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30/04/2013

Falando de cinema...


Além dos quadrinhos, que dão título e são o tema principal deste blog, o cinema sempre foi um assunto constante aqui, tendo retornado na postagem anterior, na qual comentei o filme Homem de Ferro 3 (do qual peguei emprestado um pôster com o personagem Mandarim, para ilustrar esta postagem). 

Temos aqui resenhas de filmes, de quadrinhos que inspiraram filmes e de HQs que, de alguma forma, têm a ver com o universo do cinema. Um espaço especial é dedicado aos textos sobre filmes de super-heróis e os quadrinhos e personagens que os inspiraram. 

Vale destacar que foram muito populares entre os leitores do Mais Quadrinhos (rendendo vários comentários) as listas que fiz com os "melhores" e "piores" filmes com personagens dos quadrinhos.

Então, para quem quiser conferir todas essas postagens em que o cinema é um tema, basta clicar aqui.

27/04/2013

O Homem de Ferro nos cinemas (III).


Entre muitos fãs de quadrinhos, estabeleceu-se o consenso de que, nas chamadas “trilogias” de super-heróis, o terceiro filme é sempre mais fraco que os dois primeiros. Embora isso não seja um fato científico, desde o ano 2000, trilogias como X-Men e Homem-Aranha parecem fundamentar plenamente essa ideia.

Seguindo-se ao enorme sucesso de Os Vingadores e cercado de muita expectativa, Homem de Ferro 3 prometia contrariar a “maldição do terceiro filme”, equiparando-se ou até mesmo superando seus antecessores. Teria ele conseguido tal façanha? Como milhares e milhares de leitores de HQs, fui ao cinema neste final de semana para tirar a prova...

E a resposta é: não. Embora Homem de Ferro 3 não chegue a ser um filme ruim, nem de longe alcança a qualidade do excepcional Homem de Ferro ou os melhores momentos do bem dosado Homem deFerro 2. O terceiro filme da série começa bem e a participação de Ben Kingsley (caracterizado como terrorista muçulmano à la Bin Laden) dá tom e força à produção.

As demais atuações, capitaneadas por Robert Downey Jr., não deixam a desejar e a qualidade dos efeitos visuais (com toda uma coleção de novas armaduras) é a esperada de uma produção do Marvel Studios. No entanto, quando a história começa a se desenrolar, com a trama envolvendo a tecnologia “extremis” (da já clássica HQ de Warren Ellis e Adi Granov), o filme também começa a perder força.

A sensação é que falta a Homem de Ferro 3 a qualidade estrutural do primeiro e a energia narrativa do segundo filme com o herói. Apesar de alguns bons momentos envolvendo um ator mirim, não temos nele a mesma dinâmica dos diálogos afiados dos filmes anteriores. O que leva à conclusão de que a maior falha do novo filme está no que seria seu fundamento: o roteiro.

Homem de Ferro 3 não é um filme ruim (com os defeitos de X-Men 3 ou os excessos de Homem-Aranha 3). Vale a ida ao cinema, embora não seja indispensável.  Mas, sem dúvida, falta-lhe a inteligência de seus antecessores. Vejamos então se os próximos filmes do Marvel Studios se sairão melhor, correspondendo à enorme expectativa que criam.

02/05/2012

Quais são os 5 melhores filmes de super-heróis?


Há três anos, fiz aqui uma postagem convidando os leitores do Mais Quadrinhos a listarem seus filmes de super-heróis favoritos. O resultado foi uma das postagens com maior participação dos leitores do blog. (Valeu pessoal!) Passado esse tempo, novas produções vieram e creio que muitas das listas apresentadas podem ter se alterado. A minha mesmo sofreu mudanças: embora aquele que considero o melhor dos filmes de super-heróis ainda continue o mesmo, um novo filme foi acrescentado e as posições de outros se alteraram (nossa percepção das coisas, de fato, muda com o tempo).

Fica então o convite para postarem nos comentários sua lista com os 5 melhores filmes de super-heróis. Os meus favoritos são:

1. Superman – O Filme (o primeiro filme maduro e bem-produzido com um super-herói, uma excelente produção capaz de traduzir os quadrinhos para a telona, com efeitos especiais inovadores para a época. Até mesmo para alguém que jamais gostou do Super-Homem, a interpretação de Christopher Reeve tornou o personagem crível e interessante, enquanto um elenco coadjuvante, liderado por Marlon Brando e Gene Hackman, deu lastro à história. A última meia-hora deixa a desejar e as continuações, que não contaram com a direção de Richard Dooner, não valem muito a pena. Mas Superman – O Filme continua um clássico que merece ser visto!).

2. Homem de Ferro (o filme de estreia do excelente Robert Downey Jr. como super-herói superou todas as expectativas, com um roteiro interessante, bons efeitos, atuações na medida, diálogos inteligentes e uma trilha empolgante. Conciliando elementos realistas numa aventura fantasiosa, a produção do Marvel Studios é mais que apenas um bom entretenimento, além de ser melhor que a maioria das versões do personagem nos quadrinhos).

3. O Cavaleiro das Trevas (apesar do discutível ator no papel-título, o segundo filme do Homem-Morcego dirigido por Christopher Nolan me fez esquecer o decepcionante Batman Begins. É claro que uns 90% da força do filme estão na impressionante, incomparável e perturbadora atuação de Heath Ledger no papel do Coringa. Mas o roteiro também é bom, a produção bem-cuidada e o elenco coadjuvante está perfeito).

4. X-Men 2 (o primeiro filme dirigido por Bryan Singer com os heróis mutantes tinha seguido a fórmula de Superman – O Filme, conciliando respeito pelos quadrinhos, protagonistas desconhecidos mas adequados, atores talentosos e consagrados em papéis-chave e os melhores efeitos disponíveis na época. Contudo, X-Men – O Filme deixou a sensação de que faltava algo. Mas o que quer que estivesse faltando veio em X-Men 2, um filme tão bom que teve o efeito de até mesmo “melhorar” seu antecessor).

5. Os Vingadores (um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos, a produção escrita e dirigida por Joss Whedon realizou a façanha de reunir na telona alguns dos grandes ícones das HQs de super-heróis. Sendo trabalhada desde Homem de Ferro 2, Thor e Capitão América, a trama de Os Vingadores só não alcançou melhor resultado por seus vilões lugar-comum e o final não muito original. Mesmo assim, a produção impecável e as fantásticas cenas com o Hulk fizeram do filme um dos melhores já feitos com super-heróis).

01/05/2012

Os Vingadores, a quarta parte de uma saga cinematográfica.


Os Vingadores foi sem dúvida um dos filmes mais antecipados e aguardados dos últimos tempos. Afinal, desde a cena pós-créditos de Homem de Ferro, em 2008, o Marvel Studios vinha preparando o cenário para trazer, num mesmo filme, alguns dos principais super-heróis dos quadrinhos. Diga-se de passagem, naquele mesmo ano, outra cena pós-créditos em O Incrível Hulk também falava ao público sobre a formação de uma equipe. Tudo poderia ter parado por ali, uma vez que a produção encabeçada por Edward Norton não teve grande sucesso. Mas com o filme estrelado por Robert Downey Jr. a história foi bem diferente!

O excelente resultado de público e crítica do primeiro filme com Downey Jr. garantiu a realização de Homem de Ferro 2, lançado em 2010. A ele se juntariam, no ano seguinte, Thor e Capitão América – O Primeiro Vingador.  Três produções de boa qualidade que serviram para somar novos elementos, personagens e subtramas a uma história mais ampla. Neste sentido, esses três filmes podem ser considerados os atos iniciais de uma peça maior, que se concluiu agora com Os Vingadores. E a sensação que fica é a de que essa aventura em quatro partes cumpriu sua promessa de levar às telonas alguns dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos, em produções tecnicamente exemplares.

Os Vingadores, em especial, cumpre a promessa de ótimo entretenimento (embora não tenha se igualado ao Homem de Ferro de 2008, que conseguiu ir além do entretenimento). Em suas mais de duas horas, o filme dirigido por Joss Whedon traz vários pontos altos, como as boas tiradas de Tony Stark e TODAS as cenas do Hulk (uma delas, aliás, sozinha já vale a ida ao cinema!). Embora Capitão América e Thor pareçam acessórios, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Agente Coulson e Nick Fury desempenham perfeitamente suas funções. Temos uma nave-monstro bem bacana, porém os vilões (incluindo Loki) parecem um tanto “lugar-comum”, e a forma como foram derrotados no final é Independence Day demais.

Na verdade, o que menos gostei no filme foi ter sido obrigado a vê-lo em 3D, para poder assistir com o áudio original (nos cinemas mais próximos não havia nenhuma sessão em 2D legendada). Ou seja, tive que pagar mais caro (R$9,00 a mais) e assistir com aqueles óculos chatos, para poder ver o filme com as vozes originais dos atores (confesso que não gosto de filmes em 3D, pois não acho que acrescenta muita coisa e ainda dão dor nos olhos). Mas o filme é bem bacana e (minha namorada gostou tanto que) vou acabar indo ao cinema novamente para ver em 2D (as cenas do Hulk compensam!).

Os Vingadores deixa um gostinho de “quero mais”. E a próxima parada do expresso Marvel Studios é Homem de Ferro 3, que chega aos cinemas em 2013. E seria absolutamente fantástico se nesse filme também aparecesse o Hulk. Ou mesmo se fizessem um filme Homem de Ferro & Hulk... Mas aí já é pedir demais, né?

Eu não poderia falar sobre os filmes do Marvel Studios, sem citar suas “fontes” principais: Iron Man – Extremis e TheUltimates, duas ótimas séries com elementos e mesmo cenas que foram parar nas produções cinematográficas. Fica então a sugestão: quem gostou dos filmes não deixe de conferir essas HQs. São promessa de ótima leitura!

07/04/2012

Xingu, um filme que vale muito ser visto!


O motivo desta postagem é deixar a dica para todos irem ao cinema assistir a Xingu – O Filme, produção da O2 dirigida por Cao Hamburger.

Minha dica vai, em primeiro lugar, porque se trata de um ótimo filme! Mas, em especial, porque ele narra uma grande aventura brasileira que mais pessoas deveriam conhecer: a história de como os irmãos Leonardo, Cláudio e Orlando Villas-Bôas ajudaram a promover um contato mais respeitoso e pacífico com as nações indígenas do Brasil central. O filme também mostra como essa aproximação singular possibilitou a preservação dos ambientes naturais e também das identidades culturais presentes no Parque Nacional do Xingu, criado em 1961 graças ao trabalho dos Villas-Bôas.

Xingu – O Filme teve, para mim, a força e a emoção de contar a história de pessoas que estão entre meus heróis pessoais. Pois quem conhece meus quadrinhos sabe que a cultura e os mitos indígenas são um tema precioso, que tem estado presente em HQs como o recente álbum Ciranda Coraci. Em 1997, essa temática já tinha aparecido na revista Caliban, que em seu primeiro número teve uma história do herói Solar em homenagem ao trabalho dos irmãos Villas-Bôas, que permitiu que tivéssemos acesso ao fantástico mundo dos índios do Xingu. Na verdade, boa parte da história de Solar se baseia em situações paralelas às que são narradas em Xingu – O Filme.

Filho de uma antropóloga com o líder espiritual de uma tribo amazônica, a explicação para os poderes de Solar está diretamente ligada aos mitos indígenas. Além disso, na história do personagem, a aldeia de seu pai é destruída num ataque de invasores de terras. A nota triste é que essa passagem da HQ não tem nada de ficção, e continua a ocorrer ainda hoje; pois, como diria a mãe de Solar num trecho publicado na revista Caliban n°2: é a mesma velha história desde Cabral... o branco chega e expulsa o índio, que se resiste leva bala. Os que não morrem de tiro, morrem de doença...

Claro que, publicada em revistas em quadrinhos independentes de pequenas tiragens e impressas em P&B, a história por trás do personagem Solar não alcançou a ressonância que merece. Felizmente, na tela grande do cinema, em cores e movimento, a mensagem do respeito às populações indígenas e da preservação dos ambientes naturais poderá chegar agora a muito mais pessoas.

Então, fica aqui a dica: não deixem de assistir ao ótimo Xingu – O Filme!

08/11/2010

The Ultimates 2, a continuação da melhor série de super-heróis da década.


Idealizada como um filme de orçamento milionário, a revista The Ultimates de Mark Millar e Bryan Hitch surpreendeu por sua qualidade e originalidade. Tornando-se um sucesso de público e de crítica, seus treze capítulos merecem o título de melhor série de super-heróis da década, influenciando outros quadrinhos e os novos filmes da Marvel. Com toda essa repercussão, a obra de Millar & Hitch não poderia ficar sem uma continuação. E esta veio entre 2005 e 2007, quando foram publicadas as treze edições de The Ultimates 2, que contaram com arte-final de Paul Neary e cores por Laura Martin.

A história começa como na primeira série: com o Capitão América numa missão a serviço do Tio Sam. Mas, desta vez, ao invés de destruir uma arma secreta nazista, o herói patriótico entra em ação para salvar reféns norte-americanos no Iraque (situação ficcional que ecoa incidentes passados e contemporâneos envolvendo os Estados Unidos e países da região). A trama então passa a se desenrolar a partir das relações e conflitos entre os membros de Os Supremos. A revelação pública de que Bruce Banner é o Hulk e seu julgamento pela morte de mais de 800 pessoas em Nova York ocupam a maior parte das primeiras edições dessa “segunda temporada”. Mas há também espaço para o romance entre Homem de Ferro e Viúva Negra, para a revelação da existência de um traidor no grupo de heróis e para a crescente tensão política envolvendo o Thor.

Este, aliás, é a figura central do primeiro grande momento de The Ultimates 2, quando vemos a trama arquitetada por seu meio-irmão Loki levar a um violento confronto contra Os Supremos e seus superaliados europeus. Se as cenas de luta são muito bem trabalhadas por Hitch & Cia., toda a sequência ganha mais dimensão com as referências feitas por Millar à história de Jesus Cristo (uma vez que, segundo suas próprias palavras, Thor teria sido enviado por seu Pai para salvar o mundo). No capítulo seguinte, o imaginário cristão e a dimensão mítica dão lugar a algo mais mundano, quando entram em cena Os Defensores, um grupo de super-heróis chinfrins, cuja cruzada contra o crime tem um desfecho tragicômico. Mas as coisas assumem um tom grave, quando o complô contra Os Supremos leva ao aparente assassinato de um herói e de sua família.

Após “ataques preventivos” a países do Oriente Médio e tendo que lidar com a crise de seu relacionamento com Vespa, Capitão América é envolvido pelas destrutivas ações do traidor. Quando se chega à metade de The Ultimates 2, todas as peças estão no lugar e os movimentos de bastidores dão lugar ao enfrentamento direto quando o traidor é revelado e uma invasão de super-humanos internacionais devasta Nova York e Washington. Com robôs gigantes e super-seres chineses, russos, norte-coreanos e muçulmanos aterrorizando os cidadãos norte-americanos e destruindo monumentos como a Estátua da Liberdade, o que vemos é o dia da retaliação dos povos oprimidos e do ataque oportunista de inimigos históricos (alegoria política que só é atrapalhada pelo fato de os agentes internacionais falarem em inglês, a língua de seu suposto opressor).

Embora pudesse se esperar que algum dos “vilões” da história arrancasse a cabeça do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, essa catártica cena não acontece. Afinal, trata-se de uma HQ norte-americana e, como esperado, a “cavalaria” chega no último instante para salvar o dia. Com isso, quem acaba executado é o líder muçulmano da força invasora, e assim toda a catarse fica para os leitores norte-americanos. Mas antes deste primeiro desfecho, o que vemos nessa segunda metade de The Ultimates 2 é uma das batalhas mais titânicas das revistas de super-heróis. E tudo é amplificado pelos quadros de página inteira e pelas páginas duplas ilustradas de forma magistral, que originaram cenas panorâmicas absurdamente detalhadas (superando a concepção do widescreen comics com algo ainda mais impactante).

No último ato, após doze capítulos empolgantes, os quadrinhos panorâmicos de Millar e Hitch guardam uma última surpresa para os leitores. De início, temos uma sequência emprestada da trilogia O Senhor dos Anéis, quando uma horda de trolls e gigantes a serviço de Loki entra em cena. Segue-se então o contra-ataque dos heróis, numa sequência de oito páginas que formam num único quadro gigantesco, publicado na coletânea em capa-dura como uma peça que se desdobra tendo quatro pranchas de cada lado (que, nos comentários ao final da edição, Millar chamou de “o maior quadro publicado na história dos quadrinhos”). O que vem depois é uma rápida superação da ameaça e um epílogo que amarra as pontas soltas, estabelecendo uma nova condição para o principal grupo de heróis da linha Ultimate Marvel. Na última página, um beijo hollywoodiano.

The Ultimates 2 é uma HQ de super-heróis acima da média; contudo, a história que ela conta é bastante convencional. Nela, os papéis do “mocinho” e do “bandido” são ocupados por figuras tradicionalmente representadas dessa forma nos filmes de Hollywood e nas revistas de super-heróis. Embora traga uma explícita crítica à agressiva política externa dos Estados Unidos durante a “era Bush”, a série acaba identificando os vilões da história como “terroristas” a serem exterminados. Para um autor que se diz crítico e liberal, nessa continuação de seu melhor trabalho, o escocês Millar não se deu ao trabalho de esconder que “jogava para a torcida” norte-americana. Uma prova de que, por melhores que sejam, os quadrinhos de super-heróis são escritos de uma perspectiva ideológica específica, não devendo ser lidos como mera distração.

(Para quem quiser saber mais sobre os trabalhos de Mark Millar e Bryan Hitch ou sobre a linha Ultima Marvel, basta clicar nos marcadores abaixo.)

21/10/2010

Homem de Ferro e a convergência das mídias e linguagens.


Começa a chegar às lojas de todo o país os DVDs e Blu-Rays com o filme Homem de Ferro 2. Continuação do grande sucesso do Marvel Studios em 2008, o longa é mais um dos inúmeros exemplos de convergências das mídias e linguagens. Saído de revistas em quadrinhos e coletâneas em capa-dura ou cartonada, direto para o cinema e também para os games, brinquedos, miniaturas e animações, de volta para os quadrinhos, passando por versões digitais para computadores, smartphones e tablets, o Homem de Ferro tornou-se nos últimos dois anos uma presença multimidiática e uma “franquia” multimilionária.

Criado nos anos 60, o personagem foi totalmente atualizado em 2005 por Warren Ellis e Adi Granov na minissérie Iron Man: Extremis, que foi uma das bases para a versão cinematográfica. Tomando emprestados elementos do roteiro e do visual da armadura, o primeiro filme do Homem de Ferro conseguiu conciliar respeito pelos quadrinhos e ideias originais para a telona. O resultado foi um sucesso comercial que irradiou de volta para as revistas, aumentando o prestígio e presença daquele herói, além de influenciar estilisticamente suas HQs. O melhor exemplo é a série The Invincible Iron Man, também lançada pela Marvel em 2008.

Escrita por Matt Fraction, desenhada por Salvador Larroca, com cores por Frank D’Armata, a nova série não foi uma extensão da produção cinematográfica, mas lembra muito um longa. Se alguns elementos parecem saídos de um filme de espionagem, todo o visual em estilo fotográfico e os efeitos digitais na colorização buscam imitar os filmes de ação e aventura futurista. Para completar, predominam páginas com quatro ou cinco quadros na horizontal, que aproximam os quadrinhos do formato widescreen do cinema. Este recurso, aliás, favorece a leitura das HQs em tablets e especialmente nos smartphones, aumentando o lucro potencial das edições.

Se para a Marvel fazer quadrinhos que tenham alguma ligação com sucessos do cinema é uma receita bastante segura para o sucesso nas vendas, para os quadrinhos de super-heróis podemos ver alguns problemas nisso. O principal deles é a padronização de sua linguagem e a perda de autonomia estética. Claro que os chamados widescreen comics não começaram com a The Invincible Iron Man ou sequer com a Marvel. A patente dessa ideia costuma ser atribuída a Warren Ellis e Bryan Hitch, com seu The Authority. No entanto, é nas revistas da Marvel dos últimos anos que uma imitação do cinema tem se tornado mais evidente e mesmo uma fórmula a ser repetida.

Já faz tempo que a Marvel transpõe seus personagens para além das revistas. Desde os desenhos desanimados que levaram à tevê Capitão América, Homem de Ferro, Thor & Cia., adaptar histórias e reutilizar imagens de quadrinhos renderam bons resultados. Passadas algumas décadas, chegamos aos montion comics, que acrescentam som, movimento e efeitos a HQs como Iron Man: Extremis, o que repete a ideia de antes, porém com mais recursos técnicos. Por este e pelos demais exemplos apresentados aqui, o Homem de Ferro é provavelmente hoje o melhor exemplo, nos quadrinhos de super-heróis, dessa convergência tecnológico-criativa.

Essa nova realidade veio para ficar, trazendo uma multiplicação das formas de veiculação e comercialização das histórias em quadrinhos e de seus personagens. Assim, se há não muito tempo temia-se o desaparecimento dos quadrinhos enquanto linguagem e produto cultural, este não parece ser o caso para as próximas décadas. Mas, em se tratando dos quadrinhos de super-heróis, uma excessiva ligação às produções cinematográficas pode estar levando a uma nova estagnação criativa, simbolizada por produtos culturais externamente belos e reluzentes, mas pouco originais e significativos em essência.

18/10/2010

Todo poder ao Thor.


Quem era criança ou adolescente no final dos anos 70, início dos anos 80, deve se lembrar dos desenhos desanimados com Homem de Ferro, Capitão América e os demais Vingadores. Não indo muito além das HQs originais da Marvel, às quais se dava algum movimento, locução e efeitos sonoros, aquelas animações primitivas conseguiam ser uma diversão bacana. Foi através delas que conheci o herói Thor e a miríade de personagens do reino mítico de Asgard, recriados para os quadrinhos por Stan Lee e Jack Kirby. Eu voltaria a encontrar aqueles personagens alguns anos depois, quando comecei de fato a ler e colecionar quadrinhos.

Além das HQs clássicas de Lee & Kirby, lembro-me em especial de uma fase do personagem, produzida por Walter Simonson. Os desenhos eram impactantes, as histórias interessantes e ainda ganhamos o personagem Bill Raio Beta, um alienígena que realizou a façanha de domar os poderes do Deus do Trovão. Em 1998, outra fase do personagem chamou a atenção, neste caso devido aos desenhos do talentoso John Romita Jr. Passada quase uma década, uma nova fase do Poderoso Thor mereceu a atenção dos leitores, em grande parte devido aos roteiros de J. Michael Straczynski, aos quais se somaram belas páginas e capas desenhadas por artistas como Olivier Coipel.

Trazendo o Deus do Trovão de volta do limbo, os roteiros misturam divindades nórdicas e a realidade de uma pacata cidadezinha do interior norte-americano. A influência de Sandman é evidente, sem falar na ideia dos deuses kirbyanos em corpos de simples mortais, que Straczynski parece ter copiado da minissérie Eternals, também escrita por Neil Gaiman. Apesar disso, misturando mitologia e temas tirados de páginas de jornais (como a destruição de Nova Orleans e os massacres de Darfur), o trabalho do roteirista agradou aos leitores. Tanto que, seguindo um padrão utilizado com o Homem de Ferro, alguns elementos dessas HQs de sucesso deverão parar no vindouro filme do Thor.

Numa dinâmica inversa, com a divulgação das primeiras cenas do longa dirigido por Kenneth Branagh, a Marvel passou a lançar uma enxurrada de títulos estrelados pelo Deus do Trovão. Começando com as minisséries Thor for Asgard, The Might Avenger e First Thunder, a onda inclui a nova série Ultimate Thor, além de especiais e da própria série regular do herói nórdico, que passou a ser escrita por Matt Fraction (que havia feito um bom trabalho na revista mensal do Homem de Ferro, atualizando-a e aproximando-a da versão cinematográfica do personagem). Em meio a tudo isso, um destaque vai para Tales of Asgard, que reeditou HQs clássicas de Lee & Kirby.

Enquanto o filme não estrear em maio de 2011, o que se pode esperar são mais e mais edições e promoção em torno do nome Thor, além de cenas com o martelo mágico Mjolnir. E caso o filme seja bem-sucedido, pode-se esperar que, assim como aconteceu com o Homem de Ferro, o Deus do Trovão se torne uma figura cada vez mais presente nos quadrinhos, animações e demais produtos Marvel. Fazendo assim de Thor um super-herói mais poderoso do que nunca.

30/08/2010

Homem-Aranha: dos quadrinhos para a telona.


Uma produção cinematográfica com o Homem-Aranha estava nos planos da Marvel Entertainment há bastante tempo, tendo sido adiada por limitações técnicas e problemas legais. Mas, no ano 2000, os executivos da empresa puderam enfim voltar suas atenções para o herói aracnídeo; o resultado foi uma “verdadeira sensação”! Com produção executiva de Avi Arad e Stan Lee, direção de Sam Raimi, Homem-Aranha estreou em maio de 2002, precedido por uma esmagadora campanha publicitária. No elenco, o razoável Tobey Maguire como protagonista, a esquisitinha Kirsten Dunst no papel Mary Jane e o intenso Willem Dafoe como Norman Osborn / Duende Verde (além de boas atuações nos papéis coadjuvantes de J. Jonah Jameson, Tio Ben e Tia May). Com efeitos visuais convincentes, uma ótima fantasia para o Aranha e interpretações que não comprometiam, o filme foi bem recebido, batendo recordes na estreia.

Algumas situações e cortes ecoam outras produções com super-heróis (como Superman – O Filme de 1978 e Batman – O Filme de 1989). Mas o primeiro longa do Aranha tem caráter próprio, o que se deve especificamente ao que ele pegou dos quadrinhos. A começar por elementos adaptados da primeira HQ escrita por Stan Lee, como a personalidade de Peter Parker, o desafio de luta livre, o acidente no laboratório e a participação indireta na morte do Tio Ben (que no filme é quem diz a versão mais corrente da frase célebre: “Com grande poder vem grande responsabilidade”). Dos quadrinhos clássicos, também saiu a amizade com Harry Osborn, a luta com o Duende Verde sobre uma ponte de Nova York (na qual se trocou Gewn Stacy por Mary Jane) e ainda a morte do vilão. Já da versão Ultimate de Bill Jemas e Brian Michael Bendis, o filme tomou emprestado a ideia de uma aranha geneticamente alterada, o fato de ser um animador de luta livre quem bola o nome para o herói, além de mais algumas cenas.

Mas o longa também trouxe suas contribuições originais, como a boa sequência com a descoberta dos poderes (que seria "citada" no segundo filme do herói e parodiada em outras produções). A alteração mais significativa da versão cinematográfica, em relação aos quadrinhos, é o fato de o Aranha de Sam Raimi produzir biologicamente sua teia, que sai de seus pulsos (estando ausentes, portanto, os atiradores de teia sintética das HQs). Embora o final seja excessivamente violento (para um filme que, na certa, seria assistido por crianças), Homem-Aranha foi um sucesso de bilheteria. Com isso, diretor e elenco ganharam a chance de fazer um trabalho ainda melhor numa continuação. Lançado em junho de 2004, Homem-Aranha 2 foi aguardado ansiosamente pelos fãs do herói e por todos que haviam assistido ao primeiro filme. E dando continuidade à história iniciada dois anos antes, a nova produção correspondeu às expectativas, superando em qualidade seu antecessor.

A história começa com Peter às voltas com as dificuldades de conciliar trabalho, estudo e a vida-dupla como super-herói. Sempre atrasado e correndo atrás de uns trocados, ele tem ainda que lidar com o ressentido amigo Harry (que culpa o Homem-Aranha pela morte de seu pai) e com seu próprio amor reprimido por Mary Jane (da qual se afastou por temer que algum vilão pudesse lhe fazer mal). Se não bastasse, seus poderes começam a falhar e sua amada aceita o pedido de casamento do filho de J. Jonah Jameson (este, aliás, continua sua campanha difamatória contra o Aranha). Para completar, um acidente de laboratório transforma o físico Otto Octavius no vilão Dr. Octopus (interpretado pelo ótimo ator Alfred Molina). Tantas complicações acabam sendo demais para nosso herói, que decide pendurar a máscara; mas isso até sua amada ser capturada pelo supervilão, agindo em acordo com Harry Osborn.

No final, o herói triunfa, vence o vilão, salva a cidade e fica com a mocinha. Já para os que foram ao cinema em 2004, ficou a sensação de um filme de ação que valeu a pena! Pois se continua a história e até se inspira no longa anterior, Homem-Aranha 2 também traz uma evolução, encontrando seu estilo e sua linguagem própria. Os acertos já começaram na escolha do Dr. Octopus para o vilão, o que acabou rendendo cenas interessantes com seus tentáculos e nas lutas contra o Aranha (embora às vezes os bonequinhos de computação gráfica estraguem a ilusão). Com mais espaço para os ótimos coadjuvantes Tia May (Rosemary Harris) e J. Jonah Jameson (J.K. Simmons), para o desenvolvimento de personagens e para sequências dinâmicas, a continuação superou em muito o primeiro filme. Com isso, criou-se uma grande expectativa para a terceira parte da “trilogia”; expectativa esta que, infelizmente, não foi correspondida.

Lançado em abril de 2007, Homem-Aranha 3 pecou pelo excesso. Vilões demais, tramas paralelas demais, autorreferências demais, draminhas demais (como se para superar o que foi feito antes bastasse empilhar mais e mais informações). A história começa de forma oposta ao filme anterior: o Aranha é agora um herói amado e aclamado pelos habitantes de Nova York, enquanto a carreira teatral de Mary Jane passa por uma péssima fase. A situação não melhora quando Gwen Stacy entra em cena, o vingativo Harry Osborn assume a identidade do novo Duende Verde e surge o Homem de Areia (que teria tido uma participação na morte do Tio Ben). Somos apresentados então ao lado sombrio de Peter e à versão cinematográfica do "uniforme negro", que irá assumir as características do vilão Venon. No final, o herói e seus oponentes se enfrentam numa luta, tendo (mais uma vez) a vida de Mary Jane por um fio.

Com orçamento multimilionário e bons efeitos visuais, a terceira aventura cinematográfica do Homem-Aranha tinha tudo para ser um ótimo filme de ação. Mas, dividido entre vilões saídos dos anos 60, 70 e 80, o longa se arrasta e dá voltas em torno de si mesmo, até um final sentimentalista. Mas Homem-Aranha 3 teve ótimo retorno financeiro, o que asseguraria a realização de um quarto (e até um quinto) filme da série, também dirigido por Sam Raimi e com o mesmo elenco principal. A produção chegou a ser iniciada, porém, diretor e estúdio entraram em desacordo e o filme acabou sendo cancelado. Com o anúncio do encerramento da série de Raimi, o Marvel Studios deu partida numa nova sequência de aventuras cinematográficas do Aranha, com um novo diretor e um novo elenco. Informações dão conta de que o novo filme, agendado para 2012, terá como base a revista Ultimate Spider-Man. É aguardar para ver...

21/07/2010

The Ultimates, a melhor série de super-heróis da década (II).


Dividida em treze capítulos, desde sua primeira edição The Ultimates foi um sucesso “de público e de crítica”. E não é por menos: uma trama bem conduzida, diálogos inteligentes, abordagem contemporânea, além de um visual detalhadíssimo e bem finalizado fazem dessa uma revista que realmente merece ser lida e vista. O interessante é que parte do que torna esse um trabalho tão particular aconteceu quase acidentalmente (como revelam os comentários dos autores na edição em capa-dura). Inicialmente, a ideia era ter-se uma primeira edição com 48 páginas, cuja metade inicial seria o prólogo passado na Segunda Guerra e o restante equivaleria ao que se vê nas quatro edições seguintes. Na melhor das hipóteses, o resultado seria uma boa HQ de super-heróis, mas sem uma das melhores qualidades da série: seu caráter compassado e comedido.

Nas primeiras edições de The Ultimates, não há uma cena de luta ou a ameaça de um supervilão a cada página; não há sequer exatamente um supervilão (pelo menos até o líder alienígena se revelar no décimo capítulo). Tudo começa com a que é possivelmente a melhor HQ do Capitão América na Segunda Guerra (influenciada pelas sequências iniciais do filme O Resgate do Soldado Ryan); ali se inicia uma situação que será resolvida apenas doze edições (e dois anos) depois. Passado o prólogo bombástico, nas três edições seguintes a ação dá lugar aos diálogos e à interação dos personagens, numa intrincada trama em que mais informações vão sendo adicionadas a cada página. Tudo culmina no número 5, em que temos uma das melhores e mais verossímeis sequências de luta dos quadrinhos de super-heróis (Os Supremos x O Hulk).

Em The Ultimates n°s 6 a 13, a história continua acima da média, mas há uma queda na qualidade (o que equivale a dizer que as HQs deixam de ser brilhantes para se tornarem ótimas). As piadas e tiradas acontecem, mas é a dramaticidade que predomina. E se o clima “pós-11 de setembro” dera o tom desde o início (com a presença do presidente George W. Bush e parte de Nova York em escombros), esse caráter é reforçado na sequência do memorial aos mortos no “Incidente Hulk” e pela retórica da segurança nacional, sem falar na ligação direta entre Os Supremos e as forças armadas. Outro fator que evidencia que estamos lendo uma série realmente contemporânea são as várias referências à mídia e as implicações de ser um super-herói num mundo em que a vida privada das "celebridades" não raramente se torna assunto dos telejornais.

Comparados à qualidade excepcional do trabalho de Millar no início da série, os números finais são revistas de super-heróis mais convencionais, com uma maior dose de ação e uma trama envolvendo nazistas e alienígenas (digna de Indiana Jones e A Guerra dos Mundos). O visual também perde um pouco da elegância e da linha mais clássica vistas inicialmente, assumindo um acabamento mais rápido e mais “fotojornalístico”. Ainda assim, o trabalho ricamente detalhado e as concepções originais de Hitch para os heróis Marvel comprovam porque ele é considerado um dos melhores desenhistas dos quadrinhos de super-heróis na atualidade. Além disso, a ótima dinâmica cinematográfica das páginas e os diálogos na medida permitem que os números 6 a 13 desenvolvam bem a história, fechando num confronto épico contra os alienígenas nazistas.

Sem violência excessiva ou polêmicas gratuitas, as cinco primeiras edições de The Ultimates conseguiram revitalizar heróis que andavam bastante desprestigiados. Isso é ressaltado pelo fato de essas revistas serem uma recriação da história de estreia dos Vingadores, produzida em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby. E se todos os louros devem ser lançados sobre os mestres do passado, os devidos créditos devem ser dados a Millar e Hitch. Sua atualização dos heróis para o século 21 nos deu a mais condizente versão do Capitão América (antes de tudo, um soldado a serviço do país), uma simpaticíssima encarnação de Tony Stark (com uma armadura de aparência funcional), um interessantíssimo Thor (seria ele um deus nórdico ou um doente psicótico?) e um complexo Bruce Banner, que esconde o animalesco Hulk (uma montanha de músculos idiota).

Embora Gigante e Vespa pareçam menos críveis, podendo ter ficado de fora dessa série realista (afinal, para onde vai e de onde vem a massa corporal quando eles diminuem ou aumentam de tamanho?), todos os demais personagens se encaixam bem na trama. O destaque vai para Nick Fury, cuja versão Ultimate é a que mais se afasta dos quadrinhos originais, ganhando as feições e a presença espirituosa do ator Samuel L. Jackson. Aliás, numa das sequências, Os Supremos discutem quais astros de Hollywood interpretariam seus papeis num possível filme, e Nick Fury logo dispara: “O senhor Samuel L. Jackson, é claro!”. Inusitadamente, esse vaticínio se cumpriria em 2008, quando o ator interpretou o personagem na cena pós-créditos do primeiro filme do Homem de Ferro (numa caracterização obviamente copiada de Os Supremos).

Em The Ultimates, a ligação entre quadrinhos e cinema vai além dos comentários sobre o elenco de um suposto filme ou as referências a atores como Brad Pitt ou Johnny Depp. Uma das melhores sequências de ação da HQ, quando Viúva Negra e Gavião Arqueiro invadem os escritórios dos alienígenas, foi clara e declaradamente inspirada no filme Matrix, então lançado há poucos anos e ainda uma sensação (antes de ser avacalhado por suas tolas e dispensáveis continuações). Mais significativamente e num sentido inverso, a série de Millar e Hitch tem servido de modelo para concepções e cenas vistas nos filmes dos heróis Marvel. Notoriamente em O Incrível Hulk, que pegou emprestado a ligação entre os monstros e a fórmula do super-soldado, a quebradeira no centro de Nova York e a cena da transformação caindo de um helicóptero.

O sucesso comercial e o prestígio alcançados pela série garantiram uma continuação: The Ultimates 2 (que também teve treze edições, acompanhadas de um anual). Vieram em seguida diversas coletâneas em capa cartonada e em capa-dura, que culminaram numa omnibus editon (que reuniu as duas séries num volume de 880 páginas). Se não bastasse, a HQ também deu origem a dois filmes de animação, rebatizados nos Estados Unidos como Ultimate Avengers (e reintitulados no Brasil como Os Supremos – O Filme e Os Supremos 2). Houve ainda uma nova série The Ultimates 3, produzida por outros autores (sem a mesma qualidade) e mais recentemente foram lançadas Ultimate Comics: New Ultimates e Ultimate Comics: Avengers (esta última escrita por Millar).

Se tivessem produzido apenas os primeiros capítulos de The Ultimates, Mark Millar e Bryan Hitch já teriam criado a melhor série de super-heróis da década (além de oferecer um “mapa da mina” para os filmes da Marvel). Desde O Cavaleiro das Trevas e Watchmen em meados dos anos 80, nenhuma outra HQ de super-heróis havia conseguido articular tão bem a narrativa ficcional com uma representação do ambiente político e cultural. E nenhuma outra recriação de antigos heróis havia conseguido escapar à sombra de Miracleman. Idealizada como um filme de orçamento milionário, The Ultimates provou que ainda é possível criar revistas de super-heróis inovadoras. Uma série brilhante e contemporânea que, com ótimos desenhos e narrativa, apresentou uma “versão definitiva” para os antigos heróis Marvel. Em resumo, um trabalho imperdível!

18/07/2010

The Ultimates, a melhor série de super-heróis da década (I).


No ano 2000, com a indicação de Joe Quesada para o cargo de editor-chefe e a crescente interligação dos quadrinhos com outras mídias, a Marvel deu início à ascensão que a faria líder do mercado de revistas nos Estados Unidos. Grande parte do sucesso alcançado nos últimos dez anos se deve a uma política de valorização dos autores, a um bom planejamento das revistas e coletâneas, bem como ao interesse trazido pelos filmes de Hollywood. E talvez em nenhum outro caso a articulação entre trabalho autoral de qualidade e estratégia editorial inteligente tenha sido tão bem-sucedida quanto com The Ultimates. Criada entre 2002 e 2004 pelo roteirista escocês Mark Millar e pelo desenhista inglês Bryan Hitch (com arte-final por Andrew Currie e Paul Neary, cores por Paul Mounts), essa HQ na certa merece o título de melhor série de super-heróis da década.

Pertencendo à linha alternativa que apresentou versões atualizadas dos personagens Marvel, Os Supremos (como a equipe foi rebatizada no Brasil) é a versão Ultimate (“definitiva”) dos Vingadores. No elenco inicial estão os heróis tradicionais do grupo: Homem de Ferro, Thor, Gigante e Vespa, com a participação do Hulk e a liderança do Capitão América. Mas, diferente da história original com os Vingadores, não é o acaso e o plano maléfico de um supervilão que reúnem os heróis, originando o supergrupo. No caso de Os Supremos, é uma iniciativa da S.H.I.E.L.D. e de seu diretor, Nick Fury, o que leva a essa união (já que, para enfrentar ameaças envolvendo superpoderes, nada mais adequado que uma equipe de super-humanos). Contudo, o que na teoria parece uma solução simples acaba se mostrando algo um tanto complicado na prática.

Divergindo em interesses, intenções e personalidades, Os Supremos formam um grupo bastante heterogêneo, que tem em Nick Fury seu ponto de equilíbrio. Há o Homem de Ferro, sempre servido de um drinque e às voltas com as peculiaridades de sua vida de playboy multimilionário. Há o Thor, que oscila entre a figura de um líder pacifista contestador e a do deus nórdico superpoderoso e implacável. Temos ainda o casal Gigante e Vespa, cuja cumplicidade e aparente harmonia explodem num episódio de violência doméstica. Ou o atormentado e inseguro Bruce Banner, que para se sentir parte do grupo acaba libertando o destrutivo Hulk. E temos, por fim, o patriótico Capitão América, inspiração heroica para Os Supremos, que ressurge do passado para encontrar um mundo bem diferente do que deixara em 1945.

Um “Incidente Hulk” (que deixa centenas de vítimas) e um conflito interno (que produz muita publicidade ruim) são algumas das situações que Os Supremos têm que enfrentar. Mas o verdadeiro desafio para o grupo de heróis remonta aos tempos da Segunda Guerra, tendo uma origem extraterrestre. Entram em cena então as versões Ultimate de Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Feiticeira Escarlate e Mercúrio, que formam uma unidade secreta a serviço da S.H.I.E.L.D. Em meio à invasão em massa dos Chitauri (a versão Ultimate dos Skrulls), Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Nick Fury & Cia. acabam tendo que contar com uma ajudinha do integrante menos popular do grupo, o incontrolável Hulk. Ao final, a ameaça alienígena é derrotada, mas quem sai mesmo ganhando é o leitor, que acaba de ler uma ótima HQ de super-heróis.

(CONTINUA - é claro!)

27/06/2010

A HQ que remodelou o futuro do Homem de Ferro.


Há muito tempo eu não lia revistas com os super-heróis tradicionais da Marvel. Mas, depois de rever Homem de Ferro e assistir ao segundo filme com o personagem, voltei a me interessar pelos antigos heróis que eu conhecia dos desenhos (des)animados da minha infância. Por sua ligação com as produções cinematográficas, peguei na estante a coletânea de Iron Man: Extremis, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Adi Granov. Importante na trajetória recente do personagem, esse trabalho foi a fonte para alguns dos melhores elementos do Homem de Ferro cinematográfico. Sucesso entre os leitores, depois de reedições em capa cartonada e em capa-dura, neste mês a Marvel está reimprimindo a HQ numa “versão do diretor”, além de lançar um montion comic para o iTunes da Apple.

Eu já havia comprado Iron Man: Extremis há algum tempo, mas não tinha lido ainda. Agora, com o interesse renovado pelos filmes e a intenção de escrever esta postagem, resolvi conferir essa HQ lançada em 2005. Não me decepcionei! De forma inteligente, a história aborda alguns dos temas preferidos de Warren Ellis: as tecnologias ultra-avançadas e uma disputa pelo “futuro”. Aproveitando as características do herói, o roteirista construiu uma trama envolvente, na qual ficção científica e futurismo remodelam completamente o Homem de Ferro. Sem dúvida a história mais interessante que já li com o personagem, seus seis capítulos intercalam bem passado e presente, recontextualizando a origem do herói, imprimindo modernidade a suas relações profissionais e pessoais, bem como mais realismo a suas motivações e sua presença no mundo.

Tudo parte de uma entrevista que coloca para Tony Stark o dilema moral de ser um fabricante e negociante de armas, levando-o também ao dilema existencial de ter sido vítima de um acidente com um de seus próprios inventos (situações que foram reelaboradas e modernizadas no filme lançado em 2008). Então, o aparente roubo da tecnologia secreta “Extremis” e o pedido de ajuda de uma amiga põem o herói em rota de colisão com um radical norte-americano superpoderoso. Após um ato de "terrorismo doméstico", o Homem de Ferro intervém, mas acaba derrotado e gravemente avariado por seu oponente. É esta dinâmica que leva à principal transformação que o herói sofre nesta HQ: o emprego da tecnologia “Extremis” para salvar sua vida e, ao mesmo tempo, tornar mais eficiente sua armadura, que passa a ser parte de seu corpo.

Naquele momento, revemos a história de origem do Homem de Ferro, que Ellis apropriadamente transfere das florestas do Vietnã para as montanhas do Afeganistão (mudança seguida pela versão cinematográfica). E embora centrada no protagonista, a história se vale de um interessante elenco de apoio: a cientista Maya Hansen, o futurista Sal Kennedy e o médico Yinsen (também presente no filme). Não faltam bons diálogos, nos quais termos tecnológicos aparecem com naturalidade, da mesma forma que uma lúcida discussão sobre cogumelos e DMT (principal componente da ayahuasca), que rende uma interessante metáfora sobre tecnologia e estados alterados da mente. Por falar em metáforas, a mais marcante nessa HQ é a que redefine Tony Stark como um “piloto de testes para o futuro”, redelineando as motivações e ambições do herói.

Claro que uma história que tinha o objetivo relançar o personagem, estabelecendo uma nova biografia e novas características, não poderia deixar de lado sua aparência. E ficou a cargo do ilustrador Adi Granov redesenhar a armadura do Homem de Ferro, atualizando-a para os padrões estéticos dos tempos atuais. O resultado ficou arrojado e elegante, estilizado e convincente (sendo a principal referência para a versão cinematográfica). Mais designer do que propriamente desenhista de quadrinhos, Granov produziu algumas belas páginas e imagens, embora muitas sequências e cenas sejam excessivamente estáticas para uma história em quadrinhos. Deixando de lado essa limitação, as técnicas de pintura convencional e digital empregadas pelo ilustrador produziram um visual impressionante, que lembra imagens de video game.

Iron Man: Extremis é Warren Ellis em boa forma, num roteiro bem trabalhado para uma trama inteligente. É também uma obra visualmente muito interessante, que projetou o nome de Adi Granov. Apesar de ser uma HQ do Homem de Ferro, o trabalho está mais para trama de espionagem e ficção científica, do que propriamente para uma revista de super-heróis. Talvez a melhor história em quadrinhos já feita para esse personagem, ela não apenas lançou as bases para os filmes de Hollywood, como ajudou a transformar o antes batido herói numa das propriedades mais importantes da Marvel. Pois ao reescrever o passado de Tony Stark e ao redesenhar as linhas de sua armadura, Ellis e Granov realmente remodelaram o futuro do Homem de Ferro.

20/06/2010

Kick-Ass, um filme que ninguém precisa assistir.


Como escrevi numa postagem anterior, o lançamento de Superman – O Filme em 1978 e de Batman – O Filme em 1989 foram acontecimentos especialíssimos, muito aguardados e festejados pelos fãs. Já nos anos 90, chegaram às telas de cinema mais alguns filmes de super-heróis, mas as restrições técnicas e orçamentárias ainda limitavam esse gênero cinematográfico. A partir do ano 2000, no entanto, com o sucesso de X-Men – O Filme e o desenvolvimento dos efeitos visuais, Hollywood passou a explorar o que se tornou um filão muitíssimo lucrativo e prolífero. Assim, se antes os filmes com super-heróis eram um acontecimento especial, hoje eles se tornaram quase uma "praga".

Embora X-Men 2, Homem de Ferro ou O Cavaleiro das Trevas tenham se destacado por sua ótima qualidade, grande parte das produções baseadas nos heróis dos quadrinhos não conseguiu chegar a ser sequer um bom entretenimento. Basta citar Hulk, Quarteto Fantástico ou Superman – O Retorno para lembrarmos quão ruins essas produções milionárias podem ser. Contudo, como o que importa aos executivos de Hollywood é o lucro, mais e mais filmes baseados nos personagens dos quadrinhos têm chegado às telonas. Um dos mais recentes lançamentos foi Kick-Ass – Quebrando Tudo, longa baseado na violenta HQ criada por Mark Millar e John Romita Jr.

Já vou adiantando que não li o quadrinho. Embora goste bastante do trabalho de Romita Jr., o estilo propositalmente polêmico de Millar neste e em outros trabalhos não me interessa. Mas, pelas poucas páginas que pude ver e ler em prévias divulgadas na Internet, acredito que a HQ seja bem melhor do que o filme. Porque o filme – ah, caros leitores! – o filme é muito ruinzinho! A produção não é das mais elaboradas, as atuações não vão além do mínimo que se pode esperar, os poucos efeitos visuais são limitados e a história é bem chinfrim. Para completar, temos Nicolas Cage fazendo cara de “cachorro que perdeu o dono”, excessiva violência quase explícita e roupas de super-heróis que deixam os atores simplesmente ridículos.

Aqui cabe uma comparação. Quando criança, um dos meus seriados favoritos era Batman - aquele mesmo das onomatopeias: PAM! POW! CRASH!. Como se tratava do final dos anos 70 e início dos 80, a forma como víamos as coisas era diferente, ainda mais em se tratando das crianças. Para mim, na época, o seriado estrelado por Adam West e Burt Ward era uma aventura “a sério”, e não na verdade uma representação cômica pop. Claro que hoje, ao assistir a um episódio de Batman, eu sei que se tratava propositalmente de uma paródia dos quadrinhos, com elementos conscientemente exagerados e até ridículos.

No caso do filme Kick-Ass, pode até ter havido uma tentativa de ironia com a situação de alguém decidir se vestir de super-herói para combater o crime. Porém, o resultado da violência excessiva e das caracterizações ridículas é algo meramente kitsch, limitado ou de mau-gosto - por falta de um termo mais adequado. Claro que deve ter muita gente que gostou. Mas, na minha opinião, pela baixíssima qualidade, Kick-Ass – Quebrando Tudo é um filme que ninguém precisa assistir. Poupe seu tempo e dinheiro, ou aproveite para assistir alguns episódios do antigo seriado Batman. Possivelmente, você vai se divertir mais!

04/06/2010

Homem de Ferro e Thor numa ótima revista promocional.


Dentre as edições do Free Comic Book Day 2010 a que tive acesso, a melhor e mais efetiva em termos de promoção da leitura de quadrinhos é Iron Man / Thor. Com uma história completa que pode ser lida sem se saber o que anda acontecendo com os personagens, a revista foi escrita por Matt Fraction, desenhada por John Romita Jr. e arte-finalizada por Klaus Janson, com cores por Dean White. Como fez em 2009 com o filme do Wolverine, a editora norte-americana aproveitou a movimentação em torno de Homem de Ferro 2 para promover o personagem também nos quadrinhos, além de aproveitar para divulgar o herói Thor, que ganhará sua própria versão cinematográfica em 2011.

A história começa com pragas e cataclismos assolando a Terra e ameaçando seus habitantes. Para devolver a ordem ao clima, entra em cena o Deus do Trovão. Mas nem os poderes de Thor são capazes de apaziguar a fúria dos elementos, que parece ter uma ligação com a Lua. Encontramos então Tony Stark em meio a uma reunião com multimilionários que o convidam a tomar parte num empreendimento cujo objetivo é “terraformar” nosso satélite natural. Não demora muito para o Homem de Ferro descobrir que a tecnologia por trás daquele inconsequente empreendimento imobiliário saiu de sua própria mente. Perseguindo o mesmo problema, os dois heróis Marvel acabam se unindo para por fim às obras do condomínio de luxo lunar que ameaça a vida na Terra.

Escrito num tom épico, com evocações de pragas bíblicas e catástrofes atuais, o roteiro funciona como uma metáfora para os problemas climáticos que enfrentamos hoje. Já o ótimo visual concilia um estilo conciso a imagens detalhadas, cores pintadas a efeitos digitais. Bem trabalhadas, as páginas da revista equilibram diálogos e ação, contextualização realista e futurista, emprestando peso e força aos heróis. Impressa em formato reduzido (como a Marvel faz em suas edições para o FCBD), Iron Man / Thor destaca-se mesmo é por sua qualidade. Um presente para os leitores, a revista abriu caminho para a nova série dos Vingadores (desenhada por Romita Jr.) e também para a Heroic Age que tomou conta das revistas Marvel em maio.

01/06/2010

Free Comic Book Day 2010.


Desde 2002, no primeiro sábado de maio, acontece nos Estados Unidos o Free Comic Book Day (Dia da Revista em Quadrinhos Grátis). Nessa ocasião, boa parte das lojas norte-americanas distribui edições de graça, como uma forma de promover a leitura de HQs (atraindo novos leitores e principalmente presenteando os que já prestigiam os quadrinhos). Apoiado por pequenas e grandes editoras (que vêm no FCBD uma oportunidade de divulgar novas séries), o evento deste ano distribuiu milhões de exemplares, de mais de trinta títulos diferentes, com histórias em variados gêneros. Aproveitando uma compra na Midtown Comics, consegui algumas dessas edições que, mesmo oferecidas gratuitamente, têm qualidade gráfica similar à das edições para venda.

A exemplo do que fez no ano passado, a DC Comics aproveitou o FCBD para promover o lançamento de uma nova minissérie. Em 2009 foi The Blackest Night, neste ano a “bola da vez” é The War of the Supermen n°0, escrita por James Robinson e Sterling Gates, desenhada por Eddy Barrows, com páginas complementares ilustradas por outros desenhistas. Com vinte e duas páginas de quadrinhos e vários anúncios publicitários, a revista se divide em duas partes. Na primeira, vemos Super-Homem chegando ao planeta Nova Krypton para tentar impedir o General Zod de invadir a Terra. Na segunda parte, temos uma “matéria de jornal” em que Lois Lane recapitula os principais fatos envolvendo o Homem de Aço nos últimos anos. As treze páginas da introdução seguem o padrão visual das HQs do Super-Homem, enquanto o roteiro não traz nada de excepcional. Já a narrativa “jornalística” serve mesmo para situar os leitores que não estejam a par do que anda acontecendo nas histórias do Filho de Krypton.

Na linha “resgate de antigos personagens” (da qual tratei recentemente aqui), a Dynamite ofereceu a edição Green Hornet, que traz as primeiras páginas de cinco séries envolvendo o herói mascarado. De saída, temos a amostra da minissérie escrita por Kevin Smith a partir do roteiro do filme que ele não realizou. A segunda prévia saiu das páginas de Green Hornet – Year One, minissérie escrita por Matt Wagner, que mostra as origens do Besouro Verde. A terceira sequência, produzida por autores menos conhecidos e saída das páginas da revista The Green Hornet Strikes! traz uma versão moderninha do personagem (que ali usa uma máscara e uma arma de gás copiadas do Sandman dos anos 30!?). Também produzida por autores menos conhecidos, a quarta prévia traz páginas de Kato Origins – The Way of the Ninja, que obviamente narra as origens do ajudante oriental do Besouro Verde. Fechando o pacote, temos páginas em P&B e sem texto da série Kato, ainda a ser lançada.

Também antecipando uma futura série, a editora Image e o estúdio Top Cow distribuíram Artifacts, revista que traz a introdução para a nova história com personagens do “universo” criado por Marc Silvestri. Mas, como no caso das edições comentadas até aqui, a revista não traz exatamente uma HQ inteira, repetindo um problema presente em vários títulos distribuídos no FCBD. Afinal, embora sirvam para divulgar os lançamentos das editoras, por mais bem impressas e visualmente atrativas que sejam, publicações que não trazem histórias completas dificilmente conquistam novos leitores para os quadrinhos. Um pouco mais interessante é a revista oferecida pela Dark Horse, Doctor Solar / Magnus - Robot Fighter, que traz duas histórias completas com dois heróis que andavam “jogados para escanteio”. Escrita pelo ex-editor-chefe da Marvel, Jim Shooter, a revista tem como objetivo reapresentar os personagens aos leitores de hoje. Doctor Solar, no entanto, ressurge como uma cópia do Dr. Manhattan, enquanto o futurista Magnus parece irremediavelmente antiquado.

Em meio a tantos resgates e reapresentações, não é de admirar que, dentre as edições do FCBD 2010 a que tive acesso, a mais surpreendente seja uma revista que apresenta histórias inéditas publicadas por uma pequena editora. Sendo também a edição mais volumosa (com trinta e duas páginas de quadrinhos saídas de quatro diferentes séries), Radical: Bigger Books! Bigger Value! impressiona pela qualidade visual. Reunindo nomes conhecidos como Wesley Snipes, Antoine Fuqua, Peter Milligan e Leonardo Manco a outros menos famosos, a edição traz HQs de terror, ficção científica e histórias de crime. Os estilos visuais variam do realismo fotográfico a um traço mais tradicional, passando por um tom impressionista até uma pintura digital futurista. Se não bastasse a presença de pessoas diretamente ligadas ao cinema, a Radical Publishing parece ter mesmo a intenção de lançar quadrinhos que possam encontrar um caminho para a telona. Das edições que comentei aqui, essa foi a única que despertou meu interesse em conferir as séries nela divulgadas.

Promovido pelas editoras, distribuidoras e lojas de quadrinhos norte-americanas, o Free Comic Book Day parece ser um bom negócio para todos. Séries e personagens são divulgados, os leitores regulares ficam felizes e eventualmente novos leitores são conquistados. Sem nos esquecermos de que, em termos editoriais, o mercado de quadrinhos norte-americano é muito mais amplo que o brasileiro, alguns elementos do FCBD poderiam ser adotados por aqui (por exemplo no que diz respeito à divulgação de séries e à promoção da leitura de quadrinhos). Enquanto algo assim não acontece, mais informações e prévias das edições distribuídas neste ano podem ser vistas aqui.

04/05/2010

O Homem de Ferro nos cinemas (II).


Tendo estreado no Brasil uma semana antes do que nos Estados Unidos, Homem de Ferro 2 traz algumas diferenças notáveis em relação ao primeiro filme. No papel de James Rhodes temos outro ator (Don Cheadle que, apesar de talentoso, não combinou tanto) e embora Pepper Potts tenha uma participação maior (numa atuação apagada de Gwyneth Paltrow), quem rouba a cena é a Viúva Negra (interpretada pela bela Scarlett Johansson). Temos ainda uma presença mais significativa de Nick Fury (com Samuel L. Jackson preparando o terreno para o vindouro filme dos Vingadores), um novo empresário vilão (com o razoável Sam Rockwell) e um novo vilão principal, este saído da Rússia (interpretado por um convincente e um tanto repulsivo Mickey Rourke). Mas a diferença maior está na dinâmica simbólica dos dois filmes.

Em sua segunda aventura cinematográfica, o Homem de Ferro / Tony Stark (Robert Downey Jr.) não enfrenta inimigos inspirados nas manchetes das guerras atuais. Desta vez, a ameaça parece vir de um passado quase mítico, dos tempos da Guerra Fria com suas disputas tecnológicas e armamentistas. E em vez de um enfrentamento aéreo contra aviões da Força Aérea de seu país (como vemos no primeiro filme), o protagonista enfrenta desta vez um esquadrão de robôs criados por uma empresa concorrente. Só por esses fatores, não é difícil perceber que Homem de Ferro 2 é um filme bem mais “domesticado” do que seu antecessor. Afinal, se no primeiro filme o herói executa vários guerrilheiros afegãos, nessa continuação ele só “mata” robôs (não sendo diretamente responsável pela morte do vilão principal).

Obviamente, o sucesso de Homem de Ferro atraiu muita atenção para sua continuação, que passou a ser tratada como um filme para um público mais amplo, no qual o mocinho não poderia sair matando pessoas, ou mesmo se envolvendo em cenas de sexo casual (como acontece no primeiro filme). Embora Tony Stark ainda nos ofereça tiradas espirituosas e trocadilhos sexuais, o máximo que é permitido ao herói desta vez é trocar alguns socos, atirar em robôs e, ao final, dar um comportado beijo de cavaleiro medieval (com direito à armadura). E se domesticaram o super-herói playboy, a verdadeira fera de Homem de Ferro 2 é a sensual e letal Viúva Negra, cuja participação é relativamente pequena, mas que protagoniza a cena de luta mais empolgante das duas horas de filme (e dá-lhe emancipação feminina!).

Homem de Ferro 2 é um bom entretenimento, mas é só isso. As atuações e os efeitos correspondem ao que se espera de uma produção milionária de Hollywood, mas não vão além. Os diálogos são bons, mas o roteiro não é dos mais criativos. E ao contrário de X-Men 2 de Bryan Singer, Homem-Aranha 2 de Sam Raimi e O Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, esse segundo filme dirigido por Jon Favreau não conseguiu superar seu antecessor. Faltam o elemento realista e as pequenas ousadias do primeiro. E já que não é surpreendente como Homem de Ferro, essa continuação acaba decepcionando. Assim, aos fãs dos filmes de super-heróis resta aguardar Thor e Capitão América, produções antecipadas em Homem de Ferro 2 pelo aparecimento em cena de um protótipo de escudo e a descoberta de um martelo mítico.

(Se quiser ler outras resenhas e textos sobre filmes e quadrinhos de super-heróis, basta clicar no marcador abaixo.)

02/05/2010

O Homem de Ferro nos cinemas (I).


A partir do ano 2000, com o sucesso de produções como X-Men – O Filme e Homem-Aranha, os estúdios de Hollywood encontraram um novo filão muito prolífico e incrivelmente lucrativo: os filmes de super-heróis. Assim, ao longo desta década, sucederam-se produções milionárias que levaram às telas alguns dos principais heróis da Marvel e DC. E apesar de fiascos como Superman – O Retorno e Demolidor, o gênero prosperou colecionando sucessos e boas sequências, como X-Men 2 e Homem-Aranha 2 (embora a terceira parte dessas “trilogias” tenha decepcionado). Com a atenção do público e da mídia e o apoio dos estúdios, em 2008 esse gênero cinematográfico nos trouxe o excelente O Cavaleiro das Trevas (do qual já falei aqui) e o surpreendente Homem de Ferro, cuja sequência assisti neste feriado de 1° de maio.

Embora eu goste bastante das atuações do Robert Downey Jr. (Chaplin, Assassinos por Natureza), não assisti ao primeiro filme do Homem de Ferro nos cinemas. Depois de produções fraquinhas, como Quarteto Fantástico e Elektra (que assisti na tevê a cabo), eu andava muito desconfiado dos filmes baseados nos heróis da Marvel. Como não sou um grande fã do personagem e os ingressos do cinema já andavam meio caros, preferi deixar para assistir em DVD. Para minha surpresa, descobri que o Homem de Ferro cinematográfico era bem melhor do que eu esperava. A produção é bem cuidada, os efeitos especiais e visuais muito bons, o elenco bem escolhido (a começar pelo protagonista), os diálogos interessantes e a trilha empolgante, tudo com um roteiro que se apropria de forma inteligente de elementos dos quadrinhos.

O filme dirigido por Jon Favreau é surpreendentemente bom, embora traga uma duplicidade em sua estrutura (que acaba sendo uma virtude e não um defeito). Nas primeiras sequências, temos a violência das cenas de guerra e dos guerrilheiros do Afeganistão, contrapostas ao estilo de vida playboy de Tony Stark, com dinheiro, carrões e mulheres à disposição. Até aí, o que temos é o lado mais realista do filme, que lhe dá verossimilhança. Então, entra em cena o lado mais fantasioso de Homem de Ferro, quando Tony Stark, refém numa caverna, dribla a morte e, munido apenas de peças de foguete, constrói um reator energético que funciona sem qualquer fonte externa (!?), além de uma armadura mecanizada a prova de balas e resistente ao fogo. Neste ponto, o filme exige do expectador o máximo da chamada “suspensão da descrença”.

Com a fuga de Tony Stark da caverna (que não é a de Ali Babá, nem a de Bin Laden) e seu retorno ao mundo civilizado (ou seja, ao complexo militar-industrial norte-americano), o filme passa a variar entre seu contexto realista e os acontecimentos fantasiosos. Se de um lado temos a falta de escrúpulos do empresário Obadiah Stane (Jeff Bridges), do outro temos a criação da nova e ultratecnológica armadura, produzida na garagem de Tony Stark (outra caverna mágica). E enquanto a presença do Coronel James Rhodes (Terrence Howard) e da secretária Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) trazem um ar humano e familiar (contemplando ainda os públicos negro e feminino), a presença dos robôs sentimentais e a aparição pós-créditos de Nick Fury (encarnado por Samuel L. Jackson) reforçam o aspecto fabuloso da história.

Essa duplicidade entre contexto e ação se expressa nas duas lutas decisivas do filme: a eliminação dos guerrilheiros muçulmanos e o combate contra o vilão Stane em sua armadura maligna. O interessante é que, apesar de distintas (em seu realismo e seu aspecto fantasioso), as duas lutas integram harmonicamente o mesmo filme, o que nos lembra que vivemos num tempo em que as cenas de guerra e os video games sanguinolentos muitas vezes se confundem. Por isso, em sua mistura de crônica e aventura, em sua expressão da cultura e da barbárie de nossos dias, Homem de Ferro é um filme de super-heróis diferenciado e também um ótimo entretenimento. E enquanto possibilita algumas reflexões, essa produção aponta um outro caminho para esse gênero cinematográfico. Caminho este não seguido por sua continuação.

(CONTINUA)

30/04/2010

Quais as melhores atuações / caracterizações em filmes de super-heróis?


Já propus algumas listas opinativas aqui no Mais Quadrinhos e elas sempre rendem vários comentários de vocês que acompanham o blog, o que é sempre muito legal! Então, aproveitando a estreia no Brasil de Homem de Ferro 2, bolei uma nova pergunta para saber a opinião de vocês. Convido a todos então para postarem um comentário com sua lista das atuações e/ou caracterizações preferidas em filmes de super-heróis. Vocês podem, é claro, aproveitar para comentar a minha lista ou a de outros leitores, especialmente se não concordarem com algo, pois um pouquinho de discussão é sempre divertido. Minha lista é a seguinte:

1. Patrick Stewart (X-Men – O Filme e X-Men 2): tendo uma aparência ideal para o papel, nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes o ator inglês está perfeito como o Professor Charles Xavier. Para mim, sua atuação é a melhor versão do personagem, incluindo os quadrinhos.

2. Christopher Reeve (Superman – O Filme): se ficasse simplesmente parado, vestido na fantasia colorida do Super-Homem, o ator norte-americano já seria a melhor encarnação do personagem. Mas se sua caracterização do Homem de Aço é perfeita no clássico de 1978, sua atuação dupla como Kal-El e Clark Kent consegue a façanha de convencer que uma troca de roupa e uma mudança de postura seriam capazes de esconder a identidade secreta de um super-herói.

3. Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas): é quase unânime a opinião de que o ator australiano realizou a mais impressionante encarnação que o Coringa já teve, sendo o ponto alto do segundo filme do Homem Morcego dirigido por Christopher Nolan. Ele só não ocupa um lugar melhor em minha lista por ter mais reinventado do que propriamente encarnado o personagem dos quadrinhos.

4. Hugh Jackman (X-Men – O Filme e X-Men 2): embora não seja baixinho nem mal-encarado, o ator australiano ficou bem convincente como Wolverine nos dois primeiros filmes dos heróis mutantes. E se sua carreira deve muito a esse papel, grande parte do carisma dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer se deve à sua presença.

5. Michelle Pfeiffer (Batman – O Retorno): eu já era fã desde O Feitiço de Áquila, e ao vê-la vestida naquela fantasia de Mulher-Gato... O segundo filme do Batman dirigido por Tim Burton é bem legal. Mas se não fosse, ele já valeria a pena pela vilã mais linda dos filmes de super-heróis e seu delicioso “miau”.

18/04/2010

Editoras investem em revistas promocionais.


Nos dias de hoje, parece predominar a regra do “pra quê criar, quando se pode copiar” (a melhor prova disso é o filme Avatar, que alcançou a maior bilheteria da história do cinema copiando a história de outro filme e o visual de HQs e video games). A verdade é que, na indústria cultural como um todo, repetir ideias e formatos que fizeram sucesso, gerando padrões e modelos a serem seguidos, sempre foi um expediente dos mais praticados. Claro que o resultado imediato pode até compensar para quem copia, porém, a longo prazo acabamos mergulhando mais e mais em padrões e modelos reprisados (basta lembrarmos das séries de super-heróis e novelas da tevê).

Mas se a lógica da cópia tende a ser prejudicial no que diz respeito aos conteúdos culturais veiculados, em alguns casos ela pode até ter suas virtudes ao ser aplicada aos formatos de veiculação e às formas de distribuição. Um bom exemplo disso acaba de acontecer nos Estados Unidos, envolvendo as duas líderes do mercado, Marvel e DC Comics. Em 2009, pegando a onda publicitária em torno da adaptação cinematográfica de Zack Snyder, a DC lançou a linha de edições promocionais After Watchmen ...what’s next?. A campanha começou com uma revista promocional gratuita trazendo páginas descritivas de alguns de seus principais títulos voltados a “leitores maduros”.

Abrindo com a divulgação das três versões disponíveis da obra de Alan Moore e Dave Gibbons (capa cartonada, capa-dura e edição definitiva), a revista busca associar Watchmen a outras publicações. Seguem-se então as divulgações de V de Vingança, Monstro do Pântano, A Piada Mortal e Liga Extraordinária, escritas por Moore, mas também de HQs de outros autores, como Y: O último homem de Brian K. Vaughan, Planetary de Warren Ellis, Preacher de Garth Ennis e All-Star Superman de Grant Morrison. O trabalho de marketing da editora continuou então numa sequência de revistas com os primeiros capítulos dessas e de outras obras. E todas com o preço de capa de $1.00!

O grande trunfo está, é claro, não apenas na associação do prestígio de Watchmen àquelas obras, mas na disponibilização dos primeiros capítulos por um preço convidativo para novos leitores em potencial. (A linha promocional da DC continua neste ano, rebatizada apenas What’s next?, com os n°1 de Batman and Robin e Flash: Rebirth.) Outras editoras norte-americanas já publicaram edições de estreia por $1.00 (a Dynamite, por exemplo, no relançamento de The Boys de Garth Ennis); mas para realizar algo nos moldes da linha lançada pela DC, só mesmo os recursos e o acervo de sua maior concorrente, que lança agora a série Marvel’s Greatest Comics.

Uma produção milionária do cinema, neste caso o novo filme do Homem de Ferro, também deu o pontapé inicial para a nova linha de revistas promocionais. Distribuída gratuitamente em março, Invincible Iron Man n°1 traz o primeiro capítulo da HQ de Matt Fraction e Salvador Larroca. Claro que, com a proximidade da estreia de Homem de Ferro 2, era de se esperar que os esforços publicitários da editora se voltassem ao personagem. Mas a linha Marvel’s Greatest Comics também prestigia outros heróis da “Casa das Ideias”, oferecendo revistas a $1.00 com aventuras do Capitão América, Wolverine, Thor, Justiceiro, Hulk, Vingadores, Homem Aranha e X-Men, entre outros.

O fato de a Marvel ter imitado de forma tão evidente a iniciativa de sua principal rival é um sinal de que a linha de revistas promocionais da DC deve ter sido um enorme sucesso. Ao copiar o modelo de edição e distribuição de After Watchmen, a Marvel’s Greatest Comics serve, sobretudo, para divulgar os produtos da editora. Mas, ao fazer isso, a linha de revistas promocionais também beneficia o público que poderá ler quadrinhos por um preço muito acessível. E isso nos faz pensar (mesmo considerando as enormes diferenças entre o mercado norte-americano e o brasileiro): será que a Panini não poderia também copiar essa ideia, oferecendo no Brasil uma linha de revistas a R$2,00?

Num momento em que os preços das revistas sobem e as tiragens declinam, encontrar formas de conquistar leitores e manter seu público é uma questão vital para o mercado de quadrinhos. Pois se cada vez mais as HQs encontram lugar nas livrarias brasileiras, na forma de livros e álbuns, os preços das edições mais volumosas ou luxuosas (R$45,00 / R$60,00 / R$90,00 / R$150,00!) é bastante proibitivo para boa parte do público-alvo dessas mesmas edições. O que também nos faz pensar: nosso mercado comporta tantas publicações em capa-dura e preços exorbitantes? Ou seria melhor edições com boa qualidade gráfica, textos bem-cuidados e preços mais acessíveis?