Mostrando postagens com marcador Grant Morrison. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grant Morrison. Mostrar todas as postagens

28/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2004).


O futuro é o que vemos nos capítulos finais de Grant Morrison para a New X-Men. Pelo menos uma versão do futuro dos heróis mutantes, imaginada pelo roteirista escocês. Here Comes Tomorrow (publicada nos n°s151-154) começa um tanto enigmática, com frases que sugerem um conflito e os lados nesse conflito, sem explicar exatamente quem é quem. Mas logo tudo fica mais claro e surge um interessante contexto que lembra a HQ “Dias de um futuro esquecido”, se refeita nos moldes da trilogia Matrix. Em meio a tudo, muitas caras novas, mas também alguns rostos conhecidos, apesar de terem se passado 150 anos.

O Fera (cujo nome em inglês também pode ser traduzido como “a besta”) é o grande vilão, à frente de um exército de Noturnos geneticamente alterados. Wolverine, Cassandra Nova e um velho Robô Sentinela são aliados, a humanidade foi quase extinta e o mundo beira o apocalipse final. Para completar, entra em cena a Fênix. E tudo isso num dos melhores trabalhos de Marc Silvestri, responsável pelos desenhos destes quatro capítulos finais. O resultado é uma narrativa empolgante e um visual impressionante que justificam o dinheiro gasto nas HQs e constituem uma boa história de despedida.

A fase de Morrison à frente da New X-Men pode ser definida por algumas características básicas: a busca constante por novas ideias e ângulos de abordagem, bem como por dar aos heróis mutantes caracterização e contextualização atuais. A isso se somam a criação de diversos personagens singulares (como Cassandra Nova, Xorn e Fantomex) e também o destaque dado a coadjuvantes incomuns (como Barnell e Angel). Os pontos altos ficam por conta das histórias E is for Extintion, Riot at Xavier’s e Here Comes Tomorrow, sem falar em tudo que foi desenhado pelo excelente Frank Quitely.

Contudo, há também grandes falhas, a começar pelos desenhos ruins em vários capítulos. A isso se somam alguns roteiros preguiçosos, nos quais a história se arrasta por mais páginas do que deveria, dando a impressão de que não havia muito para ser contado ali. E há ainda os maneirismos de Morrison, como um gosto por diálogos ácidos e o uso de truques emocionais um tanto baratos, como o extermínio de dezesseis milhões de mutantes (que ecoa o extermínio dos seis milhões de judeus pelos nazistas) e o cenário da Nova York devastada por Magneto (que parece querer amplificar os atentados de 11 de Setembro).

Com boas ideias e personagens originais, a longa fase de Morrison à frente dos heróis mutantes talvez tenha tido, na verdade, um único defeito principal: a de ter sido longa demais (afinal muitas páginas e capítulos são completamente dispensáveis). Apesar disso, New X-Men é uma série de super-heróis que vale ser lida. Ao lado dos dois filmes dirigidos por Bryan Singer, essa série foi responsável por consagrar a abordagem mais madura que tem beneficiado os heróis mutantes na última década. Sem falar que sua repercussão lançou as bases para o sucesso da Astonishing X-Men de Joss Whedon e John Cassaday.

(Para saber mais sobre as HQs dos X-Men e os trabalhos de Grant Morrison, clique nos marcadores abaixo.)

21/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2003-2004).


New X-Men n°142 é outra HQ de super-heróis nada convencional oferecida por Grant Morrison. Afinal, toda a ação se passa no Clube do Inferno, com Ciclope e Wolverine em meio a dançarinas sensuais e tragos de uísque. Os desenhos se sobressaem em relação à ação, embora às vezes o que chame mais atenção sejam os espaços vazios nas páginas ou desenhos que ocupam páginas inteiras, ainda que narrativamente nenhum desses dois recursos se justifique. Críticas à parte, o trabalho de Chris Bachalo e Tim Townsend corresponde ao tratamento visual que se pode esperar de uma revista Marvel de sucesso.

A edição n°143 traz um gigantesco laboratório em forma de cúpula, que guarda estanhos experimentos científicos. Lá, Wolverine e Ciclope, na companhia de Fantomex, enfrentam violões científicos, na busca por segredos envolvendo o projeto Weapon Plus. Já no n°144, bastante conversa no início e uma boa briga no fim colocam o heróis mutantes frente a frente com o supostamente mortífero Weapon XV. Embora em um ou outro ponto os desenhos não sejam narrativamente claros (algo que se repetiu nessas edições de Bachalo e Towsend), as camadas de detalhes e o dinamismo das imagens são o ponto alto da HQ.

Fechando a sequência em quatro partes (e a coletânea Assault on Weapon Plus), o n°145 nos leva a uma estação orbital que, segundo Fantomex, guarda os segredos sobre o passado de Wolverine, enquanto Ciclope serve só de companhia. Mas, embora Wolverine pareça ter descoberto informações importantes sobre seu passado, ao final da HQ os leitores ficam sem descobrir nada acerca disso, ganhando apenas uma explosão que deixa a estação orbital em pedaços. Com isso, os n°s142-145 destacam-se mesmo pelo visual detalhado e por terem dado um pouco mais de destaque a Wolverine.

Na revista seguinte, tem início uma história dividida em cinco partes, intitulada Planet X (que se estende dos n°s146-150, mais tarde reunidos numa coletânea homônima). Ilustrada por Phil Jimenez e Andy Lanning, a história começa num ritmo acelerado, mostrando Ciclope e Fantomex fugindo da explosão na estação orbital. E quando o alarme de emergência e uma ameaça paralela irrompem na Mansão X, Jean Grey sai ao resgate de Wolverine, enquanto Fera e Emma vão à busca de Ciclope e Fantomex. Tudo, porém, faz parte de uma armadilha orquestrada por um “traidor” entre os X-Men.

O primeiro capítulo de Planet X pode ser considerado o inverso das HQs mais fracas escritas por Morrison para os heróis mutantes. Nestas, um roteiro inconsistente e um ritmo arrastado acabam salvos por um desfecho surpreendente. Mas o que acontece em New X-Men n°146 é o contrário, pois um roteiro interessante e dinâmico acaba atrapalhado pelo velho truque de revelar que um dos heróis, e suposto traidor, é na verdade um antigo vilão, dado como morto ou desaparecido. Pois é isso que acontece, quando o mutante Xorn tira seu capacete para revelar ser ninguém menos que Magneto...

E assim, numa só tacada, Morrison eliminou o personagem mais interessante que ele havia criado para a série, além de reforçar que não existe respeito pela morte nas HQs de super-heróis. O capítulo seguinte começa com o triunfo de Magneto sobre Nova York (numa hora dessas por onde andam o Quarteto Fantástico, os Vingadores, o Homem-Aranha...?) e as mal-disfarçadas explicações de como e por que Xorn era Magneto numa máscara (quando um autor precisa justificar demais algo que fez, é porque fez algo de errado!). No mais, New X-Men n°147 não passa de alguns bons desenhos e muita conversa fiada.

A revista seguinte continua a historinha de Magneto, o terrorista soberano de Nova York, mas dá maior destaque à situação no espaço, envolvendo Wolverine e Jean Grey (cujo desfecho é, em certa medida, copiado no filme X-Men: O Confronto Final). Já a n°149 começa com diálogos fraquíssimos, prosseguindo com um enredo que se arrasta pelas páginas. Então, no capítulo final de Planet X, com a intervenção da Fênix e o sacrifício de uma personagem, tudo é simplesmente resolvido (repetindo um defeito de alguns roteiros de Morrison, onde o que parece uma grande ameaça acaba eliminado sem grande esforço).

(CONTINUA)

14/03/2010

Os Novos X-Men de Grant Morrison (2002-2003).


Após um começo bombástico em New X-Men n°s114-116, os roteiros do escocês Grant Morrison perderam um pouco da força e do foco nas edições que se seguiram. Além disso, desenhos de baixa qualidade em vários números prejudicaram a série, embora algumas ideias inventivas e situações interessantes tenham mantido as revistas acima da média dos quadrinhos de super-heróis. (Para mais detalhes sobre o primeiro ano de Morrison à frente dos heróis mutantes da Marvel, clique aqui.)

Em vários sentidos, o início do segundo ano da New X-Men repete os erros e os acertos de antes: os desenhos variam muito de estilo e qualidade, os roteiros trazem boas ideias, mas revelam-se inconsistentes no fim. A primeira dessas edições, New X-Men n°127, traz uma história focada no herói Xorn, sendo uma espécie de fábula moral sobre preconceito e suas consequências para o desenvolvimento da raça humana. Com desenhos de John Paul Leon e arte-final de Bill Sienkiewicz, estilisticamente a HQ é um tanto incomum para uma revista de super-heróis, embora tenha um desfecho bem previsível.

Já nos n°s129-130, os desenhos ficam por conta de Igor Kordey que, mesmo não sendo um desenhista ruim, não era o mais indicado para essa série da Marvel. Ao mesmo tempo, nessa sequência de histórias, Morrison parece ter tido como único propósito apresentar um novo personagem que havia imaginado: o mutante Fantomex (uma versão Matrix de Fantômas, anti-herói francês do início do século 20). O fato é que, salvo uma boa “sacada” em relação ao codinome Arma-X (onde o “xis” é relido enquanto o algarismo romano para o número dez), a HQ não interfere muito na vida dos heróis.

New X-Men n°131, ilustrada por Leon e Sienkiewicz, começa com um funeral em Paris e continua no caso amoroso psíquico-imaginário de Ciclope e Emma Frost. Já a edição seguinte, desenhada por Phil Jimenez e Andy Lanning, leva os leitores de volta a Genosha, ilha-país na qual dezesseis milhões de mutantes foram exterminados. Para a próxima revista, temos uma nova dupla de desenhistas, Ethan Van Sciver e Norm Rapmund, uma nova locação nas areias do Afeganistão e uma nova mutante chamada Dust (Poeira), com direito à primeira participação efetiva de Wolverine nesse segundo ano de Morrison.

Somando até ali sete edições (que seriam reunidas na coletânea New Worlds), o segundo ano de Morrison na série não tinha ido muito além de introduzir novos personagens conceituais, em meio a algumas boas “sacadas”. Felizmente, as coisas melhoram bastante a partir de New X-Men n°134, edição ilustrada por Keron Grant e Norm Rapmund. Com ela, tem início uma sequência de cinco HQs nas quais, pela primeira vez em várias edições, o roteirista parece não atirar para os lados, apresentando uma história mais coerente e interessante (que seria reunida na coletânea Riot at Xavier’s).

Mostrando um motim de jovens alunos da escola do Professor Xavier, as revistas abordam ao mesmo tempo os temas do preconceito contra as minorias e do perigo trazido pelas drogas. Trabalhando bem os personagens secundários, o roteiro deixa os X-Men tradicionais na periferia da ação, embora seu desfecho traga uma cena, envolvendo Scott, Emma e Jean Grey, que tem desdobramentos até as edições atuais dos heróis mutantes. E se o roteiro não decepciona, os desenhos do sempre ótimo Frank Quitely fazem de New X-Men n°s135-138 edições que valem a pena serem lidas e vistas.

A edição n°139 começa do ponto em que Morrison havia encerrado a revista anterior, com Jean Grey descobrindo o caso psíquico entre seu marido e Emma. O restante da edição, ilustrada por Jimenez e Lanning, mostra uma inquisição psíquica em que a Jean-Fênix atormenta uma indefesa Emma. Nada tão drástico, porém, quanto o aparente assassinato da ex-vilã ao final da revista, o que dispara a investigação que será o tema da edição seguinte. E com desenhos nada impressionantes e uma trama bem morninha, a revista n°140 só se salva por uma interessante revelação na última página.

Quanto ao n°141, além de solucionar parte do aparente assassinato, a revista serve apenas para reforçar que a morte é uma condição bastante contornável nas HQs de super-heróis. No saldo geral, essas três edições da série dão a sensação de um roteiro que se arrasta por mais tempo do que deveria e de desenhos bem abaixo do potencial de uma editora como a Marvel. Algo bem diferente é o que vemos nas quatro edições seguintes, intituladas Assault on Weapon Plus (nome também dado à coletânea das revistas New X-Men n°s139-145), ilustradas pelos competentes Chris Bachalo e Tim Townsend.

(CONTINUA)

08/12/2009

O sombrio Homem Animal de Jamie Delano.


Jamie Delano foi o primeiro dos roteiristas britânicos a ser contratado pela DC Comics no rastro do sucesso de Alan Moore com a revista Swamp Thing. Não por acaso, sua estreia na editora foi com a série Hellblazer, estrelada pelo mago John Constantine, criado nas HQs do Monstro do Pântano por seu predecessor e conterrâneo. E mais do que o trabalho de Moore, foram as histórias de Delano que definiram o caráter e a biografia do cínico ocultista londrino. Ficando à frente de Hellblazer entre 1988 e 1991, o roteirista inglês alcançou bastante sucesso, contribuindo com um dos três pilares principais do que viria a ser o selo Vertigo (sendo os outros dois a própria Swamp Thing de Alan Moore e The Sandman de Neil Gaiman). Mas Delano ainda traria outra contribuição à linha de “quadrinhos adultos” da DC, ao assumir em 1992 a série Animal Man, à qual imprimiu um tom mais metafísico e sombrio.

Um personagem de terceiro escalão na galeria dos heróis DC, o Homem Animal ganhou relevância em 1988, ao ser reformulado por Grant Morrison. Responsável pela Animal Man n°1 ao 26 e pela edição com a “Origem Secreta” do herói, o roteirista escocês criou uma série inteligente, repleta de elementos metalinguísticos e que, em parte, celebra os quadrinhos de super-heróis mais ingênuos da chamada “Era de Prata”. Tornando difusas as barreiras entre realidade e ficção, incorporando temáticas filosóficas e metaficcionais, a fase de Morrison à frente da revista influenciaria as histórias do Homem Animal nos anos seguintes. Mas, apesar do interessante trabalho feito por seu sucessor imediato, o irlandês Peter Milligan, nas mãos do norte-americano Tom Veitch a série perdeu força e leitores. Era preciso dar-lhe um novo direcionamento. E esse novo rumo veio em meados de 1992, quando Jamie Delano trocou as páginas da Hellblazer pelas da Animal Man.

Já na primeira edição, o novo tom sombrio fica evidente, afastando a série da influência de Morrison e aproximando-a das concepções metafísicas da Swamp Thing de Moore. Trazendo o primeiro capítulo de “Carne e Sangue”, Animal Man n°51 começa com o Homem Animal vivendo numa fazenda do interior dos Estados Unidos, na companhia de sua esposa Ellen e de sua filha Maxine, enquanto seu filho Cliff fora morar com um estranho tio-avô em São Francisco. Uma noite de amor ao luar, um pesadelo infantil premonitório e o atropelamento de um cão dão o tom da história e antecipam o que virá pela frente. Para completar, o texto de Delano reforça sensações físicas, remetendo à “carne e sangue” do título. As coisas começam a complicar quando o Homem Animal parte em busca de seu filho. O resultado é catastrófico, pois além de não se reencontrar com Cliff, o herói acaba atropelado e estraçalhado pelo trailer do psicótico Tio Dudley.

Além da influência estilística presente desde o início, começam a surgir aí várias semelhanças com a Swamp Thing. Afinal, em sua primeira HQ para aquela série, Moore “matou” o Monstro do Pântano, limpando o terreno para as mudanças que introduziria a partir da edição seguinte. E é exatamente o que Delano fez em sua edição de estreia na Animal Man, que abre espaço para o surgimento do “Vermelho”, dimensão metafísica animal, similar ao “Verde” que vemos nas histórias do Monstro do Pântano. E se no segundo roteiro de Moore para a Swamp Thing temos uma autópsia do herói vegetal, em sua segunda edição com o Homem Animal, Delano nos mostra o cadáver de Buddy Baker cambaleando por um necrotério. E da mesma forma que seu predecessor, o herói também tem que passar por um processo de renascimento nas edições seguintes (no seu caso partindo de um piolho e depois uma libélula, até ressurgir de um ovo, numa forma híbrida).

Apesar dos diversos pontos em comum e da inegável influência das histórias de Alan Moore para a Swamp Thing, o trabalho de Jamie Delano tem alma e qualidade próprias. Com ótimos textos e concepções interessantes, o roteirista deu uma guinada na série Animal Man, direcionando-a para o lado do terror (e distanciando-a das discussões envolvendo o gênero super-heróis que caracterizaram a fase de Grant Morrison). Para isso, contribuíram enormemente os desenhos de Steve Pugh, com sua abordagem cotidiana e sua carga de sombras. O único ponto artístico em comum com o passado são as fantásticas capas ilustradas por Brian Bolland, que mais uma vez acrescentaram força às histórias. Mas até mesmo essa ligação duraria pouco, uma vez que Bolland deixou o título após a conclusão de “Carne e Sangue”. O fato é que, a partir da Animal Man n°57, a revista em sua nova fase sombria e metafísica passava a integrar o selo Vertigo, que era então lançado pela DC.

Provas da ampla e duradoura influência das HQs de Alan Moore para a Swamp Thing, as primeiras histórias de Jamie Delano para a Animal Man têm qualidade própria, reforçada pelas capas de Brian Bolland e os desenhos de Steve Pugh. Essas marcantes histórias inauguraram uma nova fase do Homem Animal e o levaram a integrar o selo Vertigo, mas não tiveram reedições nos Estados Unidos, permanecendo inéditas no Brasil.

03/12/2009

O primeiro “arco” de Batman and Robin.


Há seis meses, chegava às lojas nos Estados Unidos Batman and Robin, nova série em doze números escrita por Grant Morrison. As três primeiras edições, desenhadas por Frank Quitely, trazem a estreia de uma nova dupla dinâmica formada por Dick Grayson (que herdou a capa e o título de Batman, após a aparente morte do herói em Crise Final) e Damian Wayne (o filho rebelde de Bruce). Desta vez, os vilões tradicionais de Gotham City ficam de lado e a ameaça fica por conta do Professor Pyg e de seus asseclas do Circo do Estranho.

Em muitos sentidos, a nova revista da dupla dinâmica lembra All-Star Superman, que também totalizou doze edições e resgatou elementos tradicionais do Homem de Aço. Como Morrison revelou ao saite IGN, em Batman and Robin a ideia foi recapturar a atmosfera fantasiosa das HQs do personagem nos anos 50. Outra fonte importante seria o seriado de tevê dos anos 60, com seus elementos bizarros e histórias agitadas que funcionavam segundo suas próprias regras. Mas o roteirista não abriu mão de elementos mais modernos que fizeram o sucesso de produções recentes com o Batman, buscando criar o que ele chamou de “noir psicodélico”.

Tendo sido uma das maiores vendagens da DC Comics nos últimos anos, Batman and Robin n°1 começa com uma perseguição policial ao carro do vilão Mr. Toad. Entra em cena então um Batmóvel em nova versão voadora, preparada pelo impetuoso e arrogante Damian. Mostrando frieza e autocontrole, Dick parece bem à vontade no papel de Homem-Morcego. Completam a revista um pouco de tensão entre os dois protagonistas, uma boa participação do mordomo Alfred e a entrada em cena do vilão Professor Pyg. No conjunto, a HQ de estreia destaca-se pelo ritmo acelerado da ação, pelos bons diálogos e pelo visual bem particular.

Batman and Robin n°2 traz o desenvolvimento da trama apresentada até ali. Para começar, uma conversa com o Comissário Gordon antecipa uma longa sequência de pancadaria, em que a dupla dinâmica enfrenta os integrantes do Circo do Estranho. Em seguida, a tensão entre os novos Batman e Robin atinge um ponto crítico. Entra em cena então o mordomo Alfred, sempre com um bom conselho ou uma palavra de apoio a oferecer. Ao fim da HQ, um pouquinho mais de pancadaria envolvendo o arrogante Damian e estranhos homens-boneca. Novamente, os desenhos de Quitely e a colorização por computador criam um visual interessante.

Batman and Robin n°3 deixa uma sensação não de velocidade narrativa, mas sim de correria. Trazendo a resolução do “caso” iniciado na primeira edição, a HQ atira informações sobre o leitor, tentando explicar ao mesmo tempo o plano e as motivações do Professor Pyg. Perversões de um psicopata, perseguições num velho parque de diversão e alguma pancadaria encerram o “primeiro arco” da série, abrindo uma porta para as edições seguintes. Mas é um final decepcionante, que não fica à altura da promessa trazida por Batman and Robin n°1. Como aconteceu com Crise Final, Morrison parece não ter conseguido entregar o que prometeu.

Algo que permaneceu atrativo e original ao longo das três edições foram os desenhos. Mas nem isso a série preservou já que, a partir de sua quarta edição, Frank Quitely foi substituído pelo bem menos talentoso e original Phillip Tan. Para quem quiser tirar a prova, os primeiros números de Batman and Robin ainda estão disponíveis para venda em lojas virtuais, devendo chegar ao Brasil em breve, pela Panini.

03/08/2009

Panini lança a mais nova super-saga “definitiva” da DC.


Desde os anos 80, as super-sagas “definitivas” tornaram-se bastante comuns nos quadrinhos das grandes editoras norte-americanas, com destaque para a DC Comics (que lançou essa tendência em 1985 com sua “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras). Mais recentemente, uma verdadeira epidemia cataclísmica (ou simples ganância editorial) levou a uma confusa sequência de “crises” e “contagens regressivas” (que só tendem mesmo a deixar mais pobres os leitores que as seguem). Podemos dizer que, pelo menos desde meados dos anos 90, os quadrinhos de super-heróis em geral foram envolvidos por um esquema editorial que visa somente ao lucro. Com isso, eliminou-se qualquer rastro de um “universo ficcional” dotado de uma história coerente e personagens com credibilidade.

Quando comecei a colecionar quadrinhos, as “vidas” dos heróis importavam e seus destinos ficcionais tinham relevância para nós, leitores. Mas hoje por que motivo um leitor deveria se importar com o fato de que o Batman Bruce Wayne “morrerá” em uma edição vindoura? Afinal, todos sabemos que, num futuro não muito distante, ele será cinicamente ressuscitado por autores e editores interessados tão-somente nas vendagens das revistas. É claro que, desde o início, os quadrinhos de super-heróis foram um negócio, e vender revistas sempre foi a base desse negócio. A diferença é que, até uns vinte ou quinze anos, as histórias eram bem melhores e os personagens não eram vistos apenas como franquias, cujo melhor destino só pode ser protagonizar sua própria produção hollywoodiana.

Em sua função de repetidora local dos produtos DC Comics, a Panini tem seguido à risca a sequência de super-sagas “definitivas”, com suas histórias complementares. Assim, após uma extensa (e provavelmente dispensável) Contagem Regressiva, chegou às bancas brasileiras a alardeada Crise Final. Antes, porém, não faltou uma última exploraçãozinha: a revista Universo DC Especial: Começa a Crise Final (R$4,50). Trazendo capa e contracapa desenhadas por George Pérez e J.G. Jones, e sendo escrita por Grant Morrison e Geoff Johns, a “história” é narrada pelo falecido Flash Barry Allen. Pretendendo-se um prelúdio para a super-saga em questão, a HQ não passa de uma colagem ruim de sequências desconexas (entremeadas por anúncios das novas minisséries a serem lançadas pela Panini).

No final de julho veio, enfim, a Crise Final propriamente dita, minissérie em sete edições, escrita por Grant Morrison. Na divulgação da Panini lê-se: “O fim se aproxima! Ao longo do tempo, os heróis sempre são testados até o seu limite ao enfrentarem ameaças que nenhum deles pode derrotar sozinho. Eventos assim costumam ser chamados de Crises. Em toda a história do Universo DC, já ocorreram dois momentos como esses, que quase levaram toda a existência a um fatídico fim. Porém, mais uma vez os heróis serão necessários para se interpor à frente de um desafio que está muito além de suas forças individuais. [...] E, desta vez, nem todos os heróis escaparão das garras da morte. Mudanças profundas serão sentidas em todo o UDC...”. Será mesmo? Ou melhor, será que alguém ainda cai nessa conversa?

Claro que, para criticar qualquer revista em quadrinhos, é indispensável ler a edição. Se Universo DC Especial: Começa a Crise Final foi uma total perda de tempo e dinheiro, o mesmo não se pode dizer de Crise Final n°1 (R$5,50). A HQ começa na Pré-História, num momento prometéico ao estilo de 2001: Uma Odisséia no Espaço, envolvendo o personagem Metron da série Novos Deuses. Na sequência seguinte, já estamos nos tempos atuais, em que outro dos personagens cósmicos de Jack Kirby é vítima de assassinato. Entram em cena então os Lanternas Verdes, os Guardiões, a Liga da Justiça e outros medalhões da DC. Ecoando frases bíblicas e baseada na consagrada Crise nas Infinitas Terras, a super-saga “final” idealizada por Morrison também se ancora na temática superestrutural do “Multiverso”.

Um dos destaques de Crise Final n°1 deveria ter sido a execução de Ajax o Marciano (sim, ele morre!) pelo misterioso Libra e alguns dos membros da Sociedade Secreta dos super-vilões. A sequência, no entanto, é muito rápida e pouco expressiva, perdendo em dramaticidade. Com isso, o melhor mesmo desta primeira edição fica por conta dos ótimos desenhos de J.G. Jones (o artista responsável pelas capas da série 52). Dono de um traço detalhado e bastante adequado às HQs de super-heróis, o desenhista se sai muito bem nas variações entre passado e presente, ambientes cotidianos ou futuristas, personagens humanos ou alienígenas. Jones não será, contudo, o único responsável pelas sete edições da minissérie, dividindo funções com outros desenhistas, talvez não tão bons quanto ele.

No geral, após ler Universo DC Especial: Começa a Crise Final e Crise Final n°1 (e com R$10,00 a menos no bolso), posso dizer que não fiquei nem um pouco impressionado com o que vi, tampouco empolgado com a continuação de mais esta super-saga DC. Planejada para organizar definitivamente a estrutura do “Multiverso DC”, alinhando seu passado, presente e futuro, a minissérie escrita por Morrison (segundo a opinião geral) acabará se perdendo em suas próprias pretensões megalomaníacas. Pode ser que eu esteja velho demais para este tipo de quadrinho, cheio de personagens com estranhas fantasias coloridas. Mas, ao concluir esta postagem, caro leitor deste blog, eu pergunto: será que alguém (além dos autores e editores envolvidos) precisava de mais uma super-saga "definitiva"?

27/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte3.


Última parte de nossa entrevista e Brian Bolland fala de como desenhar super-heróis (em quê nós discordamos sobre o quão bem ele faz isso), de suas fantásticas capas para Animal Man e The Invisibles, seus projetos pessoais, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais.

Wellington Srbek: Ninguém desenha os personagens da DC melhor que o senhor! Seu estilo detalhado com linhas clássicas e cores brilhantes dá a eles volume, peso, personalidade e vida. Seu desenho tem algo da “Era de Prata” e é ao mesmo tempo completamente moderno. O senhor tem uma abordagem conceitual para como os super-heróis devem parecer?

Brian Bolland: Bem, eu cresci como um fã da “Era de Prata” e certos desenhistas daquela era eram meus ídolos. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. Temo que nunca fui um grande fã de Jack Kirby. Eu era mais fã dos artistas do que dos personagens e mais ligado nos quadrinhos como artefatos colecionáveis do que nas histórias. Eu queria muito desenhar como Neal Adams, mas nunca consegui isso. Eu sou fissurado em desenhos que sejam tecnicamente e anatomicamente bem desenhados, mas eu tenho consciência de que tem que haver muito mais que isso. Eu não acho que eu seja particularmente bom nos super-heróis. Meu trabalho parece mais europeu, uma vez que fico feliz com personagens que estejam parados, posando ou congelados no tempo, no lugar da ação agitada que é requerida pelos quadrinhos norte-americanos de super-heróis. De fato me é pedido ocasionalmente para recriar uma capa da “Era de Prata” e desenhar no estilo de Premiani, Kane or Curt Swan (e esses trabalhos são mais cópias na verdade!). Eu adoro a limpeza e a clareza das capas dos anos 60.

WS: Eu simplesmente adoro suas capas para a Animal Man! Elas trazem imagens marcantes e significativas que contribuem muito para as histórias. A da número 5, por exemplo, é uma obra-prima! Como era o processo criativo nessa série? O senhor lia os roteiros e então bolava os conceitos para as capas?

BB: Obrigado. Eu realmente prefiro capas especificamente ligadas à história em vez da imagem-pôster genérica. Eu me desespero quando o editor diz: “faça simplesmente uma cena de ação”. Eu respondo: “Sim, mas o que exatamente eles estão fazendo?!” Eu sempre pensei que a 2000 AD tinha uma mistura de ação, terror e comédia que funcionava muito bem e eu não estava vendo muito dessa combinação nos quadrinhos norte-americanos da época. Eu gosto dessa combinação e as capas da Animal Man permitiam-me fazê-la. Se me recordo corretamente, para criar as capas eu geralmente tinha o roteiro para ler. Eu lia e colocava estrelas marcando as páginas que tinham algo acontecendo que eu pensava que poderia dar uma capa. Muitas vezes, eu tinha idéias que me diziam algo que provavelmente não tinha sido notado [por outros]. A capa da n°39, por exemplo, é minha homenagem à capa da House of Mystery n°1, de 1951. A n°45 é uma paráfrase ou reciclagem de capa da Judge Dredd n°1 da Eagle. Minha grande favorita é a da Animal Man n°25.

WS: Suas capas para a série The Invisibles são estética e tecnicamente diferentes de suas capas para a Animal Man. Quais foram os principais desafios do trabalho nessa complexa série de Grant Morrison?

BB: O primeiro desafio foi o fato de que os roteiros não estavam disponíveis. Na verdade, eu logo passei a gostar disso e as capas ganharam uma vida própria. Elas eram uma combinação daquilo que a editora Shelly Roeberg queria, do que Grant Morrison queria (quando ela conseguia falar com ele ao telefone) e de qualquer idéia que surgisse na minha cabeça. As últimas doze edições eram apenas eu deixando minha mente voar livre. Especialmente as últimas capas das coletâneas. Eu poderia analisar cada capa e apontar todos os segredos por trás delas, mas isso tomaria um livro inteiro.

WS: Seu trabalho é reconhecido pelos desenhos detalhados, os belas texturas e contrastes em P&B, as expressões faciais intensas, as composições eficientes e por aí vai... O que mudou no seu processo criativo agora que o senhor não produz mais trabalhos em papel (substituído pelo comutador)?

BB: A única coisa que mudou foi a parte técnica. No fim, o computador é apenas um meio para eu alcançar o que quero. Eu estou extremamente feliz em deixar para trás todos os materiais complicados, como pincéis, canetas, aerógrafos e todas as tintas, nanquins e acrílicas. Coisas todas que precisavam ser lavadas. Agora eu posso desenhar e arte-finalizar sem quaisquer problemas e tenho ocasionalmente algumas vantagens extras como a cópia de imagens. Foto-colagem quando quero.

WS: Além de incríveis super-heróis, o senhor também desenha mulheres belíssimas e algumas páginas cômicas. Mas este é um lado de seu trabalho menos conhecido. Por favor, fale a seus fãs brasileiros sobre as séries The Actress & The Bishop e Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian surgiu como uma reação ao tempo que eu estava gastando em meus desenhos e minha obsessão por desenhar bem. Minha velocidade lenta estava impedindo que idéias surgissem num ritmo mais rápido. Então eu decidi que deveria desenhar uma página em duas horas e o personagem-título veio da primeira página que desenhei. Mas ele ganhou vida própria e agora eu gasto mais tempo desenhando-o. The Actress & the Bishop nasceu de uma simples ilustração que eu fiz em meu portifólio para a editora francesa Editions Deesse. Eu queria escrever e desenhar essa HQ tão bem quanto eu conseguisse. Havia uma particular qualidade inglesa nela e para contrariar o fato de que, pelo seu título, as pessoas possam pensar que ela é pornográfica ou algo assim, eu resolvi que iria escrevê-la em versinhos infantis. Eu curtia muito os filmes do Peter Greenaway. Eles tinham obsessões com números e contagem e coisas assim. As rimas em The Actress & the Bishop eram uma forma de dar a mim mesmo uma estrutura obsessiva.

WS: O senhor está produzindo agora capas para a nova minissérie em seis partes The Last Days of Animal Man (a ótima capa para o número 1 já foi comentada em uma postagem anterior aqui no Mais Quadrinhos, tendo me dado o impulso inicial para realizar esta entrevista). Depois disso, quais são seus projetos futuros?

BB: Mais viagens. Estou trabalhando num livro de fotos de uma semana que passei em Burma em 1988. Já mencionei isso? Estou produzindo uma nova história de The Actress & the Bishop. Continuando as capas para Jack of Fables, enquanto me quiserem nisso! Outros projetos pipocam, mas quem sabe se conseguirei acabar realizando-os.

WS: Brian Bolland, muito obrigado por esta entrevista! E obrigado pelo brilhante e belo trabalho!

BB: Obrigado a você!

25/07/2009

A brilliant artist from cover to cover: an interview with Brian Bolland, part3.


Last part of our exclusive interview, and Brian Bolland talks about drawing DC super-heroes, the fantastic Animal Man and The Invisibles covers, his personal projects, funny strips, gorgeous women and a lot more.

Wellington Srbek: Nobody draws DC characters better than you! Your detailed style with classic lines and bright colors gives them volume, weight, personality and life. It has something of the “Silver Age” and at the same time is completely modern. Do you have a conceptual approach to how super-heroes should look like?

Brian Bolland: Well, I grew up as a Silver Age fan and certain artists from that era were my idols. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. I never got into Jack Kirby I'm afraid. I was more a fan of the artists than of the characters and keener on the comics as collectable artifacts than of the stories. I seriously wanted to draw like Neal Adams but never managed it. I'm a stickler for art that's technically and anatomically well drawn but I realize there has to be much more than that. I don't think I'm particularly good at super-heroes. My work looks rather European in that I'm happier with characters that are still, poised or frozen in time rather than the kinetic action that's required from American super-hero comics. I do get asked occasionally to re-create a Silver-age cover and draw in the style of Premiani, Kane or Curt Swan. (They're more swipes really!) I do love the cleanness and the unclutteredness of the 60s covers.

WS: I simply love your Animal Man covers! They are powerful and meaningful images that add a lot to the stories. The #5 cover for instance is a masterpiece! How was the creative process on that series? Did you read the scripts and come up with the concepts for the covers?

BB: Thanks. I much prefer story-specific covers as opposed to the generic poster shot. I despair when and editor says "just do an action shot." I reply "Yes, but what exactly is it they're doing?!" I always thought 2000 AD had a mixture of action, horror and comedy that worked very well and I wasn't seeing quite that combination in American comics at the time. I'm happy with that combination and the Animal Man covers allowed me to do that. If I remember correctly I usually had a script to read for the covers. I went along and put stars on the pages of script where something was happening that I thought would make a cover. Quite often I was coming up with ideas that meant something to me that probably wouldn't have been noticed. Cover #39 for instance is my homage to the cover of House of Mystery #1 from 1951. #45 is a spoof or a re-cycling of the cover of the Eagle Judge Dredd #1. My absolute favorite is Animal Man #25.

WS: Your covers to The Invisibles series are aesthetically and technically different from your Animal Man covers. What were the main challenges working on that complex Grant Morrison’s series?

BB: The first challenge was the fact that the scripts weren't available. Soon I actually liked that and the covers took on a life of their own. They were a combination of what editor Shelly Roeberg wanted, what Grant wanted (when she could get him on the phone) and whatever idea popped into my mind. The last 12 were just me letting my mind run free. Especially the final trade paperback covers. I could analyse each cover and point out all the secrets hidden in them but it would take a whole book.

WS: Your artwork is well known for the detailed drawings, the beautiful black & white contrasts and textures, the intense facial expressions, the strong compositions and so on… What has changed on your creative process now that you don’t produce “real artwork” on paper anymore?

BB: The only thing that's changed is technical. The computer is just a means of achieving what I would have wanted anyway. I'm extremely happy to leave behind all the treacherous tools like brushes, pens, airbrushes and all the paints, inks and acrylics. All of which had to be washed. Now I can pencil and ink without any problems and I have some extra perks like tracing occasionally. Photo-collage when I want it.

WS: Besides amazing super-heroes, you also draw the most gorgeous women and some very funny strips. But this is a side of your work that is less known, so please tell your Brazilian fans something about The Actress & The Bishop and Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian came as a reaction to the time I was spending on my drawings and my obsession about drawing well. My slow speed was preventing ideas tumbling out at a quicker rate. So I decided I'd draw a page in two hours and the title character came from the first page I drew. But it took on a life of its own and now I spend longer drawing it. My only concession is that I only draw it when I feel like it. The Actress & the Bishop grew from a single plate I did in my portfolio for French publishers Editions Deesse. I wanted to write it and draw it as well as I could. It had a particular Englishness about it and to counter the fact that people might think from its title that it would be pornographic or something I thought I'd write it like a nursery rhyme. I was very keen on the films of Peter Greenaway. They had in them obsessions about numbers and counting and things like that. The rhyming in the Actress & the Bishop was a way of giving myself an obsessive structure.

WS: You are now producing covers to the new Animal Man 6-part mini-series. I just loved #1 cover! After this, what are your future projects?

BB: More traveling. I'm working on a book of photos of a week spent in Burma back in 1988. Did I already mention that? I'm doing a new Actress & the Bishop story. Continuing Jack of Fables covers as long as they'll have me! Other projects bubble away but who knows of I'll get round to doing them.

WS: Thanks very much for this interview, Mr. Bolland! And thanks for the brilliant and beautiful work!

BB: Thanks to you.

16/06/2009

A nova revista da “dupla dinâmica” Grant Morrison e Frank Quitely.


Uma boa história em quadrinhos se faz com um roteiro interessante e desenhos de qualidade. Por isso mesmo, quando um roteirista inteligente e um desenhista habilidoso se juntam, o resultado tende a ser o mais proveitoso para os leitores. A julgar pela edição de estréia de Batman and Robin, nova parceria da “dupla dinâmica” Grant Morrison e Frank Quitely, tudo indica que teremos uma memorável HQ de super-heróis. Lançada no início deste mês pela DC Comics, a revista traz bastante ação e bons diálogos, desenhos detalhados e cores em pintura digital de primeira. Já chegando como a maior vendagem da editora nos últimos anos, o n°1 apresenta de uma só vez um novo Batman e um novo Robin, isso sem falar num novo Batmóvel voador.

A parceria entre os escoceses Morrison e Quitely começou em meados dos anos 90. Na época, eles produziram para a DC a minissérie Flex Mentallo, cujas quatro edições podem ser descritas como um delírio visual e temático, na forma de uma HQ de super-heróis psicodélica. A dupla voltaria a se reunir em 2000 para produzir a muito elogiada graphic novel JLA: Earth 2, estrelada pela Liga da Justiça e por sua versão maligna de uma Terra paralela. Trocando a editora do Super-Homem pela do Homem-Aranha, no início do século Morrison e Quitely colaboraram em algumas das melhores edições de New X-Men. Os dois logo voltariam à DC para produzir We3, uma minissérie hiperrealista estrelada por um gato, um cão e um coelho ciborgues. Em seguida, veio All-Star Superman, uma aclamada série limitada com o Homem de Aço, que resgatou aspectos tradicionais do personagem, num visual mais clássico.

Agora é a vez de os quadrinistas escoceses emprestarem seu talento ao outro grande herói DC. O fato é que Morrison já vinha há algum tempo dando as cartas nos destinos do Batman. Por suas mãos, o herói de Gotham City descobriu recentemente que tinha um filho, como é visto na história Batman and Son. Em seguida, o roteirista mostrou o desaparecimento do Homem-Morcego nas páginas de Batman: R.I.P.. Se não bastasse, Morrison aparentemente matou Bruce Wayne nos capítulos finais da “super-saga” Crise Final. O que veio a seguir foi uma espécie de disputa para se saber quem assumiria o “capuz” do Cavaleiro das Trevas, como foi mostrado na minissérie em três edições Batman: Battle for the Cowl (escrita por Tony Daniel). E como já foi amplamente divulgado, o “vencedor” foi Dick Grayson, que herdou a capa e o título de Batman, unindo-se ao novo Robin, Damian Wayne (o filho rebelde de Bruce).

As primeiras aventuras da nova dupla dinâmica é o que será visto na série Batman and Robin, que terá um total de doze edições divididas em quatro partes (sendo a primeira e a última desenhas por Quitely). O "arco" inicial tem como título “Batman Reborn” (“Batman Renascido”) e traz os defensores de Gotham às voltas com o Professor Pyg e seus asseclas do Circo do Estranho. A HQ começa com uma perseguição policial ao carro do vilão Toad. Entra em cena então o Batmóvel em nova versão voadora, preparada pelo impetuoso e arrogante Damian. Mostrando frieza e auto-controle, Dick Grayson parece bem à vontade no papel de Homem-Morcego. Mas, pelo que se pode notar neste primeiro capítulo, a tensão entre os dois personagens será um elemento importante ao longo da série. Também deverá ter um papel preponderante o sádico e insano Professor Pyg, que só aparece mesmo ao fim deste n°1.

Em muitos sentidos, a nova revista da dupla dinâmica lembra All-Star Superman, que também totalizou doze edições e resgatou elementos tradicionais do Homem de Aço, deixados de lado nas últimas décadas. Como Morrison revelou ao saite IGN, em Batman and Robin a idéia é recapturar um pouco da atmosfera fantasiosa das HQs do personagem nos anos 50. Outra fonte importante seria o seriado de tevê dos anos 60, com seus elementos bizarros e histórias agitadas que funcionavam segundo suas próprias regras. Por outro lado, os autores não querem abrir mão de elementos mais modernos que fizeram o sucesso de produções recentes com o Batman, como o filme O Cavaleiro das Trevas. Assim, na definição do roteirista, a nova revista seria um “noir psicodélico”. Se considerarmos o ritmo acelerado e os desenhos impressionantes da primeira edição, Batman and Robin realmente promete ser uma “tremenda viagem”!

Para quem quiser conferir as primeiras páginas da HQ, a DC disponibilizou uma prévia com as duas versões da capa e sete páginas internas: http://www.dccomics.com/media/excerpts/11864_x.pdf

12/06/2009

O novo velho Homem Animal.


Pelos motivos apontados na postagem anterior, o Homem Animal tornou-se um personagem relevante para os quadrinhos de super-heróis e bastante querido pelos leitores. Após o fim da fase de Grant Morrison, as histórias do herói ficaram a cargo dos roteiristas Peter Milligan, Tom Veitch e Jamie Delano (com o qual a série passou a fazer parte do selo Vertigo). Apesar de alguns bons roteiros, ao assumir um tom mais sombrio a série acabou sendo cancelada. E pensando bem, embora as três coletâneas que reúnem a fase escrita por Morrison tenham sido incorporadas ao selo Vertigo, a estética e a temática dessas HQs têm mais a ver com as revistas regulares do “Universo DC”.

Tanto é que, nos últimos anos (em parte graças ao próprio Grant Morrison), o Homem Animal voltou a ser visto na companhia de outros super-heróis DC, tendo papel de destaque na série 52. Mais uma vez resgatado do “Limbo dos Quadrinhos”, o herói acaba de ganhar uma minissérie na qual deveremos ver seus “últimos dias”. Escrita por Gerry Conway, desenhada por Chris Batista e trazendo capas ilustradas por Brian Bolland, The Last Days of Animal Man se passa num futuro próximo e mostra um Buddy Baker quarentão, às voltas com problemas no casamento e com a perda de seus superpoderes.

Tendo sido anunciada com algum destaque pela editora, em seu primeiro número a minissérie não vai muito além de uma HQ de super-heróis regular. A história se passa na cidade de San Diego, que começa a se recuperar da devastação causada por uma tempestade. O clima festivo é logo interrompido pelo ataque do vilão Bloodrage que, por sua vez, é interrompido pela atuação do herói local, o Homem Animal. Então, no meio da luta, Buddy Baker toma consciência de que seus poderes estão lhe faltando (para quem quiser conferir, essa sequência inicial pode ser conferida na prévia disponibilizada pela DC).

Recuperando-se a tempo, o Homem Animal consegue suplantar a ameaça. Seus problemas, no entanto, estão apenas começando. A HQ assume então um caráter mais cotidiano, com discussões conjugais e questões de trabalho. Ao fim, uma nova luta nos lembra que estamos lendo uma revista de super-heróis. No geral, os desenhos seguem um padrão mais técnico do que expressivo, alcançando um resultado apenas regular. Aliás, algo que também não foge à regra é o espaço ocupado pela publicidade: são catorze páginas de anúncios para uma revista com vinte e duas páginas de quadrinhos!

O que realmente se sobressai nesta primeira edição de The Last Days of Animal Man é a interessantíssima capa ilustrada por Brian Bolland. A imagem é uma citação à capa da revista Animal Man n°1, produzida há vinte e um anos pelo próprio Bolland. Ao mostrar o herói e os bichos na mesma posição da capa original, mas substituindo-os por seus esqueletos, a nova imagem sugere criativamente o subtexto apocalíptico da minissérie (uma sugestão: clique nas imagens dessas duas postagens, salve-as em seu computador e veja-as em sequência; o resultado “antes e depois” é bem bacana!).

Como não faz parte da cronologia regular da DC (por se passar num futuro próximo), The Last Days of Animal Man pode ser publicada em breve pela Panini. Mas, para alguém que se acostumou a ver o Homem Animal em histórias inteligentes e até bem-humoradas, esta nova minissérie ainda precisa provar a que veio. Por enquanto, ficamos pelo menos com as novas belas capas de Brian Bolland.

10/06/2009

O saudoso Homem Animal de Grant Morrison.


O Homem Animal costumava ser um super-herói de terceiro escalão, sem grande importância ou popularidade. Mas, em meados de 1988, isso mudou completamente! Com o enorme sucesso e a ótima repercussão das histórias do Monstro do Pântano escritas por Alan Moore, a DC Comics saiu literalmente à caça de novos roteiristas britânicos que repetissem o feito. Assim, o que ficou conhecido como “a invasão britânica” incluiu nomes como Jamie Delano, Neil Gaiman e, é claro, Grant Morrison, o principal responsável por resgatar o Homem Animal do “Limbo dos Quadrinhos”.

O controvertido roteirista escocês pretendia apresentar à DC apenas a proposta de uma graphic novel do Batman (que se tornaria Asilo Arkham), mas os editores queriam algo mais. Assim, no trem para Londres, Morrison elaborou a proposta para uma minissérie com o esquecido super-herói de estranhos poderes animais. O projeto foi aceito e Morrison elaborou sua minissérie nos moldes do trabalho de Alan Moore para a revista Swamp Thing. Os editores gostaram tanto do trabalho, que propuseram a ele que transformasse o projeto da minissérie numa revista mensal.

Morrison teria então entrado em pânico, pois não fazia idéia do que fazer numa série mensal e não desejava continuar imitando o estilo de Moore. A resposta encontrada foi “O Evangelho do Coiote”, uma das mais inspiradas HQs de super-heróis já produzidas. Lançada na revista Animal Man n°5, a história mostra o encontro do personagem-título com um similar do coiote dos desenhos animados da Warner, numa narrativa repleta de metalinguagem e elementos da simbologia cristã. Marcante e inovadora, aquela edição estabeleceu a temática e o tom das vinte e uma edições seguintes e da Secret Origin do personagem.

Ao longo da série, Morrison resgatou personagens esquecidos, desenvolveu o tema dos direitos dos animais e mergulhou na metalinguagem. O resultado foram HQs inteligentes, conscientes e inovadoras. Quadrinhos de super-heróis nos quais o próprio gênero super-herói se torna um tema em discussão. Uma narrativa “metaficcional” na qual o protagonista se volta para o leitor e diz: “Eu posso ver você!”. Não faltando ainda um ato final no qual criador e criatura, Homem Animal e Grant Morrison, encontram-se para debater o sentido da vida. Em resumo, um trabalho realmente imperdível!

Os desenhos da série, quase sempre produzidos por Chas Truog e Doug Hazlewood, não eram os melhores do mundo, mas davam conta do recado (combinando inclusive com a estética da “Era de Prata” que a revista valorizava). Além disso, em se tratando do visual, Animal Man tinha um trunfo imbatível: as fantásticas capas produzidas por Brian Bolland (que podem ser conferidas em sequência no saite Cover Browser). Interpretando ou sintetizando os temas de cada edição, alguns dos trabalhos do ilustrador inglês são bastante engenhosos e realmente memoráveis. Bolland é também o capista da recém-lançada Last Days of Animal Man (assunto da próxima postagem).

Por seu caráter original e inovador, as vinte e sete histórias do Homem Animal produzidas por Grant Morrison & Cia. entraram para a história dos quadrinhos norte-americanos. Publicada há mais de vinte anos, esta série é prova de que com talento e inteligência até mesmo o mais idiota dos super-heróis pode se tornar um personagem interessante e relevante. Afinal, ao lado de Swamp Thing, Hellblazer e Sandman, a revista Animal Man foi uma das bases para a criação do selo Vertigo. Publicada no Brasil pelas editoras Abril e Brainstore, essa saudosa série merece uma reedição à altura!

07/06/2009

Os heróis DC entre crises, mortes, renascimentos e fórmulas batidas.


O termo “Crise” começou a ser usado pela DC Comics no início dos anos 60, em edições que reuniam personagens de diferentes realidades paralelas. A expressão representava geralmente uma ameaça que exigia a atuação conjunta da Liga da Justiça (com os heróis da Terra 1) e da Sociedade da Justiça (com os personagens veteranos da Terra 2). Utilizado esporadicamente ao longo de duas décadas, o termo ganhou novo significado em meados dos anos 80. Na época, a editora do Super-Homem passava por uma verdadeira crise administrativa e financeira, tendo perdido a posição de liderança do mercado para a concorrente Marvel e precisando se adaptar aos novos tempos. A resposta foi a “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras de 1985, que buscou organizar a bagunçada cronologia da editora, eliminando o chamado “multiverso”.

Como resultado, toda a estrutura ficcional da DC foi racionalizada e seus principais personagens tiveram as origens recontadas, possibilitando que novos leitores começassem a acompanhar suas revistas. Além disso, os trabalhos de autores como Marv Wolfman, George Pérez, John Byrne e Frank Miller não só salvaram a editora, mas também originaram um dos melhores momentos na história dos quadrinhos de super-heróis. Todo o sucesso abriu caminho para novos eventos interligando personagens e publicações, como a boa minissérie Lendas de 1986. É claro que a ganância editorial não demorou a entrar em cena e, já na segunda metade dos anos 80, foram lançadas nos Estados Unidos a não tão boa Milênio e a fraquinha Invasão, com as quais a editora repetia fórmulas e começava a “meter os pés pelas mãos”.

Para piorar, em 1993 foram lançadas as enganosas patacoadas editoriais intituladas “A Morte do Super-Homem” e “A Queda do Morcego”. Eram os efeitos de uma nova crise editorial, causada pela perda de mercado para a recém-criada Image Comics. Em 1994, apenas nove anos depois de Crise nas Infinitas Terras, os editores da DC viram a necessidade de um novo “marco zero” para seus personagens. A resposta foi a dispensável Zero Hora: Crise no Tempo, minissérie que trouxe o Lanterna Verde Hal Jordan como o insano Parallax, e cujo único ponto positivo foi motivar o lançamento da ótima série Starman. A irrelevância de Zero Hora acabou sacramentada em 2004, com o lançamento de Lanterna Verde: Renascimento, HQ produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, que trouxe a redenção de Hal Jordan como Lanterna Verde.

Nos últimos anos, em meio a uma nova crise editorial, a DC tem tentado incrementar as vendas com uma sequência de séries que reúnem seus principais personagens. De Crise de Identidade a Crise Infinita, passando por 52 e Um ano depois, até chegar à recente Crise Final, a editora norte-americana persiste na fórmula batida. Nesta última série, escrita por Grant Morrison, o Flash Barry Allen volta dos mortos e o Batman Bruce Wayne é aparentemente morto. No fim, porém, tudo fica mais ou menos da mesma forma: uma bagunça. Apesar disso, a confusa Crise Final está gerando frutos interessantes, como Flash: Rebirth, produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver nos moldes de Lanterna Verde: Renascimento, ou como Batman and Robin, a nova HQ de Grant Morrison e Frank Quitely, já lançada como uma campeã de vendas.

A verdade é que nos últimos vinte anos, com raras exceções, as revistas de super-heróis não valem o papel em que são impressas. Exploração comercial excessiva, erros editoriais sucessivos e a mais pura falta de criatividade só poderiam mesmo resultar na perda de leitores. Ao folhear uma revista mensal da Panini, com a costumeira confusão de heróis e a indispensável explosão visual, sinto nostalgia pelas HQs desses mesmos heróis publicadas há vinte anos. Para alguém que começou a ler quadrinhos no momento em que Crise nas Infinitas Terras era publicada no Brasil, as atuais revistas de super-heróis só podem mesmo parecer uma enganação. Aos leitores que começam agora, fica a sugestão para buscarem os quadrinhos clássicos dos anos 80. Eles sim são garantia de uma boa leitura!

(Para saber mais sobre Crise nas Infinitas Terras e outras HQs da DC, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

03/06/2009

O Flash de diferentes eras.


Para quem lia quadrinhos de super-heróis entre 1956 e 1985, a fantasia vermelha e amarela do herói Flash escondia a identidade secreta de Barry Allen. Mas a verdade é que antes deste houve outro Flash e depois dele mais alguns. Tendo dado origem à chamada “Era de Prata” dos super-heróis norte-americanos, Barry Allen também lançou o “Multiverso DC”, ao se encontrar com seu antecessor, Jay Garrick (o Flash da “Era de Ouro”). Por isso mesmo, “o homem mais rápido vivo” acabou sendo uma das principais vítimas de Crise nas Infinitas Terras, série que buscou racionalizar a cronologia dos heróis DC. Mas, como nos quadrinhos de super-heróis a morte é uma condição variável, Barry Allen foi ressuscitado na saga Crise Final, retornando à ativa nas páginas da recém-lançada minissérie Flash: Rebirth.

Com o sucesso avassalador do Super-Homem, vários outros super-heróis surgiram entre o final dos anos 30 e o início dos anos 40. Criado por Gardner Fox e Harry Lampert, lançado em janeiro de 1940, Flash foi o nome assumido pelo estudante de química Jay Garrick que, após um acidente de laboratório, adquiriu o poder de mover-se “mais rápido que a velocidade da luz” (SIC!). Usando uma blusa vermelha com um raio amarelo estampado, uma calça azul com um cinto, botas com asas e um capacete de Hermes-Mercúrio, o Flash da “Era de Ouro” era uma evocação moderna do deus greco-romano. Mesmo alcançando bastante sucesso, o personagem (renomeado no Brasil como Joel Ciclone) não conseguiu escapar à queda nas vendas das HQs de super-heróis, tendo suas revistas canceladas em 1949.

Em 1956, o Flash foi resgatado do limbo dos quadrinhos por Julius Schwartz, um dos mais criativos editores da história do mercado norte-americano. Na revista Showcase n°4, Schwartz decidiu testar se o público da época se interessaria pelos super-heróis, buscando para isso um nome do passado. O escolhido foi o Flash, que manteve os poderes da versão original, mas ganhou uma nova identidade secreta e um visual mais moderno. Amante da ficção científica, o editor estabeleceu o tom da nova versão, que ficou a cargo do roteirista Robert Kanigher e do desenhista Carmine Infantino. Nascia ali Barry Allen, um cientista forense e leitor de quadrinhos que, após um acidente de laboratório, ganhou a rapidez de um relâmpago, tornando-se o “velocista escarlate” (o primeiro super-herói reformulado e um sucesso imediato).

Seguindo o exemplo do Flash, outros super-heróis da “Era de Ouro” ganharam versões modernizadas que cativaram o público dos anos 50 e 60. Começava então a chamada “Era de Prata”, caracterizada por enredos envolvendo elementos pseudocientíficos e fantasiosos. Muito criativas, as edições de The Flash marcaram época, valendo-se dos roteiros inusitados de Gardner Fox e John Broome, e dos desenhos leves e agradáveis de Carmine Infantino. Com seu uniforme que saltava do anel, Flash estava sempre de prontidão para enfrentar vilões impagáveis como Mestre dos Espelhos, Capitão Bumerangue e Capitão Frio. Em setembro de 1961, Schwartz, Fox e Infantino publicaram “Flash of Two Worlds”, HQ que colocou lado a lado Jay Garrick e Barry Allen, num antológico encontro do Flash da “Era de Ouro” com o da “Era de Prata”.

Mais que trazer uma história inventiva sobre realidades paralelas, a revista Flash n°123 deu o ponta-pé inicial a todo “Multiverso DC” (uma estrutura ficcional que se caracteriza pela existência de múltiplas realidades paralelas). Em breve seria a Liga da Justiça (grupo da “Era de Prata”) que se encontraria com a Sociedade da Justiça (seu predecessor da “Era de Ouro”) e o Lanterna Verde original (Alan Scott) que encararia sua versão modernizada (Hal Jordal). Surgiram também outras realidades inéditas, como a Terra onde Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e o próprio Flash deram lugar a versões maléficas (respectivamente: Ultraman, Homem-Coruja, Super-Mulher, Anel Energético e Relâmpago). Além disso, passaram a coexistir diferentes futuros e passados alternativos para o “Universo DC”.

Os leitores logo se habituaram com as várias realidades paralelas, classificadas como Terra 1, 2, 3... Com o tempo, porém, o que era uma idéia interessante tornou-se uma confusão ficcional. Para complicar, nos anos 70 e 80, a DC Comics comprou os direitos sobre personagens de outras editoras, que passariam a habitar mundos identificados como Terra X ou S. No centro do furacão, o Flash Barry Allen continuou rompendo fronteiras interdimensionais, enquanto as vendas de sua revista declinavam rapidamente. Nem mesmo o herói mais rápido dos quadrinhos pôde escapar ao desinteresse dos leitores e à maré racionalista da primeira metade dos anos 80. E foi respondendo a uma crise mercadológica que a DC lançou, em 1985, Crise nas Infinitas Terras, evento que salvou a editora, mas sacrificou alguns de seus heróis tradicionais.

Houve quem lamentasse o desaparecimento do Superboy, da Super-Moça ou mesmo de Krypto, o Super-Cão. Mas poucas mortes causaram tanto alarde quanto a de Barry Allen, herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC”, mas que havia se tornado obsoleto para os padrões da “Era de Bronze” (período que teria começado no início dos anos 70 com um amadurecimento das HQs). A identidade de Flash acabou assumida por Wally Allen, sobrinho do falecido herói e antigo Kid Flash. O substituto, é claro, não tinha o charme de seu antecessor e a memória de Barry Allen não foi esquecida. A fase de Grant Morrison à frente do Homem Animal é em parte uma homenagem às aventuras do Flash da “Era de Prata” (uma das edições é até dedicada a John Broome, Gardner Fox, Carmine Infantino e ao “falecido Barry Allen”).

No início dos anos 90, Barry Allen ganhou uma versão em carne, osso e enchimentos, no seriado de tevê The Flash (exibido pela Rede Globo, o programa caiu na linguagem popular, originando a expressão “mais rápido que o Dê-Flechi”). Recentemente, nos quadrinhos a fantasia do herói foi vestida por seu neto Bart Allen e na tevê pelos protagonistas do seriado The Big Bang Theory. As referências nesta popular comédia do Warner Channel coincidem com o retorno de Barry Allen, ressuscitado por Grant Morrison & Cia. na série Crise Final e reentronado pela DC em Flash: Rebirth (cuja capa do n°1 fez uma aparição no episódio de The Big Bang Theory exibido no fim de maio). A nova minissérie terá cinco (ou seis) edições, sendo escrita por Geoff Johns e desenhada por Ethan Van Sciver, dupla responsável por Lanterna Verde: Renascimento.

O número 1 de Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue emular o acidente que deu origem aos poderes do Flash. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do herói: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e também de seu amigo Lanterna Verde Hal Jordan. Alguns mistérios e referências a outras HQs (como “Flash of Two Worlds”) são elementos essenciais deste primeiro capítulo que estabelece a trama da minissérie. Os bons desenhos seguem um padrão hiperdetalhista, que às vezes parece estático ou mesmo inadequado para uma revista de super-heróis.

De qualquer forma, para os fãs do “velocista escarlate”, Flash: Rebirth vale uma conferida. As duas primeiras edições da minissérie já foram lançadas nos Estados Unidos e a DC disponibilizou prévias das revistas em sua página oficial:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11472_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11691_x.pdf

08/05/2009

Os Novos X-Men de Grant Morrison em coletâneas da Panini.


Iniciada em meados de 2001, a fase de Grant Morrison à frente dos X-Men chegou trazendo mudanças, a começar pelo título da revista, que passou a se chamar New X-Men (ganhando um inteligente trabalho de formatação do logotipo). São evidentes algumas influências de X-Men – O Filme, como o destaque dado à função escola da Mansão X, e sobretudo o uniforme de couro preto adotado pelos heróis mutantes. Lançadas no Brasil em edições mensais da Panini, as histórias de Novos X-Men já ganharam por aqui duas coletâneas: E de Extinção e Imperial, que reúnem o primeiro ano de Morrison como roteirista dos heróis mutantes (embora tragam as mesmas edições, a organização das coleções da Panini diferem das da Marvel, que serviram de base para este texto).

Logo nas primeiras páginas, o roteirista escocês apresenta a temática central de seu primeiro ano à frente dos X-Men: uma possível extinção dos humanos causada pelos mutantes. Tudo é apresentado numa interessante correlação com a provável extinção do homem de neanderthal pelos homo sapiens. E isto ao mesmo tempo em que Morrison introduz uma nova vilã: Cassandra Nova, um ser poderoso cujo passado guarda uma intrigante ligação com o Professor X. Em seguida, temos alguns diálogos espirituosos entre os personagens principais, reflexões de Fera sobre sua nova forma física, referências a problemas conjugais entre Jean Grey e Ciclope, alguma ação contra robôs sentinelas e o genocídio de dezesseis milhões de mutantes.

As três primeiras HQs de Morrison com os X-Men terminam numa luta mortal, com a entrada de Emma Frost para o grupo de super-heróis e a promessa de uma nova era para o Professor X e seus pupilos. O capítulo seguinte (desenhado na horizontal e lançado originalmente em New X-Men Annual 2001) nos leva à China (país que parece ser uma fixação para os roteiristas britânicos), onde conhecemos o mutante Xorn, cujo cérebro é uma pequena estrela. Nas HQs que se seguem, conhecemos mais personagens coadjuvantes, como Barnell, Angel e John Sublime, numa história envolvendo experiências e contrabando de órgãos mutantes. O fato mais relevante, porém, é o ressurgimento de Cassandra Nova, através de uma possessão psíquica.

No restante do primeiro ano de Morrison com os X-Men, entra em cena o Império Shi’ar e Jean Grey assume aspectos da Fênix, enquanto somos levados em viagens espaciais e jornadas psíquicas. Mas, com sua abordagem cerebral e suas situações “realísticas”, não é de se espantar que a fase de Morrison não tenha agradado a muitos fãs. No conjunto, apesar de algumas idéias interessantes, E de Extinção e Imperial deixam a sensação de promessa não-cumprida. Emma Frost ganha um novo poder, Fera revela uma nova orientação sexual, temos um cérebro numa bolha de vidro e outras coisas que se espera de um roteiro de Morrison. Mas falta consistência nas histórias, faltam explicações para alguns acontecimentos e tudo se resolve fácil demais no fim.

Outro problema está no visual das HQs. Tudo começa muito bem com três edições desenhadas por Frank Quitely. Há uma história na horizontal desenhada Leinil Francis Yu, que até não é ruim. As coisas, no entanto, pioram muito depois, com desenhos de um Ethan Van Sciver ainda cru e edições ilustradas por um certo Igor Kordey que jamais deveria ter sido escalado para desenhar uma revista de super-heróis. O que salva é o retorno de Frank Quitely para mais três boas edições (incluindo a da viagem psíquica, claramente inspirada por artistas como Escher e Moebius). No geral, Novos X-Men merece uma lida (ou pelo menos seus três primeiros capítulos merecem). Mas é melhor não esperar o brilhantismo de outros trabalhos de Morrison, nem uma qualidade constante nos desenhos.

(As coletâneas E de Extinção e Imperial ainda estão disponíveis em lojas especializadas. E para quem quiser saber mais sobre os quadrinhos de Morrison ou dos X-Men, basta clicar nos nomes em destaque abaixo.)

06/03/2009

Doctor Who: da tevê para os quadrinhos.


Em 2006, ao passear pelos canais da tevê a cabo, deparei com um programa de ficção científica que eu desconhecia completamente. O programa em questão mostrava uma cena à janela de uma estação espacial, tendo abaixo o planeta Terra prestes a ser consumido pela expansão do Sol (fato que deverá ocorrer daqui a uma meia dúzia de bilhões de anos). Os personagens na cena eram um estranho homem de jaqueta escura e uma loirinha bonitinha, ambos com uma inconfundível entonação britânica em seu inglês. Tive então que trocar de canal, pois o programa ao qual eu assistia de fato já havia recomeçado.

Nas semanas seguintes, voltei a esbarrar naquele seriado da tevê britânica, primeiro numa rápida cena com espectros voando pelas ruas da Londres vitoriana, depois numa sequência na Londres dos dias de hoje com estranhos alienígenas adiposos e flatulentos (simulados em roupas de borracha e defeitos visuais). Havia algo de muito diferente naquela série, em relação às produções norte-americanas do mesmo gênero. Havia algo de provisório e cômico, uma auto-ironia e uma inteligência que também vemos nos melhores quadrinhos de ficção científica vindos do Reino Unido. O fato é que naquele momento o People & Arts exibia no Brasil a primeira temporada da série produzida por Russell T. Davies, estrelada por Christopher Eccleston (no papel-título) e Billie Piper (no papel da jovem Rose Tyler). Quando finalmente consegui assistir a um episódio completo, fui imediatamente fisgado pelas excentricidades e o charme de Doctor Who!

Tornei-me um telespectador assíduo desse incomum seriado, com seus alienígenas esquisitos, vilões em forma de saleiro, uma nave em forma de cabine telefônica e viagens pelo espaço-tempo. Como dizia o protagonista em momentos de fascinação ou euforia, aquela primeira temporada era algo “Fantástico!” (merecendo que alguma produtora a lance em DVD por aqui!). No final da primeira temporada, porém, o perfeito Christopher Eccleston (que também interpretou o Homem Invisível de Heroes) foi substituído pelo não tão eficaz David Tennant. Por mudanças de horário e divulgação deficiente, não consegui acompanhar a segunda temporada por completo. Além disso, com a saída de Billie Piper ao final do segundo ano, perdi minha identificação direta com o programa, não acompanhando a terceira temporada (que na verdade nem sei se foi exibida no Brasil).

Inicialmente, eu não sabia que Doctor Who era um tradicional seriado da tevê britânica, que havia sido veiculado pela BBC entre 1963 e 1989, retornando em 2005 com mais recursos de produção. Na verdade, ao longo de suas décadas de exibição, a série contou com diferentes atores no papel-título, fator que acabou incorporado à biografia do próprio personagem, que passaria por mortes e renascimentos (na verdade Christopher Eccleston já era a nona encarnação do Doutor, quando foi substituído por David Tennant que passou a ser a décima). Uma longeva atração da tevê britânica, no fim dos anos 70, Doctor Who ganhou uma revista semanal com cenas e informações de bastidores. A publicação contava também com HQs curtas, estreladas pelo personagem ou envolvendo elementos de sua história.

Por mais comerciais que fossem, aqueles quadrinhos baseados num sucesso da tevê acabaram empregando, no início de suas carreiras, alguns dos mais destacados quadrinistas britânicos (tais como David Lloyd, Dave Gibbons, Alan Moore e Grant Morrison). Essas HQs originais estão disponíveis atualmente na coleção Doctor Who Classics lançada pela Panini no Reino Unido (no original em P&B) e reeditada pela IDW nos Estados Unidos (em versão comics colorida). A IDW também lançou em agosto de 2008 uma nova série em quadrinhos, escrita por Tonny Lee e desenhada por Pia Guerra (a desenhista de Y – O último homem), estrelada pelo décimo Doutor. A mesma IDW lançou em outubro e novembro do ano passado Grant Morrison’s Doctor Who minissérie em duas edições que reúne todos os episódios do personagem escritos pelo renomado roteirista escocês.

A dobradinha entre séries de tevê e revistas em quadrinhos é sempre algo promissor e muitas vezes bem-sucedido e lucrativo. Afinal, a transposição para as HQs atrai fãs dos personagens televisivos para a leitura das revistas, ao mesmo tempo em que é capaz de expandir as histórias e os conceitos presentes na série original (basta lembrar que a linguagem dos quadrinhos não enfrenta as mesmas “limitações de orçamento” da televisão, dependendo apenas da imaginação dos roteiristas e do talento dos desenhistas). No Brasil, nas décadas de 1950 a 1980, alguns seriados do rádio e da tevê ganharam versões em quadrinhos, como As Aventuras do Anjo, Jerônimo, Capitão 7, Vigilante Rodoviário, Carga Pesada e Sítio do Pica-Pau Amarelo. Infelizmente, no momento a tevê brasileira não tem produzido seriados de ação, que são mais adequados a uma versão em quadrinhos.

27/02/2009

O estranho mundo de Grant.


Histórias inusitadas e absurdas, estreladas por personagens estranhos e bizarros foi a receita que levou o escocês Grant Morrison ao estrelato dos quadrinhos na segunda metade dos anos 80. Em seus principais trabalhos dessa fase, elementos incomuns e até metalinguísticos surgem a todo momento, questionando as barreiras entre a ilusão de realidade (que se tem durante a leitura de uma HQ) e a consciência de que o que se lê não passa de uma obra ficção. Somadas a isso, diversas referências artísticas e discussões de natureza metafísica fizeram das séries Zenith, Homem Animal e Patrulha do Destino obras revolucionárias dos quadrinhos de super-heróis. Mas a semente da revolução, na verdade, foi plantada no início da década de 1980, por outro renomado roteirista britânico.

Escrita pelo inglês Alan Moore e lançada em 1982 nas páginas da revista Warrior, a série Marvelman (Miracleman) foi a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico. A qualidade e a repercussão desse trabalho acabaram influenciando outros autores britânicos e norte-americanos, o que originou todo um novo estilo de se escrever quadrinhos de super-heróis. À brilhante recriação de Marvelman feita por Moore, seguiriam-se outras ao longo dos anos 80 e especialmente após Crise nas Infinitas Terras (“maxissérie” cujo objetivo foi botar ordem na cronologia da DC Comics). Tendo estabelecido um novo marco zero para seus personagens, a editora norte-americana contratou quadrinistas de destaque para recriar seus principais heróis. Com o sucesso de Alan Moore (novamente ele!) à frente da revista do Monstro do Pântano, a editora enviou emissários à Grã-Bretanha, literalmente à caça de novos talentos (o que geraria a chamada “invasão britânica” da segunda metade dos anos 80).

Ao lado de nomes como Neil Gaiman e Jamie Delano, Grant Morrison foi um dos escolhidos pela DC para escrever a reformulação de um de seus personagens. Morrison havia começado sua carreira no final dos anos 70, publicando séries e HQs curtas em revistas alternativas. Seu primeiro trabalho de destaque poderia ter sido The Liberators para a Warrior, mas a revista do editor Dez Skinn foi cancelada em 1985, na edição de estréia do roteirista escocês. No ano seguinte, Morrison conseguiu seus primeiros trabalhos curtos para a Doctor Who e a 2000 AD. Nas páginas desta última, ele lançaria em 1987 Zenith, uma série diretamente influenciada pelo racionalismo do Marvelman de Alan Moore (sim, mais uma vez ele!) e que trazia elementos absolutamente similares, tais como super-heróis tratados como "mostros" ou "tigres", criados por um vilão cientista com a participação de entidades alienígenas.

Contudo, em seu primeiro trabalho com super-heróis, Morrison já mostrava os traços de sua personalidade. Um cantor de rock com superpoderes, Zenith se revela um anti-herói egoísta e desinteressado em qualquer questão mais nobre ou grandiosa do que alcançar o estrelato. Uma visão cínica e absolutamente contemporânea dos super-heróis, o personagem serve na verdade de pretexto para Morrison apresentar uma história que lida com temas como a relação entre caos e ordem, ou o questionamento do que é a realidade. Tais temas tornariam-se recorrentes no trabalho do roteirista, que então mostrava alienígenas inspirados nos textos de H. P. Lovecraft para propor uma discussão metafísica sobre os fundamentos do universo em que vivemos. Tendo uma boa repercussão, a primeira das quatro “Fases” de Zenith (todas lançadas no Brasil pela Pandora) abriria para Morrison as portas do mercado norte-americano, no qual ele estrearia em 1988 com a série Homem Animal.

Como o próprio Morrison admitiu, nas quatro primeiras histórias de seu Homem Animal (publicado no Brasil a partir de 1990 na revista DC 2000), ele estava inegavelmente imitando Alan Moore (eh, de novo!). Mas, como os editores da DC haviam gostado de seu trabalho e pedido para expandir a série, ele se encontrou diante de um dilema, pois não queria e não se sentia confortável em continuar sendo um clone de outro autor, ao mesmo tempo em que não tinha idéia de o que fazer numa revista mensal. A resposta e a solução vieram com “O Evangelho do Coiote”, uma das mais inspiradas e originais HQs de super-heróis já escritas e sem dúvida um dos melhores e mais importantes trabalhos de Morrison. Lançada na quinta edição da Animal Man, a história mostra o encontro do personagem-título com um similar do coiote dos desenhos animados da Warner, numa narrativa repleta de metalinguagem e elementos da simbologia cristã (um belo resumo disso é a fantástica capa desenhada por Brian Bolland, que ilustra esta postagem).

Tornando mais difusas as barreiras entre realidade e ficção, “O Evangelho do Coiote” traçou o rumo que a série tomaria, que incluía a tentativa de resgate do clima mais leve e humorado das revistas da DC dos anos 60. Afinal, a partir da publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen em 1986, grande parte dos roteiristas de quadrinhos tentou imprimir um maior realismo aos super-heróis, levando os dilemas, as contradições e a violência do mundo real para as HQs. Esta tendência não agradava a Morrison, que respondeu através de uma inteligente tensão entre mundo real e mundo ficcional. Mesmo que o roteirista jamais tenha lido Isto não é um cachimbo de Michel Foucault, a influência de um pensamento pós-estruturalista é evidente nas histórias do Homem Animal. Nelas, Morrison mostra a tradicional busca do personagem pela compreensão de seus poderes (a capacidade de assumir as habilidades de qualquer animal), além de engajá-lo na luta pelos direitos dos animais (o próprio autor era vegetariano na época). Mas a verdadeira razão de ser da série é a construção de uma grande narrativa metaficcional.

Depois de se encontrar com o coiote Astuto, de se envolver em discussões sobre “a continuidade” com personagens saídos do "Limbo dos Quadrinhos", de ultrapassar os limites da página e de se dirigir ao leitor e dizer: “Eu posso ver você!”, o Homem Animal acaba encontrando-se com o “Criador” (de suas histórias). Ao longo da série, o encontro criador / criatura foi sendo preparado por Morrison, e o resultado é um sincero diálogo a respeito do sentido da vida. Embora a metalinguagem já não fosse então uma novidade nos quadrinhos, a série escrita por Morrison foi a primeira a levar às últimas consequências a situação de um super-herói ter “consciência” de que não passa de um personagem criado para entreter um público com um sádico desejo por violência (que somos nós, leitores). Sem dúvida, Homem Animal é uma obra inovadora e inspirada, que não perdeu sua força passados vinte anos, merecendo ser lida e relida.

Antes mesmo de concluir seu trabalho com o Homem Animal, Morrison recebeu da DC o convite para assumir a revista Doom Patrol (a Patrulha do Destino, que teve as primeiras HQs dessa fase lançadas no Brasil pela Metal Pesado, nos anos 90). O resultado foi uma das mais estranhas, originais e absurdas séries já publicadas no mercado norte-americano, algo mais próximo do nonsense de Alice no País das Maravilhas do que do clima de ação dos quadrinhos de super-heróis. Um cérebro numa caixa de metal que discute filosofia cartesiana com um gorila falante; um halterofilista usando uma tanguinha de leopardo que ao flexionar seus músculos é capaz de mudar o mundo ao redor por telepatia; uma garota-macaco que além de ser atormentada pelos dilemas da puberdade é assombrada pelos fantasmas psíquicos que cria; vilões que formam grupos chamados a “Irmandade do Dada” ou o “Culto do Livro Não-Escrito”; uma história chamada ”A Pintura que comeu Paris”: estes são apenas alguns exemplos das “esquisitices” de Morrison, que parece não levar nada a sério. Mas isso é o que ele quer que nós pensemos!

Através de uma atmosfera surrealista, em seus roteiros Morrison discute princípios religiosos, a falência da razão, a linguagem das artes-plásticas, a autonomia das realidades discursivas, além de criticar a censura e tratar de temas-tabu como a violência sexual contra a mulher. Sem dúvida um trabalho riquíssimo e original, por vezes um pouco hermético, mas sempre honesto com sua proposta de pôr em questão a relação entre realidade e ficção, o conflito entre ordem e caos (que parecem reflexos da própria vida do autor na época). Os temas de seus trabalhos iniciais para a DC voltaram a ser vistos em trabalhos menos extensos como as graphic novels Asilo Arkham e Mystery Play, os especiais Batman: Gothic e Sebastian O e as minisséries Kid Eternity e Flex Mentalo. O trabalho de Morrison em Homem Animal e Patrulha do Destino seria um dos fundamentos do selo Vertigo, para o qual ele escreveria as séries The Invisibles e The Filth.

Um mago praticante, Grant Morrison tornou-se um dos grandes nomes dos quadrinhos norte-americanos, tendo em seu currículo fases bem-sucedidas à frente dos dois principais grupos de super-heróis: a Liga da Justiça da DC e os X-Men da Marvel. Com um trabalho tão provocativo, não faltaram é claro algumas polêmicas ao longo dos anos, incluindo ofensas trocadas com Alan Moore (envolvendo de um lado Watchmen e do outro Asilo Arkham). O fato, porém, é que as carreiras destes dois brilhantes magos-escritores estarão sempre ligadas, pelas reações que o trabalho de um gerou no do outro, bem como pelos vários paralelismos que podemos traçar (por exemplo entre a Linha ABC e os Sete Soldados ou entre Supermo e All Star Superman). Mas se ambos contribuíram fundamentalmente para os quadrinhos e a cultura Ocidental é porque, mesmo trilhando caminhos paralelos, cada um buscou sua própria história. E se Moore "se aposentou" dos quadrinhos das grandes editoras, por sua vez Morrison assumiu o papel de principal roteirista, desenvolvendo maxisséries como 52 e séries especiais para medalhões como Super-Homem e Batman.

Nos dois casos, no entanto, a contribuição mais decisiva e os trabalhos mais revolucionários foram as séries produzidas nos anos 80. Num momento em que Alan Moore lançou a recriação racionalista dos super-heróis, levada às últimas consequências por Grant Morrison, e que os quadrinhos "realistas" e violentos nascidos das obras do roteirista inglês foram criticados criativamente pelas obras de seu colega escocês. No fim, com toda a vaidade pessoal e a rivalidade criativa, quem saiu ganhando foi o leitor, que pôde acompanhar alguns dos melhores quadrinhos produzidos nas últimas décadas!

22/06/2008

Coletâneas trazem sociedades secretas e tramas conspiratórias.


Quem gosta de HQs com tramas conspiratórias e sociedades secretas tem motivos para comemorar. O principal deles é Os Invisíveis - Revolução 1, primeiro volume da Pixel com a série escrita por Grant Morrison e desenhada por Steve Yeowell e Jill Thompson. Outro lançamento que pode agradar aos fãs do gênero é Rex Mundi - Livro Dois de Arvid Nelson e Eric J, lançado pela Devir.

Publicada entre 1994 e 2000, Os Invisíveis é considerada por muitos a melhor criação do roteirista escocês Grant Morrison (mais conhecido no Brasil pela reformulação do Homem Animal e pela graphic novel Asilo Arkham). Reunindo as oito primeiras edições originais, Revolução 1 atira os leitores direto numa trama de dominação que mistura história, misticismo, anarquia, psicodelia, seres extradimensionais e um pouco de devassidão. Contemporânea do seriado Arquivo-X, a série de Morrison antecipa muitos dos elementos vistos nos filmes da trilogia Matrix (o que gerou acusações de plágio), formando uma trama bastante complexa, muitas vezes hermética e até mesmo perturbadora.

A história começa quando o jovem e rebelde Dane McGowan é convocado a tomar parte de um grupo secreto auto-intitulado “Os Invisíveis”. O que vemos nos capítulos seguintes é o processo de iniciação do rapaz em fundamentos da magia e conhecimentos secretos. Na segunda metade do volume, acompanhamos o treinamento e primeira missão do novo Invisível, num passeio pelas ruas da Paris nos tempos do Terror jacobino. Contando com a participação de libertinos, libertários e literatos (como Marquês de Sade, Lorde Byron e Percy Shelley), as últimas HQs da edição são formadas por saltos históricos, referências literárias, poesia simbolista, mitologia hindu e asteca.

Com suas referências históricas e literárias, além de um texto elaborado, a série de Grant Morrison deve agradar aos fãs de Sandman e de outras séries da Vertigo. Porém, os desenhos de Steve Yeowell, para os quatro primeiros capítulos, são bem ruinzinhos, embora as coisas melhorem, nas quatro partes finais, quando o lápis fica a cargo de Jill Thompson (a mesma desenhista de Sandman: Vidas Breves). Os Invisíveis - Revolução 1 tem 228 páginas em formato reduzido, sendo vendido ao preço (um tanto salgado) de R$44,90.

Com o segundo volume de Rex Mundi, a Devir dá continuidade à publicação de quadrinhos no esteio do sucesso de O Código Da Vinci (a mesma editora lançou há pouco Revelações de Paul Jenkins e Humberto Ramos). A HQ criada por Arvid Nelson e Eric J se passa em 1933, quando o roubo de um manuscrito medieval dá início a uma série de assassinatos, desvelando segredos de uma trama conspiratória. Informações criptografadas, ordens medievais, cavaleiros mascarados e celebrações blasfemas dão o tom dos capítulos desse volume. Em meio a tudo, o Doutor Julien Saunière continua em busca de uma verdade que pode levá-lo a encontrar o Santo Graal ou a própria morte.

Série lançada em 2001 (portanto anteriormente a O Código Da Vinci), não se pode deixar de notar algumas intercessões de Rex Mundi com Os Invisíveis, a começar pela temática conspiratória e principalmente nas referências aos Templários e a João Batista (talvez meras coincidências). Além disso, na HQ de Arvid Nelson e Eric J, os desenhos também não são da melhor qualidade, parecendo muito estáticos e pouco expressivos. Rex Mundi - Livro Dois tem 192 páginas em formato reduzido, sendo vendido ao preço (também salgadinho) de R$43,50.

21/03/2008

Artes Mágicas: uma entrevista com J.H. Williams III, parte3.


Última parte de nossa entrevista e J3 fala um pouco mais da magia de Promethea, de suas colaborações com Grant Morrison e sobre um “projeto secreto para a DC”.

Wellington Srbek: Promethea traz sempre aquelas inventivas e incomuns divisões de página. Quanto disso é idéia sua e quanto é de Alan Moore? E sobre a edição 32, que podemos ler a partir da capa, ou de cabeça para baixo, ou como dois pôsteres?

J.H. Williams III: Os experimentos em diagramação que usamos foram provavelmente cerca de 50% meus e 50% do Alan. Como eu disse, nós tínhamos conversas antes de ele começar a escrever os roteiros. As idéias discutidas eram então traduzidas em roteiros. Houve idéias de diagramação que foram puramente dele e houve idéias que foram puramente minhas. E havia outras que foram uma combinação de idéias nossas em algo novo. A edição 32 é um artefato interessante. O conceito original para ela era de que as pinturas que formam as imagens do pôster fossem num estilo pontilhista. Era o que Alan estava querendo. Isso acabou não sendo muito efetivo em combinação com os desenhos em linha que precisavam ser incorporados às imagens pintadas. A idéia do pontilhismo carecia de energia e vivacidade. Então, eu achei melhor fazer das pinturas essa estranha mistura de impressionismo e pop art, meus dois tipos favoritos de arte. Isso imediatamente deu energia às peças e, quando combinadas aos desenhos em linha, elas criaram uma explosão psicodélica e metafísica de pensamento e arte. Meu objetivo era criar uma experiência visual que realmente não tivesse sido vista antes nos quadrinhos ou fora dos quadrinhos também. Eu creio que, mesmo que tenhamos feito as coisas diferentemente do que Alan tinha imaginado, o resultado final foi algo único e poderoso e que, portanto, fez jus a suas noções iniciais. E por causa daquela energia, o comentário final da série foi cheio de vida e cor, algo psicodelicamente cósmico no seu caráter pop art singular. Creio que a fusão de impressionismo e pop art verdadeiramente levou as coisas a um território inexplorado. Não era nem completamente uma revista em quadrinhos, nem completamente uma peça de artes plásticas. Ela existe em algum lugar entre as duas. Perfeitamente adequada para ser o último comentário baseado em tudo o que a série disse ao longo do caminho. Uma outra coisa interessante é que ela não só lê em todas as direções mencionadas por você, bem como se você seguir as pequenas trilhas nas versões em pôster, você encontrará fios de ligação que se movem em todas as direções, não apenas da direita para a esquerda. Alguém pode facilmente se perder ali. Ela funciona realmente da maneira como a mente humana trabalha, onde pensamentos aleatórios podem ocorrer baseados em uma simples palavra ou frase. Assim como ouvir uma canção pode de alguma forma ativar uma memória que, através de caminhos sutis, está conectada àquela canção. Muito fascinante. O trabalho naquelas duas imagens é bem expressivo, exaustivo e emocional. Definitivamente, não é para aqueles que não queiram passar um tempo ali. Requer profunda concentração e trabalho.

WS: Embora vejamos demônios fazendo sexo grupal nos frisos de uma das primeiras edições, eu li que a DC Comics censurou alguns quadros de Promethea n°22. Isso é verdade? O que aconteceu?

J3: Sim, é verdade. Tivemos que encarar a censura em muitos outros lugares ao longo da série, mas o número 22 foi o mais significativo. As páginas 14 e 15 daquele número eram originalmente uma imagem única de deuses fazendo sexo. Era muito direta e apropriada para a cena. Mas os editores acharam que era demais e que precisávamos mudá-la. Porém, considerando que se tratava de uma parte totalmente pintada da história, e levaria muito tempo e seria muito dispendioso para eu pintar algo novo que fosse mais domesticado, nós dividimos a imagem digitalmente em quadros individuais, obscurecendo muitíssimo a ação. Eu sinto que isso prejudicou significativamente a clareza da narrativa, e então Alan e eu insistimos que a versão original fosse usada nas edições encadernadas. Assim, aqui nos Estados Unidos as coletâneas em capa-dura e brochura agora têm a imagem intacta, como ela deveria ter sido. Espero que as edições brasileiras sejam assim também e vocês não sejam forçados a ver uma versão censurada, uma vez que se trata de um produto inferior.

WS: O que você pode nos dizer sobre trabalhar com Alan Moore? Nós veremos uma nova colaboração num futuro próximo? Pessoalmente, eu espero que sim!

J3: Trabalhar com Alan foi uma das experiências mais criativamente libertadoras que tive e me permitiu trazer essa perspectiva para todos os meus trabalhos seguintes, que espero você terá a oportunidade de ver. Eu posso agora confiantemente trazer algo novo e fresco para cada projeto e não estou certo de que poderia dizer isso se não tivesse tido a oportunidade de trabalhar com Alan por tanto tempo. Eu também espero por uma futura colaboração. Será interessante ver o que pode ser feito, já que eu evoluí ainda mais desde que Promethea acabou.

WS: Mudando um pouco, como foi trabalhar com Grant Morrison em Sete Soldados?

J3: Novamente, trabalhar com Grant foi uma experiência criativa muito libertadora, mas por diferentes razões. Muito desafiador de maneiras alternativas ao que foi com Alan, mas tão gratificante quanto. Eu de fato acho que Grant e eu temos uma forma de pensar similar. Nós vemos coisas de uma forma similar. Em minha opinião, o trabalho que fizemos em Sete Soldados número 0 e número 1 é tão interessante quanto meu trabalho em Promethea, mas com uma diferente sensibilidade. Eu creio que o mesmo pode ser dito sobre meu trabalho com Warren Ellis em Desolation Jones.

WS: Para encerrar, fale-nos sobre seus projetos presentes e futuros.

J3: Bom, no final do ano passado saíram três edições minhas de Batman escritas por Grant Morrison. Eu fiz para a Vertigo dezenove capas multimídia para Crossing Midnight, escrita por Mike Carey e com arte por Jim Fern e cores por José Villarrubia [ilustrador e colorista digital de alguns números de Promethea]. Estou atualmente trabalhando em um projeto secreto para a DC Comics, que deve começar a sair no final do ano. Estou também quase terminando uma história de edição única com Jonah Hex, escrita por Jimmy Palmiotti e Justin Gray. E algum tempo depois de concluir o projeto secreto para a DC, Grant e eu deveremos começar nosso projeto de direitos autorais reservados, que ainda está por ser nomeado. Eu poderei também fazer alguns quadrinhos para Internet no futuro. [Perguntei a J3 se ele poderia nos dizer mais alguma coisa sobre o “projeto secreto” e a nova parceria com Grant Morrison, mas infelizmente ele disse que não era impossível no momento.]

WS: Obrigado pela entrevista!

J3: Obrigado Brasil! Por favor, visitem-me no endereço
WWW.JHWILLIAMS3.COM e dêem um olá.