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20/04/2010

Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis.


A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas falar em “realismo” nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal, algo que se chame de “realista” pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de “mundo real”. Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou se transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo que pudéssemos chamar estritamente de “realista”.

Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais realista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou contextualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esses trabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, influenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unidos (como minisséries de luxo e graphic novels).

Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um “trabalho de assassinato”. O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnicamente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crítica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspectos mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.

Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha para ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender muito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político visto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moore acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.

Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violência explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a “leitores maduros” e ambientadas numa realidade similar ao chamado “mundo real”, essas publicações não poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e editada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.

Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernado da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crânio esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo depois, bastante cinismo e alguns palavrões.

Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa, sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástico Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextualizada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revistas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabalho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperando!

(CONTINUA)

05/04/2009

O Spirit de Will Eisner, na “adaptação” cinematográfica de Frank Miller.


A ligação de Frank Miller com as HQs do Spirit de Will Eisner e os filmes de crime e violência urbana vem desde o início de sua carreira, quando ele inovou os quadrinhos de super-heróis com seus desenhos e roteiros para a revista Daredevil. A utilização inteligente dos recursos narrativos introduzidos por Eisner somada ao emprego de um ritmo cinematográfico moderno deram às revistas do Demolidor um dinamismo e uma riqueza narrativa raros nos quadrinhos de super-heróis até então. Por tudo isso, era de se esperar que a adaptação cinematográfica de The Spirit, escrita e dirigida por Miller, fosse no mínimo um bom filme e especialmente fiel e respeitoso à obra que lhe serviu de inspiração. Infelizmente, nem de longe é isso que acontece!

A verdade é que não podemos reclamar que não fomos avisados de que Miller estava mais interessado em celebrar seu estilo gráfico pessoal do que propriamente homenagear seu mestre e amigo. Já no cartaz do filme, desenhado pelo próprio diretor, o contraste em preto e branco marcado, com partes em vermelho gritante, tem muito mais a ver com a série Sin City do que com a própria The Spirit. E bastou ver o trailer do filme, com suas cenas em preto e branco saturados, para ficar evidente que Miller gostou tanto da adaptação de seu próprio quadrinho para os cinemas que resolveu repetir o visual, fugindo completamente ao espírito da obra de Eisner. Quanto ao filme em si, a lista de erros, falhas e insultos é tão extensa que mal sei por onde começar!

O visual é sombrio e feio. Os detalhes em branco estourado cansam. Os diálogos são clicherescos e tediosos. Alguns momentos mergulham no mais profundo kitsch sentimentalóide. O ritmo às vezes cai num arrastar que se prolonga por muito mais do que deveria e um pouco além. As cenas de briga parecem saídas de uma sessão de luta livre mal ensaiada. Há até mesmo tiradas de humor forçadas que devem agradar a alguém com extremo mau-gosto. Com isso, em seus momentos mais “dinâmicos”, o longa-metragem não passa de uma comédia pastelão mal escrita e pessimamente iluminada. O que me leva à pergunta de quarenta milhões de dólares: o filme tem mesmo uma história? Uma que valha a pena ser assistida? Pergunto, pois a produção é tão chata e pretensiosa que com vinte minutos eu já estava pedindo para que acabasse! Mas só acabou após intermináveis uma hora e quarenta minutos...

O Comissário Dolan, Ellen, Silken Floss, Plaster of Paris, Octopus... Todos os personagens no filme parecem errados ou excessivos ou diminuídos. Só Sand Saref parece na medida. Também, com a beleza e as medidas da atriz Eva Mendes, fica difícil para qualquer diretor errar feio. Diga-se de passagem, Miller segue os passos de Quentin Tarantino e faz uma ponta no início do filme, para logo morrer e não deixar saudades em ninguém. Quanto ao próprio Spirit, da primeira sequência em que ele aparece até as últimas, Miller fez de tudo para não fazer jus ao personagem humano e simpático criado por Eisner. Praticamente um super-herói invulnerável, imitando a voz e os saltos do Batman e recitando falas de um Rorschach mais sentimental, o Spirit cinematográfico tem pouco ou quase nada do herói clássico dos quadrinhos.

Em resumo, The Spirit é um péssimo filme. Usando termos mais técnicos, eu diria que se trata de lixo cinematográfico puro e simples. Uma obra dispensável que conquistou sem grande esforço um lugar de desonra ao lado de produções como A Liga Extraordinária e Mulher-Gato. Se você ainda não foi ao cinema assistir a esse filme, minha sugestão é que não vá. Economize seu tempo e dinheiro. Ele não vale o esforço de sair de casa. Ainda assim, se fizer questão de conferir a “adaptação” de Frank Miller da obra-prima de Will Eisner, bem, espere até sair em DVD. Ou mesmo espere até passar na tevê. Antes de encerrar, porém, devo fazer uma derradeira ressalva: os créditos finais com os story boards de Miller ao fundo ficaram bem bacanas. Aliás, o autor de O Cavaleiros das Trevas e Sin City deveria voltar a se dedicar ao que sempre fez bem, que é desenhar quadrinhos!

10/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte3.


Parte final de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchmen, explica tudo sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e também quais são seus novos e futuros projetos.

Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfonia: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e simetrias. As duas analogias nos dão a idéia de “um todo que é mais do que a soma de suas partes”. Mas, para o senhor, o que Watchmen representa?

Dave Gibbons: Sim, eu creio que, você sabe, no próprio livro nós fizemos analogias ao mecanismo do relógio (a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos internos de um relógio). Dito isto, eu sempre considerei a abordagem de Alan para a escrita um pouco tipo a abordagem de Mozart para a música, você sabe, ele vê a coisa toda em sua cabeça, ele tem a sinfonia toda em sua cabeça, com todas as partes, ele escreve muito detalhadamente. E então, enquanto desenhista, você essencialmente interpreta isso, você essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então... Sim, eu creio que essa é uma analogia muito boa, e eu acho que meio que a tomo como sendo o que Watchmen representa para mim, você sabe, qualquer coisa escrita, qualquer coisa conjunta, sempre acontece parte por parte, e só mesmo depois de tudo acabado é que você pode se reclinar e admirar a paisagem. Então, ahn... Sim! É uma sinfonia, é um mecanismo de relógio.

WS: O senhor acaba de lançar Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Por favor, fale-nos desse livro.

DG: Bem, como eu disse, ele foi publicado pela Titan, tem 257 páginas, traz um monte de esboços, os rascunhos para as páginas da série inteira, traz páginas do roteiro de Alan, cartas que trocamos, traz cartas para a DC, traz fotos da divulgação [da série original], traz páginas não-publicadas, traz estudos que nunca utilizamos, traz esquematizações e planos, e também traz um comentário escrito por mim (ah, minha história de como Watchmen veio a existir, desde bem no início). Ahn, ele também traz um ensaio muito interessante de John Higgins, sobre como ele a coloriu. E [o livro] é exclusivamente sobre a revista em quadrinhos, ele não faz qualquer menção sobre... ah... o filme ou qualquer coisa relacionado a isso. Eu queria que ele fosse uma celebração da, você sabe, experiência criativa que Alan e eu tivemos, que foi uma experiência criativa muito positiva e agradável. Ele não se detém nas áreas da... ah... contenda ou disputas entre Alan e a DC Comics, porque não se trata desse tipo de livro (você sabe, um livro assim pode muito bem aparecer no futuro, [mas] é um outro livro). Realmente, é uma muito detalhada e muito densa celebração de como foi criar Watchmen.

WS: Um amigo me trouxe dos Estados Unidos seu pôster promocional para o filme Watchmen. Logo, acredito que o senhor está feliz com essa adaptação da HQ. Quais são suas expectativas para o filme?

DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, desde minha primeiríssima conversa com Zack Snyder eu tive uma boa sensação sobre ela. E certamente cada nova coisa que vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi metade das cenas do filme em agosto, e eu gostei demais (não estava acabado, muito da computação gráfica não estava pronto, mas foi absolutamente envolvente e fascinante). Desde então, eu vi... ah... ambos os trailers e vi os vinte e cinco minutos mais ou menos de cenas que Zack mostrou aos jornalistas, e estou tomando parte da “turnê” de Watchmen e… Sim, eu sinto que foi feito devidamente, que foi feito tão bem quanto qualquer um poderia razoavelmente esperar. Ahn, e... eu estou realmente aguardando para vê-lo nos cinemas e ver como todos reagirão a ele. Eu tenho a sensação de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. É claro que há aqueles fãs empedernidos, absolutamente radicais (que eu compreendo) para os quais nada a não ser uma adaptação palavra por palavra, imagem por imagem, linha por linha, jamais agradará. Creio [porém] que você precisa ser um pouco mais realista quanto a isso. No final das contas, creio que é preciso ter algo que seja um bom filme, algo que o espectador de cinema mediano considere que valha a pena ir assistir.

WS: Recentemente, o senhor terminou a saga de Martha Washington, escrita por Frank Miller, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são seus planos para 2009 e o futuro próximo?

DG: Bem, no que diz respeito a Martha Washington, nós vamos reunir tudo num formato estendido, com mais de 500 páginas, será uma edição definitiva e trará novas introduções escritas por Frank e por mim, e eu espero que traga toda e qualquer aparição de Martha. Porque as aparições dela foram relevantes esparsadamente, nós queremos reunir tudo de forma que os leitores possam ler tudo num só lugar. Eu recentemente fiz uma HQ curta de Hellblazer para a DC, a qual eu escrevi [e que será publicada este mês, na edição especial n°250 da revista de John Constantine] (um personagem que estranhamente me agrada). Ahn... Realmente agora meu tempo está tomado pela promoção de Watchmen, pelo licenciamento, consultoria. Ahn, eu espero trabalhar num projeto de direitos autorais reservados no ano que vem, com um roteirista com o qual eu nunca trabalhei antes (não posso realmente dizer mais nada sobre isso, porque obviamente simplesmente não me cabe definir como isso será anunciado). Mas, sim, eu estou mesmo é curtindo a "turnê" do circo Watchmen e esperando o filme ser lançado e, algum tempo depois, voltar a fazer algum trabalho honesto.

WS: Muito obrigado por esta entrevista!

DG: Muito obrigado por seu interesse e saudações para meus fãs e amigos aí na América do Sul!

08/12/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part3.


Last part of our interview and Dave Gibbons talks a little bit more about Watchmen, tells us about his new book, says what he thinks of the movie adaptation and also which are his new and future projects.

Wellington Srbek: I use the analogy of Watchmen being similar to a Swiss watch: a construct of hundreds and hundreds of tiny pieces that come together to form a working machinery. There’s also the analogy of Watchmen being similar to a symphony: a complex structure, composed by various movements with lots of echoes and symmetries. Both analogies give the idea of “a whole that is more than the sum of its parts”. But for you, Mr. Gibbons, what Watchmen represents?

Dave Gibbons: Yeah, I think, you know, even within the book we have made analogies to clockwork -- the form of Doctor Manhattan’s palace is like the internal works of a clock. That said, I’ve always considered Alan’s approach to writing to be a little bit like kind of Mozart’s approach to music, you know, he sees the whole thing in his head, he has the whole symphony in his head with all the parts, he writes down in great detail. And then, as an artist, you essentially interpret that, you essentially are the orchestra, you are the conductor. And so… Yeah, I think that’s a very good analogy, and I think I kind go along with that been what Watchmen represents to me, you know, any writing thing, any joint thing, always happens piece by piece, and it’s not really until be done the whole thing that you can sit back and see, see the landscape. So, ahn… Yeah! Is a symphony, is a clockwork.

WS: You’ve just released Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Please, tell us about this book.

DG: Well, as I said it is published by Titan Books, it is 257 pages, it’s got loads of sketches, the real thumbnails for the whole series, it’s got pages of Alan’s script, it’s got letters between us, it’s got letters for DC, it’s got pictures of the merchandize, it’s got unpublished pages, it’s got designs that we never used, it’s got schematics and plans, and it’s also got a commentary by me -- ah, my story of how Watchmen came to be, from its very, very beginning. Ahn, it’s also got a very interesting essay by John Higgins about how he colored it. And it is solely about the comic book, it doesn’t make any mention of… ah… the movie or anything to do with that. I wanted it to be a celebration of, you know, the creative experience Alan and I had, which was a very positive and enjoyable creative experience. It doesn’t strands in the areas of the… ah… contention or disputes between Alan and DC Comics, because it is not that kind of book -- you know, that might well appear in the future, it is another book. Really, it is a very detailed, very dense celebration of what it was like to create Watchmen.

WS: A friend brought me from the USA your promotional poster to the Watchmen movie. So, I believe that you are happy with this adaptation of the book. What are your expectations about the movie?

DG: Yeah, I’m happy with the adaptation. From the very beginning, from my very first conversation with Zack Snyder I had a good felling about it. And certainly every additional thing that I’ve seen has only made me feel better. I saw half-cut of the movie back in August, which I totally enjoyed -- wasn’t finished, a lot of the CGI wasn’t done but it was absolutely engrossing and fascinating. Since then I’ve seen… ah… both the trailers, and I’ve seen the 25 minutes or so of scenes that Zack has shown to journalists, and I’m taking part in the Watchmen road show, and… Yeah, I feel that it’s been done properly, it’s been done as well as anybody could reasonably expect. Ahn, and… I’m very much looking forward to seeing it out there in the cinemas, and gain everybody’s reaction to it. I have a feeling that the fans are gonna be very happy with it. Of course there are those absolute diehard heart fans -- I understand that -- for whom nothing but actually word for word, picture for picture, line for line adaptation would ever do. I think you have to be a little bit more realistic about it. In the end of the day, I think you have to have something which is a good film, something that the average movie goer will consider worth going to see.

WS: Recently you have finished the Martha Washington saga written by Frank Miller, besides written and drawn some Green Lantern Corps issues. What are your plans for 2009 and the near future?

DG: Well, on the section of Martha Washington we are gonna collect all together into one big oversized book, it will be 500 pages plus, and it will be absolute size, and it will have new introductions by Frank and by me, and it will have hopefully every possible appearance of Martha. Because her appearances have been relevant scatterly, we wanna bring it all together so that readers could read it all in one place. I’ve recently done a little Hellblazer story for DC, which I wrote -- character that I strangely enjoy. Ahn… Really now my time is taken on the Watchmen promotion, and licensing, consultancy. Ahn, I hope to be working on a creator owned project next year with a writer that I haven’t worked with before -- can’t really say any more than that, because obviously it is not just up to me how this is announced. But, yeah, I’m very much enjoying the Watchmen road show circus, and looking forward to the movie coming out, and sometime after that going back to do some honest work.

WS: Thanks a lot for this interview, Mr. Gibbons!

DG: Thanks very much for your interest, and greetings to my fans and friends out there in South-America!

04/06/2008

Pixel “manda bala” com 100 Balas.


Com o fim da série Sandman em 1996, a supervisora editorial do selo Vertigo, Karen Berger, iniciou um processo de reformulação da linha de quadrinhos adultos da DC Comics, apostando em novos gêneros e autores. Uma das séries lançadas nessa fase foi 100 Balas, criada por Brian Azzarello e Eduardo Risso. Para quem perdeu as primeiras edições, a Pixel relançou recentemente as cinco primeiras HQs dessa série de crime e vingança, enquanto, a título de experiência, lança também uma sequência de quatro revistas mensais.

Quadrinhos envolvendo detetives, policiais e bandidos fizeram muito sucesso nos anos 30 e 40, refletindo as questões sociais da realidade norte-americana da época. Com isso, personagens como Dick Tracy, Spirit, Batman e Homem-Borracha fizeram carreira ajudando a polícia a solucionar crimes e manter “a lei e a ordem”. Nas últimas décadas, porém, aconteceu uma alteração nos personagens enfocados e nos ambientes retratados, acompanhada de uma mudança na própria lógica narrativa. Os tradicionais quadrinhos de detetive e as revistas policiais passaram a ser substituídos pelo que podemos chamar de histórias de crime.

O resultado foi uma busca por enredos menos maniqueístas e mais realistas, acompanhada de deslocamentos nos papéis tradicionais do “mocinho” e do “bandido”. Uma violência urbana crua, incompetência e corrupção policial, personagens falíveis e excluídos dos benefícios de uma sociedade que os tenta ignorar, esses são os principais elementos das novas histórias de crime. Nos quadrinhos, o sucesso da série Sin City foi o grande catalisador de um renovado gênero noir. Por suas características temáticas e visuais, inegavelmente a herdeira e prolongadora da linha iniciada por Frank Miller foi 100 Balas de Brian Azzarello e Eduardo Risso.

A premissa básica é esta: um enigmático homem, que se identifica pelo nome Agente Graves, aproxima-se de uma determinada pessoa e lhe entrega uma maleta contendo uma arma, cem balas que não podem ser rastreadas e provas irrefutáveis contra alguém que tenha destruído sua vida. Além disso, Graves promete à pessoa escolhida imunidade legal para levar a cabo sua vingança contra quem a prejudicou. No geral, os roteiros de 100 Balas buscam retratar os subúrbios e submundos das grandes cidades, tendo como protagonistas pessoas comuns que acabam se deixando levar pelas circunstâncias. Já os desenhos primam por representar diferentes grupos étnicos, baseando-se fundamentalmente num contraste entre preto e branco.

A coletânea 100 Balas: Atire primeiro... traz as cinco primeiras histórias da série, acompanhadas de uma HQ curta, em 128 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço de R$14,90. Nas três primeiras partes, somos apresentados ao Agente Graves, ao Sr. Shepherd e a Dizzy Cordova, uma jovem recém-saída da prisão, que receberá a “dádiva” das cem balas. Já na história curta que se segue, na noite de Natal uma velhinha vai à delegacia, arrependida por ter aceitado a oportunidade de se vingar, três anos antes. Na sequência final em duas partes, é a vez de um ex-empresário, que viu sua vida desmoronar ao ser injustamente acusado, apostar sua sorte numa vingança, não sabendo que, na verdade, ele não passa de um peão numa trama maior.

Elementos da trama de conspiração que envolve a série anunciam ser desvelados em 10 Balas: Parlez Kung Voux 1, uma revista de 48 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço R$ 7,90. Primeira de quatro revistas que a Pixel programou lançar mensalmente, a edição traz os números 12 e 13 da série original. Passada em Paris, a história mostra a volta de Dizzy Cordova, agora trabalhando diretamente para o Agente Graves e o Sr. Shephard. A despeito da mudança de cenário, não faltam as cenas em bares, sequências de brigas e até um pouco da nudez feminina que Azzarello e Risso pegaram emprestado de Miller e tornaram a marca registrada de suas próprias revistas. Para quem tem acompanhado a série, a edição faz o prenúncio de grandes revelações.

Pessoalmente, à parte o efeito sonoro e emblemático do título, desde o início sempre questionei por que alguém precisaria de "cem balas" para matar outra pessoa. Mais que isso, a lógica “olho por olho” que embasa a série sempre me incomodou. O fato, contudo, é que a premiada 100 Balas é um sucesso também entre os leitores brasileiros, ganhando atenção mais que especial da Pixel.

30/04/2008

Spawn Origem Vol.2 reúne McFarlane, Moore & Miller.


Quando lançada em 1992, a revista Spawn de Todd McFarlane foi um sucesso imediato, ajudando a projetar a Image Comics como uma importante força do mercado norte-americano. O que se viu nos meses e anos seguintes foi uma trajetória de sucesso comercial tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Lançada por aqui inicialmente pela Abril Jovem, a revista mensal da “cria do inferno” passou a ser publicada pela Pixel a partir de seu número 151. Além da revista regular (atualmente em seu número 174), a editora tem lançado a coleção Spawn Origem, que reimprime as primeiras HQs da série. O segundo volume reúne os números 6, 7, 8 e 11, sendo os dois últimos escritos por Alan Moore e Frank Miller.

As HQs desse volume trazem o típico Spawn dos primeiros dias. Muitas páginas de um só quadro, composições confusas repletas de emaranhados de traços, sequências narrativas fragmentadas, enquadramentos cortados e, é claro, os enredos fracos e desenhos tecnicamente deficientes de McFarlane. O fato, porém, é que toda a violência sem-sentido e o traço caricaturizado do quadrinista agradaram em cheio aos leitores da época, tendo grande apelo ainda hoje. Na história publicada originalmente em Spawn número 6 e 7, o “soldado do inferno” tem que enfrentar Chacina, um ciborgue assassino criado pela máfia (!?) para dominar as ruas de Nova York. Após muita pancadaria e algumas sequências sentimentalóides envolvendo a ex-mulher de Spawn, a história conclui com o sádico herói executando sumariamente seu já derrotado adversário.

Logo quando lançada, apesar do sucesso entre os leitores, a série Spawn foi bombardeada pela crítica, que não perdoou os péssimos roteiros de McFarlane. Foi com o objetivo de aplacar os críticos mais ferrenhos que o quadrinista-empresário (já então esbanjando dinheiro) contratou quatro dos mais conceituados roteiristas da época para escrever edições especiais da revista. Mas, apesar dos renomados colaboradores, os roteiros dos números 8 e 11 deixam muito a desejar. No primeiro, Alan Moore guia os leitores por uma viagem aos círculos do Inferno, com direito a um pomar de almas condenadas, demônios travestidos de Elvis e um humor um tanto duvidoso. Já no último, Frank Miller traz os leitores de volta às ruas de Nova York para uma historinha pueril, envolvendo duas improváveis gangues que se exterminam numa disputa pelo beco onde mora o sanguinário herói.

Em Spawn Origem Vol.2, são notáveis as ausências dos números 9 e 10 da revista, escritos por Neil Gaiman e Dave Sim. O primeiro deles introduziu os personagens Ângela e Cagliostro (além do Spawn medieval), enquanto o segundo contou com a participação do personagem Cerebus, sendo uma espécie de alegoria para a situação do mercado de quadrinhos nos Estados Unidos. O problema com Spawn n°9 é que Gaiman e McFarlane acabaram se desentendo sobre o pagamento de direitos autorais dos personagens criados pelo roteirista e também em relação aos direitos de publicação do herói Miracleman. Quanto ao número 10, ao que consta existe um acordo de não-republicação da história, embora pareça que Sim também não tenha ficado muito satisfeito quando McFarlane e seus companheiros da Image passaram a praticar relações de trabalho semelhantes às das grandes editoras.

Spawn Origem Vol.2 tem capa cartonada, 112 páginas, formato 17cm x 26cm, sendo vendido por R$32,90. Apesar da baixa qualidade das HQs, a edição é uma boa pedida para os novos fãs de Spawn que não acompanharam a série quando lançada originalmente no Brasil. Após as histórias publicadas nesse volume, Alan Moore voltou ao "universo" de Spawn com a dispensável minissérie Feudo de Sangue, enquanto Frank Miller escreveu um roteiro de terceira para o especial Spawn / Batman. Quanto a Todd McFarlane, depois de ganhar mais dinheiro, ele decidiu apostar suas fichas numa série de animação para a HBO, num filminho para o cinema e numa linha de brinquedos que leva seu nome (deixando sua cria infernal a cargo de outros quadrinistas, alguns até bem mais competentes do que ele, como Greg Capullo por exemplo). Para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos de Moore, Miller e McFarlane, basta clicar nos nomes em destaque abaixo.

25/04/2008

Spawn / Batman, uma HQ medíocre de Miller & McFarlane.


Escrita por Frank Miller e desenhada por Todd McFarlane, Spawn / Batman foi lançada no Brasil, pela Abril Jovem, em 1997. Edição oportunista que se apoiou no estrondoso sucesso do personagem criado por McFarlane e no prestígio do nome de Miller, a revista impressionou-me na época pela falta de originalidade do roteiro e por seus desenhos abaixo da média. Assim, embora essa HQ tenha todos os elementos para agradar aos fãs de McFarlane, ela é desaconselhável para quem admira os trabalhos sérios de Miller.

Nos anos 80 e 90, o nome Frank Miller foi sinônimo de qualidade nos quadrinhos. Afinal, o criador de O Cavaleiro das Trevas e Sin City foi um dos responsáveis por uma revolução qualitativa no mercado norte-americano. Levando para os comics influências de HQs japonesas, européias e sul-americanas, Miller criou um trabalho pessoal, no qual a qualidade artística era presença constante. Mas não é isso que vemos em Spawn / Batman.

Naquela mesma época, Todd McFarlane era sinônimo de popularidade nos quadrinhos. Em poucos anos, ele se tornou o artista mais famoso e bem-sucedido do mercado norte-americano. Com seu traço repleto de elementos caricaturais, expressões e imagens exageradas, somado a uma narrativa fragmentada, McFarlane criou uma fórmula de sucesso, seguida fielmente por seus imitadores. Mas não há dúvida de que, em se tratando desse quadrinista, raras vezes fama e qualidade artística andaram juntas. E é exatamente isso que vemos em Spawn / Batman.

É difícil dizer se foi a falta de qualidade artística de McFarlane que influenciou negativamente Miller, ou se este simplesmente optou por rabiscar um esboço de roteiro, por se tratar de uma revista que seria publicada pela Image Comics. O fato é que Spawn / Batman não passa de um subproduto do roteiro que o próprio Miller escreveu para o filme Robocop 2. Basicamente, o que diferencia as duas histórias escritas por Miller é a existência de Spawn, que dá conotações místicas ao roteiro da HQ.

Como sempre, os desenhos de McFarlane trazem as caretas excessivas, capas gigantescas, erros de anatomia e excesso de rabiscos que lhes são característicos. Mas grande parte do suposto dinamismo da arte desse desenhista não está em seu traço, e sim nas cores produzidas por computação gráfica. Utilizando uma variação entre gradações leves e contrastes fortes, a coloração cria a ilusão de energia e movimento que tanto tem fascinado e agradado aos leitores nas últimas décadas.

Os principais trabalhos autorais de Frank Miller e Todd McFarlane, Sin City e Spawn respectivamente, são quase opostos. Embora ambos abusem da violência, nos trabalhos de Miller ela tem limites mais realistas. Contudo, é no visual das HQs que as diferenças se tornam mais notáveis. Sin City apóia-se nos contrastes entre luz e sombra, ao estilo de Alberto Breccia, valorizando a narrativa visual. Já Spawn abusa das cores, apoiando-se em imagens de detalhe ou grandes cenas de impacto inspiradas na estética dos mangás. Essas diferenças nos trabalhos dos desenhistas fazem do primeiro um artista e do outro um criador de sucessos de massa.

No final das contas, Spawn / Batman serviu apenas para confirmar o que muitos já sabiam. Primeiro, o fato de que na companhia de Todd McFarlane até os melhores roteiristas foram capazes de criar trabalhos ruins. Segundo, por alguns milhares de dólares, mesmo um quadrinista dos mais conceituados não se sente constrangido em fazer um trabalho medíocre. É claro que, ao aceitar trabalhar nessa HQ especial, Miller também estava buscando uma divulgação extra para Sin City, projeto que começava a deslanchar na época em que a revista foi lançada nos Estados Unidos. Mas, quer seja pelo dinheiro, quer seja pela divulgação de seu trabalho, a pergunta que fica é: será que valeu a pena?

27/01/2008

Nossos parabéns a Frank Miller!


Frank Miller é hoje mundialmente conhecido como o autor das HQs que originaram os filmes Sin City e 300, além de ser o diretor do futuro filme Will Eisner’s The Spirit. Mas esse quadrinista norte-americano, que completa 51 anos hoje, já foi muito mais que uma estrela menor na constelação de Hollywood. Do início dos anos 80 até meados dos anos 90, seu trabalho influenciou os quadrinhos norte-americanos, dando origem a algumas das mais importantes HQs das últimas décadas.

Em postagens anteriores, já abordei sua prestigiada fase na revista Daredevil, sua marcante abordagem na minissérie Wolverine, além do inovador Ronin e do revolucionário O Cavaleiro das Trevas. Também falei de suas colaborações com David Mazzucchelli em A Queda de Murdock e Batman: Ano Um, bem como de suas parcerias com Bill Sienkiewicz na Graphic Novel do Demolidor e na minissérie Elektra Assassina. Mas, após essa sequência de importantíssimos trabalhos, Miller passou um tempo afastado dos quadrinhos. Nesse período, ele fez sua primeira aproximação com o cinema, produzindo o roteiro inicial do lastimável Robocop 2.

Quando voltou às HQs em 1990, Miller lançou a muito aguardada e bastante decepcionante graphic novel Elektra Vive, escrita e desenhada por ele, com cores pintadas por Lynn Varley. Na sequência, boa parte de seus trabalhos seria produzida em colaboração com outros desenhistas. Assim surgiram Give me Liberty em parceria com David Gibbons, Hard Boiled ilustrada por Geof Darrow, Robocop vs Exterminador desenhada por Walter Simonson e O Homem sem Medo com desenhos de John Romita Jr., isso sem falar na edição 11 da revista Spawn e na perfeitamente esquecível Spawn/Batman, ambas produzidas com Todd McFarlane. Contudo, o trabalho mais importante de Frank Miller em seu “retorno” aos quadrinhos foram as edições da série Sin City.

Lançada originalmente nas páginas da revista Dark Horse Presents, a primeira história de Sin City teve ótima repercussão, sendo reunida em livro e dando origem a uma bem-sucedida sequência de minisséries lançadas pelo selo Legend. Negando a superexploração visual pela qual os comics passavam na época, com suas HQs policiais em preto e branco, Miller resgatou elementos que andavam meio esquecidos nos quadrinhos norte-americanos. Efeitos de luz e sombra, uma história que justifique as sequências de ação, não existindo apenas em função delas, e uma narrativa que tenha um "fio condutor" são alguns dos elementos recuperados em Sin City. Além disso, nas seções de cartas das minisséries, Miller engajou-se num longo e acalorado debate contra os sistemas de censura do mercado norte-americano de quadrinhos. Mas o que mais impressionou em Sin City foi seu visual.

Alguns elementos, como um traço característico e conciso ou a narrativa rápida e com pouco texto, foram sendo aperfeiçoados por Miller ao longo de sua carreira. O que Sin City trouxe de inovador foi um uso peculiar do contraste entre luz e sombra. Esse novo estilo é composto principalmente por massas de preto e branco, empregadas de tal forma que os quadros parecem sempre iluminados por um clarão. Na verdade, esse recurso não foi criado originalmente por Miller, sendo em parte influenciado por Hugo Pratt, mas principalmente por Alberto Breccia, o desenhista argentino da série Mort Cinder. Nesta, a luminosidade e as sombras são utilizadas com o objetivo de reforçar o clima de tensão e mistério das histórias, enquanto no trabalho de Miller o efeito é empregado para destacar os personagens e as sequências de ação. Contudo, o quadrinista norte-americano parece ter se acostumado demais ao estilo e temáticas de Sin City, fazendo com que os volumes seguintes começassem a ser apenas “mais do mesmo”.

Enquanto trabalhava em novas HQs de Sin City, Miller produzia roteiros para diferentes desenhistas. Assim surgiram Martha Washington Goes to War e outras edições com a personagem desenhada por Dave Gibbons, a premiada The Big Guy and Rusty com as detalhadas ilustrações de Geof Darrow, bem como a apocalíptica e surrealista Bad Boy, produzida em parceria com Simon Bisley, como parte de uma aberta campanha contras as restrições aos temas abordados nos quadrinhos. Outro exemplo disso foi a revista Tales to Offend, na qual Miller apresenta o personagem Lance Blastoff, um mercenário interplanetário sem escrúpulos que vive atrás de diversão e dinheiro, matando dinossauros e poluindo reservas ambientais. Ao fim da década de 1990, Miller ainda lançaria com Lynn Varley a minissérie 300, sua estilizada e superestimada versão para a batalha das Termópilas.

O novo século trouxe Miller de volta à DC Comics e a um dos personagens que o consagraram no início de sua carreira. Os resultados, no entanto, foram o absolutamente dispensável DK2 e o meramente comercial All Star Batman, este último desenhado por Jim Lee. Mas, talvez cause ainda mais arrepios a anunciada “Santo Terror, Batman!”, HQ em que o quadrinista promete mostrar o Homem-Morcego enfrentando os terroristas da Al-Qaeda. De qualquer forma, com o sucesso das adaptações de Sin City e 300, além do esperado filme Will Eisner’s The Spirit, o futuro de Frank Miller parece cada vez mais ligado ao cinema. E se seus quadrinhos dos últimos anos deixaram muito a desejar, podemos sempre celebrar suas obras do passado, dando nossos parabéns a esse importante quadrinista.

Para saber mais sobre os trabalhos de Frank Miller, clique no nome em destaque abaixo.

26/01/2008

Ronin, o “mangá” futurista de Frank Miller.


Nos anos 80, novos autores e tendências possibilitaram uma transformação nas HQs norte-americanas. Entre esses autores estava Frank Miller, que inovou a narrativa dos comics ao empregar elementos dos quadrinhos japoneses. Tudo começou quando chegou às suas mãos um grosso volume com o mangá Lobo Solitário (um sucesso no Japão, que narra a história de um samurai sem mestre e seu filinho Diagoro). Ao folhear o mangá pela primeira vez, Miller ficou impressionado com a narrativa visual impecável, o que teria uma influência decisiva em suas HQs (além de torná-lo um dos principais divulgadores da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima no Ocidente).

Após essa feliz descoberta, o quadrinista norte-americano passou a incorporar elementos narrativos de Lobo Solitário às HQs do herói Demolidor. Ele também introduziu personagens saídos da cultura japonesa, como ninjas e samurais, dando destaque à sensual assassina Elektra (que ganharia mais tarde uma minissérie pintada por Bill Sienkiewicz). Outro personagem que ganhou um tratamento à japonesa foi o mutante Wolverine que, na minissérie escrita por Chris Claremont e desenhada por Miller, viaja ao Japão, onde enfrenta ninjas e lutadores de sumô (além de aparecer com garras na forma de lâminas japonesas). Mas talvez a maior homenagem de Miller aos quadrinhos japoneses seja Ronin (marco fundamental na trajetória das graphic novels e minisséries de luxo).

Lançada em seis edições pela DC Comics e concluída em 1984, Ronin deu início à publicação das minisséries com temática mais adulta. Começando no Japão feudal, a HQ mostra um jovem samurai que busca vingar a morte de seu mestre. No confronto final contra o assassino, Ronin e o demônio Agat acabam aprisionados numa espada mágica, ressurgindo séculos depois numa caótica e altamente tecnológica Nova York do futuro. O roteiro se desenrola a partir daí, contando com muitos duelos de espadas, cenas do Japão feudal e hordas de robôs. Bastante original em sua fusão entre passado e futuro, elementos orientais e ocidentais, o enredo básico e a temática principal de Ronin seriam, anos mais tarde, copiados pela série de animação Samurai Jack (produzida por Genndy Tartakovsky para o Cartoon Network).

Mas é sem dúvida em termos narrativos e estilísticos que a minissérie de Miller causou maior impacto. Antecipando alguns dos elementos que o quadrinista desenvolveria posteriormente em O Cavaleiro das Trevas (como sequências de flash back e simulações de imagens de monitores), Ronin também chamou atenção pelas sequências de duelo inspiradas por Lobo Solitário (e aprimoradas a partir do que Miller já havia feito em Daredevil e Wolverine). No entanto, o que mais se destacou na minissérie foi seu visual bastante incomum para os padrões dos quadrinhos norte-americanos, com linhas tênues, emaranhados de traços e cores estilizadas (produzidas por Lynn Varley). Por tudo isso, Ronin se assemelhava mais a um álbum europeu do que a um comics da época (evidenciando a influência das HQs de Moebius e em particular do álbum Exterminador 17 de Enki Bilal).

Ronin não foi um enorme sucesso comercial quando lançada. De qualquer forma, a minissérie de Miller contribuiu para a popularização dos mangás no Ocidente, particularmente da série Lobo Solitário (cujas edições ocidentais contaram com capas desenhadas por ele). Os elementos da narrativa dos mangás utilizados por Miller também influenciaram outros quadrinistas, promovendo uma renovação dos comics. Além disso, a minissérie (lançada originalmente no Brasil há vinte anos) foi um marco na relação das grandes editoras norte-americanas com os autores mais renomados, que passaram a ter maior controle e direitos sobre suas criações. Só isso já faria de Ronin, o “mangá” futurista de Frank Miller, uma HQ decisiva para a história dos quadrinhos norte-americanos (que abriria caminho para O Cavaleiro das Trevas e Elektra Assassina, entre outras obras marcantes).

13/01/2008

Robôs gigantes, monstros gosmentos, Miller & Darrow.


Originalmente uma minissérie em duas partes, The Big Guy and Rusty foi lançada pelo selo Legend da Dark Horse, em 1995. O roteiro de Frank Miller e a minuciosa arte de Geof Darrow brincam com o universo dos quadrinhos e filmes japoneses de monstros e robôs. A história começa quando um grupo de cientistas japoneses (envolvidos numa experiência genética) dá vida a um maléfico monstro ancestral. Como acontece nos filmes de Godzilla, a gigantesca criatura passa então a arrasar Tóquio. Além de toda a destruição (que inclui explosões e desabamentos de prédios causados pelas chamas que o lagarto gigante lança), a “gosma” que cai da boca do monstro tem a estranha propriedade de transformar homens em répteis monstruosos. Incapaz de vencer a criatura com suas armas convencionais, o exército japonês coloca em ação um protótipo secreto: Rusty, o garoto robô.

Rusty é inegavelmente uma referência a Astro Boy, personagem criado pelo mestre dos quadrinhos japoneses, Osamu Tezuka. O Astro Boy original era um pequeno robô, com feições de criança e movido a energia nuclear, que lutava contra monstros e vilões. É exatamente isso que Rusty é (aliás, este não era o nome do menino que acompanhava o cão Rin Tin Tin em suas aventuras no Forte Apache?). Mas o pequeno Rusty (que na HQ de Miller representa o Japão) não consegue vencer o dragão gosmento. Desesperados, os líderes japoneses resolvem colocar o “orgulho nacional” de lado e pedem socorro a The Big Guy (um robô gigante que tem o design arredondado e os frisos metálicos dos carros e geladeiras dos anos 50). Como é óbvio que o “Grandalhão” representa os Estados Unidos, o final da história você pode imaginar.

Ao resgatar o universo temático das HQs e filmes dos anos 50, Miller não utilizou apenas seus personagens (robôs e monstros), como copiou o estilo dos textos. O proposital excesso de adjetivos e o uso de jargões, como “The Big Guy is on the move!” (O Grandalhão está a caminho!), reforçam a figura do herói e a dramaticidade dos ataques do monstro. E como nas antigas HQs, o herói que representa os Estados Unidos chega na última hora para salvar o mundo. Mas, deixando de lado o ufanismo de Miller, os desenhos em The Big Guy and Rusty merecem um destaque à parte. Cada um dos quadros de Darrow é uma galeria de minuciosos e às vezes quase imperceptíveis detalhes. A minúcia visual, na reconstituição de Tóquio ou no desenho de cada personagem em cena, sugere um domínio da técnica pouco comum nos quadrinhos em geral, além de uma paciência quase oriental. Em uma das cenas, o monstro estraçalha um vagão do metrô, lançando ao ar estilhaços de metal; o que não se nota a princípio é que, em meio aos estilhaços, Darrow desenhou dezenas de pessoas voando pelos ares (mórbido, mas tecnicamente impressionante).

Após o sucesso da minissérie original, que ganhou prêmios pela arte de Darrow, foram lançadas uma reedição reunindo as 65 páginas da HQ, além de uma nova edição, The art of The Big Guy and Rusty, sem texto e em preto e branco. No fim dos anos 90, os personagens criados por Miller e Darrow ganharam uma série de desenhos animados para a tevê.

27/11/2007

A insana relação entre Batman e Coringa.


Sou de uma época em que os personagens dos quadrinhos eram tratados em primeiro lugar como “personagens”, e não como “franquias” a serem exploradas em novos sucessos de vendas ou bilheterias. Assim, pelo menos para nós leitores, heróis e vilões pareciam ter uma personalidade e uma trajetória que se transformava ao longo do tempo. Batman e Coringa são bons exemplos disso. Nos quadrinhos dos anos 80 e 90, seus encontros foram marcados por um "jogo de gato e rato", em que cada vez se tornava mais difícil distinguir qual dos dois era o mais insano.

Foi com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller que o estranho relacionamento entre o Homem-Morcego e seu principal inimigo adquiriu uma dimensão mais "doentia". De um lado, o soturno vigilante obcecado por sua missão; do outro, o psicopata excêntrico e homicida. Em seu embate final, ao passarem por uma Casa dos Espelhos, a dialética que os movia tornou-se evidente: herói e vilão apresentavam-se como figuras complementares, a existência de um justificava a do outro. Não é por menos que o desfecho da história acontece com um abraço mortal, dentro do Túnel do Amor.

Essa abordagem “psicológica” foi retomada em A Piada Mortal dos ingleses Alan Moore e Brian Bolland, edição na qual a origem do Coringa é contada. Sendo o personagem central da história, ele aparece como um vilão sádico e amoral que desconhece quaisquer limites, enquanto Batman só se preocupa em desempenhar o papel de guardião de Gotham City, a ponto de seu único elo com a vida cotidiana ser o mordomo Alfred. Buscando uma abordagem mais realista dos super-heróis, a HQ é marcada por cenas de violência explícita. O próprio Alan Moore chegou a admitir que teria ido um pouco além da conta, num roteiro em que o Coringa aleija e abusa de Bárbara Gordon, além de torturar seu pai, para no fim acabar às gargalhadas, num quase abraço com o Batman.

O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal colocaram Batman na linha de frente da renovação que caracterizou os comics na década de 1980, além de transformarem o Coringa no vilão mais famoso e cultuado dos quadrinhos. Não é à toa que as duas obras foram a base para o roteiro e temática do badalado filme Batman de 1989, que teve o ator Jack Nicholson no papel do Coringa. Mas é preciso não nos esquecermos de que foi o seriado de tevê dos anos 60, com a ótima atuação de Cesar Romero no papel do “palhaço do crime”, que tornou Batman um personagem tão popular, até mesmo entre aqueles que não liam quadrinhos. Contudo, foi mesmo a abordagem mais adulta dos roteiros de Miller e Moore que estabeleceu um novo patamar a partir do qual outros autores puderam criar suas histórias.

Um bom exemplo é Asilo Arkham, criada por Grant Morrison e Dave McKean, que tem como tema central a história da própria instituição para loucos criminosos. Ao longo das páginas dessa exuberante graphic novel, o Homem-Morcego faz um tour pelo manicômio onde estão internados seus principais inimigos. Porém, a viagem acaba se revelando um mergulho na própria alma do herói, torturado pela dor e culpa da morte de seus pais. O mestre de cerimônias não poderia ser outro, é claro, senão o Coringa. Mas a HQ enfrentou censura por parte dos editores da DC Comics, que temiam a possibilidade de ela prejudicar a imagem de um de seus principais personagens. O motivo principal: a sequência em que o Coringa, mais afetado e abusado do que nunca, faz uma alusão perniciosa ao relacionamento entre Batman e Robin.

Do ponto de vista técnico e temático, Asilo Arkham é um bom exemplo do avanço qualitativo dos quadrinhos de super-heróis nos anos 80. Produzida por autores britânicos, a HQ tem um texto que lida com assuntos pouco comuns nos quadrinhos norte-americanos, sem falar num visual impressionante que mistura desenho, pintura, fotografia e colagem. Após essa elaborada obra, parecia que nada de novo poderia ser acrescentado ao relacionamento entre Batman e Coringa. Mas então surgiu Arlequina!

Nascida na série de animações do Batman lançada em 1992, Arlequina revelou-se uma das vilãs mais sensuais e espirituosas dos últimos tempos. Na HQ especial “Louco Amor”, publicada no Brasil nas revistas Batman - O Desenho da TV nºs 14 e 15, sua origem e seu relacionamento amoroso com o Coringa são mostrados de forma inteligente e até ousada. Contratada para trabalhar no Asilo Arkham, a psiquiatra Harley Quinzel acaba se apaixonando por um paciente. Só que o paciente em questão é ninguém menos que o Coringa, e isso leva Harley a iniciar uma carreira no crime, provando que "de médico e louco todo mundo tem um pouco". Para Frank Miller, a HQ produzida por Paul Dini e Bruce Timm foi a melhor história do Batman na década de 1990, opinião com a qual concordo plenamente.

Em 2008, será lançado The Dark Night, um novo filme do Homem-Morcego, que terá o Coringa como vilão principal. Com ele, a insana relação entre os personagens ganhará um novo capítulo e certamente também se intensificará nos quadrinhos. Enquanto o filme não chega, as ótimas HQs citadas neste texto valem ser lidas ou relidas. Com alguma pesquisa, O Cavaleiro das Trevas, A Piada Mortal, Asilo Arkham e “Louco Amor” podem ser encontradas em lojas virtuais, nas edições originais ou em português. Por sua qualidade artística e importância para a história dos quadrinhos, essas HQs não podem faltar na coleção de nenhum bat-fã.

24/11/2007

O retorno do Cavaleiro das Trevas.


Na história dos quadrinhos, poucas revistas causaram tanto impacto quanto Batman: The Dark Knight Returns, lançada pela DC Comics em 1986. Apresentando um herói cinquentão e obstinado que luta para salvar uma caótica Gotham City do futuro, esta minissérie em quatro edições ajudou a transformar o mercado norte-americano, abrindo caminho para as graphic novels e minisséries de luxo. A partir dela, os editores perceberam que quadrinhos de super-heróis voltados para um público mais maduro poderiam ser um bom negócio. Escrita e desenhada por Frank Miller, arte-finalizada por Klaus Janson e pintada por Lynn Varley, Batman: O Cavaleiro das Trevas (título que a HQ recebeu no Brasil em 1987) também inauguraria um novo padrão artístico para os quadrinhos de super-heróis.

Ao iniciar a história, Miller sabia que estava lidando com importantes ícones culturais, sem falar nos milhões de dólares que giram em torno do “bat-símbolo” e do “super-S”. E o que ele fez, ao longo das 200 páginas da história, foi justamente resgatar o caráter original dos personagens, recuperando sua força arquetípica, minada por décadas de plágios e HQs estereotipadas. Mas o sucesso avassalador da minissérie não se deveu apenas à qualidade do roteiro, narrativa e desenhos. Miller já era um dos artistas mais valorizados do mercado norte-americano e, graças ao seriado de tevê dos anos 60, Batman era um fenômeno cultural que extrapolava os quadrinhos (lembremos inclusive que muitos dos jornalistas e críticos que saudaram efusivamente a minissérie, em 1986, eram crianças ou jovens nos anos 60).

Contudo, a hilária série de tevê estrelada por Adam West estava muito distante da abordagem pretendida por Miller, que contou com outros referenciais para sua versão séria dos super-heróis. Ainda nos anos 70, os quadrinistas Denny O’Neill e Neal Adams haviam produzido boas HQs buscando o caráter mais sombrio de Batman, e já nos anos 80 Alan Moore tinha feito a primeira recriação racionalista de um antigo super-herói, com a série Marvelman (que Miller homenageia, desenhando um garoto vestido como o herói britânico, na página 11 do último capítulo de sua minissérie).

Em O Cavaleiro das Trevas, os personagens são o elemento fundamental de um politizado roteiro. Batman aparece como um guerreiro imbatível movido por um único propósito: combater o crime, mesmo que para isso seja necessário infringir a Lei. Já o Super-Homem apresenta-se como o defensor da Lei, mesmo que isso signifique ser um mero “garoto de recados” do governo norte-americano. Alfred continua sendo o fiel e espirituoso escudeiro de Batman. O Coringa representa tudo que ele mais abomina, enquanto o comissário Gordon, os valores morais que o herói quer defender. E há a Robin, uma adolescente que conquista o afeto do herói cinquentão. Isso sem falar numa plêiade de personagens coadjuvantes.

Ao longo da história, o que une personagens tão diversos é o fato de todos estarem à sombra de Batman, servindo-lhe de contraponto e sempre reforçando sua figura quase monolítica. Neste sentido, o Cavaleiro das Trevas criado por Miller é uma reação ao que vinha acontecendo desde os anos 70, quando a indústria dos comics foi afetada pela crise econômica e moral nos Estados Unidos. Naquele momento, os super-heróis clássicos (depositários do otimismo e nacionalismo norte-americanos) perderam sua credibilidade. Afinal, enquanto o antes imbatível Capitão América era derrotado no Vietnã, nem mesmo o quase onipotente Super-Homem era capaz de superar a recessão econômica e os escândalos políticos.

Ambientada num futuro próximo, no qual um senil Ronald Reagan é o presidente do país, a obra de Miller reflete o novo clima político e social da década de 1980. Na Gotham City do futuro, a redução dos fundos destinados à assistência social, a corrupção e incompetência dos políticos, o efeito estufa e uma eminente guerra nuclear contra a União Soviética são algumas das causas da violência e insegurança que tomam conta da sociedade. Nessa “terra de ninguém”, dominada por gangues de adolescentes assassinos, Batman é o herói redentor, cujo retorno é aguardado (algo como Rei Arthur ou Jesus Cristo). Entretanto, por mais que Miller critique o governo e os políticos, há algo que é sempre resguardado em suas HQs: um suposto espírito empreendedor norte-americano, incansável em sua busca por justiça. Diante de um governo decadente, as ações ilegais do Cavaleiro das Trevas estariam assim justificadas. Com isso, o Super-Homem, “que sempre diz sim a alguém com um distintivo ou bandeira”, é enviado para deter o subversivo Batman.

Quanto ao visual, o estilo rebuscado dos desenhos de Frank Miller e Klaus Janson, somado às cores de Lynn Varley, dá maior densidade aos personagens e veracidade à história. Mas é em termos de narrativa que O Cavaleiro das Trevas trouxe sua maior contribuição à arte dos quadrinhos. Nas HQs do Demolidor, além de uma narrativa “cinematográfica”, Miller misturou influências de Will Eisner ao mangá Lobo Solitário. Já em Ronin, somaram-se elementos dos europeus Moebius e Bilal. O Cavaleiro das Trevas é uma síntese dessas experiências, acrescentando-se a influência de Hugo Pratt, que recebe citações diretas (a ilha em que se dá o conflito entre EUA e URSS chama-se Corto Maltese e, no segundo capítulo, a página que mostra a bandeira norte-americana transformando-se no “S” do Super-Homem foi adaptada de uma HQ do quadrinista italiano).

Narrativa subjetiva, enquadramentos em pormenor, valorização da sequencialidade, zooms, flashbacks, intercalação de narrativas e imagens de página inteira são alguns dos recursos empregados de forma articulada e original por Miller. Fizeram escola o uso dos quadros em forma de telinha de tevê e a sequência da morte dos pais de Bruce Wayne. Logo no primeiro capítulo, uma lição de como prender a atenção do leitor (ao estilo do filme Tubarão de Steven Spielberg): passam-se 27 das 47 páginas, antes que Batman surja triunfal, numa página inteira. O Cavaleiro das Trevas também influenciou a forma de se abordar os super-heróis, que se tornariam mais violentos nos anos seguintes (como se para imprimir mais “realismo” e atrair o público fosse necessário estar sempre superando a agressividade das edições anteriores). Por outro lado, a obra de Miller abriu caminho para trabalhos que deram continuidade ou reforçaram suas conquistas, como Batman: Ano Um, A Piada Mortal, Asilo Arkham, Batman 1889, além da ótima série de animação lançada pela Warner em 1992.

O fato é que, a partir de O Cavaleiro das Trevas com sua abordagem mais “realista”, os quadrinhos de super-heróis passaram a ser vistos com outros olhos. O caráter politizado da minissérie, mas principalmente a qualidade gráfica, o elaborado roteiro e a narrativa inovadora deram-lhe o título de clássico dos quadrinhos, tornando-a uma referência para novos autores. Com ela, Frank Miller tornou-se um nome reconhecido internacionalmente e o Homem-Morcego viveu novamente uma onda de “batimania”, que incluiu filmes, desenhos animados, brinquedos e várias bugigangas. Sobretudo, esta HQ é uma leitura indispensável para os fãs do Batman, e também do Super-Homem.

Atualmente, O Cavaleiro das Trevas está disponível no Brasil em duas edições (capa dura e brochura) lançadas pela
Panini. O volume inclui extras e também DK2, a coloridinha e dispensável sequência que Miller produziu há alguns anos.

22/11/2007

Recriando "lendas" dos quadrinhos.


Nos anos que se seguiram à publicação de Crise nas Infinitas Terras, a editora DC Comics investiu em novas séries e edições especiais, cujo objetivo era recontar a origem de seus principais heróis. O resultado foram trabalhos de qualidade, que ajudaram a dar vida nova a verdadeiras "lendas" dos quadrinhos.

Super-Homem foi o primeiro e mais popular dos super-heróis. Desde que apareceu em 1938, o Homem de Aço enfrentou todo o tipo de vilões e ameaças: de maléficos nazistas a monstros alienígenas, passando por andróides enlouquecidos e meteoritos radioativos. Mas nem o maior super-herói da DC ficou imune à tendência racionalista dos anos 80. Era preciso tornar o Super-Homem mais verossímil, encontrar explicações para seus poderes e amadurecer seu relacionamento com Lois Lane.

A tarefa ficou a cargo de John Byrne que, com a minissérie The Man of Steel, não só recontou a origem do personagem, mas estabeleceu limites para seus poderes e fraquezas. Nas histórias de Byrne, lançadas em 1986, Clark Kent ganhou uma maior autonomia e personagens como Lex Luthor e Lois Lane tornaram-se algo mais que clichês do “vilão cientista maléfico e louco” e da “linda mocinha a ser salva”. Em outras palavras, Byrne tornou o Super-Homem um personagem atualizado e adaptado ao ambiente e público da época. E ele foi apenas o primeiro da lista!

Com as HQs que criou para o Demolidor no início da década de 1980, Frank Miller tornou-se o desenhista mais inovador dos quadrinhos norte-americanos. Quando a DC resolveu reagir à perda de mercado, apostando em novos projetos, Miller recebeu sinal-verde para produzir Ronin, HQ-laboratório em que ele testou estilos, técnicas e influências. Em seguida veio O Cavaleiro das Trevas: uma das HQs mais impactantes e influentes da história dos quadrinhos norte-americanos. Seguindo o sucesso desta série, Miller foi contratado para recontar a origem do Homem-Morcego, produzindo em 1987 a excelente Batman: Ano Um, feita em parceria com o desenhista David Mazzucchelli.

Mais sombrio do que antes e atormentado pela morte de seus pais, Batman tornou-se o contraponto ideal para o Super-Homem (num antagonismo já presente em O Cavaleiro das Trevas). Por algum tempo, também Byrne e Miller foram identificados pelos leitores como a “luz” e as “trevas” nos quadrinhos de super-heróis, numa percepção alimentada pelos editores (embora talvez seja mais correto dizer, como bem resumiu um amigo, que: “Byrne nos fazia entrar para os quadrinhos, mas era Miller que nos mantinha lá”). Inegavelmente, foram O Cavaleiro das Trevas e Batman: Ano Um que fizeram do Homem-Morcego um personagem interessante e sério novamente (tarefa difícil, se levarmos em consideração a imagem jocosa que se associou a ele após o popular seriado de tevê dos anos 60).

Mesmo com Super-Homem e Batman ganhando uma vida novinha em folha, faltaria ainda a terceira personagem principal da DC Comics. Contudo, todos sabem que desenvolver histórias com super-heroínas não é algo muito fácil. Há obviamente uma tendência à erotização e até mesmo à ridicularização das personagens femininas. E isso se agrava se a super-mulher em questão nasceu numa ilha grega isolada do resto do mundo, mas enfrenta seus inimigos vestindo uma fantasia baseada na bandeira dos Estados Unidos. Assim, podemos dizer que o desenhista George Pérez, auxiliado pelos roteiristas Greg Potter e Len Wein, fez quase um milagre ao recontar a origem da Mulher-Maravilha.

Utilizando deuses e monstros da mitologia grega, os autores redefiniram a origem dos poderes da heroína e até arranjaram uma explicação para seu calção azul com estrelinhas brancas. Além disso, nos desenhos da nova série, Pérez pôde mostrar seu talento e cuidado com os detalhes, ao desenhar as divindades gregas e a arquitetura do próprio Olimpo (pessoalmente, posso dizer que ler aquelas HQs, repletas de deuses e referências mitológicas, aumentou meu interesse pelo campo da História, contribuindo para que alguns anos depois eu escolhesse esse curso na faculdade).

Na trilha do que Alan Moore fizera com Marvelman e Monstro do Pântano, a principal lição que o trabalho de Miller, Byrne e Pérez deixou para as HQs de super-heróis foi mostrar que a literatura, as artes em geral e a própria vida real podem e devem ser fontes de inspiração para os autores de quadrinhos. Tanto é que, com as reformulações de meados dos anos 80, a DC conseguiu reorganizar seu elenco de personagens, tornando-os atrativos para um público mais exigente e maduro. E este trabalho continuaria com outros personagens (como Gavião Negro, Aquaman e Homem-Animal), tendo um ponto central na minissérie Lendas, que contou com os desenhos de John Byrne e abriu caminho para a nova Liga da Justiça.

Infelizmente, nas inúmeras minisséries e edições especiais surgidas nos últimos anos, os temas introduzidos e as contribuições trazidas por aqueles trabalhos foram explorados à exaustão. A indústria dos comics, mais uma vez, não soube se livrar de seu maior defeito: a teimosia em transformar qualquer boa idéia numa “fórmula do sucesso” a ser repetida à exaustão. É claro que, para os antigos e novos leitores, há sempre a opção de rever aquelas ótimas histórias que recriaram alguns dos principais personagens dos quadrinhos.

15/11/2007

Frank Miller: demolindo padrões dos quadrinhos.


Em 1979, um jovem e desconhecido desenhista chamado Frank Miller assumiu o lápis da revista Daredevil da Marvel Comics. No início, ele apenas desenhava as histórias escritas por Roger McKenzie, mas em pouco tempo passou a colaborar com o roteirista, para em seguida assumir também os roteiros. O fato é que, quando Miller desenhou sua primeira edição da Daredevil, a revista estava em vias de ser cancelada. Quando ele a deixou, em 1983, a publicação havia se tornado uma das mais vendidas e influentes do início dos anos 80, fazendo do Demolidor um personagem de primeira linha da Marvel, e de Frank Miller um nome conhecido e respeitado nos quadrinhos.

As histórias e os desenhos de Miller, complementados pela arte-final precisa de Klaus Janson, trouxeram uma ambientação e um realismo raros nos quadrinhos de super-heróis. Seus enquadramentos mostrando personagens de corpo inteiro, bem como seus “cortes” rápidos, valorizavam as sequências de ação, evidenciando a influência da narrativa cinematográfica moderna. Suas diversificadas e criativas divisões de página sublinhavam o “clima psicológico” dos roteiros, seguindo a risca os ensinamentos do mestre Will Eisner. E, é claro, há o elemento que conquistou os jovens leitores norte-americanos e brasileiros nos anos 80: a influência do mangá Lobo Solitário de Kazuo Koike e Goseki Kojima, do qual Miller pegou emprestado não apenas sequências de quadros, mas também samurais, ninjas, katanas, estrelinhas mortais e toda sorte de elementos japoneses. Não é à toa que, após salvar a revista do desaparecimento, Miller apresentou sua principal criação: a personagem Elektra, uma antiga namorada do Demolidor, que se tornara uma sensual assassina ninja.

Com grande atenção aos detalhes e à construção psicológica dos personagens, Miller se fez valer de narrativas paralelas (em que os leitores seguem ao mesmo tempo duas linhas de ação) e também de enquadramentos subjetivos (em cenas desenhadas a partir do ponto de vista de um personagem). Tornou-se célebre a página em que o Demolidor aponta uma arma para o rosto do Mercenário, com a "câmera" se aproximando do olho do vilão nas passagens de quadro, até o momento extremo, quando a sequência é cortada e aparece o dedo do Demolidor puxando o gatilho. O herói não aparece, mas toda a tensão e a carga emocional que envolve a cena estão presentes nos olhos do vilão. Se não bastasse a inovação narrativa, o tema em si era bastante incomum para os comics, pois mostra o protagonista da história fazendo roleta-russa com o assassino de sua amada. Para os padrões dos quadrinhos de super-heróis, algo revolucionário! Miller tocou em temas nunca vistos em histórias da Marvel, tudo com uma abordagem direta. Ele utilizou a vida cotidiana e o pequeno mundo do crime presente nas grandes cidades. Seus heróis eram tão realistas quanto seus vilões: pessoas com problemas comuns, paixões e medos.

Com a qualidade e a boa repercussão alcançada por suas histórias, Miller tornou-se uma espécie de “autor oficial do Demolidor”, e isso mesmo após sua saída da revista Daredevil. Mas para a alegria dos fãs, ele não demoraria muito a retornar às HQs do “homem sem medo” e da enigmática Elektra. Em parceria com o artista Bill Sienkiewicz, Miller criou em 1986 a Graphic Novel do Demolidor e a minissérie Elektra Assassina (obras que inovaram a estética dos quadrinhos de super-heróis, abrindo espaço para HQs com arte pintada). Ao mesmo tempo, ele retomou os roteiros da revista Daredevil, com a ótima série de histórias que ficou conhecida no Brasil como A queda de Murdock (desenhada pelo talentoso David Mazzucchelli). No início dos anos 90, Miller retornaria aos personagens que fizeram sua fama em duas histórias: Elektra Vive, uma graphic novel que demorou mais de cinco anos para ser concluída (gerando uma enorme expectativa entre os leitores, mas não correspondendo no fim) e Demolidor - O Homem Sem Medo, minissérie desenhada por John Romita Jr. (que repete a fórmula de Batman: Ano Um, mas sem o mesmo resultado).

Tendo sido um marco para os quadrinhos de super-heróis no início dos anos 80, as primeiras histórias de Frank Miller para o Demolidor contribuíram para mostrar aos editores que o público estava pronto e, sobretudo, desejava histórias mais sofisticadas com desenhos mais elaborados. Consideradas hoje um clássico dos quadrinhos de super-heróis, essas histórias foram relançadas no Brasil pela Panini em 2003, sendo recentemente reunidas pela Marvel no volume Daredevil by Frank Miller & Klaus Janson Omnibus HC, um calhamaço de capa dura e 816 páginas, ao preço de $99.99 US. Quando as histórias foram lançadas originalmente, não foi necessária tanta sofisticação editorial: bastaram simples revistinhas em papel-jornal, que custavam apenas cinquenta centavos de dólar e traziam o talento inovador de um jovem desenhista que demoliu velhos padrões dos quadrinhos.

05/11/2007

Legend, um selo de qualidade nos quadrinhos.


Nos anos 80, os quadrinhos de super-heróis da Marvel e DC passaram por uma das melhores fases de sua história. A influência das HQs européias e japonesas, os trabalhos produzidos pelos autores ingleses e uma maior sofisticação das edições deram origem a uma revolução qualitativa nos comics. Em 1993, alguns dos autores responsáveis por aquele excepcional momento decidiram se juntar para lançar o selo Legend.

A idéia de reunir um grupo de quadrinistas (baseando-se na qualidade de seus trabalhos e objetivando a manutenção dos direitos autorais das HQs e personagens) partiu de Frank Miller e John Byrne. Segundo Miller, esta era uma idéia antiga que voltou à tona em 1992, quando Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld criaram a Image Comics (editora que sacudiu o mercado norte-americano de quadrinhos, abalando a hegemonia da Marvel e DC).

No início da década de 1990, Miller e Byrne estavam envolvidos em projetos lançados pela Dark Horse (editora que se tornara conhecida por lançar quadrinhos autorais e adaptações de filmes para as HQs). Miller havia escrito as minisséries Liberdade (desenhada por Dave Gibbons) e Hard Boiled (ilustrada por Geof Darrow), e estava produzindo a série Sin City. Já Byrne começava a desenvolver a série Next Men (que originalmente havia sido planejada para ser a base do universo Marvel 2099).

Motivados pelos resultados alcançados pela Image, Miller e Byrne resolveram reunir um grupo de quadrinistas, que contava com o talento de Mike Mignola, Dave Gibbons, Arthur Adams, Mike Allred, Paul Chadwick e Geof Darrow. Assim nascia o selo Legend, com o qual as histórias e personagens do grupo seriam publicadas pela Dark Horse, mas permanecendo como propriedade de seus autores. Os variados estilos, a originalidade e a identificação do trabalho com seu autor eram elementos marcantes nas revistas do Legend (algo muito diferente de se ter um bando de desenhistas-dublês que copie o estilo de um autor mais famoso).

Através do selo, Miller passou a publicar as novas histórias com a personagem Martha Washington (desenhadas por Dave Gibbons), as novas minisséries de Sin City, além de lançar a HQ The Big Guy and Rusty (desenhada por Geof Darrow). John Byrne levou para Legend a série Next Men, com seus super-heróis de um mundo sombrio. Paul Chadwick chegou com as HQs de Concreto, um introspectivo personagem dividido pelo desejo de ser um herói e os problemas causados por seu corpo monolítico. Arthur Adams lançou a série Monkeyman and O’Brien, com as histórias de um gorila extradimensional e sua companheira fortona. Mike Allred transferiu para o selo seu personagem Madman, uma estranha mistura do Capitão Marvel com o Monstro de Frankenstein. Mike Mignola trouxe Hellboy, uma série de histórias estreladas por um heróico demônio simiesco.

A experiência do selo Legend não durou muito, mas séries como Sin City e Hellboy frutificaram em várias continuações, mesmo após o selo deixar de ser usado (e se hoje as criações de Miller e Mignola alcançam notoriedade internacional através dos filmes de Hollywood, isso em grande parte se deve à semente lançada em 1993). O fato é que as revistas com o selo Legend não seguiam o padrão de produção industrial dos comics em geral, aproximando-se da forma como os artistas europeus criam suas HQs. Sem se preocupar em criar personagens e histórias para serem transformados em brinquedos ou desenhos animados, os integrantes do grupo Legend mostraram como conciliar interesses editoriais e qualidade artística. E esta é uma lição que não deveria ser esquecida!

04/11/2007

A marcante minissérie do Wolverine.


Publicada nos Estados Unidos em 1982, Wolverine reuniu dois grandes astros dos quadrinhos de super-heróis: Chris Claremont que conseguira (em parceria com John Byrne) transformar os X-Men nos personagens mais lidos dos comics, e Frank Miller que fizera da revista do Demolidor uma das mais inovadoras do mercado norte-americano. A minissérie Wolverine é o encontro dessas duas experiências bem-sucedidas, numa HQ dedicada a um personagem em ascensão. Como resultado, aquelas quatro revistas deram início à “wolverinemania”.

A história de Wolverine começa no Canadá e faz referências à época em que o herói era um agente-secreto do governo canadense (o que dá ao roteiro um estilo James Bond). Mas as ligações com as HQs dos X-Men criadas por Claremont e Byrne terminam na sétima página da minissérie. Para encontrar um amor do passado, o herói mutante viaja ao Japão, onde tem que enfrentar ninjas e mafiosos japoneses (bem no estilo dos quadrinhos de Frank Miller).

Os personagens coadjuvantes e a temática de Wolverine estão mais próximos das histórias do Demolidor, do que das HQs dos X-Men. Logo, era de se esperar que o herói mutante ficasse um tanto deslocado, mas isto não acontece, graças às alterações introduzidas por Miller. Além de adaptar o personagem a seu estilo de desenho, Miller modificou o formato de suas garras (que passaram a se assemelhar a lâminas de espadas japonesas) e alterou sua postura e técnicas de luta, aproximando-o dos ninjas e samurais. Contudo, essas mudanças por si sós não resumem as inovações desta HQ.

Ao lidar com ninjas e samurais, Miller inspirou-se na narrativa dos quadrinhos japoneses, criando cenas de luta bastante eficientes. Dividir a página em 4 ou 5 quadros alongados (algo comum no mangá Lobo Solitário) permite ao desenhista representar os personagens e a ação por inteiro, privilegiando o dinamismo da cena. Se a história de Claremont (com suas referências à “honra” e aos “tradicionais costumes japoneses”) não é nenhuma obra-prima, a narrativa e os desenhos de Miller foram decisivos para o sucesso da minissérie. Com ela, surgia um Wolverine mais violento e impiedoso, que deixaria marcas na trajetória do personagem (e até de seus vários “clones”) nas décadas seguintes.
No Brasil, a minissérie Wolverine foi lançada pela editora Abril em 1987 e relançada mais recentemente pela Panini em volume único. Em 2006, a Marvel relançou o trabalho de Claremont e Miller numa edição em capa-dura para a série Premiere.