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10/12/2009

Um “especial de Natal” com John Constantine.


Uma criação do inglês Alan Moore, o mago John Constantine estreou nas páginas da revista Swamp Thing para logo ganhar uma revista própria, escrita pelo também inglês Jamie Delano. Tornando-se uma das bases do selo Vertigo, a revista Hellblazer conquistou fãs fiéis, tornando-se a publicação mensal mais duradoura da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. No fim de 2008, somando quase onze anos de publicação, em seu n°250 a série ganhou uma edição especial de Natal, com cinco HQs curtas produzidas por diferentes autores. Não tive oportunidade de lê-la na época, mas finalmente consegui um exemplar dessa interessante antologia, cuja leitura divido com vocês agora. E como era de se esperar, embora seja um “especial de Natal” ou “Fim-de-Ano”, em se tratando de uma revista com John Constantine, não poderiam faltar palavrões, maldições e alguns demônios.

A primeira HQ é um roteiro de Dave Gibbons (ao qual ele se referiu na entrevista que fizemos há um ano) com desenhos de Sean Phillips (um dos desenhistas tradicionais da Hellblazer). Nela, o roubo de um artefato egípcio milenar leva Constantine a uma perseguição em plena noite de reveillon. O roteiro até consegue empolgar de início e os desenhos seguem o padrão de qualidade de Phillips, mas o final é meio fraquinho e Gibbons continua sendo um melhor desenhista do que roteirista. A história seguinte, “Cartões de Natal” (ou “Cartas de Natal” no trocadilho em inglês), traz um jogo de poker como pretexto para um drama pessoal. Nesse roteiro de Jamie Delano, ilustrado por David Lloyd, o mago londrino é apenas um observador-narrador que nos revela a história de um pai desesperado e um trapaceiro prestes a encontrar o "espírito de Natal".

A história seguinte foi o motivo principal para eu ter comprado a Hellblazer n°250. Não pelo roteiro escrito em rimas por Brian Azzarello (que mostra Constantine realizando um exorcismo num bar de Chicago), mas sim pelos fantásticos desenhos de Rafael Grampá, com cores por Marcus Penna. Num estilo bem pessoal, composto por tracejados e elementos caricaturais, o trabalho do desenhista brasileiro é o diferencial e um dos pontos altos da revista. Já a HQ seguinte traz uma “maldição de Natal”, escrita por Peter Milligan e desenhada por Eddie Campbell. Com uma alma penada e uma ceia em família, esse parece o menos pretensioso de todos os roteiros, mas se revela o melhor da coletânea. Fechando a edição, o trabalho de China Miéville, Giuseppe Camuncoli e Stefano Landini que é o mais inverossímil e fraco dessa edição.

O saldo final de Hellblazer n°250 é positivo. Algumas boas histórias com visual diversificado e dois pontos altos, no roteiro de Peter Milligan e nos desenhos de Rafael Grampá. Pode-se dizer em resumo que essa foi realmente uma revista pensada para os fãs de John Constantine, especialmente por trazer autores ligados à história do personagem, como é o caso de Jamie Delano, Sean Phillips e David Lloyd. E com o retorno das séries do selo Vertigo ao Brasil, através da Panini, há a chance de essas HQs curtas especiais serem vistas por aqui.

31/07/2009

As entrevistas internacionais do Mais Quadrinhos.


Algo muito bacana que tenho conseguido realizar com o Mais Quadrinhos são as entrevistas com artistas britânicos e norte-americanos. Eu já vinha entrevistando outros quadrinistas desde os anos 90, mas essas conversas por e-mail feitas especificamente para este blog têm algumas particularidades (entre elas o fato de serem realizadas e publicadas também em inglês, tendo ainda como ponto comum questões relativas à obra do roteirista inglês Alan Moore). Com essas entrevistas, tenho tido a oportunidade de falar com pessoas cujo trabalho admiro há muitos anos, descobrindo mais sobre suas criações e esclarecendo pontos de suas trajetórias, além de contar um pouco da história dos quadrinhos.

Então, para aqueles que não acompanharam as primeiras entrevistas ou para quem quiser dar uma nova conferida, aqui vão os endereços para as entrevistas internacionais do Mais Quadrinhos, até o momento:

David Lloyd:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com_16.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com_18.html

J.H. Williams III:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh_19.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh_21.html

Steve Bissette:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/quando-penso-em-que-artistas-dos.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com_22.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com_26.html

Dave Gibbons:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com_05.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com_10.html

Brian Bolland:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma_23.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma_27.html

Se preferir as entrevistas no original, elas podem ser lidas em inglês neste endereço:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/search/label/Interviews

19/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte1.


Sou capaz de comprar uma revista em quadrinhos simplesmente por ela ter uma capa desenhada por Brian Bolland. Mesmo! Tornei-me um fã desse brilhante artista britânico desde que vi seu trabalho pela primeira vez em A Piada Mortal, a marcante graphic novel do Batman e do Coringa escrita por Alan Moore. Em seguida vieram suas espetaculares capas para a revista Animal Man e outros trabalhos que o colocaram entre meus desenhistas favoritos dos quadrinhos. Nesta entrevista em três partes, Brian Bolland fala de seus primeiros trabalhos, suas histórias com Juiz Dredd, Camelot 3000, seus melhores trabalhos para a DC e muito mais. Espero que gostem!

Wellington Srbek: É realmente uma honra estar falando com o senhor! Vamos começar com uma pergunta biográfica: onde e quando nasceu e como a arte dos quadrinhos entrou em sua vida?

Brian Bolland: Em primeiro lugar, uma divulgaçãozinha do meu livro The Art of Brian Bolland, no qual respondo essa questão da forma mais completa e longa que eu possivelmente consigo. Então, resumindo: nasci em 26 de março de 1951 (no mesmo dia que o estimado desenhista José Luis García-Lopez e do biólogo e ateísta Richard Dawkins). Próximo à cidade inglesa de Boston (a Boston original, diga-se de passagem). Os quadrinhos norte-americanos começaram a ser importados para a Grã-Bretanha em 1959. Comecei a me interessar por eles em 1960-61, quando eu tinha dez anos. Comecei a desenhar minhas próprias versões amadorescas deles, mais ou menos na mesma época.

WS: O senhor tem uma formação em Artes e design gráfico, mas suas páginas e capas de quadrinhos mostram um profundo conhecimento e um verdadeiro amor por esta forma de arte. Que artistas de quadrinhos mais influenciaram sua visão e seu estilo?

BB: Eu passei cinco anos em diversas escolas de arte. Os quadrinhos não tinham ainda penetrado no ambiente das escolas de arte. Eu passei aquele tempo estudando toda a arte moderna e contemporânea. Parte dela eu gostava. Parte dela eu não gostava. Nunca fui muito bom com os Impressionistas. Quando ainda estava na escola de arte, eu gostava de Salvador Dali e René Magritte. Eu era impressionado com Ingres.

WS: Tenho dois ou três exemplares da reedição norte-americana da série Powerman que o senhor, Dave Gibbons e outros quadrinistas produziram para o mercado nigeriano. Acredito que esse foi seu primeiro trabalho pago com quadrinhos e também uma oportunidade para aprender o ofício de desenhista, certo?

BB: Está correto!

WS: Então vieram as histórias com o Juiz Dredd e as capas para a 2000 AD, que fizeram as pessoas realmente prestarem atenção em Brian Bolland. Como conseguiu esse trabalho e como era trabalhar na 2000 AD?

BB: Lá atrás, na segunda metade dos anos 60, havia os fanzines de quadrinhos. Pessoas como Dave Gibbons e meu amigo de perto de onde eu morava, Dave Harwood, eram atuantes neles. Em 1972, alguns de nós nos reunimos numa convenção de quadrinhos no Waverley Hotel em Londres. Em 1977, um dos meus amigos dos tempos de fanzinagem, Nick Landau, estava trabalhando como editor na 2000 AD e me pediu que desenhasse uma história do Juiz Dredd, substituindo um desenhista que tinha dado o fora. Eu tinha o mesmo agente que o Dave Gibbons (que foi quem nos conseguiu o trabalho em Powerman). Ele já tinha me conseguido trabalho em capas para a 2000 AD. Eu amava trabalhar na 2000 AD. Todas as pessoas envolvidas estavam entusiasmadas com esse novo personagem de sucesso. As histórias eram ótimas, e engraçadas. Nós estávamos impressionados com o trabalho de Mick McMahon. Infelizmente, a empresa que era a dona da 2000 AD não estava tratando muito bem os artistas freelance.

WS: Creio que o senhor foi o primeiro artista a trabalhar para o mercado norte-americano no que se costumou chamar de “a invasão britânica”. Por favor, conte a seus fãs brasileiros como isso aconteceu.

BB: Outro de meus amigos do universo dos fanzines era Richard Burton (não o ator!). Ele conhecia Paul Levitts, um outro ex-fanzineiro, de Nova York. Paul costumava publicar o The Comic Reader. Agora ele é uma figura importante na DC. Em 1979, Richard ouviu de Paul que o desenhista norte-americano Joe Staton iria a Londres para uma convenção e precisaria de uma mesa para trabalhar enquanto estivesse aqui. Ele desenhava a Green Lantern naquele tempo. Joe e sua esposa Hilarie vieram ficar conosco e eu assistia enquanto ele trabalhava na mesa de desenho de minha esposa, que ela não estava usando na época. Quando Joe soube que eu era um fã do Lanterna Verde desde que tinha dez anos, ele telefonou para seu editor, Jack C. Harris, e disse que estava no apartamento desse artista inglês e o que Jack achava de me deixar desenhar a capa daquela edição. Foi uma decisão arriscada da parte do Jack. Ele provavelmente havia visto meu trabalho em Juiz Dredd, que tinha sido visto apenas por uns poucos entusiastas nos Estados Unidos. Naquele tempo, antes das máquinas de fax ou dos e-mails ou dos computadores, parecia difícil trabalhar para o outro lado do Oceano Atlântico, então levou alguns anos até que resolvêssemos a logística da coisa.

WS: Camelot 3000 foi seu primeiro trabalho mais expressivo para a DC, e é também sua obra mais extensa. O que o senhor pode nos dizer sobre esta série em doze edições (agora graphic novel)?

BB: Bem, trabalho constante não veio da DC para mim logo de cara. Levou um tempo para eles descobrirem o que fazer comigo. Então o editor Len Wein e o roteirista Mike Barr tiveram a idéia para Camelot 3000. Fui escolhido para desenhá-la. Fui mandado numa viagem promocional para a San Diego Comic Convention e outros lugares. Eu nunca tinha sido tratado tão bem antes. Acho que aquela foi a primeira “maxissérie” impressa no padrão prestige, em papel de melhor qualidade que a usual.

A seguir: A Piada Mortal!

17/07/2009

A brilliant artist from cover to cover: an interview with Brian Bolland, part1.


I will buy a comic book just because it has a Brian Bolland’s cover. Really! (I’ve just done that with this new Animal Man series.) Since I first saw his work on The Killing Joke I’ve become a fan. After that came his amazing covers to Animal Man and other works that assured him a place in my personal comic book Olympus. In this 3-part interview, Mr. Bolland talks about his early works, the Judge Dredd stories, Camelot 3000, his fantastic covers for DC and more. Enjoy!

Wellington Srbek: It’s a real honor to be talking to you, Mr. Bolland. Let’s begin with a biographical question: where and when you were born, and how the art of comics entered your life?

Brian Bolland: First of all a plug for my book The Art of Brian Bolland in which I've answered that question in about as thorough and lengthy a way as I possibly could. So, to summarize: Born March 26th 1951. I have the same birthday as esteemed artist José Luis García-Lopez and biologist and atheist Professor Richard Dawkins. Near the English town of Boston. That's the original Boston by the way. American comics started being imported into Britain in 1959. I first took an interest in them in 1960/61 when I was 10. I started drawing my own childish versions of these round about that time.

WS: You have a background in Arts and graphic design, but at the same time your comic book pages and covers display a profound understand and a true love for this art form. Which comic book artists most influenced your view and your style?

BB: I spent 5 years in various art schools. Comics hadn't penetrated into the art school world. I spent that time studying the whole of modern and contemporary art. Some of it I liked. Some of it I didn't. I was never very keen on the Impressionists. I liked Salvador Dali and René Magritte while still at school. I was impressed by Ingres.

WS: I’ve got here a couple of American reprints of the Powerman strip you, Dave Gibbons and others produced for the Nigerian market. I believe that that was your first paid job with comics and also an opportunity to learn the craft, is that right?

BB: That's correct!

WS: Then came the Judge Dredd stories and the covers to 2000 AD, which made people really pay attention to your work. How did you get the job, and how it was to work on 2000 AD?

BB: Way back in the second half of the 1960s there were comics fanzines. People like Dave Gibbons and my friend from near where I lived, Dave Harwood, were active in all that. In 1972 quite a few of us met up at a comic convention in the Waverley Hotel in London. In 1977 one of my friends from fandom, Nick Landau, was working as the editor on 2000 AD and he asked me to draw a Judge Dredd story to replace an artist who had dropped out. I had the same artists' agent as Dave Gibbons - the one who got Dave and me the job on Powerman. He had already fixed me up with cover work on 2000 AD. I loved working on 2000 AD. All the people involved were enthusiastic about this new hit character. The stories were great - and funny. We were very impressed by Mick McMahon's work. Unfortunately the company who owned 2000 AD wasn't treating its freelance artists very well.

WS: I believe that you were the first British artist to work for the American market in what is usually called “the British invasion”. Please tell your Brazilian fans how that came to be.

BB: Another of my friends from the fanzine world was Richard Burton. (Not the actor!) He knew Paul Levitts, another ex-fanzine person from New York. Paul used to put out The Comic Reader. Now he was something important at DC Comics. In 1979 Richard heard from Paul that US artist Joe Staton would be staying in London for a convention but would need a table to work on while he was here. He was drawing Green Lantern at the time. Joe and his wife Hilarie turned up and I watched him draw on my wife's drawing table which she wasn't using at the time. When Joe heard I'd been a Green Lantern fan since I was 10 he phoned up Jack C. Harris, his editor, and said he was in the flat of this English artist and how about letting him draw the cover on the current issue. It was a risky move on Jack's part. He probably saw my work on Judge Dredd which had only been seen by a few enthusiasts in the US. At the time, before fax machines or e-mail or computers, it seemed difficult to work across the Atlantic Ocean so it was a few years before we worked out the logistics of things.

WS: Camelot 3000 was your first major work for DC, and it is also your biggest work in terms of length. What can you tell us about this 12-part series / graphic novel?

BB: Well, regular work didn't come for me from DC right away. It took them a little while to work out what to do with me. Then editor Len Wein and Writer Mike Barr pitched the idea of Camelot 3000. I was chosen to draw it. I was whisked off on the publicity bandwagon to the San Diego Comic Convention and places. I'd never been treated so well before. It was American comics' first prestige "maxi-series" printed on better than usual paper I think.

Next: The Killing Joke!

11/03/2009

Watchmen, absolutamente!


Em 1985, com a ótima repercussão de público e crítica alcançada pela revista Swamp Thing, a DC Comics ansiava por novos trabalhos escritos por Alan Moore. Por sua vez, o roteirista inglês vinha há algum tempo pensando numa obra conceitual sobre os super-heróis, envolvendo um misterioso assassinato. Juntando a receptividade editorial com a criatividade autoral, surgiu a idéia de reformular os antigos personagens da Charlton Comics (cujos diretos de publicação a editora do Super-Homem havia adquirido recentemente). Nascia ali o que viria a ser Watchmen, minissérie em doze edições lançadas entre 1986 e 1987, graphic novel recordista de vendas e uma das melhores e certamente a mais complexa HQ de super-heróis já escrita.

A premissa básica da série era: como seria o mundo se os super-heróis existissem realmente (ou: como seriam os super-heróis se eles realmente existissem). Sua frase-tema: “Who watches the watchmen?” (“Quem vigia os vigilantes?”), tomada emprestado do autor romano Juvenal. O conceito agradou aos editores, mas eles temiam (com razão) que a abordagem realista proposta por Moore acabasse por inutilizar os personagens que pretendiam incorporar ao “Universo DC”. A solução encontrada foi relativamente simples: ao invés de lidar diretamente com os personagens da Charlton, um novo elenco de heróis seria criado pelo roteirista, em colaboração com o desenhista Dave Gibbons. Assim, no lugar do Pacificador entraria o Comediante, substituindo o Capitão Átomo viria o Dr. Manhattan, em vez do Besouro Azul surgiria o Coruja Noturna, enquanto o Questão daria vez a Rorschach.

Porém, mais que mascarar os antigos personagens sob novos nomes e feições, os autores evidenciaram seus elementos mais estruturais, trazendo à tona o que os ligava a outros super-heróis mais conhecidos. Não é à toa, portanto, que podemos ver no Comediante e no Dr. Manhattan as contrapartes do Super-Homem (de um lado o soldado a serviço do governo norte-americano e do outro o herói sobre-humano, virtualmente onipotente). Da mesma forma, encontramos no Coruja Noturna e no Rorschach as facetas do Batman (o combatente do crime fantasiado e cheio de aparatos tecnológicos, em contraposição ao detetive traumatizado e psicótico, violento e de convicções quase fascistas). Uma pista para essa duplicidade é o fato de esses personagens aparecerem atuando em duplas (Comediante com Manhattan, Coruja com Rorschach). Mas Watchmen é muito mais que a desconstrução de antigos super-heróis!

Dividida em capítulos de 28 ou 32 páginas com citações pertinentes ao final, acompanhados de textos que simulam trechos de livros, reportagens e relatórios, a série traz nas capas detalhes ampliados do primeiro quadro de cada capítulo, enquanto as contracapas mostram (edição após edição) um relógio que se aproxima das 12 horas, enquanto uma massa de sangue vem escorrendo até cobri-lo quase completamente. Com uma diagramação de página bastante regular (inspirada nas HQs de Steve Ditko, principal autor da Charlton), a obra de Moore e Gibbons alcança a complexidade de uma sinfonia, em suas múltiplas camadas significantes, simetrias e auto-referências, composições ressonantes e imagens recorrentes (inspiradas pela Teoria do Caos e seus fractais). Como criticaria mais tarde o próprio Alan Moore: “Watchmen é uma obra sobre sua própria estrutura”. Mas é mais que isso também!

A história começa em outubro de 1985, com o mundo à beira de um conflito nuclear entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética. Nas ruas de Nova York, crime e desesperança dividem espaço com carros elétricos e placas indicando abrigos antinucleares. Há quase uma década, uma lei federal proibiu a atividade dos heróis mascarados, enquanto o inescrupuloso comediante e o superpoderoso Dr. Manhattan continuam atuando a serviço do governo norte-americano. Nesse contexto, um assassinato aparentemente insignificante toma proporções de conspiração quando o detetive mascarado Rorschach descobre que a vítima era na verdade o Comediante. Essa é a trama apresentada no número 1 de Watchmen, narrado (ao estilo de um William Burroughs) através do diário de Rorschach, retratado como um anti-herói paranóico às voltas com uma investigação sobre um suposto complô para eliminar os heróis mascarados.

A partir daí, Moore e Gibbons vão nos apresentando aos demais personagens da série, como o milionário Adrian Veidt que havia atuado como o mascarado Ozymandias e Laurie Juspeczyk que substituíra sua mãe no papel da heroína Espectro da Seda. Aliás, duas gerações de heróis são apresentadas, na medida em que passado e presente se misturam em flashbacks que vão do fim dos anos 30 a meados dos anos 70. É assim que conhecemos, no número 2 da série, os heróis que formavam o grupo Minutemen, sabemos do envolvimento do Comediante e do Dr. Manhattan na Guerra do Vietnã e testemunhamos os protestos urbanos que levaram ao banimento dos vigilantes mascarados. Violência e política, conspirações e memórias vão se interligando e influenciando mutuamente numa história que parece cada vez mais intrincada, como os mecanismos do relógio sugerido em seu título e desenhado em suas capas.

O capítulo 3 adiciona mais uma camada significante à narrativa, quando comentários corriqueiros e situações cotidianas são sobrepostos e mesclados às cenas e narrações da fictícia revista em quadrinhos Contos do Cargueiro Negro (as velas do navio pirata ganham até mesmo a forma de um aviso antinuclear). Se os trechos do diário de Rorschach já haviam estabelecido um clima de desesperança, as páginas da revista de piratas, “lidas” por um jovem leitor, imprimem ainda mais angústia à nossa leitura. A mensagem é: o mundo está à beira do abismo e estamos todos ilhados e enterrados até o pescoço na luta individual pela sobrevivência. Embora uma visão pessimista da vida seja parte do Realismo enquanto gênero literário, a atmosfera niilista presente em alguns trechos de Watchmen tem muito a ver com o contexto em que a HQ foi escrita, no qual o temor de um conflito nuclear entre EUA e URSS era algo palpável.

Na edição 4, o mundo avança em direção ao armagedom nuclear, depois que um emocionalmente acuado Dr. Manhattan deixou a Terra para ir morar em Marte. Mas o que verdadeiramente avança ali é a linguagem dos quadrinhos. Em linhas gerais, temos a história de origem de um personagem bastante interessante, contextualizada na cultura e política dos Estados Unidos dos anos 40 a 60. Mas o capítulo “Relojoeiro” vai muito além, revelando o trabalho de um autor capaz de integrar (como poucos em qualquer linguagem artística atualmente) estrutura e tema de maneira perfeitamente orgânica. Em outras palavras, um roteirista que nos apresenta a biografia de um super-herói quântico, por meio de uma concepção quântica do tempo (ou do fluxo narrativo), na qual passado, presente e futuro são percebidos simultaneamente. Enfim, uma HQ brilhante, que exemplifica o trabalho criativo-intelectual de um gênio da narrativa.

O número 5, com sua estrutura simétrica, acrescenta peças à trama, posicionando personagens e situações para futuros desdobramentos. Na edição 6, mergulhamos de cabeça num abismo existencial (de inspiração nietzschiana), quando descobrimos a origem secreta de Rorschach. O capítulo 7 abranda as coisas, mostrando Coruja Noturna e Espectro da Seda (heróis que herdaram a identidade de membros do Minutemen) num romântico vôo noturno. O número 8 traz um pouco de nostalgia, narrativas paralelas, uma fuga da prisão, alguns assassinatos e muito sangue. A edição 9 tem mais nostalgia (na forma do perfume que leva este nome) e uma reveladora conversa em Marte. O capítulo 10 desvenda que grande mente está por trás da trama conspiratória. No 11, chegamos a um clímax em que tudo é revelado. Já a edição 12 fecha a história, amarrando as pontas restantes, mas deixando uma última porta entreaberta.

Em termos visuais, Watchmen é um verdadeiro trabalho hercúleo e certamente a melhor obra de Dave Gibbons. Desenhar algumas dezenas de personagens, vários deles em diferentes idades ao longo da história, mantendo as identidades visuais marcantes e coerentes não é algo fácil. Desenhar o mesmo cenário de múltiplos ângulos ou variar, numa edição para outra, de um cruzamento em Nova York para as montanhas de Marte, sem perder o senso de ambientação, também não é uma tarefa simples. Aliadas a isso, temos as cores atmosféricas de John Higgins, que servem bem ao estilo cotidiano e realista dos desenhos. Sua melhor expressão está na recolorização feita para Absolute Watchmen, na qual os tons de cinza, roxo, marrom, carmim, magenta e laranja escolhidos pelo colorista colaboram para reforçar o clima lúgubre da HQ (e também contrastar as cores primárias do smiley, do Dr. Manhattan e do sangue).

Como toda obra, Watchmen tem seus altos e baixos (perdendo um pouco da força e originalidade a partir do capítulo 7), sem falar em alguns excessos (parte dos textos complementares é desnecessária e Contos do Cargueiro Negro não é exatamente indispensável à trama). Mas, com seu mundo em 360°, de um 1985 no qual Richard Nixon é o presidente dos Estados Unidos e os heróis mascarados envelhecem e têm vida sexual, essa HQ dissecou e reinventou os super-heróis, dando-lhes um contexto político e uma profundidade psicológica. Junto com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a obra de Moore e Gibbons levou às últimas (e contraditórias) consequências a idéia da recriação realista (?) dos super-heróis. Por isso mesmo, na época do lançamento da série, ao ouvir a afirmação de que ele e Miller haviam salvado os super-heróis, Moore retrucou que, na verdade, o que eles tinham feito era “um trabalho de assassinato”.

De fato, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, uma onda de quadrinhos de super-heróis mais sombrios e violentos tomou conta do mercado norte-americano. Repletos de sangue, psicologia barata e textos pretensamente literários, os imitadores de Miller e Moore contribuíram para quase enterrar de vez os aventureiros mascarados. Após o lançamento de Watchmen (e a conclusão de Miracleman), Moore havia jurado jamais escrever uma nova HQ de super-heróis. Porém, no início dos anos 90, enfrentando problemas financeiros e desgostoso do impacto negativo que sua obra acabara tendo (principalmente devido aos imitadores que tentaram reproduzir seu estilo), o roteirista retornou ao gênero que o consagrara. Além de se recuperar financeiramente, seu objetivo então era resgatar o brilho e a ingenuidade dos antigos super-heróis, o que ele tentou realizar com as séries 1963 e Supremo.

A qualidade e a importância de Watchmen são inegáveis. Homenageada, premiada, parodiada e copiada, essa complexa obra colaborou para expandir as possibilidades e o repertório da linguagem das HQs. Sua absolute edition (com estojo, capa-dura, sobrecapa, tamanho estendido, impressão de alta qualidade e galeria de extras) apenas atesta seu prestígio editorial (sem falar no valor de mercado, que se multiplicou com a adaptação cinematográfica que acaba de estrear). E é interessante notar que, embora tenha ganhado o prêmio Hugo de ficção científica, Watchmen está cada vez mais para um romance de época, devido à sua ambientação nos anos 80. Quando a li pela primeira vez há vinte anos, eu não tinha maturidade para compreendê-la completamente. Tendo acabo de relê-la agora para escrever esta resenha, fica a sensação de uma obra que resistiu bem à passagem do tempo, merecendo absolutamente o título de clássico!

(Para saber mais sobre os temas tratados aqui e ler uma entrevista exclusiva com Dave Gibbons, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

10/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte3.


Parte final de nossa entrevista e Dave Gibbons fala um pouco mais sobre Watchmen, explica tudo sobre seu novo livro, diz o que pensa da adaptação para o cinema e também quais são seus novos e futuros projetos.

Wellington Srbek: Eu uso a analogia de Watchmen ser semelhante a um relógio suíço: um construto de centenas e centenas de pequeninas peças que se juntam para formar uma maquinaria funcional. Há também a analogia de Watchmen ser semelhante a uma sinfonia: uma estrutura complexa, composta por diversos movimentos com muitos ecos e simetrias. As duas analogias nos dão a idéia de “um todo que é mais do que a soma de suas partes”. Mas, para o senhor, o que Watchmen representa?

Dave Gibbons: Sim, eu creio que, você sabe, no próprio livro nós fizemos analogias ao mecanismo do relógio (a forma do palácio do Doutor Manhattan é como os mecanismos internos de um relógio). Dito isto, eu sempre considerei a abordagem de Alan para a escrita um pouco tipo a abordagem de Mozart para a música, você sabe, ele vê a coisa toda em sua cabeça, ele tem a sinfonia toda em sua cabeça, com todas as partes, ele escreve muito detalhadamente. E então, enquanto desenhista, você essencialmente interpreta isso, você essencialmente é a orquestra, você é o maestro. E então... Sim, eu creio que essa é uma analogia muito boa, e eu acho que meio que a tomo como sendo o que Watchmen representa para mim, você sabe, qualquer coisa escrita, qualquer coisa conjunta, sempre acontece parte por parte, e só mesmo depois de tudo acabado é que você pode se reclinar e admirar a paisagem. Então, ahn... Sim! É uma sinfonia, é um mecanismo de relógio.

WS: O senhor acaba de lançar Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Por favor, fale-nos desse livro.

DG: Bem, como eu disse, ele foi publicado pela Titan, tem 257 páginas, traz um monte de esboços, os rascunhos para as páginas da série inteira, traz páginas do roteiro de Alan, cartas que trocamos, traz cartas para a DC, traz fotos da divulgação [da série original], traz páginas não-publicadas, traz estudos que nunca utilizamos, traz esquematizações e planos, e também traz um comentário escrito por mim (ah, minha história de como Watchmen veio a existir, desde bem no início). Ahn, ele também traz um ensaio muito interessante de John Higgins, sobre como ele a coloriu. E [o livro] é exclusivamente sobre a revista em quadrinhos, ele não faz qualquer menção sobre... ah... o filme ou qualquer coisa relacionado a isso. Eu queria que ele fosse uma celebração da, você sabe, experiência criativa que Alan e eu tivemos, que foi uma experiência criativa muito positiva e agradável. Ele não se detém nas áreas da... ah... contenda ou disputas entre Alan e a DC Comics, porque não se trata desse tipo de livro (você sabe, um livro assim pode muito bem aparecer no futuro, [mas] é um outro livro). Realmente, é uma muito detalhada e muito densa celebração de como foi criar Watchmen.

WS: Um amigo me trouxe dos Estados Unidos seu pôster promocional para o filme Watchmen. Logo, acredito que o senhor está feliz com essa adaptação da HQ. Quais são suas expectativas para o filme?

DG: Sim, eu estou feliz com a adaptação. Desde o início, desde minha primeiríssima conversa com Zack Snyder eu tive uma boa sensação sobre ela. E certamente cada nova coisa que vi apenas me fez sentir melhor. Eu vi metade das cenas do filme em agosto, e eu gostei demais (não estava acabado, muito da computação gráfica não estava pronto, mas foi absolutamente envolvente e fascinante). Desde então, eu vi... ah... ambos os trailers e vi os vinte e cinco minutos mais ou menos de cenas que Zack mostrou aos jornalistas, e estou tomando parte da “turnê” de Watchmen e… Sim, eu sinto que foi feito devidamente, que foi feito tão bem quanto qualquer um poderia razoavelmente esperar. Ahn, e... eu estou realmente aguardando para vê-lo nos cinemas e ver como todos reagirão a ele. Eu tenho a sensação de que os fãs vão ficar muito felizes com ele. É claro que há aqueles fãs empedernidos, absolutamente radicais (que eu compreendo) para os quais nada a não ser uma adaptação palavra por palavra, imagem por imagem, linha por linha, jamais agradará. Creio [porém] que você precisa ser um pouco mais realista quanto a isso. No final das contas, creio que é preciso ter algo que seja um bom filme, algo que o espectador de cinema mediano considere que valha a pena ir assistir.

WS: Recentemente, o senhor terminou a saga de Martha Washington, escrita por Frank Miller, além de escrever e desenhar algumas edições de Green Lantern Corps. Quais são seus planos para 2009 e o futuro próximo?

DG: Bem, no que diz respeito a Martha Washington, nós vamos reunir tudo num formato estendido, com mais de 500 páginas, será uma edição definitiva e trará novas introduções escritas por Frank e por mim, e eu espero que traga toda e qualquer aparição de Martha. Porque as aparições dela foram relevantes esparsadamente, nós queremos reunir tudo de forma que os leitores possam ler tudo num só lugar. Eu recentemente fiz uma HQ curta de Hellblazer para a DC, a qual eu escrevi [e que será publicada este mês, na edição especial n°250 da revista de John Constantine] (um personagem que estranhamente me agrada). Ahn... Realmente agora meu tempo está tomado pela promoção de Watchmen, pelo licenciamento, consultoria. Ahn, eu espero trabalhar num projeto de direitos autorais reservados no ano que vem, com um roteirista com o qual eu nunca trabalhei antes (não posso realmente dizer mais nada sobre isso, porque obviamente simplesmente não me cabe definir como isso será anunciado). Mas, sim, eu estou mesmo é curtindo a "turnê" do circo Watchmen e esperando o filme ser lançado e, algum tempo depois, voltar a fazer algum trabalho honesto.

WS: Muito obrigado por esta entrevista!

DG: Muito obrigado por seu interesse e saudações para meus fãs e amigos aí na América do Sul!

08/12/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part3.


Last part of our interview and Dave Gibbons talks a little bit more about Watchmen, tells us about his new book, says what he thinks of the movie adaptation and also which are his new and future projects.

Wellington Srbek: I use the analogy of Watchmen being similar to a Swiss watch: a construct of hundreds and hundreds of tiny pieces that come together to form a working machinery. There’s also the analogy of Watchmen being similar to a symphony: a complex structure, composed by various movements with lots of echoes and symmetries. Both analogies give the idea of “a whole that is more than the sum of its parts”. But for you, Mr. Gibbons, what Watchmen represents?

Dave Gibbons: Yeah, I think, you know, even within the book we have made analogies to clockwork -- the form of Doctor Manhattan’s palace is like the internal works of a clock. That said, I’ve always considered Alan’s approach to writing to be a little bit like kind of Mozart’s approach to music, you know, he sees the whole thing in his head, he has the whole symphony in his head with all the parts, he writes down in great detail. And then, as an artist, you essentially interpret that, you essentially are the orchestra, you are the conductor. And so… Yeah, I think that’s a very good analogy, and I think I kind go along with that been what Watchmen represents to me, you know, any writing thing, any joint thing, always happens piece by piece, and it’s not really until be done the whole thing that you can sit back and see, see the landscape. So, ahn… Yeah! Is a symphony, is a clockwork.

WS: You’ve just released Watching the Watchmen: The Definitive Companion to the Ultimate Graphic Novel. Please, tell us about this book.

DG: Well, as I said it is published by Titan Books, it is 257 pages, it’s got loads of sketches, the real thumbnails for the whole series, it’s got pages of Alan’s script, it’s got letters between us, it’s got letters for DC, it’s got pictures of the merchandize, it’s got unpublished pages, it’s got designs that we never used, it’s got schematics and plans, and it’s also got a commentary by me -- ah, my story of how Watchmen came to be, from its very, very beginning. Ahn, it’s also got a very interesting essay by John Higgins about how he colored it. And it is solely about the comic book, it doesn’t make any mention of… ah… the movie or anything to do with that. I wanted it to be a celebration of, you know, the creative experience Alan and I had, which was a very positive and enjoyable creative experience. It doesn’t strands in the areas of the… ah… contention or disputes between Alan and DC Comics, because it is not that kind of book -- you know, that might well appear in the future, it is another book. Really, it is a very detailed, very dense celebration of what it was like to create Watchmen.

WS: A friend brought me from the USA your promotional poster to the Watchmen movie. So, I believe that you are happy with this adaptation of the book. What are your expectations about the movie?

DG: Yeah, I’m happy with the adaptation. From the very beginning, from my very first conversation with Zack Snyder I had a good felling about it. And certainly every additional thing that I’ve seen has only made me feel better. I saw half-cut of the movie back in August, which I totally enjoyed -- wasn’t finished, a lot of the CGI wasn’t done but it was absolutely engrossing and fascinating. Since then I’ve seen… ah… both the trailers, and I’ve seen the 25 minutes or so of scenes that Zack has shown to journalists, and I’m taking part in the Watchmen road show, and… Yeah, I feel that it’s been done properly, it’s been done as well as anybody could reasonably expect. Ahn, and… I’m very much looking forward to seeing it out there in the cinemas, and gain everybody’s reaction to it. I have a feeling that the fans are gonna be very happy with it. Of course there are those absolute diehard heart fans -- I understand that -- for whom nothing but actually word for word, picture for picture, line for line adaptation would ever do. I think you have to be a little bit more realistic about it. In the end of the day, I think you have to have something which is a good film, something that the average movie goer will consider worth going to see.

WS: Recently you have finished the Martha Washington saga written by Frank Miller, besides written and drawn some Green Lantern Corps issues. What are your plans for 2009 and the near future?

DG: Well, on the section of Martha Washington we are gonna collect all together into one big oversized book, it will be 500 pages plus, and it will be absolute size, and it will have new introductions by Frank and by me, and it will have hopefully every possible appearance of Martha. Because her appearances have been relevant scatterly, we wanna bring it all together so that readers could read it all in one place. I’ve recently done a little Hellblazer story for DC, which I wrote -- character that I strangely enjoy. Ahn… Really now my time is taken on the Watchmen promotion, and licensing, consultancy. Ahn, I hope to be working on a creator owned project next year with a writer that I haven’t worked with before -- can’t really say any more than that, because obviously it is not just up to me how this is announced. But, yeah, I’m very much enjoying the Watchmen road show circus, and looking forward to the movie coming out, and sometime after that going back to do some honest work.

WS: Thanks a lot for this interview, Mr. Gibbons!

DG: Thanks very much for your interest, and greetings to my fans and friends out there in South-America!

05/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte2.


Parte2 de nossa entrevista e Dave Gibbons explica como surgiu a obra-prima Watchmen, como foi sua abordagem do descomunal roteiro de Alan Moore e também seus principais desafios ao criar um trabalho tão extenso e sempre visualmente coerente.

Wellington Srbek: “Chronocops” para a 2000 AD e “For the man who has everything” para o anual de 1985 do Super-Homem são duas de minhas parcerias Moore/Gibbons favoritas...

Dave Gibbons: Minhas também.

WS: Todavia, nada que se compare à obra-prima Watchmen, que foi um “salto quântico” na qualidade e complexidade do trabalho que vocês estavam fazendo então. Como e quando o projeto surgiu?

DG: É meio uma longa história. Eu na verdade escrevi um livro intitulado Watching the Watchmen (publicado pela Titan, a qual não sei se tem planos para uma edição brasileira, embora o livro conte a história completa). Alan e eu nos encontramos numa convenção em 1980, nos anos seguintes nos tornamos amigos e trabalhamos juntos em histórias curtas para a 2000 AD, que culminaram em “Chronocops”. Ahn... Nós realmente queríamos trabalhar juntos em algo mais longo, que foi o motivo pelo qual escrevemos para a DC as propostas [de reformulação] de Desafiadores do Desconhecido e Ajax o Marciano, mas nada disso veio à luz, porque os personagens já tinham sido prometidos a outros escritores e desenhistas. Então, você sabe, quando tivemos a chance de trabalhar em algo maior, nós pulamos sobre ela. E Alan sempre gostou de contar às pessoas sobre as histórias nas quais ele estava trabalhando, mesmo antes de tê-las começado. Ele tende a planejar as coisas em grande detalhe antes de começar. Ele costumava me contar sobre coisas em que estava trabalhando com outras pessoas. Mas eu, na verdade, soube de Watchmen através de um amigo mútuo, um cara chamado Michael Colins (se me lembro bem), ah, que disse: “Oh, você ouviu falar que Alan está trabalhando num projeto que vai tratar os personagens da Charlton para a DC?”. Eu liguei imediatamente para Alan, ele me enviou a sinopse, e eu realmente gostei dela e disse que gostaria de desenhar o projeto, e ele disse: “Ótimo!”. Umas duas semanas depois disso, eu fui aos Estados Unidos e numa convenção me reuni com Dick Giordano, que era o editor administrativo da DC, e eu disse: “Sabe esse projeto que Alan está fazendo com os personagens da Charlton, eu realmente gostaria de desenhá-lo”. E Dick disse: “O que Alan acha disso?”. E eu disse: “Ele quer que eu desenhe”. E Dick disse: “É seu!”. Então, foi bem assim que o projeto surgiu.

WS: Olhando as páginas de roteiro ao final de Absolute Watchmen, parece-me que você desenvolveu um sistema para trabalhar com Alan Moore, marcando seu texto com diferentes cores (amarelo para a informação visual principal, vermelho para detalhes e azul para o diálogo). Enfim, qual foi sua abordagem desse roteiro?

DG: Bem, os roteiros do Alan são sempre muito “palavrosos”, muito “conversativos”, tratando muito de te dar opções, falando em torno do objeto e, você sabe, dando a você provavelmente mais informação do que você realmente poderá usar. Assim, uma das coisas que você tem que fazer é assumir o controle do roteiro e tirar dele o que você precisa para desenhá-lo da forma como você o vê. Assim, eu achei que o sublinhamento era uma maneira muito boa de fazer isso. E também, após umas duas leituras, eu gosto de fazer esboços reduzidos das páginas, o que significava então que eu podia transferi-los para a prancha de desenho e eu podia fazer o letreramento dos diálogos. Eu estava então suficientemente familiarizado com a história, e eu provavelmente não tinha que olhar para o roteiro de novo, eu não precisava ler três dúzias de páginas para descobrir o que eu tinha que desenhar. Então, sim, de muitas maneiras minha parte era a de fazer uma seleção.

WS: Watchmen é uma complexa revista em quadrinhos de super-heróis realística, um premiado trabalho que muitos consideram a melhor graphic novel já criada. Minha pergunta é: qual foi seu principal desafio ao criar esse quadrinho?

DG: Ahn... Bem, eu suponho que seja o desafio que como um artista de quadrinhos você sempre tem, que é contar a história em imagens. E neste caso era uma história muito detalhada, muito complexa, muito rica, com várias nuances, que requeria que personagens fossem desenhados em diferentes idades, em diferentes locais. Assim, ele realmente testou minhas habilidades de desenho, minha capacidade de apresentar personagens consistentemente críveis, minha simetria de fundo, a dimensão do real. Foi realmente, você sabe, apenas uma versão exagerada dos desafios que se tem em qualquer outro trabalho.

WS: Lendo Watchmen do início ao fim nós temos essa sensação de uma realidade completa em 360°. O senhor, é claro, é um desenhista muito habilidoso, mas é admirável como as mais de 400 páginas da HQ têm sempre esse visual coerente, com as sugestivas cores feitas por John Higgins. Como o senhor fez para alcançar tal coerência num trabalho tão extenso?

DG: Bem, novamente é como a resposta para a última questão. O que desenhar quadrinhos realmente se trata é de alcançar coerência, fazendo coisas consistentes, e nunca arrancando o leitor da história por ter desenhado algo que não encaixa. Ou seja, eu fiz... Novamente, em meu livro Watching the Watchmen você pode ver diagramas, planos, esquematizações de coisas (como o vidro de perfume voando pelo ar, após Lauren tê-lo lançado em Marte, [esquematização que fiz] para ter certeza de que o movimento estava consistente e que ele se movia crivelmente contra o fundo fixo de estrelas). Provavelmente, esse é um trabalho que ninguém irá notar, todavia é algo que num nível subliminar dá aquela sensação de que um lugar realmente existe ou de que algo realmente aconteceu. Havia uma série de quadrinhos chamada Dan Dare (uma série de ficção científica), para a qual eles na verdade tinham o tempo e o orçamento para construir modelos e tudo mais, e quando você a lia, você realmente sentia que estava vendo algo desenhado do real, você sabe, que aquelas coisas incríveis tinham sido desenhadas do real. E embora eu tenha desenhado Watchmen de uma forma estilizada, eu queria que ele tivesse aquele sentimento de consistência interna. E, você sabe, quando está desenhando quadrinhos, de qualquer maneira você já traduz realidade em código e, na minha forma de pensar, os melhores artistas de quadrinhos são gente como Jack Kirby ou Steve Ditko, que claramente não desenham de forma realística, mas que têm um código consistente para interpretar a realidade. Assim, esse é o tipo de coisa que eu tentei fazer quando desenhei Watchmen. E, como você diz, as cores de John Higgins são fantásticas, e certamente ele teve muito trabalho para mantê-las consistentes e bem de acordo com o que acontecia na revista... na história, melhor dizendo. Às vezes, você sabe, ele já tinha colorido algo, antes de perceber que devia ter sido colorido de outra maneira. Mas, felizmente, ele pôde cuidar dessas questões na Absolute Edition, fazendo a colorização enfim completamente consistente.

A seguir: mecanismos, sinfonias, filmes e mais...

03/12/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part2.


Part2 of our exclusive interview and Dave Gibbons explains how the masterpiece Watchmen was born, what was his approach to Alan Moore’s massive script, and also his main challenges creating such a length and coherent artwork.

Wellington Srbek: “Chronocops” for 2000 AD and “For the man who has everything” for the 1985 Superman Annual are two of my favorite Moore/Gibbons collaborations...

Dave Gibbons: Mine too.

WS: Nevertheless, nothing can be compared to your masterpiece Watchmen. It was a “quantum leap” in the quality and complexity of the work you were doing then. How and when the project was born?

DG: Is kind of a long story. I have actually written a book called Watching the Watchmen -- which is published by Titan, which I don’t know if has any plans for a Brazilian edition, although that tells you the complete story. Alan and I met in a convention in 1980, over the following years we become friends, and we worked on shorter stories for 2000 AD together, which have culminated in “Chronocops”. Ahn… We really wanted to do something longer together, which was why we wrote the proposals for the Challengers of the Unknown and Martian Manhunter for DC, but none of this ever came to fruition, because the characters have already been promised to other writers and artists. So, you know, when we got the chance of work on something bigger, we jumped at it. And Alan has always been happy to tell people the stories he was working on before he has even started. He tends to work things up in great detail before had -- he used tell me about things he was working with other people. But I actually learned about Watchmen from a mutual friend, a guy called Mike Collins -- to the best of my memory -- ah, who said: “Oh, have you heard that Alan is working on a thing that is gonna treat the Charlton characters for DC?” I immediately phoned Alan, and he sent me the synopses, and I really liked it, said I would like to draw it, and he said: “Great!” A couple weeks after that I went to the USA, and on a convention I met up with Dick Giordano, who was the managing editor of DC, and I said: “You know this thing Alan is doing with the Charlton characters, I really want to draw it.” And Dick said: “How does Alan feel about that?” And I said: “He wants me to draw it.” And Dick said: “It’s yours!” So, that was really how the project was born.

WS: Looking at the script pages in the end of the Absolute Edition, it seems to me that you’ve developed a system to work with Alan Moore, marking his text with different colors -- yellow for the main visual information, red for details and blue for the dialog. Anyway, what was your approach to the Watchmen script?

DG: Well, Alan’s scripts are always very wordy, very conversational, very much giving you options, very much talking around the subject, and, you know, giving you probably more information than you can ever actually use. So, one of the things you have to do is to take control of the script, and take from it what you need to draw it the way you see it. So, I found a highlighting was a very good way to do that. And also after a couple of readings I wanna do some thumbnail drawings, which meant by then I could transfer those to the finished art board, and I could letter in the dialog. And I was sufficient familiar with the story by then, I probably didn’t have to look at the script again, I didn’t have to read three dozens of pages to find out what I had to draw. So, yeah, in many ways my part was one of selection.

WS: Watchmen is a complex realistic super-hero comic book, a award-winning work that many people consider to be the best graphic novel ever created. My question is: what was your main challenge creating the book?

DG: Ahn… Well, I suppose it is the challenge, as a comic book artist, you always have, that is to tell the story in pictures. And in this case it was a very detailed, very complex, very rich story, with lots of nuance, and requiring characters to be draw in different ages, in different locals. So, it really tested my drawing skills, and my ability to pick characters consistently believable, my background symmetry, dimension of real. And really, you know, just an exaggerated version of what the challenges will be on any other book.

WS: Reading Watchmen cover to cover we have this feeling of a complete 360° reality. You are of course a very skilled artist, but it’s amazing how the 400 pages plus of the book have always this coherent look, with the moody colors by John Higgins. How did you manage to achieve that coherence in such length work?

DG: Well, again is like the answer to the last question. Really what drawing comics is about is achieving coherence, making things consistent, and never pulling the reader out of the story by drawing something that doesn’t fit. I mean, I did… Again, in my book Watching the Watchmen you can see diagrams, plans, schematics of things like the perfume bottle falling through the air -- after Lauren has thrown it on Mars -- to make sure that the movement was consistent, and that it moved believably against the fix background of stars. Probably not a work that anybody will notice, but nevertheless something that in a subliminal level it does give that feeling of somewhere that actually exists or something actually happened. There was a British comics called Dan Dare -- science-fiction strip -- where they actually had the time and the budget to build models and everything, and when you read that you really felt that you were seeing something drawn from life, you know these incredible things had been drawn from life. And although I drew Watchmen in a stylized way I wanted it to have that internally consistent feeling. And, you know, when you are drawing comics you are translating reality into code anyway, and to my way of thinking the best comic artists are people like Jack Kirby or Steve Ditko, who clearly don’t draw realistically, but who have a consistent code for interpreting reality. So, that is the kind of thing I tried to do when I drew Watchmen. And, as you say, John Higgins’ colors are amazing, and certainly he had a great trouble to keep those consistent, and very much relate to what was going on in the book… in the story rather. Sometimes, you know, he had already colored something, before he realized it had to be colored in a different way. But fortunately with the Absolute Edition he was able to address those concerns, and make the coloring finally completely consistent.

Next: clockwork, symphonies, movies and more...

01/12/2008

A arte da coerência: uma entrevista com Dave Gibbons, parte1.


Dave Gibbons é um dos mais importantes autores britânicos de quadrinhos. Entre diversos trabalhos, ele foi o desenhista de Watchmen, a série em doze partes escrita por Alan Moore, que muitos consideram a melhor graphic novel já criada. Nesta entrevista exclusiva em três partes, feita por e-mail e MP3, Dave Gibbons fala de antigos trabalhos, da criação da obra-prima Watchmen, do que ele pensa sobre a adaptação para o cinema que estréia em março de 2009, de seu novo livro, projetos futuros e muito mais.

Wellington Srbek: É uma honra estar conversando com o senhor.

Dave Gibbons: Obrigado! Uma honra estar conversando com você.

WS: Por favor, diga a seus fãs brasileiros onde e quando o senhor nasceu e como os quadrinhos entraram em sua vida?

DG: Ahn... Eu nasci em Londres. Eu nasci em 1949, muito, muito tempo atrás (mais tempo do que eu realmente gostaria de pensar). E como os quadrinhos entraram em minha vida? Bem, eu acho que quando pequeno eu costumava ganhar quadrinhos infantis, você sabe, animais familiares, coelhos, ursos, e esse tipo de coisa. E eu também ganhava uma revista em quadrinhos britânica chamada The Beano, ainda publicada até hoje, que tem sido publicada desde os anos 30 (é a revista na qual todos os britânicos pensam quando ouvem a palavra “quadrinhos”). Ahn... Eu também tenho a clara lembrança de, por volta dos sete anos, ter ganhado do meu avô minha primeira revista do Super-Homem... ahn... e eu acho que daquele minuto em diante os quadrinhos me conquistaram.

WS: O senhor começou sua carreira trabalhando em séries de terror e ação, mas foi nas revistas de ficção científica 2000 AD e Doctor Who que pôde desenvolver seu trabalho. Os primeiros quadrinhos norte-americanos que o senhor desenhou (as histórias de Green Lantern Corps) também tinham a ver com a FC. Enfim, o senhor tem uma predileção por aquele gênero em específico?

DG: Bem, eu tenho. Eu venho sendo um leitor de ficção científica a maior parte de minha vida. Não tenho lido muita ficção científica nos últimos tempos (eu acho que há um limite para quantas vezes você pode ler as palavras “hiperpropulsão” e “teletransporte”). Eu passei a ler [histórias de] crime, [obras de] não-ficção e tudo mais. Eu ainda tenho amor pela ficção científica, e acho que ela funciona particularmente bem nos quadrinhos. Você pode fazer qualquer coisa nos quadrinhos, então porque fazer algo que seja completamente cotidiano? É importante ser capaz de desenhar coisas de forma que pareçam críveis. Então, desenvolver-se no cotidiano é na verdade algo muito bom. Ah... Mas eu penso que quando você quer explorar as possibilidades da linguagem um pouco mais, você quase inevitavelmente direciona-se para coisas que vão além da vida comum. E a ficção científica, você sabe, é certamente algo assim.

WS: O senhor se tornou internacionalmente famoso trabalhando em quadrinhos de super-heróis norte-americanos, mas já tinha trabalhado previamente numa série africana de super-heróis: Powerman. Era uma espécie de Super-Homem negro publicado na Nigéria, certo? Dê-nos uma idéia do quê era esta série.

DG: Eu trabalhava através de um agenciador de artistas em Londres. Ele foi contatado por uma agência de publicidade da Nigéria, com a idéia de produzir alguns quadrinhos para o mercado nigeriano. Na época, a maioria das reedições nigerianas dos quadrinhos norte-americanos e britânicos traziam, você sabe, pessoas brancas e loiras, e eles [da agência de publicidade] pensaram que seria uma boa idéia (eu imagino que do ponto de vista mercadológico e publicitário era mesmo uma boa idéia) dar às pessoas negras seus próprios heróis. Nós ficamos admirados de que não tivesse gente na Nigéria que pudesse desenhar e escrever os quadrinhos, mas eles disseram que, você sabe, possivelmente nós começaríamos o trabalho e depois, você sabe, criadores locais assumiriam. Ahn... Bom, havia um par de revistas: uma chamada Powerman, uma chamada Pop. Powerman trazia Powerman, e também um xerife, um xerife negro, um escravo liberto no Velho Oeste, e uma história sobre uma invasão alienígena na qual os alienígenas invadiam a África, em vez de a América do Norte. Havia uma outra [revista] chamada Pop, que trazia uma enfermeira negra e um par de outras idéias das quais eu realmente não consigo me lembrar. Elas eram escritas por roteiristas britânicos e desenhadas por mim, Brian Bolland, Carlos Ezquerra (que depois veio a desenhar Judge Dredd) e eram revistas quinzenais, em P&B com uma cor adicionada (vermelho). Brian Bolland e eu nos alternávamos nas edições, comigo de vez em quando ajudando Brian quando ele estava atrasado no prazo de entrega. Elas foram posteriormente impressas na África do Sul, com o fato bem infeliz de que lá parecia haver “quadrinhos de Apartheid”, você sabe, os brancos tinham os quadrinhos deles e os negros tinham os quadrinhos deles. Mas essa nunca foi a intenção com o trabalho original, e parecia que qualquer pessoa branca que nós tínhamos desenhado era um malvado loiro ariano do pós-guerra feito de encomenda, que o Powerman despachava no ato.

WS: O senhor fez parte da “invasão britânica” que mudou os quadrinhos norte-americanos nos anos 80, seguindo o sucesso de Alan Moore na revista do Monstro do Pântano. Naquele momento, o senhor sentia que estavam fazendo uma revolução nos quadrinhos norte-americanos, e produzindo trabalhos que se tornariam clássicos?

DG: Eu suponho que houve algo como uma invasão britânica, que começou na verdade com Barry [Windsor-]Smith no início dos anos 70. Ele foi o primeiro cara britânico que eu tenho notícia de ter trabalhado para os quadrinhos norte-americanos. Depois do Barry Smith, eu acho que Brian Bolland foi o próximo britânico a publicar [nos quadrinhos norte-americanos], ele fez algumas capas para a Green Lantern no final dos anos 70. Ahn... Na verdade, eu comecei a trabalhar para a DC antes do Alan, e estávamos tentando fazer as coisas seguirem para a DC, quando eu recebi um telefonema uma noite ...ahn... do Len Wein, perguntando se eu tinha o número do Alan Moore, porque achava que ele poderia, você sabe, fazer uma boa tentativa de escrever a revista do Monstro do Pântano, e como todos sabemos Alan não fez uma “boa tentativa”, ele revolucionou completamente o personagem, a ponto de realmente produzir um clássico. Ahn... Eu suponho que, você sabe, fosse uma ambição para nós britânicos, que crescemos lendo quadrinhos norte-americanos, um dia trabalhar nos quadrinhos norte-americanos, e dado que o mercado deles era muito melhor (eles pagavam mais, devolviam todo o trabalho, até mesmo davam as pranchas para desenharmos), não é de se admirar que tenhamos ficado muito felizes em trabalhar para eles. E eu acho que, você sabe, nós entendíamos os personagens deles bem o bastante para desenhá-los num estilo similar, embora tivéssemos uma levemente diferenciada... ah... visão britânica deles. E a postura britânica é meio que sempre ser levemente desconfiado de pessoas que sejam superiores, e talvez tenhamos trazido um pouco disso para os super-heróis. Contudo, deve ser dito que se não amássemos realmente os personagens, eu não acho que poderíamos ter feito o que fizemos com eles.

A seguir: Watchmen!

27/11/2008

The art of coherence: an interview with Dave Gibbons, part1.


Dave Gibbons is one of the most important British comic book authors of all time. Among various works, he was the artist of Watchmen, the 12-part series written by Alan Moore, which many readers consider the best graphic novel ever created. In this 3-part exclusive interview done by e-mail and MP3, Mr. Gibbons talks about some of his early works, the creation of the masterpiece Watchmen, what he thinks of the movie adaptation, his new book, future projects and more.

Wellington Srbek: It is an honor to be talking to you, Mr. Gibbons.

Dave Gibbons: Thank you! Honor to be talking to you.

WS: Please tell your fans when and where you were born, and how comics entered your life?

DG: Ahn… I was born in London. I was born in 1949, long, long time ago now -- longer than I really like to think about. And how comics entered my life? Well, I guess as a little kid I used to get kind of nursery comics, you know, familiar animals, and rabbits, and bears, and all that kind of stuff. And I also got a British comic called The Beano which is still go in need today, it’s been on since the 1930s -- is the one comic that all British people think about if you say the word “comics”. Ahn… I also got a very clear memory been about seven years old and been bought my first Superman comics by my granddad… ahn… and I think from the minute I saw that I was lost to comics.

WS: You began your carrier working on horror and action strips, but it was on the science-fiction magazines 2000 AD and Doctor Who that you could develop your artwork. The first American comics you drew -- the Green Lantern Corps stories -- also had something to do with SF. So, do you have a special fondness for that specific genre?

DG: Well, I do. I’ve always been the science-fiction reader most of my life. I’ve not read lots of science-fiction lately -- I think you can only read the words hyperdrive or teleportation so many times. I moved on to crime and non-fiction, and everything. I still have got love for science-fiction, and I think with comics it works particularly well. You can do anything in the comics, so why do something that is complete everyday? It’s important to be able to draw things so they look believable. So to be browned in during the everyday actually is a really good thing. Ah… But I think when you wanna to explore the possibilities of the medium a bit more, you almost inevitably journey towards things which are larger than life. And science-fiction, you know, is certainly that.

WS: You’ve become internationally famous working on American superhero comics, but you had previously worked on an African superhero strip: Powerman. It was kind of a black Superman, published in Nigeria, right? Give us an idea of what that strip was.

DG: I used to work through an art agent in London. He was approached by a Nigerian advertising agency, with the idea of producing some comics for the Nigerian market. Up to then, Nigeria tads of British and American comics most of which featured, you know, blonde white people, and they just thought it was a good idea -- I imagine from the merchandising and advertising point of view it was really a good idea -- to give black people their own heroes. We were amazed that they didn’t have people in Nigeria who could draw and write comics, but they said, you know, possibly for we took the lead and eventually, you know, indigenous creators would take over. Ahn… So, there were a couple of comics: one called Powerman, one called Pop. Powerman featured Powerman, and also a sheriff, a black sheriff, a fried slave in the Wild West, and an alien invasion story where the aliens invaded Africa, rather than North-America. There was another one called Pop, which was featured a black nurse, and a couple of other ideas which a really can’t remember that. They were written by standard British comic writers and drawn by myself, Brian Bolland, Carlos Ezquerra -- who went on to draw Judge Dredd -- and it was a biweekly comic, black and white with one color added -- red. Brian Bolland and I did alternate issues with I once in a while had to help Brian out when he fell behind deadline. They were latterly printed in South-Africa with the rather unfortunate fact that there appear to be “Apartheid comics", you know, white people had their comics, and black people had their comics. But that was never the idea with the originals, and it felt that any white person that we ever featured was an awful Arian blonde property developed crew post-Blitzer who Powerman dispatched in short order.

WS: You were part of the “British invasion” that changed American comics in the 80s, following Alan Moore’s work on Swamp Thing. At that moment, did you feel that you were bringing a revolution to American comics, and producing works that would become classics?

DG: I suppose there was a kind of British invasion, it really started with Barry Smith back in the early 70s. He was the first British guy that I’m aware of to have worked for American comics. From Barry Smith I think Brian Bolland was the next Briti to be published, he did some Green Lantern covers back in the late 70s. Ahn… I actually started to work with DC before Alan, and we were trying to get things going for DC when I was phoned up one night… ahn… by Len Wein, he asked me if I had Alan Moore’s phone number, because he thought he could, you know, make a good attempt writing Swamp Thing, and as we all know Alan made not a “good attempt”, he completely revolutionize it until indeed come up with a classic. Ahn… I suppose, you know, it was an ambition of us Britis who have grown up reading American comics to one day work in American comics, and giving that that business were much better -- they paid more, they gave all the work back, they even gave the board to draw on -- it wasn’t surprising that we were very happy to be working for them. And I think, you know, we understood their characters well enough that we could draw in a similar style, but we have a slightly detached… ah… British view of them. And British kind of attitude is always to be slightly doubtful of people who are superior, maybe we brought a little bit of that to the superheroes. Although, it must be said unless we really loved the characters I don’t think we could have done what we did with them.

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