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19/06/2012

Meus prêmios nacionais:

Revista Caliban: Troféu HQMIX – Melhor revista independente de 1998.
Revista Mirabilia: Troféu HQMIX – Melhor revista de aventura e ficção de 2000.
Troféu HQ MIX – Melhor roteirista de quadrinhos de 2001.
Álbum Estórias Gerais: Troféu HQ MIX – Melhor álbum nacional 2001.
Álbum Fantasmagoriana: Troféu HQ MIX – Melhor álbum nacional de 2002.
Troféu Angelo Agostini – Melhor roteirista de quadrinhos de 2001.
Troféu Angelo Agostini – Melhor roteirista de quadrinhos de 2002.
Revista Monstros: Troféu Casa dos Quadrinhos – Melhor HQ de 2005.
Álbum Muiraquitã: Troféu Casa dos Quadrinhos – Melhor HQ de 2006.
Revista Alienz: Troféu Casa dos Quadrinhos – Melhor HQ de 2007.

29/04/2009

Uma cronologia dos quadrinhos.


Quando montei meu curso de quadrinhos há alguns anos, desenvolvi um “Quadro Cronológico” para explicar o desenvolvimento dessa arte, desde seu nascimento até os tempos atuais. Mais tarde, lancei pela Marca de Fantasia o livro de artigos Quadrinhos & outros bichos, no qual publiquei uma versão revisada e ampliada dessa organização cronológica. Nela, apresento alguns dos principais autores e séries que contribuíram para o desenvolvimento da arte dos quadrinhos (obviamente não são todos, mas sim um resumo com alguns dos mais importantes). Aproveito então para compartilhar com vocês:

QUADRO CRONOLÓGICO


PRIMÓRDIOS DOS QUADRINHOS (1827 a 1896)

Principais obras: Os amores do Senhor Jacarandá (Rodolphe Töpffer), Juca e Chico (Wilhelm Busch), Nhô Quim (Angelo Agostini), Yellow Kid (Richard Outcault), entre outros.


QUADRINHOS CLÁSSICOS (1897 a 1939)

Principais séries: Sobrinhos do Capitão (Rudolph Dirks), Little Nemo (Winsor McCay), Krazy Kat (George Herriman), Tarzan (Harold Foster), Buck Rogers (Phil Nowlan & Dick Chawkins), Dick Tracy (Chester Gould), Brucutu (V. T. Hamlin), Terry e os Piratas (Milton Caniff), Ferdinando (Al Capp), Flash Gordon (Alex Raymond), Mandrake (Lee Falk & Phil Davis), Fantasma (Lee Falk & Ray Moore), Príncipe Valente (Harold Foster), Cavaleiro Solitário (Charles Flanders), Red Ryder (Fred Harman), os quadrinhos de J. Carlos para jornais e revistas, Garra Cinzenta (Francisco Armond e Renato Silva), entre outros.

DESENVOLVIMENTO DO QUADRINHO-ARTE (1940 A 1989)

Principais artistas: Will Eisner, Jack Kirby, Harvey Kurtzman, Carl Barks, Charles Schulz, Hergé, Uderzo & Goscinny, Osamu Tezuka, Ziraldo, Henfil, Flavio Colin, Julio Shimamoto, Robert Crumb, Hugo Pratt, Guido Crepax, Moebius, Philippe Druillet, Richard Corben, Alberto Breccia, Quino, Jô Oliveira, Luiz Gê, Milo Manara, Berardi & Milazzo, François Bourgeon, Enki Bilal, Miguel Prado, Koike & Kojima, Hayao Miyazaki, Katsuhiro Otomo, Frank Miller, Alan Moore, Bill Sienkiewicz, Bill Watterson, Neil Gaiman, Grant Morrison, Mike Mignola, entre outros.

QUADRINHOS CONTEMPORÂNEOS (anos 90 até hoje)

Introdução de técnicas de computação gráfica (composição e colorização); segmentação do mercado (diferentes linhas editoriais nas grandes editoras, emergência de pequenas e médias editoras, produção independente); ampla difusão midiática (apropriações pelo cinema, tevê, Internet e publicidade).

30/01/2009

Algumas palavras sobre Angelo Agostini.


Nesta sexta-feira, 30 de janeiro, celebra-se o “Dia do Quadrinho Nacional”, data que comemora o lançamento, há exatos 140 anos, do primeiro episódio de As aventuras de Nhô Quim, ou impressões de uma viagem à corte. Esta obra criada por Angelo Agostini é considerada a primeira história em quadrinhos produzida no Brasil, sendo também uma das primeiras publicadas em todo o mundo (décadas antes, por exemplo, do excessivamente celebrado Yellow Kid, do norte-americano Richard Outcault). Para marcar a data de hoje, publico aqui um trecho de meu livro O riso que liberta, no qual falo especificamente de Angelo Agostini (que aparece como um Dom Quixote tropical no auto-retrato acima).

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Nascido na região italiana do Piemonte e criado em Paris, Angelo Agostini chegou a São Paulo por volta dos 20 anos de idade, lançando em 1864 seu primeiro periódico de textos e ilustrações, o Diabo Coxo. A esta experiência pioneira (primeiro jornal ilustrado da província) se seguiria, em 1866, o Cabrião. Após mudar-se para o Rio de Janeiro, e ainda inspirado nos jornais de caricatura europeus (como Le Charivari), Agostini lançou, em 1876, o semanário Revista Illustrada, com críticas à sociedade do Segundo Império, e em 1895, já sob o governo republicano, o jornal Don Quixote, além de participar de diversas publicações de outros editores como O Malho e O Tico-Tico (estas no início do século 20).

Quer seja quando fazia caricaturas de governantes, quer seja ao retratar personagens anônimos da vida brasileira, Agostini produziu em litografia um importante documento histórico (em potencial) sobre os tempos do Segundo Império e os primeiros anos da República. Atento aos acontecimentos e engajado nas lutas pela liberdade dos escravos e pela liberdade de imprensa, Agostini (como todo bom “jornalista humorístico”) desagradava aos donos do poder, enquanto seus jornais e desenhos gozavam de popularidade entre os leitores. Para o semiólogo e pesquisador de quadrinhos Antônio Luiz Cagnin:

“Ainda que pioneiro nas histórias em quadrinhos, Agostini foi mais conhecido como caricaturista e como tal se destacou no panorama da vida nacional por sua atuação na imprensa ilustrada. Empunhando as armas do riso e da sátira, exerceu uma influência efetiva na formação da opinião pública, sobretudo em momentos decisivos da vida nacional: a abolição da escravatura e a proclamação da república. Esse mesmo poder persuasivo através da imagem, Agostini havia exercido antes, em São Paulo, por ocasião da guerra do Paraguai” (Phenix, 1996, p.10).

O crédito pelas informações biográficas sobre Angelo Agostini, apresentadas aqui, deve-se ao trabalho de revisão crítica realizado por Antônio Luiz Cagnin (e divulgado na edição de estréia da breve revista de pesquisa sobre histórias em quadrinhos Phenix). Infelizmente, apesar da importância de Agostini para o humor político e os quadrinhos no Brasil, ele é hoje virtualmente desconhecido do público em geral. O que se deve principalmente ao fato de serem raras as republicações de seus trabalhos (merecendo destaque a excelente coletânea de seus quadrinhos lançada, em 2002, pelo Senado da República). Aliado a isso, o número limitado de pesquisas sobre o humor político brasileiro e a restrita divulgação dos trabalhos realizados dificultam a construção de uma história da caricatura no Brasil.

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Quando realizei minha pesquisa de Mestrado há dez anos e concluí minha tese de Doutorado há cinco anos, de fato o número de pesquisas acadêmicas e o interesse pelo humor e pelos quadrinhos brasileiros era bastante limitado. Felizmente, nos últimos anos, as instituições acadêmicas têm se mostrado mais abertas a trabalhos sobre o tema. Além disso, a boa recepção dos livros do pesquisador Gonçalo Júnior e de obras como O rebelde do traço: a vida de Henfil escrito por Dênis de Moraes chamaram a atenção das editoras para um filão mercadológico pouco explorado.

Com isso, novas publicações têm surgido todos os meses, como o recém-lançado A leitura dos quadrinhos, livro no qual o jornalista Paulo Ramos analisa a linguagem das HQs. E isso sem falar no incansável e importantíssimo esforço de Henrique Magalhães, que através da editora Marca de Fantasia dá vazão a uma parte significativa da produção acadêmica nacional voltada aos quadrinhos, humor e linguagens afins. Mas se o cenário melhorou nessa última década, há ainda muito o que se pesquisar e principalmente publicar, para termos resgatada e valorizada a memória de nossos quadrinhos e desenhos de humor. Uma tradição brilhantemente iniciada por pioneiros como Angelo Agostini.

10/05/2008

Definindo os quadrinhos!


Esta postagem é especial. O motivo é que, com ela, este blog chega à sua centésima postagem. Quero aproveitar para agradecer a todos que visitaram, comentaram e divulgaram este espaço, ajudando a dar sentido à minha iniciativa. Nesta postagem especial, publico um texto que escrevi há alguns anos com o objetivo de dar uma apresentação menos acadêmica ao pensamento que construí sobre a arte dos quadrinhos (para quem se interessar, este e outros artigos foram publicados pela editora Marca de Fantasia no livro Quadrinhos & outros bichos). A imagem acima é a capa da Heróis da TV n°91, revista com a qual iniciei minha coleção de quadrinhos há mais de vinte anos. Foi ela que despertou minha paixão por essa fascinante forma de arte e entretenimento, sendo portanto ideal para ilustrar um texto intitulado:

A apaixonante arte dos quadrinhos.

Desenhos e mais desenhos que se sucedem formando uma sequência narrativa, contando uma história que se lê aos saltos, de quadro em quadro, de página a página, até o FIM. Heróis, vilões, meninos, meninas, animais falantes, monstros alienígenas, seres de faz-de-conta e gente como a gente... A galeria dos personagens dos quadrinhos pode ser interminável. Infinita, aliás, como a diversidade de recursos e as possibilidades expressivas dessa forma de comunicação e linguagem artística.

Um pouco de história...

Há dezenas de milhares de anos, os seres humanos utilizam sequências de imagens para contar histórias. Das paredes pré-históricas, passando pelos templos do Egito, até os livros ilustrados da Europa medieval, diversos povos utilizaram técnicas de desenho e pintura, associadas a símbolos gráficos variados para retratar e registrar aspectos de sua existência. Mas as pinturas rupestres, os hieróglifos antigos ou as iluminuras medievais NÃO são histórias em quadrinhos. Os quadrinhos são uma forma de narrativa visual moderna, associada à imprensa. Inventados na Europa, eles são resultado de séculos de experimentação artística, levada a cabo por ilustradores e caricaturistas.

Foi em 1827 que o professor e desenhista suíço Rodolphe Töpffer reuniu numa obra ficcional, pela primeira vez, os elementos fundamentais que constituem a linguagem dos quadrinhos. Tendo consciência de estar lidando com uma nova forma de arte, em suas “histórias em estampas” Töpffer apresentava, além do grafismo sintético, a narrativa sequencial através de quadros e a integração visual entre desenho e texto, que são as características definidoras dos quadrinhos. Por influência ou não de Töpffer, nas décadas que se seguiram, vários outros autores, de diversos países, produziram histórias em quadrinhos trazendo contribuições e inovações que deram origem a uma forma de arte diversificada e fascinante.

No Brasil, os quadrinhos surgiram na segunda metade do século XIX, ligados à caricatura, no espaço diversificado dos jornais ilustrados. O principal nome dessa época é Angelo Agostini, um talentoso piemontês naturalizado brasileiro, criador do personagem Nhô Quim. Mas foi mesmo no século XX que os quadrinhos se desenvolveram como produto cultural em nosso país. Com o lançamento, em 1905, da revista infantil O Tico-Tico teve início uma rica história de publicação e leitura de quadrinhos. E contando com o talento de alguns de nossos maiores artistas gráficos, como J. Carlos, as primeiras décadas dos quadrinhos no Brasil tiveram a marca da qualidade artística e da ambientação nacional.

Porém, a partir dos anos 40 passou a predominar a publicação de quadrinhos norte-americanos, em seções de tirinhas e suplementos infanto-juvenis encartados em jornais de grande circulação. O mais conhecido deles foi O Gibi, cujo nome acabou tornando-se sinônimo para “revista em quadrinhos”. Embora as aventuras de clássicos das HQs (como Tarzan, Flash Gordon, Príncipe Valente ou Mandrake) tenham povoado a imaginação e cativado uma geração de leitores, sua publicação predominante no Brasil acabou por substituir quase totalmente a produção nacional.

Com isso, os quadrinistas brasileiros só retomariam um espaço significativo no mercado nacional na virada para a década de 1960, com série como As aventuras do Anjo de Flavio Colin (adaptação de um sucesso da Rádio Nacional) e especialmente Pererê de Ziraldo (com personagens inspirados nos ambientes naturais e na cultura popular brasileira). Ainda nesse período, teriam enorme sucesso os quadrinhos de terror produzidos por autores como Julio Shimamoto, Jayme Cortez e Eugênio Colonnese, sem falar no surgimento da Turma da Mônica de Maurício de Sousa, que iniciava uma carreira de desenhista que o levaria a ser o mais bem-sucedido empresário dos quadrinhos no país.

Com muitos altos e baixos mercadológicos, a produção brasileira de caráter autoral contou nos anos 70 com a genialidade de Henfil na revista Fradim, além do surgimento de diversas edições alternativas em que apareciam os trabalhos de artistas como Jô Oliveira, Luiz Gê, Nilson, Lor, Edgar Vasques, entre outros. Já nos anos 80, enquanto Mozart Couto e Watson Portela nacionalizavam os quadrinhos de ficção & fantasia, o grande destaque editorial era o sucesso do gênero “udigrudi” da editora Circo, com Angeli, Laerte & Cia. Desde a década de 1990, porém, nossas HQs têm sobrevivido quase exclusivamente graças às edições independentes e às pequenas e médias editoras, pelas quais ficamos conhecendo o trabalho de quadrinistas como Lourenço Mutarelli e Marcelo Lelis.

Mas se tem faltado espaço para os quadrinistas brasileiros, sobra qualidade e originalidade para seus trabalhos, que estão entre os melhores produzidos no mundo (fato insistentemente ignorado pela maioria dos editores nacionais).

...e mais quadrinhos.

O que chamamos de linguagem dos quadrinhos apresenta-se em duas estruturas comunicativas distintas: as tiras e as histórias em quadrinhos propriamente ditas. Tratemos rapidamente das especificidades de cada uma.

Surgida nos jornais, tradicionalmente a tira segue o padrão de uma sequência narrativa em quadros dispostos na horizontal, embora existam tirinhas com apenas um ou dois quadros. Estrutura comunicativa extremamente concisa, uma única tira, em seu restrito espaço físico, pode nos fazer “morrer de rir” ou até “questionar o sentido da vida”, dependendo, é claro, do talento e da intenção do autor, além de nossa disposição em fazer o jogo comunicativo da leitura. A maioria das tiras enquadra-se no gênero humorístico, mas muitas utilizam o riso para propor questões sociais, políticas e humanas. O estilo de desenho predominante é o “cartum”, de formas sintéticas e arredondadas, com traços marcados; mas também existem tirinhas em estilo “acadêmico”, que segue proporções mais naturalistas. História que se conta de uma vez só, na velocidade – ZAZ! – de uma tirinha, ironicamente as séries de tiras tendem a durar anos ou até décadas, enquanto o público e autor mantiverem a paixão por seus personagens.

Já as histórias em quadrinhos são estruturas comunicativas organizadas na forma de uma ou mais páginas, sendo a página a unidade básica de leitura (jamais lemos “meia página” de quadrinhos). Todos os elementos que constituem a página (número, formato e distribuição dos quadros, estilo de desenho, imagens em cor ou em preto & branco, presença ou não de texto escrito) influenciam a mensagem produzida pelo leitor durante a leitura. Uma história em quadrinhos pode ter desde umas poucas páginas até dezenas de capítulos, pode vir numa única folha de papel ou em coleções com vários volumes. Os formatos das edições (horizontais, verticais, grandes, pequenos) variam de acordo com padrões gráficos e mercadológicos (revistas, gibizinhos, álbuns, livros). Já a temática e o estilo das histórias em quadrinhos variam de acordo com o gênero (faroeste, infantil, terror, super-heróis, etc.) e a intenção criativa de seus autores, que no caso do quadrinho-arte têm um maior controle sobre a produção das obras.

Como vimos, a linguagem dos quadrinhos baseia-se numa sequência narrativa visual, em que imagens e texto interagem no espaço integrado da tira ou da página. Os estilos de desenho variam do mais estilizado ou sintético ao mais rebuscado ou padronizado, do cartum ao acadêmico, passando pelo caricatural e incorporando os mais diversos traços pessoais. As técnicas vão da tradicional pena metálica com tinta nanquim sobre papel, passando pelas técnicas de pintura, até as inovadoras tecnologias de composição e colorização por computador. O texto nos quadrinhos, além das palavras escritas, inclui o enredo narrado, variando de gênero para gênero, de autor para autor, de história para história. Os próprios textos escritos (legendas, balões e onomatopéias) são parte do visual dos quadrinhos, podendo os autores explorar este fato como um elemento narrativo. Afinal, a fusão de texto e imagem constitui a narrativa em quadrinhos, o elemento que torna essa arte única, e através do qual os autores podem sugerir o “clima” (de suspense, ação, sátira, sedução, etc.) que querem imprimir à leitura de sua história. Resumindo, o conjunto formado pelo texto, o estilo de desenho, as técnicas empregadas e o ritmo narrativo sugerido constitui a obra em quadrinhos criada por um autor e sempre recriada por um leitor, a cada nova leitura.

Se a qualidade artística e as possibilidades educativas das tiras e histórias em quadrinhos já começaram a ser descobertas pelas instituições acadêmicas e escolares, por outro lado, os quadrinhos ainda são vistos por grande parte das pessoas simplesmente como uma forma de diversão rápida. De fato, a maioria das HQs e tirinhas oferecidas ao público pelos veículos da “indústria cultural” não passa de simples produtos comerciais, com padrões estereotipados de texto e desenho, voltados a um consumo rápido. Logo, se o leitor busca uma distração despreocupada, as coloridas revistinhas com as aventuras de seu personagem favorito são o bastante.

Mas nunca é demais lembrar que nossos momentos livres das ocupações e do trabalho, os momentos que podemos dedicar a nós mesmos e ao que mais gostamos de fazer, também podem ser vividos com atividades que possibilitem nosso desenvolvimento como seres humanos. Escutar um bom disco, e não apenas os sucessos do rádio, praticar atividades físicas, e não apenas se sentar à frente da tevê, são escolhas que estão a nosso alcance. Neste sentido, em se tratando dos quadrinhos, no lugar dos heróis anabolizados e bichinhos engraçadinhos de sempre, podemos optar por aquela outra parte da produção quadrinística: as obras com qualidade artística e valor cultural, o quadrinho-arte.

O que chamo de quadrinho-arte é mais comumente veiculado na forma de revistas especiais, álbuns e livros, vendidos em livrarias e agências de revista, e também encontrados em gibitecas e bibliotecas com seções dedicadas aos quadrinhos. É claro que nenhuma listagem seria capaz de relacionar todos os quadrinhos de qualidade artística e valor cultural, não apenas pela multiplicidade de títulos existentes, mas principalmente pelo fato de que eleger o que é “bom”, em termos de qualidade estética, depende de diferentes gostos e formações pessoais, bem como de diferentes contextos sociais e históricos. Assim, em se tratando dos quadrinhos, o leitor tem muito a ganhar se buscar conhecer a produção em geral, ao invés de simplesmente agarrar-se à primeira opção alardeada pela mídia. Mesmo porque, grande parte de nossa aventura com os quadrinhos, grande parte do prazer envolvido em sua leitura, está na descoberta de novos títulos e personagens, com histórias e estilos até então desconhecidos por nós. E isto pode ser uma verdadeira “caça ao tesouro”.

Outra opção que pode ser muito prazerosa é a criação de histórias em quadrinhos ou tirinhas por quem antes só as lia (os quadrinistas profissionais em geral começaram como leitores de quadrinhos, mas também como desenhistas amadores). Além de produto cultural, os quadrinhos são uma forma de comunicação que pode servir à livre expressão de sentimentos e pensamentos. Imaginar e desenhar uma história em quadrinhos pode ser, para crianças e adultos, uma atividade muito lúdica. Criar personagens e dar-lhes vida na sequência de quadros de uma tirinha pode ser um meio criativo de se comunicar com o mundo. Num país tão rico em talentos, os artistas de amanhã podem estar apenas aguardando um incentivo; apenas esperando que alguém lhes dê um lápis e uma folha de papel para começarem a desenhar em quadrinhos.

Enfim, o mundo dos quadrinhos é diverso e variado, dando-nos uma infinidade de opções de leitura. Além disso, a própria linguagem dos quadrinhos é um riquíssimo repertório comunicativo e expressivo, à disposição de qualquer pessoa (mesmo das que pensam que “não sabem desenhar”). O fato é que lendo ou criando quadrinhos, esta forma de arte tem sido, nos últimos 181 anos, uma atividade apaixonante para milhões de pessoas, em todo o mundo industrializado. E se foram nascidos das técnicas modernas de impressão, os quadrinhos parecem ter ainda muito fôlego para atravessar os oceanos de informação, signos e códigos virtuais do século XXI.
FIM.

30/01/2008

Um pouco da história dos quadrinhos brasileiros.


Nesta quarta-feira, comemorou-se o “Dia do Quadrinho Nacional”. Para marcar a data, republico aqui um texto em que faço um breve apanhado da trajetória dos quadrinhos em nosso país. A imagem que ilustra esta postagem é da série Nhô Quim de Angelo Agostini (e foi retirada da primeira edição da Phênix, revista da história dos quadrinhos, uma interessante iniciativa de pesquisa que, infelizmente, durou pouco).

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos autores, uma história dos quadrinhos no Brasil revelaria talentos de nível internacional e artistas que certamente figurariam entre os grandes nomes dessa arte. Começando com a série Nhô Quim, lançada em 30 de janeiro de 1869 pelo desenhista Angelo Agostini, a galeria das HQs brasileiras teria como um de seus marcos fundadores o surgimento, em 1905, da revista O Tico Tico, que trouxe colaborações do ilustrador J. Carlos e publicou a série infantil Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criada por Luíz Sá.

Também marcariam a memória dos leitores HQs como Garra Cinzenta de Francisco Armond e Renato Silva, publicada em 1937. Mas, como é comum na trajetória dos quadrinhos no Brasil, um início promissor foi seguido por um período de “vacas magras”, no qual passaram a predominar as tirinhas norte-americanas veiculadas por publicações infanto-juvenis. Somente na década de 1950 os quadrinhos brasileiros ganhariam de fato novo destaque (como na revista infantil Era uma vez...). Mas a mesma sociedade que se escandalizava com as peças de Nelson Rodrigues proibia e condenava à marginalidade os “catecismos” pornográficos (do hoje festejado) Carlos Zéfiro.

Em 1959, estreou uma das mais duradouras revistas em quadrinhos totalmente produzidas no Brasil: As Aventuras do Anjo, que projetaria nacionalmente o nome do desenhista Flavio Colin. Já neste primeiro trabalho (que adaptava para os quadrinhos um famoso seriado da Rádio Nacional), Colin apresentou seu traço sintético e a busca pela valorização da cultura e realidade brasileiras, que o tornariam um dos quadrinistas mais originais e reconhecidos do Brasil. Naquele mesmo ano, o Brasil ganharia seu primeiro super-herói: o Capitão 7, que seria seguido de vários outros, a começar por Raio Negro, personagem criado por Gedeone Malagola em 1965.

Certamente, porém, o espaço privilegiado para os quadrinistas brasileiros nos anos 60 foram as revistas de terror. Com o desaparecimento das publicações desse gênero nos Estados Unidos, algumas editoras brasileiras (como a renomada Outubro) passaram a investir em produções locais. Nas páginas daquelas revistas, surgiram ou consagraram-se nomes como Jayme Cortez e Eugenio Colonnese, além do mestre Julio Shimamoto responsável por HQs antológicas como “Os Fantasmas do Rincão Maldito”. A saga dos quadrinhos de terror brasileiros ainda geraria muitos frutos, semeando publicações regulares até os anos 80.

Mas voltando aos anos 60, a influência modernista e o nacionalismo da Era JK tomaram conta da sociedade, refletindo-se nas páginas de uma das mais autênticas experiências dos quadrinhos brasileiros: a revista Pererê, criada por Ziraldo (e publicada em cores mensalmente pela editora de O Cruzeiro entre 1960 e 1964). Na mesma época, também começava a projetar-se (através das tirinhas do personagem Bidu e das primeiras HQs da futura Turma da Mônica) o desenhista Maurício de Sousa, que se tornaria o mais bem-sucedido empresário dos quadrinhos no Brasil.

Nos anos de repressão e censura da Ditadura Militar, surgiu uma incrível força de resistência. Para surpresa de muitos (que consideravam os quadrinhos apenas “uma inocente distração”), jornais como O Pasquim lançaram uma nova geração de desenhistas contestadores, encabeçada por Henfil (que com suas HQs dos Fradins e da Grauna provou que os quadrinhos podem tratar de questões sociais sem deixar de lado a arte). Na mesma linha, surgiriam novos talentos do cartum, como Nilson, Lor, Edgar Vasques e muitos outros. Numa seara bem diversa, trabalhando a partir da estética do cordel e da xilogravura, Jô Oliveira chegou da Hungria com seu original e marcante A Guerra do Reino Divino. E o Nordeste ainda nos daria outros batalhadores, como os autores-editores Antônio Cedraz e Henrique Magalhães, entre tantos outros.

Uma nova explosão dos quadrinhos brasileiros aconteceria nos anos 70, através da imprensa alternativa e de publicações independentes que privilegiavam os estilos pessoais e a cultura latino-americana (como Versus, Bicho e Risco). Já outras incorporavam influências das HQs de futurismo e fantasia de publicações como Métal Hurlant e Heavy Metal, sendo Mozart Couto e Watson Portela dois importantes destaques dessa corrente. Outra vertente na época seguia a linha do quadrinho underground norte-americano e francês, quando Angeli, Laerte e Glauco conquistaram legiões de fãs que hoje prestigiam as coletâneas de seus trabalhos. Mas, em termos artísticos, poucos alcançaram tanto quanto Luiz Gê (que nas páginas da Circo apresentava trabalhos que nada deixam a dever ao melhor quadrinho de autor europeu).

Nos anos 80, aconteceu uma nova retração no mercado de quadrinhos, amenizada por experiências esporádicas de pequenas editoras e pela iniciativa dos autores. O fanzineiro Marcatti e o desenhista Lacarmélio (conhecido pelo nome do personagem Celton) são representantes célebres da geração que montou suas gráficas e editoras caseiras de onde saíram os fanzines e revistas independentes que (em mimeógrafo, xérox ou tipografia) continuaram a trajetória dos quadrinhos brasileiros. Se os anos 90 começaram com outra crise econômica que inibiu ainda mais a produção de HQs, a relativa estabilidade de meados da década e as facilidades editoriais trazidas pela computação deram um novo alento aos quadrinhos brasileiros. O resultado imediato foi o surgimento de inúmeras revistas e grupos de desenhistas por todo o país, além de álbuns e coletâneas com os trabalhos de autores originais, como Ofeliano, Lourenço Mutarelli, Fernando Gonsales, Marcelo Lelis, Fábio Zimbres e muitos outros que poderíamos citar aqui.

Nos últimos anos, embora tenha havido um maior interesse por parte dos editores, a situação mercadológica dos quadrinhos brasileiros não melhorou. Em outras palavras, o mercado brasileiro de quadrinhos continua não pertencendo prioritariamente (como deveria ser) aos autores brasileiros. A despeito disso, vários jovens talentos têm surgido, através de edições independentes e também organizando-se em grupos (como o recém-lançado
Coletivo Quarto Mundo). E isso sem falar na Internet, espaço cada vez mais ocupado por nossos quadrinhos, como comprovou a longa relação de saites e blogs divulgada pelo jornalista Paulo Ramos. Por tudo isso (e por ainda mais que ficou de fora deste breve apanhado), só me resta dizer: viva o quadrinho brasileiro!

02/11/2007

Os 180 anos dos quadrinhos.


Auto-centrados como são, os norte-americanos se imaginam os inventores de quase tudo, incluindo o avião, o cinema e até mesmo os quadrinhos. Assim, em 1996, eles decidiram comemorar com estardalhaço os “100 Anos dos Quadrinhos”, que coincidiriam com o centenário de publicação da primeira tira com o personagem Yellow Kid, criado um ano antes por Richard Outcault. Colonizada como é, a mídia em geral não perdeu tempo em macaquear a notícia, sem questionar por um momento sua legitimidade. No fim das contas, como diria Josef Goebbels, “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

A verdade, porém, é que os quadrinhos surgiram bem antes de 1896. No Brasil mesmo já se produzia quadrinhos desde a década de 1860, pela pena do piemontês naturalizado brasileiro Angelo Agostini. Mas então onde e quando surgiram os quadrinhos? Embora a questão seja controversa, pode-se dizer com segurança que eles surgiram na Suíça em 1827, pelo talento inventivo de um escritor, desenhista e pedagogo chamado Rodolphe Töpffer.

É claro que já há muitos séculos os seres humanos utilizam imagens com palavras para se comunicar, bastando lembrarmos dos hieróglifos egípcios e das iluminuras medievais. Contudo, apesar de algumas semelhanças formais, nenhuma daquelas obras é realmente uma história em quadrinhos. O fato é que os quadrinhos possuem alguns elementos específicos que os definem como uma linguagem artística única, o que analiso amplamente no livro Um mundo em quadrinhos (Marca de Fantasia, 2005).

Esses elementos que tornam os quadrinhos uma arte específica foram reunidos pela primeira vez há exatos 180 anos, quando Rodolphe Töpffer criou a obra ficcional Les Amours de Monsieur Vieux-bois (“Os Amores do Senhor Jacarandá” em sua edição brasileira). O que diferenciava a criação de Töpffer das outras era uma narrativa visual em que imagens e palavras combinam-se no espaço da página, mas possuem funções distintas. Em sua obra, as imagens não são mera ilustração de um texto escrito, enquanto as palavras não servem simplesmente para explicar os desenhos.

Com um traço bastante sintético e inovador para a época, em suas histoires des estampes Töpffer inventou uma nova linguagem artística, prontamente aclamada pelo poeta Johann Goethe como uma revolucionária forma de comunicação. Portanto, não importa se os chamamos de bande desiné, manga, comics ou outro nome, a verdade é que os quadrinhos surgiram mesmo há 180 anos, pelo gênio de um suíço chamado Rodolphe Töpffer.