
Lançados em 1963 pela Marvel Comics, os X-Men tornariam-se nas décadas seguintes o grupo de super-heróis mais popular e rentável dos quadrinhos. Tanto que, além de dar origem a toda uma linha de revistas de heróis mutantes nos anos 80, os X-Men ganharam uma série de animação nos anos 90 (cujas principais consequências foram tornar Wolverine um personagem amplamente conhecido e ensinar aos leitores brasileiros a correta pronúncia do nome do grupo, uma vez que até então nós falávamos “xis-mem”). Com a crescente popularidade entre os leitores de quadrinhos e o público da série de animação, a idéia de um filme para o cinema seria algo quase natural. Assim, após alguns anos de produção e meses de muita expectativa por parte dos fãs, em julho de 2000 estreou
X-Men – O Filme, sucesso de bilheteria que inaugurou a atual onda de adaptações de HQs para o cinema.
Dirigido por Bryan Singer,
X-Men – O Filme seguiu alguns dos elementos de
Superman – O Filme, a melhor adaptação cinematográfica de super-heróis já feita (não é mera coincidência que o diretor do longa de 1978, Richard Donner, seja um dos produtores executivos da produção de 2000). Como o filme que lhe serviu de exemplo, o longa dos X-Men pôde contar com um diretor que entendia o projeto, atores consagrados que lhe davam lastro e protagonistas relativamente desconhecidos que se adequavam bem a seus papéis. Embora Tempestade e Ciclope pareçam meros elementos decorativos, por sua vez Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Sir Ian McKellen), Wolverine (Hugh Jackman) e Vampira (Anna Paquin) não deixam a desejar. E se Jean Grey e Homem-de-Gelo parecem deslocados, Mística e Dente-de-Sabre são ótimas surpresas, superando em muito suas versões quadrinísticas.
Ao lado de boas atuações e caracterizações, a maior qualidade de
X-Men – O Filme é o respeito pelos quadrinhos, em sua tentativa de uma abordagem realista do tema (tratado na verdade como uma história de ficção científica). Há é claro algumas alterações (como as roupas de couro preto que causaram controvérsia entre os fãs), algumas liberdades (como a relação afetiva entre Wolverine e Vampira, que nas HQs acontecia entre Logan e Kitty Pryde) e alguns excessos (como o aparelho que funciona à base de eletromagnetismo, emitindo uma radiação que origina poderes mutantes). Além disso, os mesmos efeitos visuais de ponta que permitiram a existência de um filme com muitos vôos, rajadas óticas e garras retráteis, mostram suas limitações em vários momentos, comprometendo a verossimilhança das cenas. Há também problemas com as sequências de luta demasiadamente coreográficas.
Contando com a consultoria de Stan Lee, o roteiro de
X-Men – O Filme tem falhas, mas é eficiente em apresentar a temática da perseguição e do preconceito sofridos pelos mutantes. E se nos quadrinhos a identificação dos mutantes com minorias raciais, sexuais ou religiosas é um traço importante, num filme voltado a um público mais amplo esse fato é ressaltado. Logo, não é por menos que a primeira cena se passa num campo de extermínio nazista, ou que o ator Ian McKellen tenha sido convencido por Bryan Singer de que uma história com super-heróis podia servir de metáfora para o preconceito contra os homossexuais. Mensagens à parte, o filme tem alguns ótimos momentos, como as três cenas em que Professor Xavier e Magneto se contrapõem (no senado, em frente à estação de trem e na cela de plástico) ou as três sequências principais com Wolverine e Vampira (na estrada, na Mansão-X e no vagão de trem).
Disponíveis na versão para DVD
X-Men 1.5, as cenas cortadas mostram que a história era ainda mais centrada em Vampira. Contudo, na versão para os cinemas, parece ter se buscado um equilíbrio entre os personagens (que acabou não sendo alcançado). A Tempestade Halle Berry, por exemplo, não tinha muito o que fazer com poucas cenas relevantes e uma ridícula peruca branca. Por sua vez, os intérpretes de Ciclope (James Marsden) e Jean Grey (Famke Hanssen) deixam claro, nos extras do DVD, que não tinham conhecimento ou muito respeito pelos quadrinhos que inspiraram seu trabalho. Já o Wolverine Hugh Jackman é um caso completamente diferente, pois (embora não conhecesse de antemão seu personagem) o ator mostrou empolgação desde o início, sendo perfeito no papel que mudaria sua carreira. Para completar, há o duelo entre Patrick Stewart e Ian McKellen, que acrescenta qualidade ao filme.
Ao ser exibido em 2000,
X-Men – O Filme deixou uma sensação de algo que ficou pela metade, de uma adaptação que não é ruim, mas que poderia ter sido muito melhor. Felizmente, o sucesso de bilheteria garantiu uma continuação, que se tornaria a melhor versão dos heróis da Marvel já feita para o cinema. Lançado em maio de 2003, também dirigido por Bryan Singer e contando com o mesmo elenco de base,
X-Men 2 tem todas as virtudes do primeiro filme, corrigindo seus principais erros. Uma produção bem mais madura, essa continuação traz um roteiro muito melhor, efeitos especiais e visuais impecáveis, cenários e figurinos ainda mais convincentes e até mesmo uma música-tema mais empolgante. Começando por sua primeira cena, o filme provou que tinha vindo para agradar: numa sequência fantástica, Noturno invade a Casa Branca, dá uma surra nos seguranças e quase mata o presidente.
A seguir, novos vilões são introduzidos e temos um ataque à Mansão-X, com direito a garras retalhadoras e novos poderes mutantes. O público também descobre um pouco mais sobre o nebuloso passado de Wolverine (nos moldes da HQ
Arma-X de Barry Windsor-Smith). Halle Berry (depois de um Globo de Ouro e um Oscar) ganhou mais importância e um cabelo menos falso (e o que parece estranho é o cabelo de Wolverine nas cenas que Hugh Jackman teve que filmar quando já protagonizava o filme
Van Helsing). Como até Ciclope e Jean Grey estão mais convincentes, todos os X-Men principais têm o devido espaço na continuação, não faltando ainda momentos relevantes para Homem-de-Gelo, Pyro, Vampira ou até Colossus. Isso sem falar na vilã Mística, que volta para exibir suas perícias acrobáticas e marciais nos belos contornos da modelo e atriz Rebecca Romjin-Stamos. Professor-X e Magneto retornam perfeitos.
X-Men 2 é indiscutivelmente um filme superior ao primeiro, tendo até o efeito de “melhorar”
X-Men – O Filme (eu, por exemplo, tenho hoje uma opinião bem mais favorável do que a que tive ao sair do cinema em 2000). Além disso, as produções cinematográficas influenciaram os quadrinhos dos heróis mutantes na época, estabelecendo uma identidade com o que Grant Morrison fazia em
New X-Men e servindo de base para o trabalho de Mark Millar em
Ultimate X-Men. Com o sucesso de público das duas primeiras produções cinematográficas, era grande a expectativa por um terceiro filme, no qual Bryan Singer & Cia. pudessem completar sua “saga”. Em entrevistas, diretor e produtores chegaram a falar de suas idéias para a terceira parte da trilogia. Mas então um “S” e muitos dólares entraram no caminho, e Bryan Singer trocou os “filhos do átomo” pelo “filho de Krypton”. E sem o competente diretor,
X-Men 3 acabou sendo algo lastimável!