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11/07/2011

Alienz: uma página no lápis.


O resultado de todas essas ideias, brilhantemente executadas por Pansica, é o que vemos nas páginas da revista Alienz, como esta reproduzida aqui no lápis original.

Alienz: estudos de personagens (6).


Como prêmio de consolação pela aparência desfavorável, os Harmonizadores ganharam flutuadores bastante estilosos.

Alienz: estudos de personagens (5).


Desprovidos daquela propriedade quântica, os Harmonizadores são bem menos agradáveis de se ver, embora tenham melhorado muito desde um primeiro esboço muito “robótico”, até um desenho definitivo em que lembram mais um simpático gafanhoto.

Alienz: estudos de personagens (4).


É graças à propriedade da física quântica, segundo a qual o ato da observação influencia o objeto observado, que Pansica pôde nos agraciar com uma imagem humanizada das belas e sensuais Binárias Artêmix.

Alienz: estudos de personagens (3).


Pansica também fez vários esboços para os tronos-bolha em que os cidadãos flutuam pelos céus de sua cidade dos sonhos, em Alienz.

Alienz: estudos de personagens (2).


Como queríamos cuidar de todos os detalhes do planeta alienígena de Alienz, não poderíamos deixar de lado as roupas dos Cidadãos, com seu corte solene e suas padronagens geométricas.

Alienz: estudos de personagens (1).


Tentando achar a forma ideal para os Cidadãos de Alienz, deixamos de lado as opções mais esquisitas ou ameaçadoras, para algo mais “frio” e “reptiliano”, sem orelhas e com os tais 6 dedos que deram muito trabalho a Pansica.

Criando novos mundos com Alienz.


Em maio de 2006, após iniciar o roteiro de “O Melhor dos Mundos Possíveis”, eu me encontrei com o quadrinista e empresário Cristiano Seixas na então sede do Big Jack Studio, em Belo Horizonte (MG). Em meio a outros assuntos de trabalho, perguntei a ele se algum dos desenhistas do estúdio estaria disponível para trabalhar no projeto de uma revista de ficção científica. Quando me perguntou sobre o estilo que eu tinha em mente, lembrei das páginas que ele me mostrara semanas antes. Cristiano disse então que o autor daqueles impressionantes desenhos poderia sim ter interesse em trabalhar comigo. Alguns dias e telefonemas depois, marcamos uma reunião para darmos início ao projeto. E embora Eduardo Pansica tenha se esquecido de ir a nossa primeira reunião, tê-lo escolhido como desenhista para Alienz foi uma das ótimas decisões de minha trajetória editorial independente.

Quando finalmente nos encontramos na última semana de maio, Pansica já tinha visto as primeiras páginas do roteiro, bem como o material de referência visual que eu havia deixado. Assim, ele tinha uma noção geral do conceito do projeto, mas isso não o poupou de ouvir uma enxurrada de informações sobre uma suposta civilização alienígena baseada em princípios científicos e conceitos filosóficos. Seres quase nada humanos, com grandes crânios desprovidos de cabelos, peles de diferentes cores e, é claro, 6 dedos em cada mão. Havia também as duas castas de servos ciberorgânicos: Binárias Artêmix, belas guerreiras com extenso poder e 5 dedos em cada mão; e Harmonizadores, a mão-de-obra daquele planeta alienígena, com aparência mais robótica e 4 dedos em cada mão.

Havia, é claro, o planeta Pletora em si, do qual veríamos dois cenários principais: a Hipérpolis, um gigantesco aglomerado urbano com prédios de uma inusual arquitetura; e os Campos de Ciberlótus, as flores-casulo onde as Binárias aguardam o momento de entrar em cena. A orientação estética geral era usar formas mais orgânicas, estabelecendo equilíbrios e simetrias visuais. Para terminar de compor o ambiente “edênico”, havia os tronos-bolha em que os cidadãos viajam pelos céus de Pletora, as melódicas e delirantes flores dos Jardins de Oniroflores e, como não poderia faltar, a “serpente” desse suposto paraíso alienígena: um fractal gigante capaz de assimilar as criaturas orgânicas a seu redor.

Com toda essa informação, Pansica foi para casa desenhar. Alguns dias depois, começamos uma correspondência virtual, repleta de desenhos e esboços. Quase um ano mais tarde, aqueles primeiros desenhos e estudos viriam a ser a HQ “O Melhor dos Mundos Possíveis”, publicada na revista Alienz.

Um roteiro para Alienz.

Claro que aqueles pequenos esboços eram apenas “anotações”, às vezes repetidamente corrigidas antes que o roteiro tomasse sua forma mais acabada. E isso acontece, em geral, em desenhos de aproximadamente 15cm x 10,5cm, como os da sequência acima, parte do roteiro desenhado da HQ “O Melhor dos Mundos Possíveis”, da revista Alienz.

Paralelamente à elaboração do roteiro desenhado, o texto das legendas e balões vai sendo escrito por mim no computador. Quando tudo está pronto, é a vez de o desenhista começar a dar a forma final à HQ. Mas esse processo envolve ainda o letreiramento digital e a montagem eletrônica da revista, para que ela seja enfim impressa e distribuída, para chegar até os leitores.

Uma história com Alienz.

No primeiro semestre de 2006, a ideia de criar um roteiro de ficção científica envolvendo alienígenas não saía da minha mente. Variadas possibilidades temáticas e os mais diferentes personagens orbitavam meus pensamentos. Porém, semanas se passaram sem que eu encontrasse os elementos certos para a história que queria criar. Mas uma coisa eu sabia: minha nova HQ envolveria conceitos da física, um pouco de teoria do caos e alienígenas que fugissem aos lugares-comuns do cinema e da TV.

Então, em abril de 2006, a imagem de sensuais guerreiras ciberorgânicas vivendo num campo de flores-casulo atingiu-me como um raio. Esse foi o ponto de partida, e o que viria a ser a revista Alienz desenvolveu-se a partir daí, por meio de muita pesquisa e elaboração. No início de maio, tendo os primeiros elementos da história em seu lugar, bolei as primeiras páginas do roteiro que, como de costume, começou a tomar forma em pequenos desenhos de aproximadamente 7cm x 5cm, que são as pagininhas desenhadas em esferográfica, reproduzidas acima.

31/10/2010

Alienz: em busca de outra ficção científica.


Uma coisa que acredito estar presente em vários de meus trabalhos é a busca por algo novo ou a intenção de dar uma nova perspectiva a um tema já visitado por outros autores. A revista Alienz, por exemplo, é uma HQ de ficção científica que tem como tema a liberdade e narra uma história de amor. Para realizá-la, pude contar com os desenhos precisos de Eduardo Pansica e a belíssima capa de Carlos Fonseca. O resultado é algo, creio eu, bastante original, que mereceu a seguinte resenha:

ALÉM DAS PALAVRAS

Marcello Castilho Avellar, Estado de Minas, maio de 2007.

Em um dos primeiros capítulos de Alice Através do Espelho, o escritor e matemático Lewis Carrol apresenta um poema, Jabberwocky. Nele, a maioria das palavras de sentido objetivo (substantivos, adjetivos, verbos de ação, advérbios) pertence ao inglês arcaico ou foi inventada pelo autor. Mesmo assim, ao terminar o último verso, o leitor conhecerá uma história sobre um herói e um monstro. Conhecerá até mesmo detalhes do ambiente, fauna e flora onde a aventura teria ocorrido. Jabberwocky é obra-limite para os que estudam arte, lingüística, semiótica: lembra-nos que os sentidos, talvez sejam transmitidos não por aquelas palavras aparentemente significativas, mas por estruturas relacionais, como sintaxeconectivos e desinências. A revista ALIENZ, de Wellington Srbek e Eduardo Pansica, investe com força na transposição dessa idéia para os quadrinhos.

O vocabulário de ALIENZ é cheio de termos científicos: equação diferencial, fractal, quark, glúon, bosón e por aí vai. Mas quem não está acostumado com matemática, física ou outros campos do conhecimento chegará ao final da história com boa idéia de tudo o que se disse durante a ação ou sobre a ação. Para construir uma história ambientada em um planeta que, material e filosoficamente, teria civilização bem distinta das nossas, Srbek invoca o vocabulário científico - mas o apresenta numa estrutura lingüística que conhecemos, o que nos permite superar até mesmo nosso desconhecimento sobre o vocabulário.

Os desenhos seguem lógica semelhante: se os elementos da imagem nos são alienígenas, a sintaxe que os associa não é. Na imagem, o truque carroliano de ALIENZ acaba ficando mais evidente. Percebemos a freqüência com que o encontramos em narrativas fantásticas de histórias de ficção científica na revista Heavy Metal ao nonsense da Garagem Hermética, de Moebius. As artes da imagem teriam tornado universal, muito antes das narrativas da palavra, aquela possibilidade de significado contida nas estruturas. No encontro entre texto e figura que marca os quadrinhos, a familiaridade que temos com a primeira forma de comunicação e a falta de intimidade que mantemos com a segunda produzem uma tensão que acaba dando vida e singularidade a ALIENZ.