Mostrando postagens com marcador Watchmen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Watchmen. Mostrar todas as postagens

21/06/2009

Edições e downloads promocionais da DC / Vertigo.


Revistas com distribuição gratuita ou a preços irrisórios são boas formas de promover novas séries, edições especiais, linhas de quadrinhos específicas ou mesmo alcançar novos leitores que tenham chegado às HQs através de outras mídias. Este foi o caso da revista Vertigo Preview que, lançada em 1993 ao preço de 75 centavos de dólar, serviu para divulgar a estreante linha de “quadrinhos para leitores maduros” da DC Comics. Já em 2006, para promover a luxuosa coleção The Absolute Sandman, a editora lançou uma Special Edition ao preço de 50 ¢, trazendo o n°1 da série numa versão recolorizada, acompanhada de material bônus.

Após uma década e meia de atuação, a linha capitaneada por Karen Berger conta hoje com um catálogo dos mais invejáveis no mercado norte-americano. Uma amostra disso é dada nas coletâneas First Taste, First Offenses e First Cut que, com mais de 160 páginas e vendidas por $4.99 cada, reproduzem as primeiras edições de séries como Preacher, Os Invisíveis, 100 Balas e Transmetropolitan.

No início do ano, seguindo o exemplo da Vertigo e pegando carona na divulgação do filme, a DC lançou a série de revistas After Watchmen.. what’s next?, vendidas por $1 e trazendo reimpressões dos primeiros capítulos de obras como O Cavaleiro das Trevas, Ronin, V de Vingança, Asilo Arkham, Reino do Amanhã, entre outras. Esta foi, é claro, uma jogada esperta da editora, que aproveitou a mobilização midiática em torno da produção cinematográfica para estender o prestígio de Watchmen para outras obras de seu catálogo.

É claro que mais acessível ainda do que uma revista a preço baixo é uma HQ que se possa ler de graça. Neste sentido, a DC disponibilizou a página Vertigo #1 com downloads em PDF das edições de estréia de mais de trinta séries. As histórias estão no original, mas valem uma conferida mesmo por quem não lê em inglês. Além do link para a página geral acima, aqui vão os endereços diretos para as séries principais:

Swamp Thing:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/10793_1.pdf
Sandman:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1696_1.pdf
Hellblazer:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1618_1.pdf
Animal Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1594_1.pdf
Doom Patrol:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/2355_1.pdf
Books of Magic:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1669_1.pdf
Books of Magic #1:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1672_1.pdf
Death:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1601_1.pdf
Sandman Mystery Theatre:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1656_1.pdf
Invisibles:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1680_1.pdf
Preacher:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1645_1.pdf
Transmetropolitan:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1719_1.pdf
Fables:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1606_1.pdf
100 Bullets:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1587_1.pdf
Y - The Last Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1736_1.pdf

Completando a lista, a DC também disponibilizou, como parte da promoção em torno do filme da Warner, o primeiro capítulo de Watchmen:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1462_1.pdf

Diferentemente dos famosos "scans", os arquivos para download divulgados aqui são legais e não violam direitos autorais de autores e editores.

21/04/2009

In Pictopia, uma pequena jóia de Alan Moore & Cia.


O roteirista inglês Alan Moore consagrou-se nos anos 80 por seu trabalho em séries e histórias extensas, a maior parte delas com algumas centenas de páginas. Por sua qualidade e originalidade, trabalhos como Miracleman e Watchmen revolucionaram e transformaram os quadrinhos de super-heróis, tornando-se clássicos imperdíveis. Enquanto se dedicava a esses verdadeiros monumentos do gênero, Moore também produziu histórias curtas para coletâneas e revistas de antologias. A melhor delas é provavelmente “In Pictopia!”, uma pequena jóia de treze páginas que usa a metalinguagem para falar de perda da identidade, decadência qualitativa e desvalorização do passado. Tudo isso com direito a um visual expressivo e doses equilibradas de nostalgia e emotividade.

“In Pictopia!” foi publicada em dezembro de 1986 no número 2 de Anything Goes! (revista lançada pelo editor Garry Groth com o objetivo de angariar fundos para as despesas de um processo judicial sofrido pelo The Comics Journal). Trazendo uma capa de Frank Miller, três ilustrações inéditas de Jack Kirby, HQs curtas de Jayme Hernandez e Sam Kieth, entre outros trabalhos, a antologia tinha como destaque principal a história escrita por Moore. Inicialmente, o roteirista havia se oferecido para produzir duas histórias de quatro páginas, que acabaram substituídas por um roteiro de oito páginas intitulado “Fictopia”. Ao chegar às mãos do desenhista Donald Simpson, o roteiro acabou sendo estendido para treze páginas e rebatizado como “In Pictopia!” (ao que consta, Moore concordou com essas alterações, que de fato levaram a um melhor resultado). O trabalho contou ainda com a participação dos desenhistas Peter Poplaski e Mike Kazaleh, do letrista Carl Stalling e do colorista Eric Vincent.

A história começa às cinco e meia da manhã, no quarto de Nocturno the Necromancer, personagem que tem as características gerais e um nome que lembra Mandrake o Mágico (detetive das tiras de aventura, criado por Lee Falk e Phill Davis). Como acontece todas as manhãs, o personagem é acordado antes da hora pelos gritos e murmúrios de seu vizinho de lado, Sammy Sleephead, que tem mais um pesadelo erótico com a própria mãe. Como de costume, Nocturno se levanta, coloca sua roupa (que inclui cartola, bengala e capa) e sai para conferir “quanto se perdeu”. Nas escadas ele encontra um marinheiro brutamontes e uma vizinha que, enquanto seu marido está ausente “secando”, tem que ganhar a vida se prostituindo. Para alguém que afirma viver nas áreas “em preto e branco” da cidade, até que a vida do narrador / protagonista tem muitos tons de cinza. De qualquer forma, Nocturno sabe e logo nos deixa saber que “só os super-heróis podem bancar uma vida em cores”.

Deprimido, o mágico encaminha-se para o “gueto” onde vivem os animais engraçados dos quadrinhos infantis e de humor. Mas dura pouco a satisfação trazida pelo ambiente nostálgico repleto de piadas visuais. A falta de oportunidades de “trabalho” havia levado pobreza e desolação até mesmo para aquela outrora animada região de Pictopia. Nocturno dirige-se então para os limites da cidade, onde sabe que encontrará seu velho amigo Flexible Flynn, uma evidente paráfrase do Homem-Borracha (super-herói cômico criado pelo genial Jack Cole). O amigo flexível lhe faz então um comentário sobre como o horizonte, preto e esfumaçado, parece cada dia mais próximo. Nocturno não nota qualquer diferença e ambos retornam à cidade para tomar uma cerveja. Já no bar testemunhamos um sóbrio monólogo feito por um embriagado Flynn, acerca de pessoas que estão desaparecendo ou sendo substituídas e também sobre as “gangues de novos heróis” que andam pela cidade, ameaçadoras.

Cansado da “paranóia” do amigo, Nocturno deixa o bar, encontrando em seguida um grupo de novos heróis que, por diversão, tortura uma versão do Pateta. O mágico começa então a acordar para a sombria realidade que toma conta de Pictopia. Identidades desfiguradas e o apagamento do passado tornaram-se parte de uma rotina silenciosa de perda e descaracterização. Mas pode ser tarde demais para ele e seu amigo! Como lhe explica um agente de demolição, aquela cidade das figuras estava mudando e na nova capital da ficção “algumas coisas simplesmente não se adequam mais à continuidade”. Imaginando-se num pesadelo, Nocturno corre atormentado pelas ruas, não encontrando mais cenários antes familiares e próximos. Chegando enfim aos limites da cidade, ele se agarra à cerca, tentando discernir o que se encontra naquele horizonte tomado por uma horripilante “massa industrial”. Neste momento, não há como não nos compadecermos do desespero do personagem.

Repleta de referências veladas ou explícitas a quadrinhos clássicos (como Little Nemo, Popeye, Betty Boop, Fantasma, Brucutu, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão...), “In Pictopia!” olha para trás e, em tom nostálgico, fala de queridos personagens que foram deixados de lado por um mercado sempre em busca do próximo sucesso. Mas a HQ também se volta para o que seria, em 1986, o futuro dos quadrinhos norte-americanos, quando super-heróis e anti-heróis cada vez mais violentos e “realísticos” tomariam conta das revistas. Aliás, é impressionante como os “novos heróis” desenhados por Donald Simpson e seus parceiros assemelham-se aos personagens de visual agressivo, lançados pela Image Comics a partir de 1992. Vale lembrar também que grande parte da “violência” e do “realismo” que tomou conta das revistas de super-heróis a partir da segunda metade dos anos 80 se deve especialmente ao trabalho de Alan Moore em Watchmen e A Piada Mortal.

Moore buscou reverter um pouco do efeito negativo que suas obras tiveram sobre os quadrinhos de super-heróis, produzindo a partir de 1993 séries que resgatavam a fantasia e ingenuidade das antigas revistas. Mas a abordagem metalinguística que vemos em 1963 e Supremo (que muitas vezes identifica o “continuum” da Física com a “continuidade” das revistas) já estava presente na brilhante, tocante e inovadora “In Pictopia!” (diga-se de passagem, esta história pode ter influenciado a criação da revolucionária “O Evangelho do Coiote”, escrita por Grant Morrison para a série Animal Man). Essa HQ curta de Moore & Cia. voltou a ser publicada em 2003, com uma nova colorização, na antologia biográfica The Extraordinary Works of Alan Moore (ao que parece, no entanto, ela foi excluída da recente versão revisada do livro). “In Pictopia!” merece ser lida por sua lúcida antevisão de uma indústria crescentemente padronizada e desumanizada, mas sobretudo por ser um relato ficcional emocionante e humano. Enfim, uma pequena jóia em meio à extensa obra do genial Alan Moore!

18/03/2009

As “adaptações” de Watchmen.


Finalmente fui assistir à adaptação cinematográfica de Watchmen, obra-prima dos quadrinhos criada por Alan Moore e Dave Gibbons, levada aos cinemas por Zack Snyder. Em alguns momentos, o filme consegue de fato uma transposição louvável dos quadrinhos para a telona (como acontece com diversas cenas de Rorschach e a sequência com os Minutemen). Contudo, no geral, o longa-metragem me deu a sensação de algo pela metade: uma produção que não conseguiu realmente adaptar de maneira fiel a complexa HQ que a inspirou, e que ao mesmo tempo não conseguiu ser totalmente compreensível para pessoas que não tenham lido a obra original (o diretor queria e deveria ter insistido em lançar um filme de maior duração, que explicasse mais algumas situações apenas apresentadas rapidamente).

Podemos dizer que Watchmen – O Filme padece exatamente do mal que o tornou possível: o esquemão de Hollywood capaz de financiar uma produção milionária, mas que impõe padrões, restrições e exigências mercadológicas. Senão, como explicar o excesso de violência nas cenas de luta (que fazem a violenta HQ de Moore e Gibbons parecer uma revista bem-comportada)? Ou o porquê de Coruja Noturna e Ozymandias usarem aquelas armaduras no estilo dos filmes do Batman dos anos 90? Sem falar na Espectro da Seda, que no lugar da “seda” ganhou uma roupa de látex... Quanto ao Dr. Manhattan, no quadrinho sua pele é azul, enquanto no filme ele ganhou uma versão mais “quântica” e irradiante (embora o que não combine mesmo, na minha opinião, seja sua vozinha inexpressiva).

Pouco depois de Watchmen ser lançada, já se falava numa adaptação cinematográfica. Como se sabe, o diretor Terry Gilliam havia sido a escolha inicial, mas acabou desistindo do projeto, que declarou ser “infilmável”. E a verdade é que a HQ de Moore e Gibbons é mesmo intransponível para o cinema de hoje, se tivermos como expectativa uma adaptação fidedigna. Talvez algo como uma minissérie da tevê pudesse alcançar um resultado mais próximo da complexidade e da atmosfera nostálgica e realista da história em quadrinhos. Ou ao menos uma produção cinematográfica com uma duração bem maior e menos concessões aos gostos contemporâneos. Em resumo, Watchmen – O Filme poderia ter sido muito pior (lembremos de A Liga Extraordinária!), mas também poderia ter sido algo bem melhor.

Falando em interfaces de Watchmen com outras linguagens, a HQ de Moore e Gibbons já tinha nos dado sua própria cota de citações e apropriações. Elementos tirados da História e das ciências desempenham um papel fundamental na composição de personagens e enredo. Isso sem falar nas pertinentes citações ao final dos capítulos, extraídas da Bíblia, de poemas, de músicas, entre outras fontes. Uma dessas citações foi até transposta para o filme, quando ouvimos Jimi Hendrix cantar sua versão da canção “All Along the Watchtower” de Bob Dylan. Por conta própria, o longa pega outras músicas emprestadas para compor algumas cenas, como “Times they are a-changin’” também de Dylan. Um caso bem diferente foi a inserção da solene “Hallelujah” de Leonard Cohen numa cena de sexo quase explícito (algo que soou, no mínimo, como uma piada de mau gosto).

Não posso deixar de falar das “adaptações“ não-oficiais de Watchmen, ou em outras palavras dos filmes e séries que imitam e plagiam a HQ. Um caso óbvio é o longa de animação Os Incríveis, que copiou a idéia da lei que bane os super-heróis, além da cena em que aparecem recortes de jornal pendurados numa parede e uma estátua dourada de um herói aposentado sobre uma mesa (sem falar na referência ao herói que perdeu a vida quando sua capa agarrou em algo). Há ainda o seriado Heroes que derivou alguns de seus personagens dos poderes e da história do Dr. Manhattan. E há Lost que, em suas primeiras temporadas, imitou o capítulo 2 de Watchmen, com as imagens e composições de cena recorrentes que serviam de ligação entre o presente na ilha e os flashbacks dos personagens, além de todo o episódio protagonizado pelo personagem Desmond que plagia o capítulo 4 da minissérie de Moore e Gibbons (não faltando sequer a fotografia que liga o personagem à sua amada).

Enfim, Watchmen é uma obra-prima dos quadrinhos que não poderia escapar à atual onda de adaptações cinematográficas. Já o filme de Zack Snyder não é muito mais que um filme de super-heróis acima da média. Por sua vez, as imitações e plágios da obra de Moore e Gibbons só vêm atestar a originalidade e a importância dessa HQ, enquanto fenômeno cultural. Em todos os casos, o melhor mesmo é ficarmos com a obra original!

(Agradecimentos a Marília, pela companhia durante o filme e pela conversa depois, que enriqueceu esta postagem.)

11/03/2009

Watchmen, absolutamente!


Em 1985, com a ótima repercussão de público e crítica alcançada pela revista Swamp Thing, a DC Comics ansiava por novos trabalhos escritos por Alan Moore. Por sua vez, o roteirista inglês vinha há algum tempo pensando numa obra conceitual sobre os super-heróis, envolvendo um misterioso assassinato. Juntando a receptividade editorial com a criatividade autoral, surgiu a idéia de reformular os antigos personagens da Charlton Comics (cujos diretos de publicação a editora do Super-Homem havia adquirido recentemente). Nascia ali o que viria a ser Watchmen, minissérie em doze edições lançadas entre 1986 e 1987, graphic novel recordista de vendas e uma das melhores e certamente a mais complexa HQ de super-heróis já escrita.

A premissa básica da série era: como seria o mundo se os super-heróis existissem realmente (ou: como seriam os super-heróis se eles realmente existissem). Sua frase-tema: “Who watches the watchmen?” (“Quem vigia os vigilantes?”), tomada emprestado do autor romano Juvenal. O conceito agradou aos editores, mas eles temiam (com razão) que a abordagem realista proposta por Moore acabasse por inutilizar os personagens que pretendiam incorporar ao “Universo DC”. A solução encontrada foi relativamente simples: ao invés de lidar diretamente com os personagens da Charlton, um novo elenco de heróis seria criado pelo roteirista, em colaboração com o desenhista Dave Gibbons. Assim, no lugar do Pacificador entraria o Comediante, substituindo o Capitão Átomo viria o Dr. Manhattan, em vez do Besouro Azul surgiria o Coruja Noturna, enquanto o Questão daria vez a Rorschach.

Porém, mais que mascarar os antigos personagens sob novos nomes e feições, os autores evidenciaram seus elementos mais estruturais, trazendo à tona o que os ligava a outros super-heróis mais conhecidos. Não é à toa, portanto, que podemos ver no Comediante e no Dr. Manhattan as contrapartes do Super-Homem (de um lado o soldado a serviço do governo norte-americano e do outro o herói sobre-humano, virtualmente onipotente). Da mesma forma, encontramos no Coruja Noturna e no Rorschach as facetas do Batman (o combatente do crime fantasiado e cheio de aparatos tecnológicos, em contraposição ao detetive traumatizado e psicótico, violento e de convicções quase fascistas). Uma pista para essa duplicidade é o fato de esses personagens aparecerem atuando em duplas (Comediante com Manhattan, Coruja com Rorschach). Mas Watchmen é muito mais que a desconstrução de antigos super-heróis!

Dividida em capítulos de 28 ou 32 páginas com citações pertinentes ao final, acompanhados de textos que simulam trechos de livros, reportagens e relatórios, a série traz nas capas detalhes ampliados do primeiro quadro de cada capítulo, enquanto as contracapas mostram (edição após edição) um relógio que se aproxima das 12 horas, enquanto uma massa de sangue vem escorrendo até cobri-lo quase completamente. Com uma diagramação de página bastante regular (inspirada nas HQs de Steve Ditko, principal autor da Charlton), a obra de Moore e Gibbons alcança a complexidade de uma sinfonia, em suas múltiplas camadas significantes, simetrias e auto-referências, composições ressonantes e imagens recorrentes (inspiradas pela Teoria do Caos e seus fractais). Como criticaria mais tarde o próprio Alan Moore: “Watchmen é uma obra sobre sua própria estrutura”. Mas é mais que isso também!

A história começa em outubro de 1985, com o mundo à beira de um conflito nuclear entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética. Nas ruas de Nova York, crime e desesperança dividem espaço com carros elétricos e placas indicando abrigos antinucleares. Há quase uma década, uma lei federal proibiu a atividade dos heróis mascarados, enquanto o inescrupuloso comediante e o superpoderoso Dr. Manhattan continuam atuando a serviço do governo norte-americano. Nesse contexto, um assassinato aparentemente insignificante toma proporções de conspiração quando o detetive mascarado Rorschach descobre que a vítima era na verdade o Comediante. Essa é a trama apresentada no número 1 de Watchmen, narrado (ao estilo de um William Burroughs) através do diário de Rorschach, retratado como um anti-herói paranóico às voltas com uma investigação sobre um suposto complô para eliminar os heróis mascarados.

A partir daí, Moore e Gibbons vão nos apresentando aos demais personagens da série, como o milionário Adrian Veidt que havia atuado como o mascarado Ozymandias e Laurie Juspeczyk que substituíra sua mãe no papel da heroína Espectro da Seda. Aliás, duas gerações de heróis são apresentadas, na medida em que passado e presente se misturam em flashbacks que vão do fim dos anos 30 a meados dos anos 70. É assim que conhecemos, no número 2 da série, os heróis que formavam o grupo Minutemen, sabemos do envolvimento do Comediante e do Dr. Manhattan na Guerra do Vietnã e testemunhamos os protestos urbanos que levaram ao banimento dos vigilantes mascarados. Violência e política, conspirações e memórias vão se interligando e influenciando mutuamente numa história que parece cada vez mais intrincada, como os mecanismos do relógio sugerido em seu título e desenhado em suas capas.

O capítulo 3 adiciona mais uma camada significante à narrativa, quando comentários corriqueiros e situações cotidianas são sobrepostos e mesclados às cenas e narrações da fictícia revista em quadrinhos Contos do Cargueiro Negro (as velas do navio pirata ganham até mesmo a forma de um aviso antinuclear). Se os trechos do diário de Rorschach já haviam estabelecido um clima de desesperança, as páginas da revista de piratas, “lidas” por um jovem leitor, imprimem ainda mais angústia à nossa leitura. A mensagem é: o mundo está à beira do abismo e estamos todos ilhados e enterrados até o pescoço na luta individual pela sobrevivência. Embora uma visão pessimista da vida seja parte do Realismo enquanto gênero literário, a atmosfera niilista presente em alguns trechos de Watchmen tem muito a ver com o contexto em que a HQ foi escrita, no qual o temor de um conflito nuclear entre EUA e URSS era algo palpável.

Na edição 4, o mundo avança em direção ao armagedom nuclear, depois que um emocionalmente acuado Dr. Manhattan deixou a Terra para ir morar em Marte. Mas o que verdadeiramente avança ali é a linguagem dos quadrinhos. Em linhas gerais, temos a história de origem de um personagem bastante interessante, contextualizada na cultura e política dos Estados Unidos dos anos 40 a 60. Mas o capítulo “Relojoeiro” vai muito além, revelando o trabalho de um autor capaz de integrar (como poucos em qualquer linguagem artística atualmente) estrutura e tema de maneira perfeitamente orgânica. Em outras palavras, um roteirista que nos apresenta a biografia de um super-herói quântico, por meio de uma concepção quântica do tempo (ou do fluxo narrativo), na qual passado, presente e futuro são percebidos simultaneamente. Enfim, uma HQ brilhante, que exemplifica o trabalho criativo-intelectual de um gênio da narrativa.

O número 5, com sua estrutura simétrica, acrescenta peças à trama, posicionando personagens e situações para futuros desdobramentos. Na edição 6, mergulhamos de cabeça num abismo existencial (de inspiração nietzschiana), quando descobrimos a origem secreta de Rorschach. O capítulo 7 abranda as coisas, mostrando Coruja Noturna e Espectro da Seda (heróis que herdaram a identidade de membros do Minutemen) num romântico vôo noturno. O número 8 traz um pouco de nostalgia, narrativas paralelas, uma fuga da prisão, alguns assassinatos e muito sangue. A edição 9 tem mais nostalgia (na forma do perfume que leva este nome) e uma reveladora conversa em Marte. O capítulo 10 desvenda que grande mente está por trás da trama conspiratória. No 11, chegamos a um clímax em que tudo é revelado. Já a edição 12 fecha a história, amarrando as pontas restantes, mas deixando uma última porta entreaberta.

Em termos visuais, Watchmen é um verdadeiro trabalho hercúleo e certamente a melhor obra de Dave Gibbons. Desenhar algumas dezenas de personagens, vários deles em diferentes idades ao longo da história, mantendo as identidades visuais marcantes e coerentes não é algo fácil. Desenhar o mesmo cenário de múltiplos ângulos ou variar, numa edição para outra, de um cruzamento em Nova York para as montanhas de Marte, sem perder o senso de ambientação, também não é uma tarefa simples. Aliadas a isso, temos as cores atmosféricas de John Higgins, que servem bem ao estilo cotidiano e realista dos desenhos. Sua melhor expressão está na recolorização feita para Absolute Watchmen, na qual os tons de cinza, roxo, marrom, carmim, magenta e laranja escolhidos pelo colorista colaboram para reforçar o clima lúgubre da HQ (e também contrastar as cores primárias do smiley, do Dr. Manhattan e do sangue).

Como toda obra, Watchmen tem seus altos e baixos (perdendo um pouco da força e originalidade a partir do capítulo 7), sem falar em alguns excessos (parte dos textos complementares é desnecessária e Contos do Cargueiro Negro não é exatamente indispensável à trama). Mas, com seu mundo em 360°, de um 1985 no qual Richard Nixon é o presidente dos Estados Unidos e os heróis mascarados envelhecem e têm vida sexual, essa HQ dissecou e reinventou os super-heróis, dando-lhes um contexto político e uma profundidade psicológica. Junto com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a obra de Moore e Gibbons levou às últimas (e contraditórias) consequências a idéia da recriação realista (?) dos super-heróis. Por isso mesmo, na época do lançamento da série, ao ouvir a afirmação de que ele e Miller haviam salvado os super-heróis, Moore retrucou que, na verdade, o que eles tinham feito era “um trabalho de assassinato”.

De fato, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, uma onda de quadrinhos de super-heróis mais sombrios e violentos tomou conta do mercado norte-americano. Repletos de sangue, psicologia barata e textos pretensamente literários, os imitadores de Miller e Moore contribuíram para quase enterrar de vez os aventureiros mascarados. Após o lançamento de Watchmen (e a conclusão de Miracleman), Moore havia jurado jamais escrever uma nova HQ de super-heróis. Porém, no início dos anos 90, enfrentando problemas financeiros e desgostoso do impacto negativo que sua obra acabara tendo (principalmente devido aos imitadores que tentaram reproduzir seu estilo), o roteirista retornou ao gênero que o consagrara. Além de se recuperar financeiramente, seu objetivo então era resgatar o brilho e a ingenuidade dos antigos super-heróis, o que ele tentou realizar com as séries 1963 e Supremo.

A qualidade e a importância de Watchmen são inegáveis. Homenageada, premiada, parodiada e copiada, essa complexa obra colaborou para expandir as possibilidades e o repertório da linguagem das HQs. Sua absolute edition (com estojo, capa-dura, sobrecapa, tamanho estendido, impressão de alta qualidade e galeria de extras) apenas atesta seu prestígio editorial (sem falar no valor de mercado, que se multiplicou com a adaptação cinematográfica que acaba de estrear). E é interessante notar que, embora tenha ganhado o prêmio Hugo de ficção científica, Watchmen está cada vez mais para um romance de época, devido à sua ambientação nos anos 80. Quando a li pela primeira vez há vinte anos, eu não tinha maturidade para compreendê-la completamente. Tendo acabo de relê-la agora para escrever esta resenha, fica a sensação de uma obra que resistiu bem à passagem do tempo, merecendo absolutamente o título de clássico!

(Para saber mais sobre os temas tratados aqui e ler uma entrevista exclusiva com Dave Gibbons, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

10/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte3.


Parte final de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchmen, explica tudo sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e também quais são seus novos e futuros projetos.

Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfonia: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e simetrias. As duas analogias nos dão a idéia de “um todo que é mais do que a soma de suas partes”. Mas, para o senhor, o que Watchmen representa?

Dave Gibbons: Sim, eu creio que, você sabe, no próprio livro nós fizemos analogias ao mecanismo do relógio (a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos internos de um relógio). Dito isto, eu sempre considerei a abordagem de Alan para a escrita um pouco tipo a abordagem de Mozart para a música, você sabe, ele vê a coisa toda em sua cabeça, ele tem a sinfonia toda em sua cabeça, com todas as partes, ele escreve muito detalhadamente. E então, enquanto desenhista, você essencialmente interpreta isso, você essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então... Sim, eu creio que essa é uma analogia muito boa, e eu acho que meio que a tomo como sendo o que Watchmen representa para mim, você sabe, qualquer coisa escrita, qualquer coisa conjunta, sempre acontece parte por parte, e só mesmo depois de tudo acabado é que você pode se reclinar e admirar a paisagem. Então, ahn... Sim! É uma sinfonia, é um mecanismo de relógio.

WS: O senhor acaba de lançar Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Por favor, fale-nos desse livro.

DG: Bem, como eu disse, ele foi publicado pela Titan, tem 257 páginas, traz um monte de esboços, os rascunhos para as páginas da série inteira, traz páginas do roteiro de Alan, cartas que trocamos, traz cartas para a DC, traz fotos da divulgação [da série original], traz páginas não-publicadas, traz estudos que nunca utilizamos, traz esquematizações e planos, e também traz um comentário escrito por mim (ah, minha história de como Watchmen veio a existir, desde bem no início). Ahn, ele também traz um ensaio muito interessante de John Higgins, sobre como ele a coloriu. E [o livro] é exclusivamente sobre a revista em quadrinhos, ele não faz qualquer menção sobre... ah... o filme ou qualquer coisa relacionado a isso. Eu queria que ele fosse uma celebração da, você sabe, experiência criativa que Alan e eu tivemos, que foi uma experiência criativa muito positiva e agradável. Ele não se detém nas áreas da... ah... contenda ou disputas entre Alan e a DC Comics, porque não se trata desse tipo de livro (você sabe, um livro assim pode muito bem aparecer no futuro, [mas] é um outro livro). Realmente, é uma muito detalhada e muito densa celebração de como foi criar Watchmen.

WS: Um amigo me trouxe dos Estados Unidos seu pôster promocional para o filme Watchmen. Logo, acredito que o senhor está feliz com essa adaptação da HQ. Quais são suas expectativas para o filme?

DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, desde minha primeiríssima conversa com Zack Snyder eu tive uma boa sensação sobre ela. E certamente cada nova coisa que vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi metade das cenas do filme em agosto, e eu gostei demais (não estava acabado, muito da computação gráfica não estava pronto, mas foi absolutamente envolvente e fascinante). Desde então, eu vi... ah... ambos os trailers e vi os vinte e cinco minutos mais ou menos de cenas que Zack mostrou aos jornalistas, e estou tomando parte da “turnê” de Watchmen e… Sim, eu sinto que foi feito devidamente, que foi feito tão bem quanto qualquer um poderia razoavelmente esperar. Ahn, e... eu estou realmente aguardando para vê-lo nos cinemas e ver como todos reagirão a ele. Eu tenho a sensação de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. É claro que há aqueles fãs empedernidos, absolutamente radicais (que eu compreendo) para os quais nada a não ser uma adaptação palavra por palavra, imagem por imagem, linha por linha, jamais agradará. Creio [porém] que você precisa ser um pouco mais realista quanto a isso. No final das contas, creio que é preciso ter algo que seja um bom filme, algo que o espectador de cinema mediano considere que valha a pena ir assistir.

WS: Recentemente, o senhor terminou a saga de Martha Washington, escrita por Frank Miller, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são seus planos para 2009 e o futuro próximo?

DG: Bem, no que diz respeito a Martha Washington, nós vamos reunir tudo num formato estendido, com mais de 500 páginas, será uma edição definitiva e trará novas introduções escritas por Frank e por mim, e eu espero que traga toda e qualquer aparição de Martha. Porque as aparições dela foram relevantes esparsadamente, nós queremos reunir tudo de forma que os leitores possam ler tudo num só lugar. Eu recentemente fiz uma HQ curta de Hellblazer para a DC, a qual eu escrevi [e que será publicada este mês, na edição especial n°250 da revista de John Constantine] (um personagem que estranhamente me agrada). Ahn... Realmente agora meu tempo está tomado pela promoção de Watchmen, pelo licenciamento, consultoria. Ahn, eu espero trabalhar num projeto de direitos autorais reservados no ano que vem, com um roteirista com o qual eu nunca trabalhei antes (não posso realmente dizer mais nada sobre isso, porque obviamente simplesmente não me cabe definir como isso será anunciado). Mas, sim, eu estou mesmo é curtindo a "turnê" do circo Watchmen e esperando o filme ser lançado e, algum tempo depois, voltar a fazer algum trabalho honesto.

WS: Muito obrigado por esta entrevista!

DG: Muito obrigado por seu interesse e saudações para meus fãs e amigos aí na América do Sul!

08/12/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part3.


Last part of our interview and Dave Gibbons talks a little bit more about Watchmen, tells us about his new book, says what he thinks of the movie adaptation and also which are his new and future projects.

Wellington Srbek: I use the analogy of Watchmen being similar to a Swiss watch: a construct of hundreds and hundreds of tiny pieces that come together to form a working machinery. There’s also the analogy of Watchmen being similar to a symphony: a complex structure, composed by various movements with lots of echoes and symmetries. Both analogies give the idea of “a whole that is more than the sum of its parts”. But for you, Mr. Gibbons, what Watchmen represents?

Dave Gibbons: Yeah, I think, you know, even within the book we have made analogies to clockwork -- the form of Doctor Manhattan’s palace is like the internal works of a clock. That said, I’ve always considered Alan’s approach to writing to be a little bit like kind of Mozart’s approach to music, you know, he sees the whole thing in his head, he has the whole symphony in his head with all the parts, he writes down in great detail. And then, as an artist, you essentially interpret that, you essentially are the orchestra, you are the conductor. And so… Yeah, I think that’s a very good analogy, and I think I kind go along with that been what Watchmen represents to me, you know, any writing thing, any joint thing, always happens piece by piece, and it’s not really until be done the whole thing that you can sit back and see, see the landscape. So, ahn… Yeah! Is a symphony, is a clockwork.

WS: You’ve just released Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Please, tell us about this book.

DG: Well, as I said it is published by Titan Books, it is 257 pages, it’s got loads of sketches, the real thumbnails for the whole series, it’s got pages of Alan’s script, it’s got letters between us, it’s got letters for DC, it’s got pictures of the merchandize, it’s got unpublished pages, it’s got designs that we never used, it’s got schematics and plans, and it’s also got a commentary by me -- ah, my story of how Watchmen came to be, from its very, very beginning. Ahn, it’s also got a very interesting essay by John Higgins about how he colored it. And it is solely about the comic book, it doesn’t make any mention of… ah… the movie or anything to do with that. I wanted it to be a celebration of, you know, the creative experience Alan and I had, which was a very positive and enjoyable creative experience. It doesn’t strands in the areas of the… ah… contention or disputes between Alan and DC Comics, because it is not that kind of book -- you know, that might well appear in the future, it is another book. Really, it is a very detailed, very dense celebration of what it was like to create Watchmen.

WS: A friend brought me from the USA your promotional poster to the Watchmen movie. So, I believe that you are happy with this adaptation of the book. What are your expectations about the movie?

DG: Yeah, I’m happy with the adaptation. From the very beginning, from my very first conversation with Zack Snyder I had a good felling about it. And certainly every additional thing that I’ve seen has only made me feel better. I saw half-cut of the movie back in August, which I totally enjoyed -- wasn’t finished, a lot of the CGI wasn’t done but it was absolutely engrossing and fascinating. Since then I’ve seen… ah… both the trailers, and I’ve seen the 25 minutes or so of scenes that Zack has shown to journalists, and I’m taking part in the Watchmen road show, and… Yeah, I feel that it’s been done properly, it’s been done as well as anybody could reasonably expect. Ahn, and… I’m very much looking forward to seeing it out there in the cinemas, and gain everybody’s reaction to it. I have a feeling that the fans are gonna be very happy with it. Of course there are those absolute diehard heart fans -- I understand that -- for whom nothing but actually word for word, picture for picture, line for line adaptation would ever do. I think you have to be a little bit more realistic about it. In the end of the day, I think you have to have something which is a good film, something that the average movie goer will consider worth going to see.

WS: Recently you have finished the Martha Washington saga written by Frank Miller, besides written and drawn some Green Lantern Corps issues. What are your plans for 2009 and the near future?

DG: Well, on the section of Martha Washington we are gonna collect all together into one big oversized book, it will be 500 pages plus, and it will be absolute size, and it will have new introductions by Frank and by me, and it will have hopefully every possible appearance of Martha. Because her appearances have been relevant scatterly, we wanna bring it all together so that readers could read it all in one place. I’ve recently done a little Hellblazer story for DC, which I wrote -- character that I strangely enjoy. Ahn… Really now my time is taken on the Watchmen promotion, and licensing, consultancy. Ahn, I hope to be working on a creator owned project next year with a writer that I haven’t worked with before -- can’t really say any more than that, because obviously it is not just up to me how this is announced. But, yeah, I’m very much enjoying the Watchmen road show circus, and looking forward to the movie coming out, and sometime after that going back to do some honest work.

WS: Thanks a lot for this interview, Mr. Gibbons!

DG: Thanks very much for your interest, and greetings to my fans and friends out there in South-America!

05/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte2.


Parte2 de nossa entrevista e Dave Gibbons explica como surgiu a obra-prima Watchmen, como foi sua abordagem do descomunal roteiro de Alan Moore e também seus principais desafios ao criar um trabalho tão extenso e sempre visualmente coerente.

Wellington Srbek: “Chronocops” para a 2000 AD e “For the man who has everything” para o anual de 1985 do Super-Homem são duas de minhas parcerias Moore/Gibbons favoritas...

Dave Gibbons: Minhas também.

WS: Todavia, nada que se compare à obra-prima Watchmen, que foi um “salto quântico” na qualidade e complexidade do trabalho que vocês estavam fazendo então. Como e quando o projeto surgiu?

DG: É meio uma longa história. Eu na verdade escrevi um livro intitulado Watching the Watchmen (publicado pela Titan, a qual não sei se tem planos para uma edição brasileira, embora o livro conte a história completa). Alan e eu nos encontramos numa convenção em 1980, nos anos seguintes nos tornamos amigos e trabalhamos juntos em histórias curtas para a 2000 AD, que culminaram em “Chronocops”. Ahn... Nós realmente queríamos trabalhar juntos em algo mais longo, que foi o motivo pelo qual escrevemos para a DC as propostas [de reformulação] de Desafiadores do Desconhecido e Ajax o Marciano, mas nada disso veio à luz, porque os personagens já tinham sido prometidos a outros escritores e desenhistas. Então, você sabe, quando tivemos a chance de trabalhar em algo maior, nós pulamos sobre ela. E Alan sempre gostou de contar às pessoas sobre as histórias nas quais ele estava trabalhando, mesmo antes de tê-las começado. Ele tende a planejar as coisas em grande detalhe antes de começar. Ele costumava me contar sobre coisas em que estava trabalhando com outras pessoas. Mas eu, na verdade, soube de Watchmen através de um amigo mútuo, um cara chamado Michael Colins (se me lembro bem), ah, que disse: “Oh, você ouviu falar que Alan está trabalhando num projeto que vai tratar os personagens da Charlton para a DC?”. Eu liguei imediatamente para Alan, ele me enviou a sinopse, e eu realmente gostei dela e disse que gostaria de desenhar o projeto, e ele disse: “Ótimo!”. Umas duas semanas depois disso, eu fui aos Estados Unidos e numa convenção me reuni com Dick Giordano, que era o editor administrativo da DC, e eu disse: “Sabe esse projeto que Alan está fazendo com os personagens da Charlton, eu realmente gostaria de desenhá-lo”. E Dick disse: “O que Alan acha disso?”. E eu disse: “Ele quer que eu desenhe”. E Dick disse: “É seu!”. Então, foi bem assim que o projeto surgiu.

WS: Olhando as páginas de roteiro ao final de Absolute Watchmen, parece-me que você desenvolveu um sistema para trabalhar com Alan Moore, marcando seu texto com diferentes cores (amarelo para a informação visual principal, vermelho para detalhes e azul para o diálogo). Enfim, qual foi sua abordagem desse roteiro?

DG: Bem, os roteiros do Alan são sempre muito “palavrosos”, muito “conversativos”, tratando muito de te dar opções, falando em torno do objeto e, você sabe, dando a você provavelmente mais informação do que você realmente poderá usar. Assim, uma das coisas que você tem que fazer é assumir o controle do roteiro e tirar dele o que você precisa para desenhá-lo da forma como você o vê. Assim, eu achei que o sublinhamento era uma maneira muito boa de fazer isso. E também, após umas duas leituras, eu gosto de fazer esboços reduzidos das páginas, o que significava então que eu podia transferi-los para a prancha de desenho e eu podia fazer o letreramento dos diálogos. Eu estava então suficientemente familiarizado com a história, e eu provavelmente não tinha que olhar para o roteiro de novo, eu não precisava ler três dúzias de páginas para descobrir o que eu tinha que desenhar. Então, sim, de muitas maneiras minha parte era a de fazer uma seleção.

WS: Watchmen é uma complexa revista em quadrinhos de super-heróis realística, um premiado trabalho que muitos consideram a melhor graphic novel já criada. Minha pergunta é: qual foi seu principal desafio ao criar esse quadrinho?

DG: Ahn... Bem, eu suponho que seja o desafio que como um artista de quadrinhos você sempre tem, que é contar a história em imagens. E neste caso era uma história muito detalhada, muito complexa, muito rica, com várias nuances, que requeria que personagens fossem desenhados em diferentes idades, em diferentes locais. Assim, ele realmente testou minhas habilidades de desenho, minha capacidade de apresentar personagens consistentemente críveis, minha simetria de fundo, a dimensão do real. Foi realmente, você sabe, apenas uma versão exagerada dos desafios que se tem em qualquer outro trabalho.

WS: Lendo Watchmen do início ao fim nós temos essa sensação de uma realidade completa em 360°. O senhor, é claro, é um desenhista muito habilidoso, mas é admirável como as mais de 400 páginas da HQ têm sempre esse visual coerente, com as sugestivas cores feitas por John Higgins. Como o senhor fez para alcançar tal coerência num trabalho tão extenso?

DG: Bem, novamente é como a resposta para a última questão. O que desenhar quadrinhos realmente se trata é de alcançar coerência, fazendo coisas consistentes, e nunca arrancando o leitor da história por ter desenhado algo que não encaixa. Ou seja, eu fiz... Novamente, em meu livro Watching the Watchmen você pode ver diagramas, planos, esquematizações de coisas (como o vidro de perfume voando pelo ar, após Lauren tê-lo lançado em Marte, [esquematização que fiz] para ter certeza de que o movimento estava consistente e que ele se movia crivelmente contra o fundo fixo de estrelas). Provavelmente, esse é um trabalho que ninguém irá notar, todavia é algo que num nível subliminar dá aquela sensação de que um lugar realmente existe ou de que algo realmente aconteceu. Havia uma série de quadrinhos chamada Dan Dare (uma série de ficção científica), para a qual eles na verdade tinham o tempo e o orçamento para construir modelos e tudo mais, e quando você a lia, você realmente sentia que estava vendo algo desenhado do real, você sabe, que aquelas coisas incríveis tinham sido desenhadas do real. E embora eu tenha desenhado Watchmen de uma forma estilizada, eu queria que ele tivesse aquele sentimento de consistência interna. E, você sabe, quando está desenhando quadrinhos, de qualquer maneira você já traduz realidade em código e, na minha forma de pensar, os melhores artistas de quadrinhos são gente como Jack Kirby ou Steve Ditko, que claramente não desenham de forma realística, mas que têm um código consistente para interpretar a realidade. Assim, esse é o tipo de coisa que eu tentei fazer quando desenhei Watchmen. E, como você diz, as cores de John Higgins são fantásticas, e certamente ele teve muito trabalho para mantê-las consistentes e bem de acordo com o que acontecia na revista... na história, melhor dizendo. Às vezes, você sabe, ele já tinha colorido algo, antes de perceber que devia ter sido colorido de outra maneira. Mas, felizmente, ele pôde cuidar dessas questões na Absolute Edition, fazendo a colorização enfim completamente consistente.

A seguir: mecanismos, sinfonias, filmes e mais...

03/12/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part2.


Part2 of our exclusive interview and Dave Gibbons explains how the masterpiece Watchmen was born, what was his approach to Alan Moore’s massive script, and also his main challenges creating such a length and coherent artwork.

Wellington Srbek: “Chronocops” for 2000 AD and “For the man who has everything” for the 1985 Superman Annual are two of my favorite Moore/Gibbons collaborations...

Dave Gibbons: Mine too.

WS: Nevertheless, nothing can be compared to your masterpiece Watchmen. It was a “quantum leap” in the quality and complexity of the work you were doing then. How and when the project was born?

DG: Is kind of a long story. I have actually written a book called Watching the Watchmen -- which is published by Titan, which I don’t know if has any plans for a Brazilian edition, although that tells you the complete story. Alan and I met in a convention in 1980, over the following years we become friends, and we worked on shorter stories for 2000 AD together, which have culminated in “Chronocops”. Ahn… We really wanted to do something longer together, which was why we wrote the proposals for the Challengers of the Unknown and Martian Manhunter for DC, but none of this ever came to fruition, because the characters have already been promised to other writers and artists. So, you know, when we got the chance of work on something bigger, we jumped at it. And Alan has always been happy to tell people the stories he was working on before he has even started. He tends to work things up in great detail before had -- he used tell me about things he was working with other people. But I actually learned about Watchmen from a mutual friend, a guy called Mike Collins -- to the best of my memory -- ah, who said: “Oh, have you heard that Alan is working on a thing that is gonna treat the Charlton characters for DC?” I immediately phoned Alan, and he sent me the synopses, and I really liked it, said I would like to draw it, and he said: “Great!” A couple weeks after that I went to the USA, and on a convention I met up with Dick Giordano, who was the managing editor of DC, and I said: “You know this thing Alan is doing with the Charlton characters, I really want to draw it.” And Dick said: “How does Alan feel about that?” And I said: “He wants me to draw it.” And Dick said: “It’s yours!” So, that was really how the project was born.

WS: Looking at the script pages in the end of the Absolute Edition, it seems to me that you’ve developed a system to work with Alan Moore, marking his text with different colors -- yellow for the main visual information, red for details and blue for the dialog. Anyway, what was your approach to the Watchmen script?

DG: Well, Alan’s scripts are always very wordy, very conversational, very much giving you options, very much talking around the subject, and, you know, giving you probably more information than you can ever actually use. So, one of the things you have to do is to take control of the script, and take from it what you need to draw it the way you see it. So, I found a highlighting was a very good way to do that. And also after a couple of readings I wanna do some thumbnail drawings, which meant by then I could transfer those to the finished art board, and I could letter in the dialog. And I was sufficient familiar with the story by then, I probably didn’t have to look at the script again, I didn’t have to read three dozens of pages to find out what I had to draw. So, yeah, in many ways my part was one of selection.

WS: Watchmen is a complex realistic super-hero comic book, a award-winning work that many people consider to be the best graphic novel ever created. My question is: what was your main challenge creating the book?

DG: Ahn… Well, I suppose it is the challenge, as a comic book artist, you always have, that is to tell the story in pictures. And in this case it was a very detailed, very complex, very rich story, with lots of nuance, and requiring characters to be draw in different ages, in different locals. So, it really tested my drawing skills, and my ability to pick characters consistently believable, my background symmetry, dimension of real. And really, you know, just an exaggerated version of what the challenges will be on any other book.

WS: Reading Watchmen cover to cover we have this feeling of a complete 360° reality. You are of course a very skilled artist, but it’s amazing how the 400 pages plus of the book have always this coherent look, with the moody colors by John Higgins. How did you manage to achieve that coherence in such length work?

DG: Well, again is like the answer to the last question. Really what drawing comics is about is achieving coherence, making things consistent, and never pulling the reader out of the story by drawing something that doesn’t fit. I mean, I did… Again, in my book Watching the Watchmen you can see diagrams, plans, schematics of things like the perfume bottle falling through the air -- after Lauren has thrown it on Mars -- to make sure that the movement was consistent, and that it moved believably against the fix background of stars. Probably not a work that anybody will notice, but nevertheless something that in a subliminal level it does give that feeling of somewhere that actually exists or something actually happened. There was a British comics called Dan Dare -- science-fiction strip -- where they actually had the time and the budget to build models and everything, and when you read that you really felt that you were seeing something drawn from life, you know these incredible things had been drawn from life. And although I drew Watchmen in a stylized way I wanted it to have that internally consistent feeling. And, you know, when you are drawing comics you are translating reality into code anyway, and to my way of thinking the best comic artists are people like Jack Kirby or Steve Ditko, who clearly don’t draw realistically, but who have a consistent code for interpreting reality. So, that is the kind of thing I tried to do when I drew Watchmen. And, as you say, John Higgins’ colors are amazing, and certainly he had a great trouble to keep those consistent, and very much relate to what was going on in the book… in the story rather. Sometimes, you know, he had already colored something, before he realized it had to be colored in a different way. But fortunately with the Absolute Edition he was able to address those concerns, and make the coloring finally completely consistent.

Next: clockwork, symphonies, movies and more...

01/02/2008

Heroes: o seriado que poderia ter sido.


Nesta sexta-feira, foi ao ar pelo Universal Channel mais um episódio da segunda temporada de Heroes. Grande sensação da tevê em 2007, a série criada por Tim Kring (com colaboração dos quadrinistas Tim Sale e Jeff Loeb) apresenta pessoas comuns que se descobrem dotadas de poderes sobre-humanos. Com elementos de ficção científica e HQs de super-heróis, bem como várias idéias “emprestadas” de outras criações, no início de sua primeira temporada Heroes prometia fazer história, mas talvez não passe de um bom exemplo de que um sucesso avassalador também pode fazer muito mal.

A série parte de uma ambientação cotidiana, com sequências passadas em cidades como Nova York e Tóquio, além de personagens coadjuvantes e figurantes que compõem um quadro verossímil da sociedade atual. É nesse contexto que surgem Hiro (um empolgado japonês com o poder de interferir no continuum espaço-temporal), Claire (uma garota capaz de se auto-regenerar rapidamente), Nathan (um político com o poder de voar), Isaac (um artista capaz de pintar e desenhar o futuro), Niki (uma bela mulher com dupla personalidade e força descomunal) e Peter (um jovem enfermeiro que assimila superpoderes). Os caminhos desses e de outros “heróis” acabam se cruzando quando eles se vêem diante da ameaça de Sylar (um misterioso assassino devorador de poderes) e de uma iminente explosão nuclear em Nova York (que marcará o desenrolar de toda a primeira temporada). O resultado: uma frase-tema marcante (“salve a líder de torcida, salve o mundo”), uma trama cativante (pelo menos até o episódio 11) e um enorme sucesso de público (que chamou a atenção do estúdio e dos canais responsáveis pela série).

Deve-se dizer que, desde o primeiro instante, a originalidade não foi uma das características mais fortes de Heroes. A começar pelo conceito de heróis que descobrem seus superpoderes após um evento astronômico e que não usam vestimentas coloridas (que eram as premissas básicas do “Novo Universo Marvel” lançado em meados dos anos 80, com seu “Evento Branco” e sua abordagem mais cotidiana dos super-heróis). Os dois primeiros filmes dos X-Men dirigidos por Brian Singer também tiveram um papel na estética de Heroes (sem falar no fato de terem provado que produções misturando vários atores e diversos superpoderes eram viáveis e rentáveis). Há ainda o fato de que muitos dos poderes e aspectos dos personagens parecerem reedições de heróis dos quadrinhos (sendo os casos mais evidentes o viajante do espaço-tempo, o homem-radioativo e o filho do relojoeiro, surgidos de características do Dr. Manhattan, criado por Alan Moore e Dave Gibbons em Watchmen). Ainda assim, Heroes (com sua trama de conspiração ao estilo Arquivo-X) logo conquistou a atenção do público, graças a alguns momentos inspirados e a seu melhor personagem: o carismático Hiro Nakamura (interpretado por Masi Oka).

Alguns momentos marcantes: a chegada de Hiro a Nova York (semelhante à cena do capítulo final de Watchmen em que Ozymandias comemora sua vitória); as sequências em que Hiro folheia a revista em quadrinhos que conta seu futuro (numa boa interação com as páginas desenhas por Tim Sale); a aparição do emblemático “Hiro do Futuro” (conceito retirado da HQ dos X-Men “Dias de um futuro esquecido”, produzida por Chris Claremont e John Byrne); e isso sem falar na que talvez seja a cena mais surpreendente, quando a personagem Claire “ressuscita” num necrotério e olha para o próprio tórax aberto numa autópsia recém-iniciada (ou como ela mesma exclama: “holly sh**!”). A cada episódio, a história ganhava novos elementos e o interesse do público ia aumentando, até o primeiro grande clímax da trama (ao final do episódio 11). O fato é que Heroes conquistou uma legião de fãs nos Estados Unidos, tornando-se um fenômeno internacional em 2007 e chamando a atenção dos executivos da tevê. E foi aí que as coisas começaram a dar errado, pois mais recursos financeiros e interferências externas acabaram por deturpar a série.

A chegada de atores mais experientes e conhecidos, como George Takei (Jornada nas Estrelas), Christopher Eccleston (Doctor Who) e Malcolm McDowell (Laranja Mecânica), marcou essa virada negativa da série. A partir do episódio 12, alterações, remendos, erros e furos no enredo passaram a ser mais constantes (culminando no enganoso episódio do futuro apocalíptico). Mais decepcionantes ainda foram as alterações no personagem Hiro, que (de um cara comum com um trabalho assalariado) passou a ser um aspirante a samurai com um pai milionário. Se não bastasse, o último episódio da primeira temporada foi uma decepção, não correspondendo à expectativa gerada (a luta entre Sylar e os demais “heróis” foi simplesmente uma bobagem).

Então, veio a segunda temporada, que podemos definir como uma mistura de Smallville e Lost com filme-B japonês e novela mexicana. Como dizem, “tem gosto pra tudo”; mas, na minha opinião, Heroes acabou sendo o seriado que poderia ter sido.