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18/11/2013

FIQ 2013 (3)!

No estande da editora NEMO, ao lado do cartunista Nilson Azevedo - com quem aprendi muito!

Foi Nilson, por exemplo, que me apresentou Pererê de Ziraldo e Frandim de Henfil (temas de meu mestrado e doutorado), que me emprestou exemplares dos livros Maíra de Darcy Ribeiro e Xingu: os índios, seus mitos de Cláudio e Orlando Villas-Bôas (importantes na criação de meu personagem Solar), além de me apresentar a Corto Maltese de Hugo Pratt e Arzach de Moebius (que eu viria a editar para a NEMO, duas décadas depois).

10/08/2009

Entrequadros: algumas entrevistas sobre quadrinhos.


Fiz minhas primeiras entrevistas com quadrinistas em 1997. Conhecer um pouco mais sobre a trajetória e as idéias de outros autores de quadrinhos sempre foi algo que me interessou bastante. Inicialmente, as entrevistas tinham como destino páginas de jornais. Foi assim com minhas conversas com Nilson, Julio Shimamoto, Angeli, Lourenço Mutarelli, Jô Oliveira, Guga Schultze e Lacarmélio (Celton). A com o mestre Flavio Colin foi feita para o último número da revista Caliban. Já as que fiz com Mozart Couto e Cleuber Cristiano tiveram como destino o primeiro saite que criei, há uns dez anos. Todas foram reunidas no livro Entrequadros, lançado em 2004 pela editora Marca de Fantasia (atualmente esgotado). Para quem não leu o livro ou não acompanhou as entrevistas quando as postei aqui no blog, publico agora a lista completa. Não deixem de conferir!

Mozart Couto:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/mozart-couto-um-maestro-dos-quadrinhos.html

Cleuber Cristiano:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/07/cleuber-um-ltimo-rebelde-do-rock.html

Flavio Colin:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/flavio-colin-um-dos-mais-importantes.html

Lacarmélio (Celton):
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/celton-um-heri-dos-quadrinhos.html

Angeli, Jô Oliveira, Guga Schultze e Lourenço Mutarelli:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/4-x-4.html

Julio Shimamoto:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/julio-shimamoto-o-samurai-dos.html

Nilson:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/08/nilson-o-guerrilheiro-do-cartum.html

08/08/2009

Nilson, o guerrilheiro do cartum.


Nilson Adelino Azevedo é, como ele mesmo costuma se definir, “o cartunista anônimo mais famoso de Belo Horizonte”. Consciente da função política e da importância social dos cartuns e quadrinhos, Nilson criou personagens como o Negrim, inspirado nas experiências de sua infância no interior de Minas Gerais, e A Caravela, uma série de histórias em quadrinhos e tirinhas sobre as Grandes Navegações (do ponto de vista dos marinheiros). Em sua incansável “guerrilha do traço”, ele publicou charges e cartuns no Pasquim e em alguns dos principais jornais do país, além de ser um dos criadores do Humordaz e companheiro de Henfil na luta contra a Ditadura. Nos últimas décadas, Nilson está afastado da grande imprensa, encontrando espaço na imprensa alternativa e sindical. Aproveito então a data de seu aniversário para compartilhar com vocês uma entrevista que fizemos em 1997. Parabéns então a Nilson e muito obrigado!

Comece do princípio...

Eu nasci em Belo Horizonte, no dia 8 de agosto de 1948. Mas me considero de Raul Soares, que é uma cidade da Zona da Mata (de Minas Gerais), porque eu fui pra lá com um ano, e todo meu inconsciente, toda minha vida afetiva, tudo que eu faço não é nada mais, nada menos, que uma expansão do tempo que vivi no interior. Raul Soares “me deu régua e compasso”. Inclusive, a noção de Infinito me veio pela primeira vez olhando uma latinha de Pó Royal. O dia que eu vi a latinha de Pó Royal, com a latinha desenhada no rótulo, e nela outra latinha desenhada, e outra desenhada dentro desta, e assim por diante... eu entendi pela primeira vez, mais ou menos pelos 9 ou 10 anos, o que era o Infinito.

Você também descobriu os desenhos e os quadrinhos lá em Raul Soares?

Pelo que meus pais me contaram, com 2 ou 3 anos eu já rabiscava a parede. Eu cresci envolvido pelos quadrinhos, minhas irmãs eram colecionadoras fanáticas de quadrinhos do Flash Gordon, do Príncipe Valente, do Batman. Aí, eu comecei a ler todos os quadrinhos, e a desenhar todos os estilos, copiando os desenhistas. Sem saber, eu estava estudando.

Por que você optou pelo desenho de humor?

Eu escolhi este desenho, que chamo de cartum, porque ele permite uma variação maior, uma expressividade muito maior do que o desenho acadêmico, do que o desenho do quadrinho de herói. Uma das coisas mais fantásticas que o cartum estabelece é fazer o leitor ver que a realidade pode ser desenhada de uma maneira que não é o retrato, que não é o desenho acadêmico. Isso provoca na inteligência do leitor uma grande reviravolta.

O desenho é uma forma de fazer política...

Política pra mim é você mudar diretamente o real. A arte, a filosofia, o humor são maneiras de você mudar o simbólico, que pode ajudar a mudar o real. Eu uso o “estilo cartum” na charge e no quadrinho. Ele permite a crítica, mas também a caracterização carinhosa de nós mesmos, em oposição àquela imagem ridícula que tem nos produtos norte-americanos. A maioria dos quadrinhos publicados no Brasil são importados, e a imagem que nos chega através do cinema, da televisão e da publicidade quase que de uma maneira absoluta são dos Estados Unidos; e aí o problema maior é o da exclusão. Eu estou incluindo a nós mesmos, eu estou incluindo o Terceiro Mundo ao nos desenhar de uma forma que não é ridícula. Essa inclusão é feita justamente para combater a exclusão que vem de lá.

Quando você descobriu os quadrinhos brasileiros ou o Brasil nos quadrinhos?

Aconteceu uma virada na minha vida quando eu vi o primeiro número do Pererê, em 1960. O Ziraldo é de Caratinga, uma cidade vizinha da minha, e eu tomei um susto porque toda a geografia, as brincadeiras, os costumes, as comidas da minha região estavam desenhadas no Pererê. O Ziraldo desenhava o roceiro com dignidade, não ridicularizava o roceiro como fazem os “Cassetas e Picaretas” ou o Angeli. O Ziraldo é da linha do Oswald de Andrade; é para os quadrinhos o que o Glauber é para o cinema, o que o Caymmi é para a música.

Você me disse que criou o Negrim porque queria fazer histórias com o Pererê.

Quando eu tinha 16 anos, fiz uma história que o Ziraldo desenhou e publicou no último número do Pererê, de março de 64. O Ziraldo me colocou como personagem desta história, mas eu passei noites sem dormir com medo de que o Pererê tivesse sido fechado pela Ditadura porque a minha história mexia com Tiradentes. Então eu criei o Negrim para substituir o Pererê, primeiro para mim.

E quando o Negrim deixa de substituir o Pererê só pra você?

Em 1969, o André Carvalho estava à frente do Gurilândia, o suplemento infantil do Estado de Minas, e ele teve o peito de tirar a histórias da Luluzinha e colocar três desenhistas brasileiros no lugar, um deles era eu. O Negrim foi um sucesso absoluto, chegou a ter 73% de “Ibope”, isso durante três anos e meio. Mas eu já tinha estreado em 1967, como cartunista no Cartum JS, um suplemento de humor dirigido pelo Ziraldo, publicado aos domingos pelo Jornal dos Sports. Quando acabou o Cartum JS eu passei para O Cruzeiro que tinha um suplemento de humor chamado O Centavo, dali fui pro Pasquim.

Você ainda estava em Minas?

É, foi em 1974 que eu fui pro Rio, morei lá por 8 meses, na pior época da Ditadura, a transição do Médici pro Geisel. Eu voltei pra Minas no final de 1974, completamente derrotado pela censura, não havia onde trabalhar lá. Aqui, eu comecei a publicar charges diárias no Jornal de Minas e, junto com o Lor, comecei a fazer o cartum sindical. Nós criamos também o Humordaz, que foi outro sucesso estrondoso no Estado de Minas, e que virou uma página que saía todo sábado, com o melhor pessoal de texto e todos os cartunistas que tinham por aqui. Nós também fizemos o almanaque Humordaz que foi fechado pela censura no número três.

E quando o Henfil entra na história?

Eu já conhecia o Henfil desde a época do Cartum JS. Em 1979, eu fui visitá-lo em São Paulo e ele falou comigo: “Nilson, tá acontecendo tudo em São Paulo, o Rio já era! Tudo tá aqui: o ABC, o Lula, a música, o teatro, a OAB”. Realmente ele estava certo. Eu fiquei lá de 1979 a 1982 e participei da História do Brasil. Esse tempo todo eu trabalhei na Folha e na imprensa alternativa. Em 1982, eu voltei pra Belo Horizonte porque não aguentava mais São Paulo, fiquei doente lá. Voltei com a intenção de nunca mais sair de Minas.

Como você vê a atuação da imprensa no Brasil?

Durante a Ditadura se você fosse fazer uma passeata, podia ser preso e torturado, podia até desaparecer. Durante muito tempo o que a gente podia fazer era uma guerra de opinião, na qual a imprensa alternativa tinha um papel fundamental, um exemplo é o Pasquim. Hoje, você não tem uma imprensa alternativa na dimensão que tinha naquela época pra rebater as bobagens escritas pela “imprensa mega-medíocre”. Nós achávamos que, com o fim da Ditadura, a grande imprensa se abriria para que pudéssemos publicar e fazer tudo que não pudemos antes. Mas isto não aconteceu. A imprensa resolveu transformar o jornal, que era um veículo de informação, em um veículo de prestação de serviços.

Para finalizar, o que é seu trabalho?

Eu sou brasileiro, de Terceiro Mundo, em meu trabalho é muito mais difícil não refletir isso, que refletir. Eu ajo naturalmente. Claro que eu pesquiso, que eu procuro, mas pra mim é muito mais difícil copiar do que criar. Os rótulos que o pessoal coloca, “socialista”, “cristão”, “ressentido”, “brontossauro”, não dizem nada. O que eu sou reflete a minha coisa humana como um todo. Eu nunca me surpreendi pensando: “agora eu vou fazer um desenho político!”. Sempre que eu sento pra desenhar, senta o Nilson inteiro, o ser humano inteiro: brasileiro, de Terceiro Mundo, cristão, hipocondríaco, e sai o que eu sou. Eu sou do PT e outro rótulo que eles colocam pra bloquear meu trabalho na grande imprensa é dizer que eu seria um porta-voz do partido, isso não é verdade. Quando eu faço minha charge ou quadrinho, eu não sou “do PT”, eu sou o ser humano Nilson tentando falar com a humanidade inteira, até com os inimigos.

01/08/2009

Quadrinhos independentes em entrevista, parte1.


Mais uma entrevista no Mais Quadrinhos e desta vez o entrevistado sou eu mesmo! Há alguns meses, a jornalista Lídia Basoli, que participa da revista Café Espacial, entrou em contato comigo para uma entrevista / artigo sobre o movimento de quadrinhos em BH. A matéria saiu neste sábado no informativo do 4° Mundo e aproveito então para reproduzir, nesta e numa próxima postagem, as questões de nossa entrevista. Obrigado a Lídia pela oportunidade de falar sobre meus trabalhos e minha trajetória; e boa leitura a todos!

Você começou a ler e fazer quadrinhos quando era criança. Quais os personagens que mais lhe influenciaram?

Na verdade, eu já não era criança. Tinha 11 anos quando criei minha primeira HQ. Mas só comecei a colecionar e ler quadrinhos aos 12. Naquela época, as primeiras influências de personagens que tive foram de coisas como X-Men e Vingadores.

A idéia do Estúdio HQ surgiu em 1997 em forma de associação de quadrinistas. Como você vê essas associações / coletivos como o próprio 4° Mundo hoje?

A idéia para o Estúdio HQ surgiu bem antes de 1997. Lembro-me de uma reunião que participei com o Erick Azevedo, o Fabiano Barroso e o Piero Bagnariol ainda no início daquela década. Acho que o Erick e o Fabiano trabalharam na Solar n°7, lançada em 1996, já como uma participação do Estúdio HQ. Bom, eu vejo essas iniciativas como uma forma de os quadrinistas independentes somarem forças visando a um objetivo comum. Neste sentido, elas sempre podem trazer bons resultados.

Com certeza, a falta de apoio faz com que editoras e quadrinistas se tornem "independentes" buscando um novo espaço de divulgação. Como você avalia essa situação em BH e no Brasil?

A situação hoje é melhor do que quando comecei, pois há mais pessoas e revistas no Brasil produzindo quadrinhos independentes. Mas faltaria ainda buscar um amadurecimento maior dos trabalhos, pois não se preocupar com a qualidade desde o início é um erro (e eu só digo isso porque já li afirmações em contrário publicadas em espaços ligados ao 4° Mundo). Se um leitor der chance a uma revista independente e encontrar ali um trabalho muito ruim, possivelmente ele não dará uma segunda chance à produção independente. De qualquer forma, tenho convicção hoje de que a saída para os quadrinhos brasileiros não está na produção independente.

Parece que sem a Lei Municipal de incentivo à cultura haveria muito mais dificuldade para a produção dos quadrinhos. Essas leis realmente suprem essa carência de apoio ou não?

Bom, desde 2002 eu não publico nenhuma revista ou álbum através de leis de incentivo. Então, não acho que as leis sejam indispensáveis.

E o tão famigerado eixo Rio-São Paulo para os quadrinhos? Você sente que houve uma diferença de atitude dos anos 1990 para cá?

Uma vez eu li numa revista de outro estado alguém falando do eixo “Rio-São Paulo-Minas” que atrapalharia a produção nacional. Na época eu dei uma risada porque Minas não faz parte de qualquer eixo (do mal ou do bem). Há o FIQ que acontece aqui a cada dois anos, mas isto é outro caso. Tudo que foi feito em termos de produção de quadrinhos aqui, desde os anos 90, foi feito por iniciativa de pessoas como eu, o pessoal da Graffiti, do extinto Estúdio HQ e do antigo Estúdio Big Jack, entre outros. O que acontece é que a maior parte das editoras que publicam quadrinhos está no Rio de Janeiro ou em São Paulo, e isso faz uma grande diferença, em termos de acesso aos editores.

A influência do cenário quadrinístico de BH para o Brasil é notória, ainda mais depois da grande explosão que foram os anos de 1990. Como estão e quem são os independentes de BH hoje?

Tem eu que estou meio que parando, o incansável Lacarmélio (Celton), o pessoal da Graffiti que ampliou seu trabalho, e mais umas duas ou três pessoas que lançam trabalhos de vez em quando. Há também o pessoal que trabalha com tiras, como a Chantal, o João Marcos e o Cleuber (este de vez em quando). Se esqueci de alguém, peço desculpas!

Fale sua opinião sobre o trabalho do Celton (Lacarmélio de Araújo).

O Lacarmélio é um lutador, uma das pessoas que produzem quadrinhos independentes há mais tempo no Brasil. Uma figura realmente ímpar e quase folclórica, que conseguiu fazer de seus quadrinhos sua vida e que praticamente se identificou com seu personagem Celton.

Outros nomes famosos dos quadrinhos de BH são Cleuber Cristiano com as maravilhosas tiras do Arroz Integral, Luciano Irrthum com um traço pra lá de ácido e o grande Nilson Azevedo. Há ainda uma boa produção? Quais outros artistas de BH que você admira?

Quando falamos de “artistas de BH” o ideal seria dizermos “artistas mineiros”, pois muitos como o Nilson não foram criados aqui. Além do próprio Nilson, com quem aprendi muito sobre a arte dos quadrinhos, temos por aqui artistas geniais como o Marcelo Lelis, o João Batista Melado e o Guga Schultze, além do Cleuber, do Irrthum, da Chantal e do João Marcos. Acho que este seria o primeiro time dos quadrinhos por aqui atualmente.

(CONTINUA)

08/08/2008

Nilson, o criador de A Caravela, completa 60 anos.


Veterano dos quadrinhos e cartuns, Nilson Azevedo costuma se definir como sendo “o cartunista anônimo mais famoso de Belo Horizonte”. Criado na pacata Raul Soares (MG), o filho da Dona Aracy publicou seus primeiros desenhos em 1967, pelas mãos de Ziraldo, no Cartum JS (o suplemento humorístico do Jornal dos Sports). O sucesso de público veio no início dos anos 70, com a série de tiras e HQs do Negrim, publicada no jornal Estado de Minas. Em seguida, ele foi para São Paulo, onde trabalhou ao lado de Henfil, publicando charges e quadrinhos em jornais alternativos e também na Folha de São Paulo. Nas duas últimas décadas, sua principal atuação tem sido na imprensa sindical e também na produção de cartilhas educativas.

Grande conhecedor dos quadrinhos e incentivador de novos quadrinistas (como este que vos escreve), Nilson produziu várias séries de tiras e HQs (como Pery a Perigo e Pingo de Gente), mas talvez sua criação mais elaborada seja A Caravela. Para homenageá-lo neste dia em que completa sessenta anos de vida, publico a seguir meu texto de apresentação para a coletânea de tiras lançada pela Marca de Fantasia. A Nilson, então, nossos parabéns e um muito obrigado!

Muita coisa pode ser dita sobre a série de tiras e histórias em quadrinhos A Caravela. Antes de mais nada, deve-se dizer que se trata de um quadrinho da melhor qualidade. Sendo parte de um projeto iniciado há três décadas e ainda em andamento, essa “aventura marítima” se passa em pleno Oceano Atlântico, por volta de 1530. A bordo da caravela Flor do Lácio e na companhia de sua tripulação de nobres, militares, clérigos e marinheiros, somos levados numa viagem que tem como destino incerto o Novo Mundo, ou o fundo do mar (e que também nos leva a interpretar A Caravela como uma alegoria social que faz jus à tradição crítica do humor jornalístico).

Como toda história, a das “Grandes Navegações” é feita de pequenos fatos, um punhado de mentiras, diversas versões, várias lacunas e alguns esquecimentos. Nos livros de História, ao lado de nomes como Colombo, Vasco da Gama ou Cabral, pouco se diz sobre os milhares de marinheiros que “ajudaram” a fazer aquela história. Por sorte, nas tirinhas de Nilson podemos conhecer alguns desses anônimos personagens, como Joaquim e Manuel que, embora sejam ficcionais, em muitos sentidos, são menos fictícios que vários dos figurões que pululam nos manuais escolares (o que faz de A Caravela uma autêntica paródia histórica).

Transformando-se ao longo das mais de 200 tiras da série, Joaquim e Manuel escapam do estereótipo da dupla cômica, formada por um personagem “ridículo” e outro “consciente”. Apanhados numa história da qual se recusam a ser meros coadjuvantes, eles nos fazem lembrar dos arquetípicos Dom Quixote e Sancho Pança (pois como sugere o próprio Joaquim, essa Caravela de Nilson é também uma metáfora existencial). Haveria ainda muito que dizer dessa série de quadrinhos (sobre a reconstituição de época precisa, sobre a narrativa criativa, os desenhos saborosos ou o humor que busca provocar a consciência das leitoras e dos leitores). Poderia se dizer ainda muita coisa, mas deixarei que vocês mesmos descubram porque A Caravela é, de fato, um quadrinho da melhor qualidade.