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25/08/2010

Homem-Aranha: o super-herói mais popular dos quadrinhos (II).


Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, a qualidade e relevância das revistas tinham diminuído, mas a popularidade do Homem-Aranha só crescia internacionalmente. Ganhando um filme e um seriado para tevê e, mais tarde, novas séries de animação, o herói tornou-se de vez o “garoto-propaganda” da Marvel (talvez apenas rivalizado pelo Hulk, que em 1978 também ganhou um seriado). Incrivelmente popular entre as crianças, o Homem-Aranha deu origem a uma infinidade de produtos, que iam de superalmanaques e álbuns de figurinha, a diferentes bonecos e fantasias (a minha roupa de super-herói, porém, era do Batman). Não faltavam ainda paródias em programas como Os Trapalhões, ou a versão satírica do tema de abertura do desenho, em que cantávamos no lugar da letra original: “Homem-Aranha, Homem-Aranha... nunca bate, só apanha...” (na época, tudo era mais simples, mas nós nos divertíamos!).

Nos quadrinhos, em 1984, o herói ganhou uma de suas mais tocantes histórias: “O garoto que colecionava o Homem-Aranha”, produzida por Roger Stern e Ron Frenz. Contudo, tendo perdido espaço para outros personagens (em particular para o mais violento Wolverine), pela primeira vez o Aranha teve que correr atrás da popularidade. Com uma participação central na minissérie Guerras Secretas, ele ganhou um visual mais moderno e menos simpático: o “uniforme negro”. Como efeito colateral, em 1988, surgiria o vilão Venon, que estreou pelo traço de Todd McFarlane (que fizera sucesso na revista do Hulk). Com seu estilo arrojado de desenhar o herói e sua teia, o desenhista conquistou os leitores, revitalizando a revista The Amazing Spider-Man. Transformado num astro dos quadrinhos, em 1990 McFarlane ganhou a série Spider-Man, para a qual escreveria e desenharia as HQs e com a qual bateria recordes de vendas.

No meio do caminho, houve o ridículo casamento de Peter com Mary Jane; mais adiante, lançaram a estúpida “Saga do Clone”, que deu início ao ponto mais baixo da trajetória do herói. Aí, eles ressuscitaram o Duende Verde original. Então, eles mataram a Tia May e também mataram a Mary Jane. Mas, no fim, tudo se revelou uma enganação e tanto uma quanto a outra apareceram sãs e salvas. Essas trapalhadas editoriais e autorias minaram o importante pacto ficcional entre personagem e leitores, fazendo o antes mais popular super-herói dos quadrinhos tornar-se uma figura sem rumo e totalmente desinteressante. Tanto que, ao longo dos anos 90, o que se viu de mais interessante com o personagem foi sua versão futurista, criada por Peter David e Rick Leonard, para a linha alternativa Marvel 2099. Em 1998, houve uma malfadada tentativa de recomeço, com a fraca Homem-Aranha: Capítulo Um de John Byrne.

Desacreditado e tendo perdido grande parte de seus leitores, o Aranha precisava desesperadoramente de uma renovação. E essa veio no ano 2000, com o lançamento da revista Ultimate Spider-Man (que deu início à linha alternativa com versões atualizadas dos heróis Marvel). Idealizada pelo então chefão da editora, Bill Jemas, roteirizada por Brian Michael Bendis e desenhada por Mark Bagley, a nova série partiu de elementos das histórias originais do Homem-Aranha, recriando o personagem para o público e a realidade do século que se iniciava. Deixando de lado décadas de “cronologia” e não tendo que lidar com os equívocos dos anos 90, a nova série partiu da história que lançou o personagem em 1962, alterando alguns elementos, expandindo e incorporando outros. Com isso, a “história de origem” básica, que os primeiros leitores do Aranha tinham lido numa HQ de onze páginas, foi recriada em sete edições.

Sem a narração grandiloquente de Stan Lee ou o estilo peculiar de Steve Ditko, a origem Ultimate do Homem-Aranha chegou como um quadrinho moderno convencional (explorando a narrativa visual e alguns efeitos de colorização digital). Diferenças de estilo à parte, a mudança mais significativa entre uma versão e outra está no acidente que deu poderes a Peter: sai a aranha radioativa e entra uma aranha geneticamente alterada; sai o ambiente universitário e entra o laboratório das empresas Osborn (o que liga a origem do Aranha àquele que será seu principal inimigo, o Duende Verde). Além do protagonista e de seu antagonista, a edição de estreia também traz as versões Ultimate de Tio Ben e da Tia May, de Mary Jane e de Harry Osborn. O resultado foi um sucesso comercial que durou mais de cento e trinta edições e deu origem a diversas coletâneas, motivando também a Marvel a expandir a linha Ultimate.

O Homem-Aranha Ultimate foi a mais bem-sucedida versão em quadrinhos do personagem nos últimos dez anos, chegando a influenciar o filme Homem-Aranha de 2002 (do qual falarei na próxima postagem). Enquanto ela experimentava uma longa regularidade criativa e comercial, a versão tradicional do personagem contou com os bons desenhos de John Romita Jr., mas atolava em tramas absurdas, como “Um dia a mais” que apagou anos de HQs como se elas simplesmente não tivessem existido (não é à toa que essa história causou a fúria de muitos leitores!). Atualmente, o Homem-Aranha faz parte do grupo Vingadores, ao lado de Wolverine, Capitão América, Thor e Homem de Ferro, todos personagens que já ganharam ou ganharão versões cinematográficas nos próximos anos (uma prova de que cada vez mais os quadrinhos da Marvel são vistos como uma ponte para ou uma extensão das produções cinematográficas).

(CONTINUA)

30/04/2008

Spawn Origem Vol.2 reúne McFarlane, Moore & Miller.


Quando lançada em 1992, a revista Spawn de Todd McFarlane foi um sucesso imediato, ajudando a projetar a Image Comics como uma importante força do mercado norte-americano. O que se viu nos meses e anos seguintes foi uma trajetória de sucesso comercial tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Lançada por aqui inicialmente pela Abril Jovem, a revista mensal da “cria do inferno” passou a ser publicada pela Pixel a partir de seu número 151. Além da revista regular (atualmente em seu número 174), a editora tem lançado a coleção Spawn Origem, que reimprime as primeiras HQs da série. O segundo volume reúne os números 6, 7, 8 e 11, sendo os dois últimos escritos por Alan Moore e Frank Miller.

As HQs desse volume trazem o típico Spawn dos primeiros dias. Muitas páginas de um só quadro, composições confusas repletas de emaranhados de traços, sequências narrativas fragmentadas, enquadramentos cortados e, é claro, os enredos fracos e desenhos tecnicamente deficientes de McFarlane. O fato, porém, é que toda a violência sem-sentido e o traço caricaturizado do quadrinista agradaram em cheio aos leitores da época, tendo grande apelo ainda hoje. Na história publicada originalmente em Spawn número 6 e 7, o “soldado do inferno” tem que enfrentar Chacina, um ciborgue assassino criado pela máfia (!?) para dominar as ruas de Nova York. Após muita pancadaria e algumas sequências sentimentalóides envolvendo a ex-mulher de Spawn, a história conclui com o sádico herói executando sumariamente seu já derrotado adversário.

Logo quando lançada, apesar do sucesso entre os leitores, a série Spawn foi bombardeada pela crítica, que não perdoou os péssimos roteiros de McFarlane. Foi com o objetivo de aplacar os críticos mais ferrenhos que o quadrinista-empresário (já então esbanjando dinheiro) contratou quatro dos mais conceituados roteiristas da época para escrever edições especiais da revista. Mas, apesar dos renomados colaboradores, os roteiros dos números 8 e 11 deixam muito a desejar. No primeiro, Alan Moore guia os leitores por uma viagem aos círculos do Inferno, com direito a um pomar de almas condenadas, demônios travestidos de Elvis e um humor um tanto duvidoso. Já no último, Frank Miller traz os leitores de volta às ruas de Nova York para uma historinha pueril, envolvendo duas improváveis gangues que se exterminam numa disputa pelo beco onde mora o sanguinário herói.

Em Spawn Origem Vol.2, são notáveis as ausências dos números 9 e 10 da revista, escritos por Neil Gaiman e Dave Sim. O primeiro deles introduziu os personagens Ângela e Cagliostro (além do Spawn medieval), enquanto o segundo contou com a participação do personagem Cerebus, sendo uma espécie de alegoria para a situação do mercado de quadrinhos nos Estados Unidos. O problema com Spawn n°9 é que Gaiman e McFarlane acabaram se desentendo sobre o pagamento de direitos autorais dos personagens criados pelo roteirista e também em relação aos direitos de publicação do herói Miracleman. Quanto ao número 10, ao que consta existe um acordo de não-republicação da história, embora pareça que Sim também não tenha ficado muito satisfeito quando McFarlane e seus companheiros da Image passaram a praticar relações de trabalho semelhantes às das grandes editoras.

Spawn Origem Vol.2 tem capa cartonada, 112 páginas, formato 17cm x 26cm, sendo vendido por R$32,90. Apesar da baixa qualidade das HQs, a edição é uma boa pedida para os novos fãs de Spawn que não acompanharam a série quando lançada originalmente no Brasil. Após as histórias publicadas nesse volume, Alan Moore voltou ao "universo" de Spawn com a dispensável minissérie Feudo de Sangue, enquanto Frank Miller escreveu um roteiro de terceira para o especial Spawn / Batman. Quanto a Todd McFarlane, depois de ganhar mais dinheiro, ele decidiu apostar suas fichas numa série de animação para a HBO, num filminho para o cinema e numa linha de brinquedos que leva seu nome (deixando sua cria infernal a cargo de outros quadrinistas, alguns até bem mais competentes do que ele, como Greg Capullo por exemplo). Para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos de Moore, Miller e McFarlane, basta clicar nos nomes em destaque abaixo.

27/04/2008

Com a assinatura, mas não o talento de Alan Moore.


Alan Moore foi, ao lado de Frank Miller, o roteirista mais influente dos quadrinhos norte-americanos na década de 1980. Após um período de ausência das HQs de super-heróis, que jurou jamais escrever novamente, ele retornou ao gênero que o consagrou com a revista Spawn n°8, sua primeira experiência com os personagens criados por Todd McFarlane. A ela seguiram-se outras produções para a Image Comics, em sua maioria trabalhos notáveis por sua baixa qualidade, como a minissérie do Violador.

Entre 1984 e 1989, com as séries Monstro do Pântano, Watchmen, V de Vingança e Miracleman, Alan Moore ajudou a revolucionar os quadrinhos norte-americanos. Mas, depois de muito sucesso e de uma aclamação pública poucas vezes vista por um autor de quadrinhos, ele decidiu se afastar das grandes editoras (em quê pesaram os problemas contratuais que teve com a DC Comics). A partir daí, Moore passou a dedicar-se a trabalhos mais autorais e pessoais, como HQs curtas para revistas independentes e coletâneas (onde surgiram From Hell e Lost Girls), além das graphic novels Brought to Light e A Small Killing.

Aproveitando o renome internacional e estimulado por outros editores independentes (como Dave Sim da série Cerebus), Moore decidiu montar sua própria editora. Nascia então a Mad Love, na qual o roteirista tinha como sócias sua esposa Phyllis e a namorada dos dois Debbie. Para a editora, eles lançaram a edição especial AARGH (“Artistas Contra Agressiva Homofobia Governamental”), uma coletânea voltada a angariar recursos a serem usados contra uma proposta de lei do governo Margaret Thatcher. Em seguida, veio a série Big Numbers que contava com a fantástica arte de Bill Sienkiewicz, mas que enfrentou imensos e ainda misteriosos problemas, sendo interrompida em seu segundo número.

Toda a confusão envolvida na interrupção de Big Numbers levou não apenas ao rompimento entre Moore e Sienkiewicz, mas também ao fim de seu casamento a três e à falência de sua editora. Enfrentando problemas pessoais e endividado, talvez o roteirista não tenha tido escolha, a não ser voltar atrás com sua palavra, retornando ao gênero dos super-heróis. Naquele início dos anos 90, a Image Comics representava uma alternativa às gigantes do mercado norte-americano, Marvel e DC Comics, as quais Moore abominava. O primeiro contrato assinado por ele com a nova editora foi a controversa minissérie 1963, que também ficaria inacabada e levaria a outro rompimento pessoal, dessa vez com o desenhista Steve Bissette.

Porém, McFarlane antecipou-se ao lançamento da minissérie, contratando Moore (“a peso de ouro”, segundo se diz) para escrever o roteiro de Spawn n°8. Lançada em fevereiro de 1993, a HQ não passa de um reaproveitamento de elementos que o roteirista já havia utilizado em histórias do Monstro do Pântano. Mas, fazer o quê? Moore precisava pagar suas dívidas e aproveitou para fazer algum dinheiro sem muito esforço, e talvez também tenha visto uma oportunidade de prejudicar as grandes editoras, somando seu prestígio ao sucesso dos personagens de McFarlane. Contudo, nem tudo isso pode servir de justificativa para trabalhos tão pobres quanto a minissérie Violator, lançada no primeiro semestre de 1994 e desenhada por Bart Sears (mais conhecido por sua fase na série Liga da Justiça da Europa).

Violador é um demônio condenado a permanecer na Terra, desprovido de seus poderes e na forma de um anão com cara azul. A história escrita por Moore começa quando um bando de gângsteres falha na missão de eliminar o demoníaco anãozinho. Com a derrota de seus capangas, o “Poderoso Chefão” da vez resolve contratar um assassino profissional chamado Punidor. O que se segue é uma carnificina sem propósito, pontuada de um humor bastante questionável. Para quem tinha acompanhado os trabalhos do roteirista inglês ao longo dos anos 80, as HQs produzidas por ele com os personagens de McFarlane foram uma desagradável surpresa. Ficou a sensação de que, de fato, Moore não se importou em simplesmente ganhar um dinheiro fácil, explorando seu próprio prestígio e o meteórico sucesso de McFarlane.

Na época, os fiéis leitores perguntaram-se como um autor tão brilhante e original poderia estar produzindo trabalhos tão ruins. Provavelmente, a resposta para isso está no momento pelo qual ele passava na época. Por outro lado, também naquele momento, Moore mergulhava no estudo e prática da magia, buscando tornar-se um "xamã" moderno. Segundo ele próprio, esse passo foi decisivo para uma nova virada criativa em sua carreira, que impulsionaria trabalhos bem mais interessantes (como a série Promethea). Trabalhos que trouxeram, mais uma vez, não apenas a assinatura, mas o talento de Alan Moore.

25/04/2008

Spawn / Batman, uma HQ medíocre de Miller & McFarlane.


Escrita por Frank Miller e desenhada por Todd McFarlane, Spawn / Batman foi lançada no Brasil, pela Abril Jovem, em 1997. Edição oportunista que se apoiou no estrondoso sucesso do personagem criado por McFarlane e no prestígio do nome de Miller, a revista impressionou-me na época pela falta de originalidade do roteiro e por seus desenhos abaixo da média. Assim, embora essa HQ tenha todos os elementos para agradar aos fãs de McFarlane, ela é desaconselhável para quem admira os trabalhos sérios de Miller.

Nos anos 80 e 90, o nome Frank Miller foi sinônimo de qualidade nos quadrinhos. Afinal, o criador de O Cavaleiro das Trevas e Sin City foi um dos responsáveis por uma revolução qualitativa no mercado norte-americano. Levando para os comics influências de HQs japonesas, européias e sul-americanas, Miller criou um trabalho pessoal, no qual a qualidade artística era presença constante. Mas não é isso que vemos em Spawn / Batman.

Naquela mesma época, Todd McFarlane era sinônimo de popularidade nos quadrinhos. Em poucos anos, ele se tornou o artista mais famoso e bem-sucedido do mercado norte-americano. Com seu traço repleto de elementos caricaturais, expressões e imagens exageradas, somado a uma narrativa fragmentada, McFarlane criou uma fórmula de sucesso, seguida fielmente por seus imitadores. Mas não há dúvida de que, em se tratando desse quadrinista, raras vezes fama e qualidade artística andaram juntas. E é exatamente isso que vemos em Spawn / Batman.

É difícil dizer se foi a falta de qualidade artística de McFarlane que influenciou negativamente Miller, ou se este simplesmente optou por rabiscar um esboço de roteiro, por se tratar de uma revista que seria publicada pela Image Comics. O fato é que Spawn / Batman não passa de um subproduto do roteiro que o próprio Miller escreveu para o filme Robocop 2. Basicamente, o que diferencia as duas histórias escritas por Miller é a existência de Spawn, que dá conotações místicas ao roteiro da HQ.

Como sempre, os desenhos de McFarlane trazem as caretas excessivas, capas gigantescas, erros de anatomia e excesso de rabiscos que lhes são característicos. Mas grande parte do suposto dinamismo da arte desse desenhista não está em seu traço, e sim nas cores produzidas por computação gráfica. Utilizando uma variação entre gradações leves e contrastes fortes, a coloração cria a ilusão de energia e movimento que tanto tem fascinado e agradado aos leitores nas últimas décadas.

Os principais trabalhos autorais de Frank Miller e Todd McFarlane, Sin City e Spawn respectivamente, são quase opostos. Embora ambos abusem da violência, nos trabalhos de Miller ela tem limites mais realistas. Contudo, é no visual das HQs que as diferenças se tornam mais notáveis. Sin City apóia-se nos contrastes entre luz e sombra, ao estilo de Alberto Breccia, valorizando a narrativa visual. Já Spawn abusa das cores, apoiando-se em imagens de detalhe ou grandes cenas de impacto inspiradas na estética dos mangás. Essas diferenças nos trabalhos dos desenhistas fazem do primeiro um artista e do outro um criador de sucessos de massa.

No final das contas, Spawn / Batman serviu apenas para confirmar o que muitos já sabiam. Primeiro, o fato de que na companhia de Todd McFarlane até os melhores roteiristas foram capazes de criar trabalhos ruins. Segundo, por alguns milhares de dólares, mesmo um quadrinista dos mais conceituados não se sente constrangido em fazer um trabalho medíocre. É claro que, ao aceitar trabalhar nessa HQ especial, Miller também estava buscando uma divulgação extra para Sin City, projeto que começava a deslanchar na época em que a revista foi lançada nos Estados Unidos. Mas, quer seja pelo dinheiro, quer seja pela divulgação de seu trabalho, a pergunta que fica é: será que valeu a pena?

24/01/2008

Todd McFarlane: a diferença entre fama e talento.


Na primeira metade dos anos 90, o canadense Todd McFarlane foi um dos desenhistas mais populares dos quadrinhos norte-americanos. Sendo um dos fundadores da Image Comics, ele foi aclamado pela mídia e revistas especializadas como um dos quadrinistas mais importantes da época. Mas será que, neste caso, fama e talento andavam juntos?

McFarlane é um cara de sorte ou, pelo menos, alguém que estava no lugar certo na hora certa e soube aproveitar as oportunidades. Tendo se formado em artes gráficas, ele não tinha muita experiência com quadrinhos quando conseguiu seu primeiro contrato. Mas, em pouco tempo, o desenhista já estava trabalhando para a DC Comics, em revistas de menor importância e até em algumas HQs com o Batman. Mas sua grande chance foi na revista Incredible Hulk, onde começou imitando e até plagiando os desenhos de John Byrne. Essa fase inicial de obscuridade e mediocridade foi logo superada e o primeiro sucesso de McFarlane veio com uma HQ em que o Hulk enfrenta o Wolverine.

A partir daí, a Marvel e os leitores passaram a prestar mais atenção no jovem desenhista, cuja popularidade crescia vertiginosamente. Com o sucesso das HQs do Hulk (onde definiu os principais elementos de seu estilo), McFarlane foi contratado pela DC para desenhar os primeiros capítulos da minissérie Invasão, e escolhido pela Marvel para assumir os desenhos de um dos mais importantes heróis da editora: o Homem-Aranha (em HQs lançadas no Brasil originalmente pela Abril Jovem e relançadas agora pela Panini). Adaptando-se rapidamente ao novo personagem, em poucas edições McFarlane impôs seu estilo pessoal e sua forma peculiar de desenhar o Homem-Aranha.

Quebrando o herói em ângulos e poses inusitadas, o desenhista aproximou-o do visual de um aracnídeo, explorando também a forma de suas teias. McFarlane foi ainda o co-criador do vilão Venon, que teria grande importância nas histórias do Aranha a partir de então. Essas HQs de fins dos anos 80 tornaram o “Cabeça de Teia” tão ou mais popular do que ele fôra nos anos 70, motivando a Marvel a criar uma nova revista totalmente produzida por McFarlane. O público respondeu à altura, e Spider-Man nº 1 bateu todos os recordes de vendas do mercado norte-americano. Porém, a alegria da editora não durou muito, pois (pouco mais de um ano após o lançamento da Spider-Man) o quadrinista deixou a Marvel para fundar a Image Comics e lançar a revista Spawn, outro sucesso instantâneo.

Como as demais formas de cultura de massas, os quadrinhos de super-heróis têm que se adaptar às novas exigências do mercado e do público. E uma vez que os roteiros em geral são muito fracos, as editoras buscam atrair os leitores pelo visual das revistas. No final dos anos 80, uma nova geração de desenhistas encabeçada por Todd McFarlane tomou de assalto as páginas das principais publicações, estabelecendo um novo estilo que transformaria o mercado dos comics definitivamente. Cores produzidas por computação gráfica, excessivas mudanças de ângulo, personagens que extrapolam os limites do quadro, predomínio de fragmentos de imagem, poses e expressões exageradas, além das linhas de movimento e da estética dos desenhos japoneses eram as principais características das HQs produzidas por McFarlane & Cia. A boa repercussão desses trabalhos acabou estabelecendo um padrão seguido pela maioria dos desenhistas nos anos 90.

Além da padronização (que diminui a diversidade de estilos e as possibilidades artísticas), um dos grandes problemas daquelas HQs era a superexploração dos recursos visuais, em detrimento da narrativa. Algumas das páginas desenhadas por McFarlane são emaranhados de traços e rabiscos sem função. O excessivo uso de páginas com apenas um ou dois quadros é outro problema: empobrece o desenrolar da história, tornando-a muito dependente do texto, que por sua vez é formado por pérolas como: “A força da rajada de Spawn faz um buraco do tamanho de uma bola de basquete no vilão. Os tijolos da parede são banhados em sangue fétido...”. Mas, com todo o sucesso comercial, McFarlane não demorou a deixar os quadrinhos de Spawn um pouco de lado. Tendo sido substituído várias vezes por outros roteiristas, ele acabou passando os desenhos da revista para Greg Capullo (que, apesar de seguir seu estilo, conseguia não raras vezes superar em muito o original).

O próprio McFarlane reconheceu que o fato de vários leitores gostarem de Spawn não o tornava um escritor ou artista genial, o que se confirma a cada página de suas HQs. Com seu estilo meio caricatural (repleto de erros de anatomia), sua narrativa fragmentada e seus roteiros medíocres, as primeiras edições da Spawn realmente conquistaram os leitores. Enorme sucesso comercial, o anti-herói saído do Inferno acabaria extrapolando as páginas dos quadrinhos, originando uma linha de brinquedos, uma série de animação e um horroroso filme para o cinema. Após ganhar muito dinheiro com os quadrinhos, McFarlane assumiu um papel mais empresarial, apenas supervisionando a revista Spawn e dedicando-se a projetos em outras mídias, como games e vídeos. Nos últimos anos, uma importante ocupação do empresário-desenhista foi responder a processos judiciais, numa contenda com o roteirista Neil Gaiman pelos pagamentos e direitos sobre a personagem Angela e o herói Miracleman.

Para McFarlane, os quadrinhos não passam de “vinte minutos de diversão despretensiosa”. Mesmo assim, isso não justificaria seu empobrecimento como linguagem. Afinal, foi também com a intenção de criar puro entretenimento que quadrinistas como Will Eisner e Jack Kirby revolucionaram a narrativa, estética e temática dos comics. Infelizmente, no caso de Todd McFarlane, fama e talento não costumam andar juntos.

21/12/2007

O exagero visual nos quadrinhos de super-heróis.


Uma das características dos quadrinhos é sua capacidade de estar em frequente transformação, com novos artistas e estilos que surgem. Contudo, nem sempre a qualidade é mantida e, às vezes, acontecem até retrocessos. Quando foi lançada em 1982, a minissérie Wolverine, desenhada por Frank Miller, representou uma inovação na narrativa e na ação dos quadrinhos de super-heróis. As páginas da HQ traziam enquadramentos e sequências revolucionários para a época, mostrando influências cinematográficas e do mangá Lobo Solitário (de Kazuo Koike e Gozeki Kojima).

Algum tempo atrás, ao fazer uma "investigação arqueológica" em minha coleção de revistas, em busca de antigos trabalhos de Miller, encontrei as edições dessa minissérie. Ao folhear as revistas, porém, tive uma surpresa, pois elas não tiveram para mim o mesmo impacto de antes. É claro que as páginas de desenho não haviam se alterado com o tempo. Na verdade, minha percepção dos quadrinhos de super-heróis é que havia se modificado; ou melhor, os recursos utilizados por Miller (que tinham causado tanto impacto anos antes) já haviam sido assimilados, imitados e repetidos, ao ponto do esgotamento, com a avalanche de revistas que vieram depois.

O fato é que, entre os anos 80 e 90, os quadrinhos norte-americanos experimentaram uma intensificação visual, cujas principais características eram as chamadas “imagens de impacto” e a narrativa fragmentada (algo que chegou a um extremo nas publicações da Image Comics). A maioria das revistas de super-heróis da época simplesmente se adaptou para preservar o público e atrair novos leitores. E uma vez que os desenhos e enquadramentos de antes já não impressionavam mais, era preciso buscar meios de causar cada vez mais impacto (devido à deficiência dos roteiros em geral).

Assim, as páginas das HQs transformaram-se então num verdadeiro emaranhado de traços e rabiscos, com poses e figuras exageradas, onde misturam-se hiper-super-heróis, guerreiros de dois metros de altura, vilões "tecnolóides" e alienígenas das mais diversas cores e espécies. Todo esse pandemônio visual teve como uma de suas fontes de influência principais os quadrinhos e desenhos animados japoneses (bem como a velocidade vertiginosa da estética do videoclip). É claro que a influência dos mangás e animes em si não é negativa, tendo sido inicialmente até renovadora (como foi o caso dos trabalhos de Miller nos anos 90). O problema, contudo, estava em como aqueles elementos foram empregados nas HQs de super-heróis.

Os principais responsáveis por essa transformação foram Todd McFarlane, Jim Lee e o pouco talentoso Rob Liefeld, que agitaram o mercado norte-americano, com revistas produzidas para a Marvel. O sucesso desses desenhistas foi tanto que, em 1992, eles deixaram a editora do Homem-Aranha para fundar a Image Comics. Como o próprio nome indicava, em sua fase inicial, a nova editora privilegiava somente as imagens. O principal problema então foi uma crescente padronização de estilos, quando os novos desenhistas que surgiam não traziam nada de novo, sendo apenas cópias de Lee e McFarlane, ou pior ainda: cópias do incompetente Liefeld. Toda aquela superexploração visual levou ao desgaste e a uma profunda crise criativa nos quadrinhos norte-americanos, da qual ainda percebemos efeitos até hoje.

04/11/2007

Uma imagem distorcida.


Quando surgiu em 1992, a proposta da Image Comics era permitir a independência dos autores em relação às grandes editoras (que em geral mantêm controle direto sobre o material produzido e detêm os direitos autorais sobre o que é publicado). Nesse sentido, a nova editora representou uma revolução na indústria dos comics, já que os desenhistas-fundadores tornaram-se donos de suas criações, mantendo os direitos autorais sobre os personagens e recebendo os rendimentos relativos ao uso de suas marcas e imagens.

A possibilidade de independência e manutenção dos direitos sobre suas criações (e é claro alguns milhares de dólares) acabaram atraindo outros autores para a Image. Nomes consagrados, como Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Frank Miller (Ronin, O Cavaleiro das Trevas), Neil Gaiman (Orquídea Negra, The Sandman), Barry Windsor-Smith (Conan, Arma-X) e Chris Claremont (o pai dos mutantes modernos) produziram edições especiais ou séries com os personagens da Image. Outros autores, como Greg Capullo, Jae Lee ou Marc Teixeira (que despontavam na Marvel como novos talentos) também foram parar na nova editora, multiplicando o número de seus títulos e personagens.

Porém, desde o início, a qualidade dos títulos da Image deixou a desejar (há é claro exceções, como a série The Maxx, criada por Sam Kieth). Rob Liefeld nunca foi um grande desenhista, e mesmo em seus trabalhos para a Marvel os erros de anatomia e as falhas na narrativa eram freqüentes. Quanto a Jim Lee e Todd McFarlane, pode-se dizer que a qualidade de seus trabalhos diminuiu sensivelmente (bastando uma rápida comparação entre seus últimos trabalhos para a Marvel e os primeiros números de Wild C.A.Ts. e Spawn). A verdade é que as “imagens” dizem tudo!

O crescimento da editora (chamada por alguns na época de “cooperativa de desenhistas”) levou a uma situação semelhante à da Marvel, em que um grupo de editores comanda a produção de vários desenhistas e roteiristas. A diferença é que, no caso da Image, a grande editora que tudo controla foi substituída por estúdios que tudo comandam. Com isso, o sonho de liberdade e independência, proposto pela Image em sua origem, revelou-se em pouco tempo apenas mais um desdobramento da política editorial que favorece os mais poderosos, apoiando-se na produção de quadrinhos de baixa qualidade e nenhuma originalidade.

Um furacão chamado Image.


Muita pancadaria, mutantes e ciborgues superpoderosos, e uma “explosão” visual de traços caóticos e coloração por computador. Esses eram alguns dos elementos mais característicos das revistas da Image Comics original, a editora que sacudiu o mercado norte-americano de quadrinhos há 15 anos.

No Início da década de 1990, a Marvel Comics despontava como a líder do mercado nos Estados Unidos. As revistas Spider-Man, X-Force e X-Men, bateram consecutivamente os recordes de vendas, levando ao “estrelato” seus desenhistas, Todd McFarlane, Rob Liefeld e Jim Lee respectivamente.

Mas em 1992, nove meses após o lançamento de X-Force, Rob Liefeld deixou a Marvel para produzir uma nova série totalmente criada por ele: Youngblood (cujo primeiro número vendeu aproximadamente 600 mil exemplares). Em seguida, Todd McFarlane, Jim Lee, Marc Silvestri, Erik Larsen e Jim Valentino também saíram da Marvel, para formar a Image Comics. As revistas mais populares tinham perdido seus desenhistas e a Marvel sua “galinha dos ovos de ouro”, o que a levou à pior crise desde os anos 70.

Em poucos meses, os títulos da Image conquistaram uma importante parcela do mercado de quadrinhos, e a editora tornou-se a terceira maior, atrás apenas das líderes Marvel e DC Comics. Na verdade, a Image nasceu como um conjunto de estúdios e autores independentes que publicam seus trabalhos sob o mesmo selo. Comandados pelos desenhistas-fundadores, os estúdios Extreme (de Liefeld), Wildstorm (de Lee) e Top Cow (de Silvestri) e as revistas Spawn (de McFarlane), Shadowhawk (de Valentino) e Savage Dragon (de Larsen) deram origem a várias séries e minisséries.

A estratégia utilizada pelos fundadores da Image era simples e eficiente: os autores mais famosos criavam novas revistas, produziam os primeiros números e as transferiam para outros desenhistas que copiasse seu estilo. E muitos leitores, que compravam as edições por causa dos desenhos de Liefeld ou McFarlane, geralmente continuavam a acompanhar as séries quando um “desenhista-dublê” substituía o original. Mas, com o tempo, esta esperta estratégia acabou minando as forças da Image original, que se perdeu numa disputa de egos entre seus fundadores.