Mostrando postagens com marcador História dos Quadrinhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História dos Quadrinhos. Mostrar todas as postagens

20/03/2019

Exposição SOLAR 25 ANOS


Em 2019, completo 25 anos de produção autoral de quadrinhos, iniciada em 1994 com a criação do personagem Solar. Em parceria com a Usina de Cultura (o centro cultural da Regional Nordeste de BH), teve início nos meses de março e abril a exposição Solar 25 Anos!

A exposição traz reproduções de duas HQs completas, capas e ilustrações das diversas fases do Solar, desde os anos 90 até as publicações mais recentes. As pranchas apresentam trabalhos realizados por artistas como o mestre Julio Shimamoto e desenhistas do memorável Estúdio HQ, além dos talentosos Abel, Will, Jean Okada e Carlos Fonseca. 

Depois da Usina de Cultura, Solar 25 Anos segue para outros centros culturais de diferentes regionais de BH. Quem tiver a oportunidade de passar por um dos espaços que receber a exposição, sinta-se convidada ou convidado para esse sobrevoo pela história do Solar e também de meu trabalho autoral!

Para saber mais sobre o herói Solar clique AQUI. 


03/10/2018

Mais Quadrinhos: Entrevistas, resenhas e artigos!


Um lançamento da Balão Editorial, Mais quadrinhos: entrevistas, resenhas e artigos é resultado de mais de duas décadas de produção de textos sobre os quadrinhos. O livro traz um amplo panorama sobre a trajetória da arte e da linguagem das HQs.

Uma coletânea de textos bastante diversificados, a obra fala de vários autores consagrados, como os norte-americanos Will Eisner e Jack Kirby, os europeus Hugo Pratt e Moebius e o japonês Osamu Tezuka. O Brasil ganha destaque com análises das obras dos mestres Ziraldo, Henfil, Shimamoto e Colin. Também têm espaço resenhas sobre importantes séries e graphic novels, além de entrevistas com desenhistas renomados. O livro pode ser adquirido em plataformas e livrarias virtuais como a AMAZON.

05/11/2017

Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos!


Lançado em formato e-book pela Balão Editorial, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos reúne dezenas de artigos escritos para jornais e internet, tendo como tema os quadrinhos, filmes, seriados e desenhos de super-heróis. Partindo das origens desse gênero tão popular e abordando as principais revistas e personagens, desde os anos 1930 até fins do século XX, o livro traça um amplo panorama desse importante fenômeno cultural.

Disponível na página da editora, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos também pode ser adquirido em outras plataformas e livrarias virtuais como a AMAZON.

27/04/2013

O Homem de Ferro nos cinemas (III).


Entre muitos fãs de quadrinhos, estabeleceu-se o consenso de que, nas chamadas “trilogias” de super-heróis, o terceiro filme é sempre mais fraco que os dois primeiros. Embora isso não seja um fato científico, desde o ano 2000, trilogias como X-Men e Homem-Aranha parecem fundamentar plenamente essa ideia.

Seguindo-se ao enorme sucesso de Os Vingadores e cercado de muita expectativa, Homem de Ferro 3 prometia contrariar a “maldição do terceiro filme”, equiparando-se ou até mesmo superando seus antecessores. Teria ele conseguido tal façanha? Como milhares e milhares de leitores de HQs, fui ao cinema neste final de semana para tirar a prova...

E a resposta é: não. Embora Homem de Ferro 3 não chegue a ser um filme ruim, nem de longe alcança a qualidade do excepcional Homem de Ferro ou os melhores momentos do bem dosado Homem deFerro 2. O terceiro filme da série começa bem e a participação de Ben Kingsley (caracterizado como terrorista muçulmano à la Bin Laden) dá tom e força à produção.

As demais atuações, capitaneadas por Robert Downey Jr., não deixam a desejar e a qualidade dos efeitos visuais (com toda uma coleção de novas armaduras) é a esperada de uma produção do Marvel Studios. No entanto, quando a história começa a se desenrolar, com a trama envolvendo a tecnologia “extremis” (da já clássica HQ de Warren Ellis e Adi Granov), o filme também começa a perder força.

A sensação é que falta a Homem de Ferro 3 a qualidade estrutural do primeiro e a energia narrativa do segundo filme com o herói. Apesar de alguns bons momentos envolvendo um ator mirim, não temos nele a mesma dinâmica dos diálogos afiados dos filmes anteriores. O que leva à conclusão de que a maior falha do novo filme está no que seria seu fundamento: o roteiro.

Homem de Ferro 3 não é um filme ruim (com os defeitos de X-Men 3 ou os excessos de Homem-Aranha 3). Vale a ida ao cinema, embora não seja indispensável.  Mas, sem dúvida, falta-lhe a inteligência de seus antecessores. Vejamos então se os próximos filmes do Marvel Studios se sairão melhor, correspondendo à enorme expectativa que criam.

01/05/2012

Os Vingadores, a quarta parte de uma saga cinematográfica.


Os Vingadores foi sem dúvida um dos filmes mais antecipados e aguardados dos últimos tempos. Afinal, desde a cena pós-créditos de Homem de Ferro, em 2008, o Marvel Studios vinha preparando o cenário para trazer, num mesmo filme, alguns dos principais super-heróis dos quadrinhos. Diga-se de passagem, naquele mesmo ano, outra cena pós-créditos em O Incrível Hulk também falava ao público sobre a formação de uma equipe. Tudo poderia ter parado por ali, uma vez que a produção encabeçada por Edward Norton não teve grande sucesso. Mas com o filme estrelado por Robert Downey Jr. a história foi bem diferente!

O excelente resultado de público e crítica do primeiro filme com Downey Jr. garantiu a realização de Homem de Ferro 2, lançado em 2010. A ele se juntariam, no ano seguinte, Thor e Capitão América – O Primeiro Vingador.  Três produções de boa qualidade que serviram para somar novos elementos, personagens e subtramas a uma história mais ampla. Neste sentido, esses três filmes podem ser considerados os atos iniciais de uma peça maior, que se concluiu agora com Os Vingadores. E a sensação que fica é a de que essa aventura em quatro partes cumpriu sua promessa de levar às telonas alguns dos personagens mais conhecidos dos quadrinhos, em produções tecnicamente exemplares.

Os Vingadores, em especial, cumpre a promessa de ótimo entretenimento (embora não tenha se igualado ao Homem de Ferro de 2008, que conseguiu ir além do entretenimento). Em suas mais de duas horas, o filme dirigido por Joss Whedon traz vários pontos altos, como as boas tiradas de Tony Stark e TODAS as cenas do Hulk (uma delas, aliás, sozinha já vale a ida ao cinema!). Embora Capitão América e Thor pareçam acessórios, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Agente Coulson e Nick Fury desempenham perfeitamente suas funções. Temos uma nave-monstro bem bacana, porém os vilões (incluindo Loki) parecem um tanto “lugar-comum”, e a forma como foram derrotados no final é Independence Day demais.

Na verdade, o que menos gostei no filme foi ter sido obrigado a vê-lo em 3D, para poder assistir com o áudio original (nos cinemas mais próximos não havia nenhuma sessão em 2D legendada). Ou seja, tive que pagar mais caro (R$9,00 a mais) e assistir com aqueles óculos chatos, para poder ver o filme com as vozes originais dos atores (confesso que não gosto de filmes em 3D, pois não acho que acrescenta muita coisa e ainda dão dor nos olhos). Mas o filme é bem bacana e (minha namorada gostou tanto que) vou acabar indo ao cinema novamente para ver em 2D (as cenas do Hulk compensam!).

Os Vingadores deixa um gostinho de “quero mais”. E a próxima parada do expresso Marvel Studios é Homem de Ferro 3, que chega aos cinemas em 2013. E seria absolutamente fantástico se nesse filme também aparecesse o Hulk. Ou mesmo se fizessem um filme Homem de Ferro & Hulk... Mas aí já é pedir demais, né?

Eu não poderia falar sobre os filmes do Marvel Studios, sem citar suas “fontes” principais: Iron Man – Extremis e TheUltimates, duas ótimas séries com elementos e mesmo cenas que foram parar nas produções cinematográficas. Fica então a sugestão: quem gostou dos filmes não deixe de conferir essas HQs. São promessa de ótima leitura!

08/11/2010

The Ultimates 2, a continuação da melhor série de super-heróis da década.


Idealizada como um filme de orçamento milionário, a revista The Ultimates de Mark Millar e Bryan Hitch surpreendeu por sua qualidade e originalidade. Tornando-se um sucesso de público e de crítica, seus treze capítulos merecem o título de melhor série de super-heróis da década, influenciando outros quadrinhos e os novos filmes da Marvel. Com toda essa repercussão, a obra de Millar & Hitch não poderia ficar sem uma continuação. E esta veio entre 2005 e 2007, quando foram publicadas as treze edições de The Ultimates 2, que contaram com arte-final de Paul Neary e cores por Laura Martin.

A história começa como na primeira série: com o Capitão América numa missão a serviço do Tio Sam. Mas, desta vez, ao invés de destruir uma arma secreta nazista, o herói patriótico entra em ação para salvar reféns norte-americanos no Iraque (situação ficcional que ecoa incidentes passados e contemporâneos envolvendo os Estados Unidos e países da região). A trama então passa a se desenrolar a partir das relações e conflitos entre os membros de Os Supremos. A revelação pública de que Bruce Banner é o Hulk e seu julgamento pela morte de mais de 800 pessoas em Nova York ocupam a maior parte das primeiras edições dessa “segunda temporada”. Mas há também espaço para o romance entre Homem de Ferro e Viúva Negra, para a revelação da existência de um traidor no grupo de heróis e para a crescente tensão política envolvendo o Thor.

Este, aliás, é a figura central do primeiro grande momento de The Ultimates 2, quando vemos a trama arquitetada por seu meio-irmão Loki levar a um violento confronto contra Os Supremos e seus superaliados europeus. Se as cenas de luta são muito bem trabalhadas por Hitch & Cia., toda a sequência ganha mais dimensão com as referências feitas por Millar à história de Jesus Cristo (uma vez que, segundo suas próprias palavras, Thor teria sido enviado por seu Pai para salvar o mundo). No capítulo seguinte, o imaginário cristão e a dimensão mítica dão lugar a algo mais mundano, quando entram em cena Os Defensores, um grupo de super-heróis chinfrins, cuja cruzada contra o crime tem um desfecho tragicômico. Mas as coisas assumem um tom grave, quando o complô contra Os Supremos leva ao aparente assassinato de um herói e de sua família.

Após “ataques preventivos” a países do Oriente Médio e tendo que lidar com a crise de seu relacionamento com Vespa, Capitão América é envolvido pelas destrutivas ações do traidor. Quando se chega à metade de The Ultimates 2, todas as peças estão no lugar e os movimentos de bastidores dão lugar ao enfrentamento direto quando o traidor é revelado e uma invasão de super-humanos internacionais devasta Nova York e Washington. Com robôs gigantes e super-seres chineses, russos, norte-coreanos e muçulmanos aterrorizando os cidadãos norte-americanos e destruindo monumentos como a Estátua da Liberdade, o que vemos é o dia da retaliação dos povos oprimidos e do ataque oportunista de inimigos históricos (alegoria política que só é atrapalhada pelo fato de os agentes internacionais falarem em inglês, a língua de seu suposto opressor).

Embora pudesse se esperar que algum dos “vilões” da história arrancasse a cabeça do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, essa catártica cena não acontece. Afinal, trata-se de uma HQ norte-americana e, como esperado, a “cavalaria” chega no último instante para salvar o dia. Com isso, quem acaba executado é o líder muçulmano da força invasora, e assim toda a catarse fica para os leitores norte-americanos. Mas antes deste primeiro desfecho, o que vemos nessa segunda metade de The Ultimates 2 é uma das batalhas mais titânicas das revistas de super-heróis. E tudo é amplificado pelos quadros de página inteira e pelas páginas duplas ilustradas de forma magistral, que originaram cenas panorâmicas absurdamente detalhadas (superando a concepção do widescreen comics com algo ainda mais impactante).

No último ato, após doze capítulos empolgantes, os quadrinhos panorâmicos de Millar e Hitch guardam uma última surpresa para os leitores. De início, temos uma sequência emprestada da trilogia O Senhor dos Anéis, quando uma horda de trolls e gigantes a serviço de Loki entra em cena. Segue-se então o contra-ataque dos heróis, numa sequência de oito páginas que formam num único quadro gigantesco, publicado na coletânea em capa-dura como uma peça que se desdobra tendo quatro pranchas de cada lado (que, nos comentários ao final da edição, Millar chamou de “o maior quadro publicado na história dos quadrinhos”). O que vem depois é uma rápida superação da ameaça e um epílogo que amarra as pontas soltas, estabelecendo uma nova condição para o principal grupo de heróis da linha Ultimate Marvel. Na última página, um beijo hollywoodiano.

The Ultimates 2 é uma HQ de super-heróis acima da média; contudo, a história que ela conta é bastante convencional. Nela, os papéis do “mocinho” e do “bandido” são ocupados por figuras tradicionalmente representadas dessa forma nos filmes de Hollywood e nas revistas de super-heróis. Embora traga uma explícita crítica à agressiva política externa dos Estados Unidos durante a “era Bush”, a série acaba identificando os vilões da história como “terroristas” a serem exterminados. Para um autor que se diz crítico e liberal, nessa continuação de seu melhor trabalho, o escocês Millar não se deu ao trabalho de esconder que “jogava para a torcida” norte-americana. Uma prova de que, por melhores que sejam, os quadrinhos de super-heróis são escritos de uma perspectiva ideológica específica, não devendo ser lidos como mera distração.

(Para quem quiser saber mais sobre os trabalhos de Mark Millar e Bryan Hitch ou sobre a linha Ultima Marvel, basta clicar nos marcadores abaixo.)

24/10/2010

Os 50 anos da Pererê!


Quem acompanha este blog desde o início deve se lembrar de uma postagem sobre a revista Pererê de Ziraldo. Aquele texto trouxe um resumo de meu livro inédito sobre essa importantíssima série de nossos quadrinhos. Passaram-se alguns anos e, infelizmente, o livro continua inédito. Mas, para celebrar os 50 anos da revista criada por Ziraldo e aproveitando a data de seu aniversário, publico aqui um trecho de “Pererê, uma aventura brasileira”. Parabéns então a Ziraldo e vida longa a Pererê e sua turma!

Em 1960, Ziraldo trabalhava no Departamento de Promoções e Relações Públicas de O Cruzeiro, uma das mais bem-sucedidas revistas e editoras da época. Entre trabalhos de Péricles, Millôr Fernandes, Carlos Estevão e Borjalo, a cada semana a revista publicava um novo cartum de Ziraldo, protagonizado pelo personagem Pererê. Trazendo temas variados numa abordagem humorística, os cartuns tinham pouco texto escrito (ou mesmo nenhum), valorizando o estilo de desenho sintético de seu autor.

Provavelmente, os leitores de O Cruzeiro que acompanhavam a série de cartuns notaram uma diferença na edição que chegou às bancas em 8 de outubro. Logo na primeira página da revista era anunciado que o Pererê estava mudando de casa: o personagem deixava O Cruzeiro para estrear uma nova revista em quadrinhos mensal criada especialmente para ele. Nas duas semanas seguintes, a Pererê ganhou anúncios de página inteira em O Cruzeiro, o que evidencia o investimento da editora no novo projeto.

Lançada naquele mesmo mês de outubro de 1960, em meio aos movimentos em favor da nacionalização das histórias em quadrinhos (o estabelecimento de reservas de mercado em favor dos desenhistas e personagens brasileiros), Pererê tornou-se rapidamente um sucesso, equiparando-se em vendagem a Luluzinha, a revista em quadrinhos de maior sucesso publicada pela editora de O Cruzeiro. No formato de 26 cm de altura por 18 cm de largura (semelhante ao dos comic books norte-americanos), Pererê foi a primeira revista em quadrinhos em cores inteiramente produzida por autores brasileiros com personagens brasileiros. Cada edição totalizava 36 páginas, com capas impressas em papel envernizado e miolo impresso em papel-jornal (desse total, em média, 4 páginas eram utilizadas para a veiculação de anúncios de revistas em quadrinhos também publicadas por O Cruzeiro).

Quando a revista chegou às bancas pela primeira vez, Juscelino Kubitschek ainda era o presidente, embora Jânio Quadros já tivesse sido eleito para sua sucessão e João Goulart reeleito para a vice-Presidência (a votação para os dois cargos fazia-se então em separado). Alcançando a impressionante tiragem de 120 mil exemplares, Pererê teve 43 edições, lançadas entre outubro de 1960 e abril de 1964, um dos períodos mais agitados e conturbados de nossa história. Voltada para o público infantil, com uma produção gráfica relativamente simples e trazendo na capa um selo de “Aprovado pelo Código de Ética” (copiado das revistas norte-americanas), Pererê não levantava suspeitas ou questionamentos sobre as mensagens que veiculava. Descrita por Ziraldo (em depoimento concedido a mim em agosto de 1999) como a “maior curtição de sua vida”, a revista era produzida segundo ele com “total autonomia criativa”:

“Era uma revista infantil. Eu podia contar as minhas histórias como quisesse. A Pererê era até um pouco, digamos, ‘comunista’ para a época. O editor nem ligava. Vai ver, nem lia. A revista fazia o maior sucesso. Bastava isto pra ele. Eu adorava bolar as histórias. Eu sabia que sabia fazer isto muito bem, diferente dos velhos clichês, nada de luta do mal contra o bem. Você vê que não tem, nunca teve bandido nas minhas histórias. Era tudo curtição, rememoração das fantasias de infância. Era um barato. E o artista gráfico deitava e rolava nas onomatopéias...”

Na produção das edições de Pererê, Ziraldo contava com o auxílio de uma equipe de profissionais de artes gráficas. Assim ele descreveu o processo de produção da revista:

“Eu fazia a revista com três meses de antecedência. Ou quatro, não me lembro. Tanto que fui dispensado em dezembro de 63 e a revista foi até abril de 64. Eu bolava as histórias, fazia tudo a lápis. Tinha três profissionais comigo. Um fazia o nanquim em cima do meu traço. Nunca aprendeu a fazer o traço. Chamava-se Paulo Abreu. Morreu logo depois que a revista parou. O outro era um famoso e grande letrista de quadrinhos de todas as publicações brasileiras, trabalhara na Ebal, no Globo, em toda parte. Um craque. Chamava-se João Barbosa. Também já morreu. O outro era o que indicava as cores no overlay, com papel de seda e lápis de cor (o cara do fotolito tinha que adivinhar a proporção das cores). Esse se chamava Heucy Miranda. Aliás ainda se chama, aprendeu a desenhar tudo, é um grande animador de desenho-animado e desenha o Pererê melhor do que eu. Uma figura!!!”

Apesar da qualidade e de todo o sucesso, a revista acabou sendo cancelada pela editora de O Cruzeiro (na capa do último número, a data indicada é "1 de abril de 1964", dia do golpe militar que destituiu o então presidente João Goulart, pondo fim ao período democrático iniciado em 1946). De qualquer forma, basta a leitura de algumas das histórias de Pererê para se perceber a originalidade e a qualidade dessa obra-prima dos quadrinhos.

(Talvez continue algum dia no livro “Pererê, uma aventura brasileira”...)

14/10/2010

O segundo “arco” dos X-Men de Warren Ellis (ou: não perca tempo e dinheiro!).


O roteirista inglês Warren Ellis conquistou um lugar de destaque no mercado de quadrinhos norte-americano. Tendo uma predileção por tramas envolvendo ficção científica e uma capacidade de apresentar novas perspectivas para temas já bastante explorados, sua estreia nas páginas da revista Astonishing X-Men foi aguardada com expectativa pelos leitores. No entanto, os números 25 a 30 da prestigiada série mutante ficaram muito aquém do que se podia esperar, destacando-se mais pelas páginas ilustradas pelo italiano Simone Bianchi, do que propriamente pelo trabalho de seu roteirista (uma resenha dessas primeiras edições pode ser lida aqui).

Ellis conseguiu se redimir um pouco nas duas edições da minissérie Astonishing X-Men: Ghost Boxes, mas ainda precisava mostrar a que veio. Conceituado entre leitores e editores, o renomado roteirista ganhou uma segunda chance para mostrar algo menos decepcionante: o novo “arco” Exogenetic, publicado entre os números 31 e 35 da revista mutante. Terá ele então alcançado um resultado mais condizente com seus trabalhos anteriores (como Planetary ou Iron Man Extremis)? Terá ele conseguido apagar a sensação do “vamos ganhar um dinheiro fácil” deixada pelas edições anteriores? Na minha opinião, a resposta é um sonoro “Não!”.

Astonishing X-Men: Exogenetic começa com a agente Abigail Brand numa missão espacial para eliminar alienígenas da espécie conhecida como Ninhada (quem lia as revistas dos X-Men nos anos 80 está bem familiarizado com esses detestáveis aliens transmórficos). As coisas não saem muito bem e Abigail cai na Terra, tendo que ser resgatada por Ciclope & Cia. Quando tudo parece se acalmar, entra em cena outro vilão do passado: um gigantesco robô sentinela. Este, porém, tem a peculiaridade de ser composto por partes biológicas e estar ligado à trama envolvendo os alienígenas da Ninhada. Aí entra em cena o clone de um terceiro vilão do passado: Krakoa, a Ilha Viva.

Segundo revela Abigail, o que liga todas essas ameaças é um misterioso vilão com um extenso conhecimento sobre engenharia genética e o desejo de eliminar os mutantes (ou seja, nada muito diferente do que já vimos várias vezes). Veículos espaciais gigantes e a aparição de um clone do vilão pterodátilo Sauron só servem para reforçar a sensação de lugar-comum. No capítulo final, muita conversa fiada, ação mal representada e algum draminha envolvendo o misterioso vilão resultam num fechamento fraquíssimo. Com isso, todo o “arco” pode ser resumido a uma grande perda de tempo para quem venha a dedicar algumas horas a lê-lo, isso sem falar no dinheiro jogado fora.

Com uma história pouco inspirada, Exogenetic oscila entre desinteressantes sequências de combate e diálogos repletos de sarcasmo. Pior ainda são os desenhos de Phil Jimenez e Andy Lanning, cheios de borrões e (d)efeitos digitais criados pelo colorista Frank D’Armata, que formam um visual que pode ser descrito como “feio”. Assim, se nas primeiras edições para a Astonishing X-Men Ellis pôde contar com o talento de Simone Bianchi, nestas últimas sequer as imagens compensam. Mas, apesar da pouca qualidade e dos atrasos, antes da conclusão de Exogenetic, a Marvel já tinha começado a publicar a minissérie Astonishing X-Men: Xenogenesis, também escrita por Ellis.

No geral, não há o que se elogiar nas fracas histórias de Ellis para os X-Men, que se revelam cada vez menos interessantes e desde o início nada surpreendentes. De qualquer forma, para quem quiser tirar a prova, em breve elas poderão ser conferidas nas edições da Panini.

30/08/2010

Homem-Aranha: dos quadrinhos para a telona.


Uma produção cinematográfica com o Homem-Aranha estava nos planos da Marvel Entertainment há bastante tempo, tendo sido adiada por limitações técnicas e problemas legais. Mas, no ano 2000, os executivos da empresa puderam enfim voltar suas atenções para o herói aracnídeo; o resultado foi uma “verdadeira sensação”! Com produção executiva de Avi Arad e Stan Lee, direção de Sam Raimi, Homem-Aranha estreou em maio de 2002, precedido por uma esmagadora campanha publicitária. No elenco, o razoável Tobey Maguire como protagonista, a esquisitinha Kirsten Dunst no papel Mary Jane e o intenso Willem Dafoe como Norman Osborn / Duende Verde (além de boas atuações nos papéis coadjuvantes de J. Jonah Jameson, Tio Ben e Tia May). Com efeitos visuais convincentes, uma ótima fantasia para o Aranha e interpretações que não comprometiam, o filme foi bem recebido, batendo recordes na estreia.

Algumas situações e cortes ecoam outras produções com super-heróis (como Superman – O Filme de 1978 e Batman – O Filme de 1989). Mas o primeiro longa do Aranha tem caráter próprio, o que se deve especificamente ao que ele pegou dos quadrinhos. A começar por elementos adaptados da primeira HQ escrita por Stan Lee, como a personalidade de Peter Parker, o desafio de luta livre, o acidente no laboratório e a participação indireta na morte do Tio Ben (que no filme é quem diz a versão mais corrente da frase célebre: “Com grande poder vem grande responsabilidade”). Dos quadrinhos clássicos, também saiu a amizade com Harry Osborn, a luta com o Duende Verde sobre uma ponte de Nova York (na qual se trocou Gewn Stacy por Mary Jane) e ainda a morte do vilão. Já da versão Ultimate de Bill Jemas e Brian Michael Bendis, o filme tomou emprestado a ideia de uma aranha geneticamente alterada, o fato de ser um animador de luta livre quem bola o nome para o herói, além de mais algumas cenas.

Mas o longa também trouxe suas contribuições originais, como a boa sequência com a descoberta dos poderes (que seria "citada" no segundo filme do herói e parodiada em outras produções). A alteração mais significativa da versão cinematográfica, em relação aos quadrinhos, é o fato de o Aranha de Sam Raimi produzir biologicamente sua teia, que sai de seus pulsos (estando ausentes, portanto, os atiradores de teia sintética das HQs). Embora o final seja excessivamente violento (para um filme que, na certa, seria assistido por crianças), Homem-Aranha foi um sucesso de bilheteria. Com isso, diretor e elenco ganharam a chance de fazer um trabalho ainda melhor numa continuação. Lançado em junho de 2004, Homem-Aranha 2 foi aguardado ansiosamente pelos fãs do herói e por todos que haviam assistido ao primeiro filme. E dando continuidade à história iniciada dois anos antes, a nova produção correspondeu às expectativas, superando em qualidade seu antecessor.

A história começa com Peter às voltas com as dificuldades de conciliar trabalho, estudo e a vida-dupla como super-herói. Sempre atrasado e correndo atrás de uns trocados, ele tem ainda que lidar com o ressentido amigo Harry (que culpa o Homem-Aranha pela morte de seu pai) e com seu próprio amor reprimido por Mary Jane (da qual se afastou por temer que algum vilão pudesse lhe fazer mal). Se não bastasse, seus poderes começam a falhar e sua amada aceita o pedido de casamento do filho de J. Jonah Jameson (este, aliás, continua sua campanha difamatória contra o Aranha). Para completar, um acidente de laboratório transforma o físico Otto Octavius no vilão Dr. Octopus (interpretado pelo ótimo ator Alfred Molina). Tantas complicações acabam sendo demais para nosso herói, que decide pendurar a máscara; mas isso até sua amada ser capturada pelo supervilão, agindo em acordo com Harry Osborn.

No final, o herói triunfa, vence o vilão, salva a cidade e fica com a mocinha. Já para os que foram ao cinema em 2004, ficou a sensação de um filme de ação que valeu a pena! Pois se continua a história e até se inspira no longa anterior, Homem-Aranha 2 também traz uma evolução, encontrando seu estilo e sua linguagem própria. Os acertos já começaram na escolha do Dr. Octopus para o vilão, o que acabou rendendo cenas interessantes com seus tentáculos e nas lutas contra o Aranha (embora às vezes os bonequinhos de computação gráfica estraguem a ilusão). Com mais espaço para os ótimos coadjuvantes Tia May (Rosemary Harris) e J. Jonah Jameson (J.K. Simmons), para o desenvolvimento de personagens e para sequências dinâmicas, a continuação superou em muito o primeiro filme. Com isso, criou-se uma grande expectativa para a terceira parte da “trilogia”; expectativa esta que, infelizmente, não foi correspondida.

Lançado em abril de 2007, Homem-Aranha 3 pecou pelo excesso. Vilões demais, tramas paralelas demais, autorreferências demais, draminhas demais (como se para superar o que foi feito antes bastasse empilhar mais e mais informações). A história começa de forma oposta ao filme anterior: o Aranha é agora um herói amado e aclamado pelos habitantes de Nova York, enquanto a carreira teatral de Mary Jane passa por uma péssima fase. A situação não melhora quando Gwen Stacy entra em cena, o vingativo Harry Osborn assume a identidade do novo Duende Verde e surge o Homem de Areia (que teria tido uma participação na morte do Tio Ben). Somos apresentados então ao lado sombrio de Peter e à versão cinematográfica do "uniforme negro", que irá assumir as características do vilão Venon. No final, o herói e seus oponentes se enfrentam numa luta, tendo (mais uma vez) a vida de Mary Jane por um fio.

Com orçamento multimilionário e bons efeitos visuais, a terceira aventura cinematográfica do Homem-Aranha tinha tudo para ser um ótimo filme de ação. Mas, dividido entre vilões saídos dos anos 60, 70 e 80, o longa se arrasta e dá voltas em torno de si mesmo, até um final sentimentalista. Mas Homem-Aranha 3 teve ótimo retorno financeiro, o que asseguraria a realização de um quarto (e até um quinto) filme da série, também dirigido por Sam Raimi e com o mesmo elenco principal. A produção chegou a ser iniciada, porém, diretor e estúdio entraram em desacordo e o filme acabou sendo cancelado. Com o anúncio do encerramento da série de Raimi, o Marvel Studios deu partida numa nova sequência de aventuras cinematográficas do Aranha, com um novo diretor e um novo elenco. Informações dão conta de que o novo filme, agendado para 2012, terá como base a revista Ultimate Spider-Man. É aguardar para ver...

25/08/2010

Homem-Aranha: o super-herói mais popular dos quadrinhos (II).


Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, a qualidade e relevância das revistas tinham diminuído, mas a popularidade do Homem-Aranha só crescia internacionalmente. Ganhando um filme e um seriado para tevê e, mais tarde, novas séries de animação, o herói tornou-se de vez o “garoto-propaganda” da Marvel (talvez apenas rivalizado pelo Hulk, que em 1978 também ganhou um seriado). Incrivelmente popular entre as crianças, o Homem-Aranha deu origem a uma infinidade de produtos, que iam de superalmanaques e álbuns de figurinha, a diferentes bonecos e fantasias (a minha roupa de super-herói, porém, era do Batman). Não faltavam ainda paródias em programas como Os Trapalhões, ou a versão satírica do tema de abertura do desenho, em que cantávamos no lugar da letra original: “Homem-Aranha, Homem-Aranha... nunca bate, só apanha...” (na época, tudo era mais simples, mas nós nos divertíamos!).

Nos quadrinhos, em 1984, o herói ganhou uma de suas mais tocantes histórias: “O garoto que colecionava o Homem-Aranha”, produzida por Roger Stern e Ron Frenz. Contudo, tendo perdido espaço para outros personagens (em particular para o mais violento Wolverine), pela primeira vez o Aranha teve que correr atrás da popularidade. Com uma participação central na minissérie Guerras Secretas, ele ganhou um visual mais moderno e menos simpático: o “uniforme negro”. Como efeito colateral, em 1988, surgiria o vilão Venon, que estreou pelo traço de Todd McFarlane (que fizera sucesso na revista do Hulk). Com seu estilo arrojado de desenhar o herói e sua teia, o desenhista conquistou os leitores, revitalizando a revista The Amazing Spider-Man. Transformado num astro dos quadrinhos, em 1990 McFarlane ganhou a série Spider-Man, para a qual escreveria e desenharia as HQs e com a qual bateria recordes de vendas.

No meio do caminho, houve o ridículo casamento de Peter com Mary Jane; mais adiante, lançaram a estúpida “Saga do Clone”, que deu início ao ponto mais baixo da trajetória do herói. Aí, eles ressuscitaram o Duende Verde original. Então, eles mataram a Tia May e também mataram a Mary Jane. Mas, no fim, tudo se revelou uma enganação e tanto uma quanto a outra apareceram sãs e salvas. Essas trapalhadas editoriais e autorias minaram o importante pacto ficcional entre personagem e leitores, fazendo o antes mais popular super-herói dos quadrinhos tornar-se uma figura sem rumo e totalmente desinteressante. Tanto que, ao longo dos anos 90, o que se viu de mais interessante com o personagem foi sua versão futurista, criada por Peter David e Rick Leonard, para a linha alternativa Marvel 2099. Em 1998, houve uma malfadada tentativa de recomeço, com a fraca Homem-Aranha: Capítulo Um de John Byrne.

Desacreditado e tendo perdido grande parte de seus leitores, o Aranha precisava desesperadoramente de uma renovação. E essa veio no ano 2000, com o lançamento da revista Ultimate Spider-Man (que deu início à linha alternativa com versões atualizadas dos heróis Marvel). Idealizada pelo então chefão da editora, Bill Jemas, roteirizada por Brian Michael Bendis e desenhada por Mark Bagley, a nova série partiu de elementos das histórias originais do Homem-Aranha, recriando o personagem para o público e a realidade do século que se iniciava. Deixando de lado décadas de “cronologia” e não tendo que lidar com os equívocos dos anos 90, a nova série partiu da história que lançou o personagem em 1962, alterando alguns elementos, expandindo e incorporando outros. Com isso, a “história de origem” básica, que os primeiros leitores do Aranha tinham lido numa HQ de onze páginas, foi recriada em sete edições.

Sem a narração grandiloquente de Stan Lee ou o estilo peculiar de Steve Ditko, a origem Ultimate do Homem-Aranha chegou como um quadrinho moderno convencional (explorando a narrativa visual e alguns efeitos de colorização digital). Diferenças de estilo à parte, a mudança mais significativa entre uma versão e outra está no acidente que deu poderes a Peter: sai a aranha radioativa e entra uma aranha geneticamente alterada; sai o ambiente universitário e entra o laboratório das empresas Osborn (o que liga a origem do Aranha àquele que será seu principal inimigo, o Duende Verde). Além do protagonista e de seu antagonista, a edição de estreia também traz as versões Ultimate de Tio Ben e da Tia May, de Mary Jane e de Harry Osborn. O resultado foi um sucesso comercial que durou mais de cento e trinta edições e deu origem a diversas coletâneas, motivando também a Marvel a expandir a linha Ultimate.

O Homem-Aranha Ultimate foi a mais bem-sucedida versão em quadrinhos do personagem nos últimos dez anos, chegando a influenciar o filme Homem-Aranha de 2002 (do qual falarei na próxima postagem). Enquanto ela experimentava uma longa regularidade criativa e comercial, a versão tradicional do personagem contou com os bons desenhos de John Romita Jr., mas atolava em tramas absurdas, como “Um dia a mais” que apagou anos de HQs como se elas simplesmente não tivessem existido (não é à toa que essa história causou a fúria de muitos leitores!). Atualmente, o Homem-Aranha faz parte do grupo Vingadores, ao lado de Wolverine, Capitão América, Thor e Homem de Ferro, todos personagens que já ganharam ou ganharão versões cinematográficas nos próximos anos (uma prova de que cada vez mais os quadrinhos da Marvel são vistos como uma ponte para ou uma extensão das produções cinematográficas).

(CONTINUA)

20/08/2010

Homem-Aranha: o super-herói mais popular dos quadrinhos (I).


Foi na revista Amazing Fantasy n°15, de meados de 1962, que surgiu um dos super-heróis mais populares da história dos quadrinhos: o Homem-Aranha. Com roteiro de Stan Lee e desenhos de Steve Ditko (além de uma controversa participação inicial de Jack Kirby), a HQ de estreia do “Cabeça-de-Teia” teve apenas onze páginas. Mas elas foram o bastante! Ali, somos apresentados a Peter Parker, um adolescente tímido e franzino, sempre alvo da perseguição de seus colegas, mas também dos cuidados de seus tios Ben e May. Um dia, ao presenciar uma demonstração num laboratório, ele é picado por uma aranha radioativa. Para seu espanto, Peter descobre que adquiriu habilidades e força proporcional à de um aracnídeo. E o que ele faz então? Veste uma fantasia para combater o crime? Não! Ele decide usar seus poderes em algo nada heroico: conquistar fama e dinheiro, começando por num desafio de luta livre.

Depois, já vestindo a fantasia de Homem-Aranha e munido dos atiradores de teia sintética que havia desenvolvido, o jovem faz uma exibição de poderes na tevê. Ao final, ele é cercado por repórteres com pedidos de entrevistas e até por um produtor de cinema com a proposta para participar de filmes. Pouco depois, é um policial que lhe pede ajuda para parar um ladrão em fuga. O sucesso, porém, havia lhe subido à cabeça, e ele nada faz. Mas essa escolha individualista terá seu preço: numa ironia do destino (digna de heróis clássicos), aquele mesmo ladrão que ele deixara escapar irá assassinar seu querido Tio Ben. Após prender o assassino de seu tio e descobrir a terrível verdade, Peter fica arrasado pela culpa, terminando sua primeira HQ com lágrimas nos olhos. No último quadro, vemos sua figura pequenina, sob a sentença que se tornaria célebre: “com grande poder também deve vir grande responsabilidade!”.

Verdadeiramente profética seria a frase seguinte, que fecha a HQ: “E assim nasce uma lenda e um novo nome é adicionado à lista daqueles que fazem o mundo da fantasia o mais emocionante de todos!”. O fato é que, contrariando as expectativas de seu editor, aquele novo herói de poderes aracnídeos tornou-se um sucesso imediato. Mais “humano” que outros super-heróis, falível e limitado como todos nós, o Homem-Aranha foi desde o início um personagem muito popular. Um de seus grandes trunfos, na certa, estava em sua peculiar fantasia que escondia a identidade de Peter Parker, mas poderia também esconder as feições de qualquer um de seus leitores (em grande parte adolescentes, como o personagem). O sucesso da história de estreia do Aranha levou a Marvel Comics a lançar, no início de 1963, a revista-solo The Amazing Spider-Man. Com ela, o herói alcançaria o Olimpo dos quadrinhos norte-americanos!

Na nova revista, edição após edição, surgia uma variada galeria de vilões (que rivalizaria com a do Batman), na qual se destacam Dr. Octopus, Duende Verde, Homem de Areia, Abutre e Lagarto. Além de estranhos (e às vezes insanos) inimigos, o Homem-Aranha fez jus ao apelido de “Amigo da Vizinhança” prendendo bandidos comuns e praticando boas-ações. Em essência um cara de bom coração, embora muitas vezes incompreendido e sempre perseguido pelo editor do Clarim Diário, J. Jonah Jameson, ele ganhou a simpatia do público também por seus problemas. Falta de grana para pagar os estudos (ou comprar os ingredientes do “fluido de aranha”) e dramas pessoais fizeram dele um personagem mais crível, com o qual os leitores continuaram a se identificar na medida em que amadureciam. E com sua teia superresistente, que lhe permite capturar vilões e balançar pelos prédios, o herói conquistou também as crianças.

Não demorou para o Homem-Aranha se tornar o campeão de vendas da Marvel e um verdadeiro ícone cultural, o que seria amplificado em 1967, com o lançamento de sua primeira série de animação. Enquanto isso, nos quadrinhos, começava uma das fases mais aclamadas do personagem, com histórias desenhadas por John Romita e uma crescente dramaticidade nos roteiros. Já então um estudante universitário, Peter terá como melhor amigo o problemático Harry Osborn, filho de Norman Osborn, o Duende Verde. A conquista da namorada, Gwen Stacy, e a venda de fotos do Aranha para o Clarim Diário trarão algum alívio, mas a vida nunca foi moleza para ele. Refletindo a cultura de seu tempo e amadurecendo junto com seu público, a única coisa segura para nosso herói era o sucesso comercial (que lhe rendeu novos títulos mensais, edições especiais e participações em revistas de outros personagens).

O que para muitos é a melhor fase do Homem-Aranha culminou em 1973, numa história em duas partes escrita por Gerry Conway e desenhada por Gil Kane. Nela, o Duende Verde causa a morte de Gwen Stacy, sendo depois morto por seu próprio foguete alado, ao tentar atingir o herói pelas costas. Assim, abalados pela dramática morte da namorada do Aranha, os leitores tiveram na morte do vilão uma catarse raras vezes alcançada nas HQs de super-heróis (afinal, aquele era um tempo em que os personagens eram vistos como portadores de uma vida ficcional quase real, e não apenas como “franquias”). Os acontecimentos daquelas edições abririam uma nova fase para o herói, em que a personagem Mary Jane Watson torna-se proeminente e quando seu vingativo amigo Harry Osborn assume a identidade do Duende Verde (nada, porém, com a dramaticidade e a relevância alcançadas pelas HQs de 1973).

(CONTINUA)

09/08/2010

Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (II).


Começando em tom nostálgico, mas também trazendo situações novas (que acabariam no filme X-Men – O Confronto Final), a revista dos heróis mutantes produzida por Joss Whedon e John Cassaday logo conquistou a predileção dos fãs. As coisas melhoram no segundo conjunto de histórias, que coloca em cena uma entidade de inteligência artificial, revelando ao final um complô envolvendo Emma Frost. E é exatamente com essa trama, que liga a antiga Rainha Branca ao Clube do Inferno e à terrível Cassandra Nova, que Astonishing X-Men n°13 se inicia.

Considerando o histórico e os poderes dos vilões envolvidos, jogos mentais e situações ilusórias não poderiam deixar de fazer parte do pacote. Com isso, a trama principal segue uma linha mais psíquica, concentrando-se na personalidade e conflitos pessoais do líder dos X-Men, Ciclope. E enquanto a história prossegue, os pontos mais memoráveis dessas HQs ficam por conta de uma “aula” sobre combate que tem (o não muito pedagógico) Wolverine como professor, e o aguardado encontro a dois de Kitty Pryde e Colossus (cujo “clímax” leva a um momento inusitado e engraçado).

Explorando bem a relação entre os personagens e pontuando o drama com doses de humor, o terceiro conjunto de histórias da Astonishing X-Men chega à metade com os X-Men (de novo) prestes a serem destruídos. E com integrantes mais poderosos e agressivos neutralizados, é Kitty Pryde quem assume o centro da ação. Ao final, porém, tudo se resume a um grande jogo mental, que deixa uma sensação de que não apenas os personagens foram ludibriados. Além disso, essa utilização de um recurso ficcional batido se soma a uma condução às vezes truncada, levando a uma conclusão abrupta.

Na verdade, o que acaba tendo mais relevância ali é a história paralela que vinha sendo narrada, com a qual as tramas iniciais (envolvendo o alienígena Ord e a entidade tecnológica Perigo) se intercalam, abrindo caminho para o que será o conjunto final de histórias de Whedon & Cassaday. Neste último ato, os X-Men são levados por Abigail Brand a Breakworld, um mundo alienígena onde a violência e a destruição dos inimigos são as leis principais. Lá, um antigo oráculo teria profetizado que o planeta seria destruído por um dos X-Men, o que acaba colocando em risco a existência do planeta Terra.

Com alguns momentos tranquilos (como as cenas de amor de Kitty Pryde e Colossus) e muitas sequências de luta (com destaque para Wolverine e Armadura), a história caminha para o fim, culminando no disparo de uma bala gigante contra a Terra. Embora a trama se embole um pouco no meio do caminho, os leitores recebem sua dose de ação e emoção. Então, não bastando as revistas que completam o quarto conjunto de seis histórias, Astonishing X-Men ganhou uma edição final dupla, com a participação de outros heróis, como Quarteto Fantástico, Dr. Estranho e Homem de Ferro.

Giant-Size Astonishing X-Men n°1 encerrou um trabalho que já somava vinte e quatro edições e se iniciara quatro anos antes. E embora comece numa página dupla com o Homem-Aranha e traga outros figurões da Marvel, a HQ enfoca dois personagens que provavelmente não figurariam numa lista de possíveis salvadores do mundo. O primeiro é Colossus, que protagoniza a única luta realmente relevante nessa revista e que, ao final, salva o Breakworld da destruição. A outra é Kitty Pryde, verdadeira protagonista dessa fase da revista, que no último instante sacrifica-se para salvar a Terra.

Desde sua primeira edição à frente da Astonishing X-Men, Joss Whedon “jogou para a torcida”. Privilegiando a nostalgia e resgatando elementos que haviam feito o sucesso dos X-Men no início dos anos 80, o roteirista soube explorar a personalidade e as interações dos personagens. Sem desconsiderar as contribuições trazidas pela New X-Men, seus roteiros seguiram mais a linha do entretenimento, com ação e ambientes de ficção científica. Algo que deveria ter sido evitado é a monotonia narrativa, causada às vezes por um excesso de páginas divididas em quadros horizontais de mesmo tamanho.

Quanto ao visual, pode-se dizer que muitos elementos das histórias não teriam funcionado ou não seriam tão efetivos se não fosse o ótimo trabalho de John Cassaday e da colorista Laura Martin (sua parceira também em Planetary). Apresentando grande regularidade ao longo da série, suas páginas privilegiam a ambientação e a caracterização, somando um traço fino e detalhado a uma colorização luminosa e repleta de efeitos gráficos. O resultado é um visual belo e dinâmico, não raras vezes impressionante e sempre capaz de imergir o leitor na sequência de imagens, promovendo a ilusão de realidade das histórias.

Embora tenha levado quatro anos para ser concluída, a história contada por Whedon e Cassaday se passa ao longo de poucas semanas. Com histórias concatenadas e tramas interligadas, as vinte cinco edições dessa fase privilegiam, assim, uma leitura em conjunto. Aclamada entre os leitores, a série ajudou a firmar a popularidade dos heróis mutantes, conquistada com os filmes lançados em 2000 e 2003. Um dos melhores exemplos da inteligente estratégia que levou a Marvel ao topo do mercado de revistas nos Estados Unidos, a fase de Joss Whedon e John Cassaday na Astonishing X-Men foi e continua sendo um grande sucesso comercial.

Após publicar os dois volumes com as doze edições iniciais, a Marvel lançou as coletâneas Torn e Unstoppable, também reunidas num volume estendido em capa-dura (embora os leitores brasileiros ainda aguardem o lançamento de Os Surpreendentes X-Men Volume 2). Em 2009, essa aclamada fase da Astonishing X-Men ganhou uma omnibus edition de 670 páginas. A Marvel lançou ainda uma versão montion comics de Gifted, que ganhará em breve uma edição de luxo, no DVD de estreia do selo Marvel Knights. Provas sucessivas de que os quadrinhos ainda são um ótimo negócio!

06/08/2010

Os X-Men por Joss Whedon e John Cassaday (I).


Uma característica dos quadrinhos de super-heróis é a identificação dos leitores com determinado personagem (há aqueles que são fãs do Super-Homem ou do Homem-Aranha, outros do Batman ou do Hulk). Além disso, muitas vezes os leitores elegem suas fases favoritas, nas quais determinada equipe de autores ficou a cargo de uma revista. Um bom exemplo disso foi a fase em que a revista The Uncanny X-Men foi produzida por Chris Claremont e John Byrne. Por sua qualidade e importância, muitos consideram este período, entre 1977 e 1981, como o melhor dos heróis mutantes da Marvel.

Mais recentemente, outra fase dos “filhos do átomo” recebeu uma atenção especial dos leitores. Escrita por Joss Whedon (o criador do seriado Buffy, a caça-vampiros) e desenhada por John Cassaday (desenhista da série Planetary), a revista Astonishing X-Men foi lançada no primeiro semestre de 2004. E bem antes de a primeira edição chegar às lojas, os nomes dos autores envolvidos já causavam expectativa entre os fãs dos heróis mutantes. O que se viu, nas vinte e quatro edições e na revista dupla que fechou esse trabalho, correspondeu e até superou as expectativas dos leitores.

Pegando o fio da história de onde Grant Morrison havia deixado em New X-Men, a nova série começou com os heróis lidando com os desdobramentos do afastamento do Professor X e da morte de Jean Grey. Com Ciclope no comando do grupo e Emma Frost na coordenação da escola, um clima não muito amistoso predomina. Mas também há uma boa dose de nostalgia com o retorno da popular Kitty Pryde e de seu dragão Lockheed, além de algum estranhamento com o surgimento do vilão alienígena Ord. Para complicar um pouco mais as coisas, é anunciada uma “cura” para a condição mutante.

Filas de mutantes à frente do laboratório que desenvolveu a vacina genética (que foram parar mais tarde no filme X-Men – O Confronto Final), brigas entre os X-Men e dúvidas por parte do Fera dão a tônica dos primeiros capítulos da história. O herói Colossus, outro personagem popular entre os antigos leitores, ressurge dos mortos, enquanto as personagens Armadura e Abigail Brand fazem sua estreia. Em meio ao tumulto, a intervenção da S.W.O.R.D. desvenda a trama interplanetária envolvendo o alienígena Ord, enquanto a atuação dos X-Men neutraliza a ameaça, encerrando a sequência inicial de HQs.

As seis primeiras edições de Astonishing X-Men têm como característica principal o retorno de personagens e a volta a elementos tradicionais desses heróis (incluindo o “lançamento especial” em que Colossus arremessa Wolverine, e até imagens tiradas de antigas HQs). O próximo conjunto de histórias começa de forma incomum, com o supergrupo enfrentando um lagarto gigante. A ação faz parte do esforço de Ciclope para que sua equipe seja mais bem vista pelo público em geral, o que inclui o uso de uniformes com um pouco mais de cor (deixando para trás a fase do couro preto da série New X-Men).

Claro que a intromissão dos X-Men num “nicho de mercado” alheio não passa despercebida, e o Quarteto Fantástico logo aparece para marcar presença. Não demora para que os dois grupos de heróis unam forças e, já que “a união faz a força”, um simples monstrengo verde não é páreo para eles. Quando a poeira abaixa, comentários sarcásticos sobre os canadenses e, mais tarde, sobre Paris Hilton dão um gostinho extra à leitura. Mas, como não existe tranquilidade para os heróis mutantes, logo a Mansão X é atacada por um robô sentinela a mando de uma entidade tecnológica chamada Perigo.

É a partir da oitava edição que as coisas realmente “esquentam” em Astonishing X-Men; os capítulos que se seguem são pura luta entre os heróis e a inimiga de inteligência artificial. As boas sequências de combate são acompanhadas de uma pertinente narração em texto, e a resolução do conflito inclui o Professor X e uma discussão sobre a relação criador x criatura (que lembra bastante o que se vê no excelente Blade Runner). O encerramento deste segundo conjunto de HQs revela ocultos nas sombras os integrantes de um novo Clube do Inferno, que vêm arquitetando um ataque, através de Emma Frost.

Reeditadas nos Estados Unidos nas coletâneas Gifted e Dangerous, em seguida numa edição estendida em capa-dura, as doze primeiras edições de Astonishing X-Men foram publicadas no Brasil nas páginas de X-Men Extra e depois reunidas pela Panini na coletânea em capa cartonada Os Surpreendentes X-Men Volume 1. O conjunto de edições, que vinha se tornando cada vez mais interessante e empolgante a cada número, não se encerra ao final de Astonishing X-Men n°12, ficando em aberto o misterioso complô que será o tema central na sequência de HQs seguinte.

(CONTINUA)

24/07/2010

Os Supremos e os Ultimate X-Men se enfrentam em Ultimate War.


Quando chegava ao fim de sua fase na série Ultimate X-Men e em meio à produção da excelente The Ultimates, o roteirista Mark Millar escreveu uma minissérie que colocou frente a frete os dois grupos de heróis. Publicada pela Marvel no primeiro semestre de 2003, dividida em quatro edições, Ultimate War contou com os bons desenhos de Chris Bachalo, arte-final de Tim Townsend e cores de Paul Mounts.

Lançada em 2001 na trilha do sucesso de bilheteria e tendo como inspiração X-Men – O Filme, a série Ultimate X-Men chegou com um ritmo dinâmico e o traço comercial dos irmãos Adam e Andy Kubert. Apresentando um novo começo alternativo para os heróis mutantes, essa revista voltada ao público jovem logo se tornou um sucesso, atraindo leitores que haviam descoberto os personagens através do filme e não precisariam conhecer décadas de cronologia para entender suas HQs.

Lançada em 2002, The Ultimates por sua vez trouxe uma abordagem mais adulta e menos comercial dos super-heróis, em que cenas de luta dão lugar a diálogos e a ação bombástica é substituída por um ritmo mais compassado. Reinventando os heróis Marvel clássicos para o século 21, a revista ilustrada pelo talentoso Bryan Hitch superou as expectativas, sendo a melhor série de super-heróis dos últimos dez anos e também uma fonte de inspiração para os filmes da Marvel.

Reunindo os dois principais grupos da linha Ultimate, em termos estilísticos e narrativos, Ultimate War foi um encontro dessas duas abordagens distintas. Traduzida no Brasil como "Guerra Suprema", devido ao nome dado por aqui ao grupo liderado pelo Capitão América, a minissérie tem como grande vilão Magneto, dando inicialmente mais destaque aos Supremos do que aos X-Men. Ainda assim, pelas implicações de disputa racial, a história está mais para uma aventura mutante.

Tudo começa com um atentado terrorista na Ponte do Brooklyn, que deixa centenas de vítimas. Enquanto Thor e Homem de Ferro resgatam os corpos das vítimas, Capitão América, Viúva Negra e Gavião Arqueiro saem à captura da Irmandade dos Mutantes. Os X-Men só dão mesmo as caras na segunda edição, mas logo Os Supremos roubam de novo a cena. Embora os diálogos e a interação dos personagens seja a tônica principal, eles não funcionam tão bem quanto em The Ultimates.

Uma razão para isso está no estilo de desenho e nas escolhas narrativas dessa HQ. Em 1994 e 1995, Chris Bachalo era o melhor artista das revistas de super-heróis, com fases excepcionais nas séries Ghost Rider 2099 e Generation-X. Com o passar dos anos, porém, seu trabalho pendeu para o lado dos mangás e animes, ganhando mais estilização no traço e recortes na narrativa. Assim, apesar de seu desenho em Ultimate War ser interessante, ele não serve tão bem ao roteiro de Millar.

Não faltam referências ao clima político e a fatos ocorridos nos primeiros anos após o 11 de Setembro; com isso, as sequências de ação foram deixadas para o final da segunda e terceira edições, explodindo no último número da minissérie. Aí sim as coisas ficam interessantes, com Colossus encarando o Homem de Ferro, Tempestade enfrentando o Thor, Wolverine versus Capitão América, etc. Infelizmente, já é tarde e as páginas da minissérie chegam ao fim, com um pouco mais de conversa.

Uma possível conclusão é que a abordagem que funcionou tão bem em The Ultimates e um estilo visual que serve às HQs de ação de Ultimate X-Men acabaram de certa forma se anulando em Ultimate War. Como resultado, a história avança na trajetória dos Ultimate X-Men, à qual esta minissérie pertence. Para os rumos dos Supremos, a história não interfere realmente, não fazendo falta aos fãs desses heróis, vistos em sua melhor forma nas revistas assinadas por Millar e Hitch.

21/07/2010

The Ultimates, a melhor série de super-heróis da década (II).


Dividida em treze capítulos, desde sua primeira edição The Ultimates foi um sucesso “de público e de crítica”. E não é por menos: uma trama bem conduzida, diálogos inteligentes, abordagem contemporânea, além de um visual detalhadíssimo e bem finalizado fazem dessa uma revista que realmente merece ser lida e vista. O interessante é que parte do que torna esse um trabalho tão particular aconteceu quase acidentalmente (como revelam os comentários dos autores na edição em capa-dura). Inicialmente, a ideia era ter-se uma primeira edição com 48 páginas, cuja metade inicial seria o prólogo passado na Segunda Guerra e o restante equivaleria ao que se vê nas quatro edições seguintes. Na melhor das hipóteses, o resultado seria uma boa HQ de super-heróis, mas sem uma das melhores qualidades da série: seu caráter compassado e comedido.

Nas primeiras edições de The Ultimates, não há uma cena de luta ou a ameaça de um supervilão a cada página; não há sequer exatamente um supervilão (pelo menos até o líder alienígena se revelar no décimo capítulo). Tudo começa com a que é possivelmente a melhor HQ do Capitão América na Segunda Guerra (influenciada pelas sequências iniciais do filme O Resgate do Soldado Ryan); ali se inicia uma situação que será resolvida apenas doze edições (e dois anos) depois. Passado o prólogo bombástico, nas três edições seguintes a ação dá lugar aos diálogos e à interação dos personagens, numa intrincada trama em que mais informações vão sendo adicionadas a cada página. Tudo culmina no número 5, em que temos uma das melhores e mais verossímeis sequências de luta dos quadrinhos de super-heróis (Os Supremos x O Hulk).

Em The Ultimates n°s 6 a 13, a história continua acima da média, mas há uma queda na qualidade (o que equivale a dizer que as HQs deixam de ser brilhantes para se tornarem ótimas). As piadas e tiradas acontecem, mas é a dramaticidade que predomina. E se o clima “pós-11 de setembro” dera o tom desde o início (com a presença do presidente George W. Bush e parte de Nova York em escombros), esse caráter é reforçado na sequência do memorial aos mortos no “Incidente Hulk” e pela retórica da segurança nacional, sem falar na ligação direta entre Os Supremos e as forças armadas. Outro fator que evidencia que estamos lendo uma série realmente contemporânea são as várias referências à mídia e as implicações de ser um super-herói num mundo em que a vida privada das "celebridades" não raramente se torna assunto dos telejornais.

Comparados à qualidade excepcional do trabalho de Millar no início da série, os números finais são revistas de super-heróis mais convencionais, com uma maior dose de ação e uma trama envolvendo nazistas e alienígenas (digna de Indiana Jones e A Guerra dos Mundos). O visual também perde um pouco da elegância e da linha mais clássica vistas inicialmente, assumindo um acabamento mais rápido e mais “fotojornalístico”. Ainda assim, o trabalho ricamente detalhado e as concepções originais de Hitch para os heróis Marvel comprovam porque ele é considerado um dos melhores desenhistas dos quadrinhos de super-heróis na atualidade. Além disso, a ótima dinâmica cinematográfica das páginas e os diálogos na medida permitem que os números 6 a 13 desenvolvam bem a história, fechando num confronto épico contra os alienígenas nazistas.

Sem violência excessiva ou polêmicas gratuitas, as cinco primeiras edições de The Ultimates conseguiram revitalizar heróis que andavam bastante desprestigiados. Isso é ressaltado pelo fato de essas revistas serem uma recriação da história de estreia dos Vingadores, produzida em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby. E se todos os louros devem ser lançados sobre os mestres do passado, os devidos créditos devem ser dados a Millar e Hitch. Sua atualização dos heróis para o século 21 nos deu a mais condizente versão do Capitão América (antes de tudo, um soldado a serviço do país), uma simpaticíssima encarnação de Tony Stark (com uma armadura de aparência funcional), um interessantíssimo Thor (seria ele um deus nórdico ou um doente psicótico?) e um complexo Bruce Banner, que esconde o animalesco Hulk (uma montanha de músculos idiota).

Embora Gigante e Vespa pareçam menos críveis, podendo ter ficado de fora dessa série realista (afinal, para onde vai e de onde vem a massa corporal quando eles diminuem ou aumentam de tamanho?), todos os demais personagens se encaixam bem na trama. O destaque vai para Nick Fury, cuja versão Ultimate é a que mais se afasta dos quadrinhos originais, ganhando as feições e a presença espirituosa do ator Samuel L. Jackson. Aliás, numa das sequências, Os Supremos discutem quais astros de Hollywood interpretariam seus papeis num possível filme, e Nick Fury logo dispara: “O senhor Samuel L. Jackson, é claro!”. Inusitadamente, esse vaticínio se cumpriria em 2008, quando o ator interpretou o personagem na cena pós-créditos do primeiro filme do Homem de Ferro (numa caracterização obviamente copiada de Os Supremos).

Em The Ultimates, a ligação entre quadrinhos e cinema vai além dos comentários sobre o elenco de um suposto filme ou as referências a atores como Brad Pitt ou Johnny Depp. Uma das melhores sequências de ação da HQ, quando Viúva Negra e Gavião Arqueiro invadem os escritórios dos alienígenas, foi clara e declaradamente inspirada no filme Matrix, então lançado há poucos anos e ainda uma sensação (antes de ser avacalhado por suas tolas e dispensáveis continuações). Mais significativamente e num sentido inverso, a série de Millar e Hitch tem servido de modelo para concepções e cenas vistas nos filmes dos heróis Marvel. Notoriamente em O Incrível Hulk, que pegou emprestado a ligação entre os monstros e a fórmula do super-soldado, a quebradeira no centro de Nova York e a cena da transformação caindo de um helicóptero.

O sucesso comercial e o prestígio alcançados pela série garantiram uma continuação: The Ultimates 2 (que também teve treze edições, acompanhadas de um anual). Vieram em seguida diversas coletâneas em capa cartonada e em capa-dura, que culminaram numa omnibus editon (que reuniu as duas séries num volume de 880 páginas). Se não bastasse, a HQ também deu origem a dois filmes de animação, rebatizados nos Estados Unidos como Ultimate Avengers (e reintitulados no Brasil como Os Supremos – O Filme e Os Supremos 2). Houve ainda uma nova série The Ultimates 3, produzida por outros autores (sem a mesma qualidade) e mais recentemente foram lançadas Ultimate Comics: New Ultimates e Ultimate Comics: Avengers (esta última escrita por Millar).

Se tivessem produzido apenas os primeiros capítulos de The Ultimates, Mark Millar e Bryan Hitch já teriam criado a melhor série de super-heróis da década (além de oferecer um “mapa da mina” para os filmes da Marvel). Desde O Cavaleiro das Trevas e Watchmen em meados dos anos 80, nenhuma outra HQ de super-heróis havia conseguido articular tão bem a narrativa ficcional com uma representação do ambiente político e cultural. E nenhuma outra recriação de antigos heróis havia conseguido escapar à sombra de Miracleman. Idealizada como um filme de orçamento milionário, The Ultimates provou que ainda é possível criar revistas de super-heróis inovadoras. Uma série brilhante e contemporânea que, com ótimos desenhos e narrativa, apresentou uma “versão definitiva” para os antigos heróis Marvel. Em resumo, um trabalho imperdível!

18/07/2010

The Ultimates, a melhor série de super-heróis da década (I).


No ano 2000, com a indicação de Joe Quesada para o cargo de editor-chefe e a crescente interligação dos quadrinhos com outras mídias, a Marvel deu início à ascensão que a faria líder do mercado de revistas nos Estados Unidos. Grande parte do sucesso alcançado nos últimos dez anos se deve a uma política de valorização dos autores, a um bom planejamento das revistas e coletâneas, bem como ao interesse trazido pelos filmes de Hollywood. E talvez em nenhum outro caso a articulação entre trabalho autoral de qualidade e estratégia editorial inteligente tenha sido tão bem-sucedida quanto com The Ultimates. Criada entre 2002 e 2004 pelo roteirista escocês Mark Millar e pelo desenhista inglês Bryan Hitch (com arte-final por Andrew Currie e Paul Neary, cores por Paul Mounts), essa HQ na certa merece o título de melhor série de super-heróis da década.

Pertencendo à linha alternativa que apresentou versões atualizadas dos personagens Marvel, Os Supremos (como a equipe foi rebatizada no Brasil) é a versão Ultimate (“definitiva”) dos Vingadores. No elenco inicial estão os heróis tradicionais do grupo: Homem de Ferro, Thor, Gigante e Vespa, com a participação do Hulk e a liderança do Capitão América. Mas, diferente da história original com os Vingadores, não é o acaso e o plano maléfico de um supervilão que reúnem os heróis, originando o supergrupo. No caso de Os Supremos, é uma iniciativa da S.H.I.E.L.D. e de seu diretor, Nick Fury, o que leva a essa união (já que, para enfrentar ameaças envolvendo superpoderes, nada mais adequado que uma equipe de super-humanos). Contudo, o que na teoria parece uma solução simples acaba se mostrando algo um tanto complicado na prática.

Divergindo em interesses, intenções e personalidades, Os Supremos formam um grupo bastante heterogêneo, que tem em Nick Fury seu ponto de equilíbrio. Há o Homem de Ferro, sempre servido de um drinque e às voltas com as peculiaridades de sua vida de playboy multimilionário. Há o Thor, que oscila entre a figura de um líder pacifista contestador e a do deus nórdico superpoderoso e implacável. Temos ainda o casal Gigante e Vespa, cuja cumplicidade e aparente harmonia explodem num episódio de violência doméstica. Ou o atormentado e inseguro Bruce Banner, que para se sentir parte do grupo acaba libertando o destrutivo Hulk. E temos, por fim, o patriótico Capitão América, inspiração heroica para Os Supremos, que ressurge do passado para encontrar um mundo bem diferente do que deixara em 1945.

Um “Incidente Hulk” (que deixa centenas de vítimas) e um conflito interno (que produz muita publicidade ruim) são algumas das situações que Os Supremos têm que enfrentar. Mas o verdadeiro desafio para o grupo de heróis remonta aos tempos da Segunda Guerra, tendo uma origem extraterrestre. Entram em cena então as versões Ultimate de Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Feiticeira Escarlate e Mercúrio, que formam uma unidade secreta a serviço da S.H.I.E.L.D. Em meio à invasão em massa dos Chitauri (a versão Ultimate dos Skrulls), Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Nick Fury & Cia. acabam tendo que contar com uma ajudinha do integrante menos popular do grupo, o incontrolável Hulk. Ao final, a ameaça alienígena é derrotada, mas quem sai mesmo ganhando é o leitor, que acaba de ler uma ótima HQ de super-heróis.

(CONTINUA - é claro!)

08/07/2010

1963: uma série que marcou época e virou história (II).


Reunindo uma equipe renomada que, além de Steve Bissette e Rick Veitch, contava com Dave Gibbons e John Totleben, entre outros, 1963 estreou com estardalhaço. Quando chegaram às lojas em 1993, Mystery Incorporated, The Fury, Tales of the Uncanny, Tales from Beyond, Horus e Tomorrow Syndicate traziam de fato algo que, se não era exatamente “novo”, era na certa inovador. Com personagens inspirados nos heróis Marvel tradicionais (Quarteto Fantástico, Hulk, Homem-Aranha, Thor, etc.), as revistas imitavam os estilos de desenho, diagramação e colorização dos anos 60 (proposta criativa que seria repetida com perfeição na revista Tomorrow Stories Special n°2); a imitação era tão completa que Moore produziu editoriais, seções de cartas e até anúncios publicitários de época (neste caso antecipando o que faria em 1999 na minissérie The League of Extraordinary Gentleman).

O fato é que toda a concepção de 1963, da criação à edição, tinha como modelo as revistas clássicas criadas por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko & Cia. Deixando de lado seus roteiros extensos e absurdamente detalhados, o “Afável Al Moore” se inspirou no chamado “Método Marvel”, escrevendo apenas indicações gerais para os desenhistas e trabalhando os diálogos após as páginas serem desenhadas. Mas, para muitos, a imitação do tom bombástico dos editoriais dos anos 60 e mesmo a forma pomposa como os nomes dos autores aparecem nos créditos das HQs, resultou mais numa autopromoção de Moore, do que propriamente numa homenagem aos quadrinhos clássicos. Chamadas às vezes de pastiches dos quadrinhos da Marvel, as seis edições da minissérie variam em qualidade, algumas aproximando-se mais, outras menos, da proposta estética que as originou.

Desenhada por Veitch e arte-finalizada por Gibbons, Mystery Incorporated sustenta-se como uma boa releitura do Quarteto Fantástico (apesar das similaridades com a revista Doom Patrol n°53, criada por Grant Morrison e Ken Steacy um ano antes). Maior destaque vai para o traço “Steve Ditko” da HQ com o personagem Hypernaut e o traço “Jack Kirby” da história com N-Man, ambas desenhadas por Bissette (para as revistas Tales of the Uncanny e Tales from Beyond, respectivamente). Pelo conjunto, a melhor revista é Horus – Lord of Light, que substituiu a mitologia nórdica do Thor da Marvel pela mitologia egípcia, num ótimo roteiro de Moore, desenhado por Veitch e Totleben. As demais histórias deixam a dever, embora a minissérie conte ainda com uma boa edição final, que reúne os diversos personagens e estabelece uma ponte para o “Universo Image” de 1993, anunciando o “Anual Gigante” que reuniria passado e presente.

Essa edição especial de oitenta páginas completaria a proposta estética de 1963, contrapondo os ingênuos heróis do “passado” aos violentos e sombrios personagens dos anos 90. Entretanto, as coisas começaram a dar errado e a já controversa minissérie acabou tendo um final tumultuado. Uma vez que envolveria os principais personagens da Image (Spawn, Wild C.A.Ts., Youngblod, etc.), o “Anual Gigante” precisaria contar com a participação de seus criadores (Todd McFarlane, Jim Lee, Rob Liefeld, entre outros), que na época já não se entendiam muito bem. Além disso, teria faltado empenho de Moore no final, uma vez que a minissérie já havia resolvido seus problemas financeiros e que o esperto Todd McFarlane o havia contratado (a peso de ouro, segundo consta) para produzir uma HQ do Spawn e em seguida as minisséries Violador e Feudo de Sangue (alguns dos piores trabalhos assinados pelo roteirista inglês).

Numa trajetória que envolveu disputas e trapaças, o “Anual Gigante” acabou não sendo realizado e, como efeito colateral, Moore rompeu seu contato com Bissette. Mais tarde, os direitos autorias sobre os personagens de 1963 foram divididos entre os três autores principais, num acordo que inviabilizaria a republicação da minissérie (até o momento). Mas, apesar dos problemas e controvérsias, a incompleta minissérie cumpriu seu papel, inaugurando o subgênero das revistas de super-heróis retrô e das recriações metalinguísticas (linha seguida pelo próprio Moore na sua brilhante fase à frente da série Supremo, que transformou um plágio do Super-Homem numa homenagem metaficcional às HQs clássicas do herói). Muito comentada e imitada nas décadas que se seguiram, 1963 deu início a uma nova fase, em que os quadrinhos de super-heróis se voltaram ao passado para reencontrar seu caminho.

(Para quem quiser saber mais detalhes sobre os quadrinhos de Alan Moore e ler minha entrevista exclusiva com Steve Bissette, basta clicar nos marcadores abaixo.)

05/07/2010

1963: uma série que marcou época e virou história (I).


Entre 1984 e 1989, com as séries Monstro do Pântano, Watchmen e Miracleman, Alan Moore ajudou a revolucionar os quadrinhos de super-heróis. Mas, depois de muito sucesso e de uma aclamação pública poucas vezes vista por um autor de quadrinhos, ele decidiu se afastar das grandes editoras (principalmente devido aos problemas legais com a Marvel, em torno da utilização do nome Marvelman, e às desavenças contratuais com a DC Comics, acerca dos direitos de publicação de suas obras). Além disso, o roteirista jurou jamais voltar às HQs de super-heróis, que considerava então um gênero esgotado. A partir daí, ele passou a se dedicar a trabalhos mais autorais e pessoais, como as histórias em capítulos para a publicação independente Taboo (na qual surgiram From Hell e Lost Girls) e graphic novels especiais (como Brought to Light e A Small Killing).

Aproveitando o renome internacional e estimulado por outros editores independentes (como Dave Sim da série Cerebus), Moore decidiu montar sua própria editora. Nascia então a Mad Love, na qual o roteirista tinha como sócias sua esposa, Phyllis, e a namorada dos dois, Debbie. Pela editora, eles lançaram a revista especial AARGH (“Artistas Contra Agressiva Homofobia Governamental”), coletânea destinada a angariar recursos para serem usados contra uma proposta de lei do governo Margaret Thatcher. Em seguida, veio a série Big Numbers que contava com a fantástica arte de Bill Sienkiewicz, mas que enfrentou imensos (e ainda misteriosos) problemas, sendo interrompida em seu segundo número. Toda a confusão envolvida na interrupção de Big Numbers levou não apenas ao rompimento entre Moore e Sienkiewicz, mas também ao fim de seu casamento a três e à falência de sua editora.

Enfrentando problemas pessoais e financeiros, o roteirista não teve muita escolha, a não ser voltar atrás com sua palavra, retornando ao gênero dos super-heróis. Era 1992 e, na época, a Image Comics representava uma alternativa às gigantes do mercado norte-americano (Marvel e DC Comics), além de ser uma promessa de liberdade criativa (ou mesmo de dinheiro fácil). O primeiro contrato assinado por Moore com a nova editora foi a controversa minissérie 1963 (que também ficaria inacabada e levaria a outro rompimento pessoal). Tudo começou com o convite do quadrinista Jim Valentino para que Moore escrevesse uma edição de sua série Shadowhawk (um dos muitos clones do Wolverine surgidos na época). Moore não se interessou pelo trabalho, mas como contraproposta apresentou, junto com os desenhistas Steve Bissette e Rick Veitch, a proposta para o que viria ser a minissérie 1963.

Toda a concepção desse projeto não pode ser separada do histórico pessoal e do momento que Moore vivia. Tendo rompido “definitivamente” com a Marvel e a DC, o roteirista viu na Image a chance de retornar às lucrativas HQs de super-heróis, sem ter que se associar novamente àquelas editoras. Além disso, ele estava muito descontente com o efeito negativo que suas obras tiveram sobre as revistas de super-heróis, que se tornavam então cada vez mais violentas e cínicas. Assim, embora considerasse que havia feito sua “declaração final” sobre os super-heróis em Watchmen e Miracleman: Olympus, o projeto para a Image tornou-se uma forma de contribuir com a nova editora na disputa contra as duas gigantes do mercado e, ao mesmo tempo, de combater os efeitos negativos do “realismo” dos anos 80. A resposta criativa de Moore veio na forma de seis edições inspiradas nos quadrinhos Marvel do início dos anos 60.

(CONTINUA)

30/06/2010

Homem de Ferro e Hulk numa HQ de Warren Ellis.


Após Iron Man: Extremis, Warren Ellis voltou a trabalhar com o Homem de Ferro na minissérie Ultimate Human ("Humano Supremo" na versão brasileira). Lançada em 2008, a HQ fez parte da onda de novas séries e edições especiais que antecipou a estreia dos filmes Homem de Ferro e O Incrível Hulk. Dividida em quatro partes, a história pertence à linha Ultimate da Marvel e traz um novo encontro das versões “supremas” de Tony Stark e Bruce Banner (que já haviam se enfrentado nas páginas de The Ultimates). Ilustrada por Cary Nord, com elementos de pintura na colorização, a minissérie equilibra bem diálogos e ação, conteúdo intelectual e dramas pessoais.

A história começa com Stark desfrutando um martini numa manhã qualquer; mas seus planos de se embebedar completamente antes do meio-dia acabam frustrados com a chegada de Banner. Logo de início é interessante notar como Ellis utiliza os diálogos para apresentar aos leitores as principais características que diferenciam as versões “supremas” desses personagens, das versões que aparecem no “Universo Marvel” regular (com isso, mesmo um leitor que não esteja a par do que andou acontecendo na linha Ultimate poderá compreender a história sem grandes dificuldades). A trama então se desenrola a partir de uma tentativa de “curar” Banner, livrando-o do Hulk. Porém, as coisas não saem exatamente como planejado e, para complicar, entra em cena o vilão Líder.

Estética e tematicamente, Iron Man: Extremis e Ultimate Human são bem diferentes. Ainda assim, existem algumas similaridades significativas entre as duas séries. Enquanto a primeira está mais para uma história de ficção científica e espionagem, a segunda é propriamente uma HQ de super-heróis, embora sua trama lance mão de vários elementos da ficção científica e da espionagem. E se a história lançada em 2005 reescreveu a biografia de Tony Stark, também a minissérie de 2008 recontou a história de origem de um personagem (neste caso o vilão Líder). Além disso, os dois trabalhos deram espaço a Ellis para tratar de algumas de suas temáticas favoritas, sendo em Iron Man: Extremis o “futuro” e em Ultimate Human a “pós-humanidade”.

Interessante e inteligente, com bons diálogos e alguma ação, Ultimate Human tem um roteiro acima da média, mas poderia ter se valido de um trabalho gráfico um pouco mais bem-elaborado. Isso não compromete o resultado final, que podemos chamar, pelo menos, de bom entretenimento, confirmando a boa qualidade dos quadrinhos da linha Ultimate.

(Mais recentemente, Warren Ellis voltou a trabalhar com o Homem de Ferro na minissérie em quatro partes Ultimate Comics: Armor Wars.)

27/06/2010

A HQ que remodelou o futuro do Homem de Ferro.


Há muito tempo eu não lia revistas com os super-heróis tradicionais da Marvel. Mas, depois de rever Homem de Ferro e assistir ao segundo filme com o personagem, voltei a me interessar pelos antigos heróis que eu conhecia dos desenhos (des)animados da minha infância. Por sua ligação com as produções cinematográficas, peguei na estante a coletânea de Iron Man: Extremis, escrita por Warren Ellis e ilustrada por Adi Granov. Importante na trajetória recente do personagem, esse trabalho foi a fonte para alguns dos melhores elementos do Homem de Ferro cinematográfico. Sucesso entre os leitores, depois de reedições em capa cartonada e em capa-dura, neste mês a Marvel está reimprimindo a HQ numa “versão do diretor”, além de lançar um montion comic para o iTunes da Apple.

Eu já havia comprado Iron Man: Extremis há algum tempo, mas não tinha lido ainda. Agora, com o interesse renovado pelos filmes e a intenção de escrever esta postagem, resolvi conferir essa HQ lançada em 2005. Não me decepcionei! De forma inteligente, a história aborda alguns dos temas preferidos de Warren Ellis: as tecnologias ultra-avançadas e uma disputa pelo “futuro”. Aproveitando as características do herói, o roteirista construiu uma trama envolvente, na qual ficção científica e futurismo remodelam completamente o Homem de Ferro. Sem dúvida a história mais interessante que já li com o personagem, seus seis capítulos intercalam bem passado e presente, recontextualizando a origem do herói, imprimindo modernidade a suas relações profissionais e pessoais, bem como mais realismo a suas motivações e sua presença no mundo.

Tudo parte de uma entrevista que coloca para Tony Stark o dilema moral de ser um fabricante e negociante de armas, levando-o também ao dilema existencial de ter sido vítima de um acidente com um de seus próprios inventos (situações que foram reelaboradas e modernizadas no filme lançado em 2008). Então, o aparente roubo da tecnologia secreta “Extremis” e o pedido de ajuda de uma amiga põem o herói em rota de colisão com um radical norte-americano superpoderoso. Após um ato de "terrorismo doméstico", o Homem de Ferro intervém, mas acaba derrotado e gravemente avariado por seu oponente. É esta dinâmica que leva à principal transformação que o herói sofre nesta HQ: o emprego da tecnologia “Extremis” para salvar sua vida e, ao mesmo tempo, tornar mais eficiente sua armadura, que passa a ser parte de seu corpo.

Naquele momento, revemos a história de origem do Homem de Ferro, que Ellis apropriadamente transfere das florestas do Vietnã para as montanhas do Afeganistão (mudança seguida pela versão cinematográfica). E embora centrada no protagonista, a história se vale de um interessante elenco de apoio: a cientista Maya Hansen, o futurista Sal Kennedy e o médico Yinsen (também presente no filme). Não faltam bons diálogos, nos quais termos tecnológicos aparecem com naturalidade, da mesma forma que uma lúcida discussão sobre cogumelos e DMT (principal componente da ayahuasca), que rende uma interessante metáfora sobre tecnologia e estados alterados da mente. Por falar em metáforas, a mais marcante nessa HQ é a que redefine Tony Stark como um “piloto de testes para o futuro”, redelineando as motivações e ambições do herói.

Claro que uma história que tinha o objetivo relançar o personagem, estabelecendo uma nova biografia e novas características, não poderia deixar de lado sua aparência. E ficou a cargo do ilustrador Adi Granov redesenhar a armadura do Homem de Ferro, atualizando-a para os padrões estéticos dos tempos atuais. O resultado ficou arrojado e elegante, estilizado e convincente (sendo a principal referência para a versão cinematográfica). Mais designer do que propriamente desenhista de quadrinhos, Granov produziu algumas belas páginas e imagens, embora muitas sequências e cenas sejam excessivamente estáticas para uma história em quadrinhos. Deixando de lado essa limitação, as técnicas de pintura convencional e digital empregadas pelo ilustrador produziram um visual impressionante, que lembra imagens de video game.

Iron Man: Extremis é Warren Ellis em boa forma, num roteiro bem trabalhado para uma trama inteligente. É também uma obra visualmente muito interessante, que projetou o nome de Adi Granov. Apesar de ser uma HQ do Homem de Ferro, o trabalho está mais para trama de espionagem e ficção científica, do que propriamente para uma revista de super-heróis. Talvez a melhor história em quadrinhos já feita para esse personagem, ela não apenas lançou as bases para os filmes de Hollywood, como ajudou a transformar o antes batido herói numa das propriedades mais importantes da Marvel. Pois ao reescrever o passado de Tony Stark e ao redesenhar as linhas de sua armadura, Ellis e Granov realmente remodelaram o futuro do Homem de Ferro.