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16/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte2.


Segunda parte de nossa entrevista exclusiva, e David Lloyd fala sobre a criação e os significados da obra-prima V de Vingança, e também o que ele pensa da adaptação para o cinema produzida pelos irmãos Wachowski.

Wellington Srbek: É 1981 e o editor Dez Skinn está montando uma nova revista chamada Warrior. Você já tinha trabalhado para ele antes, e ele pede a você para criar uma nova série de aventura, similar a Night Raven. Então Alan Moore se junta ao projeto. Foi assim que V de Vingança nasceu, certo?

David Lloyd: Basicamente, sim. Dez inicialmente sugeriu que eu escrevesse e desenhasse a série - mas eu já tinha trabalhado com Alan em HQs do Doctor Who, gostei de trabalhar com ele e instintivamente sabia que podíamos criar algo muito bom se trabalhássemos em parceria. Alan já estava a bordo da Warrior com seu projeto de estimação de atualizar o Marvelman. V acabou se tornando uma combinação de dois conceitos que tínhamos bolado independentemente, mas que não tínhamos utilizado - um sobre uma guerrilha urbana feminina numa futura Inglaterra fascista, e outro sobre um assassino em série estranhamente vestido. O resultado final veio depois de muito brainstorm.

WS: A Inglaterra tem uma longa tradição em artes gráficas associadas à crítica política, desde um mestre como William Hogarth e um gênio como James Gillray a publicações como The Punch. Você vê V de Vingança como parte dessa tradição?

DL: Sim, certamente. Embora eu ache que a sutileza de V a tire da área da caricatura na qual a maioria da sátira política opera. Eu acho que o filme se aproxima mais daquele estilo de coisa, porque ele conta sua história em pinceladas bem mais amplas e com figuras menos complexas do que usamos na HQ. Na verdade, quando vi o filme pela primeira vez, eu disse ao Andy Wachowski que achava o filme semelhante a um cartum político colocado na telona. E isso faz do filme algo ainda mais forte.

WS: No que diz respeito ao design de personagem, V funciona como um jogo visual: amigo e inimigo, masculino e feminino, satírico e letal, histórico e moderno. Como você chegou a esse conceito visual, a esse enigma que sempre traz a questão: quem é V?

DL: Um acidente. Uma boa dose de sorte. A idéia de o personagem adotar a vestimenta e persona de Guy Fawkes deu-nos aquela ambiguidade por pura sorte. Muitas coisas ótimas no processo de criação surgem de acidentes, e não de planejamento: é o inesperado que dá aquela fagulha extra de vida a algo que, de outra maneira, seria relativamente comum. O ponto básico do personagem é que ele seria um revolucionário e um anarquista - e então um outro ponto era que ele teria algo de flamboyant ou teatral. Guy Fawkes foi um famoso anarquista na história [envolvido numa malsucedida tentativa de explodir o Prédio do Parlamento, no dia 5 de novembro de 1605], alguém com quem todos na Inglaterra estavam familiarizados. Pareceu-nos uma ótima idéia se um novo criador do caos ressuscitasse o espírito de Fawkes, bem como suas intenções! E foi assim que aconteceu.

WS: V de Vingança é sem dúvida um trabalho revolucionário. O tema do anarquismo versus fascismo e a narrativa envolvente eram então muito novos nos quadrinhos de aventura. Além disso, os desenhos mostram um senso de profundidade e textura ausentes na maioria dos quadrinhos das grandes editoras. Contudo, V quase ficou incompleto!

DL: Não estou muito certo de qual é a pergunta, mas sim, a HQ ficou no limbo por um tempo quando a Warrior fechou. Você está certo em dizer que ela era bastante não-convencional para a época, mas V tinha criado uma reputação para si mesma nos anos que foi publicada, assim ela teria encontrado um novo editor se tivemos nos esforçado bastante para achar um. Acho que a necessidade de seguir em frente fazendo algum dinheiro e construindo nossas carreiras impediu-nos de buscar isso. Mas então, quando Alan alcançou seu grande sucesso na DC Comics, eles estavam bem felizes em continuar qualquer coisa em que ele estivesse envolvido, e eles sabiam sobre V, assim ficaram felizes em pegá-la e continuá-la.

WS: Comercialmente, o uso das cores e do formato comic book são as escolhas certas para o mercado norte-americano. Mas tenho que confessar que prefiro V de Vingança em P&B e no formato magazine da Warrior. A luz é muito bonita e os detalhes do desenho mais fortes. Você não sente que algo se perdeu?

DL: P&B é puro e simples - logo ele é universal em seu apelo. Por outro lado, as cores podem ser atrativas ou não atrativas, pois pessoas têm cores favoritas. Alguns preferem azul. Outros odeiam verde. Há até mesmo superstições sobre cores! Assim, em termos estéticos, as cores vão ser sempre mais problemáticas que o P&B. Para mim, o único problema com as cores em V é que desde o início na DC nós não conseguimos os melhores resultados de impressão, e eu fui ingênuo em esperar mais do que conseguimos. Apenas nas edições mais recentes em capa-dura, nos Estados Unidos, Escandinávia e Alemanha, isso foi remediado, porque tive a oportunidade de alterar as cores para os valores tonais e consistência que elas deveriam ter. Assim, essas são as edições definitivas. Acredite, tudo teria sido diferente se tivéssemos na época o que temos agora - colorização por computador, uma tecnologia muito melhor e uma postura em relação aos quadrinhos bem mais esclarecida por parte dos impressores. Mas o que quer que se pense sobre isso, no entanto, as cores conquistaram para V um público bem mais amplo do que ela teria - e sem uma grande perda para seu valor artístico. Eu acho que isso justifica seu uso.

WS: E quanto à produção de Hollywood? Ela faz jus a seu trabalho e ao de Alan Moore?

DL: É uma boa versão da história original. Não é perfeita, mas não tenho nada a fazer senão felicitar os Wachowskis, James McTeigue, Joe Silver e todos os demais envolvidos com a produção. Eles fizeram um ótimo trabalho ali - e assim espalharam a mensagem essencial contida no original. Mas o quadrinho, é claro, é melhor.

A seguir: David Lloyd fala de sua nova graphic novel, que será lançada no Brasil em 2008.

Various virtues: an interview with David Lloyd, part2.


In second part of our exclusive interview, David Lloyd talks about the creation and meanings of the masterpiece V for Vendetta, and also what he thinks about the Wachowskis Brothers’ movie adaptation.

Wellington Srbek: It is 1981 and editor Dez Skinn is putting together a new magazine named Warrior. You had worked with him before, and he asks you to create a new adventure strip similar to Night Raven. Then Alan Moore joined the project. This is how V for Vendetta came to life, right?

David Lloyd: Basically, yes. Dez originally suggested I write and draw it - but I'd worked with Alan on the Dr Who stuff, enjoyed working with him, and I knew instinctively we could come up with something great if we worked on it together. Alan was already on board Warrior with his pet project to update Marvelman. V turned out to be a combination of two concepts we'd created individually but neither of us had sold - one about a female urban guerilla in a future fascist England, and one about a strangely garbed serial killer. The final thing came out of a lot of brainstorming.

WS: England has a long tradition in graphic arts associated with political commentary, from a master like William Hogarth and a genius like James Gillray to publications like The Punch. Do you see V for Vendetta as part of that tradition?

DL: Yes, absolutely. Though I think the subtlety of V overall takes it out of the area of caricature which most political lampoons operate in. I think the movie gets closer to that style of thing, because it tells it's story in much broader brushstrokes and with less complex figures than we used in the book. Actually, when I saw it for the first time, I told Andy Wachowski that I thought it was very much like a political cartoon that they'd put on the screen. And it was all the more powerful for that.

WS: Considering character design, V works as a visual puzzle: friend and foe, male and female, satirical and lethal, historical and modern. How did you come up with that visual concept, this enigma that always holds the question: who is V?

DL: An accident. A good piece of luck. The idea of having the character adopt the dress and persona of Guy Fawkes gave us that ambiguity by simple good fortune. A lot of great things in creativity come out of accident, not planning: it's the unexpected that gives that extra spark of life to something that could otherwise be relatively ordinary. The basic requirement of the character was that he was a revolutionary and an anarchist - and then another requirement was that he be flamboyant or theatrical in some manner. Guy Fawkes was a famous anarchist in history, who everyone in England was familiar with. It seemed a great idea to us to have a new creator of chaos resurrect the spirit of Fawkes as well as his intentions! So that's how it happened.

WS: V for Vendetta is a revolutionary work, no doubt. The theme of anarchism versus fascism and the atmospheric storytelling were very new to adventure comics then. Also your artwork shows a peculiar sense of depth and texture that lacks in much of mainstream comics. But it almost stayed incomplete!

DL: Not sure what your question is, but yes, it hung around for a while in limbo when Warrior folded. You're right in saying it was quite unconventional for the time, but it had created a reputation for itself over the years it ran, so it would have found a new publisher if we'd looked hard enough for one. I think the need to just get on with earning some money and building our careers stopped us doing that. But then, when Alan achieved his great success at DC Comics, they were very happy to continue anything he'd been involved with, and they knew about V, so they were happy to take it up and continue it.

WS: Commercially, colours and comic book format are the right choices for the American market. But I have to confess that I prefer V for Vendetta in that B/W magazine format of Warrior. The light is beautiful and the artwork details are stronger. Don't you feel that something has been lost?

DL: B/W is pure and simple - so it's universal in it's appeal. On the other hand, colour can be appealing or non-appealing because people have favourite colours. Some prefer blue. Others hate green. There are even superstitions about colours! So, in aesthetic terms, colour will always be more problematic to use than b/w. For me the only problem with the colour of V was that from it's beginning at DC we didn't get the best results from the printers, and I was naive in expecting more than we got. Only in the latest hardback editions of V in the US, Scandinavia and Germany has this been remedied, because I was given the opportunity to tweak the colours to the tonal values and consistency they were meant to have. So those editions are the definitive ones. Believe me it would all have been different if we'd had then what we have now - computer colouring, better technology and much more enlightened attitudes towards comics from printers. Whatever you think about it generally though, colour gained for V a much wider audience than it would otherwise have acquired - and at no major loss to it's artistic value. I think that justifies its use.

WS: What about the Hollywood production? Does it make justice to yours and Alan's work?

DL: It's a good version of the original story. It isn't perfect, but I have nothing but praise for the Wachowskis, James McTeigue, Joel Silver, and everyone else involved with the production. They did a great job of it - and doing so spread the essential message that was contained in the original. But the book, of course, is better.

Next: some words about the present and future.

17/11/2007

Warrior: 25 anos de uma revista definitiva.


Em março de 1982, era lançada na Grã-Bretanha a Warrior. Talvez você nunca tenha ouvido falar dessa revista, mas o fato é que com ela teve início uma revolução qualitativa que influenciaria os rumos dos quadrinhos ocidentais nas últimas décadas. Para ilustrar esta afirmação, basta dizer que foram nas páginas da Warrior que estrearam as séries Marvelman (Miracleman) e V for Vendetta (V de Vingança), duas das mais importantes e inovadoras criações de Alan Moore.

A Warrior foi uma cria do editor inglês Dez Skinn, que fizera carreira editando revistas para a sucursal britânica da Marvel, como a Doctor Who Weekly que trazia HQs, bastidores e curiosidades sobre uma popular série da tevê britânica (cuja versão mais recente vem sendo exibida no Brasil desde 2006 pelo canal a cabo People & Arts). Seguindo o padrão britânico, sua nova revista de antologia era publicada em preto & branco, formato magazine (21cm x 30cm), e trazia séries divididas em capítulos de cinco a oito páginas. Na introdução para o número de estréia, o editor propunha: “Se a Warrior representa um progresso na evolução das revistas em quadrinhos britânicas, apenas você [leitor] pode decidir, mas nós definitivamente sentimos que é nosso primeiro passo na estrada da liberdade”.

A liberdade criativa a que se referia Skinn tinha como correlato a manutenção pelos autores de boa parte dos direitos autorais sobre personagens e histórias. Com isso, roteiristas e desenhistas sentiam-se motivados a produzir seus melhores trabalhos, pois estes continuariam a lhes pertencer parcialmente (diferente do que acontecia, por exemplo, com as HQs publicadas na popular e bem-sucedida 2000 AD). Após dez meses de preparativos e ensaios, a Warrior chegou aos pontos de venda com uma incomum mistura de terror, aventura, suspense, ficção científica e super-heróis. E Skinn parecia até antever o efeito que sua publicação teria: “Enquanto as grandes editoras de quadrinhos parecem estar num período de regressão criativa [algo não muito diferente de hoje], nós esperamos que nossa tentativa, nossa pequena revista num mar de outras, acenda bastante interesse para fazer as coisas caminharem de novo”.

Os destaques da primeira edição? Uma bem-bolada HQ de duas páginas criada por Dave Gibbons, uma história medieval desenhada por John Bolton, um anúncio publicitário ilustrado por Brian Bolland e, é claro, as estréias de V for Vendetta com desenhos de David Lloyd e de Marvelman com desenhos de Garry Leach (esta última acompanhada de um texto sobre a trajetória editorial deste que foi o primeiro super-herói britânico). Embora Skinn afirme que o objetivo era “acertar logo de primeira”, a Warrior foi mesmo tomando forma definitiva nas edições seguintes, com o surgimento de novos personagens e substituições de artistas (em especial a entrada de Alan Davis como desenhista de Marvelman, no lugar de Garry Leach que iria desenhar a HQ “Warpsmith: cold war, cold warrior”, capa do número 10).

O auge da Warrior veio com o número 11, que trazia os capítulos finais do "Volume I" de V for Vendetta e do "Livro Um" de Marvelman. Na edição seguinte, a capa marca a estréia de uma nova série escrita por Alan Moore: The Bojeffries Saga (uma versão bastante cáustica de A Família Addams) com desenhos de Steve Parkhouse. Esse número 12 trouxe ainda a HQ "Young Marvelman: 1957", um roteiro de Moore desenhado por John Ridgway, e o capítulo “This Vicious Cabaret” em que o enigmático V canta e toca piano. Já na Warrior n°16 uma atração especial para o Natal de 1983: a HQ “Christmas on Depravity", desenhada por Curt Vile (pseudônimo de Alan Moore) e escrita por Pedro Henry (pseudônimo de seu amigo Steve Moore). Mas, naquele mesmo ano em que a revista firmava sua proposta e começava a conquistar prêmios, seus maiores problemas começaram.

Com o sucesso da versão criada por Alan Moore, Dez Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe do criador do personagem, Mike Anglo. Contudo, a Marvel Comics (que se considera a dona da palavra “marvel” no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente, dificultando a continuação da série na Warrior e causando desavenças entre Skinn e Moore (o que levou ao aborto do projeto Nightjar, que teve o primeiro capítulo desenhado por Bryan Talbot e antecipava elementos que Moore utilizaria mais tarde no personagem John Constantine). Como resultado das disputas jurídicas e brigas pessoais, Marvelman foi suspensa no número 21 da Warrior. Sem sua série mais popular e não tendo alcançado um sucesso de vendas avassalador, a publicação chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985. De qualquer forma, sua contribuição para a história dos quadrinhos ocidentais já estava assegurada.

No formato magazine da Warrior, as páginas de V for Vendetta desdobravam-se no contraste em preto & branco dos desenhos de Lloyd (algo que se perde na edição em cores e formato reduzido da DC Comics). Além disso, o texto rebuscado e a trama política compostos por Moore eram então algo muito incomum para quadrinhos de aventura e mistério. Quanto a Marvelman (publicado no Brasil, via edição norte-americana, com o título Miracleman), a série de Moore, Leach e Davis teve um enorme impacto, sendo a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico, nos anos 80. Estes dois trabalhos ficariam incompletos até 1989, quando Moore escreveu seus capítulos finais para as editoras DC Comics e Eclipse respectivamente. De qualquer forma, foi após despontar no mercado britânico, com HQs para a Warrior e também a 2000 AD, que Alan Moore acabou contratado pelo editor Lein Wein para assumir os roteiros da revista Swamp Thing (Monstro do Pântano). E aí, como se diz, “o resto é história”!

Para os interessados, todos os números da Warrior ainda podem ser encontrados à venda em lojas virtuais
britânicas e norte-americanas.