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13/07/2008

A “ficção sombria” de Cthulhu.


Diferente do que ocorre no Brasil, pequenas e médias editoras da Espanha investem prioritariamente em quadrinhos de autores nacionais, podendo também lançar produtos estrangeiros. Este é o caso da Diábolo Ediciones que, entre outros lançamentos de quadrinistas espanhóis, publica a antologia de terror Cthulhu. Tive a oportunidade de "intercambiar" alguns de meus quadrinhos pelas duas primeiras edições da revista, que podem ser melhor definidas como pequenos álbuns temáticos reunindo vários autores, HQs, textos e histórias ilustradas.

Coordenada por Lorenzo Pascual e Pilar Lumbreras, Cthulhu tem ótima produção gráfica, com capa plastificada e impressão em papel couché, trazendo 64 páginas de miolo em seu primeiro número e 80 no segundo. O título, é claro, refere-se à monstruosa quimera de polvo e dragão idealizada pelo escritor norte-americano H. P. Lovecraft. Alguns dos trabalhos do primeiro número são diretamente adaptados ou parcialmente inspirados em contos e poemas do autor de “A cor que veio do espaço” e “O chamado de Cthulhu”, não faltando sequer uma página da série El Joven Lovecraft (algo como Calvin feito em Expressionismo Alemão). Já a segunda edição, dedicada a histórias de fantasmas, presta um tributo ao escritor britânico M. R. James, com a adaptação de seus contos e incluindo um artigo sobre as “ghost stories” da Era Vitoriana.

À primeira vista, além da qualidade de impressão, salta aos olhos a diversidade de estilos e técnicas empregados em Cthulhu. De um traço mais fotográfico com meios-tons em computação gráfica, passando por páginas coloridas também em computação, até chegar ao mais puro contraste entre preto & branco, a publicação espanhola consegue manter uma unidade na soma das diferenças. Esta unidade vem da temática comum às histórias de terror, que os autores optam por classificar como “ficção sombria”. Há, é claro, uma variação na qualidade artística e mesmo na capacidade técnica dos autores reunidos. Mas é notável que, mesmo nas HQs mais fracas, há algo de interessante (quer seja uma idéia original, quer seja um desenho inspirado). Isto pode ser atribuído ao próprio fundamento da Cthulhu, que é o de ser uma publicação autoral.

As melhores HQs das duas primeiras edições são as assinadas por Pepe Avilés. Em “Oscuridad”, uma expedição de barco que poderia ter feito parte do filme Tubarão acaba mal quando cruza caminho com uma misteriosa criatura das profundezas. Com boa narrativa visual, que se vale de silêncios e contrastes, o autor consegue construir a tensão, envolvendo o leitor até o arrebatamento final. Já o visual em si conta com desenhos eficientes, alternando contrastes em P&B e meios-tons (a título de comparação, o traço lembra muito o estilo de Dave Gibbons em seus melhores momentos). Fechando a segunda edição, “La Advertencia” apresenta uma técnica ainda mais elaborada, com uma narrativa visual impecável, numa história de fantasmas que, no fim, escapa aos lugares-comuns do gênero. Por tudo isso, Avilés é um autor que vale a pena ser conhecido.

Talvez, porém, o mais surpreendente em Cthulhu n°s 1 e 2 não seja uma de suas HQs, e sim as histórias ilustradas criadas pelo escritor Raule e pela ilustradora Meritxell Ribas. Em “Viaje al Más Allí”, uma menina persegue a misteriosa dama que conduz seu irmão “até o umbral onde tudo termina”. Com textos curtos de quatro versos rimados (quadrinhas), a história de cinco páginas impressiona pelas elaboradas ilustrações (que parecem saídas das melhores animações de Tim Burton, como Vincent ou O Estranho Mundo de Jack). Melhor ainda é a bela, arquetípica e horripilante “En lo profundo del bosque”, com seu texto rimado e preciso, suas ilustrações sombrias e envolventes. Uma vez que as editoras brasileiras interessam-se mais por autores estrangeiros, a bela obra produzida pela dupla Raule e Meritxell seria uma ótima opção.

Em princípio, Cthulhu terá edições semestrais, dependendo da resposta dos leitores. Com seus dois primeiros números, a revista prova que mesmo uma iniciativa modesta pode fazer diferença num mercado dominado por quadrinhos comerciais. O resultado é que todos saem ganhando. A editora, por ter produtos originais e interessantes para vender. Os autores, por terem seus trabalhos publicados. Os leitores, por terem mais opções de quadrinhos para ler. E a arte dos quadrinhos que ganha em nuances, linguagens e olhares regionais ou pessoais, que se sobressaem na produção massificada predominante. Certamente, um exemplo que deveria ser seguido por mais editores mundo afora!

22/04/2008

Planetary / Authority celebra o “estilo Warren Ellis”.


Nos últimos dez anos, Warren Ellis tornou-se um nome de destaque nos quadrinhos norte-americanos. Para os fãs do roteirista inglês, a Pixel trouxe este mês um lançamento especial: Planetary / Authority - Dominando o Mundo. Com desenhos de Phil Jimenez, arte-final de Andy Lanning e cores de Laura DePuy, a edição traz o encontro dos dois principais grupos de super-heróis da linha Wildstorm. Uma trama envolvendo universos paralelos e invasores extradimensionais é o motivo central dessa HQ bem ao "estilo Warren Ellis”.

Logo na primeira página de Dominando o Mundo, o leitor é literalmente jogado no meio da trama, na qual um polvo gigante cósmico e suas crias trazem devastação e morte a uma cidade costeira dos Estados Unidos. Como era de se esperar, os membros do Authority fazem sua bombástica intervenção para deter a ameaça. O que Jenny Sparks e seus comandados não sabem é que a ativação do monstro teve relação direta com os membros de Planetary. Para completar, Elijah, Jakita e Baterista passam a agir à margem, aproveitando a oportunidade para tentar saber mais sobre o outro grupo de heróis. Num segundo momento, a história dessa edição especial faz referência e se devolve a partir de acontecimentos nas séries regulares Authority e Planetary.

A verdade é que Dominando o Mundo tem os elementos mais característicos das HQs assinadas por Ellis. Primeiro, uma trama superestrutural envolvendo algum mistério ou ameaça que justifique a atuação dos protagonistas. Segundo, doses generosas de ação violenta, com direito a mutilações e carnificina. Terceiro, uma estética narrativa “pós-modernista”, na qual componentes intertextuais ou mesmo metalinguísticos são explicitados propositalmente. Por fim, um visual idealizado, com personagens e cenários desenhados detalhadamente e finalizados com técnicas que buscam uma aproximação com efeitos visuais do cinema. Com tudo isso, Planetary / Authority certamente agradará aos fãs dos dois grupos de super-heróis.

Contudo, se levarmos em consideração elementos técnicos e artísticos, a revista acaba deixando a desejar. Em primeiro lugar, o roteiro de Warren Ellis é um tanto fragmentado, trazendo várias elipses e passagens meio bruscas. Especialmente as sequências em flashback poderiam ter sido mais bem aproveitadas. A história traz inclusive uma participação velada do escritor norte-americano H.P. Lovecraft que, no entanto, além de servir de ponte contextual e ser insultado por Elijah Snow, não faz muito no fim. Quanto ao visual, a fórmula Wildstorm funciona novamente, embora o desenhista Phil Jimenez e seus auxiliares sejam um tanto irregulares, variando muito na qualidade ao longo da revista. Quanto à edição, a Pixel fez mais uma vez um ótimo trabalho, exceto talvez por dois balões de fala trocados numa das primeiras páginas.

Mas nada disso certamente atrapalhará a diversão dos fãs de Warren Ellis, que acompanham as HQs finais dos “arqueólogos do impossível” nas páginas da Pixel Magazine. A nova revista especial é a terceira de uma série lançada no Brasil em formato estendido, que começou com Planetary / Batman - Noite na Terra e teve recentemente Planetary / Liga da Justiça - Terra Oculta. E para aqueles que ainda não compraram a nova edição,
Planetary / Authority - Dominando o Mundo tem 48 páginas em formato magazine, 20cm x 29cm, sendo vendida ao preço de R$11,90.