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30/04/2010

Quais as melhores atuações / caracterizações em filmes de super-heróis?


Já propus algumas listas opinativas aqui no Mais Quadrinhos e elas sempre rendem vários comentários de vocês que acompanham o blog, o que é sempre muito legal! Então, aproveitando a estreia no Brasil de Homem de Ferro 2, bolei uma nova pergunta para saber a opinião de vocês. Convido a todos então para postarem um comentário com sua lista das atuações e/ou caracterizações preferidas em filmes de super-heróis. Vocês podem, é claro, aproveitar para comentar a minha lista ou a de outros leitores, especialmente se não concordarem com algo, pois um pouquinho de discussão é sempre divertido. Minha lista é a seguinte:

1. Patrick Stewart (X-Men – O Filme e X-Men 2): tendo uma aparência ideal para o papel, nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes o ator inglês está perfeito como o Professor Charles Xavier. Para mim, sua atuação é a melhor versão do personagem, incluindo os quadrinhos.

2. Christopher Reeve (Superman – O Filme): se ficasse simplesmente parado, vestido na fantasia colorida do Super-Homem, o ator norte-americano já seria a melhor encarnação do personagem. Mas se sua caracterização do Homem de Aço é perfeita no clássico de 1978, sua atuação dupla como Kal-El e Clark Kent consegue a façanha de convencer que uma troca de roupa e uma mudança de postura seriam capazes de esconder a identidade secreta de um super-herói.

3. Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas): é quase unânime a opinião de que o ator australiano realizou a mais impressionante encarnação que o Coringa já teve, sendo o ponto alto do segundo filme do Homem Morcego dirigido por Christopher Nolan. Ele só não ocupa um lugar melhor em minha lista por ter mais reinventado do que propriamente encarnado o personagem dos quadrinhos.

4. Hugh Jackman (X-Men – O Filme e X-Men 2): embora não seja baixinho nem mal-encarado, o ator australiano ficou bem convincente como Wolverine nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes. E se sua carreira deve muito a esse papel, grande parte do carisma dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer se deve à sua presença.

5. Michelle Pfeiffer (Batman – O Retorno): eu já era fã desde O Feitiço de Áquila, e ao vê-la vestida naquela fantasia de Mulher-Gato... O segundo filme do Batman dirigido por Tim Burton é bem legal. Mas se não fosse, ele já valeria a pena pela vilã mais linda dos filmes de super-heróis e seu delicioso “miau”.

29/07/2009

Origens recontadas dos heróis DC.


Na época da série 52, a DC Comics produziu e lançou uma coleção de HQs de duas páginas com a versão resumida das origens de vários de seus personagens. Uma espécie de reedição das populares “origens secretas” publicadas até 1990, essa nova coleção The Origin of... foi uma forma de a editora familiarizar novos e antigos leitores com seu elenco de personagens. Com roteiros escritos por Len Wein, Mark Waid e Scott Beatty, as histórias contaram com a participação de diversos desenhistas, incluindo nomes de destaque do momento (como Ivan Reis, Ethan Van Sciver, J.G.Jones) e veteranos consagrados (como Adam Hughes, Kevin Nowlan, Bruce Timm, Kelley Jones, Arthur Adams).

Neste último time, o desenhista que mais contribuiu com páginas desenhadas foi, surpreendentemente, Brian Bolland. Exímio no desenho de belas personagens femininas, o artista inglês foi o responsável pelas páginas da origem de Zatanna. Tendo definido o visual do Coringa para toda uma geração de leitores (com A Piada Mortal), Bolland também foi o responsável pela HQ do principal vilão do Batman, escrita por Waid a partir daquela apresentada por Alan Moore. Para esta coleção The Origin of..., no entanto, o melhor trabalho de Bolland está nas páginas feitas para o Homem Animal (que ilustram esta postagem), com um roteiro de Mark Waid baseado na versão proposta por Grant Morrison.

As páginas das origens de Zatanna, Coringa e Homem Animal, bem como as demais HQs de The Origin of... estão disponíveis online (os textos, é claro, estão inglês e para acessar as páginas basta clicar nos links anteriores).

23/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte2.


Segunda parte de nossa entrevista exclusiva e Brian Bolland fala sobre a obra-prima dos quadrinhos de super-heróis A Piada Mortal (atualmente disponível no Brasil em reedição de luxo pela Panini). Ele também nos conta como foi trabalhar com Alan Moore nessa marcante graphic novel, fala sobre quadrinhos “sombrios & violentos” e censura editorial.

Wellington Srbek: A idéia inicial para uma história especial com o Batman e o Coringa foi sua e foi também o senhor que sugeriu o nome de Alan Moore para roteirista do que veio a ser A Piada Mortal. Como foi trabalhar com Alan Moore nesta marcante graphic novel?

Brian Bolland: A primeira metade de sua pergunta está correta. Após Camelot eu estava na posição de escolher o que gostaria de fazer para a DC. Alan Moore, Kevin O'Neill, Dave Gibbons, Mick McMahon, etc. eram todos amigos meus dos tempos da 2000 AD. Alan e eu tínhamos alguns projetos que nós quase produzimos juntos, entre os quais estava uma revista Batman / Juiz Dredd. Alan e Dave tinham acabado de obter um grande sucesso com Watchmen. Eu era fascinado com o Coringa. Eu tinha visto o filme da década de 1920 O Homem que Ri [brilhantemente encarnado pelo ator alemão Conrad Veidt], do qual, dizem, Jerry Robinson tirou a idéia. Alan me perguntou que tipo de coisa eu gostaria de desenhar.
Naqueles tempos (e ainda hoje para mim, na verdade) o negócio de escrever quadrinhos e o de desenhar quadrinhos são completamente separados. O roteirista se senta em casa e escreve. O roteiro é enviado ao desenhista que o desenhará; e um não interfere no processo do outro. Foi assim com A Piada Mortal. Então, se me pergunta “como foi trabalhar com Alan?”, minha resposta é: eu pedi a Alan que a escrevesse. Ele a escreveu. Eu a desenhei.

WS: A Piada Mortal foi um quadrinho do Batman como nenhum outro antes. Foi também a história de origem do Coringa contada pela primeira vez. Foi realisticamente violenta e insana, sendo em parte responsável pela tendência dos quadrinhos “sombrios e violentos” que predominaram nas revistas de super-heróis no fim dos anos 80 e início dos 90. Mas, a despeito de toda a violência e das cenas terríveis, A Piada Mortal tem um dos desenhos mais belos e detalhados já feitos para o Batman. Quais são seus sentimentos em relação a essa incrível HQ?

BB: Quando o roteiro chegou, ele de fato continha coisas que ele não teria se eu o tivesse escrito. Eu pessoalmente jamais contaria uma história de origem do Coringa, por exemplo. Mas olhando para ela mais tarde, eu agora vejo que as partes que eu não teria incluído parecem bastante icônicas hoje. Eu às vezes penso que nós artistas britânicos que trabalhamos na 2000 AD trouxemos o caráter “sombrio & violento” conosco, quando fomos trabalhar para a DC.

WS: A primeira edição brasileira de Camelot 3000 teve uma cena de Tristan e Isolda censurada pelos editores daqui. E me parece que os editores da DC fizeram algo semelhante numa das páginas de A Piada Mortal, substituindo (ou te pedindo para substituir) os seios nus de Bárbara Gordon por um close do rosto dela. O senhor já teve algum problema com censura editorial?

BB: Eu nunca tive PROBLEMAS com censura editorial. Alguém na DC deve ter falado algo sobre aquela cena da Bárbara Gordon. Eu mudei aquele único quadro e acho que a melhorei. Eu sou ciente de todos os tipos de coisas que você não pode colocar numa capa. Nudez está fora de questão. Eu uma vez desenhei uma capa com o Robin que tinha umas estátuas gregas no fundo, que eu copiei de fotos. Entre as estátuas havia cinco mamilos visíveis. Todos foram apagados! Eu uma vez desenhei uma capa que tinha o Batman fumando um charuto. Bem, era o Hugo Strange com barba, vestido como Batman fumando um charuto. Não pude fazê-la. Talvez eles a tenham rejeitado em favor de uma idéia melhor, mas eu considero que existem várias regras não escritas que você não pode violar, e o Batman não pode ser visto fumando. E há questões legais. Eu uma vez desenhei uma capa do Batman que tinha o que parecia ser um membro da Ku Klux Klan montado num cavalo. Tivemos que acrescentar um logo no peito dele para mostrar que ele pertencia a alguma outra organização branca supremacista, pois a Ku Klux Klan tem advogados que poderiam processar!
Em agosto de 2009 vou viajar para uma convenção em Singapura. Para a ocasião, estamos imprimindo um livro contendo alguns dos meus esboços a lápis. Acabou que, infelizmente, vários dos desenhos, incluindo meus esboços favoritos da Tank Girl, não podem ser incluídos devido à postura muito conservadora das autoridades daquele país. Eu acredito que meus livros Bolland Strips! e The Art of Brian Bolland não estarão à venda lá pelo mesmo motivo.

WS: Depois de ter nos dado a versão definitiva do Coringa em A Piada Mortal, nós não vimos muitas outras histórias desenhadas pelo senhor. Quais são as razões para isso?

BB: Bem, após A Piada Mortal, muitos trabalhos me foram oferecidos. Tive que recusar muitos deles, mas as pessoas diziam “se você fizesse ao menos a capa...”. Produzir capas significa que, apenas daquela única vez, eu posso desenhar um monte de personagens que de outra maneira eu não desenharia. No verão de 1988, eu saí no que pensei que seria uma longa viagem pelo Oriente, então eu não estava disponível para compromissos de trabalho de longo prazo. Além disso, tendo trabalhado com o melhor roteirista e tendo me sido dado tanto tempo quanto eu quisesse para desenhar e eu mesmo arte-finalizar [A Piada Mortal], eu não queria dar um passo para trás. Desde Alan, eu não desenhei uma história significativa escrita por outro roteirista. Exceto por MIM. Eu de fato escrevi e desenhei "An Innocent guy" em Batman Black & White, "The Kapas" em Strange Adventures e "The Princess & the Frog" em (como era o nome?) True Romance. Além de Mr. Mamoulian e The Actress & the Bishop. Mas falaremos deles mais tarde.

A seguir: Animal Man, The Invisibles, fantásticas capas, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais!

21/07/2009

A brilliant artist from cover to cover: an interview with Brian Bolland, part2.


Part2 of our exclusive interview, and Brian Bolland talks about the comics masterpiece The Killing Joke, how it was to work with Alan Moore on this groundbreaking graphic novel, and also “grim & gritty” comics and editorial censorship.

Wellington Srbek: The original idea for a Batman and Joker special story was yours, and it was also you who suggested the name of Alan Moore as the writer for what came to be The Killing Joke. So, how it was to work with Mr. Moore on this groundbreaking graphic novel?

Brian Bolland: The first half of your question is correct. After Camelot I was in a position to do whatever I wanted for DC. Alan Moore, Kevin O'Neill, Dave Gibbons, Mick McMahon, etc. were all friends from the 2000 AD days. Alan and I had a couple of projects that we nearly worked on together, one of which was a Batman / Judge Dredd book. So I'd already seen parts of a script by him containing Batman. Alan and Dave had just had a big hit with Watchmen. I was fascinated by the Joker. I'd seen the 1920s film The Man Who Laughs from which, they say, Jerry Robinson got the idea. Alan asked me what sort of thing I wanted to draw.
Back in those days (and still today for me, actually) the business of writing comics and drawing comics were completely separate. The writer sat at home writing. The script was sent to the artist who would draw it - and neither would interfere with the other's process. That's the way it was with The Killing Joke. So if you ask "how was it to work with Alan?" my answer is: I asked Alan to write it. He wrote it. I drew it.

WS: The Killing Joke was a Batman comic like no other before. It was the Joker origin story told for the first time. It was realistically violent and insane, and it was in part responsible for the “grim & gritty” trend that dominated super-hero comics in the late 80s early 90s. But despite all the violence and terrible scenes, The Killing Joke has the most beautiful and detailed Batman artwork. What are your feelings about this amazing book?

BB: When the script came it did contain things that I wouldn't have had in it if I'd written it. I personally would never have told a Joker origin for instance. But looking at it later I can now see that the bits I wouldn't have included look pretty iconic today. I sometimes think that us artists from Britain who'd been in 2000 AD brought the "Grim & Gritty" with us when we went to work for DC.

WS: The first Brazilian edition of Camelot 3000 had a Tristan and Isolde scene censored by the editors here. And it seems that the DC editors did something like that to one of The Killing Joke pages, replacing (or asking you to replace) the naked breasts of Barbara Gordon by a close-up of her face. Have you ever had any problems with editorial censorship?

BB: I've never had PROBLEMS with editorial censorship. Somebody at DC must have mentioned that Barbara Gordon scene. I changed the one panel and I thought it improved it. I'm aware of all kinds of things you can't put on a cover. Nudity is out. I once drew a Robin cover that had some Greek statues in the background that I copied from photos. Between them the statues had five visible nipples. All were whited out! I once drew a Batman cover that had Batman smoking a cigar. Well, it was Hugo Strange with beard, dressed as Batman smoking a cigar. I couldn't do it. Maybe they rejected it in favor of another idea but I assume there are various unwritten rules that you can't cross and Batman cannot be seen smoking. And there are legal issues. I once drew a Batman cover that had what appeared to be a member of the Ku Klux Klan sitting on a horse. We had to add a logo on his chest to show that he belonged to some other white supremacist organization because the Ku Klux Klan have lawyers who might sue!
In August 2009 I'm off to a convention in Singapore. For the occasion we're printing a book containing some of my penciled prelim roughs. It turns out, unfortunately, that quite a few of the drawings, including my favorite Tank Girl roughs, can't be included because of the very conservative stance of the authorities in that country. I assume my books Bolland Strips! and The Art of Brian Bolland won't be on sale there for the same reason.

WS: After giving us the definitive Joker in The Killing Joke, we haven’t seen many stories drawn by you. What are the reasons for this?

BB: Well, after The Killing Joke, I had a lot of work offered to me. I had to turn much of it down but people would say "Could you just do the cover." Doing covers meant that, just that one time, I could draw a whole lot of characters that I wouldn't otherwise draw. In summer 1988 I went off on what I thought would be a long trip round the Far East so I wasn't able to commit to long term work. Also, Having worked with the best writer and having been given as much time as I wanted to pencil and ink myself I didn't want to take a backward step. Since Alan I haven't drawn a significant story by any other writer. Except for ME. I did write and draw "An Innocent guy" in Batman Black & White, "The Kapas" in Strange Adventures and "The Princess & the Frog" in (was it called?) True Romance. Also Mr. Mamoulian and The Actress & the Bishop. But more on that later.

Next: Animal Man, The Invisibles, beautiful covers, funny strips, gorgeous women, and a lot more!

22/07/2008

O novo filme do Batman (e do Coringa).


Estreou na última sexta-feira O Cavaleiro das Trevas, segundo filme do Batman dirigido por Christopher Nolan e protagonizado por Christian Bale. Também trazendo um elenco estelar, o novo longa-metragem é muito superior a Batman Begins e tem como destaque a impressionante atuação de Heath Ledger no papel do Coringa. Seu trabalho é tão original e intenso que, segundo se especula, pode até render um Oscar póstumo, além de influenciar a forma como o vilão aparecerá futuramente nos quadrinhos.

Diferente do primeiro filme dirigido por Nolan, O Cavaleiro das Trevas tem um roteiro interessante, no qual os principais personagens são bem aproveitados. A história avança no que foi mostrado em Batman Begins, contando com uma pequena aparição do vilão Espantalho e aprofundando a relação do Homem-Morcego com Alfred e Lucius Fox, interpretados por Michael Caine e Morgan Freeman. Mas o que realmente ganha dimensão e relevo é a atuação do Comissário Gordon, vivido por Garry Oldman, que assume a condição de principal coadjuvante. Há ainda o promotor Harvey Dent, interpretado por Aaron Eckart, e a advogada Rachel Dawes, vivida por Maggie Gyllenhall, que substitui a inócua Katie Holmes. Porém, como já se podia notar em algumas imagens promocionais, O Cavaleiro das Trevas é mesmo um filme do Batman no qual o Coringa é a grande estrela.

A versão encarnada por Ledger traz os elementos básicos do vilão, representado como um homicida insano com um senso de humor sádico e um visual peculiar. Mas a caracterização e interpretação do ator australiano diferem das tradicionais versões de Cesar Romero e Jack Nicholson, sendo mais realista e perturbadora. Em primeiro lugar, a caracterização de Ledger não simula uma pele branca, mas sim uma maquiagem borrada e escorrida, com um sorriso falso que encobre cicatrizes. Completam a figura um cabelo esverdeado que parece suado e sujo, além de um terno roxo, escuro e surrado. Já a interpretação é mais contida e menos cômica que as anteriores, marcada por uma postura corporal particular e por trejeitos inquietantes. Chamado de “terrorista”, o novo Coringa é manifestadamente mais crível e assustador que seus antecessores.

A impressionante atuação de Ledger teria tudo para se repetir num terceiro filme dirigido por Nolan. Mas, com a morte do ator em janeiro deste ano, o Coringa deverá ficar de fora da provável sequência de O Cavaleiro das Trevas. Certamente, porém, ator e personagem ficarão definitivamente associados, e isso não apenas pela caracterização e interpretação originais. Logo que a morte de Ledger foi anunciada, não faltou quem associasse sua overdose de remédios para insônia e ansiedade à pesada carga emocional associada ao “palhaço do crime”. Provavelmente, essa nova versão do Coringa, ainda mais doentia e estranha, deverá também influenciar futuras aparições nos quadrinhos da DC Comics. Especulações à parte, o personagem psicótico de Ledger não deixa muito espaço para outros bat-vilões, como Espantalho e Duas-Caras, valendo por si só a ida ao cinema.

Os únicos senões nas mais de duas horas do longa-metragem dizem respeito a alguns exageros e a situações inexplicadas e inexplicáveis. No entanto, O Cavaleiro das Trevas é uma ótima produção cinematográfica baseada nos quadrinhos, que deverá agradar mesmo àqueles que não lêem as HQs do Homem-Morcego. Por isso mesmo, os fãs de Batman e Coringa podem tranquilamente levar suas namoradas para assistirem a Christian Bale e Heath Ledger, com direito a ótimos coadjuvantes, numa história interessante e empolgante. Nestes tempos de ingressos tão caros, O Cavaleiro das Trevas é um filme que vale o investimento.

Para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos e filmes com Batman e Coringa, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.

28/12/2007

Batman: herói dos seriados, filmes e animações (III).


Pode-se dizer que os “filhos legítimos” dos filmes de Tim Burton são, na verdade, os desenhos animados produzidos pela Warner Bros., a partir de 1992. Preparada para se seguir ao lançamento de Batman - O Retorno, a nova série de animação do Homem-Morcego superou todas as expectativas, saindo “muito melhor que a encomenda”. Lançada numa época em que a Internet não havia ainda se difundido, ela estreou no Brasil sem muito alarde, numa manhã de domingo. Por isso mesmo, a surpresa foi total! Já na abertura (com seus tons sombrios e desenhos dinâmicos conduzidos por uma música que vai do soturno ao triunfal), Batman - The Animated Series mostrou que os desenhos animados baseados em quadrinhos poderiam ser produções mais adultas e sofisticadas.

Assim como os filmes de Tim Burton, a animação produzida por Alan Burnett, Eric Radomski e Bruce W. Timm partia de uma temporalidade difusa (que misturava componentes da Art Decó dos anos 40 com elementos dos anos 90). Com arquitetura, roupas e carros antigos, além de um clima sombrio e de gângsteres como bandidos, a nova série animada do Batman não escondia a influência dos filmes noir e das animações clássicas do Super-Homem (produzidas pelos irmãos Fleischer entre 1941 e 1943). E se o visual de alguns objetos e personagens (como o Batmovel e o Pinguim) veio das produções cinematográficas de Tim Burton, o visual do Homem-Morcego saiu do herói Space Ghost criado por Alex Toth (para os Estúdios Hanna-Barbera, nos anos 60) e do próprio Batman desenhado por David Mazzucchelli (para a HQ Ano Um, de 1987). Já o trabalho de animação em si ficou a cargo de estúdios orientais, que aplicaram recursos e inovações trazidos pelo longa-metragem Akira (o clássico de Katsuhiro Otomo, de fins dos anos 80). Por fim, a música-tema de Danny Elfman (adaptada de seu trabalho em Batman - O Filme) e um acertado elenco de vozes (que no caso do protagonista é ainda melhor na dublagem do brasileiro Márcio Seixas) contribuíram para o imediato sucesso da série.

Contudo, recursos técnicos e influências visuais não seriam o bastante se a série não trouxesse também boas histórias. Tendo como referência a abordagem “psicológica” e mais racionalista dos quadrinhos dos anos 80 (como Ano Um de Frank Miller e A Piada Mortal de Alan Moore), os roteiristas buscaram o “lado humano” dos personagens (evitando o maniqueísmo ao apresentar suas motivações). O melhor exemplo disso talvez seja o Cara de Barro, que surge como um perigoso monstro capaz de alterar sua forma, mas acaba se revelando um atormentado ex-ator em busca de uma cura. O mesmo acontecesse com o Sr. Frio, vilão de não muito destaque que teve sua origem recontada, ganhando uma dimensão mais trágica (além de um novo visual criado por Mike Mignola). De fato, a começar do próprio Batman/Bruce Wayne, quase todos os coadjuvantes e antagonistas de suas HQs foram reinventados para a série: do Morcego-Humano e do fiel mordomo Alfred (no ótimo episódio-piloto “Asas de Couro”), passando pelo Comissário Gordon e por Robin, até os vilões Duas-Caras, Mulher-Gato, Charada, Hera Venenosa, Pinguim e, é claro, o insuperável Coringa.

Revitalizado e mais espirituoso que nunca, o Coringa chegou como uma das estrelas da série, ganhando uma versão à altura de sua importância (e a dublagem do ator Mark Hamill no original). E o Palhaço do Crime mostrou que não estava de brincadeira, em episódios como “O Natal do Coringa”, “Seja um Palhaço” e “Um favor para o Coringa”. Este último, escrito por Paul Dinni, trouxe a estréia da impagável Arlequina, a namorada do Coringa que conquistou o coração do público (a ponto de saltar dos episódios da tevê para os quadrinhos da DC Comics). Dinni também escreveu o inspirado “Quase o peguei” (no qual os principais inimigos do Batman contam suas histórias de como eles quase o derrotaram) e o original “O homem que matou o Batman” (no qual um bandido chinfrim espanta o mundo do crime com a alegação de ter matado o defensor de Gotham City). A lista de escritores do desenho animado incluiu ainda veteranos dos quadrinhos, como Len Wein, Marv Wolfman e Dennis O’Neil, que garantiram o ótimo nível médio dos roteiros.

Batman - A Série Animada foi um enorme sucesso de público e crítica, ganhando vários prêmios. Com isso, o desenho animado acabou originando uma coleção de brinquedos e a ótima revista em quadrinhos Batman - O Desenho da TV, além do longa-metragem para o cinema Batman - A Máscara do Fantasma, lançado em 1993. No ano seguinte, o título da série foi mudado para As Aventuras de Batman & Robin, marcando uma nova abordagem que valorizava mais o Menino-Prodígio. Tendo se saído tão bem com o Homem-Morcego, Bruce Timm teve a chance de recriar o outro grande super-herói da DC Comics, produzindo em 1996 Superman - A Série Animada. No ano seguinte, o desenho do Homem-Morcego sofreu outra mudança estrutural, passando a se chamar As Novas Aventuras do Batman. Já em 1998, a dupla dinâmica apareceu no longa Batman & Sr. Frio: Abaixo de Zero, enquanto o Homem-Morcego se encontrou com o Homem de Aço em Batman/Superman: Os Melhores do Mundo. No ano seguinte, foi lançada Batman do Futuro, série que originaria o longa O Retorno do Coringa. Mais recentemente, foi lançado em DVD um quarto filme: Batman - O Mistério da Mulher Morcego.

Esse amplo repertório de animações pavimentou o caminho para as séries Liga da Justiça, Liga da Justiça Sem Limites, Jovens Titãs e a recente Legião dos Super-Heróis. Com uma qualidade técnica e narrativa capaz de agradar tanto a uma criança de 3 anos quanto a um adulto de 33, de um modo geral, os desenhos animados lançados pela Warner nos últimos quinze anos são melhores que os quadrinhos publicados pela DC Comics. Recriando os personagens da editora para a linguagem da animação e o público do século 21, essas séries cativaram novos fãs que, em muitos casos, jamais lerão as versões originais em quadrinhos. Mas o fato é que foi a profunda paixão de Bruce Timm e sua equipe pelos heróis das HQs que gerou Batman - The Animated Series, um dos melhores desenhos animados já feitos.

Para quem quiser conhecer ou rever, as animações citadas aqui já foram lançadas no Brasil em DVD. E para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos do Homem-Morcego, clique na palavra BATMAN em destaque abaixo.

26/12/2007

Batman: herói dos seriados, filmes e animações (II).


Com a crise de valores dos anos 70, o questionamento dos heróis tradicionais abriu caminho para que Batman reassumisse seu lado mais sombrio. E a partir de sucessos dos quadrinhos nos anos 80 (O Cavaleiro das Trevas, Ano Um e A Piada Mortal), a Warner Bros decidiu levar o personagem para as telas de cinema, numa produção que fizesse jus à sua importância. Foi assim que surgiu Batman - O Filme, sensação cinematográfica de 1989 inspirada nas primeiras HQs desenhadas por Bob Kane e em elementos das graphic novels produzidas por Frank Miller e Alan Moore.

Lançado para comemorar os 50 anos do Homem-Morcego, o longa-metragem chegou com uma gigantesca campanha de marketing, que contava com anúncios na mídia em geral, além da distribuição de material impresso (como pôsteres e panfletos) e instalações cenográficas em lojas de departamentos (onde eram exibidos vídeos, em meio a elementos temáticos e modelos em escala reduzida). Feito numa época em que não havia um novo filme de super-heróis a cada semana, o lançamento de Batman - O Filme foi o que se pode chamar de um acontecimento memorável.

A princípio, a escolha de Tim Burton para a direção causou controvérsia entre os fãs, embora nada que se comparasse ao espanto geral causado pelo anúncio de Michael Keaton para o papel-título. Mas se a bela Kim Basinger (no papel de Vicky Vale) trouxe algum alívio aos mais descontentes, a escolha de Jack Nicholson para o papel de Coringa (acompanhado dos rumores sobre seu milionário cachê) não deixou dúvidas de que se tratava de uma grande produção. O fato é que o filme foi um estrondoso sucesso de bilheteria, e visto hoje (apesar de algumas limitações técnicas) ele não decepciona.

Podendo também ser chamado de “Batman - O filme que o Coringa roubou”, seu roteiro se concentra na origem do vilão (retirada de A Piada Mortal), relacionando-a com a origem do herói (encenada a partir da versão de Frank Miller). Como esperado, a atuação de Nicholson é insuperável, não deixando muito espaço para Keaton e os demais atores. Apesar de alguns momentos de inverossimilhança, a produção acertou no figurino e na ambientação, criando uma Gotham City que mistura elementos dos anos 40 e componentes atuais. A temporalidade não-fixada colabora inclusive para a “suspensão da incredulidade”, numa história que traz atores fantasiados de morcego-humano e palhaço psicopata, além de uma “mocinha” que não faz muito mais do que ser salvar e emitir estridentes gritinhos.

Um resultado ainda melhor foi alcançado com Batman - O Retorno, que trouxe um Michael Keaton mais convincente no papel principal, além de Danny DeVitto (como um repulsivo Pinguim) e Michelle Pfeiffer (interpretando uma sensualíssima Mulher-Gato). Com uma produção mais bem-cuidada e um roteiro mais original, esse segundo filme, lançado em 1992, foi a chance de Tim Burton mostrar sua versão cinematográfica dos quadrinhos (influenciada por elementos dos clássicos do terror e dos espetáculos itinerantes). Sem os exageros da produção anterior e com uma cenografia mais competente, Batman - O Retorno é ainda (passados quinze anos) um dos melhores filmes já feitos com personagens dos quadrinhos.

Com o sucesso financeiro das primeiras produções, a Warner decidiu investir em duas sequências dirigidas por Joel Schumacher. A primeira foi o pós-modernoso Batman Forever, filminho de 1995 com Val Kilmer, Nicole Kidman e Tommy Lee Jones, dedicado às caretas e trejeitos do excessivo Jim Carey. Já Batman & Robin, lançado em 1997, contou com Arnold Schwarzenneger, Uma Thurman e George Clooney, mas não conseguiu ser muito melhor que o filme anterior. Após essas dispensáveis produções (que incluíram closes no traseiro, mamilos salientes e toda uma abordagem drag queen), passariam dez anos até que um novo ator vestisse o capuz de Batman nos cinemas. Mas antes disso, para felicidade dos bat-fãs, o herói ganharia a melhor de todas as suas adaptações para outra mídia, como veremos a seguir.

Para os interessados, Batman - O Filme, Batman - O Retorno, Batman Forever e Batman & Robin estão disponíveis em DVD, podendo ser encontrados numa caixa com os quatro filmes ou em edições individuais. Existem também edições econômicas com dois ou até três filmes por disco, mas sem extras.

27/11/2007

A insana relação entre Batman e Coringa.


Sou de uma época em que os personagens dos quadrinhos eram tratados em primeiro lugar como “personagens”, e não como “franquias” a serem exploradas em novos sucessos de vendas ou bilheterias. Assim, pelo menos para nós leitores, heróis e vilões pareciam ter uma personalidade e uma trajetória que se transformava ao longo do tempo. Batman e Coringa são bons exemplos disso. Nos quadrinhos dos anos 80 e 90, seus encontros foram marcados por um "jogo de gato e rato", em que cada vez se tornava mais difícil distinguir qual dos dois era o mais insano.

Foi com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller que o estranho relacionamento entre o Homem-Morcego e seu principal inimigo adquiriu uma dimensão mais "doentia". De um lado, o soturno vigilante obcecado por sua missão; do outro, o psicopata excêntrico e homicida. Em seu embate final, ao passarem por uma Casa dos Espelhos, a dialética que os movia tornou-se evidente: herói e vilão apresentavam-se como figuras complementares, a existência de um justificava a do outro. Não é por menos que o desfecho da história acontece com um abraço mortal, dentro do Túnel do Amor.

Essa abordagem “psicológica” foi retomada em A Piada Mortal dos ingleses Alan Moore e Brian Bolland, edição na qual a origem do Coringa é contada. Sendo o personagem central da história, ele aparece como um vilão sádico e amoral que desconhece quaisquer limites, enquanto Batman só se preocupa em desempenhar o papel de guardião de Gotham City, a ponto de seu único elo com a vida cotidiana ser o mordomo Alfred. Buscando uma abordagem mais realista dos super-heróis, a HQ é marcada por cenas de violência explícita. O próprio Alan Moore chegou a admitir que teria ido um pouco além da conta, num roteiro em que o Coringa aleija e abusa de Bárbara Gordon, além de torturar seu pai, para no fim acabar às gargalhadas, num quase abraço com o Batman.

O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal colocaram Batman na linha de frente da renovação que caracterizou os comics na década de 1980, além de transformarem o Coringa no vilão mais famoso e cultuado dos quadrinhos. Não é à toa que as duas obras foram a base para o roteiro e temática do badalado filme Batman de 1989, que teve o ator Jack Nicholson no papel do Coringa. Mas é preciso não nos esquecermos de que foi o seriado de tevê dos anos 60, com a ótima atuação de Cesar Romero no papel do “palhaço do crime”, que tornou Batman um personagem tão popular, até mesmo entre aqueles que não liam quadrinhos. Contudo, foi mesmo a abordagem mais adulta dos roteiros de Miller e Moore que estabeleceu um novo patamar a partir do qual outros autores puderam criar suas histórias.

Um bom exemplo é Asilo Arkham, criada por Grant Morrison e Dave McKean, que tem como tema central a história da própria instituição para loucos criminosos. Ao longo das páginas dessa exuberante graphic novel, o Homem-Morcego faz um tour pelo manicômio onde estão internados seus principais inimigos. Porém, a viagem acaba se revelando um mergulho na própria alma do herói, torturado pela dor e culpa da morte de seus pais. O mestre de cerimônias não poderia ser outro, é claro, senão o Coringa. Mas a HQ enfrentou censura por parte dos editores da DC Comics, que temiam a possibilidade de ela prejudicar a imagem de um de seus principais personagens. O motivo principal: a sequência em que o Coringa, mais afetado e abusado do que nunca, faz uma alusão perniciosa ao relacionamento entre Batman e Robin.

Do ponto de vista técnico e temático, Asilo Arkham é um bom exemplo do avanço qualitativo dos quadrinhos de super-heróis nos anos 80. Produzida por autores britânicos, a HQ tem um texto que lida com assuntos pouco comuns nos quadrinhos norte-americanos, sem falar num visual impressionante que mistura desenho, pintura, fotografia e colagem. Após essa elaborada obra, parecia que nada de novo poderia ser acrescentado ao relacionamento entre Batman e Coringa. Mas então surgiu Arlequina!

Nascida na série de animações do Batman lançada em 1992, Arlequina revelou-se uma das vilãs mais sensuais e espirituosas dos últimos tempos. Na HQ especial “Louco Amor”, publicada no Brasil nas revistas Batman - O Desenho da TV nºs 14 e 15, sua origem e seu relacionamento amoroso com o Coringa são mostrados de forma inteligente e até ousada. Contratada para trabalhar no Asilo Arkham, a psiquiatra Harley Quinzel acaba se apaixonando por um paciente. Só que o paciente em questão é ninguém menos que o Coringa, e isso leva Harley a iniciar uma carreira no crime, provando que "de médico e louco todo mundo tem um pouco". Para Frank Miller, a HQ produzida por Paul Dini e Bruce Timm foi a melhor história do Batman na década de 1990, opinião com a qual concordo plenamente.

Em 2008, será lançado The Dark Night, um novo filme do Homem-Morcego, que terá o Coringa como vilão principal. Com ele, a insana relação entre os personagens ganhará um novo capítulo e certamente também se intensificará nos quadrinhos. Enquanto o filme não chega, as ótimas HQs citadas neste texto valem ser lidas ou relidas. Com alguma pesquisa, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Asilo Arkham e “Louco Amor” podem ser encontradas em lojas virtuais, nas edições originais ou em português. Por sua qualidade artística e importância para a história dos quadrinhos, essas HQs não podem faltar na coleção de nenhum bat-fã.

24/11/2007

O retorno do Cavaleiro das Trevas.


Na história dos quadrinhos, poucas revistas causaram tanto impacto quanto Batman: The Dark Knight Returns, lançada pela DC Comics em 1986. Apresentando um herói cinquentão e obstinado que luta para salvar uma caótica Gotham City do futuro, esta minissérie em quatro edições ajudou a transformar o mercado norte-americano, abrindo caminho para as graphic novels e minisséries de luxo. A partir dela, os editores perceberam que quadrinhos de super-heróis voltados para um público mais maduro poderiam ser um bom negócio. Escrita e desenhada por Frank Miller, arte-finalizada por Klaus Janson e pintada por Lynn Varley, Batman: O Cavaleiro das Trevas (título que a HQ recebeu no Brasil em 1987) também inauguraria um novo padrão artístico para os quadrinhos de super-heróis.

Ao iniciar a história, Miller sabia que estava lidando com importantes ícones culturais, sem falar nos milhões de dólares que giram em torno do “bat-símbolo” e do “super-S”. E o que ele fez, ao longo das 200 páginas da história, foi justamente resgatar o caráter original dos personagens, recuperando sua força arquetípica, minada por décadas de plágios e HQs estereotipadas. Mas o sucesso avassalador da minissérie não se deveu apenas à qualidade do roteiro, narrativa e desenhos. Miller já era um dos artistas mais valorizados do mercado norte-americano e, graças ao seriado de tevê dos anos 60, Batman era um fenômeno cultural que extrapolava os quadrinhos (lembremos inclusive que muitos dos jornalistas e críticos que saudaram efusivamente a minissérie, em 1986, eram crianças ou jovens nos anos 60).

Contudo, a hilária série de tevê estrelada por Adam West estava muito distante da abordagem pretendida por Miller, que contou com outros referenciais para sua versão séria dos super-heróis. Ainda nos anos 70, os quadrinistas Denny O’Neill e Neal Adams haviam produzido boas HQs buscando o caráter mais sombrio de Batman, e já nos anos 80 Alan Moore tinha feito a primeira recriação racionalista de um antigo super-herói, com a série Marvelman (que Miller homenageia, desenhando um garoto vestido como o herói britânico, na página 11 do último capítulo de sua minissérie).

Em O Cavaleiro das Trevas, os personagens são o elemento fundamental de um politizado roteiro. Batman aparece como um guerreiro imbatível movido por um único propósito: combater o crime, mesmo que para isso seja necessário infringir a Lei. Já o Super-Homem apresenta-se como o defensor da Lei, mesmo que isso signifique ser um mero “garoto de recados” do governo norte-americano. Alfred continua sendo o fiel e espirituoso escudeiro de Batman. O Coringa representa tudo que ele mais abomina, enquanto o comissário Gordon, os valores morais que o herói quer defender. E há a Robin, uma adolescente que conquista o afeto do herói cinquentão. Isso sem falar numa plêiade de personagens coadjuvantes.

Ao longo da história, o que une personagens tão diversos é o fato de todos estarem à sombra de Batman, servindo-lhe de contraponto e sempre reforçando sua figura quase monolítica. Neste sentido, o Cavaleiro das Trevas criado por Miller é uma reação ao que vinha acontecendo desde os anos 70, quando a indústria dos comics foi afetada pela crise econômica e moral nos Estados Unidos. Naquele momento, os super-heróis clássicos (depositários do otimismo e nacionalismo norte-americanos) perderam sua credibilidade. Afinal, enquanto o antes imbatível Capitão América era derrotado no Vietnã, nem mesmo o quase onipotente Super-Homem era capaz de superar a recessão econômica e os escândalos políticos.

Ambientada num futuro próximo, no qual um senil Ronald Reagan é o presidente do país, a obra de Miller reflete o novo clima político e social da década de 1980. Na Gotham City do futuro, a redução dos fundos destinados à assistência social, a corrupção e incompetência dos políticos, o efeito estufa e uma eminente guerra nuclear contra a União Soviética são algumas das causas da violência e insegurança que tomam conta da sociedade. Nessa “terra de ninguém”, dominada por gangues de adolescentes assassinos, Batman é o herói redentor, cujo retorno é aguardado (algo como Rei Arthur ou Jesus Cristo). Entretanto, por mais que Miller critique o governo e os políticos, há algo que é sempre resguardado em suas HQs: um suposto espírito empreendedor norte-americano, incansável em sua busca por justiça. Diante de um governo decadente, as ações ilegais do Cavaleiro das Trevas estariam assim justificadas. Com isso, o Super-Homem, “que sempre diz sim a alguém com um distintivo ou bandeira”, é enviado para deter o subversivo Batman.

Quanto ao visual, o estilo rebuscado dos desenhos de Frank Miller e Klaus Janson, somado às cores de Lynn Varley, dá maior densidade aos personagens e veracidade à história. Mas é em termos de narrativa que O Cavaleiro das Trevas trouxe sua maior contribuição à arte dos quadrinhos. Nas HQs do Demolidor, além de uma narrativa “cinematográfica”, Miller misturou influências de Will Eisner ao mangá Lobo Solitário. Já em Ronin, somaram-se elementos dos europeus Moebius e Bilal. O Cavaleiro das Trevas é uma síntese dessas experiências, acrescentando-se a influência de Hugo Pratt, que recebe citações diretas (a ilha em que se dá o conflito entre EUA e URSS chama-se Corto Maltese e, no segundo capítulo, a página que mostra a bandeira norte-americana transformando-se no “S” do Super-Homem foi adaptada de uma HQ do quadrinista italiano).

Narrativa subjetiva, enquadramentos em pormenor, valorização da sequencialidade, zooms, flashbacks, intercalação de narrativas e imagens de página inteira são alguns dos recursos empregados de forma articulada e original por Miller. Fizeram escola o uso dos quadros em forma de telinha de tevê e a sequência da morte dos pais de Bruce Wayne. Logo no primeiro capítulo, uma lição de como prender a atenção do leitor (ao estilo do filme Tubarão de Steven Spielberg): passam-se 27 das 47 páginas, antes que Batman surja triunfal, numa página inteira. O Cavaleiro das Trevas também influenciou a forma de se abordar os super-heróis, que se tornariam mais violentos nos anos seguintes (como se para imprimir mais “realismo” e atrair o público fosse necessário estar sempre superando a agressividade das edições anteriores). Por outro lado, a obra de Miller abriu caminho para trabalhos que deram continuidade ou reforçaram suas conquistas, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal, Asilo Arkham, Batman 1889, além da ótima série de animação lançada pela Warner em 1992.

O fato é que, a partir de O Cavaleiro das Trevas com sua abordagem mais “realista”, os quadrinhos de super-heróis passaram a ser vistos com outros olhos. O caráter politizado da minissérie, mas principalmente a qualidade gráfica, o elaborado roteiro e a narrativa inovadora deram-lhe o título de clássico dos quadrinhos, tornando-a uma referência para novos autores. Com ela, Frank Miller tornou-se um nome reconhecido internacionalmente e o Homem-Morcego viveu novamente uma onda de “batimania”, que incluiu filmes, desenhos animados, brinquedos e várias bugigangas. Sobretudo, esta HQ é uma leitura indispensável para os fãs do Batman, e também do Super-Homem.

Atualmente, O Cavaleiro das Trevas está disponível no Brasil em duas edições (capa dura e brochura) lançadas pela
Panini. O volume inclui extras e também DK2, a coloridinha e dispensável sequência que Miller produziu há alguns anos.