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24/05/2010

O renascimento do Flash por Geoff Johns.


Nos últimos anos, Geoff Johns tornou-se um dos mais badalados roteiristas dos quadrinhos de super-heróis, sendo agora um dos responsáveis pela direção criativa da DC Comics (que inclui decisões não apenas nas revistas da editora, mas também em animações e filmes baseados em seus personagens). Com participações em séries como Crise Infinita e 52, Johns ficou mais conhecido através de trabalhos com super-heróis clássicos, com destaque para a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, que resgatou e redimiu o herói Hal Jordan. Repetindo sua parceria com o desenhista Ethan Van Sciver, o roteirista lançou em 2009 e concluiu neste ano The Flash: Rebirth, minissérie em seis edições que marcou a volta de outro herói da “Era de Prata”.

Um dos efeitos da minissérie Crise Final foi o retorno de Barry Allen à continuidade regular dos heróis DC. Devidamente ressuscitado, o herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC” ganhou dos editores uma nova chance (bem aos moldes da oferecida ao Lanterna Verde em 2004-2005). O número 1 de The Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue repetir o acidente que deu origem aos poderes do herói. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do Flash: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e de seu amigo Hal Jordan.

Com alguns mistérios e referências a outras HQs, o capítulo inicial da minissérie serve para estabelecer a trama, cenário e personagens. Como é de se esperar, o número 2 traz um desenrolar dos acontecimentos (um pouco lento), que mistura gorilas das cavernas, cultos à “força da velocidade” (a energia mística que impulsiona os velocistas da DC), flashbacks que revelam o passado de Barry Allen e diálogos que esclarecem elementos sobre seu presente. O Lanterna Verde Hal Jordan faz uma participação breve e mais um mistério é acrescentado com o surgimento de um enigmático “Flash Negro”. Já o número 3 traz um emaranhamento ainda maior dentro da metafísica que envolve a tal “força da velocidade”. Um plano de contenção é necessário e alguns figurões da Liga e da Sociedade da Justiça dão as caras.

O quarto capítulo começa com explicações sobre a identidade do vilão Flash Reverso, seguindo com alguns socos e muita conversa. Tudo parece girar em círculos, até o vilão nos esclarecer seu plano maquiavélico, encerrando com uma saída dramática. Depois temos mais explicações sobre a ligação entre Flash e a “força da velocidade” e, enfim, um pouco de ação. Tudo, porém, é pontuado por uma retórica da “família”, o que dá um caráter conservador a uma história que não vinha sendo das mais brilhantes. Já o número 5 começa com mais flashbacks e reflexões, continuando numa luta de vários heróis velocistas contra um único vilão (!). E a edição inteira é praticamente pancadaria, encerrando mais ou menos como as coisas estavam no início do número 4, exceto por uma última revelação e uma ameaça do vilão.

Além do herói Flash e do roteirista Geoff Johns, um atrativo na minissérie foi o desenhista Ethan Van Sciver (auxiliado por uma competente colorização digital). Seu traço fino segue um padrão detalhista que, às vezes, chega a ser muito estático para uma HQ de super-heróis. Isso sem falar no fato de que seu estilo realista tende a ressaltar cenas estranhas, como personagens em fantasias espalhafatosas sentados à mesa lendo jornais ou comendo cachorros-quentes. E se algumas cenas de página inteira são bem impactantes, outras em sequências de quadros trazem desenhos quase amadores, evidenciando uma grande irregularidade. Mais ilustrador do que propriamente um quadrinista, Van Sciver mostrou o melhor de seu trabalho nas cinco primeiras capas da minissérie, com direito a recriações de cenas consagradas.

O capítulo final da minissérie traz mais correria, mais explicações e um desfecho muito desproporcional a todo o falatório e ideias metafísicas que a história vinha propondo. E para um roteiro que girou tanto em círculos, as últimas páginas só poderiam mesmo ser uma volta ao início. Planejada inicialmente para cinco e não seis edições, The Flash: Rebirth poderia sem dúvida ter se beneficiado de uma estrutura mais enxuta e objetiva (sem tantas idas e vindas ou situações que não levaram a nada). Mas, apesar da qualidade duvidosa do roteiro e da irregularidade dos desenhos, a minissérie parece ter agradado aos leitores norte-americanos, tendo boa vendagem, reimpressões das primeiras edições e uma reedição em capa-dura, lançada no início deste mês (os leitores brasileiros já podem conferir a minissérie nas páginas da revista Liga da Justiça da Panini).

Geoff Johns é hoje um roteirista muito popular entre os leitores e bastante prestigiado entre os chefões da DC. O melhor exemplo disso são a recentemente concluída The Blackest Night e a recém iniciada The Brightest Day, séries centradas no Lanterna Verde, mas que envolvem os principais heróis e vilões da editora. Grande conhecedor da cronologia e dos meandros ficcionais envolvendo aqueles personagens, o roteirista é de fato um trabalhador dedicado e esforçado, mas não é nenhum gênio. Com um gosto para histórias grandiosas e explicações superestruturais, suas HQs têm o mérito de agradar, mas deixam a desejar em termos de qualidade e inovação.

01/12/2009

DC Comics: resgatando antigos formatos em busca do sucesso.


Numa crise, muitas vezes a melhor solução pode não estar na invenção de algo novo, mas sim em se trabalhar a partir de um modelo já existente, adaptando-o à realidade do momento. O fato é que, após mais um fiasco editorial (envolvendo a pretensiosa e confusa Crise Final), a DC Comics ficou ainda mais em segundo plano na disputa com sua concorrente direta, Marvel. Ao que parece, a crescente perda de mercado inspirou os editores a se voltarem para antigos formatos de publicação, como as revistas com uma história principal seguida de uma HQ curta complementar. Comuns até os anos 70, as revistas em dupla voltaram a ser vistas neste ano, nas edições de Detective Comics (que além das aventuras da Batwoman trazem também histórias de Questão) e Doom Patrol (que junto com os personagens-título publicam a nova série com os Metal Men).

O mais bem-sucedido projeto de adaptação de um antigo formato foi Wednesday Comics, uma série de jornais semanais, em doze edições com capítulos de uma página. Imitando o formato dos clássicos quadrinhos dominicais, o projeto criado por Mark Chiarello recebeu o nome “quadrinhos de quarta-feira” por ser este o dia da semana em que os lançamentos chegam às lojas dos Estados Unidos. Trazendo medalhões da DC (como Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha), a série contou ainda com nomes consagrados do mercado (como Neil Gaiman, Brian Azzarello e Joe Kubert). Grande sucesso comercial, esses jornais com quadrinhos ganharão em breve uma coletânea em capa-dura. Lançada no início de julho, Wednesday Comics n°1 veio dobrada no formato comic book, mas, ao ser aberta, a publicação se desdobra em páginas num formato gigante, com ótima impressão de cores.

De saída, Brian Azzarello e Eduardo Risso oferecem uma história policial com o Homem-Morcego. Em seguida, Dave Gibbons e o desenhista Ryan Sook trazem de volta o herói pós-apocalíptico Kamandi. Virando a página, John Arcudi, Lee Bermejo e Barbara Ciardo nos levam a uma batalha entre o Homem de Aço e um estranho alienígena. A seguir, numa HQ com Deadman, a dupla Dave Bullock e Vinton Heuk imitam o estilo de Darwyn Cooke. Depois, são Kurt Busiek e Jae Quinones que tentam reproduzir o espírito de A Nova Fronteira numa aventura com o Lanterna Verde. Virando a página, Neil Gaiman e Mike Allred misturam Metamorfo, humor e caça ao tesouro. Já Eddie Berganza e Sean Galloway adotam um tom mais adolescente e um estilo mangá para sua versão dos Jovens Titans. Numa linha bem mais pessoal, Paul Pope e José Villarrubia mostram uma típica manhã agitada de Adam Strange.

Por sua vez, Jimmy Palmiotti e Amanda Conner preferem uma abordagem mais infantil, em sua HQ com a Super-Moça, o Super-Cão e o Super-Gato. Em seguida, o editor Dan Didio e os veteranos José Luís Garcia-Lopes e Kevin Nowlan resgatam dos anos 60 e 70 o grupo de robôs Metal Men. Na história seguinte, Bem Cadwell utiliza um traço belíssimo em sua versão conto de fadas para a Mulher-Maravilha. O clima muda completamente na história de guerra produzida por Adam e Joe Kubert para o Sargento Rock. Dividida em duas partes, a página seguinte traz um clima mais leve, nas HQs de Flash e Íris West, produzidas por Karl Kershl e Brenden Fletcher. Já Walt Simonson e Brian Stelfreeze preferem as sombras ao colocar frente a frente o imortal Jason Blood e a mortífera Mulher-Gato. Fechando essa edição de estreia, Kyle Baker opta por tons mais claros em sua aventura aérea com o Gavião Negro.

Bastante diversificado, o primeiro número de Wednesday Comics deixou a sensação de um projeto bem elaborado, que tem como base um bom time de autores. Além disso, as histórias dessa série semanal não fazem parte da cronologia oficial da DC, o que permitiu uma maior independência e liberdade criativa para roteiristas e desenhistas. Isso deu abertura para os pontos altos da edição de estreia (as páginas com o Batman, Metamorfo, Adam Strange e Mulher-Maravilha). Enquanto a edição encadernada ou a versão brasileira não vêm, algumas páginas da série podem ser encontradas pela Internet e também no blog oficial da DC.

06/08/2009

As últimas do Flash, por Geoff Johns.


Há alguns anos, Geoff Johns era apenas um novo nome nos créditos das HQs norte-americanas. Nos últimos tempos, porém, ele se tornou um dos mais destacados e importantes roteiristas dos quadrinhos de super-heróis (e da DC Comics em particular). Assinando participações em séries como Crise Infinita e 52, Johns tornou-se conhecido por seus trabalhos com super-heróis clássicos, com destaque especial para a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, que resgatou e redimiu o herói Hal Jordan. Repetindo sua parceria com o desenhista Ethan Van Sciver, o roteirista está lançando agora The Flash: Rebirth, minissérie em seis edições que marca a volta de outro herói da “Era de Prata”.

Um dos efeitos da minissérie Crise Final foi o retorno de Barry Allen à continuidade regular dos heróis DC. Devidamente ressuscitado, o herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC” ganhou dos editores uma nova chance (bem aos moldes da oferecida ao Lanterna Verde em 2004-2005). O número 1 de The Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue emular o acidente que deu origem aos poderes do herói. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do Flash: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e de seu amigo Hal Jordan.

Com alguns mistérios e referências a outras HQs, o capítulo inicial da minissérie serve para estabelecer a trama, cenário e personagens. Como é de se esperar, o número 2 traz um desenrolar dos acontecimentos (um pouco lento), que mistura gorilas das cavernas, cultos à “força da velocidade” (a energia mística que impulsiona os velocistas da DC), flashbacks que revelam o passado de Barry Allen e diálogos que esclarecem elementos sobre seu presente. O Lanterna Verde Hal Jordan faz uma participação breve e mais um mistério é acrescentado com o surgimento de um enigmático “Flash negro”. Já o número 3 traz um emaranhamento ainda maior dentro da metafísica que envolve a tal “força da velocidade”. Um plano de contenção é necessário e alguns figurões da Liga e da Sociedade da Justiça dão as caras.

Além do herói Flash e do roteirista Geoff Johns, outro atrativo na minissérie é o trabalho de Ethan Van Sciver (auxiliado por uma competente colorização digital). Seu traço fino segue um padrão detalhista que, em alguns momentos, chega a ser meio estático para uma revista de super-heróis. Isso sem falar no fato de que seu estilo realista tende a ressaltar cenas estranhas, como personagens em fantasias espalhafatosas sentados à mesa lendo jornais ou comendo cachorros-quentes. E se algumas cenas de página inteira são bem impactantes, outras em sequências de quadros trazem desenhos quase amadores. Mais ilustrador do que propriamente um quadrinista, Van Sciver tem mostrado o melhor de seu trabalho nas capas da minissérie, todas com duas versões e com direito a citações de antigas capas e situações clássicas.

As edições de The Flash: Rebirth não têm sido as únicas participações do “velocista escarlate” em HQs escritas por Geoff Johns. Outro exemplo é Blackest Night #0, revista distribuída gratuitamente pela DC em maio. A história começa com reflexões de Hal Jordan sobre o espectro das cores e sua missão como Lanterna Verde, passando a um lamento à beira do túmulo do Batman Bruce Wayne. É então que Barry Allen entra em cena, apressadamente (no que parece ser uma participação anterior aos eventos mostrados em The Flash: Rebirth). Após um longo diálogo sobre amigos falecidos, os dois heróis partem sem perceber a presença do vilão Mão Negra, o arauto da “noite mais densa”. Sendo uma introdução à série agora em andamento, a HQ de doze páginas tem como ponto alto os excelentes desenhos de Ivan Reis.

Geoff Johns é hoje uma espécie de roteirista oficial do “Universo DC”, que (ao lado de Grant Morrison e dos chefões da editora) tem dado as cartas sobre os destinos de alguns de seus principais personagens. Grande conhecedor da cronologia e dos meandros ficcionais envolvendo aqueles heróis, o roteirista é de fato um trabalhador dedicado e esforçado, mas não é nenhum gênio. Com um gosto para histórias grandiosas e explicações superestruturais, suas histórias têm o mérito de agradar, mas deixam a desejar em termos de inovação. Apesar disso, podemos dizer que Johns merece todo seu sucesso, oferecendo-nos histórias acima da média das revistas de super-heróis. Para quem quiser dar uma olhada, a DC disponibilizou prévias das três primeiras edições de The Flash: Rebirth e a HQ completa de Blackest Night #0:

http://www.dccomics.com/media/excerpts/11472_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11691_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11881_x.pdf
http://www.dccomics.com/sites/greenlantern/media/comic/Blackest_Night_0.pdf

(Para saber mais sobre o herói Flash e as várias “Crises” pelas quais têm passado os heróis DC, clique nos marcadores abaixo.)

03/08/2009

Panini lança a mais nova super-saga “definitiva” da DC.


Desde os anos 80, as super-sagas “definitivas” tornaram-se bastante comuns nos quadrinhos das grandes editoras norte-americanas, com destaque para a DC Comics (que lançou essa tendência em 1985 com sua “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras). Mais recentemente, uma verdadeira epidemia cataclísmica (ou simples ganância editorial) levou a uma confusa sequência de “crises” e “contagens regressivas” (que só tendem mesmo a deixar mais pobres os leitores que as seguem). Podemos dizer que, pelo menos desde meados dos anos 90, os quadrinhos de super-heróis em geral foram envolvidos por um esquema editorial que visa somente ao lucro. Com isso, eliminou-se qualquer rastro de um “universo ficcional” dotado de uma história coerente e personagens com credibilidade.

Quando comecei a colecionar quadrinhos, as “vidas” dos heróis importavam e seus destinos ficcionais tinham relevância para nós, leitores. Mas hoje por que motivo um leitor deveria se importar com o fato de que o Batman Bruce Wayne “morrerá” em uma edição vindoura? Afinal, todos sabemos que, num futuro não muito distante, ele será cinicamente ressuscitado por autores e editores interessados tão-somente nas vendagens das revistas. É claro que, desde o início, os quadrinhos de super-heróis foram um negócio, e vender revistas sempre foi a base desse negócio. A diferença é que, até uns vinte ou quinze anos, as histórias eram bem melhores e os personagens não eram vistos apenas como franquias, cujo melhor destino só pode ser protagonizar sua própria produção hollywoodiana.

Em sua função de repetidora local dos produtos DC Comics, a Panini tem seguido à risca a sequência de super-sagas “definitivas”, com suas histórias complementares. Assim, após uma extensa (e provavelmente dispensável) Contagem Regressiva, chegou às bancas brasileiras a alardeada Crise Final. Antes, porém, não faltou uma última exploraçãozinha: a revista Universo DC Especial: Começa a Crise Final (R$4,50). Trazendo capa e contracapa desenhadas por George Pérez e J.G. Jones, e sendo escrita por Grant Morrison e Geoff Johns, a “história” é narrada pelo falecido Flash Barry Allen. Pretendendo-se um prelúdio para a super-saga em questão, a HQ não passa de uma colagem ruim de sequências desconexas (entremeadas por anúncios das novas minisséries a serem lançadas pela Panini).

No final de julho veio, enfim, a Crise Final propriamente dita, minissérie em sete edições, escrita por Grant Morrison. Na divulgação da Panini lê-se: “O fim se aproxima! Ao longo do tempo, os heróis sempre são testados até o seu limite ao enfrentarem ameaças que nenhum deles pode derrotar sozinho. Eventos assim costumam ser chamados de Crises. Em toda a história do Universo DC, já ocorreram dois momentos como esses, que quase levaram toda a existência a um fatídico fim. Porém, mais uma vez os heróis serão necessários para se interpor à frente de um desafio que está muito além de suas forças individuais. [...] E, desta vez, nem todos os heróis escaparão das garras da morte. Mudanças profundas serão sentidas em todo o UDC...”. Será mesmo? Ou melhor, será que alguém ainda cai nessa conversa?

Claro que, para criticar qualquer revista em quadrinhos, é indispensável ler a edição. Se Universo DC Especial: Começa a Crise Final foi uma total perda de tempo e dinheiro, o mesmo não se pode dizer de Crise Final n°1 (R$5,50). A HQ começa na Pré-História, num momento prometéico ao estilo de 2001: Uma Odisséia no Espaço, envolvendo o personagem Metron da série Novos Deuses. Na sequência seguinte, já estamos nos tempos atuais, em que outro dos personagens cósmicos de Jack Kirby é vítima de assassinato. Entram em cena então os Lanternas Verdes, os Guardiões, a Liga da Justiça e outros medalhões da DC. Ecoando frases bíblicas e baseada na consagrada Crise nas Infinitas Terras, a super-saga “final” idealizada por Morrison também se ancora na temática superestrutural do “Multiverso”.

Um dos destaques de Crise Final n°1 deveria ter sido a execução de Ajax o Marciano (sim, ele morre!) pelo misterioso Libra e alguns dos membros da Sociedade Secreta dos super-vilões. A sequência, no entanto, é muito rápida e pouco expressiva, perdendo em dramaticidade. Com isso, o melhor mesmo desta primeira edição fica por conta dos ótimos desenhos de J.G. Jones (o artista responsável pelas capas da série 52). Dono de um traço detalhado e bastante adequado às HQs de super-heróis, o desenhista se sai muito bem nas variações entre passado e presente, ambientes cotidianos ou futuristas, personagens humanos ou alienígenas. Jones não será, contudo, o único responsável pelas sete edições da minissérie, dividindo funções com outros desenhistas, talvez não tão bons quanto ele.

No geral, após ler Universo DC Especial: Começa a Crise Final e Crise Final n°1 (e com R$10,00 a menos no bolso), posso dizer que não fiquei nem um pouco impressionado com o que vi, tampouco empolgado com a continuação de mais esta super-saga DC. Planejada para organizar definitivamente a estrutura do “Multiverso DC”, alinhando seu passado, presente e futuro, a minissérie escrita por Morrison (segundo a opinião geral) acabará se perdendo em suas próprias pretensões megalomaníacas. Pode ser que eu esteja velho demais para este tipo de quadrinho, cheio de personagens com estranhas fantasias coloridas. Mas, ao concluir esta postagem, caro leitor deste blog, eu pergunto: será que alguém (além dos autores e editores envolvidos) precisava de mais uma super-saga "definitiva"?

07/06/2009

Os heróis DC entre crises, mortes, renascimentos e fórmulas batidas.


O termo “Crise” começou a ser usado pela DC Comics no início dos anos 60, em edições que reuniam personagens de diferentes realidades paralelas. A expressão representava geralmente uma ameaça que exigia a atuação conjunta da Liga da Justiça (com os heróis da Terra 1) e da Sociedade da Justiça (com os personagens veteranos da Terra 2). Utilizado esporadicamente ao longo de duas décadas, o termo ganhou novo significado em meados dos anos 80. Na época, a editora do Super-Homem passava por uma verdadeira crise administrativa e financeira, tendo perdido a posição de liderança do mercado para a concorrente Marvel e precisando se adaptar aos novos tempos. A resposta foi a “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras de 1985, que buscou organizar a bagunçada cronologia da editora, eliminando o chamado “multiverso”.

Como resultado, toda a estrutura ficcional da DC foi racionalizada e seus principais personagens tiveram as origens recontadas, possibilitando que novos leitores começassem a acompanhar suas revistas. Além disso, os trabalhos de autores como Marv Wolfman, George Pérez, John Byrne e Frank Miller não só salvaram a editora, mas também originaram um dos melhores momentos na história dos quadrinhos de super-heróis. Todo o sucesso abriu caminho para novos eventos interligando personagens e publicações, como a boa minissérie Lendas de 1986. É claro que a ganância editorial não demorou a entrar em cena e, já na segunda metade dos anos 80, foram lançadas nos Estados Unidos a não tão boa Milênio e a fraquinha Invasão, com as quais a editora repetia fórmulas e começava a “meter os pés pelas mãos”.

Para piorar, em 1993 foram lançadas as enganosas patacoadas editoriais intituladas “A Morte do Super-Homem” e “A Queda do Morcego”. Eram os efeitos de uma nova crise editorial, causada pela perda de mercado para a recém-criada Image Comics. Em 1994, apenas nove anos depois de Crise nas Infinitas Terras, os editores da DC viram a necessidade de um novo “marco zero” para seus personagens. A resposta foi a dispensável Zero Hora: Crise no Tempo, minissérie que trouxe o Lanterna Verde Hal Jordan como o insano Parallax, e cujo único ponto positivo foi motivar o lançamento da ótima série Starman. A irrelevância de Zero Hora acabou sacramentada em 2004, com o lançamento de Lanterna Verde: Renascimento, HQ produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, que trouxe a redenção de Hal Jordan como Lanterna Verde.

Nos últimos anos, em meio a uma nova crise editorial, a DC tem tentado incrementar as vendas com uma sequência de séries que reúnem seus principais personagens. De Crise de Identidade a Crise Infinita, passando por 52 e Um ano depois, até chegar à recente Crise Final, a editora norte-americana persiste na fórmula batida. Nesta última série, escrita por Grant Morrison, o Flash Barry Allen volta dos mortos e o Batman Bruce Wayne é aparentemente morto. No fim, porém, tudo fica mais ou menos da mesma forma: uma bagunça. Apesar disso, a confusa Crise Final está gerando frutos interessantes, como Flash: Rebirth, produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver nos moldes de Lanterna Verde: Renascimento, ou como Batman and Robin, a nova HQ de Grant Morrison e Frank Quitely, já lançada como uma campeã de vendas.

A verdade é que nos últimos vinte anos, com raras exceções, as revistas de super-heróis não valem o papel em que são impressas. Exploração comercial excessiva, erros editoriais sucessivos e a mais pura falta de criatividade só poderiam mesmo resultar na perda de leitores. Ao folhear uma revista mensal da Panini, com a costumeira confusão de heróis e a indispensável explosão visual, sinto nostalgia pelas HQs desses mesmos heróis publicadas há vinte anos. Para alguém que começou a ler quadrinhos no momento em que Crise nas Infinitas Terras era publicada no Brasil, as atuais revistas de super-heróis só podem mesmo parecer uma enganação. Aos leitores que começam agora, fica a sugestão para buscarem os quadrinhos clássicos dos anos 80. Eles sim são garantia de uma boa leitura!

(Para saber mais sobre Crise nas Infinitas Terras e outras HQs da DC, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

03/06/2009

O Flash de diferentes eras.


Para quem lia quadrinhos de super-heróis entre 1956 e 1985, a fantasia vermelha e amarela do herói Flash escondia a identidade secreta de Barry Allen. Mas a verdade é que antes deste houve outro Flash e depois dele mais alguns. Tendo dado origem à chamada “Era de Prata” dos super-heróis norte-americanos, Barry Allen também lançou o “Multiverso DC”, ao se encontrar com seu antecessor, Jay Garrick (o Flash da “Era de Ouro”). Por isso mesmo, “o homem mais rápido vivo” acabou sendo uma das principais vítimas de Crise nas Infinitas Terras, série que buscou racionalizar a cronologia dos heróis DC. Mas, como nos quadrinhos de super-heróis a morte é uma condição variável, Barry Allen foi ressuscitado na saga Crise Final, retornando à ativa nas páginas da recém-lançada minissérie Flash: Rebirth.

Com o sucesso avassalador do Super-Homem, vários outros super-heróis surgiram entre o final dos anos 30 e o início dos anos 40. Criado por Gardner Fox e Harry Lampert, lançado em janeiro de 1940, Flash foi o nome assumido pelo estudante de química Jay Garrick que, após um acidente de laboratório, adquiriu o poder de mover-se “mais rápido que a velocidade da luz” (SIC!). Usando uma blusa vermelha com um raio amarelo estampado, uma calça azul com um cinto, botas com asas e um capacete de Hermes-Mercúrio, o Flash da “Era de Ouro” era uma evocação moderna do deus greco-romano. Mesmo alcançando bastante sucesso, o personagem (renomeado no Brasil como Joel Ciclone) não conseguiu escapar à queda nas vendas das HQs de super-heróis, tendo suas revistas canceladas em 1949.

Em 1956, o Flash foi resgatado do limbo dos quadrinhos por Julius Schwartz, um dos mais criativos editores da história do mercado norte-americano. Na revista Showcase n°4, Schwartz decidiu testar se o público da época se interessaria pelos super-heróis, buscando para isso um nome do passado. O escolhido foi o Flash, que manteve os poderes da versão original, mas ganhou uma nova identidade secreta e um visual mais moderno. Amante da ficção científica, o editor estabeleceu o tom da nova versão, que ficou a cargo do roteirista Robert Kanigher e do desenhista Carmine Infantino. Nascia ali Barry Allen, um cientista forense e leitor de quadrinhos que, após um acidente de laboratório, ganhou a rapidez de um relâmpago, tornando-se o “velocista escarlate” (o primeiro super-herói reformulado e um sucesso imediato).

Seguindo o exemplo do Flash, outros super-heróis da “Era de Ouro” ganharam versões modernizadas que cativaram o público dos anos 50 e 60. Começava então a chamada “Era de Prata”, caracterizada por enredos envolvendo elementos pseudocientíficos e fantasiosos. Muito criativas, as edições de The Flash marcaram época, valendo-se dos roteiros inusitados de Gardner Fox e John Broome, e dos desenhos leves e agradáveis de Carmine Infantino. Com seu uniforme que saltava do anel, Flash estava sempre de prontidão para enfrentar vilões impagáveis como Mestre dos Espelhos, Capitão Bumerangue e Capitão Frio. Em setembro de 1961, Schwartz, Fox e Infantino publicaram “Flash of Two Worlds”, HQ que colocou lado a lado Jay Garrick e Barry Allen, num antológico encontro do Flash da “Era de Ouro” com o da “Era de Prata”.

Mais que trazer uma história inventiva sobre realidades paralelas, a revista Flash n°123 deu o ponta-pé inicial a todo “Multiverso DC” (uma estrutura ficcional que se caracteriza pela existência de múltiplas realidades paralelas). Em breve seria a Liga da Justiça (grupo da “Era de Prata”) que se encontraria com a Sociedade da Justiça (seu predecessor da “Era de Ouro”) e o Lanterna Verde original (Alan Scott) que encararia sua versão modernizada (Hal Jordal). Surgiram também outras realidades inéditas, como a Terra onde Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e o próprio Flash deram lugar a versões maléficas (respectivamente: Ultraman, Homem-Coruja, Super-Mulher, Anel Energético e Relâmpago). Além disso, passaram a coexistir diferentes futuros e passados alternativos para o “Universo DC”.

Os leitores logo se habituaram com as várias realidades paralelas, classificadas como Terra 1, 2, 3... Com o tempo, porém, o que era uma idéia interessante tornou-se uma confusão ficcional. Para complicar, nos anos 70 e 80, a DC Comics comprou os direitos sobre personagens de outras editoras, que passariam a habitar mundos identificados como Terra X ou S. No centro do furacão, o Flash Barry Allen continuou rompendo fronteiras interdimensionais, enquanto as vendas de sua revista declinavam rapidamente. Nem mesmo o herói mais rápido dos quadrinhos pôde escapar ao desinteresse dos leitores e à maré racionalista da primeira metade dos anos 80. E foi respondendo a uma crise mercadológica que a DC lançou, em 1985, Crise nas Infinitas Terras, evento que salvou a editora, mas sacrificou alguns de seus heróis tradicionais.

Houve quem lamentasse o desaparecimento do Superboy, da Super-Moça ou mesmo de Krypto, o Super-Cão. Mas poucas mortes causaram tanto alarde quanto a de Barry Allen, herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC”, mas que havia se tornado obsoleto para os padrões da “Era de Bronze” (período que teria começado no início dos anos 70 com um amadurecimento das HQs). A identidade de Flash acabou assumida por Wally Allen, sobrinho do falecido herói e antigo Kid Flash. O substituto, é claro, não tinha o charme de seu antecessor e a memória de Barry Allen não foi esquecida. A fase de Grant Morrison à frente do Homem Animal é em parte uma homenagem às aventuras do Flash da “Era de Prata” (uma das edições é até dedicada a John Broome, Gardner Fox, Carmine Infantino e ao “falecido Barry Allen”).

No início dos anos 90, Barry Allen ganhou uma versão em carne, osso e enchimentos, no seriado de tevê The Flash (exibido pela Rede Globo, o programa caiu na linguagem popular, originando a expressão “mais rápido que o Dê-Flechi”). Recentemente, nos quadrinhos a fantasia do herói foi vestida por seu neto Bart Allen e na tevê pelos protagonistas do seriado The Big Bang Theory. As referências nesta popular comédia do Warner Channel coincidem com o retorno de Barry Allen, ressuscitado por Grant Morrison & Cia. na série Crise Final e reentronado pela DC em Flash: Rebirth (cuja capa do n°1 fez uma aparição no episódio de The Big Bang Theory exibido no fim de maio). A nova minissérie terá cinco (ou seis) edições, sendo escrita por Geoff Johns e desenhada por Ethan Van Sciver, dupla responsável por Lanterna Verde: Renascimento.

O número 1 de Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue emular o acidente que deu origem aos poderes do Flash. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do herói: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e também de seu amigo Lanterna Verde Hal Jordan. Alguns mistérios e referências a outras HQs (como “Flash of Two Worlds”) são elementos essenciais deste primeiro capítulo que estabelece a trama da minissérie. Os bons desenhos seguem um padrão hiperdetalhista, que às vezes parece estático ou mesmo inadequado para uma revista de super-heróis.

De qualquer forma, para os fãs do “velocista escarlate”, Flash: Rebirth vale uma conferida. As duas primeiras edições da minissérie já foram lançadas nos Estados Unidos e a DC disponibilizou prévias das revistas em sua página oficial:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11472_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11691_x.pdf