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18/12/2009

Os 50 anos de Capitão 7, primeira revista de super-heróis brasileira.


Outro cinquentenário ocorrido em 2009 que merece ser lembrado é o do lançamento da Capitão 7, primeira revista em quadrinhos dedicada a um super-herói brasileiro. Lançado em 1954 pela TV Record (então o “Canal 7” de São Paulo), o personagem era interpretado pelo ator Ayres Campos, tendo alcançado grande sucesso entre o público infantil (com direito a camisetas inspiradas em seu uniforme e até um fã-clube oficial). Em 1959, aquele que é considerado o primeiro super-herói brasileiro saltaria da telinha para as páginas dos quadrinhos, numa revista regular coordenada pelo ilustrador Jaime Cortez e publicada pela editora Continental, de Miguel Penteado. Sem as limitações técnicas da tevê da época, Capitão 7 provaria-se um sucesso comercial, alcançando mais de cinquenta edições (cuja capa do n°18 ilustra esta postagem).

Mas qual não foi minha surpresa quando descobri, há alguns anos, que a primeira HQ do Capitão 7 fora desenhada por ninguém menos que meu querido amigo Julio Shimamoto! Iniciando então sua carreira, mestre Shima recebeu uma convocação de Cortez para produzir os desenhos da HQ de estreia do herói, o que fez de forma muito competente, num traço fino e elegante (que difere bastante do estilo mais intenso pelo qual ele se tornaria conhecido). Numa carta, o samurai de nossos quadrinhos comentou aquele tempo de estreias e como se deu seu envolvimento com o primeiro super-herói brasileiro. Aproveito então os cinquenta anos da Capitão 7 para compartilhar com todos esse precioso relato que nos conta um pouco mais da história de nossos quadrinhos.


Taquara, 28 jun. / 2007

Capitão 7.
Era um herói que fazia muito sucesso na tevê, embora eu nunca tenha assistido. Era época em que alguns bares e poucas casas proletárias tinham o aparelho. Lembro-me que nas tardes de domingo eu ia ver o Corinthians jogar na tevê do bar de seu Quincas, lá na rua de cima, no subúrbio de São Paulo. E quando nos mudamos para o município de Santo André, ia de tele-vizinho (um amigo casado e operário de multinacional. Estudávamos inglês no Instituto Yazigi à noite, e no sábado repassávamos as lições na casa dele. Assim ele me servia café na sala, abarrotada de crianças e senhoras da vizinhança, e constrangido bicava tevê por poucos momentos).
Já fazia terror e começavam os elogios, então o Cortez me assustou com o convite para desenhar a história inaugural de Capitão 7. Assinaram contrato com Ayres Campos, lutador de “catch”, que fazia o papel do super-herói na televisão. Um sujeito simpático, falso-gordo, topete de Elvis, simples e daí o carisma no meio infantil. Então o Cortez me chamou para longe, para que Ayres não ouvisse, e disse: “Shima, não desenhe a cara e nem o corpo dele”. Entregou-me o grande álbum de Flash Gordon no Planeta Mongo e impôs: “Copie a cara e o corpo deste herói de [Alex] Raymond. Lembre-se, a proporção da anatomia é de dez cabeças a doze, porque o Capitão 7 não chega nem a oito”. Fiquei inseguro. Eu não era fã do Alex. Eu gostava do argentino José L. Salinas e de [Harold] Foster (Príncipe Valente). Outros colegas que completaram a revista, Gitahí e Getúlio Delfin, respiravam, comiam e dormiam com o grande desenhista de Flash Gordon na cabeça. Cortez nem se fala. Só falava de Jim das Selvas ou Flash Gordon. Bons tempos os meus de estagiário dos quadrinhos.
Grande abraço, Srbek!

Shima

20/12/2007

Flash Gordon no planeta Mongo.


Com a depressão econômica dos anos 30, os quadrinhos assumiram uma função de “válvula de escape” para as tensões cotidianas da sociedade norte-americana. A exótica África de Tarzan e o espaço sideral de Buck Rogers tornaram-se lugares de refúgio para os leitores, que abriam ansiosamente os jornais em busca das doses diárias ou dominicais de aventura. Para a arte dos quadrinhos, aquele foi um momento de forte desenvolvimento e rápida expansão. Não é por menos que, ao longo da década de 1930, as primeiras revistas em quadrinhos e as tradicionais tirinhas de jornal tornariam uma das principais formas de comunicação, ao lado do rádio e do cinema.

Em meio à disputa das grandes distribuidoras de quadrinhos por personagens que rivalizassem com Tarzan e Buck Rogers, o jovem Alex Raymond (que perdera seu emprego de oficeboy em Wall Street) venceu um concurso de desenho e conseguiu lançar Flash Gordon. Essa série clássica dos quadrinhos surgiu em 7 de janeiro de 1934, no New York American Journal e logo tornou-se um grande sucesso junto aos leitores. As páginas dominicais com as aventuras do jovem viajante interplanetário tiveram tanta receptividade junto ao público que, apenas dois anos após seu lançamento, a Universal Pictures já produzia um seriado de cinema baseado nos quadrinhos de Raymond.

As aventuras de Flash Gordon começam quando um meteorito atinge o avião em que ele viajava. Sendo um famoso esportista e aluno da universidade de Yale, Flash salva a bela Dale Arden, uma passageira do avião que se tornaria sua namorada. Caindo próximos a um observatório espacial, eles encontram o Dr. Zarkov, um famoso cientista obcecado pela missão de salvar a Terra da colisão com um cometa. Para tanto, Zarkov construiu um foguete, que acaba levando os três heróis para o desconhecido planeta Mongo. Ali os aventureiros encontram cidades maravilhosas, mares sombrios, paisagens desérticas e florestas exuberantes, onde monstros gigantescos, homens alados, felinos antropomórficos e exércitos de guerreiros lutam pela sobrevivência, enfrentando ou defendendo o império do impiedoso Ming.

Chegando a essa terra inóspita, Flash Gordon, Dale Arden e Zarkov são capturados pelos súditos de Ming, que decide se casar com Dale Arden. Com a ajuda de Aura, filha do imperador (que se apaixonou imediatamente por Flash), o herói consegue escapar, planejando retornar para resgatar sua amada Dale. Assim tem início Flash Gordon no Planeta Mongo, o primeiro volume de uma série de livros que reúne as histórias estreladas por Flash Gordon, desenhadas por seu criador Alex Raymond. Flash Gordon tornou-se um clássico dos quadrinhos, contribuindo para o desenvolvimento dessa arte e influenciando muitas outras séries de quadrinhos ao longo das décadas e chegando a originar também seriados de animação para a tevê (que faziam minha alegria nas manhãs de domingo, lá pelos anos 80).

18/12/2007

Alguns dinossauros dos quadrinhos.


Muito populares entre crianças e adolescentes, os dinossauros são antigos frequentadores dos quadrinhos. Em suas aventuras, Tarzan geralmente enfrentava leões, gorilas ou nativos africanos; porém, em algumas HQs, ele se deparou com ferozes tiranossauros. Essas feras saídas do passado habitavam Pal-ul-don, uma terra escondida no coração da África, na qual os dinossauros sobreviveram até os tempos modernos. Mesmo valendo-se apenas de sua destreza e de armas rudimentares, é claro que o homem-macaco sempre conseguia domar ou vencer esses fantásticos animais.

Flash Gordon, outro herói clássico dos quadrinhos de jornais dos anos 30, também teve que encarar criaturas baseadas nos monstros pré-históricos. Em suas aventuras no planeta Mongo, o herói criado pelo desenhista Alex Raymond lutava contra gigantescos lagartos inspirados em estegossauros ou brontossauros. E apesar de ter acesso à tecnologia futurista (como armas de energia), às vezes Flash Gordon acabava também enfrentando os enormes monstrengos apenas com sua coragem e força física.

Mas foi com as aventuras de Brucutu que os quadrinhos mergulharam de vez no mundo dos dinossauros. O personagem é um habitante do Reino de Mu, uma terra em que homens das cavernas e dinossauros coexistiam (algo que, na realidade, jamais aconteceu, pois milhões de anos separam a extinção dos dinossauros e o surgimento dos humanos). Lançado em 1933, Brucutu foi criado pelo desenhista V.T. Hamlin, que imaginou o Reino de Mu após encontrar fósseis de dinossauros em um campo de petróleo no Texas.

Nos anos 50 e 60, criaturas vindas do espaço sideral ou criadas a partir de acidentes científicos tornaram-se comuns no cinema e nos quadrinhos. Algumas delas não passavam na verdade de versões modernizadas ou estilizadas dos dinossauros então conhecidos. Nessa onda, os quadrinistas Jack Kirby, Steve Ditko e Stan Lee fizeram sucesso com suas HQs de ficção científica da chamada “Era dos Monstros Marvel” (cujo sucesso lançou as bases para o universo de super-heróis que surgiria em 1961).

Do outro lado do mundo, os filmes de Godzilla e as HQs de Astroboy (personagem criado pelo mestre Osamu Tezuka) deram origem à linhagem de monstros que tornou-se a marca registrada dos desenhos, seriados e quadrinhos japoneses. No Ocidente, foi na passagem para os anos 70 que os clássicos dinossauros disseminaram-se de vez. Tiranossauros, estegossauros, brontossauros ou pteranodontes tornaram-se as estrelas de filmes, desenhos e revistas, em que contracenavam com homens das cavernas ou aventureiros modernos.

A Terra Selvagem das aventuras de Kazar e o desenho O Vale dos Dinossauros lembram muito a terra de Pal-ul-don das HQs de Tarzan, que por sua vez é baseada no Mundo Perdido da literatura de Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes). Na mesma época, os trabalhos de desenhistas como Joe Kubert (Tor), Steban Maroto (Wolff), Moebius (Arzach) e Richard Corben (Den) mostraram realidades fantásticas, em que bárbaros e exuberantes mulheres convivem com monstros baseados nos dinossauros (neste sentido, estes mundos fantásticos seriam uma versão heavy metal do Reino de Mu).

As feras pré-históricas fazem parte da cultura contemporânea, e nos últimos anos inspiraram interessantes HQs. Aparecendo como monstros ameaçadores ou amigos cordiais, os dinossauros povoam nosso imaginário e têm um apelo especial junto ao público infanto-juvenil. Partindo desta idéia, o cartunista Bill Watterson criou sequências inusitadas nas tirinhas de Calvin e Haroldo. Assim, a visita a um museu de História Natural, uma fantasiosa viagem ao tempo dos dinossauros ou imaginar-se transformado em um tiranossauro rex são algumas das situações vividas pelo incontrolável Calvin.

A série Love and Rockets, estrelada pelo grupo de apaixonantes heróinas criadas pelos irmãos Hernandez, misturou questões cotidianas com a temática de HQs de super-heróis e ficção científica. Em uma das histórias, lançada em 1983, a mecânica de foguetes Maggie viaja para Pellucidar, uma floresta habitada por tiranossauros, braquiossauros e brontossauros (outro Mundo Perdido!). Nesta história, as sensuais personagens dos irmãos Hernandez são as protagonistas e os dinossauros aparecem como coadjuvantes (um deles acaba até se apaixonando por uma das integrantes da expedição!).

Em 1994, foi lançado por uma pequena editora norte-americana a revista Tyrant, escrita e ilustrada por Steve Bissette (desenhista de Monstro do Pântano, que já entrevistei para este blog). Publicada em preto e branco, a série narrava a vida de uma tiranossauro rex, colocando em primeiro plano a luta pela sobrevivência nas florestas do período Cretáceo. Em Tyrant, Bissette mostra toda sua expressividade artística e habilidade técnica, criando um ambiente em que plantas, dinossauros, insetos e as primeiras aves e mamíferos interagem formando um verdadeiro ciclo vital.

Os quadrinhos brasileiros também têm seus representantes do mundo jurássico. Nosso dinossauro mais famoso é sem dúvida o Horácio, personagem cartunístico criado por Maurício de Sousa. Vivendo em uma paisagem composta por vulcões e escassa vegetação, Horácio é um pequeno tiranossauro verde, que geralmente aparece envolvido em reflexões existenciais. Nas revistas da Turma da Mônica surgiu ainda Piteco, um homem das cavernas que enfrenta problemas cotidianos e dramas pessoais bastante modernos.

Nos anos 70, a influência das HQs de ficção científica e fantasia norte-americanas e européias, bem como as influências dos desenhos animados e quadrinhos japoneses, originaram algumas versões nacionais de monstros pré-históricos. O desenhista Watson Portela foi um dos principais representantes dessa fase. Um pouco mais recentemente, o quadrinista Ofeliano deu vida ao Leão Negro, um bárbaro com feições de felino que viajava sobre um réptil voador (seguindo o exemplo de Tarzan e Arzach).