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06/10/2009

SOLAR - 15 ANOS! (4)


Por um motivo desconhecido, algumas reproduções de páginas e ilustrações ficaram fora da ordem proposta. No caso da foto acima, isso acabou colocando lado a lado a primeira e a última imagem da exposição. O interessante é que este fato proporcionou um inesperado encontro de uma das primeiras com a mais recente imagem em cores feita para o Solar.

Assim, temos o traço clássico de Ricardo Sá (que eu gostaria de saber por onde anda...), lado a lado com o traço cartunizado do amigo Will (que bem poderia ser o visual para uma série “Solar - O Desenho da TV”...).

Vale notar que enquanto o Solar original voa heroicamente em direção ao horizonte, o novo Solar olha para ele, de soslaio (esta palavra ninguém usa mais...), como se pensasse: “Eh, rapaz, fica esperto senão tomo seu lugar de vez!”.

Deixando os delírios autorais de lado, espero que curtam esta pequena amostra de SOLAR - 15 ANOS.

SOLAR - 15 ANOS! (3)


Já nesta foto temos o outro conjunto de imagens, localizado em outra entrada do Parque Municipal.

SOLAR - 15 ANOS! (2)


Nesta foto, temos o mesmo conjunto de imagens, visto do ângulo contrário.

SOLAR - 15 ANOS! (1)


Quem comparecer ao FIQ 2009 terá a oportunidade de ver uma exposição comemorativa com reproduções de páginas e ilustrações da série Solar, cujas aventuras se passam em Belo Horizonte.

A mostra reúne páginas de diferentes versões do personagem criado por mim em 1994, produzidas pelos desenhistas Ricardo Sá, Rubens Lima, Luciano Irrthum e Laz Muniz. Além de um texto de apresentação do herói, SOLAR - 15 ANOS conta ainda com ilustrações especiais criadas pelo mestre Shima e pelo talentosíssimo Will.

A exposição tem duas reproduções, que estarão disponíveis em duas entradas do Parque Municipal (uma na Avenida Afonso Pena e outra na Alameda Ezequiel Dias). O interessante é que, quem leu Solar: Renascimento, irá se lembrar que o Parque Municipal foi justamente o local que o herói escolheu para pousar no Centro de BH...

Quem então estiver na cidade, não deixe de dar uma passada lá para conferir!

(Fotos por cortesia da querida Marília Mendes.)

30/09/2009

As entrevistas e textos da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos.


Integrando as comemorações pelo centenário de Belo Horizonte (MG), a 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, o evento teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros. A Bienal contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres.

O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner.

Na época, eu produzia uma página semanal com crítica de quadrinhos para um jornal de BH e não perdi a oportunidade de entrevistar alguns desses convidados. Em novembro daquele mesmo ano, essas entrevistas foram reunidas na quarta edição de minha revista Caliban (cuja capa ilustra esta postagem). Aproveito então a aproximação da sexta edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos, herdeiro da Bienal de 1997) para postar esta nova lista de entrevistas do Mais Quadrinhos, incluindo alguns textos que contam como foi aquele fantástico momento das HQs na capital mineira.

Will Eisner:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/uma-entrevista-com-will-eisner.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/meu-encontro-com-will-eisner.html

Paolo Serpieri:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/06/uma-entrevista-com-o-criador-de-druuna.html

Bryan Talbot:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/07/uma-entrevista-com-bryan-talbot.html

Angeli, Jô Oliveira, Guga e Mutarelli:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/4-x-4.html

A capital brasileira dos quadrinhos:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/capital-brasileira-dos-quadrinhos.html

28/12/2008

A capital brasileira dos quadrinhos.


Por mais objetivo que se queira ser, toda história é narrada de um ponto de vista, constituindo uma versão dos acontecimentos. Assim, este texto constitui-se como um relato subjetivo, baseado em memórias e documentação do próprio autor. A história que aqui conto se passa na década de 1990, quando uma verdadeira “cena quadrinística” tomou forma e se desenvolveu em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Talvez para alguém que não tenha vivido aquele momento possa parecer exagero, mas como escrevi numa matéria de jornal na época, entre 1995 e 1998, BH foi a capital brasileira dos quadrinhos.

Tudo começou no início daquela década. Fanzines em xérox, aspirantes a quadrinista e os mais diversificados projetos surgiam a cada dia. Na onda de um mercado de quadrinhos em crescimento e relativo amadurecimento, várias lojas especializadas se sucederam: Livro Arbítrio, Valer, Mandarim, Gibis & Afins. Numa escola da periferia de BH, teve lugar a exposição de um grupo de desenhistas auto-intitulados os “Mutanóides Associados”. No antigo prédio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, o italiano Piero Bagnariol ministrava um curso de quadrinhos. O mesmo Piero, que trocou as ondas do Mediterrâneo pelas montanhas de Minas, logo estrearia o programa BOOM!, veiculado por um dos primeiros canais a cabo locais.

O burburinho em torno dos quadrinhos começava a ser notado. Em 1994, a livraria Leitura Savassi assumiu o papel de principal loja especializada da cidade. No ano seguinte, uma ampliação de sua seção Quadrinhos/RPG foi montada na Leitura Amazonas. Para inaugurar o espaço, em maio de 1995, fui convidado para ser um dos organizadores da BHQ (Primeira Convenção de Quadrinhos de Belo Horizonte). Na noite de abertura, uma verdadeira multidão de fãs de quadrinhos superlotou o espaço em busca de lançamentos importados e raridades do mercado nacional. A programação durou uma semana e contou com vídeos, palestras, debates e oficinas. O evento foi um sucesso e teria uma segunda edição no ano seguinte.

Ainda em 1995, estreei uma página semanal com crítica de quadrinhos no jornal Hoje em Dia. No ano seguinte, quando fui convidado para levar meus textos sobre quadrinhos para o jornal O Tempo (lançado em novembro de 1996), a página sobre quadrinhos do Hoje em Dia foi mantida a cargo de Paulo Dias e Gustavo Marcarenhas. Na mesma época, o jornalista Marcelo Castilho Avelar já escrevia uma seção de críticas de HQs para o Estado de Minas (sendo a única mantida, de forma esporádica, até hoje). Também entre 1995 e 1996, foi minha vez de levar os quadrinhos para a telinha, quando produzi o quadro “Quadrinhos & Afins” para o programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Lojas especializadas, convenções, páginas de jornal, matérias na tevê... Isso já faria de 1995 um ano singular. Mas teve mais!

Primeiro a Legenda, revista do Núcleo de Quadrinhos da Universidade Estadual de Minas Gerais. Em seguida, a experimental e inovadora Graffiti - 76% Quadrinhos, capitaneada por Piero Bagnariol e Marcos Malafaia. E enquanto eu produzia as edições do fanzine Ideário, consegui a aprovação pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura para os sete números da revista Solar, lançada em 1996. A ela se seguiriam as sete edições da Caliban, lançadas entre 1997 e 1998, também com o apoio da Lei de Incentivo. Essas e outras publicações, além de toda a movimentação em torno dos quadrinhos, acabaram dando origem ao Estúdio HQ. Chegando a reunir algumas dezenas de pessoas, a associação tinha uma sede própria, atuando na organização de festas de lançamento, distribuição das publicações e como espaço de confluência para pessoas interessadas em criar e publicar quadrinhos.

Pode-se dizer que um dos efeitos indiretos daquela cena quadrinística dos anos 90 foi a realização em BH da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Afinal, foram a efervescência criativa e a repercussão midiática de nosso movimento de quadrinhos que associaram fortemente o nome da cidade a essa arte. Assim, quando surgiu a proposta para que BH sediasse a Bienal, já estava disseminada a idéia de que os quadrinhos eram parte importante de sua vida cultural. Integrando as comemorações pelo centenário da capital, o evento aconteceu em outubro de 1997. Com uma estrutura admirável, que incluía diversos espaços culturais, a 3ª Bienal teve como ponto alto as fantásticas exposições de artistas franceses, belgas, italianos, norte-americanos e brasileiros.

O evento contou ainda com um concurso, palestras, debates e a presença de convidados ilustres. O fato é que, num rápido passeio pelos corredores das exposições na Serraria Souza Pinto, podia-se passar das páginas de Henfil às de David Mazzuchelli, das pinturas realistas de um Schultein ao traço cartunístico de Ziraldo. E também não era difícil encontrar-se frente a frente com figuras consagradas, como Angeli, Bryan Talbot, Jô Oliveira, Lourenço Mutarelli e Paolo Serpieri. Isso sem falar no grande homenageado da festa, o amável e genial Will Eisner (não perdi, é claro, a oportunidade de fazer entrevistas com esses convidados da Bienal, as quais você pode conferir aqui no blog).

No ano seguinte, incentivado pelo sucesso da Bienal, o movimento de quadrinhos em BH ganhou força total! Novas edições de revistas (como os últimos números da Caliban), o surgimento de jovens quadrinistas (como Cleuber da tira Arroz Integral), o retorno de veteranos (como Lacarmélio da revista Celton) e o reconhecimento dos talentos locais (como Guga, Irrthum e Chantal) fizeram de 1998 um ano especial para todos que estiveram envolvidos. O coroamento disso tudo veio com a 3ª BHQ, organizada pelo Estúdio HQ, com financiamento da Leitura Savassi e participação do recém-fundado Estúdio Big Jack (que se tornaria um dos principais produtores de quadrinhos e animações publicitárias da cidade).

Aquela convenção foi, no entanto, uma espécie de “canto do cisne” de nosso movimento de quadrinhos. O ano de 1999 trouxe dispersão de participantes e iniciativas que não se concretizaram. Para completar, a realização do primeiro FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos) teve, para muitos de nós, o efeito de um “balde de água fria”. O fato é que a organização do evento não teve a devida participação dos produtores locais, funcionando como um desestímulo para nosso trabalho. Mas, seja pelos motivos que forem, o movimento de quadrinhos de BH já não tinha a força dos anos de 1995 a 1998. Para aqueles que participaram, porém, ficou certamente a memória de uma época única, em que BH foi a capital brasileira dos quadrinhos.

23/12/2007

Uma entrevista com Bryan Talbot.


A 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos, realizada em Belo Horizonte em 1997, foi uma oportunidade única para se conhecer nomes de destaque dos quadrinhos, como Will Eisner ou Paolo Serpieri. Entre os convidados especiais do evento, estava o desenhista inglês Bryan Talbot. Tendo iniciado sua carreira no final dos anos 60, ele é mais conhecido no Brasil por seus trabalhos na minissérie The Nazz, na revista The Sandman e pela graphic novel Coração do Império. Num breve bate-papo no último fim de semana da Bienal, conversamos sobre sua experiência e opiniões sobre o mercado norte-americano de quadrinhos.

Nos últimos anos você tem trabalhado para editoras norte-americanas. Você também trocou a Inglaterra pelos EUA como fizeram outros quadrinistas britânicos?

Não, apesar de ter trabalhado com a DC e de lançar trabalhos pela Dark Horse, eu continuo vivendo na Inglaterra.

O que você pensa da “invasão britânica” dos quadrinhos norte-americanos, que aconteceu nos anos 80?

Foi uma coisa muito boa. Nós revitalizamos o cenário dos quadrinhos norte-americanos, trouxemos um novo estilo, uma nova vida para ele. Autores como Alan Moore e Neil Gaiman são muito cultos e colocam isso em suas histórias, trazendo mais inteligência para os quadrinhos.

Como você vê a “invasão japonesa” que acontece nos anos 90?

Ela está trazendo novos elementos, uma nova forma de contar histórias através de imagens e palavras. O que devemos condenar é o abuso. O único perigo é se as pessoas apenas copiarem esses quadrinhos. Mas se eles os utilizarem para criar algo novo será bom.

O que você acha do tipo de quadrinho publicado pela Image Comics?

Eles não têm o que me interessa nos quadrinhos, não passam de “abuso de testosterona”. Todos os personagens são grandalhões musculosos e superpoderosos. Todo mundo tem uma cabeça pequenininha e músculos incrivelmente desenvolvidos. Esses quadrinhos sacrificam a narrativa em favor de grandes painéis com imagens de impacto.

Sendo um “europeu”, você concorda que Yellow Kid seja o primeiro quadrinho a ser criado, ou você pensa que esta é uma linguagem mais antiga?

Sim, os quadrinhos são mais antigos, eles remontam à Idade Média. Mais tarde, no século XVII, pessoas como o cartunista William Hogarth produziram trabalhos utilizando imagens sequenciais. Depois houve o suíço Rodolphe Töpffer, no século XIX. Em 1886, foi lançada a primeira história em quadrinhos inglesa: Ally Sloper’s Half Holiday que é, portanto, anterior a Yellow Kid.

Qual deveria ser o caminho alternativo para aqueles que querem criar quadrinhos mais sérios que não lidem com super-heróis?

Apenas fazê-los e tentar publicá-los.

Uma entrevista com o criador de Druuna.


Em histórias que misturam erotismo, violência e cenários decadentes, o italiano Paolo Serpieri deu vida a Druuna, uma belíssima morena que em pouco tempo conquistou uma legião de admiradores. Com grande domínio das técnicas de pintura e um estilo inconfundível, Serpieri é um apologista da forma feminina, que não poupa elogios às mulheres brasileiras. Em uma breve visita a Belo Horizonte (MG) em 1997, Serpieri foi um dos principais convidados da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Na ocasião, tive a oportunidade de fazer uma entrevista, na qual falamos de seu trabalho, de seus mundos decadentes e de sua paixão pela personagem Druuna, que ele uma vez disse ser “muito brasileira”.

Na década de 70, os quadrinhos europeus de ficção e fantasia conquistaram o mundo, influenciando o surgimento de revistas como a Heavy Metal. Hoje o senhor publica seus trabalhos nessa revista. Qual a relação de seus quadrinhos com aqueles dos anos 70?

Nos anos 70, eu trabalhava com quadrinhos de faroeste e pensava que meu desenho não tinha muito a ver com a ficção científica. Eu tinha resistência ao desenho geométrico, certinho, tecnológico da FC. Mas a fantasia e a ficção dos quadrinhos publicados na Metal Hurlant me fascinavam muito. Como eu ainda tinha muitas histórias para contar com o faroeste, comecei a fundir este gênero com a fantasia. Só depois, nos anos 80, eu cheguei à ficção científica. Fiquei muito impressionado com Alien e Blade Runner de Ridley Scott; aí comecei a fazer uma história em que aparece a deterioração do mundo tecnológico. Quando comecei a desenhar essa história não pensei numa personagem protagonista, mas foi aí que surgiu a Druuna.

O que é a Druuna para o senhor? Ela corresponde a seu ideal de mulher?

Enquanto personagem, Druuna surgiu como minha concepção de uma mulher sensual. Ela representa o erotismo e a sensualidade. Mas é como se ela fosse uma mulher que você poderia encontrar, ela é viva, atual, palpável. É como se você pudesse tocá-la, por isso utilizo essa plasticidade nos desenhos e nas formas. Eu a inseri em um mundo em decomposição para criar um contraste entre um corpo perfeito de mulher, que remete à vida e prazer, e o ambiente em decomposição. Em suas histórias, Druuna também aparece em um mundo onírico, realizando uma fuga, da morte e da dor, através do prazer. Meu trabalho responde a uma necessidade pessoal.

Em suas obras o senhor emprega a pintura como recurso técnico. Como o senhor vê a relação entre a arte e os quadrinhos?

Eu faço pinturas há muito tempo, antes de fazer quadrinhos. Uso a cor para criar o ambiente, a atmosfera, o estado da alma. Não me interessa a cor simplesmente como estética, mas a cor como expressão. Há muita polêmica se o quadrinho é, ou não, uma arte. Acho que qualquer atividade criativa pode chegar à arte, mas isso não quer dizer que todos os quadrinhos são artísticos.

Comparado a outros quadrinhos eróticos europeus, Druuna parece uma personagem mais passiva e o ambiente de suas histórias é mais sombrio. Isto tem a ver com sua percepção pessoal do mundo?

Tenho uma visão pessimista do futuro, mesmo quando faço coisas positivas. Druuna parece ser sempre uma vítima, mas na realidade ela sempre vence. Ela representa uma alternativa à morte, representa o prazer.

A discussão sobre o que é erotismo e o que é pornografia é um tema recorrente. O senhor estabelece uma diferença entre eles? As aventuras de Druuna são eróticas ou pornográficas?

Eu penso que a pornografia é a representação do ato sexual. Tanto pode ser chata quanto pode ser excitante. Não entendo quando as pessoas se escandalizam com a representação do ato sexual, que é algo belo. Por sua vez, o erotismo pode ser muito fascinante. Há toda uma série de situações e elementos que se referem ao ato sexual. Chamo de erotismo um olhar de uma bela mulher, um vestido transparente, o movimento dos seios. Para alguns o erotismo é nobre e a pornografia é vulgar; muitas vezes isso é hipocrisia de quem tem medo do prazer. Vou dizer algo perigoso: o erotismo é muito hipócrita e parece muito nobre pois se pensa que o ato sexual é algo vulgar.

A Itália já nos presenteou com brilhantes viajantes e descobridores de novos mundos, como Marco Polo e Hugo Pratt. O senhor acha que nos dias de hoje ainda restam mundos a serem descobertos?

Não, não naquele sentido. Hoje, cada um deve descobrir o seu mundo. Muitas vezes a aventura de buscar novos mundos leva você a descobrir a si mesmo. A idéia da busca por um novo mundo é uma viagem em direção ao incógnito, em busca da felicidade, do paraíso. A conquista do espaço é uma dessas viagens em direção ao incógnito.

14/11/2007

Meu encontro com Will Eisner.


Em outubro de 1997, Will Eisner visitou Belo Horizonte (MG) como convidado do projeto Conferências do Centenário e da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Para minha felicidade, eu estava “no lugar certo, na hora certa”! Na primeira manhã da visita de Eisner à cidade, fui interprete em sua coletiva para imprensa e tive o prazer de acompanhá-lo numa visita às exposições da Bienal. No dia seguinte, nós nos reencontramos rapidamente, quando pude presenteá-lo com um exemplar da revista SOLAR, em que faço uma pequena homenagem a The Spirit (a foto ao lado registra este momento e foi publicada numa revista da época). O texto a seguir saiu como uma matéria especial para um jornal de BH e foi atualizado para sua veiculação aqui. Ele relata como foi meu encontro com este mestre da "arte sequencial", falecido em janeiro de 2005.

É comum se dizer que as obras de um grande artista refletem sua alma. Essa frase pode não ser uma verdade absoluta, mas ela certamente se aplica a Will Eisner, o criador da série The Spirit e um dos mais importantes autores da história dos quadrinhos. Dedicando-se à criação e estudo das HQs por mais de sete décadas, ele foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, estética e temática desta arte. Isso lhe garantiu reconhecimento e deferência não apenas por parte dos amantes dos quadrinhos, mas também daqueles que vêem as artes em geral como formas de expressão pessoal e interação entre as pessoas. Tendo sido um dos grandes artistas do século 20, em sua visita a Belo Horizonte Will Eisner mostrou-se sempre amável e acessível àqueles que se aproximavam para entrevistá-lo, pedir um autógrafo ou simplesmente trocar algumas palavras.

Se The Spirit foi fruto de um processo de desenvolvimento que, segundo seu criador, corresponderia à sua própria evolução enquanto artista, desde que surgiu em 1940 o personagem tornou-se um caso muito especial na galeria de heróis dos quadrinhos norte-americanos. Como o próprio Will Eisner o definia, Spirit é um herói com as fraquezas e limitações, medos e paixões dos seres humanos comuns. E ao introduzir em suas histórias questões da existência humana, Eisner mostrou que os heróis dos quadrinhos podiam ser mais que figuras unidimensionais que se espancam enquanto bradam falas cheias de clichês. Com The Spirit, os comics tornaram-se mais humanos.

De fato, algo inegável nos trabalhos deste grande mestre é a empatia. Da mesma forma que seu autor se mostrou amável e atencioso, suas histórias e desenhos são capazes de cativar a atenção valendo-se de uma simplicidade poética. Partindo de questões concretas do mundo real, seus roteiros criam situações que envolvem o leitor, tornando-o um cúmplice no desenrolar da trama. Afinal, como disse Eisner, “o leitor de quadrinhos jamais é um espectador passivo”.

Em obras-primas como Nova York - A Grande Cidade, o desenhista mostra-nos seu universo pessoal, através de impressões e opiniões sobre o mundo contemporâneo. Com um traço que se vale da precisão e da expressividade para dar vida a personagens e situações únicos, esse verdadeiro cronista da vida nas grandes cidades fazia poesia através de imagens. A “belíssima Belo Horizonte” que ele encontrou em 1997 não tem nada da “pequena cidade provinciana” sobre a qual ouvira falar, aproximando-se mais da clássica Nova York de seus livros, onde as contradições e conflitos da sociedade moderna tornam-se visíveis e o ritmo da vida ainda permite-nos vislumbrar personagens especiais perdidos na multidão.

Para um artista com décadas de atuação, o segredo da permanência de seus personagens e histórias é a simplicidade dos mesmos; é o fato de lidarem com questões básicas da existência que se mantêm ao longo do tempo. Mas, se a vitalidade do artista se refletia na permanência de sua obra, a paixão com que Eisner se referia aos quadrinhos era resultado da contínua renovação desta forma de arte, que a cada convenção ou bienal lhe presenteava com novidades como o “expressivo traço” de Henfil ou as “fortes imagens” dos desenhos de Marcelo Lelis.

Talvez a rápida transformação e superação do mundo que ele interpretava com tanto lirismo tenha sido o fato que levou Eisner a interromper as aventuras de Spirit, nos anos 50. O que ele não poderia prever é que seu personagem continuaria vivo, através de reedições e de uma fiel legião de fãs, ou que quando retornasse aos quadrinhos, na década de 1970, ele fosse o principal responsável pela formação de um novo gênero, as graphic novels. Como era de se esperar, alguém que iniciou duas grandes revoluções qualitativas sabia como poucos identificar os mecanismos de funcionamento e as especificidades dessa linguagem artística, como ele fez nos livros teóricos Quadrinhos e Arte Seqüencial e Narrativas Gráficas.

Se fôssemos comparar os quadrinhos a outras artes, teríamos que comparar Will Eisner a artistas como Picasso ou Fellini. Compreendendo e revolucionando as linguagens que escolheram, cada qual interpretou o mundo a partir de um ponto de vista particular, conciliando personalidade e universalidade. Transformando a estética, reinventando a linguagem, apropriando-se do clássico para popularizar a arte, eles deixaram suas impressões sobre o século 20. Mas é claro que dentre esses artistas, Will Eisner é o que tem menor reconhecimento. A desprestigiada arte por ele escolhida para se expressar continua não sendo tratada com a devida atenção e seriedade.

Se o leitor que percorreu estas linhas ainda não conhece a genialidade de Will Eisner, espero que minhas palavras tenham contribuído para despertar seu interesse. Tendo conhecido pessoalmente o criador, pude perceber que a paixão, vitalidade e grandiosidade de sua obra eram reflexos dele mesmo. Meu encontro com Will Eisner foi um daqueles momentos incomparáveis em que se recupera uma profunda paixão pelo que se faz. Enfim, não é todo dia que se conhece um grande gênio!

Uma entrevista com Will Eisner.


O norte-americano Will Eisner foi um dos grandes mestres da história dos quadrinhos. Nascido em 1917, ele iniciou sua carreira nos anos 30, sendo um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, estética e temática da “arte sequencial” (nome pelo qual ele chamava os quadrinhos). Dominando a arte de contar uma história com imagens, Eisner levou para as páginas de suas HQs o cotidiano e os conflitos pessoais dos habitantes das grandes cidades, representando-os através de um estilo inconfundível. Em suas obras, a subjetividade e o cotidiano são elementos predominantes, evidenciando o trabalho de um observador atento que relata com consciência e lirismo a vida através dos quadrinhos.

Em outubro de 1997, o inventor das graphic novels esteve em Belo Horizonte (MG) para participar da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Na época, eu trabalhava como crítico de quadrinhos para um jornal de BH, e tive a oportunidade de entrevistá-lo pouco antes de sua vinda. O tema de nossa conversa feita por fax foram os quadrinhos como forma de arte.

O senhor já esteve no Brasil antes. Quais são suas expectativas em relação a Belo Horizonte?

Sim, eu já estive no Brasil várias vezes. Falaram-me muito sobre Belo Horizonte, de que é um lugar muito bonito. Espero encontrar colegas aí, para trocar idéias sobre os quadrinhos.

Em 1996, comemorou-se no mundo inteiro o que seria o centenário dos quadrinhos. O senhor concorda com quem diz que Yellow Kid foi a primeira história em quadrinhos? O que nos diz dos trabalhos de Rudolph Töpffer e Wilhelm Bush (considerados por muitos os verdadeiros criadores da linguagem dos quadrinhos)?

Definir a origem dos quadrinhos é muito difícil, pois a utilização literária de imagens data de séculos atrás. A Igreja na Europa usou esta forma de comunicação durante a Idade Média. Creio que podemos considerar Yellow Kid como sendo o começo da publicação em massa dos quadrinhos, ele foi a primeira tira diária a ser publicada. Certamente, Töpffer foi muito importante, mas ele não foi parte da ampla popularização desta mídia.

Qual seria o papel social dos quadrinhos na atualidade, e qual seu significado histórico?

Os quadrinhos são uma forma de literatura popular, como tal, eles refletem as transformações de nossa cultura. Eles continuam proporcionando um veículo narrativo profundamente ligado à sociedade moderna. Historicamente, os quadrinhos têm dado voz às relações sociais. Os quadrinhos de jornal, muitas vezes, lidam com relações étnicas e servem como uma introdução à compreensão de vizinhos que tenham uma origem cultural diferente.

O que o senhor acha dos quadrinhos publicados pelas grandes editoras norte-americanas?

Os quadrinhos publicados pelas grandes editoras nos Estados Unidos geralmente seguem a tendência dominante nos gostos e interesses dos jovens. Super-Heróis, o sustentáculo das grandes editoras, fornecem um suporte mitológico para as fantasias destes jovens. Mas algumas das grandes editoras estão atendendo a gostos mais sofisticados. Um desenvolvimento muito positivo.

Em seus trabalhos, o senhor nos mostrou que as histórias em quadrinhos podem ser muito mais que apenas diversão, assim, eu lhe devolvo uma pergunta de seu último livro The Graphic Storytelling [inédito no Brasil na época da entrevista]: “até onde os quadrinhos podem ir na abordagem de temas sérios”?

Eu sempre acreditei que os quadrinhos são capazes de lidar com um conjunto de temas mais amplo e mais significativo. Enquanto uma linguagem literária, esta mídia deve ser capaz de lidar com todo o conjunto dos conflitos humanos. Como o cinema e o teatro, a Arte Seqüencial também tem certas limitações, como a ausência do som e da música. No caso do cinema, é o fato dos personagens terem pouca profundidade. O futuro dessas artes reside em sua habilidade em superar o estigma de sua forma e trabalhar conteúdos mais sérios.

Suas obras lidam com as dimensões trágica e cômica da vida. Na sua opinião a vida se assemelha mais a uma tragédia ou a uma comédia?

Nossa!... A vida é tragicômica. Em meu trabalho eu lido com o que penso ser a questão fundamental, que é a batalha pela existência. Por isso, crio obras para um público adulto, que tenha mais experiência de vida.

Qual o futuro dos quadrinhos na era da computação?

A nova era do computador não alterará a estrutura básica dos quadrinhos. A história em quadrinhos é fundamentalmente uma narrativa contada com imagens. Ela não está irrevogavelmente ligada à impressão. Quando a tecnologia dos computadores evoluir, os quadrinhos encontrarão um lugar, pois sua linguagem se adequa claramente a ela. As regras da narrativa gráfica ainda se aplicarão.