27/11/2007

A insana relação entre Batman e Coringa.


Sou de uma época em que os personagens dos quadrinhos eram tratados em primeiro lugar como “personagens”, e não como “franquias” a serem exploradas em novos sucessos de vendas ou bilheterias. Assim, pelo menos para nós leitores, heróis e vilões pareciam ter uma personalidade e uma trajetória que se transformava ao longo do tempo. Batman e Coringa são bons exemplos disso. Nos quadrinhos dos anos 80 e 90, seus encontros foram marcados por um "jogo de gato e rato", em que cada vez se tornava mais difícil distinguir qual dos dois era o mais insano.

Foi com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller que o estranho relacionamento entre o Homem-Morcego e seu principal inimigo adquiriu uma dimensão mais "doentia". De um lado, o soturno vigilante obcecado por sua missão; do outro, o psicopata excêntrico e homicida. Em seu embate final, ao passarem por uma Casa dos Espelhos, a dialética que os movia tornou-se evidente: herói e vilão apresentavam-se como figuras complementares, a existência de um justificava a do outro. Não é por menos que o desfecho da história acontece com um abraço mortal, dentro do Túnel do Amor.

Essa abordagem “psicológica” foi retomada em A Piada Mortal dos ingleses Alan Moore e Brian Bolland, edição na qual a origem do Coringa é contada. Sendo o personagem central da história, ele aparece como um vilão sádico e amoral que desconhece quaisquer limites, enquanto Batman só se preocupa em desempenhar o papel de guardião de Gotham City, a ponto de seu único elo com a vida cotidiana ser o mordomo Alfred. Buscando uma abordagem mais realista dos super-heróis, a HQ é marcada por cenas de violência explícita. O próprio Alan Moore chegou a admitir que teria ido um pouco além da conta, num roteiro em que o Coringa aleija e abusa de Bárbara Gordon, além de torturar seu pai, para no fim acabar às gargalhadas, num quase abraço com o Batman.

O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal colocaram Batman na linha de frente da renovação que caracterizou os comics na década de 1980, além de transformarem o Coringa no vilão mais famoso e cultuado dos quadrinhos. Não é à toa que as duas obras foram a base para o roteiro e temática do badalado filme Batman de 1989, que teve o ator Jack Nicholson no papel do Coringa. Mas é preciso não nos esquecermos de que foi o seriado de tevê dos anos 60, com a ótima atuação de Cesar Romero no papel do “palhaço do crime”, que tornou Batman um personagem tão popular, até mesmo entre aqueles que não liam quadrinhos. Contudo, foi mesmo a abordagem mais adulta dos roteiros de Miller e Moore que estabeleceu um novo patamar a partir do qual outros autores puderam criar suas histórias.

Um bom exemplo é Asilo Arkham, criada por Grant Morrison e Dave McKean, que tem como tema central a história da própria instituição para loucos criminosos. Ao longo das páginas dessa exuberante graphic novel, o Homem-Morcego faz um tour pelo manicômio onde estão internados seus principais inimigos. Porém, a viagem acaba se revelando um mergulho na própria alma do herói, torturado pela dor e culpa da morte de seus pais. O mestre de cerimônias não poderia ser outro, é claro, senão o Coringa. Mas a HQ enfrentou censura por parte dos editores da DC Comics, que temiam a possibilidade de ela prejudicar a imagem de um de seus principais personagens. O motivo principal: a sequência em que o Coringa, mais afetado e abusado do que nunca, faz uma alusão perniciosa ao relacionamento entre Batman e Robin.

Do ponto de vista técnico e temático, Asilo Arkham é um bom exemplo do avanço qualitativo dos quadrinhos de super-heróis nos anos 80. Produzida por autores britânicos, a HQ tem um texto que lida com assuntos pouco comuns nos quadrinhos norte-americanos, sem falar num visual impressionante que mistura desenho, pintura, fotografia e colagem. Após essa elaborada obra, parecia que nada de novo poderia ser acrescentado ao relacionamento entre Batman e Coringa. Mas então surgiu Arlequina!

Nascida na série de animações do Batman lançada em 1992, Arlequina revelou-se uma das vilãs mais sensuais e espirituosas dos últimos tempos. Na HQ especial “Louco Amor”, publicada no Brasil nas revistas Batman - O Desenho da TV nºs 14 e 15, sua origem e seu relacionamento amoroso com o Coringa são mostrados de forma inteligente e até ousada. Contratada para trabalhar no Asilo Arkham, a psiquiatra Harley Quinzel acaba se apaixonando por um paciente. Só que o paciente em questão é ninguém menos que o Coringa, e isso leva Harley a iniciar uma carreira no crime, provando que "de médico e louco todo mundo tem um pouco". Para Frank Miller, a HQ produzida por Paul Dini e Bruce Timm foi a melhor história do Batman na década de 1990, opinião com a qual concordo plenamente.

Em 2008, será lançado The Dark Night, um novo filme do Homem-Morcego, que terá o Coringa como vilão principal. Com ele, a insana relação entre os personagens ganhará um novo capítulo e certamente também se intensificará nos quadrinhos. Enquanto o filme não chega, as ótimas HQs citadas neste texto valem ser lidas ou relidas. Com alguma pesquisa, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Asilo Arkham e “Louco Amor” podem ser encontradas em lojas virtuais, nas edições originais ou em português. Por sua qualidade artística e importância para a história dos quadrinhos, essas HQs não podem faltar na coleção de nenhum bat-fã.

19 comentários:

Hiroshi disse...

Gostei do blog... Bacanão mesmo... Seu texto está muito bom... Tenho um blog que também fala sobre quadrinhos, coloquei o seu na lista de blogs amigos. Dá uma passadinha lá e vê o que acha.

_Loot_ disse...

Li todos menos o "Louco Amor" e são obras obrigatórias para todos os apreciadores da 9ºarte em geral e de Batman em particular.

Em Black & White, existe uma estória também ela fabulosa entre Batman e Joker, onde estes são "actores" de banda desenhada e assistimos a uma conversa entre os dois como grandes amigos é hilariante e é de Neil Gaiman.

Abraço

Wellington Srbek disse...

Valeu pelo comentário, Hiroshi! Passei no seu blog e achei interessante a idéia da pesquisa sobre a Liga da Justiça.
Grande _loot_! Tente encontrar a MAD LOVE, pois realmente vale a pena, não só pelo roteiro, mas pelos deliciosos desenhos também!
Essa HQ do Black & White eu não me lembrava, mas pelo que você falou ela é algo mais fora da "continuidade" mesmo, algo mais alegórico, certo?

Anônimo disse...

Tá super legal seu blog! Só tenho a agradecê-lo, por mim e por tod@s, a qualidade dos seus textos, que tratam a história e a cultura do universo das HQs com muita seriedade e maestria e, assim, revelam sobretudo a sua arte. Parabéns!

Wellington Srbek disse...

Muito obrigado pelos elogios! Mas você não deixou seu nome... Continue acompanhando porque ainda esta semana teremos mais textos.

QUEIROZ disse...

Não sei Wellington se vc está lendo a série Justiça, em que o Coringa é excluido do plano de dominação mundial da Legião por ser louco demais, mas tem uma parte que Superman e Batman batem um papo sobre as diferenças entre os dois. E a ansiedade de ver Dark Knight está f#d@.

Anônimo disse...

Caro Wellington, acho que A Piada Mortal está para o Coringa como Cavaleiro das Trevas esta para Batman, até comentei no meu blog, dá uma passada lá e veja se aprova!
Abraços.

_Loot_ disse...

Wellington tens razão é fora da continuidade, mas é muito engraçada a forma como a relação deles é retratada e como fizeste tantas referências a como a existência de um implica a do outro, recordei-,me desta.
A cena de morte no Dark knight returns é maravilhosa, a cena na killing joke onde eles terminam a estória a rir é genial.

O black & White (só li o volume 1) tem o conceito de criar estórias a preto e branco de 8 ou 9 páginas apenas. Com convidados como Neil Gaiman, Katshuiro Otomo entre muitos outros há lá estórias fabulosas se ainda não leste eu aconselho vivamente, entretanto vou procurar "Mad Love", obrigado por dares o título em inglês que eu costumo comprar as BDs nessa língua.

Wellington Srbek disse...

Até concordo que "A Piada Mortal está para o Coringa como Cavaleiro das Trevas esta para Batman", mas não tenho como conferir seu texto no blog, novo Anônimo, pois você não se identificou, nem deixou o endereço...
Aliás, queria pedir que todos que escrevam para o blog identifiquem-se. Não quero começar a restringir os comentários, mas ficar conversando sem saber o nome da pessoa não é legal. Afinal, uma das vantagens do blog é exatamente a possiblidade de contato pessoal. Quem não quiser ou não puder registrar pelo blogger, ao invés do "Anônimo", registre pela opção "Outro" que é bem fácil. Abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá _loot_,
A série de que você fala se chamou no Brasil "Batman - Preto & Branco". Ela na verdade foi um derivado de Sin City de Miller, que mostrou aos editores norte-americanos que havia público também para HQs em preto e branco. Na época em que foi publicada, eu cheguei a ler e escrever sobre ela para um jornal daqui. Mas foi muito bem lembrado por você, e vou procurar para reler a história com o Coringa.
Fiquei curioso em saber como tem funcionado o mercado aí em Portugal. Têm saído revistas da Marvel e DC regularmente como aqui, ou vocês têm comprado mais as edições originais?
Abraço!

Wellington Srbek disse...

Oi Queiroz,
Não estou lendo JUSTIÇA ainda. A grana anda meio curta... Também tenho preferido comprar as edições originais em inglês, e no caso de JUSTICE (se eu comprar algum dia) optarei pelas 3 coletâneas com as fantásticas capas do Alex Ross (que, diga-se de passagem, são muito melhores que as páginas internas).

QUEIROZ disse...

Eu tenho a coleção completa na versão gringa de Reino do Amanhã, e a capa é dura, bem melhor que a versão brasileira. Eu acho meio chato ficar lendo quadrinhos em inglês, quebra o time quando tem uma palavra que vc não conhece, aí vc pula e continua, mas sei lá. Eu até hj não li Batman ano 2, em inglês tb, que tem na capa o Batman com uma pistola na mão. Não tenho paciência apesar de meu inglês ser bom. Justiça vale muito a pena, não sei o que ocorre com esses cara que quando vem um quadrinho como Justiça pronto, não dizem "PERA AÍ, ESSE É O FILME TÃO ESPERANDO POR TANTOS ANOS PELOS FÃS". As técnicas usadas para o filme Lenda de Bewulf, viria bem a calhar.

Wellington Srbek disse...

Comecei a ler quadrinhos na época dos formatinhos da Abril, que se tornou famosa por mudar edições e cortar textos. Assim, acabei aprendendo inglês lendo quadrinhos e assistindo a filmes, e hoje prefiro as edições no original. Além disso, um professor na faculdade disse algo que fez muito sentido: "se você vai estudar um autor, precisa dominar sua língua para ler no original, sem passar pela releitura dos tradutores". Bom, no caso dos mangás eu não tenho escolha...
Sobre a Liga da Justiça, falarei de outra versão dela, amanhã.

_Loot_ disse...

Eu sou como tu prefiro ler em original pelas razões que mencionas. Em Portugal têm saído edições da DC e da Marvel constantemente mas o problema é que demoram muito tempo Civil War chegou até nós passado meses de ter terminado nos USA, WE3 de Morrison é capaz de ter demorado um ano e Sandman desistiram de publicaram só existe o vol. 1 e 3 (que aconteceu ao 2 no caminho???).

Quanto ao Manga é que não há mesmo escolha tem de ser traduzido, mas já li Akira em português e inglês e a versão inglesa estava mais completa.

Já agora queria perguntar-te se aconselhas alguns autores brasileiros e BD brasileira, as únicas coisas que conheço são do Maurício Mattar pois cresci a ler turma da mónica entre outras coisas.

Abraço

Wellington Srbek disse...

Creio que você quis dizer Maurício de Sousa,_loot_.
Bom, meu autor brasileiro preferido é Flavio Colin (do qual falarei amanhã aqui no blog). Saiu uma HQ dele na Seleções BD uns anos atrás.
Você deve encontrar edições de Lourenço Mutarelli e Laerte aí em Potugal, que são autores muito bons e publicam pela Devir. Também indico os trabalhos de Jô Oliveira e Luiz Gê, dois gênios bissextos das HQs.
Não sei se você sabe, mas além de escrever sobre quadrinhos eu também escrevo e edito quadrinhos. Dê uma passada no saite www.maisquadrinhos.com.br que lá dá para conhecer um pouco de meus trabalhos. Além disso, a Edicions de Ponent lançou no ano passado o álbum Tierra de Historias, que é a tradução de uma obra minha em pareceria com o mestre Colin. Este acho que esse você consegue fácil.

Paulo Ramos disse...

Bons tempos. O mais legal é que essas edições eram realmente especiais. Mas não demorou muito para que o formato se tornasse banalizado. Até hoje, algumas dessas produções "especiais" não fazem jus às suas matrizes. Abração.

Wellington Srbek disse...

Ah, como é bom saber que não estou sozinho! Bons tempos aqueles, de fato...

_Loot_ disse...

eheh isto às vezes a memória prega-nos partidas estava a faalr evidentemente de Maurício da Sousa :)

Sim não sabia que eras escritor e editor de BD, obrigado pelas dicas vou informar-me e espero que tudo esteja a correr bem com os teus projectos.

Abraço

Wellington Srbek disse...

Bom, vamos levando na medida do possível, pois aqui no Brasil infelizmente o mercado de quadrinhos não é voltado para os artistas locais (ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, França, Japão...). Não deixe de dar uma olhada no www.maisquadrinhos.com.br
Abraços!