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14/10/2010

O segundo “arco” dos X-Men de Warren Ellis (ou: não perca tempo e dinheiro!).


O roteirista inglês Warren Ellis conquistou um lugar de destaque no mercado de quadrinhos norte-americano. Tendo uma predileção por tramas envolvendo ficção científica e uma capacidade de apresentar novas perspectivas para temas já bastante explorados, sua estreia nas páginas da revista Astonishing X-Men foi aguardada com expectativa pelos leitores. No entanto, os números 25 a 30 da prestigiada série mutante ficaram muito aquém do que se podia esperar, destacando-se mais pelas páginas ilustradas pelo italiano Simone Bianchi, do que propriamente pelo trabalho de seu roteirista (uma resenha dessas primeiras edições pode ser lida aqui).

Ellis conseguiu se redimir um pouco nas duas edições da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, mas ainda precisava mostrar a que veio. Conceituado entre leitores e editores, o renomado roteirista ganhou uma segunda chance para mostrar algo menos decepcionante: o novo “arco” Exogenetic, publicado entre os números 31 e 35 da revista mutante. Terá ele então alcançado um resultado mais condizente com seus trabalhos anteriores (como Planetary ou Iron Man Extremis)? Terá ele conseguido apagar a sensação do “vamos ganhar um dinheiro fácil” deixada pelas edições anteriores? Na minha opinião, a resposta é um sonoro “Não!”.

Astonishing X-Men: Exogenetic começa com a agente Abigail Brand numa missão espacial para eliminar alienígenas da espécie conhecida como Ninhada (quem lia as revistas dos X-Men nos anos 80 está bem familiarizado com esses detestáveis aliens transmórficos). As coisas não saem muito bem e Abigail cai na Terra, tendo que ser resgatada por Ciclope & Cia. Quando tudo parece se acalmar, entra em cena outro vilão do passado: um gigantesco robô sentinela. Este, porém, tem a peculiaridade de ser composto por partes biológicas e estar ligado à trama envolvendo os alienígenas da Ninhada. Aí entra em cena o clone de um terceiro vilão do passado: Krakoa, a Ilha Viva.

Segundo revela Abigail, o que liga todas essas ameaças é um misterioso vilão com um extenso conhecimento sobre engenharia genética e o desejo de eliminar os mutantes (ou seja, nada muito diferente do que já vimos várias vezes). Veículos espaciais gigantes e a aparição de um clone do vilão pterodátilo Sauron só servem para reforçar a sensação de lugar-comum. No capítulo final, muita conversa fiada, ação mal representada e algum draminha envolvendo o misterioso vilão resultam num fechamento fraquíssimo. Com isso, todo o “arco” pode ser resumido a uma grande perda de tempo para quem venha a dedicar algumas horas a lê-lo, isso sem falar no dinheiro jogado fora.

Com uma história pouco inspirada, Exogenetic oscila entre desinteressantes sequências de combate e diálogos repletos de sarcasmo. Pior ainda são os desenhos de Phil Jimenez e Andy Lanning, cheios de borrões e (d)efeitos digitais criados pelo colorista Frank D’Armata, que formam um visual que pode ser descrito como “feio”. Assim, se nas primeiras edições para a Astonishing X-Men Ellis pôde contar com o talento de Simone Bianchi, nestas últimas sequer as imagens compensam. Mas, apesar da pouca qualidade e dos atrasos, antes da conclusão de Exogenetic, a Marvel já tinha começado a publicar a minissérie Astonishing X-Men: Xenogenesis, também escrita por Ellis.

No geral, não há o que se elogiar nas fracas histórias de Ellis para os X-Men, que se revelam cada vez menos interessantes e desde o início nada surpreendentes. De qualquer forma, para quem quiser tirar a prova, em breve elas poderão ser conferidas nas edições da Panini.

04/08/2010

Chega às bancas a nova Ultimate Marvel da Panini.


Enquanto aguardava a estreia de X-Men – O Filme e em meio à pré-produção de Homem-Aranha, a Marvel preparou-se para lançar a linha Ultimate, com versões atualizadas de seus personagens. Não pertencendo à “cronologia” tradicional da editora, Ultimate Spider-Man (2000) e Ultimate X-Men (2001) não dependiam de conhecimentos prévios para serem lidas, privilegiando o público jovem e os novos leitores que chegariam aos quadrinhos através das produções cinematográficas. O resultado foi um grande sucesso comercial que motivou a editora a investir em versões alternativas de seus heróis tradicionais. Assim vieram The Ultimates (2002) e Ultimate Fantastic Four (2004), além de outras series limitadas, como Ultimate Iron Man (2005) e Ultimate Human (2008).

A qualidade média superior da linha alternativa, em comparação às revistas do “Universo Marvel” tradicional, garantiu sua publicação por uma década. No final de 2008, porém, os editores decidiram que chegara a hora de um novo começo. Para revitalizar o “Universo Ultimate”, a Marvel decidiu realizar um grande evento que atingiu os principais títulos, mudando trajetórias e (ao menos aparentemente) matando alguns de seus principais heróis. Assim foi Ultimatum, que a Panini publicou neste primeiro semestre. Como resultado prático, o que foi intitulado equivocadamente no Brasil como “Marvel Millennium” passa a ter o nome mais adequado de Ultimate Marvel, com uma nova revista mensal.

Trazendo o primeiro capítulo de Ultimate Comics: Spider-Man, Armor Wars e Avengers, a nova revista conta com o trabalho de três dos mais renomados roteiristas dos quadrinhos de super-heróis na atualidade: Brian Michael Bendis, Warren Ellis e Mark Millar. Quanto ao visual, as HQs variam em estilo, mas seguem a linha comercial predominante, com colorização por computador que cria uma ambientação “cinematográfica”. O resultado geral deve agradar aos fãs da linha Ultimate e dos quadrinhos Marvel em geral, embora fique devendo em termos de história, se considerarmos os roteiristas envolvidos.

Ultimate Homem-Aranha começa seis meses após os catastróficos eventos de Ultimatum. Com sua heróica atuação durante a devastação de Nova York, Peter Parker experimenta um incomum prestígio social. Mas, tentando conciliar a carreira de combate do crime com as obrigações de estudante e um emprego numa rede de fast food, o Homem-Aranha terá ainda que lidar com novos e misteriosos vilões e anti-heróis. Sendo uma introdução à trama que Bendis pretende contar, essa primeira HQ se destaca mais pelo bom visual cartunizado, produzido por David Lafuente e Justin Ponsor.

Ultimate: Guerra das Armaduras traz um traço mais acadêmico e também de pior qualidade. Mas, apesar de limitado, o trabalho de Steve Kurth, Jeffrey Huet e Guru eFX acaba servindo para o roteiro de Ellis, no qual basicamente vemos escombros, cadáveres e lugares abandonados. A HQ se passa pouco após o maremoto que varreu Nova York, e mostra o Homem de Ferro numa tentativa de reaver um de seus importantes inventos. Entram em cena então uma bela ladra com superpoderes e um misterioso ladrão vestindo uma armadura ultratecnológica, que parece ter sido inspirada na do herói.

Fechando a edição, Ultimate Vingadores traz um visual mais realista, produzido por Carlos Pachaco, Danny Miki e Justin Ponsor. O clima “filme de ação” é reforçado pelo roteiro de Millar, que se resume a Capitão América e Gavião Arqueiro enfrentando um grupo de agentes da I.M.A. que acabam de roubar um invento do Sr. Fantástico (o que repete o tema dos roubos tecnológicos da HQ anterior). Entra em cena a versão Ultimate do vilão Caveira Vermelha, que traz uma surpreendente revelação para o Capitão América. Nick Fury é então reconvocado para formar outro grupo de heróis.

Para quem quiser conferir, Ultimate Marvel tem 76 páginas, sendo vendida ao preço de R$6,50. E para saber mais sobre quadrinhos da linha Ultimate da Marvel, basta clicar no marcador abaixo.

30/06/2010

Homem de Ferro e Hulk numa HQ de Warren Ellis.


Após Iron Man: Extremis, Warren Ellis voltou a trabalhar com o Homem de Ferro na minissérie Ultimate Human ("Humano Supremo" na versão brasileira). Lançada em 2008, a HQ fez parte da onda de novas séries e edições especiais que antecipou a estreia dos filmes Homem de Ferro e O Incrível Hulk. Dividida em quatro partes, a história pertence à linha Ultimate da Marvel e traz um novo encontro das versões “supremas” de Tony Stark e Bruce Banner (que já haviam se enfrentado nas páginas de The Ultimates). Ilustrada por Cary Nord, com elementos de pintura na colorização, a minissérie equilibra bem diálogos e ação, conteúdo intelectual e dramas pessoais.

A história começa com Stark desfrutando um martini numa manhã qualquer; mas seus planos de se embebedar completamente antes do meio-dia acabam frustrados com a chegada de Banner. Logo de início é interessante notar como Ellis utiliza os diálogos para apresentar aos leitores as principais características que diferenciam as versões “supremas” desses personagens, das versões que aparecem no “Universo Marvel” regular (com isso, mesmo um leitor que não esteja a par do que andou acontecendo na linha Ultimate poderá compreender a história sem grandes dificuldades). A trama então se desenrola a partir de uma tentativa de “curar” Banner, livrando-o do Hulk. Porém, as coisas não saem exatamente como planejado e, para complicar, entra em cena o vilão Líder.

Estética e tematicamente, Iron Man: Extremis e Ultimate Human são bem diferentes. Ainda assim, existem algumas similaridades significativas entre as duas séries. Enquanto a primeira está mais para uma história de ficção científica e espionagem, a segunda é propriamente uma HQ de super-heróis, embora sua trama lance mão de vários elementos da ficção científica e da espionagem. E se a história lançada em 2005 reescreveu a biografia de Tony Stark, também a minissérie de 2008 recontou a história de origem de um personagem (neste caso o vilão Líder). Além disso, os dois trabalhos deram espaço a Ellis para tratar de algumas de suas temáticas favoritas, sendo em Iron Man: Extremis o “futuro” e em Ultimate Human a “pós-humanidade”.

Interessante e inteligente, com bons diálogos e alguma ação, Ultimate Human tem um roteiro acima da média, mas poderia ter se valido de um trabalho gráfico um pouco mais bem-elaborado. Isso não compromete o resultado final, que podemos chamar, pelo menos, de bom entretenimento, confirmando a boa qualidade dos quadrinhos da linha Ultimate.

(Mais recentemente, Warren Ellis voltou a trabalhar com o Homem de Ferro na minissérie em quatro partes Ultimate Comics: Armor Wars.)

27/06/2010

A HQ que remodelou o futuro do Homem de Ferro.


Há muito tempo eu não lia revistas com os super-heróis tradicionais da Marvel. Mas, depois de rever Homem de Ferro e assistir ao segundo filme com o personagem, voltei a me interessar pelos antigos heróis que eu conhecia dos desenhos (des)animados da minha infância. Por sua ligação com as produções cinematográficas, peguei na estante a coletânea de Iron Man: Extremis, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Adi Granov. Importante na trajetória recente do personagem, esse trabalho foi a fonte para alguns dos melhores elementos do Homem de Ferro cinematográfico. Sucesso entre os leitores, depois de reedições em capa cartonada e em capa-dura, neste mês a Marvel está reimprimindo a HQ numa “versão do diretor”, além de lançar um montion comic para o iTunes da Apple.

Eu já havia comprado Iron Man: Extremis há algum tempo, mas não tinha lido ainda. Agora, com o interesse renovado pelos filmes e a intenção de escrever esta postagem, resolvi conferir essa HQ lançada em 2005. Não me decepcionei! De forma inteligente, a história aborda alguns dos temas preferidos de Warren Ellis: as tecnologias ultra-avançadas e uma disputa pelo “futuro”. Aproveitando as características do herói, o roteirista construiu uma trama envolvente, na qual ficção científica e futurismo remodelam completamente o Homem de Ferro. Sem dúvida a história mais interessante que já li com o personagem, seus seis capítulos intercalam bem passado e presente, recontextualizando a origem do herói, imprimindo modernidade a suas relações profissionais e pessoais, bem como mais realismo a suas motivações e sua presença no mundo.

Tudo parte de uma entrevista que coloca para Tony Stark o dilema moral de ser um fabricante e negociante de armas, levando-o também ao dilema existencial de ter sido vítima de um acidente com um de seus próprios inventos (situações que foram reelaboradas e modernizadas no filme lançado em 2008). Então, o aparente roubo da tecnologia secreta “Extremis” e o pedido de ajuda de uma amiga põem o herói em rota de colisão com um radical norte-americano superpoderoso. Após um ato de "terrorismo doméstico", o Homem de Ferro intervém, mas acaba derrotado e gravemente avariado por seu oponente. É esta dinâmica que leva à principal transformação que o herói sofre nesta HQ: o emprego da tecnologia “Extremis” para salvar sua vida e, ao mesmo tempo, tornar mais eficiente sua armadura, que passa a ser parte de seu corpo.

Naquele momento, revemos a história de origem do Homem de Ferro, que Ellis apropriadamente transfere das florestas do Vietnã para as montanhas do Afeganistão (mudança seguida pela versão cinematográfica). E embora centrada no protagonista, a história se vale de um interessante elenco de apoio: a cientista Maya Hansen, o futurista Sal Kennedy e o médico Yinsen (também presente no filme). Não faltam bons diálogos, nos quais termos tecnológicos aparecem com naturalidade, da mesma forma que uma lúcida discussão sobre cogumelos e DMT (principal componente da ayahuasca), que rende uma interessante metáfora sobre tecnologia e estados alterados da mente. Por falar em metáforas, a mais marcante nessa HQ é a que redefine Tony Stark como um “piloto de testes para o futuro”, redelineando as motivações e ambições do herói.

Claro que uma história que tinha o objetivo relançar o personagem, estabelecendo uma nova biografia e novas características, não poderia deixar de lado sua aparência. E ficou a cargo do ilustrador Adi Granov redesenhar a armadura do Homem de Ferro, atualizando-a para os padrões estéticos dos tempos atuais. O resultado ficou arrojado e elegante, estilizado e convincente (sendo a principal referência para a versão cinematográfica). Mais designer do que propriamente desenhista de quadrinhos, Granov produziu algumas belas páginas e imagens, embora muitas sequências e cenas sejam excessivamente estáticas para uma história em quadrinhos. Deixando de lado essa limitação, as técnicas de pintura convencional e digital empregadas pelo ilustrador produziram um visual impressionante, que lembra imagens de video game.

Iron Man: Extremis é Warren Ellis em boa forma, num roteiro bem trabalhado para uma trama inteligente. É também uma obra visualmente muito interessante, que projetou o nome de Adi Granov. Apesar de ser uma HQ do Homem de Ferro, o trabalho está mais para trama de espionagem e ficção científica, do que propriamente para uma revista de super-heróis. Talvez a melhor história em quadrinhos já feita para esse personagem, ela não apenas lançou as bases para os filmes de Hollywood, como ajudou a transformar o antes batido herói numa das propriedades mais importantes da Marvel. Pois ao reescrever o passado de Tony Stark e ao redesenhar as linhas de sua armadura, Ellis e Granov realmente remodelaram o futuro do Homem de Ferro.

21/06/2010

Mais X-Men por Warren Ellis (ou: quero meu dinheiro de volta!).


Com vários trabalhos importantes para grandes editoras como a Marvel e a DC Comics, o roteirista inglês Warren Ellis conquistou um lugar de destaque no mercado de quadrinhos norte-americano. Tendo uma predileção por tramas envolvendo ficção científica e uma capacidade de apresentar novas perspectivas para temas já bastante explorados, sua estreia nas páginas da revista Astonishing X-Men foi aguardada com grande expectativa pelos leitores. No entanto, os números 25 a 30 da prestigiada série mutante ficaram muito aquém do que se podia esperar, destacando-se mais pelas páginas ilustradas pelo italiano Simone Bianchi, do que pelo trabalho de seu renomado roteirista. Ellis conseguiu se redimir um pouco nas duas edições da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, mas ainda precisava mostrar a que veio (para quem quiser saber mais, uma análise dessas primeiras edições pode ser lida aqui).

Conceituado entre leitores e editores, o roteirista ganhou duas outras chances de mostrar algo menos decepcionante: o novo “arco” Astonishing X-Men: Exogenetic e a nova minissérie Xenogenesis. Terá então Warren Ellis alcançado um resultado mais condizente com seus trabalhos anteriores? Terá ele conseguido apagar a sensação do “vamos ganhar um dinheiro fácil”, deixada pelas edições anteriores? Na minha opinião, a resposta é um sonoro “Não!”. Astonishing X-Men n°31 começa com a agente Abigail Brand numa missão espacial para eliminar alienígenas da espécie conhecida como Ninhada (quem lia as revistas dos X-Men nos anos 80 está bem familiarizado com esses detestáveis aliens transmórficos). As coisas não saem muito bem e ela cai na Terra, tendo que ser resgatada por Ciclope & Cia. Quando tudo parece se acalmar, entra em cena outro vilão do passado: um gigantesco robô sentinela.

Este, porém, tem a peculiaridade de ser composto por partes biológicas e estar ligado à trama envolvendo os alienígenas da Ninhada. Aí entra em cena o clone de um terceiro vilão do passado: Krakoa, a Ilha Viva. Segundo revela Abigail, o que liga todas essas ameaças é um misterioso vilão com um extenso conhecimento sobre engenharia genética e o desejo de eliminar os mutantes (ou seja, nada muito diferente do que já vimos várias vezes). No geral, as HQs oscilam entre desinteressantes sequências de combate e diálogos pouco inspirados e repletos de sarcasmo. Mas o pior, sem dúvida, fica por conta dos desenhos de Phil Jimenez, cheios de borrões e outros (d)efeitos digitais, que resultam num visual que só pode ser descrito como “feio” (e se nas primeiras edições para a Astonishing X-Men Ellis pôde contar com o talento de Bianchi, agora nem as imagens compensam a compra das revistas).

Sofrendo atrasos e hiatos, esse novo "arco" teve apenas os três primeiros capítulos publicados até agora (na Astonishing X-Men n°31 a 33). Sua penúltima parte já foi anunciada para o final deste mês e sua conclusão para o final de julho (isso, é claro, se não houver novos adiamentos). E mesmo antes da conclusão de uma história que vinha sofrendo atrasos, a Marvel anunciou e está publicando a minissérie Astonishing X-Men: Xenogenesis. Nesta nova aventura, os X-Men viajam até a África, não para assistir aos jogos da Copa e sim para investigar um “surto” de nascimento de bebês superpoderosos. O enredo parecia promissor, contudo, (numa HQ que trata da fictícia raça dos mutantes e cita dois ou três países africanos fictícios) Ellis aproveitou a oportunidade para fazer um sermãozinho sobre quão corruptos e criminosos são os governantes africanos (sobrando críticas até mesmo para Nelson Mandela), e aí a história se perdeu.

Com isso, o que acaba chamando atenção em Xenogenesis n°1 são os desenhos caricaturizados do canadense Karee Andrews (que havia trabalhado com Ellis numa das HQs curtas da minissérie Ghost Boxes). Fugindo ao estilo mais convencional das revistas de super-heróis e cheio de figuras e poses esquisitas, o traço não deve agradar muito aos fãs dos quadrinhos mutantes tradicionais. Outro ponto é que Andrews tomou algumas liberdades na caracterização dos X-Men, fugindo ao que se tem visto nas revistas dos heróis atualmente. Predileções de lado, os desenhos são mesmo o ponto mais interessante da revista (que ainda traz ao final a reprodução do roteiro, acompanhada de miniaturas das páginas a lápis). De qualquer forma, não há muito a se elogiar nas fracas histórias de Ellis para os X-Men, cada vez menos interessantes e nada surpreendentes (podendo em breve ser conferidas nas edições da Panini).

05/12/2009

O final de Planetary.


Surgida em setembro de 1998 numa história curta promocional, Planetary estreou como uma revista regular do selo Wildstorm no primeiro semestre de 1999. Escrita por Warren Ellis e desenhada por John Cassaday, com cores produzidas por Laura Martin e outros colaboradores, a série conquistou uma legião de fãs, que ansiosamente aguardava por sua conclusão. A espera chegou ao fim há dois meses, com o lançamento de Planetary n°27, uma edição especial que encerra essa complexa saga que reuniu releituras de personagens clássicos, ficção científica de primeira, uma trama conspiratória envolvente, além de citações a filmes e quadrinhos famosos.

Após vencer seus arqui-inimigos e frustrar os planos de uma invasão extradimensional, Elijah Snow, Jakita Wagner e Baterista retornam à Terra para dar início a uma nova era dourada de paz e conhecimento. À frente da Organização Planetary, os heróis passam a desenvolver, sem fins comerciais, as maravilhas tecnológicas e os avanços científicos enterrados nos arquivos de Os Quatro. Com isso, a cura para o câncer e o fim da fome são possibilidades para a semana seguinte. Mas poder virtualmente tornar melhor a vida de cada pessoa no planeta não é o bastante para deixar Elijah contente. Nesses novos dias dourados, o líder de Planetary tem um único propósito, que assume os contornos de uma obsessão: resgatar Ambrose, o integrante perdido do grupo.

O que se segue então é um aprofundado diálogo sobre a Física envolvida na construção e os possíveis efeitos colaterais de se pôr em funcionamento uma máquina do tempo. Contudo, no lugar do já desgastado “paradoxo do vovô”, Warren Ellis nos fala de gatos mortos ou vivos, anéis de luz e outras propriedades emprestadas das teorias da Física Quântica. Mais uma vez, fica provado o empenho do roteirista em embasar suas histórias num conhecimento científico real, tornando Planetary de fato uma série de ficção científica. O restante da edição mostra mais alguns diálogos entre os três personagens principais e a construção da complexa máquina do tempo quântica, encerrando com a tentativa de resgate de Ambrose, que se encontrava em animação suspensa.

Os desenhos de John Cassaday com cores produzidas por Laura Martin ficam na média das boas edições da série. Quase não há ação física, ficando o principal por conta dos diálogos envolvendo teorias da Física. E se não acrescenta muito à história vista até então, o roteiro de Warren Ellis parece mais o cumprimento de um compromisso do autor com o personagem Elijah. Se isso pode soar metalinguístico, o fato é que um dos melhores momentos da HQ é quando o personagem reflete sobre a existência dizendo: “Lembre que estamos todos vivendo em planos de informação bidimensional. O fato de vivermos e respirarmos em 3-D é um efeito colateral do Universo. Nós podemos estar vivendo em outras histórias agora, deslizando através do virar de páginas”.

No geral, Planetary n°27 não é um dos pontos altos da série, mas também não chega a decepcionar (para quem quiser conferir, algumas das páginas estão disponíveis aqui). Para 2010, a DC / Wildstorm programou o lançamento do quarto e último encadernado da série, além da reimpressão de Absolute Planetary – Volume 1 e do lançamento de Absolute Planetary – Volume 2. No Brasil, os “Arqueólogos do Impossível” tiveram algumas publicações ruins, como as coletâneas em formato reduzido e páginas internas foscas, lançadas pela Pandora e pela Devir. Seu melhor momento foi na Pixel Magazine, onde os capítulos 13 a 26 foram lançados com qualidade gráfica adequada. A Pixel também lançou três edições especiais em formato ampliado (Planetary / Batman - Noite na Terra, Planetary / Liga da Justiça - Terra Oculta e Planetary / Authority - Dominando o Mundo) e uma terceira coletânea (Planetary: Deixando o Século 20) no inadequado formato reduzido.

(Para saber mais sobre Planetary e outros trabalhos de seus autores, basta clicar nos marcadores abaixo.)

08/07/2009

O primeiro “arco” dos X-Men de Warren Ellis (e Simone Bianchi).


Recentemente, a Panini começou a publicar a fase da Astonishing X-Men escrita pelo inglês Warren Ellis e ilustrada pelo italiano Simone Bianchi. Por coincidência, também acaba de ser lançado nos Estados Unidos o último capítulo do primeiro “arco” escrito por Ellis, que é também a última edição ilustrada por Bianchi. Aproveito então a oportunidade para fazer a análise das seis edições produzidas pela dupla e ainda dos dois números da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, também escrita por Ellis e desenhada por diferentes ilustradores, com capas ilustradas por Bianchi.

Devido ao sucesso dos filmes e a algumas boas HQs produzidas por autores como os escoceses Grant Morrison e Frank Quitely, na última década os X-Men voltaram ao primeiro plano dos quadrinhos. Com o lançamento em 2004 da série Astonishing X-Men, criada pelos norte-americanos Joss Whedon e John Cassaday, a Marvel consolidou um modelo editorial que soma qualidade autoral e bons resultados comerciais. Mas, como estava pré-determinado, após vinte e quatro edições e um especial elogiados pelo público e pela crítica, os autores deixaram a revista em 2008, abrindo caminho para o inglês Warren Ellis e o italiano Simone Bianchi. Contudo, famosos por trabalhos mais autorais, os atuais responsáveis pela Astonishing X-Men talvez não consigam agradar tão unanimemente quanto seus antecessores.

Estreando na Astonishing X-Men n°25, Ellis e Bianchi trabalharam no mesmo modelo editorial que a Marvel adotou para a primeira fase da revista. A fórmula é contratar autores renomados para produzirem uma série limitada que dará origem a coletâneas com seis capítulos cada, que depois ganharão reedições ampliadas com doze capítulos, sendo que provavelmente mais tarde tudo será reunido num único calhamaço com centenas de páginas (a omnibus edition). Mas, desta vez, a fórmula pode não funcionar tão bem, já que a Marvel reuniu numa mesma série comercial dois autores com trabalhos marcantemente pessoais. Isso é o que vemos nas primeiras páginas produzidas pela dupla, que não repetem o caráter mais clássico da fase anterior, baseando-se em temas recorrentes e num estilo pessoal inconfundível.

Na primeira página de Astonishing X-Men n°25, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. O que vemos a seguir, no entanto, não é nada tão dramático: Wolverine dormindo numa árvore, Fera cantarolando, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos, a chegada de Tempestade... Sucedem-se então questões acerca da qualidade do café, diálogos cheios de implicâncias e cinismo, explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo...

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato envolvendo mutantes. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações pseudo-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para a série anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. E é exatamente isso (e um pouco mais de ação) o que vemos em Astonishing X-Men n°26, quando acompanhamos os X-Men numa viagem a um “cemitério de espaçonaves”, onde o mutante assassino se encontra. É introduzido aí o elemento que dá título a esses capítulos: “Ghost Box”, um poderoso aparato de origem extradimensional (sim, novamente Ellis apresenta uma trama envolvendo viagens e conflitos num “multiverso”).

Em Astonishing X-Men n°27, os heróis mutantes estão de volta à base em São Francisco, onde temos mais diálogos ácidos e explicações “científicas”. Mas como os X-Men de Ellis não “esquentam cadeira”, logo partimos numa viagem até uma misteriosa região da China. Em Astonishing X-Men n°28, exploramos a cidade celestial dos mutantes chineses, onde são dadas algumas explicações sobre genética extradimensional. Para agradar aos leitores, o roteirista concede aos X-Men alguma ação contra monstros mutantes, adicionando uma peça ao mistério: o nome de um ex-x-man que andava fora de circulação há algum tempo. Surpreendentemente, isso é quase tudo que vemos nos quatro capítulos iniciais de “Ghost Box”. Assim, no conjunto, as primeiras histórias de Ellis para os X-Men deixam a sensação de muita conversa para pouca história.

Se temáticas e idéias emprestadas de outros trabalhos dão base a “Ghost Box”, o elemento marcante das HQs são as páginas criadas pelo desenhista Simone Bianchi, em parceria com outros artistas italianos. No traço de Bianchi, todos os personagens ganharam novas feições e caracterizações incrivelmente detalhadas (embora nem sempre agradáveis). Refletindo-se nas composições de página e divisões de quadros, o visual privilegia sobreposições e diagonais, elementos decorativos e uma narrativa oblíqua. Áreas em branco e recortes, sombras em aguada e cores mais apagadas dão um tom frio às páginas, combinando com o tema da história. Com tudo isso, as imagens criadas por Bianchi & Cia. são visualmente impressionantes, mas destoam um pouco do dinamismo que se costuma esperar de uma revista dos X-Men.

Com um estilo tão elaborado e trabalhoso, Bianchi e seus colaboradores não conseguiram acompanhar a periodicidade mensal da série (mais uma prova de que padrões editoriais e qualidade artística nem sempre combinam). Para compensar, a Marvel lançou a minissérie em duas edições Astonishing X-Men: Ghost Boxes, escrita por Ellis e ilustrada por diferentes desenhistas, tendo apenas capas ilustradas por Bianchi (o que se fez para manter uma unidade visual com a série principal). Com duas histórias de oito páginas em cada edição (além do texto original dos roteiros e de reproduções das páginas a lápis), a minissérie mostra acontecimentos em quatro Terras diferentes, envolvendo tramas e invasões extradimensionais (um tema excessivamente recorrente nos trabalhos de Ellis, bastando citarmos Authority e Planetary).

Na primeira das quatro histórias, vemos o trabalho dos veteranos Alan Davis e Mark Farmer, numa HQ centrada no mutante assassino que apareceu em Astonishing X-Men n°26. As três narrativas seguintes têm artistas menos conhecidos e são narradas na perspectiva de três diferentes X-Men (Emma Frost, Ciclope e Armadura). A primeira história curta de Ghost Boxes, com sua temática dos universos paralelos, tem um gostinho da Captain Britain que Davis produziu para a Marvel Britânica nos anos 80. Já as HQs seguintes, ilustradas por Adi Granov, Clayton Crain e Kaare Andrews, têm um visual mais sombrio e um tom pós-apocalíptico. No geral, sem diálogos cínicos e tendo roteiros mais concisos, o trabalho de Ellis nas duas edições da minissérie é até mais interessante do que o visto nos capítulos da série regular.

Astonishing X-Men n°29 começa ainda na cidade celestial chinesa, onde os X-Men continuam buscando informações sobre a invasão extradimensional. Com imagens amplas e poucos quadros por página, duas páginas de um só quadro e uma outra página dupla, mais uma vez o destaque são as imagens produzidas por Bianchi e seus colaboradores. Quanto ao roteiro de Ellis, novamente sobra conversa e falta história. Em Astonishing X-Men n°30 as coisas não mudam muito: o roteiro deixa a desejar e as imagens são espetaculares (ainda melhores, aliás, que nas edições anteriores). Com direito a uma página-pôster na despedida de Bianchi do título, esta edição final fecha deixando a sensação de que Ellis ainda precisa mostrar a que veio (o que ele poderá fazer na continuação da série, em parceria com Phil Jimenez).

A edição final da parceria Ellis & Bianchi mal esfriou e a Marvel já anunciou para meados de agosto o lançamento da coletânea em capa-dura Astonishing X-Men: Ghost Box. Já para quem quiser conferir em português, a atual fase dos heróis mutantes é publicada no Brasil nas páginas de X-Men Extra da Panini. E para saber mais sobre os heróis mutantes da Marvel e outros temas tratados nesta postagem, clique nos marcadores abaixo.

10/05/2009

Os X-Men de Warren Ellis e Simone Bianchi.


Devido ao sucesso dos filmes e a algumas boas HQs produzidas por autores como os escoceses Grant Morrison e Frank Quitely, na última década os X-Men voltaram ao primeiro plano dos quadrinhos. Com o lançamento em 2004 da série Astonishing X-Men, criada pelos norte-americanos Joss Whedon e John Cassaday, a Marvel consolidou um modelo editorial que soma qualidade autoral e bons resultados comerciais. Como estava pré-determinado, após vinte e quatro edições e um especial elogiados pelo público e pela crítica, os autores deixaram a revista em 2008, abrindo caminho para o inglês Warren Ellis e o italiano Simone Bianchi. Contudo, famosos por trabalhos bastante peculiares, os novos responsáveis pela Astonishing X-Men talvez não consigam agradar tão unanimemente quanto seus antecessores.

Estreando na Astonishing X-Men n°25, Ellis e Bianchi deverão trabalhar no mesmo modelo editorial que a Marvel adotou para a primeira fase da revista. A fórmula é contratar autores renomados para produzirem uma série limitada que dará origem a coletâneas em capa cartonada com seis capítulos cada, que depois ganharão reedições em capa-dura com doze capítulos, sendo que mais tarde tudo será reunido num único calhamaço com centenas de páginas (a omnibus edition). Mas, desta vez, a fórmula pode não funcionar tão bem, já que a Marvel reuniu numa mesma série comercial dois autores com trabalhos marcantemente pessoais. Isso é o que vemos nas primeiras páginas produzidas pela dupla, que não repetem o caráter mais clássico da fase anterior, baseando-se em temas recorrentes e num estilo pessoal inconfundível.

Na primeira página de Astonishing X-Men n°25, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. O que vemos a seguir, no entanto, não é nada tão dramático: Wolverine dormindo numa árvore, Fera cantarolando, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos, a chegada de Tempestade... Sucedem-se então questões acerca da qualidade do café, diálogos cheios de implicâncias e cinismo, explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo...

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato envolvendo mutantes. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações para-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para a série anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. E é exatamente isso (e um pouco mais de ação) o que vemos em Astonishing X-Men n°26, quando acompanhamos os X-Men numa viagem a um “cemitério de espaçonaves”, onde o mutante assassino se encontra. É introduzido aí o elemento que dá título a esses capítulos: “Ghost Box”, um poderoso aparato de origem extradimensional (sim, novamente Ellis apresentará uma trama envolvendo viagens e conflitos no “multiverso”).

Em Astonishing X-Men n°27, os heróis mutantes estão de volta à base em São Francisco, onde temos mais diálogos ácidos e explicações para-científicas. Mas como os X-Men de Ellis não “esquentam cadeira”, logo partimos numa viagem até uma misteriosa região da China. Em Astonishing X-Men n°28, exploramos a cidade celestial dos mutantes chineses, onde são dadas algumas explicações sobre genética extradimensional. Para agradar aos leitores, o roteirista concede aos X-Men alguma ação contra mutantes locais, adicionando uma peça ao mistério: o nome de um ex-x-man que andava fora de circulação há algum tempo. Surpreendentemente, isso é quase tudo que vemos nos quatro capítulos iniciais de “Ghost Box”. Assim, no conjunto, as primeiras histórias de Ellis para os X-Men deixam a sensação de muita conversa para pouca história.

Se temáticas e idéias emprestadas de outros trabalhos dão base a “Ghost Box”, o elemento marcante das HQs são as páginas criadas pelo desenhista Simone Bianchi, em parceria com outros artistas italianos. No traço de Bianchi, todos os personagens ganharam novas feições e caracterizações incrivelmente detalhadas (embora nem sempre agradáveis). Refletindo-se nas composições de página e divisões de quadros, o visual privilegia sobreposições e diagonais, elementos decorativos e uma narrativa oblíqua. Áreas em branco e recortes, sombras em aguada e cores mais apagadas dão um tom frio às páginas, combinando com o tema da história. Com tudo isso, as imagens criadas por Bianchi & Cia. são visualmente impressionantes, mas um tanto estáticas, destoando do dinamismo que se espera de uma revista dos X-Men.

Com um estilo tão elaborado e trabalhoso, parece que Bianchi e seus colaboradores não conseguiram acompanhar a periodicidade mensal da série. Para compensar, a Marvel lançou a minissérie em duas edições Astonishing X-Men: Ghost Boxes, escrita por Ellis e ilustrada por diferentes desenhistas (trazendo apenas capas de Bianchi). Com duas histórias de oito páginas em cada edição, além dos roteiros originais e de reproduções das páginas a lápis, a minissérie mostra acontecimentos em quatro Terras diferentes. Na primeira história, vemos o trabalho dos veteranos Alan Davis e Mark Farmer, numa HQ centrada no mutante assassino que apareceu em Astonishing X-Men n°26. As três histórias seguintes têm artistas menos conhecidos e são narradas na perspectiva de três diferentes X-Men (Emma, Ciclope e Armadura).

A primeira história curta de Ghost Boxes, com sua temática dos universos paralelos, tem um gostinho da Captain Britain que Davis produziu para a Marvel nos anos 80. Já as HQs seguintes, ilustradas por Adi Granov, Clayton Crain e Kaare Andrews, têm um visual mais sombrio e um tom pós-apocalíptico. No geral, sem diálogos cínicos e tendo roteiros mais concisos, o trabalho de Ellis nas duas edições da minissérie é até mais interessante do que na série regular (mas vale, é claro, aguardar a conclusão de seu primeiro conjunto de seis histórias para chegarmos a um veredicto definitivo). O quinto capítulo de “Ghost Box” já foi lançado nos Estados Unidos em Astonishing X-Men n°29, estando o capítulo final programado para junho. Esta nova fase dos heróis mutantes deverá chegar ao Brasil em breve nas páginas de X-Men Extra da Panini.

02/09/2008

Um novo começo para os X-Men?


No início dos anos 90, eu acompanhava assiduamente as HQs dos heróis mutantes da Marvel, comprando as revistas da Abril (com seus cinco anos de atraso em relação à publicação original) e também as edições importadas de The Uncanny X-Men, The New Mutants, X-Factor e Excalibur. Embora eu não siga mais as revistas dos “filhos do átomo” há muitos anos, decidi conferir a estréia de Warren Ellis como roteirista da Astonishing X-Men e a chegada da Uncanny X-Men a seu número 500 (com a capa de Alex Ross que ilustra esta postagem).

Obedecendo a uma lógica de produção e consumo massificados, os quadrinhos de super-heróis em geral sustentam-se nas marcas e modelos de sucesso. Com isso, de tempos em tempos, edições e histórias especiais precisam ser produzidas pelas editoras, para reavivar o interesse dos leitores. Este é o caso de Astonishing X-Men n°25 e Uncanny X-Men n°500, publicações lançadas recentemente nos Estados Unidos, que anunciam um novo começo para o grupo de heróis mais popular dos quadrinhos norte-americanos.

Na primeira página de uma das revistas, uma nota editorial anuncia: “Uma nova era na história mutante começou. Com sua antiga base destruída, os X-Men transferiram-se para São Francisco, na esperança de estabelecer um novo refúgio para sua raça. Com os mutantes agora reduzidos a poucas centenas, o líder dos X-Men, Ciclope, está determinado a proteger essa frágil comunidade por quaisquer meios necessários”. Concentrando-se em demarcar esta fase de transição, as duas edições trazem alguns elementos atípicos às HQs dos mutantes.

Astonishing X-Men n°25 tem como principal chamariz a estréia do roteirista Warren Ellis, que faz parceria com o desenhista Simone Bianchi e o colorista Simone Peruzzi. A história parte de elementos cotidianos: Wolverine cochilando numa árvore, o Fera cantarolando uma canção, a nova x-man Armadura reclamando de seu codinome, Ciclope e Emma Frost acordando juntos... Seguem-se então questões acerca da qualidade do café, algum cinismo nos diálogos e explicações sobre a nova estratégia de atuação do grupo de heróis.

Quando a revista está caminhando para o fim, finalmente os X-Men entram (quase) em ação, ao serem chamados pela polícia local para auxiliar na investigação de um assassinato. Ellis ainda tem espaço para uma de suas explicações pseudo-científicas, antes de encerrar seu primeiro roteiro para os X-Men anunciando uma trama envolvendo (de novo) naves e tecnologia alienígenas. Já as imagens de Bianchi e Peruzzi, com seu traço realista, efeitos de sombras e meios-tons, foge ao visual comum às HQs dos heróis mutantes.

Por sua vez, Uncanny X-Men n°500 aproxima-se mais das HQs tradicionais dos personagens da Marvel, o que é explicitado na bela capa de Alex Ross (uma composição com diversos momentos do grupo). Na página de abertura, uma nota editorial com referência à trajetória dos heróis: “Por todo o tempo que têm existido, os X-Men têm protegido um mundo que os odeia e teme. Agora, com a raça mutante reduzida a poucas centenas, eles deixaram sua antiga escola e passaram a se dedicar à sobrevivência de sua espécie a todo custo”.

O que vem a seguir, contudo, é uma HQ bem menos dramática, repleta de inusitadas sequências envolvendo o mundo das celebridades e a relação dos X-Men com a tolerante cidade de São Francisco. Nos capítulos seguintes, entra em cena Magneto (o primeiro e principal vilão mutante) e também os robôs assassinos Sentinelas (que acrescentam uma peça nostálgica ao roteiro). Também o visual, produzido por duas equipes de ilustradores, segue uma linha mais tradicional, não destoando do que se possa esperar de uma HQ de super-heróis atual.

No geral, Astonishing X-Men n°25 e Uncanny X-Men n°500 são revistas interessantes e bem produzidas, com alguns elementos originais. Entretanto, só o tempo poderá dizer se se trata mesmo de um “novo começo” para os heróis mutantes da Marvel, ou apenas mais uma jogada editorial amparada em modismos passageiros (como as mudanças visuais e temáticas sofridas pelos personagens há alguns anos, como reflexo do sucesso dos filmes dirigidos por Bryan Singer). Para quem quiser saber mais sobre a história e os quadrinhos dos X-Men, basta clicar na palavra em destaque abaixo.

07/07/2008

Planetary e Authority em coletâneas e edições especiais.


Entre os trabalhos de maior sucesso criados pelo roteirista inglês Warren Ellis, estão as séries Authority e Planetary, lançadas pelo selo Wildstorm da DC Comics. Para os fãs desses super-heróis “pós-modernos”, a Pixel lançou há pouco Planetary - Deixando o Século 20, Authority - Terra Infernal e outras histórias e Authority - Choque de Realidades Parte1.

Terceira coletânea da série produzida por Warren Ellis, John Cassaday e Laura Martin, Deixando o Século 20 reúne as edições 13 a 18 de Planetary. Na primeira história do volume, os autores nos levam à Europa do início do século passado, onde encontramos monstros de Frankenstein reptilianos, um demoníaco Conde Drácula e um envelhecido Sherlock Holmes. Além das citações literárias, há uma referência direta aos extraordinários cavalheiros reunidos por Alan Moore e Kevin O’Neill. Vale notar que Ellis e Cassaday utilizam em sua HQ justamente os personagens mais emblemáticos que ficaram de fora da Liga Extraordinária.

No capítulo seguinte, continuamos descobrindo importantes fatos sobre o passado do Planetary, em meio a mais citações a outras obras. Na primeira frase de “Ponto Zero”, uma óbvia referência ao seriado Arquivo-X, que se repete nos diálogos envolvendo naves derrubadas, supostas abduções e alienígenas. Com uma participação especial da bengala-martelo do herói Thor, o capítulo também traz uma sequência que mais parece um cruzamento do “armário” de armas do filme Matrix, com o "Ideaspace" da série Miracleman. Impressiona a condensação de informações, num roteiro que não deixa de ser muito dinâmico.

O terceiro capítulo da edição faz uma viagem à Austrália, com direito à recriação de um mito de origem aborígine. Mas, embora parta de uma idéia interessante, seu roteiro é o menos bem-solucionado desse terceiro volume. Para compensar, a maior linearidade do roteiro seguinte nos leva a uma China antiga bem ao estilo do filme O Tigre e o Dragão. Cenas de luta empolgantes e ilustrações belíssimas são as características principais dessa impressionante HQ “cinematográfica”, em que o trabalho de Cassaday e Martin chega a seu ápice. O final é mais comum em termos de narrativa, tendo como objetivo avançar na trama de Planetary.

A viagem seguinte é à África, onde um Elijah Snow mais jovem encontra uma cidade gloriosa e o primeiro amor de sua vida. Um destaque fica por conta da desconstrução do herói Tarzan que, ao ser recriado por Ellis, evidencia seus fundamentos etnocêntricos e racistas. Essa história traz ainda o único momento minimamente erótico em Planetary, nas cenas em que vislumbramos uma bela e sensual mulher africana. Por fim, temos um capítulo importante para a conclusão da série, no qual os autores aproveitam para homenagear a ficção científica pioneira de Júlio Verne. De quebra, os agentes do Planetary capturam um de seus piores inimigos.

Planetary - Deixando o Século 20 tem 144 em 17cm x 24cm, custando R$37,90. Se no caso de séries como Os Invisíveis e Preacher a publicação em formato reduzido não traz grandes perdas, isso não acontece com Planetary. Basta uma olhada nas edições originais, ou na publicação desses mesmos capítulos na Pixel Magazine, para se notar uma perda nos desenhos. E considerando que essas mesmas HQs já haviam sido publicadas em “formato americano” pela Pixel, a opção pelo formato reduzido para este terceiro volume tem mais a ver com o trabalho da editora Devir, que havia publicado dessa forma os dois primeiros volumes da série. Somam-se a isso alguns equívocos de tradução.

Authority - Terra Infernal e outras histórias tem 176 páginas em formato 16,5cm x 25,5cm, ao preço de R$19,90, enquanto Authority - Choque de Realidades Parte1 tem 72 páginas em formato 17cm x 26cm, ao preço de R$9,90. Escritas e desenhadas por autores como Mark Millar, Garth Ennis e Frank Quitely, as duas edições concentram-se em catástrofes humanitárias, matanças sem-fim, pancadarias sem sentido e muitos desenhos ruins. Páginas e mais páginas de quadrinhos que não valem o papel em que são impressos. O tipo de HQ que, nos tempos sombrios da Image, eu costumava chamar de lixo cultural.

05/07/2008

O maravilhoso mundo estranho de Planetary.


De tempos em tempos, uma série chega para deixar sua marca no mercado norte-americano de quadrinhos. Este é certamente o caso de Planetary, a complexa e bela revista escrita por Warren Ellis e desenhada por John Cassaday, com cores produzidas por Laura Martin e outros colaboradores. Reunindo releituras de personagens clássicos, ficção científica de última geração, uma trama conspiratória envolvente e citações a filmes e quadrinhos famosos, essa HQ conquistou uma legião de fãs, que ansiosamente aguarda por sua conclusão. Mas o que faz de Planetary uma série tão cultuada e especial?

Surgida em setembro de 1998 numa história curta promocional (baseada na origem do Hulk), Planetary estreou como uma série regular do selo Wildstorm no primeiro semestre de 1999. Planejada inicialmente como uma revista bimestral de vinte e quatro edições autocontidas, a publicação passou a sofrer atrasos e ganhou três números extras, estendendo-se pelos anos seguintes (no momento em que escrevo este texto, o roteiro para a última edição está pronto e a HQ está sendo enfim desenhada). Sua premissa básica era a seguinte: o que aconteceria se um século de História secreta, envolvendo superpoderes, monstros e maravilhas, começasse a vir à tona? Em outras palavras, uma trama ao estilo de Arquivo-X, porém tendo como base os quadrinhos de super-heróis.

É aí que entram em cena o enigmático Elijah Snow, a superpoderosa Jakita Wagner e o irreverente Baterista, que formam a equipe de campo da Corporação Planetary. Sua missão é percorrer o mundo coletando informações e catalogando fatos que outros parecem interessados em manter longe dos olhos da Humanidade. E à medida que os “arqueólogos do impossível” avançam em sua caça aos mistérios, mais provas apontam para o envolvimento de conspiradores conhecidos como Os Quatro (vilões inspirados no Quarteto Fantástico). A cada passo também, uma nova peça é somada ao quebra-cabeça que liga o passado de Elijah a importantes fatos ocorridos no século 20, bem como à identidade do misterioso Quarto Homem.

Se para Jakita, Baterista e Elijah a verdade tanto pode estar “lá fora”, quanto nos recônditos da memória, Planetary também tem sua frase marcante: “É um mundo estranho. Vamos mantê-lo desse jeito”. E embora muito de sua estrutura tenha sido enunciado já na primeira edição, o fato é que a série cresceu e se transformou ao longo do caminho (o leitor atento pode até notar algumas correções de curso). Há, é claro, algumas falhas narrativas e momentos mais fracos (como a sequência que tenta imitar uma história saída de uma revista pulp). No entanto, à medida que os autores tomavam pé de sua criação, uma intrincada trama foi tomando forma e, ao fim dos dois primeiros anos, o leitor é defrontado com algumas respostas que abrem portas para outros mistérios.

Mas Planetary é muito mais que uma história de conspiração. Um dos elementos que se destaca nas primeiras edições são as releituras de antigos personagens, seguindo o caminho aberto por Alan Moore nas séries Marvelman, Watchmen e 1963 (não é à toa que o mago de Northhampton faz uma “participação especial” na Planetary n°7 e alguns de seus conceitos, como o “Infraspace”, aparecem ao longo da série). Contudo, o trabalho de Warren Ellis possui dimensão e alcance próprios. Partindo de personagens como Fu Manchu, Doc Savage e O Sombra, passando por versões distorcidas ou gloriosas dos heróis da DC, até mergulhar na “mitologia” dos heróis Marvel criados por Stan Lee e Jack Kirby, o roteirista consegue surpreender com enredos originais e inventivos.

Outro destaque de Planetary são as interfaces de linguagens artísticas e o cruzamento de diferentes gêneros. Temos, por exemplo, o encontro de cinema e quadrinhos nas edições dedicadas aos filmes de monstros e de espionagem, ou a intertextualidade de quadrinhos e literatura nos capítulos em que aparecem Tarzan, Sherlock Holmes e Drácula (com direito a uma referência a outra série “extraordinária”). E a diversidade narrativa não pára por aí: histórias de fantasmas e filmes policiais de Hong Kong, épicos chineses e mitologia aborígine, Júlio Verne e Arthur Clarke, Akira e Cavaleiro Solitário são algumas das referências que podemos ver lado a lado nas páginas e edições de Planetary (uma pluralidade que já se percebe em suas variadas capas).

Sendo uma revista que viaja pelos mundos da ficção, Planetary tem a virtude de (quase sempre) manter-se ligada a um contexto realista. Exceto pelos monstros gigantes, a quase totalidade dos mistérios revelados na série não viola sua premissa de poderem ter sido, de alguma forma, mantidos em segredo (bom, consideremos que, no mundo de Planetary, não existe jornalismo investigativo...). Assim, mesmo para os poderes mais incríveis e para as tecnologias mais mirabolantes, existe uma base científica ou uma contextualização histórica, ora nas mais recentes teorias da Física, ora nas conspirações reais da época da Guerra Fria. Neste sentido, o que nasceu como uma atípica revista de super-heróis da Wildstorm evoluiu para uma ficção científica de primeira linha.

O mesmo pode se dizer do visual, que começa como um trabalho eficiente e acaba se tornando algo belo e fascinante (basta comparar a primeira edição e a n°17, por exemplo). A partir do terceiro ano de publicação, os desenhos de John Cassaday e as cores de Laura Martin alcançaram uma qualidade raras vezes vista nos quadrinhos comerciais. Exibindo um realismo dinâmico, seus quadros e páginas trazem uma narrativa “cinemática”, gerando o que já foi chamado de widescreen comics (não é por acaso que algumas cenas de Planetary parecem ter saído de um filme de John Woo ou da trilogia Matrix). E se todo bom roteiro de quadrinhos precisa de um visual adequado, pode-se dizer que é o trabalho de Cassaday e Martin o que torna Planetary de fato uma ótima HQ.

Com boas doses de ação, diálogos na medida e até algum humor, com sua diversidade narrativa, desconstrução de antigos personagens e visual elaborado, Planetary é uma série que merece ser lida. Uma mistura singular de super-heróis, ficção científica, tramas conspiratórias e puro maravilhamento, numa das melhores revistas norte-americanas dos últimos dez anos. Embora a série perca um pouco da força nos últimos capítulos, sua última edição (anunciada para o final do ano) é aguardada com muita expectativa pelos fãs. Enquanto isso, Warren Ellis e John Cassaday colhem os frutos de um bom trabalho, dedicando-se a projetos pessoais e também a personagens mais comerciais, como os heróis mutantes da Marvel.

No Brasil, Planetary teve algumas edições ruins, como as coletâneas em formato reduzido e páginas internas foscas, lançadas pela Devir. Seu melhor momento foi na Pixel Magazine, onde os capítulos 13 a 26 foram lançados com qualidade gráfica adequada. A Pixel também lançou três edições especiais em formato ampliado (Planetary / Batman - Noite na Terra, Planetary / Liga da Justiça - Terra Oculta e Planetary / Authority - Dominando o Mundo) e uma terceira coletânea (Planetary: Deixando o Século 20) no inadequado formato reduzido. Mas há rumores de que a editora possa relançar os primeiros capítulos, seguindo o modelo da absolute edition norte-americana. Para quem ainda não conhece, Planetary vale conferir!

05/05/2008

A melhor revista mensal do momento.


No Brasil, tornou-se comum a edição das HQs norte-americanas em publicações com mais de uma história e diferentes séries a cada mês (diferente do país de origem, onde os comic books trazem geralmente apenas uma aventura por número). As chamadas “revistas mix” ou “antologias de quadrinhos” consolidaram-se nos tempos dos formatinhos da Abril, sendo hoje utilizadas nas edições mensais da Panini para os super-heróis Marvel e DC. Mas não há dúvida de que, em termos de qualidade, a melhor revista mensal do momento é a Pixel Magazine.

Publicação que reúne algumas das principais séries das linhas Vertigo, Wildstorm e ABC, a revista mensal da Pixel Media completou há pouco um ano de circulação e sucesso comercial. Tanto que, a partir deste mês, ela ganhará uma irmã e concorrente (a Fábulas Pixel), passando por uma reformulação em seu elenco de séries. Alguns leitores manifestaram insatisfação com parte das mudanças anunciadas no blog da editora, mas só o tempo poderá dizer qual efeito elas terão. E enquanto a nova fase não vem, os números 12 e 13 da Pixel Magazine deram uma boa mostra do porquê ela merece nosso aplauso. As duas edições mais recentes da revista trouxeram uma escalação de séries semelhante: Monstro do Pântano e Hellblazer (da Vertigo), Planetary (da Wildstorm) e Promethea (da ABC).

Na capa do número 12, os leitores são convidados a uma aterrorizante viagem aos pântanos da Luisiana, levados pelo traço inconfundível de Richard Corben. O desenhista que ficou conhecido internacionalmente pelas páginas da Heavy Metal ilustra uma história escrita por Will Pfeifer, repleta de referências a seres da mitologia popular (como o Pé-Grande e o Monstro de Lock Ness). Muito bem narrada e utilizando de forma original o universo da criptozoologia (o desacreditado “estudo de animais ocultos”), essa HQ foi a melhor de toda a nova série Swamp Thing lançada nos Estados Unidos em 2004. Trata-se, porém, de uma história em duas partes e sua continuação, publicada na Pixel Magazine n°13, não tem a mesma força narrativa, perdendo-se em personagens secundários e subtramas sobrenaturais. Mas seguramente os desenhos de Corben continuam valendo a leitura.

Hellblazer traz os primeiros capítulos de uma nova história, escrita por Brian Azzarello e desenhada por Marcelo Frusin. No primeiro deles, recém-saído da cadeia John Constantine pega carona para um fim-de-mundo. Má companhia como sempre, o mago londrino faz um incauto motorista suar frio. Então, mais uma vez a sincronicidade coloca o personagem no lugar certo na hora certa para fazer o que deve ser feito. Com um roteiro bem estruturado (que se vale dos diálogos para construir uma tensão crescente), a HQ cumpre sua promessa de um bom desfecho. No capítulo seguinte, publicado na Pixel Magazine n°13, Constantine chega a uma encruzilhada, na qual questões mal resolvidas no passado podem determinar seu futuro. Repletos de crime e cotidiano, os dois capítulos parecem um híbrido de Hellblazer e 100 Balas, não apenas pelo roteiro de Azzarello, como também pelos desenhos contrastados de Frusin.

Quanto a Planetary, é a vez das edições 24 e 25 da cultuada série. Na primeira delas, Snow, Jakita e Baterista vêm ao “Brasil” em sua busca pela verdade sobre Os Quatro. Numa HQ que abre com o Cristo Redentor e mostra no próximo quadro a rua de um Rio de Janeiro um tanto hispânico, o fundamental são os diálogos que ajudam a montar o quebra-cabeça Planetary. Claro que, em se tratando de um roteiro de Warren Ellis, não poderia faltar uma carnificina no fim (que dessa vez custa a vida de alguns “brasileiros”). Na edição seguinte, os Arqueólogos do Impossível vão à caça do agente secreto John Snow, com direito a bastante pancadaria e à origem de Os Quatro revelada. Tendo conquistado os leitores com suas tramas de conspiração, citações à cultura pop e elementos de ficção científica, Planetary deve grande parte de seu sucesso ao competentíssimo desenhista John Cassaday, em grande estilo nessas edições.

Para completar os números 12 e 13 da Pixel Magazine, temos os capítulos 9 e 10 da série Promethea. No primeiro, a semideusa de Imatéria parte para um confronto direto com o Templo, em mais um bom roteiro de Alan Moore com ótimos desenhos de J.H. Williams III e Mick Gray. Mas o melhor fica para a edição seguinte, que traz na capa uma ilustração parafraseando o álbum Srt. Pepper’s dos Beatles e a fantástica história “Sexo, Estrelas & Serpentes” (ganhadora do prêmio Eisner de Melhor Edição Individual do ano 2000). Uma belíssima composição de misticismo, erotismo e quadrinhos, a HQ é ao mesmo tempo um banquete para os olhos e um deleite para a mente. Um trabalho único que consegue ser, ao mesmo tempo, profundamente culta e deliciosamente excitante. Em resumo, uma obra-prima!

No geral com uma boa seleção de histórias e desenhos, 96 páginas e vendida atualmente ao preço de R$10,90, a Pixel Magazine também se destaca pelos detalhes editoriais. Se é a história de capa que abre cada edição, os leitores não deixam de conhecer as ilustrações das capas das demais histórias, sempre reproduzidas no interior da revista. Além disso, há os textos introdutórios ou explicativos que ajudam a situar os leitores na trama (num trabalho bastante eficiente do editor Cassius Medauar). Para arrematar, temos a ótima qualidade de impressão da revista, que reproduz com fidelidade as cores das páginas originais.
Assim, por todos os motivos apresentados aqui, Pixel Magazine é a melhor revista mensal publicada no Brasil atualmente. Pode-se argumentar que, com a mesmice Marvel e DC publicada pela Panini, ser a “melhor” não é uma tarefa muito difícil. Mas, independentemente da fraca concorrência, a maior virtude da Pixel Magazine fala por si só: a de ser uma revista que trata os leitores como seres pensantes. Que continue assim por muitos meses mais!

22/04/2008

Planetary / Authority celebra o “estilo Warren Ellis”.


Nos últimos dez anos, Warren Ellis tornou-se um nome de destaque nos quadrinhos norte-americanos. Para os fãs do roteirista inglês, a Pixel trouxe este mês um lançamento especial: Planetary / Authority - Dominando o Mundo. Com desenhos de Phil Jimenez, arte-final de Andy Lanning e cores de Laura DePuy, a edição traz o encontro dos dois principais grupos de super-heróis da linha Wildstorm. Uma trama envolvendo universos paralelos e invasores extradimensionais é o motivo central dessa HQ bem ao "estilo Warren Ellis”.

Logo na primeira página de Dominando o Mundo, o leitor é literalmente jogado no meio da trama, na qual um polvo gigante cósmico e suas crias trazem devastação e morte a uma cidade costeira dos Estados Unidos. Como era de se esperar, os membros do Authority fazem sua bombástica intervenção para deter a ameaça. O que Jenny Sparks e seus comandados não sabem é que a ativação do monstro teve relação direta com os membros de Planetary. Para completar, Elijah, Jakita e Baterista passam a agir à margem, aproveitando a oportunidade para tentar saber mais sobre o outro grupo de heróis. Num segundo momento, a história dessa edição especial faz referência e se devolve a partir de acontecimentos nas séries regulares Authority e Planetary.

A verdade é que Dominando o Mundo tem os elementos mais característicos das HQs assinadas por Ellis. Primeiro, uma trama superestrutural envolvendo algum mistério ou ameaça que justifique a atuação dos protagonistas. Segundo, doses generosas de ação violenta, com direito a mutilações e carnificina. Terceiro, uma estética narrativa “pós-modernista”, na qual componentes intertextuais ou mesmo metalinguísticos são explicitados propositalmente. Por fim, um visual idealizado, com personagens e cenários desenhados detalhadamente e finalizados com técnicas que buscam uma aproximação com efeitos visuais do cinema. Com tudo isso, Planetary / Authority certamente agradará aos fãs dos dois grupos de super-heróis.

Contudo, se levarmos em consideração elementos técnicos e artísticos, a revista acaba deixando a desejar. Em primeiro lugar, o roteiro de Warren Ellis é um tanto fragmentado, trazendo várias elipses e passagens meio bruscas. Especialmente as sequências em flashback poderiam ter sido mais bem aproveitadas. A história traz inclusive uma participação velada do escritor norte-americano H.P. Lovecraft que, no entanto, além de servir de ponte contextual e ser insultado por Elijah Snow, não faz muito no fim. Quanto ao visual, a fórmula Wildstorm funciona novamente, embora o desenhista Phil Jimenez e seus auxiliares sejam um tanto irregulares, variando muito na qualidade ao longo da revista. Quanto à edição, a Pixel fez mais uma vez um ótimo trabalho, exceto talvez por dois balões de fala trocados numa das primeiras páginas.

Mas nada disso certamente atrapalhará a diversão dos fãs de Warren Ellis, que acompanham as HQs finais dos “arqueólogos do impossível” nas páginas da Pixel Magazine. A nova revista especial é a terceira de uma série lançada no Brasil em formato estendido, que começou com Planetary / Batman - Noite na Terra e teve recentemente Planetary / Liga da Justiça - Terra Oculta. E para aqueles que ainda não compraram a nova edição,
Planetary / Authority - Dominando o Mundo tem 48 páginas em formato magazine, 20cm x 29cm, sendo vendida ao preço de R$11,90.

12/02/2008

O Novo Universo Marvel versão Warren Ellis e Salvador Larroca.


Em 2006, foi anunciado com alvoroço o lançamento de newuniversal, nova série em que o roteirista Warren Ellis e o desenhista Salvador Larroca recriariam os principais personagens e conceitos do Novo Universo Marvel (que então completava 20 anos). Os primeiros números se esgotaram logo após o lançamento, ganhando reimpressões e prometendo um duradouro sucesso comercial. Ainda assim, os autores decidiram interromper o trabalho na sexta edição (com a qual se concluiu a suposta “primeira temporada” da revista), deixando uma promessa de retorno para 2008. Mas a pergunta que me faço é: será que vale a pena?

Com suas 144 páginas, a coletânea das seis primeiras edições da série (newuniversal: everything went white) começa com uma rápida introdução de três de seus principais personagens: John Tensen (um policial ferido em serviço que se tornará Justice), Kenneth Connel (um cara comum do interior norte-americano que encarnará Star Brand) e Izanimi Randal (uma garota de San Francisco que assumirá a figura de Nightmask). Após o Evento Branco (acontecimento astronômico de natureza inexplicada), a vida dessas e de outras pessoas se transforma radicalmente. Nas edições seguintes, ainda somos apresentados a Jenny Swann (uma engenheira tecnológica que vestirá a armadura Spitfire), Emmett Proudhawk (um índio lakota capaz de se comunicar com o Grande Espírito) e Phillip L. Voight (um velho agente encarregado de executar pessoas com poderes sobre-humanos), isso sem falar numa cidade européia de milhares de anos com seus defensores superpoderosos e em três supostos seres do futuro que colocam o governo norte-americano em pânico.

A coletânea newuniversal: everything went white é um livrinho bacana, com ótima impressão e tudo mais. Considerando a inspiração no conceito fundamental do Novo Universo Marvel, o volume tinha tudo para trazer também uma ótima HQ de super-heróis e ficção científica. Porém, não é bem isso que acontece. Embora tenha alguns momentos interessantes, o roteiro de Warren Ellis não passa de “um roteiro de Warren Ellis”. Algumas doses de violência explícita, uma trama superestrutural que beira a grandiloquência e uma certa insistência em acrescentar “conteúdo” aos diálogos acabam levando a um roteiro que poderia ter sido muito melhor do que realmente é (um cruzamento forçado do Novo Universo, com os quadrinhos de Alan Moore e a série Arquivo-X). Quanto às ilustrações de Salvador Larroca com as cores de Jason Keith, podemos dizer que, por alguns instantes, elas até enganam com seu efeito de bem-acabadas. Porém, no instante em que nos lembramos de que estamos lendo uma HQ, as imagens excessivamente estáticas e sombreadas acabam mais prejudicando que contribuindo para a narrativa (o uso de atores como modelos para vários personagens também não ajuda muito).

Num saldo geral, por sua qualidade técnica e enredo mais cerebral, newuniversal é uma HQ de super-heróis acima da média. Mas não é uma obra que se possa chamar de “imperdível” (pessoalmente, prefiro o volume com as sete primeiras HQs originais de Star Brand, também lançado em 2006). Por seu visual e diálogos, a criação de Ellis, Larroca e Keith parece mais a transposição de episódios de uma série de tevê, do que propriamente uma história em quadrinhos. O interessante é que, na mesma época em que a “primeira temporada” de newuniversal era lançada, estavam sendo exibidos os episódios da primeira temporada de Heroes, série de tevê que também bebeu na fonte criativa do Novo Universo Marvel.