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24/04/2011

Falando sobre o passado e o futuro (I).


Quem acompanha este blog já sabe que estou trabalhando como editor de quadrinhos profissionalmente e que em breve uma nova editora brasileira chegará ao mercado. Enquanto o anúncio oficial não vem, mais detalhes desse novo projeto editorial podem ser conhecidos na entrevista que concedi no final de março ao jornal Hoje em Dia.

A motivação para esta entrevista, em que falo do passado e do futuro, foram meus aniversários de 25 anos de produção de quadrinhos e 15 anos de carreira profissional. Além da oportunidade de falar sobre meu trabalho, a entrevista rendeu esta foto bacana acima, comigo e meus "filhotes". Na próxima postagem, teremos a parte final da matéria.

26/06/2009

Os 40 anos do Pasquim!


Com a morte do jornalista e humorista Sérgio Pôrto em 1968, saiu de circulação o jornal Carapuça, por ele editado. Para não perder o filão editorial, o diretor da Distribuidora Imprensa Altair de Souza e o publicitário Murilo Reis decidiram investir no projeto de um novo semanário de humor. Por sua vez, os humoristas e jornalistas brasileiros ansiavam por mais espaço e liberdade, devido ao fechamento de vários veículos e as restrições sobre o trabalho na grande imprensa, após o AI-5.

Juntou-se assim “a fome com a vontade de comer” e, após meses de reuniões envolvendo Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, entre outros, decidiu-se por um projeto geral que levaria o nome Pasquim. Na época em que aconteciam essas reuniões, Henfil já fazia bastante sucesso no Rio de Janeiro, mas não foi chamado imediatamente para participar do novo jornal de humor. Porém, em uma de suas idas ao Maracanã, no intervalo do jogo, ele foi abordado pelo jornalista Sérgio Cabral que lhe fez o convite para se juntar à equipe. Tentou desconversar, mas acabou aceitando participar.

O Pasquim pode ser considerado uma vitória do riso naqueles tempos de generais de cara fechada. Editado em formato tablóide, o semanário de humor estreou há exatos 40 anos, no dia 26 de junho de 1969. E a despeito do texto de Millôr Fernandes vaticinando que o Pasquim não duraria três meses (caso fosse fiel à sua proposta de independência), a tiragem inicial de catorze mil exemplares esgotou-se imediatamente. Aquele “jornal de Ipanema” tornava-se um sucesso de público, e em breve não se restringiria às praias do Rio. Como costuma se dizer, o Pasquim representou uma revolução de descontração e inconformismo na séria e bem-comportada imprensa brasileira da época. Para Henfil:

“O Pasquim foi o Maracanã! O futebol no Rio realmente cresceu muito depois do Maracanã. Futebol em Minas só depois do Mineirão. O humor só depois do Pasquim. Foi a primeira experiência de juntar todos, de tendências as mais diversas e às vezes opostas. Pessoas pensando de maneira oposta e o negócio deu certo.”

Não há duvida de que o caráter inovador e corajoso do Pasquim foi a chave para seu sucesso, numa época de ostensivo ataque à inteligência e à criatividade do país. Mas o jornal era, sobretudo, uma diversificada soma de opostos e complementares, que se valeu da ampla experiência pública de seus integrantes nos principais jornais e revistas do país (Millôr e Ziraldo, por exemplo, haviam se tornado nomes nacionais através das páginas de O Cruzeiro ainda nos anos 50). Ao ser perguntado pelo amigo Tárik de Souza se o sucesso estrondoso do Pasquim, que se concretiza e estabelece em 1970, deveu-se à ditadura militar, Henfil respondeu:

“Eu acho que não, porque foi um amadurecimento dessas pessoas todas. Veja um negócio: o Paulo Francis. Era um cara que vinha, caminhos os mais confusos, né? Esteve em teatro, crítica de teatro, passou para a política, até pegar um estilo na política muito pessoal de escrever. Millôr Fernandes vinha de uma série de experiências, mas uma coisa muito pessoal! Impossível de compartilhar com outros, era ele e ele. Com o amadurecimento dele, a tentativa quando fez a Pif-Paf já era uma coisa de trabalhar junto! Equivaleria, por exemplo, a você chegar para um cantor de muito sucesso e convencer a ele, o maior cantor do mundo, que ele tem que fazer parceria com outros, talvez até menores. O Millôr já estava se preparando para isso, tanto que ele tentou juntar gente através do Pif-Paf. E o Jaguar, que era um cara que tinha uma experiência da Última Hora, com um cartunzinho, tinha uma experiência na revista Senhor com uma coisa maior e etc. Ele veio amadurecendo e estava na hora do Jaguar, para fazer personagem, para fazer o Sig e aquela coisa toda. Ziraldo! A mesma coisa. Tinha uma experiência mais pulverizada. Fazia de tudo! De repente o Ziraldo começou a se politizar! De repente, não! A partir do governo JK, o Pererê, que era uma coisa para a área infantil, começou a se politizar. Fortuna e o Claudius cresceram, nos seus desenhos, na sua visão, naquela coisa toda. Eu, com experiência diária no Jornal dos Sports, uma série de coisas, estava pronto para aquilo. Então... Funcionou todo esse negócio com pessoas que não se entendiam. A única unanimidade era o Jaguar. Era um saco de gatos!”

Para o criador dos fradinhos, no surgimento e sucesso do Pasquim, “a ditadura teve um único papel: ajudar a inviabilizar nos jornais a linguagem pessoal dessas pessoas que acabamos de citar. Então eles tinham que fazer fora destes jornais!”. Para o próprio Henfil, o novo jornal surgiu como a oportunidade esperada para politizar mais seu trabalho, que ele sentia limitado nas charges sobre o futebol. Chamado a continuar com o humor esportivo no Pasquim, ele se recusou. Era a vez do fradinho Baixinho!

(O texto desta postagem faz parte de meu livro inédito A Revolução de Fradim, adaptado a partir de minha tese de Doutorado sobre o genial Henfil e sua revolucionária revista Fradim.)

10/01/2009

Qual é seu personagem dos quadrinhos favorito?


Nós, leitores de quadrinhos, costumamos ter personagens preferidos, que acompanhamos em revistas, álbuns, filmes, animações... É claro que os motivos para gostarmos deste ou daquele personagem são pessoais e às vezes nem mesmo sabemos os porquês. No meu caso, percebi que os personagens que hoje considero meus favoritos são ligados às obras das quais mais gosto (mas que não são necessariamente as melhores que já li, em termos artísticos).

Sempre tive a curiosidade de saber quais são os personagens favoritos de outros leitores, o que me motivou a escrever esta postagem. Assim, gostaria de contar com a participação dos leitores do Mais Quadrinhos. Abaixo, está a lista dos meus personagens favoritos (atualmente). Optei por uma lista com cinco nomes, mas a sua pode ter quantos nomes quiser (se possível na sua ordem de predileção). Na minha lista, também indiquei as obras específicas que me fazem gostar deles, mas se preferir pode fazer uma lista simples (só citando os nomes). Então vamos lá!

1. Monstro do Pântano (especialmente nas revistas Swamp Thing #21-27 e #34-36, produzidas por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben).

2. Marvelman / Miracleman (em tudo que Alan Moore escreveu para o personagem, com exceção de alguns capítulos pessimamente desenhados).

3. Batman (na maior parte dos episódios de Batman: The Animated Series de 1992-1993 e também na HQ Mad Love, criada por Paul Dini e Bruce Timm).

4. Pererê (na série produzida por Ziraldo entre 1960 e 1964).

5. Grauna (nas HQs que Henfil publicou na revista Fradim n°s 9 a 14).

Fico aguardando então os comentários com sua lista de personagens favoritos dos quadrinhos. Abraços!

30/01/2008

Um pouco da história dos quadrinhos brasileiros.


Nesta quarta-feira, comemorou-se o “Dia do Quadrinho Nacional”. Para marcar a data, republico aqui um texto em que faço um breve apanhado da trajetória dos quadrinhos em nosso país. A imagem que ilustra esta postagem é da série Nhô Quim de Angelo Agostini (e foi retirada da primeira edição da Phênix, revista da história dos quadrinhos, uma interessante iniciativa de pesquisa que, infelizmente, durou pouco).

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos autores, uma história dos quadrinhos no Brasil revelaria talentos de nível internacional e artistas que certamente figurariam entre os grandes nomes dessa arte. Começando com a série Nhô Quim, lançada em 30 de janeiro de 1869 pelo desenhista Angelo Agostini, a galeria das HQs brasileiras teria como um de seus marcos fundadores o surgimento, em 1905, da revista O Tico Tico, que trouxe colaborações do ilustrador J. Carlos e publicou a série infantil Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criada por Luíz Sá.

Também marcariam a memória dos leitores HQs como Garra Cinzenta de Francisco Armond e Renato Silva, publicada em 1937. Mas, como é comum na trajetória dos quadrinhos no Brasil, um início promissor foi seguido por um período de “vacas magras”, no qual passaram a predominar as tirinhas norte-americanas veiculadas por publicações infanto-juvenis. Somente na década de 1950 os quadrinhos brasileiros ganhariam de fato novo destaque (como na revista infantil Era uma vez...). Mas a mesma sociedade que se escandalizava com as peças de Nelson Rodrigues proibia e condenava à marginalidade os “catecismos” pornográficos (do hoje festejado) Carlos Zéfiro.

Em 1959, estreou uma das mais duradouras revistas em quadrinhos totalmente produzidas no Brasil: As Aventuras do Anjo, que projetaria nacionalmente o nome do desenhista Flavio Colin. Já neste primeiro trabalho (que adaptava para os quadrinhos um famoso seriado da Rádio Nacional), Colin apresentou seu traço sintético e a busca pela valorização da cultura e realidade brasileiras, que o tornariam um dos quadrinistas mais originais e reconhecidos do Brasil. Naquele mesmo ano, o Brasil ganharia seu primeiro super-herói: o Capitão 7, que seria seguido de vários outros, a começar por Raio Negro, personagem criado por Gedeone Malagola em 1965.

Certamente, porém, o espaço privilegiado para os quadrinistas brasileiros nos anos 60 foram as revistas de terror. Com o desaparecimento das publicações desse gênero nos Estados Unidos, algumas editoras brasileiras (como a renomada Outubro) passaram a investir em produções locais. Nas páginas daquelas revistas, surgiram ou consagraram-se nomes como Jayme Cortez e Eugenio Colonnese, além do mestre Julio Shimamoto responsável por HQs antológicas como “Os Fantasmas do Rincão Maldito”. A saga dos quadrinhos de terror brasileiros ainda geraria muitos frutos, semeando publicações regulares até os anos 80.

Mas voltando aos anos 60, a influência modernista e o nacionalismo da Era JK tomaram conta da sociedade, refletindo-se nas páginas de uma das mais autênticas experiências dos quadrinhos brasileiros: a revista Pererê, criada por Ziraldo (e publicada em cores mensalmente pela editora de O Cruzeiro entre 1960 e 1964). Na mesma época, também começava a projetar-se (através das tirinhas do personagem Bidu e das primeiras HQs da futura Turma da Mônica) o desenhista Maurício de Sousa, que se tornaria o mais bem-sucedido empresário dos quadrinhos no Brasil.

Nos anos de repressão e censura da Ditadura Militar, surgiu uma incrível força de resistência. Para surpresa de muitos (que consideravam os quadrinhos apenas “uma inocente distração”), jornais como O Pasquim lançaram uma nova geração de desenhistas contestadores, encabeçada por Henfil (que com suas HQs dos Fradins e da Grauna provou que os quadrinhos podem tratar de questões sociais sem deixar de lado a arte). Na mesma linha, surgiriam novos talentos do cartum, como Nilson, Lor, Edgar Vasques e muitos outros. Numa seara bem diversa, trabalhando a partir da estética do cordel e da xilogravura, Jô Oliveira chegou da Hungria com seu original e marcante A Guerra do Reino Divino. E o Nordeste ainda nos daria outros batalhadores, como os autores-editores Antônio Cedraz e Henrique Magalhães, entre tantos outros.

Uma nova explosão dos quadrinhos brasileiros aconteceria nos anos 70, através da imprensa alternativa e de publicações independentes que privilegiavam os estilos pessoais e a cultura latino-americana (como Versus, Bicho e Risco). Já outras incorporavam influências das HQs de futurismo e fantasia de publicações como Métal Hurlant e Heavy Metal, sendo Mozart Couto e Watson Portela dois importantes destaques dessa corrente. Outra vertente na época seguia a linha do quadrinho underground norte-americano e francês, quando Angeli, Laerte e Glauco conquistaram legiões de fãs que hoje prestigiam as coletâneas de seus trabalhos. Mas, em termos artísticos, poucos alcançaram tanto quanto Luiz Gê (que nas páginas da Circo apresentava trabalhos que nada deixam a dever ao melhor quadrinho de autor europeu).

Nos anos 80, aconteceu uma nova retração no mercado de quadrinhos, amenizada por experiências esporádicas de pequenas editoras e pela iniciativa dos autores. O fanzineiro Marcatti e o desenhista Lacarmélio (conhecido pelo nome do personagem Celton) são representantes célebres da geração que montou suas gráficas e editoras caseiras de onde saíram os fanzines e revistas independentes que (em mimeógrafo, xérox ou tipografia) continuaram a trajetória dos quadrinhos brasileiros. Se os anos 90 começaram com outra crise econômica que inibiu ainda mais a produção de HQs, a relativa estabilidade de meados da década e as facilidades editoriais trazidas pela computação deram um novo alento aos quadrinhos brasileiros. O resultado imediato foi o surgimento de inúmeras revistas e grupos de desenhistas por todo o país, além de álbuns e coletâneas com os trabalhos de autores originais, como Ofeliano, Lourenço Mutarelli, Fernando Gonsales, Marcelo Lelis, Fábio Zimbres e muitos outros que poderíamos citar aqui.

Nos últimos anos, embora tenha havido um maior interesse por parte dos editores, a situação mercadológica dos quadrinhos brasileiros não melhorou. Em outras palavras, o mercado brasileiro de quadrinhos continua não pertencendo prioritariamente (como deveria ser) aos autores brasileiros. A despeito disso, vários jovens talentos têm surgido, através de edições independentes e também organizando-se em grupos (como o recém-lançado
Coletivo Quarto Mundo). E isso sem falar na Internet, espaço cada vez mais ocupado por nossos quadrinhos, como comprovou a longa relação de saites e blogs divulgada pelo jornalista Paulo Ramos. Por tudo isso (e por ainda mais que ficou de fora deste breve apanhado), só me resta dizer: viva o quadrinho brasileiro!

04/01/2008

A revolução de Fradim.



Hoje completam vinte anos da morte de Henrique de Souza Filho, o Henfil. Dono de um traço originalíssimo, esse mineiro nascido em Ribeirão das Neves foi um dos mais importantes cartunistas brasileiros de todos os tempos. Humorista genial, Henfil criou personagens marcantes (como os Fradins e a Grauna), além de escrever livros e textos para jornais e revistas (como a série Cartas da Mãe) e produzir crônicas e quadros para tevê (como o TV Homem). Entre suas criações mais importantes está a revista Fradim, lançada entre 1973 e 1980 pela Codecri (editora ligada ao jornal alternativo Pasquim). Lançada em plena Ditadura Militar, a revista revolucionou os quadrinhos brasileiros, com a coragem e a expressão inegável de um riso que liberta (tema de minha tese de doutorado e título de um dos livros que lancei pela Marca de Fantasia).

Surgidos em julho de 1964 na revista mineira Alterosa, os Fradinhos Baixinho e Cumprido eram, a princípio, uma dupla de silenciosos desordeiros, desenhados num traço ainda amador. Com o cancelamento da revista, Henfil transferiu-se para jornais de Belo Horizonte, nos quais aprimorou seu desenho e aprofundou seu senso crítico, além de produzir charges sobre os times de futebol da capital mineira. E foram as charges futebolísticas que garantiram ao jovem cartunista um convite para se transferir para a matriz do Jornal dos Sports, no Rio de Janeiro. No novo emprego, Henfil alcançou projeção nacional ao criar novas mascotes para os times de futebol cariocas (como o popularíssimo Urubu do Flamengo). Conseguindo uma incrível identificação com o público, o desenhista foi convidado a fazer charges futebolísticas para o Pasquim, que reuniria nomes como Ziraldo, Jaguar e Millôr. Contudo, Henfil tinha outros planos para o jornal; planos chamados “Fradinhos”.

Sob o clima asfixiante do recém-decretado AI-5 (que limitou as liberdades civis e ampliou os poderes da Ditadura), o contestador Pasquim chegou como uma válvula de escape e uma resposta da criatividade frente à opressão. Nesse processo, o papel de Baixinho e Cumprido seria fundamental: começando num tímido quarto de página, em quatro meses eles já tinham conquistado a contracapa do jornal, de onde avançaram para as páginas centrais (evidenciando a enorme repercussão junto aos leitores). Quando perguntado sobre o efeito causado por seus personagens, Henfil refletiu: “Olha, o Fradinho foi catártico! As pessoas estavam arrasadas com a Ditadura, né? Porque ela começou muito branda em 64, 65, quer dizer, em 68 é que a Ditadura se instalou no Brasil para valer. E as pessoas estavam arrasadas. Então vinha um personagem que vinha voando a dez mil enquanto a realidade estava voando a cem metros e derrubando latas de lixo” (Como se faz humor político, p.36).

O que Henfil chamou de “catártico” corresponde à identificação dos leitores com o sádico Baixinho. Numa época de cala-bocas e policiamentos, o incontrolável Fradinho chegava contestando a “moral e os bons costumes”, rebaixando tudo a um nível visceralmente humano (pois não era nada comum ver um personagem de quadrinhos arrotando, fazendo xixi ou apontando o dedo para as injustiças sociais). E tudo feito num estilo incrivelmente original, um desenho vivo chamado por Henfil de “traço caligráfico”. Consolidando-se na preferência dos leitores do Pasquim e no imaginário social da época (“TOP! TOP!”), Baixinho e Cumprido ganharam, em abril de 1971, o Almanaque Fradinhos 1. Totalizando 68 páginas em formato tablóide gigante, a publicação reproduzia a origem na Alterosa e alguns lances dos primeiros anos de Baixinho e Cumprido, culminando nos eventos de sua morte e ressurreição (pois em dado momento Henfil se assustou com a identificação dos leitores com o sadismo do Baixinho e decidiu “matar” os personagens, para poder retomar o controle sobre eles).

O sucesso do Almanaque motivou Henfil a investir numa publicação seriada, lançando em setembro de 1973 a Fradim n°2 (70 mil exemplares e tamanho 27cm x 18cm). Com 32 páginas em papel-jornal e formato vertical, a edição trazia histórias inéditas do Baixim e Cumprido, além de reedições das HQs da Turma da Caatinga, com Grauna, Zeferino e Bode Orelana (publicadas no Jornal do Brasil). Após as cinco primeiras edições, a revista foi temporariamente suspensa, voltando a ser publicada em março de 1976, dessa vez num formato horizontal. Com 48 páginas em papel de melhor qualidade, a nova Fradim trazia as HQs do Baixim e da Grauna, sendo completada em edições seguintes por charges (em que Henfil abordava os problemas do Brasil da época), as seções “Cartas de um Subdesenvolvido” (com sua correspondência nos anos em que viveu nos Estados Unidos) e “Fala Leitor!” (com os comentários e opiniões do público), além de anúncios dos jornais em que o cartunista colaborava (desenhados por ele ou comentados por seus personagens). Produzida numa época de contestação política e cultural, a revista Fradim era o produto quase artesanal de uma personalidade incrivelmente criativa.

No fim dos anos 70, a Fradim foi publicada sem periodicidade definida (às vezes com mais de um ano separando uma edição, da seguinte), chegando ao fim no número 31, em dezembro de 1980. Tendo influenciado e inspirado várias outras publicações alternativas, a Fradim era uma revista singular: produto da indústria cultural e obra quase artesanal; série em quadrinhos com ótima vendagem e publicação que fugia aos padrões mercadológicos; desenho que apelava à emoção e instrumento de um projeto de conscientização; uma obra-prima dos quadrinhos produzida por um autor que aspirava ser “a mão do povo que desenha” (como revelou à Versus Edição Especial Quadrinhos no auge de sua popularidade, em 1976). De fato, Henfil foi o cartunista brasileiro mais influente dos anos 70, enquanto sua obra transcendia as páginas das publicações e os limites tradicionais do humorismo (tendo importante papel nas campanhas pela Anistia e pelas Diretas Já). Assim como seus irmãos Betinho e Chico Mário, Henfil era hemofílico e contraiu o vírus da AIDS numa transfusão de sangue nos anos 80. Vindo a falecer em 4 de janeiro de 1988, antes de completar 44 anos, “o filho da Dona Maria” deixou uma obra genial e intensamente humana. O testemunho de uma vida e de uma época; a expressão viva de um riso que liberta.

Texto baseado em meu livro inédito A revolução de Fradim.