26/01/2008

Ronin, o “mangá” futurista de Frank Miller.


Nos anos 80, novos autores e tendências possibilitaram uma transformação nas HQs norte-americanas. Entre esses autores estava Frank Miller, que inovou a narrativa dos comics ao empregar elementos dos quadrinhos japoneses. Tudo começou quando chegou às suas mãos um grosso volume com o mangá Lobo Solitário (um sucesso no Japão, que narra a história de um samurai sem mestre e seu filinho Diagoro). Ao folhear o mangá pela primeira vez, Miller ficou impressionado com a narrativa visual impecável, o que teria uma influência decisiva em suas HQs (além de torná-lo um dos principais divulgadores da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima no Ocidente).

Após essa feliz descoberta, o quadrinista norte-americano passou a incorporar elementos narrativos de Lobo Solitário às HQs do herói Demolidor. Ele também introduziu personagens saídos da cultura japonesa, como ninjas e samurais, dando destaque à sensual assassina Elektra (que ganharia mais tarde uma minissérie pintada por Bill Sienkiewicz). Outro personagem que ganhou um tratamento à japonesa foi o mutante Wolverine que, na minissérie escrita por Chris Claremont e desenhada por Miller, viaja ao Japão, onde enfrenta ninjas e lutadores de sumô (além de aparecer com garras na forma de lâminas japonesas). Mas talvez a maior homenagem de Miller aos quadrinhos japoneses seja Ronin (marco fundamental na trajetória das graphic novels e minisséries de luxo).

Lançada em seis edições pela DC Comics e concluída em 1984, Ronin deu início à publicação das minisséries com temática mais adulta. Começando no Japão feudal, a HQ mostra um jovem samurai que busca vingar a morte de seu mestre. No confronto final contra o assassino, Ronin e o demônio Agat acabam aprisionados numa espada mágica, ressurgindo séculos depois numa caótica e altamente tecnológica Nova York do futuro. O roteiro se desenrola a partir daí, contando com muitos duelos de espadas, cenas do Japão feudal e hordas de robôs. Bastante original em sua fusão entre passado e futuro, elementos orientais e ocidentais, o enredo básico e a temática principal de Ronin seriam, anos mais tarde, copiados pela série de animação Samurai Jack (produzida por Genndy Tartakovsky para o Cartoon Network).

Mas é sem dúvida em termos narrativos e estilísticos que a minissérie de Miller causou maior impacto. Antecipando alguns dos elementos que o quadrinista desenvolveria posteriormente em O Cavaleiro das Trevas (como sequências de flash back e simulações de imagens de monitores), Ronin também chamou atenção pelas sequências de duelo inspiradas por Lobo Solitário (e aprimoradas a partir do que Miller já havia feito em Daredevil e Wolverine). No entanto, o que mais se destacou na minissérie foi seu visual bastante incomum para os padrões dos quadrinhos norte-americanos, com linhas tênues, emaranhados de traços e cores estilizadas (produzidas por Lynn Varley). Por tudo isso, Ronin se assemelhava mais a um álbum europeu do que a um comics da época (evidenciando a influência das HQs de Moebius e em particular do álbum Exterminador 17 de Enki Bilal).

Ronin não foi um enorme sucesso comercial quando lançada. De qualquer forma, a minissérie de Miller contribuiu para a popularização dos mangás no Ocidente, particularmente da série Lobo Solitário (cujas edições ocidentais contaram com capas desenhadas por ele). Os elementos da narrativa dos mangás utilizados por Miller também influenciaram outros quadrinistas, promovendo uma renovação dos comics. Além disso, a minissérie (lançada originalmente no Brasil há vinte anos) foi um marco na relação das grandes editoras norte-americanas com os autores mais renomados, que passaram a ter maior controle e direitos sobre suas criações. Só isso já faria de Ronin, o “mangá” futurista de Frank Miller, uma HQ decisiva para a história dos quadrinhos norte-americanos (que abriria caminho para O Cavaleiro das Trevas e Elektra Assassina, entre outras obras marcantes).

8 comentários:

Ismael disse...

É a minha história favorita do Miller, para mim quase coma un roteiro de Alejandro Jodorowsky. Muito psicolóxico, as personagems, e simbólico, as cores e os nomes.

Wellington Srbek disse...

O que sempre chamou minha atenção é o visual incomum que Miller conseguiu produzir em Ronin, com as cores de Lynn Varley e as influências de Lobo Solitário e Exterminador 17.
Espero então que meu texto sobre sua HQ preferida de Miller tenha agradado.
!Saludos!

J Júnior disse...

Uma viagem total, super original, eu particulamente esperava mais/ ao contrario do lobo solitario ao qual não esperava muito e na ultima edição eu fechei a revista de tão tensa!pensei que não iria aguentar.
Para quem curte recomendo tbm SAMURAI EXECUTOR, mais calmo e mais poetico tbm!

Wellington Srbek disse...

Sim, e outro quadrinho que acabou copiado - basta assistir ao primeiro episódio do desenho Samurai Jack!

José Rubens disse...

Muito bom mesmo, adoro Frank Miller, pois acho que as estórias que ele cria são cheias de certos conflitos relacionados a ética e moral.

Assim como "Watchmen" do Alan Moore

PS: tambem acessem meu blog, tem uma diversificação bem interessante lá!

Wellington Srbek disse...

Os trabalhos que Miller produziu nos anos 80 (Demolidor, Ronin, Cavaleiro das Trevas) foram realmente importantes para o desenvolvimento dos quadrinhos norte-americanos. Nos últimos tempos, porém, coisas inexplicáveis como All Star Batman and Robin e Cavaleiro das Trevas 2 (sem falar no absurdo filme do Spirit) mancharam esse legado.
Há varios outros textos sobre o trabalho de Miller aqui no blog, José. Não deixe de conferir.
Abraço!

PedroCartoonCartoons disse...

Apesar de terem o mesmo ponto de partida, as histórias possuem um teor e um clima bastante diferentes. A história de Ronin tem um conteúdo mais adulto e pesado, com violência mais explícita, e se passa em um futuro apocalíptico e totalmente decadente, já a história de Samurai Jack, apesar de seu ar mais sério e humor mais sutil, quando comparado aos outros desenhos exibidos no Cartoon (produções da Hanna Barbera), possui uma violência mais estilizada (Jack geralmente enfrenta robôs) em respeito ao público infanto-juvenil, que é o grande chamariz do canal, e o futuro em que o herói habita, apesar do controle tirânico a que é submetido, não é tão decadente; ora mostra grandes metrópoles que nos remetem a obras como Blade Runner e Akira, ora lembra cenário medievais típicos de história de fantasia.
Samurai Jack também possui uma influência japonesa, mais especificamente dos animes, na sua estruturação e animação, mas vai muito, muito além disso. É um dos mais revolucionários desenhos da atualidade. A animação é primorosa, traços estilizados associados a movimentos perfeitos, feitos no geral com animação tradicional, mas com um ou outro pequeno detalhe em computação gráfica. Os roteiros são eficientes, alguns fenomenais, mas a principal qualidade do desenho vem da perfeita conjugação entre animação e sonoplastia. A maioria das histórias possui poucos diálogos, com elaboradas cenas de batalhas e o ritmo é ditado pela trilha sonora (ou a ausência dela em determinados momentos) e pelos sons de fundo. Assistir Samurai Jack é uma experiência única, diferente de qualquer outro desenho do gênero. Você não vê Samurai Jack, você sente o desenho.

Alexandre Bomfim disse...

METÁFORA: Mesmo que tenha se instalado no modo de pensar de Miller um ranço ultradireitista, suas obras sempre combateram as oligarquias e os monopólios. Em Ronin, a metáfora é uma crítica ao corporativismo nipônico que ameaçava os EUA nos anos 80. Ao mesmo tempo, a saga se encerra num impasse: estaria o humano com necessidades especiais apenas dentro de um inception? A resposta se encontra no cérebro e no coração de cada leitor. Definitivamente Samurai Jack bebe da água da HQ Ronin e homenagia a mesma em animação com louvor, mas é claro que na fonte e muito mais melhor.