui até sua casa para uma entrevista e, ao som de Nirvana, rodeados de desenhos, pôsteres de rock e mulheres seminuas, tivemos uma conversa honesta sobre sucesso, Arroz Integral e rock’n’roll.

Nós os conhecemos pelas tirinhas, mas quem são Crof, Berly e Nico?


Nico é um cara que não tem muita perspectiva de vida, é um cara mais na dele. Ele tem a banda como um refúgio do mundo real, do mundo social, saca? O Berly é o “muleque” que tem a capacidade de se igualar a gênios como Albert Einstein, mas ele reprime isso, reprime os conceitos dele, talvez ele se sente assim pela própria sociedade mesmo e ele prefere se esconder, fingir que não é nada. O Crof é a peça principal do Arroz Integral, porque ele é o cara que sonha alto, tem alto astral, é empolgado demais, saca? Acho que é ele “que não deixa a peteca cair”.

Nico usa vestido e tem o mesmo nome da alemã que cantava com o Velvet Underground...

Que massa, cara, eu não sabia! Fiquei feliz por saber isso...

Pois é. Os leitores não têm razão de confundi-lo com uma mulher?

Têm. Ele era bicha. O Arroz Integral tem que revelar muita coisa ainda.

Kurt Cobain (líder da banda Nirvana, que se suicidou com um tiro em 1994) é seu grande ídolo. O que você tem a dizer a ele?

A ele!? Porra, essa... Deixa eu pensar... O Rock tá uma porcaria sem ele, por isso eu formei minha banda.

Qual das duas? A do mundo real ou a dos quadrinhos?

A Dowdy.

Suas tirinhas expressam bem o que seria o espírito grunge. Mas o que hoje é chamado de “grunge” faz jus ao Arroz Integral?

Não. O conceito grunge que é transmitido nas tirinhas é mais a filosofia underground do que o próprio grunge. Na verdade o Arroz Integral não é uma tirinha grunge, é uma tirinha comum.

Mas a influência do grunge de Seatle na origem do Arroz Integral é evidente.

É porque eu acho que o grunge tinha muito do underground, era diferente, era mais tosco do que hoje. Eu procurei passar essa visão que eu tive do grunge, que é o lance mais importante prum público do quadrinho. Eu acho importante registrar a passagem do Rock dos anos 80 e 90 no quadrinho, cinema, onde for, mas tem que ser lembrado, saca?

Apesar de falar de uma realidade restrita, a das bandas iniciantes, suas tirinhas conquistaram um público de poucos mas significativos leitores. A que você atribui isso?

Ao underground e aos verdadeiros fãs do Arroz Integral, são eles que fizeram tudo e estão fazendo.

A idéia dos “discos quadrados” é uma boa metáfora para o quadrinho independente. Mas você não sente uma vontadezinha mórbida de fazer muito sucesso?

(risos) De um dia ser igual ao Robert Crumb! O porquê de ser igual ao Crumb é porque eu acho muito massa o que ele fez. Não, eu não acho, não... Mas eu gosto dos trabalhos dele, e muito. Peraí cara, agora é sério! Eu só quero que a grande massa veja meu trabalho, mas minha intenção não é explorar o leitor, como o Angeli faz. Eu não penso em fazer tirinha pra ficar milionário, mas que pelo menos dê pra comer e vestir.

Suas tirinhas têm se tornado mais críticas com o tempo. Por quê?

Ah... Humm... Vai de acordo com o que eu tô vivendo, cara. Onde eu vejo alguma coisa que tem que ser criticada eu critico. Eu acho que através da crítica é que se faz as pessoas pararem pra pensar duas vezes.

Agora que você está envolvido com outra banda, a Dowdy (cantando e tocando guitarra), haverá tempo para o Arroz Integral?

Não. Só se eles quiserem abrir show pra gente... (risos) Tem que saber separar as coisas e eu estou me organizando pra isso.

O que o futuro reserva para os integrantes do Arroz? Sucesso, suicídio, overdoses ou mais arte?

Hummm... Só o Henfil sabe!

O Henfil?

É. Porque ele tá no Céu. Eu num faço plano pro Arroz Integral, eu num sei como vai sair o próximo número do fanzine.

Por fim a velha pergunta de sempre, como criador o que os quadrinhos são para você?

Uma bosta! Tô zuando, num vai escrevê isso aí, não.

Claro que vou!

Na verdade significa muita coisa. Quando eu tava na primeira série eu tomei bomba porque eu não sabia nada. Foi só quando minha mãe comprou uma revista em quadrinhos pra mim que eu passei de ano. O quadrinho é uma arte sem limite. Ponto final.

29/06/2008

Local, mais um bom álbum autoral da Devir.


Ao longo dos anos, a Devir notabilizou-se pela publicação de álbuns autorais. O melhor exemplo disso são os álbuns de Lourenço Mutarelli, publicados pela editora a partir dos anos 90. O mais recente lançamento nessa linha é Local: Ponto de Partida, primeiro de dois volumes com a série criada pelos norte-americanos Brian Wood e Ryan Kelly.

Lançados por uma pequena editora, entre 2005 e 2006, os seis capítulos reunidos nessa edição são na verdade seis HQs autocontidas, que têm alguns pontos em comum. A exploração de diferentes possibilidades narrativas de acordo com a temática da história, os ótimos desenhos com contrastes e texturas reticuladas, o fato de cada capítulo se passar numa cidade da América do Norte e a presença da personagem Megan McKeenan são alguns desses fatores comuns.

Embora não seja necessariamente o “fio condutor” da narrativa, Megan é o principal ponto de interseção das histórias, aparecendo em geral como protagonista, mas também como mera coadjuvante, testemunha ou vítima. Cada capítulo avança um ano na vida da personagem, ao passo que ela muda de cidade para cidade, evolvendo-se em situações complicas ou até perigosas, e demonstrando dificuldade em estabelecer relacionamentos duradouros.

Conhecido no Brasil pela série DMZ da Vertigo, em Local Brian Wood demonstra boa habilidade narrativa e capacidade de imprimir verossimilhança às personagens. Sem efeitos bombásticos ou pirotecnias surpreendentes, o roteirista utiliza a ambientação e os elementos cotidianos para contar histórias críveis e originais. Embora a qualidade varie ao longo dos capítulos, sendo o primeiro e o terceiro de longe os melhores, o saldo geral é positivo.

Mas, certamente, Local não seria tão interessante e eficiente sem os desenhos de Ryan Kelly, também conhecido no Brasil por trabalhos para o selo Vertigo. Seu desenho lembra uma mistura de Paul Pope e Joe Sacco, mas tem expressividade e caráter próprios. Sua habilidade técnica mostra-se indispensável para a condução da narrativa, deixando a desejar apenas em algumas diferenciações fisionômicas de personagens masculinos.

Um dos elementos que fundamentam a série Local é o fato de cada capítulo se passar numa diferente cidade dos Estados Unidos ou Canadá. Mas o que deve despertar interesse em leitores desses países acaba se tornando um “ruído” para o leitor estrangeiro, que não tem as mesmas referências locais. Somam-se a isso as dispensáveis notas contextuais e observações dos autores após as HQs, apesar de as páginas de esboços serem um acréscimo interessante.

Para além de quaisquer problemas de identificação, a ambientação urbana das histórias torna-as acessíveis a qualquer leitor. E se os autores ainda nos dizem qual a “trilha sonora” para cada capítulo, as eventuais associações entre quadrinhos, cinema e música acrescentam um tom contemporâneo ao trabalho. Local até parece uma HQ da Vertigo, na qual o sobrenatural e a fantasia foram substituídos por elementos cotidianos e clima de rock.

Enfim, com algumas histórias interessantes, originalidade narrativa e bons desenhos, Local: Ponto de Partida é sem dúvida uma boa pedida. A edição, que traz alguns deslizes de revisão, tem 200 páginas em formato 16,5cm x 24cm, sendo vendida a R$32,00.

01/12/2007

Celton, um herói dos quadrinhos.


Os quadrinhos produzem personagens fantásticos e também autores quase folclóricos. Um exemplo disso é o desenhista Lacarmélio Alfêo de Araújo, conhecido pelo nome de seu personagem mais famoso, o super-herói Celton. Durante a década de 80, este verdadeiro herói dos quadrinhos independentes vendia suas revistas em bares e ruas de Belo Horizonte, conquistando um público cativo que prestigiou as dezenas de revistas que ele editou. Com HQs que envolviam figuras da política nacional ou personagens lendários de BH, Celton vendeu milhares de exemplares, mas desapareceu misteriosamente em 1992. Para a felicidade dos antigos fãs ou daqueles que apenas ouviram falar do famoso desenhista, ele voltou à ativa. Mostrando a mesma obstinação e paixão que motivou seu trabalho por mais de uma década, Celton me concedeu uma entrevista em 1998, na qual ele fala de seus personagens, da paixão e de suas aventuras com os quadrinhos.

Como surgiram o personagem e as revistas do Celton?

Quando eu tinha 5 anos já dizia que um dia publicaria quadrinhos. Quando eu tinha 15 anos criei um super-herói chamado Homem-Felino, que nunca cheguei a publicar; e nem vou publicar! Eu trabalhava durante o dia e estudava à noite e tinha que desenhar nas horas vagas, entre 5 e 7 horas da tarde. Depois mudei o nome do personagem para Celton, porque todo super-herói já é um Homem-alguma-coisa: Homem-Aranha, Homem-Elástico, etc. A primeira revista que eu publiquei foi a origem do Celton. Na época eu tinha 21 anos.

Você se tornou uma figura quase tão folclórica quanto os personagens de suas histórias. Como o desenhista Celton ficou tão popular?

Isso aconteceu porque eu vendia as revistas em barzinhos e ruas, usando uma roupa chamativa. Mas eu não planejei vender as revistas assim. Primeiro eu tentei distribuir em bancas. A duras penas acabei descobrindo que existe uma “máfia” controlada pelas grandes editoras que faz o jornaleiro não aceitar as revistas que não sejam delas. Quando eu entendi isso, fui pra rua, onde ninguém manda em mim! Eu era obstinado e passei a vender as revistas em barzinhos da zona sul. Houve uma grande receptividade; só nos barzinhos eu vendi 5.000 exemplares da primeira revista do Celton. Aí eu resolvi que precisava de divulgação, e a solução foi bicicleta e spray. Comecei a pichar muros para anunciar as “Aventuras do Celton”. Algumas vezes eu tive problemas – a pessoa comprava a revista e depois ia atrás de mim pra cobrar a limpeza do muro.

Vender suas revistas era uma verdadeira aventura!

Uma vez, eu estava vendendo a revista A Chegada do Delfim no Inferno (na época da Ditadura) e veio um guardinha que me prendeu e levou pro DOPS. Só que quando eu cheguei lá, o chefão me conhecia dos barzinhos da Savassi, e ficou tudo bem. Quem morreu de vergonha foi o guardinha. Anos mais tarde, quando eu vendia as revistas em sinais de trânsito, tive de enfrentar os fiscais da prefeitura que vinham tomar as revistas. Cheguei até a brigar com eles.

Sendo o best seller dos quadrinhos independentes mineiros. Por que você desapareceu por vários anos?

Em 1990 eu fui pra Nova York aprender inglês e juntar uma grana. Lá trabalhei no que viesse. Até toquei violão na rua, Elvis e Beatles. Ganhava uns 50 dólares por dia. Quando voltei, eu comprei uma moto que troquei em 1991 por uma impressora off-set e uma guilhotina. Aí eu voltei a fazer revistas, fiz 4 da série Collor contra o Capeta do Vilarinho. Mas eu precisava me estabilizar financeiramente e parei de fazer quadrinhos. A revista é igual a uma namorada, é minha paixão, mas como as coisas não estavam bem, eu deixei ela de lado.

E o que fez você voltar para os quadrinhos?

Paixão! Paixão mesmo. Eu tenho uma profissão: minha profissão é fazer quadrinhos.