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27/07/2008

Conrad lança o quarto volume da coleção Calvin e Haroldo.


Está chegando às livrarias o quarto volume da coleção completa de Calvin e Haroldo, lançada pela Conrad em seu formato original. Com o humor sensível e os personagens carismáticos criados por Bill Watterson, Yukon Ho! havia sido publicado no Brasil pela Cedibra há quase vinte anos (com o título Yukon, Hei!), ganhando agora uma nova tradução e uma qualidade de impressão superior.

A premiada série Calvin e Haroldo foi lançada em 18 de novembro de 1985 e encerrada em 31 de dezembro de 1995, sendo considerada por alguns a melhor tira cômica já produzida. Apresentando-nos o impagável Calvin (um hiperativo menino de seis anos) e seu inseparável amigo Haroldo (um tigre de pelúcia com muita “personalidade”), a tira traz uma galeria de coadjuvantes que inclui os pais do garoto, sua babá, professora e coleguinhas de escola. Invariavelmente, todos acabam vistos e julgados pela ótica implacável de Calvin, quando não são vítimas de sua fértil e incontida imaginação. Este, aliás, é o elemento que fez da série uma obra-prima dos quadrinhos: as fantasias e a lógica de uma criança apresentadas de forma autêntica.

As viagens imaginárias e os delírios infantis de Calvin são, é claro, um dos principais ingredientes de Yukon Ho!. Um camaleão, uma lesma, uma baleia e um tiranossauro rex são alguns dos bichinhos nos quais o menino se imagina transfigurado. Mas há também um “raio x ambulante”, o super-herói “Homem-Estupendo” e o “Todo-Poderoso Calvin”, sem falar no ótimo “Astronauta Spiff”. Ao final do livro, temos ainda uma longa sequência em que ele e Haroldo se enfrentam num duelo de transfiguração (que parece ter sido inspirado na disputa entre o Mago Merlin e a Madame Min, do desenho da Disney A espada era a lei). Em outros momentos, a imaginação de Calvin se direciona às pessoas à volta (mãe, pediatra, professora) e são elas que aparecem transfiguradas em monstros gosmentos ou alienígenas asquerosos.

Aprofundando a relação entre Calvin e Haroldo, o livro dá espaço a ótimos momentos com os pais do menino e até mesmo a uma sequência com um tio Max (personagem secundário que Watterson considerou, mais tarde, não ter sido uma boa idéia). Algumas das melhores tiras e HQs reunidas em Yukon Ho! são aquelas em que aparece a coleguinha de sala Susie, geralmente em situações envolvendo bolas de neve, tarefas escolares ou as diferenças entre meninos e meninas. O que essas variadas interações de personagens acabam evidenciando é o elemento que tornou Calvin e Haroldo um quadrinho tão significativo e permanente; ou seja, a capacidade de captar, com humor e sensibilidade, elementos da condição humana. E tudo representado num traço expressivo, dinâmico e cativante.

Yukon Ho! abre com “A Canção de Yukon” (uma espécie de hino a Passárgada na versão Calvin), avançando por páginas e mais páginas de elogios às férias de verão, substituídos mais tarde pela espera da neve e do Papai Noel (cuja existência é brilhantemente questionada). Mas há ainda espaço para temas mais sérios, como o efeito estufa, o lixo tóxico e as armas nucleares, que ecoam preocupações ambientais muito presentes hoje. No geral, a tradução da Conrad é bastante competente, embora cometa um excesso de liberdade na página em que Haroldo diz: “Não desista dos relógios, Santos Dumont”. Não conheço o texto original em inglês, mas nele certamente o cartunista norte-americano não fez uma referência ao brasileiro que inventou o avião (o que se lê na versão da Cedibra é: “Não venda sua fábrica de cera, Ícaro”).

Yukon Ho! tem 128 páginas, formato 21,5cm x 22,5cm e capa cartonada, chegando às livrarias ao preço de R$29,90 e à venda em preço promocional na loja da editora. Imperdível para os fãs de Calvin e Haroldo, o livro é também perfeito para quem ainda não conhece essa memorável série de tiras e HQs.

12/04/2008

Ótimo humor no novo volume de Calvin & Haroldo.


As tiras de jornal já forneceram vários clássicos aos quadrinhos, como Peanuts de Charles Schulz ou Mafalda de Quino. Um exemplo mais recente é a ótima série Calvin & Haroldo do cartunista norte-americano Bill Watterson. Dando continuidade ao projeto de publicar a coleção completa das histórias do incontrolável menino e seu espirituoso amigo felino, a Conrad acaba de lançar Tem alguma coisa babando embaixo da cama. Com 120 páginas de tiras e historinhas dominicais, o livro tem formato 21,5cm x 22,5cm e preço de R$29,90, podendo ser comprado com desconto na loja da editora.

Para quem ainda não conhece a tira, Calvin & Haroldo foi lançada em novembro de 1985 e encerrada em dezembro de 1995, sendo considerada por alguns a melhor tirinha cômica já produzida. Apresentando-nos o impagável Calvin, um hiperativo menino de seis anos, e seu inseparável amigo Haroldo, um tigre de pelúcia com muita “personalidade”, a série traz uma galeria de coadjuvantes que inclui os pais do garoto, sua babá, professora e coleguinhas de escola. Invariavelmente, todos acabam vistos e julgados pela ótica implacável de Calvin, quando não são vítimas de sua fértil e incontida imaginação. Este, aliás, é o elemento que fez da tirinha uma obra-prima dos quadrinhos: as fantasias e a lógica de uma criança apresentadas de forma autêntica.

Terceiro volume da coleção da Conrad, Tem alguma coisa babando embaixo da cama traz a essência do quê fez de Calvin & Haroldo um sucesso internacional. Apesar de várias referências à cultura e ambiente norte-americanos, o livro consegue transpor fronteiras ao retratar de forma lúdica e sem moralismos o universo infantil e alguns temas universais. Se o humor inteligente é presença constante, os desenhos expressivos e cativantes de Watterson garantem uma comunicação intensa com o leitor, conciliando os aspectos intelectuais e emocionais. Com isso, o humor puro e simples divide espaço com reflexões existenciais, ambos manifestando-se ora nos diálogos e situações narrativas, ora no traço cartunístico do autor.

A edição abre com a historinha que lhe dá título, na verdade uma situação menor que volta a aparecer posteriormente, envolvendo o medo do “monstro embaixo da cama”. Mas, em meio a panquecas, tacos de beisebol e muita neve, Tem alguma coisa babando embaixo da cama reserva para o leitor vários clássicos de Calvin e alguns momentos tocantes. As brigas com a amiguinha Susie, as situações desaforadas envolvendo seus pais, o companheirismo e as disputas com Haroldo, além de sua imaginação para lá de fértil, são os principais temas do volume. Destacam-se as páginas dominicais do Astronauta Spiff e a célebre, e muito pirateada, página em que Calvin e Haroldo dançam animadamente, com o som a toda altura em plena madrugada. Outro momento marcante, e emocionante, é a sequência de tiras sobre um esquilinho ferido, que serve de pretexto para uma reflexão acerca do sentido da vida e da morte.

Calvin & Haroldo surgiu nos Estados Unidos num momento em que os quadrinhos autorais se afirmavam e produziam uma fase de altíssimo nível qualitativo, identificada como a revolução das graphic novels. Artista que se recusou a permitir que sua obra fosse banalizada em camisetas, brinquedos e outras bugigangas, após dez anos de produção, Bill Watterson soube o momento de interromper a trajetória de sua tira. Para os milhões de fãs em todo o mundo, Calvin & Haroldo realmente deixaram saudades. Mas, para os antigos ou os novos leitores, essa coleção completa é uma boa oportunidade para rever ou conhecer esse verdadeiro clássico dos quadrinhos.

18/12/2007

Alguns dinossauros dos quadrinhos.


Muito populares entre crianças e adolescentes, os dinossauros são antigos frequentadores dos quadrinhos. Em suas aventuras, Tarzan geralmente enfrentava leões, gorilas ou nativos africanos; porém, em algumas HQs, ele se deparou com ferozes tiranossauros. Essas feras saídas do passado habitavam Pal-ul-don, uma terra escondida no coração da África, na qual os dinossauros sobreviveram até os tempos modernos. Mesmo valendo-se apenas de sua destreza e de armas rudimentares, é claro que o homem-macaco sempre conseguia domar ou vencer esses fantásticos animais.

Flash Gordon, outro herói clássico dos quadrinhos de jornais dos anos 30, também teve que encarar criaturas baseadas nos monstros pré-históricos. Em suas aventuras no planeta Mongo, o herói criado pelo desenhista Alex Raymond lutava contra gigantescos lagartos inspirados em estegossauros ou brontossauros. E apesar de ter acesso à tecnologia futurista (como armas de energia), às vezes Flash Gordon acabava também enfrentando os enormes monstrengos apenas com sua coragem e força física.

Mas foi com as aventuras de Brucutu que os quadrinhos mergulharam de vez no mundo dos dinossauros. O personagem é um habitante do Reino de Mu, uma terra em que homens das cavernas e dinossauros coexistiam (algo que, na realidade, jamais aconteceu, pois milhões de anos separam a extinção dos dinossauros e o surgimento dos humanos). Lançado em 1933, Brucutu foi criado pelo desenhista V.T. Hamlin, que imaginou o Reino de Mu após encontrar fósseis de dinossauros em um campo de petróleo no Texas.

Nos anos 50 e 60, criaturas vindas do espaço sideral ou criadas a partir de acidentes científicos tornaram-se comuns no cinema e nos quadrinhos. Algumas delas não passavam na verdade de versões modernizadas ou estilizadas dos dinossauros então conhecidos. Nessa onda, os quadrinistas Jack Kirby, Steve Ditko e Stan Lee fizeram sucesso com suas HQs de ficção científica da chamada “Era dos Monstros Marvel” (cujo sucesso lançou as bases para o universo de super-heróis que surgiria em 1961).

Do outro lado do mundo, os filmes de Godzilla e as HQs de Astroboy (personagem criado pelo mestre Osamu Tezuka) deram origem à linhagem de monstros que tornou-se a marca registrada dos desenhos, seriados e quadrinhos japoneses. No Ocidente, foi na passagem para os anos 70 que os clássicos dinossauros disseminaram-se de vez. Tiranossauros, estegossauros, brontossauros ou pteranodontes tornaram-se as estrelas de filmes, desenhos e revistas, em que contracenavam com homens das cavernas ou aventureiros modernos.

A Terra Selvagem das aventuras de Kazar e o desenho O Vale dos Dinossauros lembram muito a terra de Pal-ul-don das HQs de Tarzan, que por sua vez é baseada no Mundo Perdido da literatura de Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes). Na mesma época, os trabalhos de desenhistas como Joe Kubert (Tor), Steban Maroto (Wolff), Moebius (Arzach) e Richard Corben (Den) mostraram realidades fantásticas, em que bárbaros e exuberantes mulheres convivem com monstros baseados nos dinossauros (neste sentido, estes mundos fantásticos seriam uma versão heavy metal do Reino de Mu).

As feras pré-históricas fazem parte da cultura contemporânea, e nos últimos anos inspiraram interessantes HQs. Aparecendo como monstros ameaçadores ou amigos cordiais, os dinossauros povoam nosso imaginário e têm um apelo especial junto ao público infanto-juvenil. Partindo desta idéia, o cartunista Bill Watterson criou sequências inusitadas nas tirinhas de Calvin e Haroldo. Assim, a visita a um museu de História Natural, uma fantasiosa viagem ao tempo dos dinossauros ou imaginar-se transformado em um tiranossauro rex são algumas das situações vividas pelo incontrolável Calvin.

A série Love and Rockets, estrelada pelo grupo de apaixonantes heróinas criadas pelos irmãos Hernandez, misturou questões cotidianas com a temática de HQs de super-heróis e ficção científica. Em uma das histórias, lançada em 1983, a mecânica de foguetes Maggie viaja para Pellucidar, uma floresta habitada por tiranossauros, braquiossauros e brontossauros (outro Mundo Perdido!). Nesta história, as sensuais personagens dos irmãos Hernandez são as protagonistas e os dinossauros aparecem como coadjuvantes (um deles acaba até se apaixonando por uma das integrantes da expedição!).

Em 1994, foi lançado por uma pequena editora norte-americana a revista Tyrant, escrita e ilustrada por Steve Bissette (desenhista de Monstro do Pântano, que já entrevistei para este blog). Publicada em preto e branco, a série narrava a vida de uma tiranossauro rex, colocando em primeiro plano a luta pela sobrevivência nas florestas do período Cretáceo. Em Tyrant, Bissette mostra toda sua expressividade artística e habilidade técnica, criando um ambiente em que plantas, dinossauros, insetos e as primeiras aves e mamíferos interagem formando um verdadeiro ciclo vital.

Os quadrinhos brasileiros também têm seus representantes do mundo jurássico. Nosso dinossauro mais famoso é sem dúvida o Horácio, personagem cartunístico criado por Maurício de Sousa. Vivendo em uma paisagem composta por vulcões e escassa vegetação, Horácio é um pequeno tiranossauro verde, que geralmente aparece envolvido em reflexões existenciais. Nas revistas da Turma da Mônica surgiu ainda Piteco, um homem das cavernas que enfrenta problemas cotidianos e dramas pessoais bastante modernos.

Nos anos 70, a influência das HQs de ficção científica e fantasia norte-americanas e européias, bem como as influências dos desenhos animados e quadrinhos japoneses, originaram algumas versões nacionais de monstros pré-históricos. O desenhista Watson Portela foi um dos principais representantes dessa fase. Um pouco mais recentemente, o quadrinista Ofeliano deu vida ao Leão Negro, um bárbaro com feições de felino que viajava sobre um réptil voador (seguindo o exemplo de Tarzan e Arzach).

17/12/2007

Livro reúne as primeiras tiras de Calvin e Haroldo.


Nesta semana que antecede o Natal, ruas e lojas estão lotadas de pessoas engajadas na maratona da escolha e compra de presentes. E se você ainda não conseguiu encontrar o presente ideal para uma pessoa querida, uma boa opção pode ser o livro Calvin e Haroldo - E foi assim que tudo começou. Lançado recentemente pela Conrad, o volume traz as primeiras tiras e páginas da saudosa série criada por Bill Watterson, no formato 21,5cm x 22,5cm, com 128 páginas e preço de R$29,90, podendo ser comprado com desconto na loja da editora.

Tirinhas envolvendo personagens infantis são um lugar-comum na longa trajetória dos quadrinhos. Podemos dizer que os pontos altos dessa tradição são as séries Peanuts de Charles Schulz e Mafalda de Quino. Enquanto na primeira Charlie Brown e sua turma servem de pretexto para o cartunista norte-americano discutir questões existências e a psicologia humana, na outra o cartunista argentino utiliza a intelectualizada protagonista e seus amiguinhos para apresentar questões sociais e também existenciais. Os dois trabalhos tornaram-se clássicos dos quadrinhos e leituras obrigatórias para os amantes dessa arte. A eles se somou, nos anos 80, a série Calvin and Hobbes de Bill Watterson, que inovou na representação do universo infantil.

Lançada em novembro de 1985 e encerrada em dezembro de 1995, Calvin e Haroldo é considerada por alguns a melhor tirinha cômica já produzida. Apresentando-nos o impagável Calvin, um hiperativo menino de seis anos, e seu inseparável amigo Haroldo, um tigre de pelúcia com muita “personalidade”, a série traz uma galeria de coadjuvantes que inclui os pais do garoto, sua babá, professora e coleguinhas de escola. Invariavelmente, todos acabam vistos e julgados pela ótica implacável de Calvin, quando não são vítimas de sua fértil e incontrolável imaginação. Este, aliás, é o elemento que fez da tirinha uma obra-prima dos quadrinhos: as fantasias e a lógica de uma criança são apresentadas de forma incrivelmente autêntica.

Colecionando algumas centenas de tiras e páginas dominicais, E foi assim que tudo começou é publicado no formato e características de sua edição original, lançada há dez anos nos Estados Unidos. O livro é o segundo editado pela Conrad em seu projeto de relançar toda a série no Brasil, no ritmo de dois volumes por ano. Como o subtítulo indica, essa nova edição reúne o começo do trabalho de Bill Watterson, que parte da apresentação do elenco da tira, passando ao estabelecimento das personalidades e interações entre os diversos personagens. Sendo uma obra em construção, alguns pontos destoam da qualidade geral. Por exemplo, a solução visual no fim de algumas tiras deixa um pouco a desejar, e em um ou dois momentos as falas de Calvin parecem um tanto inverossímeis. No todo, porém, o livro é o “velho e bom” Calvin e Haroldo, com os dinâmicos desenhos, a narrativa eficiente e o humor inteligente e caloroso.

Se por si sós os desenhos já valeriam a leitura, sobram motivos quando nos deliciamos com as acaloradas discussões dos protagonistas, ou nos sentimos tocados por suas reflexões sobre o sentido da vida. Em outros momentos, são os desabafos dos pais de Calvin ou as broncas de sua amiguinha Susie. Muitas vezes a imaginação toma conta e somos envolvidos pelos devaneios de um faminto tiranossauro ou pelas aventuras do sempre dramático e encrencado Astronauta Spiff. Certamente os fãs da série reencontrarão no livro alguns momentos favoritos e muitas imagens inesquecíveis. Para este leitor, nada se compara à emocionante tirinha em que Calvin entra em casa gritando desesperado que um “cachorrão” tinha roubado o Haroldo; no quadro seguinte, agarrado à perna de sua mãe seu rosto traz a expressão do desolado desespero de alguém que acabara de perder seu “melhor amigo”.

Calvin and Hobbes surgiu nos Estados Unidos num momento em que os quadrinhos autorais se afirmavam e produziam uma fase de altíssimo nível qualitativo e grande reconhecimento social. Artista que se recusa a permitir que sua obra seja banalizada em camisetas, canecas e outras bugigangas, após dez anos de produção, Bill Watterson soube o momento de interromper a trajetória da tira. Para os milhões de fãs em todo o mundo, Calvin e Haroldo realmente deixaram saudades. Mas temos, é claro, a compensação de podermos reencontrar esses velhos amigos nas várias coletâneas e reedições de seus quadrinhos. Para quem ainda não conhece a série, este lançamento pode ser um ótimo ponto de partida e um bom pedido para o Papai Noel!