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15/10/2009

Uma nova geração!


Um fato impressionante em se tratando dos quadrinhos mineiros é sua capacidade de renovação e contínuo surgimento de novos e talentosos quadrinistas. Geração após geração, os quadrinhos de Minas Gerais têm oferecido ao Brasil e ao mundo talentos que têm ajudado a construir a história dessa fascinante, ainda que desprestigiada arte.

O exemplo disso é Ziraldo, que com seu traço inconfundível deu vida no início dos anos 60 aos personagens da Turma do Pererê (cujas HQs eram vistas em cores e mensalmente na melhor revista em quadrinhos infantil já publicada em nosso país). Mas se não bastasse este exemplo, Minas também produziu Henfil, o mais genial de todos os cartunistas brasileiros (cuja revista Fradim revolucionou e influenciou os quadrinhos e a cultura brasileira dos anos 70). Na trilha de Ziraldo e Henfil, veio a chamada “geração do Humordaz”, capitaneada por Nilson e Lor, que na virada dos anos 70 para os 80 fazia quadrinhos e humor driblando a censura política.

O passo seguinte foi dado por autores com trabalhos bastante diversificados, publicados nas revistas Meia-Sola e Uai, cuja característica comum era o amor pelos quadrinhos e pelo desenho. Vale aí destacar quadrinistas como Melado e Guga, que só não se tornaram mais conhecidos devido ao deserto editorial que assolou os quadrinhos brasileiros no fim dos anos 80, sem falar no fato de que, embora Minas Gerais não tenha mar, Belo Horizonte às vezes mais parece uma ilha, perdida e isolada do resto do mundo editorial. Alguém que conseguiu transpor montanhas e alcançar alguma fama fora de BH foi o incansável e quase folclórico Lacarmélio, mais conhecido pelo nome de seu personagem Celton.

Mas enfim chegaram os anos 90 e com eles toda uma geração de novos talentos. E se não havia um mercado de quadrinhos para autores brasileiros (e muito menos mineiros), nós acabamos criando por aqui um movimento que nos permitiu produzir e divulgar nossos trabalhos. Assim surgiram as revistas Legenda, Graffiti, Solar e Caliban, o Estúdio HQ e o Big Jack, sem falar nos eventos de lançamento e nas três edições da convenção de quadrinhos BHQ. Foi nesse contexto de efervescência criativa que lemos pela primeira vez os nomes de Marcelo Lelis, Luciano Irrthum, Chantal, João Marcos, Cleuber...

Idas e vindas numa vida dedicada aos quadrinhos, publiquei álbuns e revistas, escrevi críticas para jornais e produzi programas para tevê, organizei eventos e participei de outros. Foram as HQs também o tema de minhas pesquisas de Mestrado e Doutorado, nas quais estudei os quadrinhos enquanto arte educativa, tendo como referencial de estudo respectivamente as revistas Pererê e Fradim (o que nos leva de volta ao início deste texto). Não tendo parado de produzir, passei também a ensinar quadrinhos em oficinas e especialmente no curso sediado no Centro Cultural UFMG (ligado à universidade na qual construí minha formação acadêmica).

Tendo se iniciado em 2004, o curso já teve diversas turmas e é sempre muito bacana conhecer novas pessoas ávidas por fazer quadrinhos e apaixonados por essa arte! Pessoalmente, foi também algo marcante, pois eu deixava então de ser aluno para me tornar alguém que passava seus conhecimentos e experiências. Uma turma em especial alcançou um resultado diferenciado, num convívio que se estendeu de 2005 a 2006, passando pelo Curso de Quadrinhos regular e completando-se com um ano inteiro de Laboratório de Quadrinhos (curso no qual eu atuei como um editor, orientando os alunos e buscando desenvolver com eles seu potencial autoral). Participaram daquela turma “figuras” como Jaum, Marcus, Lucas e Rafael, mais tarde Daniel, Wellington e Matheus, entre outros.

Hoje está claro para mim que o que acontecia naquele momento era a chegada de uma nova geração. Uma nova leva de quadrinistas interessados em traçar sua própria história e contribuir para a história dos quadrinhos no Brasil. A primeira prova contundente da chegada dessa nova geração é a Peiote, o melhor lançamento independente do FIQ 2009. Editada pelo Jaum e contando com a participação de alguns de seus colegas de curso e de quadrinistas de outros estados ou gerações, a revista impressiona pela qualidade gráfica. Ainda não tive tempo de ler, mas a Peiote é de “encher os olhos” pela diversidade de traços e temáticas que traz. Enquanto torço pela continuidade do projeto, Jaum já merece nosso aplauso por ter produzido uma revista que as editoras brasileiras deveriam estar publicando.

Daqui da ilha Belo Horizonte, mas em contato com o mundo, os autointitulados “Macacos Humanos”, com seus “quadrinhos fantásticos” para “mentes adultas”, mostraram que a história de Minas com os quadrinhos ainda tem muitos capítulos por se escrever. Que venham então as novas edições da Peiote e de muitas outras revistas independentes! E à nova geração que chega, muita sorte e todo o sucesso!

26/06/2009

Os 40 anos do Pasquim!


Com a morte do jornalista e humorista Sérgio Pôrto em 1968, saiu de circulação o jornal Carapuça, por ele editado. Para não perder o filão editorial, o diretor da Distribuidora Imprensa Altair de Souza e o publicitário Murilo Reis decidiram investir no projeto de um novo semanário de humor. Por sua vez, os humoristas e jornalistas brasileiros ansiavam por mais espaço e liberdade, devido ao fechamento de vários veículos e as restrições sobre o trabalho na grande imprensa, após o AI-5.

Juntou-se assim “a fome com a vontade de comer” e, após meses de reuniões envolvendo Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, entre outros, decidiu-se por um projeto geral que levaria o nome Pasquim. Na época em que aconteciam essas reuniões, Henfil já fazia bastante sucesso no Rio de Janeiro, mas não foi chamado imediatamente para participar do novo jornal de humor. Porém, em uma de suas idas ao Maracanã, no intervalo do jogo, ele foi abordado pelo jornalista Sérgio Cabral que lhe fez o convite para se juntar à equipe. Tentou desconversar, mas acabou aceitando participar.

O Pasquim pode ser considerado uma vitória do riso naqueles tempos de generais de cara fechada. Editado em formato tablóide, o semanário de humor estreou há exatos 40 anos, no dia 26 de junho de 1969. E a despeito do texto de Millôr Fernandes vaticinando que o Pasquim não duraria três meses (caso fosse fiel à sua proposta de independência), a tiragem inicial de catorze mil exemplares esgotou-se imediatamente. Aquele “jornal de Ipanema” tornava-se um sucesso de público, e em breve não se restringiria às praias do Rio. Como costuma se dizer, o Pasquim representou uma revolução de descontração e inconformismo na séria e bem-comportada imprensa brasileira da época. Para Henfil:

“O Pasquim foi o Maracanã! O futebol no Rio realmente cresceu muito depois do Maracanã. Futebol em Minas só depois do Mineirão. O humor só depois do Pasquim. Foi a primeira experiência de juntar todos, de tendências as mais diversas e às vezes opostas. Pessoas pensando de maneira oposta e o negócio deu certo.”

Não há duvida de que o caráter inovador e corajoso do Pasquim foi a chave para seu sucesso, numa época de ostensivo ataque à inteligência e à criatividade do país. Mas o jornal era, sobretudo, uma diversificada soma de opostos e complementares, que se valeu da ampla experiência pública de seus integrantes nos principais jornais e revistas do país (Millôr e Ziraldo, por exemplo, haviam se tornado nomes nacionais através das páginas de O Cruzeiro ainda nos anos 50). Ao ser perguntado pelo amigo Tárik de Souza se o sucesso estrondoso do Pasquim, que se concretiza e estabelece em 1970, deveu-se à ditadura militar, Henfil respondeu:

“Eu acho que não, porque foi um amadurecimento dessas pessoas todas. Veja um negócio: o Paulo Francis. Era um cara que vinha, caminhos os mais confusos, né? Esteve em teatro, crítica de teatro, passou para a política, até pegar um estilo na política muito pessoal de escrever. Millôr Fernandes vinha de uma série de experiências, mas uma coisa muito pessoal! Impossível de compartilhar com outros, era ele e ele. Com o amadurecimento dele, a tentativa quando fez a Pif-Paf já era uma coisa de trabalhar junto! Equivaleria, por exemplo, a você chegar para um cantor de muito sucesso e convencer a ele, o maior cantor do mundo, que ele tem que fazer parceria com outros, talvez até menores. O Millôr já estava se preparando para isso, tanto que ele tentou juntar gente através do Pif-Paf. E o Jaguar, que era um cara que tinha uma experiência da Última Hora, com um cartunzinho, tinha uma experiência na revista Senhor com uma coisa maior e etc. Ele veio amadurecendo e estava na hora do Jaguar, para fazer personagem, para fazer o Sig e aquela coisa toda. Ziraldo! A mesma coisa. Tinha uma experiência mais pulverizada. Fazia de tudo! De repente o Ziraldo começou a se politizar! De repente, não! A partir do governo JK, o Pererê, que era uma coisa para a área infantil, começou a se politizar. Fortuna e o Claudius cresceram, nos seus desenhos, na sua visão, naquela coisa toda. Eu, com experiência diária no Jornal dos Sports, uma série de coisas, estava pronto para aquilo. Então... Funcionou todo esse negócio com pessoas que não se entendiam. A única unanimidade era o Jaguar. Era um saco de gatos!”

Para o criador dos fradinhos, no surgimento e sucesso do Pasquim, “a ditadura teve um único papel: ajudar a inviabilizar nos jornais a linguagem pessoal dessas pessoas que acabamos de citar. Então eles tinham que fazer fora destes jornais!”. Para o próprio Henfil, o novo jornal surgiu como a oportunidade esperada para politizar mais seu trabalho, que ele sentia limitado nas charges sobre o futebol. Chamado a continuar com o humor esportivo no Pasquim, ele se recusou. Era a vez do fradinho Baixinho!

(O texto desta postagem faz parte de meu livro inédito A Revolução de Fradim, adaptado a partir de minha tese de Doutorado sobre o genial Henfil e sua revolucionária revista Fradim.)

04/01/2008

A revolução de Fradim.



Hoje completam vinte anos da morte de Henrique de Souza Filho, o Henfil. Dono de um traço originalíssimo, esse mineiro nascido em Ribeirão das Neves foi um dos mais importantes cartunistas brasileiros de todos os tempos. Humorista genial, Henfil criou personagens marcantes (como os Fradins e a Grauna), além de escrever livros e textos para jornais e revistas (como a série Cartas da Mãe) e produzir crônicas e quadros para tevê (como o TV Homem). Entre suas criações mais importantes está a revista Fradim, lançada entre 1973 e 1980 pela Codecri (editora ligada ao jornal alternativo Pasquim). Lançada em plena Ditadura Militar, a revista revolucionou os quadrinhos brasileiros, com a coragem e a expressão inegável de um riso que liberta (tema de minha tese de doutorado e título de um dos livros que lancei pela Marca de Fantasia).

Surgidos em julho de 1964 na revista mineira Alterosa, os Fradinhos Baixinho e Cumprido eram, a princípio, uma dupla de silenciosos desordeiros, desenhados num traço ainda amador. Com o cancelamento da revista, Henfil transferiu-se para jornais de Belo Horizonte, nos quais aprimorou seu desenho e aprofundou seu senso crítico, além de produzir charges sobre os times de futebol da capital mineira. E foram as charges futebolísticas que garantiram ao jovem cartunista um convite para se transferir para a matriz do Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro. No novo emprego, Henfil alcançou projeção nacional ao criar novas mascotes para os times de futebol cariocas (como o popularíssimo Urubu do Flamengo). Conseguindo uma incrível identificação com o público, o desenhista foi convidado a fazer charges futebolísticas para o Pasquim, que reuniria nomes como Ziraldo, Jaguar e Millôr. Contudo, Henfil tinha outros planos para o jornal; planos chamados “Fradinhos”.

Sob o clima asfixiante do recém-decretado AI-5 (que limitou as liberdades civis e ampliou os poderes da Ditadura), o contestador Pasquim chegou como uma válvula de escape e uma resposta da criatividade frente à opressão. Nesse processo, o papel de Baixinho e Cumprido seria fundamental: começando num tímido quarto de página, em quatro meses eles já tinham conquistado a contracapa do jornal, de onde avançaram para as páginas centrais (evidenciando a enorme repercussão junto aos leitores). Quando perguntado sobre o efeito causado por seus personagens, Henfil refletiu: “Olha, o Fradinho foi catártico! As pessoas estavam arrasadas com a Ditadura, né? Porque ela começou muito branda em 64, 65, quer dizer, em 68 é que a Ditadura se instalou no Brasil para valer. E as pessoas estavam arrasadas. Então vinha um personagem que vinha voando a dez mil enquanto a realidade estava voando a cem metros e derrubando latas de lixo” (Como se faz humor político, p.36).

O que Henfil chamou de “catártico” corresponde à identificação dos leitores com o sádico Baixinho. Numa época de cala-bocas e policiamentos, o incontrolável Fradinho chegava contestando a “moral e os bons costumes”, rebaixando tudo a um nível visceralmente humano (pois não era nada comum ver um personagem de quadrinhos arrotando, fazendo xixi ou apontando o dedo para as injustiças sociais). E tudo feito num estilo incrivelmente original, um desenho vivo chamado por Henfil de “traço caligráfico”. Consolidando-se na preferência dos leitores do Pasquim e no imaginário social da época (“TOP! TOP!”), Baixinho e Cumprido ganharam, em abril de 1971, o Almanaque Fradinhos 1. Totalizando 68 páginas em formato tablóide gigante, a publicação reproduzia a origem na Alterosa e alguns lances dos primeiros anos de Baixinho e Cumprido, culminando nos eventos de sua morte e ressurreição (pois em dado momento Henfil se assustou com a identificação dos leitores com o sadismo do Baixinho e decidiu “matar” os personagens, para poder retomar o controle sobre eles).

O sucesso do Almanaque motivou Henfil a investir numa publicação seriada, lançando em setembro de 1973 a Fradim n°2 (70 mil exemplares e tamanho 27cm x 18cm). Com 32 páginas em papel-jornal e formato vertical, a edição trazia histórias inéditas do Baixim e Cumprido, além de reedições das HQs da Turma da Caatinga, com Grauna, Zeferino e Bode Orelana (publicadas no Jornal do Brasil). Após as cinco primeiras edições, a revista foi temporariamente suspensa, voltando a ser publicada em março de 1976, dessa vez num formato horizontal. Com 48 páginas em papel de melhor qualidade, a nova Fradim trazia as HQs do Baixim e da Grauna, sendo completada em edições seguintes por charges (em que Henfil abordava os problemas do Brasil da época), as seções “Cartas de um Subdesenvolvido” (com sua correspondência nos anos em que viveu nos Estados Unidos) e “Fala Leitor!” (com os comentários e opiniões do público), além de anúncios dos jornais em que o cartunista colaborava (desenhados por ele ou comentados por seus personagens). Produzida numa época de contestação política e cultural, a revista Fradim era o produto quase artesanal de uma personalidade incrivelmente criativa.

No fim dos anos 70, a Fradim foi publicada sem periodicidade definida (às vezes com mais de um ano separando uma edição, da seguinte), chegando ao fim no número 31, em dezembro de 1980. Tendo influenciado e inspirado várias outras publicações alternativas, a Fradim era uma revista singular: produto da indústria cultural e obra quase artesanal; série em quadrinhos com ótima vendagem e publicação que fugia aos padrões mercadológicos; desenho que apelava à emoção e instrumento de um projeto de conscientização; uma obra-prima dos quadrinhos produzida por um autor que aspirava ser “a mão do povo que desenha” (como revelou à Versus Edição Especial Quadrinhos no auge de sua popularidade, em 1976). De fato, Henfil foi o cartunista brasileiro mais influente dos anos 70, enquanto sua obra transcendia as páginas das publicações e os limites tradicionais do humorismo (tendo importante papel nas campanhas pela Anistia e pelas Diretas Já). Assim como seus irmãos Betinho e Chico Mário, Henfil era hemofílico e contraiu o vírus da AIDS numa transfusão de sangue nos anos 80. Vindo a falecer em 4 de janeiro de 1988, antes de completar 44 anos, “o filho da Dona Maria” deixou uma obra genial e intensamente humana. O testemunho de uma vida e de uma época; a expressão viva de um riso que liberta.

Texto baseado em meu livro inédito A revolução de Fradim.