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01/12/2010

O Wolverine de Rafael Grampá.


Um dos expedientes mais utilizados pelas editoras de super-heróis é o estabelecimento de modelos de sucesso que são repetidos à exaustão. Tendo chegado a seu momento mais crítico nos anos 90, que levou a um esgotamento do gênero, na última década editoras como a Marvel abriram mais espaço para a diversidade estética e a criação autoral. Um exemplo disso foi a minissérie Strange Tales, lançada em 2009, que ganha agora um segundo volume. Comprei o n°1 da nova minissérie por um único e exclusivo motivo: a HQ do Wolverine escrita e desenhada por Rafael Grampá, auxiliado nas cores e balões por Rafael Coutinho.

Duas páginas de prévia já podiam ser vistas no blog do desenhista, mas o melhor fica mesmo para as seis páginas seguintes dessa história que mostra uma sanguinolenta luta livre estrelada pelos mutantes do programa Arma-X. À primeira vista, o que temos são diálogos corriqueiros e corpos mutilados. Mas, ao se ler a história protagonizada por Wolverine, acabamos descobrindo que uma outra personagem é a verdadeira motivação e o fim de tudo. Com isso, o que poderia ser apenas mais uma violenta HQ de super-heróis assume as características de uma história de amor, um pouco atípica, mas com direito ao tradicional coração-partido.

Sobre os desenhos, quem conhece Grampá por trabalhos anteriores, como Mesmo Delivery, notará diferenças de estilo nesta HQ. Nela, o traço está mais fluido e conciso, enquanto os detalhes e a profusão de tracinhos estão mais contidos. Mas os fãs de Grampá e também do Wolverine não irão se decepcionar com essas oito páginas que reúnem cenários cotidianos a garras de adamantium. Com uma ou outra página se destacando e cores bastante expressivas, Grampá e Coutinho nos oferecem uma versão diferenciada do herói mutante. O mesmo tratamento é dado aos heróis Marvel tradicionais que ganham o "tratamento Grampá" na fantástica capa de Strange Tales II.

Sendo uma daquelas revistas que a gente já compraria só pela capa, a Strange Tales II n°1 traz ainda as interpretações de vários outros autores independentes para os heróis e vilões da Marvel. Nenhum deles, porém, me interessou ou empolgou tanto quanto ao trabalho dos quadrinistas brasileiros.

12/08/2010

Para os fãs dos X-Men.


Como falei numa postagem anterior, embora tivesse revistas em quadrinhos desde criança, foi em janeiro de 1987 que comecei a ler e colecionar HQs. A revista que deu início à minha coleção foi a Heróis da TV n°91, na qual fui capturado por uma página com uma reunião de heróis desenhada por John Byrne. Não demorou para eu começar a colecionar todas as revistas da Marvel e pouco depois as da DC Comics também (na época, as revistas eram relativamente muito mais baratas do que hoje, e seria viável colecionar todas as edições mensais da Abril apenas com o dinheiro de uma modesta mesada). A primeira edição de Superaventuras Marvel que comprei foi a n°57, de março daquele ano. E com ela veio a primeira história dos X-Men que eu li.

Apesar de a edição trazer na capa o personagem Mestre do Kung Fu, além de uma HQ e um texto sobre o herói Demolidor, o que chamou minha atenção foi a história dos X-Men (que então pronunciávamos “xis-mem”). Nela, os heróis mutantes enfrentavam um grupo de vilões vestindo roupas de época, que atendiam pelo nome de Clube do Inferno. Além da importante participação de Tempestade e Rainha Branca, tinha destaque um certo herói baixinho e de garras afiadas, que eu então ainda não conhecia (por incrível que pareça, há não muito tempo atrás, era possível que um adolescente jamais tivesse ouvido falar do Wolverine ou mesmo dos X-Men...). As revistas seguintes trouxeram histórias menos interessantes para mim, mas isso logo mudaria.

Enquanto eu acompanhava a marcante minissérie Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, nas páginas da Superaventuras Marvel começavam a ser publicadas as HQs ligadas à “Saga da Ninhada”. Embora os desenhos de Dave Cockrum não fossem dos meus preferidos, a temática futurista e a ambientação espacial dos roteiros de Claremont me agradavam em cheio. E se eu já me tornava um fã dos X-Men, fui conquistado de vez quando as revistas passaram a ser desenhadas pelo excelente Paul Smith, com sua primeira aventura dos heróis mutantes publicada na Superaventuras Marvel n°70. A edição seguinte, inteiramente dedicada aos X-Men e desenhada por Smith, foi uma das melhores daquela célebre revista e é, na certa, minha preferida.

Nos anos seguintes, acompanhei a minissérie e a revista própria dos X-Men, lançadas pela editora Abril. Em 1990, passei a acompanhar também as edições originais da Uncanny X-Men, então desenhadas por Marc Silvestri. No entanto, a queda na qualidade dos roteiros e a superexploração das “super-sagas” levou à minha progressiva perda de interesse por aqueles personagens. O visual interessante ainda me fez comprar as revistas desenhadas por Jim Lee, Whilce Portacio e John Romita Jr., além de algumas edições desenhadas por Joe Madureira. Mas, naqueles meados dos anos 90, meu interesse estava mais voltado para séries como Swamp Thing ou The Sandman e também para os quadrinhos de autores como Moebius, Hugo Pratt e Flavio Colin.

Só recentemente voltei a ler revistas dos heróis mutantes da Marvel, com o intuito de escrever resenhas aqui para o Mais Quadrinhos. Assim, somando textos que eu havia escrito para jornais ainda nos anos 90 e esses novos textos que passei a escrever, o resultado é um razoável arquivo de informações, que traça boa parte da trajetória dos X-Men. Então, para os fãs dos X-Men que acompanham este blog, preparei uma relação dos principais textos sobre os heróis mutantes, numa ordem cronológica das edições abordadas:

A história dos X-Men (1963-1976).
A história dos X-Men (1977-1982).
A história que definiu o futuro dos X-Men.
A marcante minissérie do Wolverine.
A história dos X-Men (1983-1986).
A história dos X-Men (1987-1992).
A verdadeira origem e história do Wolverine.
O melhor dos X-Men no cinema.
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2001-2002).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2002-2003).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2003-2004).
Os Novos X-Men de Grant Morrison (2004).
Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (I).
O pior dos X-Men e do Wolverine no cinema.
Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (II).
Um novo começo para os X-Men?
O primeiro “arco” dos X-Men de Warren Ellis.
Um novo “crossover” mutante da Marvel.

Fica então o convite, para aqueles que ainda não conhecem os textos ou queiram relê-los numa forma ordenada.

01/08/2010

Hulk enfrenta Thor e Wolverine em animações do Marvel Studios.


Estou numa “fase Marvel”. Durante muito tempo, dei preferência aos quadrinhos da DC (em especial da Vertigo e da Wildstorm), mas desde que reassisti ao primeiro filme do Homem de Ferro (para escrever a resenha para o Mais Quadrinhos), tive o interesse renovado pelas HQs da editora do Homem-Aranha. Como consequência direta, quem acompanha este blog tem visto textos sobre quadrinhos como Iron Man: Extremis ou The Ultimates (e em breve poderá ler a resenha da Astonishing X-Men de Joss Whedon e John Cassaday).

Por esses dias, passando por uma loja, vi num expositor o DVD Hulk Vs., que não conhecia ainda. Embora fosse meio desconfiado das animações produzidas pela Marvel (ainda mais após ter assistido a Os Supremos – O Filme e à sua continuação), as imagens na embalagem mostravam um estilo e uma qualidade bastante interessantes, trazendo o Hulk frente a frente com Thor e Wolverine. Eram dois filmes de animação, somando pouco mais de 80 minutos, por um preço bem razoável... Como estou passando pela tal “fase Marvel” e estava mais ou menos de férias, comprei o DVD. E não me arrependi!

Ao se iniciar o DVD, pode-se escolher por qual das animações começar. Escolhi "Hulk vs. Wolverine", o que foi uma boa opção. Antes de se ver qualquer imagem, ouve-se a frase já tradicional copiada da minissérie de Cris Claremont e Frank Miller: “Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é muito agradável”. Após essa introdução, logo na primeira cena fica claro que não se trata de um desenho animado para crianças, já que vemos o herói com a boca escorrendo sangue e em seguida colocando um ombro deslocado de volta ao lugar (ao estilo de Mel Gibson nos filmes da série Máquina Mortífera).

Entram então os primeiros créditos, acompanhados de interessantes esquemas e diagramas que sugerem os processos que levaram à criação do Wolverine e do Hulk, concluindo com dois letreiros estilizados que formam o título da animação. Quem assistiu a Homem de Ferro deve se lembrar de algo semelhante nos créditos finais do filme. E a sequência imediata do desenho também faz lembrar a produção estrelada por Robert Downey Jr., pois vemos Logan sentado num helicóptero militar, tendo à sua frente um soldado que timidamente lhe faz uma pergunta.

O que se segue é uma animação comercial de qualidade, repleta de referências e personagens saídos dos quadrinhos. A base inicial é a própria HQ de estreia do herói mutante, na qual ele encarou o Hulk (e o monstro Wendigo) nas florestas do Canadá. Nos próximos 10 minutos do desenho, o “Golias Verde” mói Wolverine na pancada, mas também leva alguns rasgos e arranhões. O enfrentamento, porém, acaba interrompido pela intervenção de vilões ligados ao passado do herói mutante: Dentes de Sabre, Lady Letal e Ômega Vermelho, além do ambíguo Deadpool. Com a entrada em cena desses personagens mais moderninhos e ainda mais violentos, o desenho poderia ter se perdido.

Contudo, o que vem a seguir acaba sendo uma das partes mais interessantes dos 37 minutos de animação, com sequências em flashback inspiradas na excelente HQ Arma-X de Barry Windsor-Smith. É claro que o restante do desenho é violência, lâminas, sangue e mutilações. Pelo menos, o Hulk ainda ganha seus momentos de estrelato, concluindo sua participação numa cena pós-creditos (e por falar neles, o Marvel Studios aproveitou-os, de forma muito justa, para reproduzir as capas das principais revistas que inspiraram o desenho). Se o roteiro não é dos mais brilhantes, o visual estilizado, a qualidade técnica e a dinâmica de animação valem uma conferida no bom "Hulk vs. Wolverine".

Compartilhando o mesmo DVD, "Hulk vs. Thor" tem características bem distintas. Há violência também, mas nada tão sanguinolento quanto na outra animação. O próprio visual segue um estilo mais Disney, com meio-tons, sombreamentos e uma atmosfera luminosa. A história começa com uma narração em off numa entonação de “contos de fadas”, falando sobre a gloriosa Asgard e o poderoso Odin. Repletas de deuses nórdicos, gigantes do gelo, trolls e valquírias, as cenas iniciais do desenho têm um caráter mitológico e logo mostram um ataque que parece inspirado na trilogia O Senhor dos Anéis. Mas é claro que, tendo o Hulk por perto, o estilo mitológico dá lugar a uma abordagem mais “direta”.

Como de costume, quem está por trás da confusão é Loki, o invejoso meio-irmão de Thor, sempre em busca da destruição do deus do trovão. E como também acontece geralmente, os planos do deus das trapaças acabam não dando muito certo. O resultado é que um incontrolável Hulk passa a pôr em risco não apenas a existência de Thor, mas também a de Odin e da sagrada Asgard. Uma viagem aos domínios da deusa da morte será necessária para resgatar uma alma humana e trazer de volta a paz ao reino dos deuses nórdicos. Em seus 45 minutos, este outro desenho tem um roteiro um pouco mais elaborado que o do outro (embora não seja exatamente original), não se baseando em HQs específicas.

Mas já contei demais e não quero estragar a graça de quem anime a assistir esse DVD do Marvel Studios. Para mim, são os mais bem produzidos desenhos animados já feitos com os personagens da editora (que, enfim, conseguiu igualar a qualidade das animações de sua concorrente DC Comics). E cada vez mais são os quadrinhos de super-heróis integrados a outras mídias e servindo de base para a criação de novos produtos, enquanto se consolida um público que lerá as revistas e assistirá aos filmes e animações. Agora é torcer para que a qualidade se mantenha e esperar pelos próximos lançamentos, como a nova série de animação com os Vingadores, que estreia em breve nos Estados Unidos.

12/04/2010

Um novo “crossover” mutante da Marvel.


Até meados dos anos 70, talvez ninguém apostasse que os X-Men se tornariam um dos títulos mais populares da história dos quadrinhos. Afinal, apesar do começo promissor pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby, e de uma boa fase com Roy Thomas e Neal Adams, na primeira metade daquela década os heróis mutantes passaram pelo pior momento de sua trajetória. As vendas caíram e, em 1970, a revista The X-Men passou a reeditar antigas histórias.

A situação só começaria a mudar em 1975, quando o roteirista Len Wein e o desenhista Dave Cockrum lançaram uma nova versão do grupo de heróis, no especial Giant-Size X-Men #1. Introduzindo personagens como Tempestade, Noturno, Colossus e Wolverine, esses autores revitalizaram a série, abrindo espaço para o sucesso que viria em seguida, quando a revista passou a ser escrita por Chris Claremont. Dois anos depois, seria a vez de o desenhista John Byrne se juntar ao título, dando início a uma ascensão que levaria os X-Men à liderança no mercado norte-americano. O fato é que, na virada para os anos 80, os mutantes eram os personagens mais populares das HQs de super-heróis.

Surgiram então minisséries como Wolverine (que marcou o sucesso astronômico desse herói) e novas revistas como The New Mutants (com uma nova geração de heróis), X-Factor (com a primeira geração de pupilos do Professor X) e Excalibur (misturando ex-X-Men e heróis britânicos em aventuras interdimensionais). Nessa época, a Marvel passou a investir em crossovers e super-sagas que interligavam várias revistas, reunindo seus principais personagens contra uma ameaça comum. Os mutantes, é claro, não ficaram de fora dessa onda. Assim surgiram, a partir de 1985, histórias como Guerras Asgardianas, Massacre dos Mutantes, A Queda dos Mutantes e Inferno.

O sucesso dos primeiros crossovers mutantes garantiu a repetição da fórmula no início dos anos 90, com Dias de um Futuro Presente e Agenda da Extinção. Contudo, logo viria uma das piores fases desses personagens. Com a Marvel beirando a falência, o ritmo dos grandes encontros diminuiu, embora tenham sido publicados a super-saga Massacre e o crossover A Era do Apocalipse. O que se seguiu então foram estreias e retornos, mortes e ressurreições de personagens, muitos equívocos e manipulação editorial, que minaram a popularidade dos heróis. Seria necessário o sucesso de X-Men – O Filme para que os heróis mutantes retomassem sua relevância.

Tornando-se novamente um título (ou como se diz hoje: uma “franquia”) muito rentável, os X-Men voltaram a multiplicar-se em diferentes revistas mensais, especiais e crossovers. Essa retomada levou, entre 2005 e 2007, às histórias House of M, Decimation e Endangered Species, nas quais a raça mutante é colocada em risco de extinção. Reduzidos a poucas centenas, os mutantes lutam agora para sobreviver e se adaptar à nova realidade, como se vê em Messiah Complex, Divided We Stand, Manifest Destiny e outras histórias de nome pomposo, publicadas entre 2007 e 2009. E tudo isso culmina, segundo os editores, em X-Men: Second Coming, o crossover mutante de 2010.

A exemplo do que fez com Siege, a Marvel promoveu o lançamento de Second Coming com uma revista gratuita. Além de um prólogo em tom lúgubre, que sugere que um dos heróis morrerá logo no primeiro capítulo, a edição traz listas de coletâneas dos X-Men, páginas com esboços das ilustrações de capas, anúncios de edições, informações sobre a personagem Fênix e uma listagem das revistas e especiais que formarão o novo crossover mutante. O título da história, com sua ressonância apocalíptica que remete à “segunda vinda" de Cristo, refere-se ao retorno da mutante Hope, a primeira criança a nascer depois que o gene mutante foi “desligado” pela Feiticeira Escarlate.

Embora sua distribuição gratuita não deixe muita margem para reclamações, X-Men: Second Coming Prepare não deixa uma sensação de “quero mais”, e sim de que faltou algo, de que ela poderia ter instigado mais o interesse do leitor. Para os fãs dos "filhos do átomo", fica a promessa de mais um crossover que adicionará novos acontecimentos à complexa trama dos heróis mutantes da Marvel. Já para alguém que acompanhou várias outras histórias do gênero, fica a certeza de algumas edições inteiramente dispensáveis e bastante drama superficial que não acrescentará muito à história dos quadrinhos.

28/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2004).


O futuro é o que vemos nos capítulos finais de Grant Morrison para a New X-Men. Pelo menos uma versão do futuro dos heróis mutantes, imaginada pelo roteirista escocês. Here Comes Tomorrow (publicada nos n°s151-154) começa um tanto enigmática, com frases que sugerem um conflito e os lados nesse conflito, sem explicar exatamente quem é quem. Mas logo tudo fica mais claro e surge um interessante contexto que lembra a HQ “Dias de um futuro esquecido”, se refeita nos moldes da trilogia Matrix. Em meio a tudo, muitas caras novas, mas também alguns rostos conhecidos, apesar de terem se passado 150 anos.

O Fera (cujo nome em inglês também pode ser traduzido como “a besta”) é o grande vilão, à frente de um exército de Noturnos geneticamente alterados. Wolverine, Cassandra Nova e um velho Robô Sentinela são aliados, a humanidade foi quase extinta e o mundo beira o apocalipse final. Para completar, entra em cena a Fênix. E tudo isso num dos melhores trabalhos de Marc Silvestri, responsável pelos desenhos destes quatro capítulos finais. O resultado é uma narrativa empolgante e um visual impressionante que justificam o dinheiro gasto nas HQs e constituem uma boa história de despedida.

A fase de Morrison à frente da New X-Men pode ser definida por algumas características básicas: a busca constante por novas ideias e ângulos de abordagem, bem como por dar aos heróis mutantes caracterização e contextualização atuais. A isso se somam a criação de diversos personagens singulares (como Cassandra Nova, Xorn e Fantomex) e também o destaque dado a coadjuvantes incomuns (como Barnell e Angel). Os pontos altos ficam por conta das histórias E is for Extintion, Riot at Xavier’s e Here Comes Tomorrow, sem falar em tudo que foi desenhado pelo excelente Frank Quitely.

Contudo, há também grandes falhas, a começar pelos desenhos ruins em vários capítulos. A isso se somam alguns roteiros preguiçosos, nos quais a história se arrasta por mais páginas do que deveria, dando a impressão de que não havia muito para ser contado ali. E há ainda os maneirismos de Morrison, como um gosto por diálogos ácidos e o uso de truques emocionais um tanto baratos, como o extermínio de dezesseis milhões de mutantes (que ecoa o extermínio dos seis milhões de judeus pelos nazistas) e o cenário da Nova York devastada por Magneto (que parece querer amplificar os atentados de 11 de Setembro).

Com boas ideias e personagens originais, a longa fase de Morrison à frente dos heróis mutantes talvez tenha tido, na verdade, um único defeito principal: a de ter sido longa demais (afinal muitas páginas e capítulos são completamente dispensáveis). Apesar disso, New X-Men é uma série de super-heróis que vale ser lida. Ao lado dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer, essa série foi responsável por consagrar a abordagem mais madura que tem beneficiado os heróis mutantes na última década. Sem falar que sua repercussão lançou as bases para o sucesso da Astonishing X-Men de Joss Whedon e John Cassaday.

(Para saber mais sobre as HQs dos X-Men e os trabalhos de Grant Morrison, clique nos marcadores abaixo.)

21/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2003-2004).


New X-Men n°142 é outra HQ de super-heróis nada convencional oferecida por Grant Morrison. Afinal, toda a ação se passa no Clube do Inferno, com Ciclope e Wolverine em meio a dançarinas sensuais e tragos de uísque. Os desenhos se sobressaem em relação à ação, embora às vezes o que chame mais atenção sejam os espaços vazios nas páginas ou desenhos que ocupam páginas inteiras, ainda que narrativamente nenhum desses dois recursos se justifique. Críticas à parte, o trabalho de Chris Bachalo e Tim Townsend corresponde ao tratamento visual que se pode esperar de uma revista Marvel de sucesso.

A edição n°143 traz um gigantesco laboratório em forma de cúpula, que guarda estanhos experimentos científicos. Lá, Wolverine e Ciclope, na companhia de Fantomex, enfrentam violões científicos, na busca por segredos envolvendo o projeto Weapon Plus. Já no n°144, bastante conversa no início e uma boa briga no fim colocam o heróis mutantes frente a frente com o supostamente mortífero Weapon XV. Embora em um ou outro ponto os desenhos não sejam narrativamente claros (algo que se repetiu nessas edições de Bachalo e Towsend), as camadas de detalhes e o dinamismo das imagens são o ponto alto da HQ.

Fechando a sequência em quatro partes (e a coletânea Assault on Weapon Plus), o n°145 nos leva a uma estação orbital que, segundo Fantomex, guarda os segredos sobre o passado de Wolverine, enquanto Ciclope serve só de companhia. Mas, embora Wolverine pareça ter descoberto informações importantes sobre seu passado, ao final da HQ os leitores ficam sem descobrir nada acerca disso, ganhando apenas uma explosão que deixa a estação orbital em pedaços. Com isso, os n°s142-145 destacam-se mesmo pelo visual detalhado e por terem dado um pouco mais de destaque a Wolverine.

Na revista seguinte, tem início uma história dividida em cinco partes, intitulada Planet X (que se estende dos n°s146-150, mais tarde reunidos numa coletânea homônima). Ilustrada por Phil Jimenez e Andy Lanning, a história começa num ritmo acelerado, mostrando Ciclope e Fantomex fugindo da explosão na estação orbital. E quando o alarme de emergência e uma ameaça paralela irrompem na Mansão X, Jean Grey sai ao resgate de Wolverine, enquanto Fera e Emma vão à busca de Ciclope e Fantomex. Tudo, porém, faz parte de uma armadilha orquestrada por um “traidor” entre os X-Men.

O primeiro capítulo de Planet X pode ser considerado o inverso das HQs mais fracas escritas por Morrison para os heróis mutantes. Nestas, um roteiro inconsistente e um ritmo arrastado acabam salvos por um desfecho surpreendente. Mas o que acontece em New X-Men n°146 é o contrário, pois um roteiro interessante e dinâmico acaba atrapalhado pelo velho truque de revelar que um dos heróis, e suposto traidor, é na verdade um antigo vilão, dado como morto ou desaparecido. Pois é isso que acontece, quando o mutante Xorn tira seu capacete para revelar ser ninguém menos que Magneto...

E assim, numa só tacada, Morrison eliminou o personagem mais interessante que ele havia criado para a série, além de reforçar que não existe respeito pela morte nas HQs de super-heróis. O capítulo seguinte começa com o triunfo de Magneto sobre Nova York (numa hora dessas por onde andam o Quarteto Fantástico, os Vingadores, o Homem-Aranha...?) e as mal-disfarçadas explicações de como e por que Xorn era Magneto numa máscara (quando um autor precisa justificar demais algo que fez, é porque fez algo de errado!). No mais, New X-Men n°147 não passa de alguns bons desenhos e muita conversa fiada.

A revista seguinte continua a historinha de Magneto, o terrorista soberano de Nova York, mas dá maior destaque à situação no espaço, envolvendo Wolverine e Jean Grey (cujo desfecho é, em certa medida, copiado no filme X-Men: O Confronto Final). Já a n°149 começa com diálogos fraquíssimos, prosseguindo com um enredo que se arrasta pelas páginas. Então, no capítulo final de Planet X, com a intervenção da Fênix e o sacrifício de uma personagem, tudo é simplesmente resolvido (repetindo um defeito de alguns roteiros de Morrison, onde o que parece uma grande ameaça acaba eliminado sem grande esforço).

(CONTINUA)

14/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2002-2003).


Após um começo bombástico em New X-Men n°s114-116, os roteiros do escocês Grant Morrison perderam um pouco da força e do foco nas edições que se seguiram. Além disso, desenhos de baixa qualidade em vários números prejudicaram a série, embora algumas ideias inventivas e situações interessantes tenham mantido as revistas acima da média dos quadrinhos de super-heróis. (Para mais detalhes sobre o primeiro ano de Morrison à frente dos heróis mutantes da Marvel, clique aqui.)

Em vários sentidos, o início do segundo ano da New X-Men repete os erros e os acertos de antes: os desenhos variam muito de estilo e qualidade, os roteiros trazem boas ideias, mas revelam-se inconsistentes no fim. A primeira dessas edições, New X-Men n°127, traz uma história focada no herói Xorn, sendo uma espécie de fábula moral sobre preconceito e suas consequências para o desenvolvimento da raça humana. Com desenhos de John Paul Leon e arte-final de Bill Sienkiewicz, estilisticamente a HQ é um tanto incomum para uma revista de super-heróis, embora tenha um desfecho bem previsível.

Já nos n°s129-130, os desenhos ficam por conta de Igor Kordey que, mesmo não sendo um desenhista ruim, não era o mais indicado para essa série da Marvel. Ao mesmo tempo, nessa sequência de histórias, Morrison parece ter tido como único propósito apresentar um novo personagem que havia imaginado: o mutante Fantomex (uma versão Matrix de Fantômas, anti-herói francês do início do século 20). O fato é que, salvo uma boa “sacada” em relação ao codinome Arma-X (onde o “xis” é relido enquanto o algarismo romano para o número dez), a HQ não interfere muito na vida dos heróis.

New X-Men n°131, ilustrada por Leon e Sienkiewicz, começa com um funeral em Paris e continua no caso amoroso psíquico-imaginário de Ciclope e Emma Frost. Já a edição seguinte, desenhada por Phil Jimenez e Andy Lanning, leva os leitores de volta a Genosha, ilha-país na qual dezesseis milhões de mutantes foram exterminados. Para a próxima revista, temos uma nova dupla de desenhistas, Ethan Van Sciver e Norm Rapmund, uma nova locação nas areias do Afeganistão e uma nova mutante chamada Dust (Poeira), com direito à primeira participação efetiva de Wolverine nesse segundo ano de Morrison.

Somando até ali sete edições (que seriam reunidas na coletânea New Worlds), o segundo ano de Morrison na série não tinha ido muito além de introduzir novos personagens conceituais, em meio a algumas boas “sacadas”. Felizmente, as coisas melhoram bastante a partir de New X-Men n°134, edição ilustrada por Keron Grant e Norm Rapmund. Com ela, tem início uma sequência de cinco HQs nas quais, pela primeira vez em várias edições, o roteirista parece não atirar para os lados, apresentando uma história mais coerente e interessante (que seria reunida na coletânea Riot at Xavier’s).

Mostrando um motim de jovens alunos da escola do Professor Xavier, as revistas abordam ao mesmo tempo os temas do preconceito contra as minorias e do perigo trazido pelas drogas. Trabalhando bem os personagens secundários, o roteiro deixa os X-Men tradicionais na periferia da ação, embora seu desfecho traga uma cena, envolvendo Scott, Emma e Jean Grey, que tem desdobramentos até as edições atuais dos heróis mutantes. E se o roteiro não decepciona, os desenhos do sempre ótimo Frank Quitely fazem de New X-Men n°s135-138 edições que valem a pena serem lidas e vistas.

A edição n°139 começa do ponto em que Morrison havia encerrado a revista anterior, com Jean Grey descobrindo o caso psíquico entre seu marido e Emma. O restante da edição, ilustrada por Jimenez e Lanning, mostra uma inquisição psíquica em que a Jean-Fênix atormenta uma indefesa Emma. Nada tão drástico, porém, quanto o aparente assassinato da ex-vilã ao final da revista, o que dispara a investigação que será o tema da edição seguinte. E com desenhos nada impressionantes e uma trama bem morninha, a revista n°140 só se salva por uma interessante revelação na última página.

Quanto ao n°141, além de solucionar parte do aparente assassinato, a revista serve apenas para reforçar que a morte é uma condição bastante contornável nas HQs de super-heróis. No saldo geral, essas três edições da série dão a sensação de um roteiro que se arrasta por mais tempo do que deveria e de desenhos bem abaixo do potencial de uma editora como a Marvel. Algo bem diferente é o que vemos nas quatro edições seguintes, intituladas Assault on Weapon Plus (nome também dado à coletânea das revistas New X-Men n°s139-145), ilustradas pelos competentes Chris Bachalo e Tim Townsend.

(CONTINUA)

19/06/2009

Comics de graça (ou quase)!


Desde 2002, no primeiro sábado de maio, acontece nos Estados Unidos o Free Comic Book Day (Dia da Revista em Quadrinhos Grátis). Nessa data, boa parte das lojas norte-americanas distribui edições de graça, como uma forma de promover a leitura de HQs (atraindo novos leitores e também presenteando os que já prestigiam os quadrinhos). Apoiado por pequenas e grandes editoras (que vêm no FCBD uma oportunidade de divulgar novas séries), o evento deste ano distribuiu dois milhões de exemplares, com histórias nos mais variados gêneros. Aproveitando uma compra na loja virtual Midtown Comics, incluí algumas dessas revistas, que assim vieram de graça (ou quase, já que paguei pelos custos da postagem internacional).

Uma das participantes do FCBD é a Dark Horse, que neste ano ofereceu duas edições. A primeira e melhor delas traz HQs curtas de alguns dos principais títulos da editora. Na capa principal vem Star Wars: The Clone Wars, série que acompanha a temática e o estilo dos desenhos animados de George Lukas. Virando a revista de cabeça para baixo, na outra capa temos os personagens que completam a antologia: Usagi Yojimbo, Emily the Strange, Beanworld e Indiana Jones. Incluindo anúncios sobre o saite e novas publicações da Dark Horse, esta revista promocional serve como uma amostra de seu catálogo, caracterizado por misturar séries originais (como Sin City e Hellboy) e histórias originadas de outras mídias.

Seguindo esta última linha, a outra revista oferecida pela Dark Horse traz duas HQs saídas de "franquias" cinematográficas de ficção científica & ação: Aliens e Predador. As histórias se concentram nos elementos característicos dos filmes, sendo produzidas em estilos que tentam se aproximar do visual das produções da Fox. Completam a edição um pôster duplo com os monstrengos, anúncios de novas séries e coletâneas. Outra editora que aposta nas “franquias” do cinema e da tevê é a IDW, que ofereceu uma revista com as séries Transformers Animated e G.I. Joe. Também cheia de anúncios, a edição evidencia a importante ligação dos quadrinhos norte-americanos com os desenhos animados e os filmes para o cinema.

Uma interação interessante entre produção cinematográfica e revista em quadrinhos foi realizada pela Marvel na revistinha Wolverine: The origin of an X-Man. Trazendo na capa a indicação “ótima para todas as idades”, a edição foi distribuída ao mesmo tempo em que chegava aos cinemas o filme estrelado por Hugh Jackman (que também aparece num vídeo promocional do FCBD). Produzida num estilo “desenho animado”, a HQ começa com informações básicas sobre Wolverine, que entra em ação a serviço do governo canadense. Após uma luta contra ameaças tecnológicas (logo, nenhuma gota de sangue é derramada), a revistinha termina com o herói mutante enfrentando o Hulk e o Wendigo (na missão que o lançou em 1974).

Outra edição promocional da Marvel é The Avengers, também impressa em formato reduzido. Escrita por Brian Michael Bendis e desenhada por Jim Cheung, a HQ traz boas imagens e mostra uma pancadaria geral entre os "New" e os "Dark Avengers". A DC Comics, é claro, não poderia ficar de fora do FCBD, tendo produzido para o evento uma revista infantil com seus heróis e especialmente Blackest Night. Previa para uma das principais histórias do “Universo DC” neste ano, a revista é escrita por Geoff Johns e desenhada por Ivan Reis, sendo estrelada pelo Lanterna Verde Hal Jordan e pelo Flash Barry Allen (ambos “ressuscitados” por Johns). Ao fim da edição temos galerias desenhadas por Doug Mahnke, apresentando as principais forças envolvidas no conflito.

No fim das contas, patrocinado pelas editoras e em parte financiado pelas lojas, o Free Comic Book Day parece ser um bom negócio para todos. Séries e personagens são divulgados, os leitores regulares ficam felizes e novos leitores são conquistados (algo fundamental para uma mídia que perde público a cada ano!). Sem nos esquecermos de que, em termos editoriais, o mercado de quadrinhos norte-americano é muito mais amplo que o brasileiro, alguns elementos do FCBD poderiam ser adotados por aqui (por exemplo no que diz respeito à divulgação de séries e à promoção da leitura de quadrinhos). Enquanto algo assim não vem, mais informações e prévias de algumas edições do evento de 2009 podem ser vistas no saite oficial.

06/05/2009

O pior dos X-Men e do Wolverine no cinema.


Aguardado com grande expectativa, X-Men – O Filme tornou-se um sucesso de bilheteria que deu origem à atual onda de produções hollywoodianas com personagens dos quadrinhos. Lançada três anos depois, a continuação X-Men 2 trouxe uma evolução do gênero, tornando-se provavelmente a melhor produção cinematográfica já feita com os heróis Marvel. Com sucesso de público e recursos milionários garantidos, a terceira parte da “trilogia” dos heróis mutantes tinha tudo para ser um fechamento com “chave de ouro”. Contudo, X-Men: O Confronto Final foi uma verdadeira decepção. E como Hollywood não “larga o osso” facilmente, chegou aos cinemas no último dia 30 de abril X-Men Origens: Wolverine, uma coisa tão ruinzinha que nem merece ser chamada de “filme”, mas sim de mero caça-níqueis hollywoodiano (e me fez até alterar novamente minha postagem com a lista das "Piores adaptações cinematográficas do século")!

Lançado em maio de 2006, X-Men: O Confronto Final, ou simplesmente X-Men 3, pôde contar com o mesmo elenco das produções anteriores, mas tinha um desfalque significativo. Não tendo chegado a um acordo com a 20th Century Fox, Bryan Singer assinou um contrato com a Warner Bros. para dirigir o que seria o fiasco chamado Superman Returns (mas essa é outra história...). O que importa é que, sem a mesma concepção e direção dos dois primeiros filmes, a terceira parte da trilogia seria de longe a pior. Há até uma boa sequência “exterminador do futuro” que se passa na Sala do Perigo e uma versão bacana do Fera e da Kitty Pryde, além de terem finalmente acertado no visual da Tempestade. Mas, em termos gerais, o que há de bom pára por aí. Dirigido por Brett Ratner, o longa traz uma história fraca e meio sentimentalóide, sem mostrar nada da elegância e originalidade dos dois primeiros filmes.

Em muitos sentidos, X-Men 3 é o inverso de X-Men – O Filme. Neste, há um fantasioso aparelho capaz de transformar humanos em mutantes; no outro, há uma fantasiosa droga capaz de transformar mutantes em humanos. Enquanto O Filme introduz personagens e cria laços pessoais, O Confronto Final atola em melodramas mutantes, lançando na tela hordas de figuras irrelevantes e estereotipadas. Professor-X e Magneto voltam a se confrontar na terceira parte da trilogia, mas não temos nada do equilíbrio e da força das atuações vistas na primeira parte (até o visual de Wolverine, perfeito no início da trilogia, eles conseguiram atrapalhar com uma perucona esquisita). Enfim, os recursos restritos e efeitos falhos da primeira parte não se repetem na terceira, que nem por isso consegue ser um filme melhor. X-Men 3, enfim, não passa de uma mistura fraquinha de ação, drama e efeitos visuais. Mas o pior ainda estava por vir!

Embora eu me considere uma pessoa até articulada, faltam-me palavras para descrever quão ruim é X-Men Origens: Wolverine. Enquanto roteirista, também fico abismado com o fato de alguém ter recebido muito dinheiro para escrever algo tão fraquinho e cheio de furos. Além disso, em suas quase duas horas, não há sequer um diálogo ou situação que não seja o mais completo lugar-comum (com direito a cenas tiradas de Akira, Superman – O Filme e até da abertura de Os Simpsons). A base para a história foi a dispensável minissérie Origem e o diretor (cujo nome nem perderei tempo procurando) parece só não ter assistido ou lido as coisas certas para fazer um bom filme sobre Wolverine (que seriam no caso X-Men 2 e a HQ Arma-X). Nesse filmeco de ação militarista e situações de mau-gosto, até os efeitos especiais são falhos (na sequência de luta final, Wolverine, Victor e Arma XI parecem bonequinhos de video game).

Em resumo, é lastimável o fato de Bryan Singer ter deixado incompleto seu trabalho na trilogia dos heróis mutantes (pois ele poderia ter avançado em relação ao que havia conseguido com X-Men 2, criando algo realmente memorável para os fãs de quadrinhos). Ainda assim, X-Men: O Confronto Final tem bons efeitos e é um filme assistível. Já X-Men Origens: Wolverine é um caso bem diferente, tratando-se de um lixo cinematográfico que não vale o trabalho de sair de casa e muito menos o preço do ingresso (ainda bem que, para escrever este texto, gastei apenas R$6,00, aproveitando a promoção de terça-feira!). Só resta torcer para que este tenha sido o último filme dos X-Men e do Wolverine, pelo menos pela próxima década (mesmo porque, apesar dos músculos que arrancam suspiros das mocinhas, Hugh Jackman está ficando meio velhinho para interpretar o Wolverine).

04/05/2009

O melhor dos X-Men no cinema.


Lançados em 1963 pela Marvel Comics, os X-Men tornariam-se nas décadas seguintes o grupo de super-heróis mais popular e rentável dos quadrinhos. Tanto que, além de dar origem a toda uma linha de revistas de heróis mutantes nos anos 80, os X-Men ganharam uma série de animação nos anos 90 (cujas principais consequências foram tornar Wolverine um personagem amplamente conhecido e ensinar aos leitores brasileiros a correta pronúncia do nome do grupo, uma vez que até então nós falávamos “xis-mem”). Com a crescente popularidade entre os leitores de quadrinhos e o público da série de animação, a idéia de um filme para o cinema seria algo quase natural. Assim, após alguns anos de produção e meses de muita expectativa por parte dos fãs, em julho de 2000 estreou X-Men – O Filme, sucesso de bilheteria que inaugurou a atual onda de adaptações de HQs para o cinema.

Dirigido por Bryan Singer, X-Men – O Filme seguiu alguns dos elementos de Superman – O Filme, a melhor adaptação cinematográfica de super-heróis já feita (não é mera coincidência que o diretor do longa de 1978, Richard Donner, seja um dos produtores executivos da produção de 2000). Como o filme que lhe serviu de exemplo, o longa dos X-Men pôde contar com um diretor que entendia o projeto, atores consagrados que lhe davam lastro e protagonistas relativamente desconhecidos que se adequavam bem a seus papéis. Embora Tempestade e Ciclope pareçam meros elementos decorativos, por sua vez Professor Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Sir Ian McKellen), Wolverine (Hugh Jackman) e Vampira (Anna Paquin) não deixam a desejar. E se Jean Grey e Homem-de-Gelo parecem deslocados, Mística e Dente-de-Sabre são ótimas surpresas, superando em muito suas versões quadrinísticas.

Ao lado de boas atuações e caracterizações, a maior qualidade de X-Men – O Filme é o respeito pelos quadrinhos, em sua tentativa de uma abordagem realista do tema (tratado na verdade como uma história de ficção científica). Há é claro algumas alterações (como as roupas de couro preto que causaram controvérsia entre os fãs), algumas liberdades (como a relação afetiva entre Wolverine e Vampira, que nas HQs acontecia entre Logan e Kitty Pryde) e alguns excessos (como o aparelho que funciona à base de eletromagnetismo, emitindo uma radiação que origina poderes mutantes). Além disso, os mesmos efeitos visuais de ponta que permitiram a existência de um filme com muitos vôos, rajadas óticas e garras retráteis, mostram suas limitações em vários momentos, comprometendo a verossimilhança das cenas. Há também problemas com as sequências de luta demasiadamente coreográficas.

Contando com a consultoria de Stan Lee, o roteiro de X-Men – O Filme tem falhas, mas é eficiente em apresentar a temática da perseguição e do preconceito sofridos pelos mutantes. E se nos quadrinhos a identificação dos mutantes com minorias raciais, sexuais ou religiosas é um traço importante, num filme voltado a um público mais amplo esse fato é ressaltado. Logo, não é por menos que a primeira cena se passa num campo de extermínio nazista, ou que o ator Ian McKellen tenha sido convencido por Bryan Singer de que uma história com super-heróis podia servir de metáfora para o preconceito contra os homossexuais. Mensagens à parte, o filme tem alguns ótimos momentos, como as três cenas em que Professor Xavier e Magneto se contrapõem (no senado, em frente à estação de trem e na cela de plástico) ou as três sequências principais com Wolverine e Vampira (na estrada, na Mansão-X e no vagão de trem).

Disponíveis na versão para DVD X-Men 1.5, as cenas cortadas mostram que a história era ainda mais centrada em Vampira. Contudo, na versão para os cinemas, parece ter se buscado um equilíbrio entre os personagens (que acabou não sendo alcançado). A Tempestade Halle Berry, por exemplo, não tinha muito o que fazer com poucas cenas relevantes e uma ridícula peruca branca. Por sua vez, os intérpretes de Ciclope (James Marsden) e Jean Grey (Famke Hanssen) deixam claro, nos extras do DVD, que não tinham conhecimento ou muito respeito pelos quadrinhos que inspiraram seu trabalho. Já o Wolverine Hugh Jackman é um caso completamente diferente, pois (embora não conhecesse de antemão seu personagem) o ator mostrou empolgação desde o início, sendo perfeito no papel que mudaria sua carreira. Para completar, há o duelo entre Patrick Stewart e Ian McKellen, que acrescenta qualidade ao filme.

Ao ser exibido em 2000, X-Men – O Filme deixou uma sensação de algo que ficou pela metade, de uma adaptação que não é ruim, mas que poderia ter sido muito melhor. Felizmente, o sucesso de bilheteria garantiu uma continuação, que se tornaria a melhor versão dos heróis da Marvel já feita para o cinema. Lançado em maio de 2003, também dirigido por Bryan Singer e contando com o mesmo elenco de base, X-Men 2 tem todas as virtudes do primeiro filme, corrigindo seus principais erros. Uma produção bem mais madura, essa continuação traz um roteiro muito melhor, efeitos especiais e visuais impecáveis, cenários e figurinos ainda mais convincentes e até mesmo uma música-tema mais empolgante. Começando por sua primeira cena, o filme provou que tinha vindo para agradar: numa sequência fantástica, Noturno invade a Casa Branca, dá uma surra nos seguranças e quase mata o presidente.

A seguir, novos vilões são introduzidos e temos um ataque à Mansão-X, com direito a garras retalhadoras e novos poderes mutantes. O público também descobre um pouco mais sobre o nebuloso passado de Wolverine (nos moldes da HQ Arma-X de Barry Windsor-Smith). Halle Berry (depois de um Globo de Ouro e um Oscar) ganhou mais importância e um cabelo menos falso (e o que parece estranho é o cabelo de Wolverine nas cenas que Hugh Jackman teve que filmar quando já protagonizava o filme Van Helsing). Como até Ciclope e Jean Grey estão mais convincentes, todos os X-Men principais têm o devido espaço na continuação, não faltando ainda momentos relevantes para Homem-de-Gelo, Pyro, Vampira ou até Colossus. Isso sem falar na vilã Mística, que volta para exibir suas perícias acrobáticas e marciais nos belos contornos da modelo e atriz Rebecca Romjin-Stamos. Professor-X e Magneto retornam perfeitos.

X-Men 2 é indiscutivelmente um filme superior ao primeiro, tendo até o efeito de “melhorar” X-Men – O Filme (eu, por exemplo, tenho hoje uma opinião bem mais favorável do que a que tive ao sair do cinema em 2000). Além disso, as produções cinematográficas influenciaram os quadrinhos dos heróis mutantes na época, estabelecendo uma identidade com o que Grant Morrison fazia em New X-Men e servindo de base para o trabalho de Mark Millar em Ultimate X-Men. Com o sucesso de público das duas primeiras produções cinematográficas, era grande a expectativa por um terceiro filme, no qual Bryan Singer & Cia. pudessem completar sua “saga”. Em entrevistas, diretor e produtores chegaram a falar de suas idéias para a terceira parte da trilogia. Mas então um “S” e muitos dólares entraram no caminho, e Bryan Singer trocou os “filhos do átomo” pelo “filho de Krypton”. E sem o competente diretor, X-Men 3 acabou sendo algo lastimável!

20/02/2009

Quais são as piores adaptações cinematográficas do século?


Houve um tempo em que adaptações dos quadrinhos para o cinema eram algo raro de se ver. Por isso mesmo, o lançamento de Superman – O Filme em 1978 e de Batman em 1989 foram verdadeiros acontecimentos de massa, que mobilizaram fãs por todo o mundo. Nos últimos tempos, porém, com os avanços dos efeitos visuais e a descoberta pelos estúdios de Hollywood do potencial mercadológico dos super-heróis, mais e mais produções têm se sucedido. Além disso, para grandes editoras como a Marvel e a DC, ter seus personagens estrelando longas-metragens de sucesso tornou-se uma importante fonte de renda. Mas, como era de se esperar, a pura exploração comercial e a ganância desenfreada não são receitas para obras de qualidade. Quem sobreviveu aos dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher talvez não imaginasse que se pudesse fazer produções milionárias ainda piores que aquelas. Contudo, alguns filmes dos últimos dez anos conseguiram essa façanha.

Segue então minha lista com as que considero as piores adaptações para o cinema da última década ou deste século, se preferirem (inicialmente, minha lista tinha apenas cinco filmes, mas outros acabaram tendo que ser incorporados).

1. A Liga Extraordinária (para mim a pior adaptação de todas, pois conseguiu pegar um quadrinho muito bacana, distorcê-lo, diminuí-lo e enxertá-lo, dando origem a puro e simples lixo cinematográfico. Sean Connery merecia coisa melhor!).

2. The Spirit (Frank Miller achou que estava fazendo um filme de Sin City e acabou deturpando completamente o espírito da obra-prima de Will Eisner).

3. X-Men Origens: Wolverine (tão ruinzinho que nem merece ser chamado de filme, mas sim de mero caça-níqueis de Hollywood).

4. Mulher-Gato (nem assisti, mas todo mundo fala tão mal que realmente tenho mais o que fazer e meu dinheiro não é capim. Além disso, as cenas que vi da Halle Bery vestida de Mulher-Gato só me deram saudades da Michelle Pfeiffer e seu inesquecível “miau!” em Batman - O Retorno).

5. Superman - O Retorno (um filmeco que jamais deveria ter sido feito).

6. Hulk (Ang Lee podia ter feito algo melhor do que uma bola verde saltitante, que mais parece o Geléia dos Caça-Fantasmas depois dos esteróides).

7. Elektra (tão chato que não consegui passar dos dez primeiros minutos).

8. Demolidor (o ator Ben Affleck deve ter ficado feliz em interpretar seu super-herói favorito, mas acho que só ele gostou desse filme).

9. Quarteto Fantástico (história, elenco e produção fraquíssimos. Ainda bem que assisti a isso de graça, na tevê).

10. Homem-Aranha 3 (falta história e sobram vilões. Ainda bem que também assisti de graça na tevê).

Fico aguardando os comentários de vocês com suas listas das piores adaptações dos últimos dez anos. Não deixem de participar!

07/02/2008

A verdadeira origem e história de Wolverine.


Hoje pode parecer incrível, mas não muito tempo atrás era possível que alguém recém-chegado ao mundo dos quadrinhos jamais tivesse ouvido falar de um herói chamado Wolverine. O fato é que, desde os anos 80, a popularidade desse personagem e sua exposição nas HQs, animações e filmes foi tanta que, mesmo para alguém que não lê quadrinhos, “Wolverine” pode ser um nome familiar. Embora nos últimos tempos as várias transformações, reviravoltas e revelações, sem falar nas muitas cópias e plágios, tenham levado a uma superexploração e ao desgaste do personagem, houve um momento em que Wolverine esteve na "vanguarda" dos quadrinhos de super-heróis.

O wolverine (carcaju, em português) é um pequeno mamífero peludo e de garras afiadas, que vive no norte da América do Norte. No início dos anos 70, o roteirista Len Wein em parceria com o desenhista John Romita Sr. inspiraram-se no feroz bichinho para criar um novo super-herói. Com isso, o herói mutante Wolverine fez sua estréia na revista The Incridible Hulk n°180, desenhada por Herb Trimpe, participando de sua primeira HQ completa na edição seguinte, em novembro de 1974. Nesta edição, o “Gigante Verde” enfrenta um monstro lendário chamado Wendigo e acaba esbarrando no Wolverine, então um agente do governo canadense que já colocava em ação suas garras de “adamantium”.

Mas foi no ano seguinte que o personagem ganhou sua primeira grande chance, quando Len Wein e o desenhista Dave Cockrum integraram-no ao elenco dos novos X-Men. Posteriormente, Chris Claremont e John Byrne deram-lhe maior destaque entre os heróis mutantes, além de um visual mais moderno. Byrne teve ainda um papel importante na biografia de Wolverine ao relacioná-lo ao grupo de heróis canadenses Tropa Alfa e ao nome Arma-X. Já Claremont, em parceria com Frank Miller, apresentou a versão mais marcante do herói, em sua minissérie lançada em 1982. Assim, a partir de HQs dos X-Men, como “Dias de um futuro esquecido”, e da minissérie Wolverine, o personagem abriu caminho direto para o topo do “Universo Marvel”.

Além de um papel cada vez mais predominante na revista The Uncanny-X-Men e nas “sagas” dos heróis mutantes, o baixinho briguento passou a fazer aparições ao lado de outros heróis, como Capitão América, Demolidor, Hulk e Destrutor (neste último caso na ótima minissérie com arte pintada Fusão). Em fins dos anos 80, tendo ganhado uma revista própria, e num contexto em que os quadrinhos de super-heróis se tornavam mais violentos e os personagens mais agressivos, Wolverine assumiu a condição de principal estrela da Marvel (afinal, num verdadeiro “matadouro”, um herói com garras afiadas teria que ser mesmo o açougueiro-mor!). E com uma grande popularidade entre os leitores, na virada para os anos 90, várias edições e HQs especiais foram dedicadas a ele.

Um bom exemplo foi “Arma-X”, uma das primeiras e a melhor história a contar o passado de Wolverine. Lançada em 1990, em capítulos na Marvel Comics Presents n°s 72 a 84, a HQ foi escrita e desenhada por Barry Windsor-Smith. O artista já havia mostrado um excepcional trabalho numa HQ-solo de Wolverine para a revista The Uncanny X-Men n° 205 (publicada no Brasil em Heróis da TV n°100). E quando surgiu a oportunidade de fazer uma nova história com o personagem, Barry enfocou o passado até então desconhecido do herói. Com uma abordagem direta, ótima narrativa e desenhos incrivelmente detalhados, “Arma-X” conta como o mutante Logan adquiriu suas garras e esqueleto de adamantium, num projeto para criação de um super-soldado.

Wolverine voltaria a ser destaque nas páginas de Marvel Comics Presents em HQs e capas desenhadas por Sam Kieth, para os números 85 a 92, 100 e 117 a 122 (a maior parte delas publicada no Brasil, na revista Wolverine da editora Abril). Com seu traço que incorpora elementos caricaturais e experimentações estilísticas, Kieth conseguiu suavizar o caráter violento do herói, ao mesmo tempo em que introduzia alguns elementos novos às HQs de super-heróis. Esses trabalhos, lançados entre 1991 e 1993, também serviriam de base para o que o desenhista faria na série The Maxx, lançada pela Image Comics. E Kieth ainda desenharia o herói mutante na minissérie, com bela arte pintada, Wolverine/Hulk (lançada no Brasil em revista única pela Panini).

A partir de 1990, Wolverine apareceria em diversas edições no chamado “Prestige Format” (com capa cartonada, papel e impressão de melhor qualidade no miolo). Os destaques: The Jungle Adventure, com os desenhos de Mike Mignola na fase de consolidação de seu estilo; Bloodlust produzido pela dupla Alan Davis e Paul Neary, responsável por outras revistas de heróis mutantes; Inner Fury com o traço fortemente estilizado e caricaturizado de Bill Sienkiewicz; e por fim Killing, que traz o estilo originalíssimo de Kent Williams (boa parte dessas HQs foi publicada pela editora Abril). Com esses trabalhos, Wolverine assumiu uma posição semelhante à que Batman teve na segunda metade dos anos 80, estando na “vanguarda” dos quadrinhos de super-heróis.

Após anos de sucesso, Wolverine passou a ser um modelo a ser copiado, como mostra o Lobo, personagem da DC Comics que satiriza o herói da Marvel. Mas a “wolverinemania” também gerou péssimas crias, como os diversos clones surgidos nas revistas da Image Comics nos anos 90. A interminável galeria de plágios acabou afetando o original, que já não causava o mesmo impacto. A saída encontrada pela Marvel foi lançar revistas recontando o passado e a “origem” do personagem, ou até mesmo mudando radicalmente seu visual. O resultado foram anos de mudanças físicas, lavagens cerebrais e muita bobagem editorial, que só contribuíram para complicar suas HQs e afastar antigos leitores.

Nos últimos anos, talvez o que melhor se viu de Wolverine não tenha sido nos quadrinhos, mas sim no cinema. Perfeito no papel do personagem na trilogia X-Men, o ator Hugh Jackman se prepara agora para estrelar o filme-solo do temperamental e violento mutante (com lançamento previsto para 2009). Mas, apesar dos recentes erros e jogadas editoriais, houve um momento em que Wolverine foi o personagem mais popular dos quadrinhos norte-americanos, contribuindo para o desenvolvimento das revistas de super-heróis.

04/02/2008

A história que definiu o futuro dos X-Men.


Quando comecei a colecionar quadrinhos, havia uma edição que (embora não fosse muito antiga) era especialmente difícil de encontrar nas bancas de revistas usadas: a Superaventuras Marvel n° 45. A capa dessa revista traz uma cena intrigante, na qual um envelhecido Wolverine tenta proteger uma mulher, enquanto um holofote ilumina a parede ao fundo revelando um cartaz que lista vários heróis mutantes com a tarja de “morto” ou “preso”. A HQ dos X-Men naquele número era “Dias de um futuro esquecido”, primeira parte de uma história que definiria o futuro dos heróis mutantes.

Produzida em conjunto por Chris Claremont e John Byrne, a história publicada originalmente em The Uncanny X-Men n°s 141 e 142 ficou conhecida pelo título de sua primeira parte: “Days of Future Past”. Publicada em janeiro e fevereiro de 1981, a HQ mostra um futuro sombrio no qual os robôs Sentinelas dominaram o continente norte-americano (após extrapolarem sua missão de “combater a ameaça mutante”). Nessa sociedade dominada pelas máquinas e dividida em castas genéticas, os mutantes em geral são identificados e confinados em campos de concentração, enquanto todos aqueles que resistem à nova ordem estabelecida são caçados e exterminados.

Na primeira página da HQ, somos levados ao ano de 2013, e a maioria dos heróis Marvel (como os membros do Quarteto Fantástico e Vingadores, além dos mutantes Professor Xavier, Ciclope e Noturno) foi morta durante os conflitos que culminaram na tomada de poder pelos Sentinelas. Enquanto planejam dar prosseguimento ao programa de extermínio dos mutantes, invadindo outros países, os robôs gigantes levam o mundo à beira de um conflito entre superpotências. Para dar fim à ditadura das máquinas e evitar o holocausto nuclear, um grupo de antigos X-Men (liderados por Wolverine e Tempestade e auxiliados por Magneto) coloca em prática seu derradeiro plano.

Utilizando os poderes de Rachel Summers (personagem até então inexistente), a “consciência” da mutante Kitty Pryde é enviada ao passado e trocada por sua versão trinta anos mais jovem. Após se recuperar do choque de se ver rejuvenescida e de reencontrar amigos que viu mortos, Kitty dá início à sua missão: evitar o assassinato do senador Robert Kelly pelos membros da Irmandade dos Mutantes (evento que daria início à crescente perseguição sofrida pelos mutantes). A partir daí, a HQ toma um desenrolar mais comum às histórias dos X-Men (com sequências de luta e exibições de poderes), mas sua segunda parte ainda traz algumas cenas de impacto (como as mortes de conhecidos heróis mutantes).

Por vários motivos, “Dias de um futuro esquecido” marcou época, tornando-se uma das HQs mais influentes dos X-Men já feitas. Publicada pouco após a chamada “Saga da Fênix Negra”, a HQ futurista dava continuidade a uma abordagem mais madura dos quadrinhos de super-heróis, em que a morte é uma possibilidade até mesmo para protagonistas (como se vê na capa de The Uncanny X-Men n° 142, que traz a cena do Wolverine de 2013 pulverizado por um Sentinela). Mais significativo ainda foi a inclusão de temáticas político-sociais, em particular a questão da perseguição aos mutantes, representada nos moldes da perseguição nazista às minorias raciais (com leis segregacionistas, campos de concentração e símbolos de distinção nas roupas).

Se a temática da perseguição racial seria fundamental para as revistas dos heróis mutantes nas décadas seguintes, o próprio futuro apocalíptico seria reeditado em outras histórias (como a série de anuais “Days of Future Present”). Também a personagem Rachel Summers teria um papel significativo nos anos 80, reaparecendo na primeira HQ dos Novos Mutantes desenhada por Bill Sienkiewicz e assumindo o papel da nova Fênix. Elementos de “Dias de um futuro esquecido” foram ainda utilizados na série de animação dos X-Men e nos três filmes produzidos para o cinema. Além disso, a leitura de The Uncanny X-Men n°s 141 e 142 teria inspirado James Cameron na criação do filme de ficção científica O Exterminador do Futuro, sem falar no futuro apocalíptico e na viagem ao passado feita pelo Hiro do futuro na primeira temporada de Heroes.

Aquelas edições também marcaram o momento em que Wolverine se tornava o personagem mais popular dos X-Men e um dos principais heróis da Marvel (como deixam claro as capas de The Uncanny X-Men n°s 141 e 142). Mas, ao que consta, uma consequência imediata de “Days of Future Past” foi ter causado o desentendimento final entre o roteirista Chris Claremont e o desenhista John Byrne. Após essa história que definiria o futuro dos X-Men, a dupla (que tornou os personagens mutantes os mais populares e rentáveis da Marvel) se separou. Contudo, a semente estava plantada, e nas próximas duas décadas as revistas dos heróis mutantes trariam a sombra de um futuro sombrio. Para saber mais sobre os quadrinhos abordados aqui, clique nas palavras em destaque abaixo.

04/11/2007

A marcante minissérie do Wolverine.


Publicada nos Estados Unidos em 1982, Wolverine reuniu dois grandes astros dos quadrinhos de super-heróis: Chris Claremont que conseguira (em parceria com John Byrne) transformar os X-Men nos personagens mais lidos dos comics, e Frank Miller que fizera da revista do Demolidor uma das mais inovadoras do mercado norte-americano. A minissérie Wolverine é o encontro dessas duas experiências bem-sucedidas, numa HQ dedicada a um personagem em ascensão. Como resultado, aquelas quatro revistas deram início à “wolverinemania”.

A história de Wolverine começa no Canadá e faz referências à época em que o herói era um agente-secreto do governo canadense (o que dá ao roteiro um estilo James Bond). Mas as ligações com as HQs dos X-Men criadas por Claremont e Byrne terminam na sétima página da minissérie. Para encontrar um amor do passado, o herói mutante viaja ao Japão, onde tem que enfrentar ninjas e mafiosos japoneses (bem no estilo dos quadrinhos de Frank Miller).

Os personagens coadjuvantes e a temática de Wolverine estão mais próximos das histórias do Demolidor, do que das HQs dos X-Men. Logo, era de se esperar que o herói mutante ficasse um tanto deslocado, mas isto não acontece, graças às alterações introduzidas por Miller. Além de adaptar o personagem a seu estilo de desenho, Miller modificou o formato de suas garras (que passaram a se assemelhar a lâminas de espadas japonesas) e alterou sua postura e técnicas de luta, aproximando-o dos ninjas e samurais. Contudo, essas mudanças por si sós não resumem as inovações desta HQ.

Ao lidar com ninjas e samurais, Miller inspirou-se na narrativa dos quadrinhos japoneses, criando cenas de luta bastante eficientes. Dividir a página em 4 ou 5 quadros alongados (algo comum no mangá Lobo Solitário) permite ao desenhista representar os personagens e a ação por inteiro, privilegiando o dinamismo da cena. Se a história de Claremont (com suas referências à “honra” e aos “tradicionais costumes japoneses”) não é nenhuma obra-prima, a narrativa e os desenhos de Miller foram decisivos para o sucesso da minissérie. Com ela, surgia um Wolverine mais violento e impiedoso, que deixaria marcas na trajetória do personagem (e até de seus vários “clones”) nas décadas seguintes.
No Brasil, a minissérie Wolverine foi lançada pela editora Abril em 1987 e relançada mais recentemente pela Panini em volume único. Em 2006, a Marvel relançou o trabalho de Claremont e Miller numa edição em capa-dura para a série Premiere.

03/11/2007

A história dos X-Men (1987-1992).


Em 1987, Marc Silvestri se estabelece como o desenhista regular da The Uncanny X-Men, porém, começa aí o declínio dos roteiros de Claremont. A fórmula de sucesso já estava muito gasta e a falta de criatividade do roteirista originou histórias redundantes, que não traziam realmente nada de novo. Assim surgiram séries como "Massacre dos Mutantes", "A Queda dos Mutantes" e "Programa de Extermínio", que exploram exageradamente a perseguição aos personagens.

Os desenhos tornaram-se então o único atrativo da The Uncanny X-Men, e isso até 1989, quando Marc Silvestri passa a desenhar a revista Wolverine. Com sua saída, a principal revista dos X-Men passa por uma fase muito ruim, em que também os desenhos pioram terrivelmente. Essa fase durará até 1990, quando Jim Lee assume a arte da revista.

Considerado um dos melhores desenhistas dos quadrinhos norte-americanos da década de 1990, Jim Lee foi um dos grandes responsáveis pela difusão da estética dos quadrinhos japoneses nos Estados Unidos. Com um traço dinâmico e bem cuidado, ele conquistou uma legião de fãs. Com isso, ao lado de Rob Liefeld e Todd McFarlane, Lee criou um dos momentos de maior valorização dos desenhistas nos quadrinhos norte-americanos.

O sucesso destes autores foi tanto que a Marvel Comics criou novas revistas especialmente para eles: X-Force para Lifield, Spider-Man para McFarlane e X-Men para Lee. Esses desenhistas eram a "galinha dos ovos de ouro" da editora, com revistas que bateram todos os recordes de vendas do mercado norte-americano. Jim Lee tinha tudo para ser o John Byrne dos anos 90, mas a "festa" da Marvel durou pouco.

Em 1992, na companhia de Liefeld, McFarlane e outros desenhistas, Jim Lee fundou a Image Comics, levando consigo milhares de fãs, que na verdade compravam as revistas por seus desenhos. Pela primeira vez, os autores haviam se colocado acima não só dos personagens e das revistas, mas também das grandes editoras. O êxodo dos fundadores da Image Comics foi um duro golpe para a Marvel, representando uma queda nas vendas de suas principais revistas e o surgimento de uma forte concorrente no mercado.

Com o tempo, as revistas dos heróis mutantes conseguiram recuperar parte do prestígio mercadológico, conquistando novos fãs e dando espaço a novos desenhistas. Nos últimos anos, porém, com a superexploração dos personagens principais e a repetição das fórmulas de sucesso, o que fez dos X-Men uma série de quadrinhos que valia a pena ser lida acabou se perdendo numa confusão de “sagas” e truques mercadológicos.

A história dos X-Men (1983-1986).


Sob a direção do roteirista Chris Claremont, os heróis mutantes firmaram-se como um grande sucesso do mercado norte-americano. Isso colaborou para o desenvolvimento da indústria dos comics e criou uma verdadeira "X-mania". O fato é que de 1983 a 1986, os X-Men viveram uma de suas melhores fases.

Nesse período, Claremont cria histórias que exploram o preconceito e a perseguição sofridos pelos X-Men, trazendo de volta a personagem Rachel Summers, a sobrevivente de um futuro em que os mutantes foram aprisionados em campos de concentração e quase completamente exterminados.

A revista The Uncanny X-Men tornava-se o carro-chefe da Marvel Comics, contando com o talento de desenhistas como Paul Smith, John Romita Jr, Alan Davis, Rick Leonardi, Arthur Adams e Barry Windsor-Smith. O enorme sucesso dos heróis mutantes motivou a editora a criar outras revistas com heróis mutantes, e assim surgiram: X-Factor, Excalibur e New Mutants, sendo que esta última contou com uma excelente fase ilustrada por Bill Sienkiewicz.

Ainda aproveitando a popularidade dos X-Men, em 1985 a Marvel publicou a revista especial Heroes for Hope, produzida por um time de astros dos quadrinhos norte-americanos, que incluía Frank Miller, Brian Bolland, Alan Moore, Berni Wrightson e Stan Lee, além do escritor Stephen King. Parte dos recursos obtidos com a venda da revista foi empregada na luta contra a fome na África. No ano seguinte, a DC Comics produziu uma revista similar, estrelada por Super-Homem e Batman.

Em meio a tudo isso, Wolverine já era o principal integrante dos X-Men e um dos super-heróis mais populares dos quadrinhos norte-americanos. Tanto que na segunda metade da década de 1980 ele ganhou uma revista própria e apareceu em várias histórias de outros heróis não-mutantes, como Capitão América e Hulk. Não faltaram ainda edições especiais desenhadas pelos melhores artistas da época, como Mike Mignola, Alan Davis, Bill Sienkiewicz e Kent Williams.

Mas se o sucesso dos heróis mutantes da Marvel nunca fôra tão evidente ou avassalador, a revista The Uncanny X-Men começava a perder qualidade. Após uma década à frente dos heróis mutantes, os roteiros de Chris Claremont começavam a mostrar sinais de desgaste.

A história dos X-Men (1977-1982).


O elemento que faltava para o sucesso dos X-Men veio em 1977, quando a revista The Uncanny X-Men passou a ser desenhada por John Byrne. Dono de um traço definido e dinâmico, que explorava ao máximo os roteiros de Claremont, Byrne conseguia representar com bastante competência os ambientes fantásticos e as cenas de ação, dando mais força e credibilidade às HQs.

Histórias como a "Saga da Fênix Negra" ou "Dias de um Futuro Esquecido" tornaram-se marcos dos quadrinhos, colaborando para o desenvolvimento da indústria dos comics na década de 1980. A partir do trabalho de Byrne, os X-Men tornaram-se um enorme sucesso, e nem sua saída da revista, após um desentendimento com Claremont, prejudicou seriamente a trajetória de sucesso dos heróis mutantes.

Foi ainda na fase Claremont/Byrne que Wolverine, o mutante mais famoso dos quadrinhos, ganhou maior espaço entre os X-Men. Lançado por Len Wein e Herb Trimpe, ele apareceu pela primeira vez numa história do Hulk lançada em 1974, tornando-se um dos novos X-Men no ano seguinte. Mas o momento decisivo na trajetória do personagem foi a minissérie Wolverine, lançada em 1982, com textos de Claremont e desenhos de Frank Miller.

A ascensão dos X-Men no início da década de 1980 ajudou a definir o futuro do mercado de quadrinhos nos Estados Unidos. As questões abordadas em suas histórias, como o racismo e a morte, trouxeram um certo amadurecimento para as HQs de super-heróis. Um amadurecimento, aliás, que também aconteceu nas histórias dos Novos Titãs da DC Comics, onde são abordados problemas como as drogas e o fanatismo religioso.

Na época, isso correspondeu a dois fatores principais: o aumento da média de idade dos leitores, que continuavam a ler quadrinhos durante a adolescência, e um considerável aumento na venda de revistas, que passavam a contar com um crescente público juvenil. Tudo isso convergiu para a explosão criativa dos comics em meados da década de 1980, simbolizada pela minissérie O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. E os X-Men ainda teriam outras contribuições a dar aos quadrinhos de super-heróis.

A história dos X-Men (1963-1976).


Um mutante é um ser que sofreu alterações em seu código genético. Nos quadrinhos da Marvel Comics, eles são seres superpoderosos que lutam contra o preconceito, ou pelo domínio do mundo. Representados principalmente pelos X-Men, os heróis mutantes estão entre os campeões de vendas no mercado norte-americano. Mas nem sempre foi assim.

Os X-Men foram criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, a dupla que transformou os quadrinhos de super-heróis ao criar o Universo Marvel. No início, eles eram apenas cinco: Ciclope, Anjo, Fera, Homem de Gelo e Garota Marvel, além do Professor X, o mentor do grupo. Os X-Men originais geralmente enfrentavam vilões mutantes que ameaçassem a ordem social ou buscassem dominar o mundo, como Magneto, o Fanático ou a Irmandade dos Mutantes. Outra ameaça contra a qual esses X-Men lutaram foram os Sentinelas, robôs criados com o objetivo de exterminar os mutantes.

A fase Lee/Kirby não durou muito, surgindo vários substitutos para estes autores, durante a década de 1960. Entre eles, o destaque é o desenhista Neal Adams que, em parceria com o roteirista Roy Thomas, produziu algumas das melhores HQs dos X-Men originais. Contudo, na primeira metade da década de 1970, os heróis mutantes passaram pelo pior momento de sua história. As vendas caíram e a revista The X-Men passou a reeditar antigas histórias.

A situação só melhorou quando, em 1975, foram criados os novos X-Men. Os responsáveis pelos novos heróis foram os roteiristas Len Wein e Chris Claremont e o desenhista Dave Cockrum. Introduzindo personagens como Tempestade, Noturno, Colossus e Wolverine, esses autores revitalizaram a revista, abrindo espaço para o sucesso que viria em seguida.

Com heróis e histórias mais agressivos, os roteiros de Claremont davam ênfase aos problemas e dramas dos personagens, enquanto levavam os X-Men a enfrentar ameaças em âmbito mundial e até interestelar. Assim, personagens como Fênix e Wolverine, que lutam para controlar seu “lado sombrio” ou selvagem, passaram a ter mais espaço. Mas ainda faltava algo para o sucesso dos X-Men se concretizar!