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10/12/2009

Um “especial de Natal” com John Constantine.


Uma criação do inglês Alan Moore, o mago John Constantine estreou nas páginas da revista Swamp Thing para logo ganhar uma revista própria, escrita pelo também inglês Jamie Delano. Tornando-se uma das bases do selo Vertigo, a revista Hellblazer conquistou fãs fiéis, tornando-se a publicação mensal mais duradoura da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. No fim de 2008, somando quase onze anos de publicação, em seu n°250 a série ganhou uma edição especial de Natal, com cinco HQs curtas produzidas por diferentes autores. Não tive oportunidade de lê-la na época, mas finalmente consegui um exemplar dessa interessante antologia, cuja leitura divido com vocês agora. E como era de se esperar, embora seja um “especial de Natal” ou “Fim-de-Ano”, em se tratando de uma revista com John Constantine, não poderiam faltar palavrões, maldições e alguns demônios.

A primeira HQ é um roteiro de Dave Gibbons (ao qual ele se referiu na entrevista que fizemos há um ano) com desenhos de Sean Phillips (um dos desenhistas tradicionais da Hellblazer). Nela, o roubo de um artefato egípcio milenar leva Constantine a uma perseguição em plena noite de reveillon. O roteiro até consegue empolgar de início e os desenhos seguem o padrão de qualidade de Phillips, mas o final é meio fraquinho e Gibbons continua sendo um melhor desenhista do que roteirista. A história seguinte, “Cartões de Natal” (ou “Cartas de Natal” no trocadilho em inglês), traz um jogo de poker como pretexto para um drama pessoal. Nesse roteiro de Jamie Delano, ilustrado por David Lloyd, o mago londrino é apenas um observador-narrador que nos revela a história de um pai desesperado e um trapaceiro prestes a encontrar o "espírito de Natal".

A história seguinte foi o motivo principal para eu ter comprado a Hellblazer n°250. Não pelo roteiro escrito em rimas por Brian Azzarello (que mostra Constantine realizando um exorcismo num bar de Chicago), mas sim pelos fantásticos desenhos de Rafael Grampá, com cores por Marcus Penna. Num estilo bem pessoal, composto por tracejados e elementos caricaturais, o trabalho do desenhista brasileiro é o diferencial e um dos pontos altos da revista. Já a HQ seguinte traz uma “maldição de Natal”, escrita por Peter Milligan e desenhada por Eddie Campbell. Com uma alma penada e uma ceia em família, esse parece o menos pretensioso de todos os roteiros, mas se revela o melhor da coletânea. Fechando a edição, o trabalho de China Miéville, Giuseppe Camuncoli e Stefano Landini que é o mais inverossímil e fraco dessa edição.

O saldo final de Hellblazer n°250 é positivo. Algumas boas histórias com visual diversificado e dois pontos altos, no roteiro de Peter Milligan e nos desenhos de Rafael Grampá. Pode-se dizer em resumo que essa foi realmente uma revista pensada para os fãs de John Constantine, especialmente por trazer autores ligados à história do personagem, como é o caso de Jamie Delano, Sean Phillips e David Lloyd. E com o retorno das séries do selo Vertigo ao Brasil, através da Panini, há a chance de essas HQs curtas especiais serem vistas por aqui.

21/11/2008

Garth Ennis em coletânea e encadernado da Pixel.


O irlandês Garth Ennis beneficiou-se da chamada “invasão britânica” que tomou conta dos quadrinhos da DC Comics nos anos 80. Afinal, foi o trabalho de outros autores britânicos (como Alan Moore, Jamie Delano, Neil Gaiman e Grant Morrison) que estabeleceu o terreno onde Ennis pôde desenvolver seus peculiares roteiros. Estreando na revista Hellblazer, ele se consagraria com Preacher, série que traz uma trama conspiratória, em meio a um pouco de sexo, muitas blasfêmias e bastante violência. Para os fãs do controvertido roteirista, a Pixel lançou recentemente a coletânea Hellblazer: Hábitos Perigosos e o encadernado Preacher: Memórias, que estabelecem várias pontes entre quadrinhos e cinema.

Publicada em 1991, Hábitos Perigosos marcou a estréia de Garth Ennis no mercado norte-americano, sendo uma das histórias mais festejadas pelos fãs de John Constantine. Dividido em seis partes, esse arco começa com a notícia de que o personagem está à beira da morte. Fumante compulsivo, o mago inglês acorda um dia tossindo sangue e acaba descobrindo que está com um câncer em fase terminal. Encarando a própria morte, Constantine tem um assunto ainda mais preocupante para tratar, pois (após anos envolvendo-se em exorcismos e invocações) sua alma é um prêmio cobiçado por forças infernais. Revendo amigos, despedindo-se de familiares, conferenciando com forças celestiais ou abissais, enchendo a cara e fumando muito, aos trancos e barrancos ele chega ao limiar de sua vida. No último instante, porém, o mago reverte a situação, mudando seu destino e enganando o próprio Diabo.

Criado por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben para a revista do Monstro do Pântano, Constantine foi desenvolvido por Jamie Delano na revista Hellblazer. Mas muitos consideram que a melhor fase do personagem foi a das edições escritas por Ennis, iniciada com Hábitos Perigosos. O fato é que, embora os desenhos de seus colaboradores sejam péssimos, o texto do roteirista irlandês vale a edição. Fora uma ou outra inconsistência, a intensa trama prende e envolve o leitor com um terror cru que não recorre a teorias conspiratórias e outros subterfúgios que se tornaram tão comuns ultimamente. Preferida por muitos leitores, não é por menos que Hábitos Perigosos forneceu vários elementos para o roteiro do filme Constantine. Contudo, além das diversas interferências hollywoodianas (como trazer o personagem com cabelos negros e usando uma arma), o filme não tem a força da HQ.

Preacher: Memórias reúne três edições lançadas pela Pixel, num total de quatro HQs especiais: “O cavaleiro altivo”, “A história de você-sabe-quem”, “Guerra de um homem só” e “Cassidy: Sangue & Uísque”. A primeira delas mostra Jesse Custer e Tulipa no tempo em que eram namorados e assaltantes de carro. A aventura passada no Texas tem muito dos chamados road movies, com suas perseguições de carros, paisagens ermas, crimes e violência (ou seja, um quadrinho que poderia ter sido feito por Quentin Tarantino). A segunda história abre com uma sátira ao filme Forrest Gump: O Contador de Histórias, na qual o personagem interpretado no cinema por Tom Hanks é substituído pelo desfigurado Cara-de-Cu. A história desse adolescente incomum (repleta de violência familiar, delinquência juvenil, niilismo e várias referências à cultura grunge) fez a cabeça de muitos leitores, mas é a menos interessante desse encadernado.

Mais interessante é a terceira HQ da edição, que conta a história de Herr Star, um assassino frio que trabalha para a organização Graal. Com muitas situações escatológicas (tanto no sentido relativo ao fim-do-mundo, quanto no relativo aos excrementos), a história lançada em 1998 aborda temas que se tornaram populares nos últimos anos, com o livro (e o filme) O Código Da Vinci de Dan Brown. Mas a melhor (e menos pervertida) das quatro histórias é a última, que enfoca Cassidy, o vampiro mulherengo e beberrão da série Preacher. Fugindo da polícia, o morto-vivo gente-boa acaba chegando a Nova Orleans, onde encontra um pedante e egocêntrico sugador de sangue, que parece saído dos livros de Anne Rice (e lembra o personagem interpretado por Tom Cruise em Entrevista com o vampiro). No geral, os desenhos servem bem às quatro histórias, com destaque para a terceira, desenhada por Peter Snejbjerg.

Com direito a palavrões, tramas envolvendo demônios e religião, dejetos humanos e uísque, as duas edições devem agradar aos fãs de Garth Ennis. A história dessa coletânea com John Constantine é um marco dos quadrinhos com temática adulta da DC Comics, sendo uma precursora do selo Vertigo. O encadernado com as histórias de Jesse Custer & Cia. é um tanto irregular e vale mesmo pela última HQ, que ironiza o universo gótico de Anne Rice e seu Entrevista com o vampiro. Para quem ficou interessado, Hellblazer: Hábitos Perigosos tem 160 páginas, custando R$37,90; Preacher: Memórias tem 244 páginas, ao preço de R$22,90.

18/11/2008

Alan Moore premonitório: exclamação ou interrogação?


Antes de mais nada, devo dizer que não sou daqueles que acreditam em qualquer coisa. Mas também não sou daqueles que só aceitam o que é “comprovado pela ciência”. Afinal, há ainda muitos mistérios incompreendidos pela racionalidade humana. Dito isto, gostaria de compartilhar uma intrigante questão sobre uma possível “premonição” contida numa HQ de Alan Moore. A história em questão é “Revelations”, publicada na revista Swamp Thing n°46, de março de 1986 (e que, pelos padrões editoriais norte-americanos da época, deve ter sido produzida com cerca de seis meses de antecedência, ainda em 1985).

Nessa história, encontramos os personagens Monstro do Pântano e John Constantine às voltas com o iminente fim-do-mundo (e outros eventos ligados a Crise nas Infinitas Terras). Embora o mago de sobretudo tenha prometido “revelar” ao elemental da Terra informações sobre sua origem, o que de fato justifica o título da HQ é seu clima “apocalíptico”, uma vez que o último livro da bíblia é conhecido, em inglês, como Revelation. A referência bíblica é evidenciada logo no topo da primeira página, onde Moore reproduz o trecho do Apocalipse que diz: “O terceiro anjo soprou sua corneta e uma grande estrela caiu do céu, queimando como uma tocha... O nome da estrela era Absinto” (8:10). Bom, até aqui, nada mais que um caso de engenho narrativo envolvendo uma intertextualidade com a Bíblia.

Porém, este caso ganhou uma nova perspectiva há alguns anos. Na época eu trabalhava na pesquisa para o roteiro de um novo álbum. Uma vez que o personagem principal da história teria nascido em 1986, este contexto em específico seria bastante relevante para mim. Como a história envolvia questões míticas e místicas, um trecho do Apocalipse também fazia parte de meus planos (como já havia acontecido nas revistas Mystérion e Apócripha). Foi aí que me lembrei da história do Monstro do Pântano que eu lera, em sua edição brasileira, uns dez anos antes. Pesquisei então a data de lançamento na edição original, e lá estava a reveladora citação, que concluía com a palavra “Wormwood”: Absinto. Uma mistura de arrepio e euforia me atingiu como um raio!

Eu explico. O fato é que o nome Absinto é traduzido para diversas línguas, dando origem ao referido “Wormwood” do inglês, bem como a outras versões como o nome russo “Чернобыль”, que escrevemos: Chernobyl (devo acrescentar, porém, que algumas fontes divergem quanto à tradução mais correta do nome Chernobyl, do russo e do ucraniano, como sendo “Absinto”). A preocupação com os possíveis danos causados pelo mal-uso da energia nuclear já estava presente nos roteiros de Alan Moore (como em “Nukeface Papers”). Mas, uma vez que traz ©1985 e é datada de março de 1986, a revista Swamp Thing n°46 poderia ser lida como uma espécie de premonição para o acidente nuclear ocorrido na cidade de Chernobyl, em 26 de abril de 1986.

É no mínimo intrigante a citação da palavra “Wormwood”, numa revista lançada no mês que antecedeu o acidente radioativo na cidade de Chernobyl. O que me leva à questão: seria isso uma enorme coincidência, uma incrível sincronicidade ou mais uma “premonição” do roteirista e mago inglês? Bom, os dados foram lançados, cada um agora que tire suas conclusões. No mais, quero encerrar esta postagem desejando parabéns ao genial Alan Moore, no dia de seu aniversário de 55 anos!

(Para saber mais sobre Alan Moore e seus quadrinhos, clique no nome em destaque abaixo.)

17/11/2008

Premonitory Moore: exclamation or interrogation?


First of all, I must say that I’m not one of those guys who believe in everything; but I’m neither one of those who only accept what is “proved by science”. Said so, I want to share with you an intriguing question concerning a possible “premonition” in one of Alan Moore’s comics. I’m talking about Swamp Thing # 46, with art by Steve Bissette and John Totleben, published by DC Comics on March 1986 (so, its story probably was written 4 to 6 months before that, in 1985).

In the book we find Swamp Thing and John Constantine dealing with the imminent Doomsday (and other facts related to the Crisis on Infinite Earths crossover). Although the British magician had promised to “reveal” important information about the Earth elemental, what really justifies the story title -- “Revelations” -- is its apocalyptic scenario. This reference to the last book of the Bible is made obvious at the top of the first page, where we read the quotation: “The third Angel blew his trumpet; and a great star shot from the sky, flaming like a torch... the name of the star was Wormwood -- Revelations, 8:10.”

Well, at that point nothing more than another case of Mr. Moore’s intelligent storytelling. But the case earned a different perspective a couple of years ago. I myself am a comic book writer, and by then I was researching for the plot of a new graphic novel. Once that my story also quotes the Book of Revelations it reminded me of that old Swamp Thing book. So, when I took the comic again, it was like being hit by a lightening! There was, of course, the quotation that ended with the name “Wormwood”.

Let me explain! When I was researching for my own story, I learned that the original biblical name “Wormwood” is in fact translated to many languages, originating the English word, and also other versions like the Russian word which we spell “Chernobyl”. So, bearing ©1985 and published on March 1986, Swamp Thing #46 could be read as a premonition for the nuclear accident in the city of Chernobyl on April 26th 1986.

A concerning about the possible damages caused by the misuse of nuclear energy had played already an important role in Mr. Moore’s stories (see “The Nukeface Papers”). However, a quotation with the word “Wormwood” printed in a comic book published a month before the radioactive accident in Chernobyl is, at least, intriguing. This brings us to the question: would it all be just an amazing coincidence, an incredible synchronicity or, in fact, one (more) premonition of Mr. Moore? Well, here are the facts; now you can take your own conclusions!

(You can read my exclusive interview with Swamp Thing artist Steve Bissette here.)

30/09/2008

Pondo ordem na casa da Pixel.


Surgida em 2006 de uma associação entre a Ediouro e a Futuro Comunicação, a Pixel Media chegou com a proposta de publicar HQs de qualidade a preços mais acessíveis. Surpreendendo inicialmente com ótimos lançamentos (como os álbuns da série Corto Maltese de Hugo Pratt e o inédito Curupira de Flavio Colin), a editora estabeleceu-se em 2007 com um contrato de exclusividade para as linhas Wildstorm, ABC e Vertigo (que originou a excelente Pixel Magazine). Este ano, porém, a baixa vendagem de algumas edições gerou problemas financeiros que parecem ter levado ao fim da parceria entre a Ediouro e a Futuro. Com isso, a editora passou por um período de reestruturação administrativa e tem buscado novas estratégias e alternativas editoriais, que parecem dar agora seus primeiros resultados.

Ganhadora do HQ MIX de Melhor Editora de 2007, a Pixel teve que reduzir drasticamente seu volume de publicações neste semestre. Nos dois últimos meses, boa parte de suas edições foram encadernados de minisséries lançadas anteriormente (Fábulas: 1001 Noites, Wild C.A.T.s: Círculo Vicioso, Ex Machina: Símbolo). Com os problemas enfrentados, alguns lançamentos anunciados foram cancelados ou adiados (como o segundo volume de Monstro do Pântano, o relançamento de Homem Animal ou as edições mensais de 100 Balas) e algumas histórias ficaram pela metade, sem ainda a definição de sua continuação (como Authority: Choque de Realidades e Emmanuelle, lançadas em junho). Outro efeito do momento de “vacas magras” foi o abandono da publicação de quadrinhos brasileiros (que talvez seja retomada por outra empresa do grupo Ediouro).

No entanto, ao que parece, a reestruturação administrativa e a comercialização dos encadernados de revistas não-vendidas podem estar fazendo efeito. Para quem aguardava ansiosamente, a editora está levando às lojas o primeiro volume de sua reedição da série Sandman de Neil Gaiman (que chegará em formato reduzido, dezessete edições trimestrais e três especiais). Para o mês de outubro, além das edições de Pixel Magazine, Fábulas Pixel e Spawn, o editor-chefe Cassius Medauar anunciou no blog da Pixel a publicação da coletânea Hellblazer: Hábitos Perigosos (uma das histórias mais conhecidas de John Constantine, que forneceu elementos para o roteiro do filme de Hollywood) e também do encadernado Preacher: Memórias (com os três números dessa minissérie reunidos). Se não é a pujança dos primeiros meses deste ano, felizmente já é o sinal da retomada de uma linha editorial.

Enquanto os lançamentos de outubro não vêm, os leitores têm à disposição nas bancas mais um número da Pixel Magazine e a volta da Spawn (após alguns meses na geladeira à espera da assinatura de um novo contrato). Completando um ano e meio de circulação, a Pixel Magazine (96 páginas, R$10,90) chega com uma nova história de Frequência Global, a conclusão de DMZ: Corpo de Jornalista, o começo de uma nova história de Hellblazer e o terceiro capítulo de Y – O último homem (de longe a HQ mais interessante deste número 18). Já Spawn n°176 (28 páginas, R$5,90) traz a primeira parte de “O monstro na bolha”, história de terror com “arte pintada” e um monstro que parece saído do filme O enigma que veio do espaço de John Carpenter ou de um conto que H. P. Lovecraft.

18/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte3.


Parte final de nossa entrevista exclusiva, e David Lloyd fala porque ele prefere HQs curtas e também sobre sua nova graphic novel que será lançada no Brasil em 2008.

Wellington Srbek: Você já trabalhou com três outros importantes roteiristas britânicos: Grant Morrison, Garth Ennis e Jamie Delano. Como foi trabalhar com eles em Hellblazer?

David Lloyd: Bem, eles são todos grandes escritores. Mas trabalhar com Jamie foi diferente de trabalhar com os outros dois, porque criamos “O Horrorista” numa maneira ao “estilo-Marvel” - ou seja, trabalhando inicialmente com croquis da ação página por página, a partir dos quais eu desenhei os esboços, e a partir dos quais Jamie escreveu o texto final. Eu sempre considerei que esta forma de criar quadrinhos dá ao desenhista muito mais condições de fluir melhor a narrativa visual. Tudo que fiz com Jamie, eu fiz dessa mesma forma. Grant e Garth forneceram roteiros completos. Uma vez eu sugeri ao Garth que trabalhássemos em algo da mesma forma que eu trabalho com o Jamie, mas ele levantou as mãos para o alto horrorizado com tal perspectiva! Um roteirista sacrifica algo de seu controle se trabalha ao estilo-Marvel, e alguns roteiristas não querem isso.

WS: Você parece ter uma preferência por HQs curtas ou séries limitadas, e um gosto por experimentar diferentes técnicas.

DL: Uma razão é que me entedio facilmente, outra é que eu gosto de HQs curtas. Acho que poderia passar toda a minha carreira fazendo HQs curtas de vários tipos, se isso fosse comercialmente viável. Mas nos dias de hoje revistas de antologia sempre têm dificuldades para sobreviver. E, sim, eu gosto de experimentar se possível. Muita coisa nesse negócio [dos quadrinhos] está enraizada em práticas tradicionais voltadas a métodos de produção rápida e, como a experimentação geralmente toma tempo, não é sempre que se pode experimentar. Mas como eu disse, eu me entedio fácil - e a emoção de descobrir uma nova forma de representar algo, ou usar uma nova técnica, nunca se acaba para mim. Eu acho que a aventura de criar algo em arte é uma coisa preciosa, e eu quero preservar isso.
Uma outra parte da questão é que eu nunca quis me tornar um desenhista que vai de um trabalho para outro apenas para manter as contas em dia. Há muitos desenhistas que fazem isso, e eu os respeito por seu profissionalismo - mas eu enlouqueceria fazendo isso. Eu trabalho em coisas que acho interessantes de se trabalhar - e raríssimos projetos de longo prazo têm esse grau de atração para mim. O que aconteceria se eu ficasse entediado no meio de um projeto longo? O resto dele seria um inferno. No começo de minha carreira eu trabalhei em qualquer coisa que aparecia porque eu precisava, mas logo descobri que seria uma boa idéia ter sempre no banco um fundo de reserva que me poupasse da necessidade de pular de um trabalho a outro, a toda hora. E ter essa reserva foi muito importante quando eu quis criar minha própria graphic novel: Kickback. Se eu não tivesse podido escapar da ralação de trabalhar nos roteiros de outras pessoas, como eu teria encontrado tempo para trabalhar nela?

WS: Fale-nos, por favor, de seu novo livro São Paulo, lançado pela Casa 21.

DL: Ele é parte de uma série encomendada pela editora a vários artistas, tendo como tema cidades do Brasil. Eles são retratos dos lugares - texto e ilustração - como vistos do ponto de vista dos ilustradores. Existem volumes sobre o Rio, Belo Horizonte e Salvador, entre outros - estou certo de que você conhece os livros. E me pediram que fizesse o livro sobre São Paulo. Eu pensei muito seriamente antes de aceitar o trabalho. É um desafio e uma grande responsabilidade - retratar uma das maiores cidades do mundo em ilustração e texto não é uma tarefa para se aceitar levianamente, a menos que você seja louco. E pareceu uma responsabilidade e um desafio ainda maiores quando eu fui para São Paulo fazer a pesquisa. Eu descobri que muitas pessoas conheciam e gostavam de meu trabalho lá, e esperavam ansiosamente para ver o que eu faria de sua cidade. Foi muito diferente de minha prática usual de contar uma história sobre pessoas ficcionais num mundo ficcional, onde a verdade é uma escolha e não uma realidade. Definitivamente, no entanto, eu podia apenas responder ao que eu via e ouvia em minha jornada pela cidade naquela viagem de pesquisa, e compilar o livro com aquelas percepções, que foi o que fiz. Eu não sei quão bem, ou mal, os paulistanos responderam a ele. Muitas coisas amáveis me foram ditas sobre o livro quando voltei à cidade para o lançamento [no último mês de dezembro] e depois dele por algumas pessoas, mas não tenho noção de qual seja o consenso geral. Espero que, em geral, seja bom.

WS: Como está a indústria de quadrinhos na Grã-Bretanha hoje, e como você vê o futuro dos quadrinhos em geral, como linguagem e indústria?

DL: Na Grã-Bretanha, não há “indústria” de quadrinhos enquanto tal. Poderíamos ter tido uma aqui, se as editoras tivessem se importado o bastante com nossos talentos locais para mantê-los empregados no Reino Unido, em vez de deixá-los ser exportados no atacado para os Estados Unidos. Mas os editores não se importaram. Enquanto nação, nós não vemos realmente os quadrinhos como uma parte essencial da cultura, como os Estados Unidos e outros países vêem. Nós temos apenas uma revista que é importante em termos artísticos - e que ainda é um campo fértil para muitos novos talentos britânicos - a 2000AD. O resto é principalmente uma mistura de produtos de mercado licenciados ou títulos infantis.
É impossível fazer qualquer previsão sobre os quadrinhos em geral, porque eles variam de país para país e cobrem um enorme campo de estilos. Mas o mangá parece que ocupará um lugar permanente em cada país para o qual tenha sido exportado. Isso é o máximo que eu me arriscaria a especular com alguma certeza.

WS: No quê você está trabalhando agora? Algum novo projeto?

DL: Bem, em março ou abril, [a graphic novel] Kickback estará nas lojas no Brasil - e será algo inédito para os brasileiros. É o primeiro trabalho substancial que pude escrever para mim mesmo - anteriormente eu tive tempo apenas para escrever umas poucas histórias curtas e uma edição única de uma série. Ser um desenhista/roteirista é a melhor e mais satisfatória coisa para se fazer como criador nessa linguagem, se você tem algo que queira dizer com ela. Kickback é um suspense sobre um policial corrupto numa polícia corrupta, que decide mudar sua forma de vida - mas a história é tanto sobre porque ele é corrupto, quanto sobre como ele supera os obstáculos para alcançar uma mudança. Ela tem todos os elementos de uma história policial de ambientação urbana, mas ela é mais sobre as pessoas na situação, do que a situação em si. Eu espero que todos gostem dela aí.
O novo trabalho este ano começa com a ilustração de uma HQ curta para uma coletânea francesa de histórias sobre crianças que foram separadas de seus pais durante a Segunda Guerra Mundial. Depois uma história de fantasmas para outra publicação francesa. E então estarei começando o trabalho numa nova graphic novel, sobre a natureza da qual eu ainda estou por me decidir.

WS: Bom, muito obrigado por esta entrevista!

DL: Realmente não há de quê.

Various virtues: an interview with David Lloyd, part3.


Last part of our exclusive interview, David Lloyd talks about his most recent and future projects, and also explains why he prefers to work on short stories.

Wellington Srbek: You have worked with three other important British writers: Grant Morrison, Garth Ennis and Jamie Delano. How it was to work with them in Hellblazer?

David Lloyd: Well, they're all great writers. But working with Jamie was different to working with the other two because we created “The Horrorist” in a “Marvel-type” manner - i.e. working initially from page-by-page breakdowns of the action, from which I drew layouts, and from which Jamie wrote the final script. I've always considered this way of creating a strip gives an artist much more opportunity for producing a smooth flow to the visual narrative. Everything I've worked on with Jamie, I've done in that same way. Grant and Garth supplied full scripts. I suggested to Garth once that we work on something together in the same way I work with Jamie, but he threw up his hands in horror at the prospect! A writer sacrifices some control if he works in that Marvel-type style, and some writers don't want that.

WS: You seem to have a preference for short stories or limited series, and a taste for experimenting with different techniques.

DL: I get bored easily is one reason, another is that I like short stories. I think I could spend my whole career doing short stories of various kinds if it was commercially viable to do that. But these days anthology books always struggle to sell enough. And, yes, I like experimenting if I can. So much of this business is ingrained in common practices geared towards fast production methods, and experimenting usually takes time, so it's not always possible to do it. But like I say I get bored easily - and the thrill of discovering a new way of depicting something, or using some new technique never fades for me. I think the adventure of creating something in art is a precious thing, and I want to keep that.
Another part of the picture is that I never wanted to become an artist who goes from one job to another just to keep up with his bill payments. There are lots of artists who do that and I respect them for their professionalism - but I'd go crazy doing that. I work on things I find interesting to work on - and very few long-term projects have that degree of attraction for me. What if I got bored half-way through a long run? The rest of it would be Hell. At the beginning of my career I did anything that came along because I had to, but I figured very soon after it was a good idea to always have a back-up bank balance that insulated me from the need to jump off one job and onto another all the time. And having that back-up was very important when I wanted to create my own graphic novel: Kickback. If I hadn't been able to escape the treadmill of working on other people’s scripts, how would I have found time to spend on it?

WS: Please tell us about your new book São Paulo published by Casa 21.

DL: It's one of a series commissioned by the publisher from various artists on the towns and cities in Brasil. They're portraits of the places - text and art - as seen from the artist’s point of view. There are volumes on Rio, Belo Horizonte, and Salvador among others - I'm sure you know the books. And they wanted me to do the book on São Paulo. I thought long and hard about accepting the job. It was a challenge and a big responsibility - portraying one of the biggest cities in the world in art and word is not a task to be taken lightly unless you happen to be crazy. It seemed like an even bigger responsibility and challenge when I came to São Paulo to research it. I found lots of people knew and liked my work here, and were eagerly looking forward to seeing what I was going to make of their city. It was a whole different deal to my usual work of telling a story about fictional people in a fictional world, where the truth is a choice and not a reality. Ultimately though, I could only respond to what I saw and heard in my journey through the city on that research trip, and compile the book honestly from those perceptions, which is what I did. I don't know how well, or otherwise, paulistanos have responded to it. A lot of nice things were said to me about it when I was back in the city for the launch, and after it from some folks, but I'm not aware of the general consensus of opinion. I hope it's generally good.

WS: How is the comics industry in Britain now, and how do you see the future of comics in general, as a medium and as an industry?

DL: There's no comics “industry” in Britain, as such. We could have had one here if comics publishers had cared enough about them to keep all our homegrown talent fully employed in the UK, instead of letting it be imported wholesale to the US, but they didn't. As a nation, we haven't really seen comics as an essential part of the culture as the US and other countries do. We have only one comic that's important in artistic terms - and which is still a breeding ground for much new British talent - 2000AD. The rest is mainly a mix of licenced marketing tools or nursery titles.
It's impossible to make any predictions about comics in general because it varies from country to country and covers such a wide field of styles. But Manga seems like it'll be a permanent fixture in every country it's been exported to. That's about as much as I'd risk speculating on with any certainty.

WS: What are you working on now? Any new projects?

DL: Well, in March/April, Kickback will be in the stores in Brasil - and that'll be new to Brasilians. It's the first substantial work I've been able to write for myself - previously I'd only had the time to write a few short stories, and a single issue of a series. Being a writer/artist is the best and most satisfying thing to do as a creator in this medium if you have something you want to say with it. Kickback's a crime thriller about a corrupt policeman in a corrupt police force who decides to change his way of life - but the story's as much about why he's corrupt as how he overcomes the obstacles to achieve a change. It has all the usual elements of a crime story in an urban setting, but It's about the people in the situation more than the situation itself. I hope everyone will like it here.
New work this year starts with me illustrating a short strip for a French publisher in a book of stories about children who were separated from their parents during the 2nd World War. Then a ghost story for another French book. And then I'll be starting work on a new graphic novel, the nature of which I am yet to decide upon.

WS: Well, thanks a lot for this interview!

DL: You're very welcome.