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10/12/2009

Um “especial de Natal” com John Constantine.


Uma criação do inglês Alan Moore, o mago John Constantine estreou nas páginas da revista Swamp Thing para logo ganhar uma revista própria, escrita pelo também inglês Jamie Delano. Tornando-se uma das bases do selo Vertigo, a revista Hellblazer conquistou fãs fiéis, tornando-se a publicação mensal mais duradoura da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. No fim de 2008, somando quase onze anos de publicação, em seu n°250 a série ganhou uma edição especial de Natal, com cinco HQs curtas produzidas por diferentes autores. Não tive oportunidade de lê-la na época, mas finalmente consegui um exemplar dessa interessante antologia, cuja leitura divido com vocês agora. E como era de se esperar, embora seja um “especial de Natal” ou “Fim-de-Ano”, em se tratando de uma revista com John Constantine, não poderiam faltar palavrões, maldições e alguns demônios.

A primeira HQ é um roteiro de Dave Gibbons (ao qual ele se referiu na entrevista que fizemos há um ano) com desenhos de Sean Phillips (um dos desenhistas tradicionais da Hellblazer). Nela, o roubo de um artefato egípcio milenar leva Constantine a uma perseguição em plena noite de reveillon. O roteiro até consegue empolgar de início e os desenhos seguem o padrão de qualidade de Phillips, mas o final é meio fraquinho e Gibbons continua sendo um melhor desenhista do que roteirista. A história seguinte, “Cartões de Natal” (ou “Cartas de Natal” no trocadilho em inglês), traz um jogo de poker como pretexto para um drama pessoal. Nesse roteiro de Jamie Delano, ilustrado por David Lloyd, o mago londrino é apenas um observador-narrador que nos revela a história de um pai desesperado e um trapaceiro prestes a encontrar o "espírito de Natal".

A história seguinte foi o motivo principal para eu ter comprado a Hellblazer n°250. Não pelo roteiro escrito em rimas por Brian Azzarello (que mostra Constantine realizando um exorcismo num bar de Chicago), mas sim pelos fantásticos desenhos de Rafael Grampá, com cores por Marcus Penna. Num estilo bem pessoal, composto por tracejados e elementos caricaturais, o trabalho do desenhista brasileiro é o diferencial e um dos pontos altos da revista. Já a HQ seguinte traz uma “maldição de Natal”, escrita por Peter Milligan e desenhada por Eddie Campbell. Com uma alma penada e uma ceia em família, esse parece o menos pretensioso de todos os roteiros, mas se revela o melhor da coletânea. Fechando a edição, o trabalho de China Miéville, Giuseppe Camuncoli e Stefano Landini que é o mais inverossímil e fraco dessa edição.

O saldo final de Hellblazer n°250 é positivo. Algumas boas histórias com visual diversificado e dois pontos altos, no roteiro de Peter Milligan e nos desenhos de Rafael Grampá. Pode-se dizer em resumo que essa foi realmente uma revista pensada para os fãs de John Constantine, especialmente por trazer autores ligados à história do personagem, como é o caso de Jamie Delano, Sean Phillips e David Lloyd. E com o retorno das séries do selo Vertigo ao Brasil, através da Panini, há a chance de essas HQs curtas especiais serem vistas por aqui.

31/07/2009

As entrevistas internacionais do Mais Quadrinhos.


Algo muito bacana que tenho conseguido realizar com o Mais Quadrinhos são as entrevistas com artistas britânicos e norte-americanos. Eu já vinha entrevistando outros quadrinistas desde os anos 90, mas essas conversas por e-mail feitas especificamente para este blog têm algumas particularidades (entre elas o fato de serem realizadas e publicadas também em inglês, tendo ainda como ponto comum questões relativas à obra do roteirista inglês Alan Moore). Com essas entrevistas, tenho tido a oportunidade de falar com pessoas cujo trabalho admiro há muitos anos, descobrindo mais sobre suas criações e esclarecendo pontos de suas trajetórias, além de contar um pouco da história dos quadrinhos.

Então, para aqueles que não acompanharam as primeiras entrevistas ou para quem quiser dar uma nova conferida, aqui vão os endereços para as entrevistas internacionais do Mais Quadrinhos, até o momento:

David Lloyd:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com_16.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/01/virtudes-variadas-uma-entrevista-com_18.html

J.H. Williams III:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh_19.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/artes-mgicas-uma-entrevista-com-jh_21.html

Steve Bissette:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/quando-penso-em-que-artistas-dos.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com_22.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/05/talento-monstruoso-uma-entrevista-com_26.html

Dave Gibbons:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com_05.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/12/arte-da-coerncia-uma-entrevista-com_10.html

Brian Bolland:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma_23.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/um-artista-brilhante-de-capa-capa-uma_27.html

Se preferir as entrevistas no original, elas podem ser lidas em inglês neste endereço:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/search/label/Interviews

18/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte3.


Parte final de nossa entrevista exclusiva, e David Lloyd fala porque ele prefere HQs curtas e também sobre sua nova graphic novel que será lançada no Brasil em 2008.

Wellington Srbek: Você já trabalhou com três outros importantes roteiristas britânicos: Grant Morrison, Garth Ennis e Jamie Delano. Como foi trabalhar com eles em Hellblazer?

David Lloyd: Bem, eles são todos grandes escritores. Mas trabalhar com Jamie foi diferente de trabalhar com os outros dois, porque criamos “O Horrorista” numa maneira ao “estilo-Marvel” - ou seja, trabalhando inicialmente com croquis da ação página por página, a partir dos quais eu desenhei os esboços, e a partir dos quais Jamie escreveu o texto final. Eu sempre considerei que esta forma de criar quadrinhos dá ao desenhista muito mais condições de fluir melhor a narrativa visual. Tudo que fiz com Jamie, eu fiz dessa mesma forma. Grant e Garth forneceram roteiros completos. Uma vez eu sugeri ao Garth que trabalhássemos em algo da mesma forma que eu trabalho com o Jamie, mas ele levantou as mãos para o alto horrorizado com tal perspectiva! Um roteirista sacrifica algo de seu controle se trabalha ao estilo-Marvel, e alguns roteiristas não querem isso.

WS: Você parece ter uma preferência por HQs curtas ou séries limitadas, e um gosto por experimentar diferentes técnicas.

DL: Uma razão é que me entedio facilmente, outra é que eu gosto de HQs curtas. Acho que poderia passar toda a minha carreira fazendo HQs curtas de vários tipos, se isso fosse comercialmente viável. Mas nos dias de hoje revistas de antologia sempre têm dificuldades para sobreviver. E, sim, eu gosto de experimentar se possível. Muita coisa nesse negócio [dos quadrinhos] está enraizada em práticas tradicionais voltadas a métodos de produção rápida e, como a experimentação geralmente toma tempo, não é sempre que se pode experimentar. Mas como eu disse, eu me entedio fácil - e a emoção de descobrir uma nova forma de representar algo, ou usar uma nova técnica, nunca se acaba para mim. Eu acho que a aventura de criar algo em arte é uma coisa preciosa, e eu quero preservar isso.
Uma outra parte da questão é que eu nunca quis me tornar um desenhista que vai de um trabalho para outro apenas para manter as contas em dia. Há muitos desenhistas que fazem isso, e eu os respeito por seu profissionalismo - mas eu enlouqueceria fazendo isso. Eu trabalho em coisas que acho interessantes de se trabalhar - e raríssimos projetos de longo prazo têm esse grau de atração para mim. O que aconteceria se eu ficasse entediado no meio de um projeto longo? O resto dele seria um inferno. No começo de minha carreira eu trabalhei em qualquer coisa que aparecia porque eu precisava, mas logo descobri que seria uma boa idéia ter sempre no banco um fundo de reserva que me poupasse da necessidade de pular de um trabalho a outro, a toda hora. E ter essa reserva foi muito importante quando eu quis criar minha própria graphic novel: Kickback. Se eu não tivesse podido escapar da ralação de trabalhar nos roteiros de outras pessoas, como eu teria encontrado tempo para trabalhar nela?

WS: Fale-nos, por favor, de seu novo livro São Paulo, lançado pela Casa 21.

DL: Ele é parte de uma série encomendada pela editora a vários artistas, tendo como tema cidades do Brasil. Eles são retratos dos lugares - texto e ilustração - como vistos do ponto de vista dos ilustradores. Existem volumes sobre o Rio, Belo Horizonte e Salvador, entre outros - estou certo de que você conhece os livros. E me pediram que fizesse o livro sobre São Paulo. Eu pensei muito seriamente antes de aceitar o trabalho. É um desafio e uma grande responsabilidade - retratar uma das maiores cidades do mundo em ilustração e texto não é uma tarefa para se aceitar levianamente, a menos que você seja louco. E pareceu uma responsabilidade e um desafio ainda maiores quando eu fui para São Paulo fazer a pesquisa. Eu descobri que muitas pessoas conheciam e gostavam de meu trabalho lá, e esperavam ansiosamente para ver o que eu faria de sua cidade. Foi muito diferente de minha prática usual de contar uma história sobre pessoas ficcionais num mundo ficcional, onde a verdade é uma escolha e não uma realidade. Definitivamente, no entanto, eu podia apenas responder ao que eu via e ouvia em minha jornada pela cidade naquela viagem de pesquisa, e compilar o livro com aquelas percepções, que foi o que fiz. Eu não sei quão bem, ou mal, os paulistanos responderam a ele. Muitas coisas amáveis me foram ditas sobre o livro quando voltei à cidade para o lançamento [no último mês de dezembro] e depois dele por algumas pessoas, mas não tenho noção de qual seja o consenso geral. Espero que, em geral, seja bom.

WS: Como está a indústria de quadrinhos na Grã-Bretanha hoje, e como você vê o futuro dos quadrinhos em geral, como linguagem e indústria?

DL: Na Grã-Bretanha, não há “indústria” de quadrinhos enquanto tal. Poderíamos ter tido uma aqui, se as editoras tivessem se importado o bastante com nossos talentos locais para mantê-los empregados no Reino Unido, em vez de deixá-los ser exportados no atacado para os Estados Unidos. Mas os editores não se importaram. Enquanto nação, nós não vemos realmente os quadrinhos como uma parte essencial da cultura, como os Estados Unidos e outros países vêem. Nós temos apenas uma revista que é importante em termos artísticos - e que ainda é um campo fértil para muitos novos talentos britânicos - a 2000AD. O resto é principalmente uma mistura de produtos de mercado licenciados ou títulos infantis.
É impossível fazer qualquer previsão sobre os quadrinhos em geral, porque eles variam de país para país e cobrem um enorme campo de estilos. Mas o mangá parece que ocupará um lugar permanente em cada país para o qual tenha sido exportado. Isso é o máximo que eu me arriscaria a especular com alguma certeza.

WS: No quê você está trabalhando agora? Algum novo projeto?

DL: Bem, em março ou abril, [a graphic novel] Kickback estará nas lojas no Brasil - e será algo inédito para os brasileiros. É o primeiro trabalho substancial que pude escrever para mim mesmo - anteriormente eu tive tempo apenas para escrever umas poucas histórias curtas e uma edição única de uma série. Ser um desenhista/roteirista é a melhor e mais satisfatória coisa para se fazer como criador nessa linguagem, se você tem algo que queira dizer com ela. Kickback é um suspense sobre um policial corrupto numa polícia corrupta, que decide mudar sua forma de vida - mas a história é tanto sobre porque ele é corrupto, quanto sobre como ele supera os obstáculos para alcançar uma mudança. Ela tem todos os elementos de uma história policial de ambientação urbana, mas ela é mais sobre as pessoas na situação, do que a situação em si. Eu espero que todos gostem dela aí.
O novo trabalho este ano começa com a ilustração de uma HQ curta para uma coletânea francesa de histórias sobre crianças que foram separadas de seus pais durante a Segunda Guerra Mundial. Depois uma história de fantasmas para outra publicação francesa. E então estarei começando o trabalho numa nova graphic novel, sobre a natureza da qual eu ainda estou por me decidir.

WS: Bom, muito obrigado por esta entrevista!

DL: Realmente não há de quê.

Various virtues: an interview with David Lloyd, part3.


Last part of our exclusive interview, David Lloyd talks about his most recent and future projects, and also explains why he prefers to work on short stories.

Wellington Srbek: You have worked with three other important British writers: Grant Morrison, Garth Ennis and Jamie Delano. How it was to work with them in Hellblazer?

David Lloyd: Well, they're all great writers. But working with Jamie was different to working with the other two because we created “The Horrorist” in a “Marvel-type” manner - i.e. working initially from page-by-page breakdowns of the action, from which I drew layouts, and from which Jamie wrote the final script. I've always considered this way of creating a strip gives an artist much more opportunity for producing a smooth flow to the visual narrative. Everything I've worked on with Jamie, I've done in that same way. Grant and Garth supplied full scripts. I suggested to Garth once that we work on something together in the same way I work with Jamie, but he threw up his hands in horror at the prospect! A writer sacrifices some control if he works in that Marvel-type style, and some writers don't want that.

WS: You seem to have a preference for short stories or limited series, and a taste for experimenting with different techniques.

DL: I get bored easily is one reason, another is that I like short stories. I think I could spend my whole career doing short stories of various kinds if it was commercially viable to do that. But these days anthology books always struggle to sell enough. And, yes, I like experimenting if I can. So much of this business is ingrained in common practices geared towards fast production methods, and experimenting usually takes time, so it's not always possible to do it. But like I say I get bored easily - and the thrill of discovering a new way of depicting something, or using some new technique never fades for me. I think the adventure of creating something in art is a precious thing, and I want to keep that.
Another part of the picture is that I never wanted to become an artist who goes from one job to another just to keep up with his bill payments. There are lots of artists who do that and I respect them for their professionalism - but I'd go crazy doing that. I work on things I find interesting to work on - and very few long-term projects have that degree of attraction for me. What if I got bored half-way through a long run? The rest of it would be Hell. At the beginning of my career I did anything that came along because I had to, but I figured very soon after it was a good idea to always have a back-up bank balance that insulated me from the need to jump off one job and onto another all the time. And having that back-up was very important when I wanted to create my own graphic novel: Kickback. If I hadn't been able to escape the treadmill of working on other people’s scripts, how would I have found time to spend on it?

WS: Please tell us about your new book São Paulo published by Casa 21.

DL: It's one of a series commissioned by the publisher from various artists on the towns and cities in Brasil. They're portraits of the places - text and art - as seen from the artist’s point of view. There are volumes on Rio, Belo Horizonte, and Salvador among others - I'm sure you know the books. And they wanted me to do the book on São Paulo. I thought long and hard about accepting the job. It was a challenge and a big responsibility - portraying one of the biggest cities in the world in art and word is not a task to be taken lightly unless you happen to be crazy. It seemed like an even bigger responsibility and challenge when I came to São Paulo to research it. I found lots of people knew and liked my work here, and were eagerly looking forward to seeing what I was going to make of their city. It was a whole different deal to my usual work of telling a story about fictional people in a fictional world, where the truth is a choice and not a reality. Ultimately though, I could only respond to what I saw and heard in my journey through the city on that research trip, and compile the book honestly from those perceptions, which is what I did. I don't know how well, or otherwise, paulistanos have responded to it. A lot of nice things were said to me about it when I was back in the city for the launch, and after it from some folks, but I'm not aware of the general consensus of opinion. I hope it's generally good.

WS: How is the comics industry in Britain now, and how do you see the future of comics in general, as a medium and as an industry?

DL: There's no comics “industry” in Britain, as such. We could have had one here if comics publishers had cared enough about them to keep all our homegrown talent fully employed in the UK, instead of letting it be imported wholesale to the US, but they didn't. As a nation, we haven't really seen comics as an essential part of the culture as the US and other countries do. We have only one comic that's important in artistic terms - and which is still a breeding ground for much new British talent - 2000AD. The rest is mainly a mix of licenced marketing tools or nursery titles.
It's impossible to make any predictions about comics in general because it varies from country to country and covers such a wide field of styles. But Manga seems like it'll be a permanent fixture in every country it's been exported to. That's about as much as I'd risk speculating on with any certainty.

WS: What are you working on now? Any new projects?

DL: Well, in March/April, Kickback will be in the stores in Brasil - and that'll be new to Brasilians. It's the first substantial work I've been able to write for myself - previously I'd only had the time to write a few short stories, and a single issue of a series. Being a writer/artist is the best and most satisfying thing to do as a creator in this medium if you have something you want to say with it. Kickback's a crime thriller about a corrupt policeman in a corrupt police force who decides to change his way of life - but the story's as much about why he's corrupt as how he overcomes the obstacles to achieve a change. It has all the usual elements of a crime story in an urban setting, but It's about the people in the situation more than the situation itself. I hope everyone will like it here.
New work this year starts with me illustrating a short strip for a French publisher in a book of stories about children who were separated from their parents during the 2nd World War. Then a ghost story for another French book. And then I'll be starting work on a new graphic novel, the nature of which I am yet to decide upon.

WS: Well, thanks a lot for this interview!

DL: You're very welcome.

16/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte2.


Segunda parte de nossa entrevista exclusiva, e David Lloyd fala sobre a criação e os significados da obra-prima V de Vingança, e também o que ele pensa da adaptação para o cinema produzida pelos irmãos Wachowski.

Wellington Srbek: É 1981 e o editor Dez Skinn está montando uma nova revista chamada Warrior. Você já tinha trabalhado para ele antes, e ele pede a você para criar uma nova série de aventura, similar a Night Raven. Então Alan Moore se junta ao projeto. Foi assim que V de Vingança nasceu, certo?

David Lloyd: Basicamente, sim. Dez inicialmente sugeriu que eu escrevesse e desenhasse a série - mas eu já tinha trabalhado com Alan em HQs do Doctor Who, gostei de trabalhar com ele e instintivamente sabia que podíamos criar algo muito bom se trabalhássemos em parceria. Alan já estava a bordo da Warrior com seu projeto de estimação de atualizar o Marvelman. V acabou se tornando uma combinação de dois conceitos que tínhamos bolado independentemente, mas que não tínhamos utilizado - um sobre uma guerrilha urbana feminina numa futura Inglaterra fascista, e outro sobre um assassino em série estranhamente vestido. O resultado final veio depois de muito brainstorm.

WS: A Inglaterra tem uma longa tradição em artes gráficas associadas à crítica política, desde um mestre como William Hogarth e um gênio como James Gillray a publicações como The Punch. Você vê V de Vingança como parte dessa tradição?

DL: Sim, certamente. Embora eu ache que a sutileza de V a tire da área da caricatura na qual a maioria da sátira política opera. Eu acho que o filme se aproxima mais daquele estilo de coisa, porque ele conta sua história em pinceladas bem mais amplas e com figuras menos complexas do que usamos na HQ. Na verdade, quando vi o filme pela primeira vez, eu disse ao Andy Wachowski que achava o filme semelhante a um cartum político colocado na telona. E isso faz do filme algo ainda mais forte.

WS: No que diz respeito ao design de personagem, V funciona como um jogo visual: amigo e inimigo, masculino e feminino, satírico e letal, histórico e moderno. Como você chegou a esse conceito visual, a esse enigma que sempre traz a questão: quem é V?

DL: Um acidente. Uma boa dose de sorte. A idéia de o personagem adotar a vestimenta e persona de Guy Fawkes deu-nos aquela ambiguidade por pura sorte. Muitas coisas ótimas no processo de criação surgem de acidentes, e não de planejamento: é o inesperado que dá aquela fagulha extra de vida a algo que, de outra maneira, seria relativamente comum. O ponto básico do personagem é que ele seria um revolucionário e um anarquista - e então um outro ponto era que ele teria algo de flamboyant ou teatral. Guy Fawkes foi um famoso anarquista na história [envolvido numa malsucedida tentativa de explodir o Prédio do Parlamento, no dia 5 de novembro de 1605], alguém com quem todos na Inglaterra estavam familiarizados. Pareceu-nos uma ótima idéia se um novo criador do caos ressuscitasse o espírito de Fawkes, bem como suas intenções! E foi assim que aconteceu.

WS: V de Vingança é sem dúvida um trabalho revolucionário. O tema do anarquismo versus fascismo e a narrativa envolvente eram então muito novos nos quadrinhos de aventura. Além disso, os desenhos mostram um senso de profundidade e textura ausentes na maioria dos quadrinhos das grandes editoras. Contudo, V quase ficou incompleto!

DL: Não estou muito certo de qual é a pergunta, mas sim, a HQ ficou no limbo por um tempo quando a Warrior fechou. Você está certo em dizer que ela era bastante não-convencional para a época, mas V tinha criado uma reputação para si mesma nos anos que foi publicada, assim ela teria encontrado um novo editor se tivemos nos esforçado bastante para achar um. Acho que a necessidade de seguir em frente fazendo algum dinheiro e construindo nossas carreiras impediu-nos de buscar isso. Mas então, quando Alan alcançou seu grande sucesso na DC Comics, eles estavam bem felizes em continuar qualquer coisa em que ele estivesse envolvido, e eles sabiam sobre V, assim ficaram felizes em pegá-la e continuá-la.

WS: Comercialmente, o uso das cores e do formato comic book são as escolhas certas para o mercado norte-americano. Mas tenho que confessar que prefiro V de Vingança em P&B e no formato magazine da Warrior. A luz é muito bonita e os detalhes do desenho mais fortes. Você não sente que algo se perdeu?

DL: P&B é puro e simples - logo ele é universal em seu apelo. Por outro lado, as cores podem ser atrativas ou não atrativas, pois pessoas têm cores favoritas. Alguns preferem azul. Outros odeiam verde. Há até mesmo superstições sobre cores! Assim, em termos estéticos, as cores vão ser sempre mais problemáticas que o P&B. Para mim, o único problema com as cores em V é que desde o início na DC nós não conseguimos os melhores resultados de impressão, e eu fui ingênuo em esperar mais do que conseguimos. Apenas nas edições mais recentes em capa-dura, nos Estados Unidos, Escandinávia e Alemanha, isso foi remediado, porque tive a oportunidade de alterar as cores para os valores tonais e consistência que elas deveriam ter. Assim, essas são as edições definitivas. Acredite, tudo teria sido diferente se tivéssemos na época o que temos agora - colorização por computador, uma tecnologia muito melhor e uma postura em relação aos quadrinhos bem mais esclarecida por parte dos impressores. Mas o que quer que se pense sobre isso, no entanto, as cores conquistaram para V um público bem mais amplo do que ela teria - e sem uma grande perda para seu valor artístico. Eu acho que isso justifica seu uso.

WS: E quanto à produção de Hollywood? Ela faz jus a seu trabalho e ao de Alan Moore?

DL: É uma boa versão da história original. Não é perfeita, mas não tenho nada a fazer senão felicitar os Wachowskis, James McTeigue, Joe Silver e todos os demais envolvidos com a produção. Eles fizeram um ótimo trabalho ali - e assim espalharam a mensagem essencial contida no original. Mas o quadrinho, é claro, é melhor.

A seguir: David Lloyd fala de sua nova graphic novel, que será lançada no Brasil em 2008.

Various virtues: an interview with David Lloyd, part2.


In second part of our exclusive interview, David Lloyd talks about the creation and meanings of the masterpiece V for Vendetta, and also what he thinks about the Wachowskis Brothers’ movie adaptation.

Wellington Srbek: It is 1981 and editor Dez Skinn is putting together a new magazine named Warrior. You had worked with him before, and he asks you to create a new adventure strip similar to Night Raven. Then Alan Moore joined the project. This is how V for Vendetta came to life, right?

David Lloyd: Basically, yes. Dez originally suggested I write and draw it - but I'd worked with Alan on the Dr Who stuff, enjoyed working with him, and I knew instinctively we could come up with something great if we worked on it together. Alan was already on board Warrior with his pet project to update Marvelman. V turned out to be a combination of two concepts we'd created individually but neither of us had sold - one about a female urban guerilla in a future fascist England, and one about a strangely garbed serial killer. The final thing came out of a lot of brainstorming.

WS: England has a long tradition in graphic arts associated with political commentary, from a master like William Hogarth and a genius like James Gillray to publications like The Punch. Do you see V for Vendetta as part of that tradition?

DL: Yes, absolutely. Though I think the subtlety of V overall takes it out of the area of caricature which most political lampoons operate in. I think the movie gets closer to that style of thing, because it tells it's story in much broader brushstrokes and with less complex figures than we used in the book. Actually, when I saw it for the first time, I told Andy Wachowski that I thought it was very much like a political cartoon that they'd put on the screen. And it was all the more powerful for that.

WS: Considering character design, V works as a visual puzzle: friend and foe, male and female, satirical and lethal, historical and modern. How did you come up with that visual concept, this enigma that always holds the question: who is V?

DL: An accident. A good piece of luck. The idea of having the character adopt the dress and persona of Guy Fawkes gave us that ambiguity by simple good fortune. A lot of great things in creativity come out of accident, not planning: it's the unexpected that gives that extra spark of life to something that could otherwise be relatively ordinary. The basic requirement of the character was that he was a revolutionary and an anarchist - and then another requirement was that he be flamboyant or theatrical in some manner. Guy Fawkes was a famous anarchist in history, who everyone in England was familiar with. It seemed a great idea to us to have a new creator of chaos resurrect the spirit of Fawkes as well as his intentions! So that's how it happened.

WS: V for Vendetta is a revolutionary work, no doubt. The theme of anarchism versus fascism and the atmospheric storytelling were very new to adventure comics then. Also your artwork shows a peculiar sense of depth and texture that lacks in much of mainstream comics. But it almost stayed incomplete!

DL: Not sure what your question is, but yes, it hung around for a while in limbo when Warrior folded. You're right in saying it was quite unconventional for the time, but it had created a reputation for itself over the years it ran, so it would have found a new publisher if we'd looked hard enough for one. I think the need to just get on with earning some money and building our careers stopped us doing that. But then, when Alan achieved his great success at DC Comics, they were very happy to continue anything he'd been involved with, and they knew about V, so they were happy to take it up and continue it.

WS: Commercially, colours and comic book format are the right choices for the American market. But I have to confess that I prefer V for Vendetta in that B/W magazine format of Warrior. The light is beautiful and the artwork details are stronger. Don't you feel that something has been lost?

DL: B/W is pure and simple - so it's universal in it's appeal. On the other hand, colour can be appealing or non-appealing because people have favourite colours. Some prefer blue. Others hate green. There are even superstitions about colours! So, in aesthetic terms, colour will always be more problematic to use than b/w. For me the only problem with the colour of V was that from it's beginning at DC we didn't get the best results from the printers, and I was naive in expecting more than we got. Only in the latest hardback editions of V in the US, Scandinavia and Germany has this been remedied, because I was given the opportunity to tweak the colours to the tonal values and consistency they were meant to have. So those editions are the definitive ones. Believe me it would all have been different if we'd had then what we have now - computer colouring, better technology and much more enlightened attitudes towards comics from printers. Whatever you think about it generally though, colour gained for V a much wider audience than it would otherwise have acquired - and at no major loss to it's artistic value. I think that justifies its use.

WS: What about the Hollywood production? Does it make justice to yours and Alan's work?

DL: It's a good version of the original story. It isn't perfect, but I have nothing but praise for the Wachowskis, James McTeigue, Joel Silver, and everyone else involved with the production. They did a great job of it - and doing so spread the essential message that was contained in the original. But the book, of course, is better.

Next: some words about the present and future.

14/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte1.


No último mês de dezembro, fui a São Paulo para lançar o álbum Estórias Gerais, na livraria HQ MIX. Por um feliz erro de divulgação, o quadrinista inglês David Lloyd acabou fazendo, na mesma noite, um pré-lançamento de seu livro para a série Cidades Ilustradas. Após assinar alguns exemplares de meu livro e beber duas ou três taças do saboroso vinho oferecido por Gual, fui dar um “oi” ao desenhista de V de Vingança. Conversa vai, conversa vem, Mr. Lloyd acabou comprando um exemplar de Estórias Gerais e eu o convidando para uma entrevista ao Mais Quadrinhos. O resultado é esta conversa feita por e-mail, em que falamos de seu início de carreira na Inglaterra, sua nova graphic novel que será lançada no Brasil em 2008 e, é claro, V de Vingança. Para quem lê em inglês, a entrevista está disponível abaixo em sua versão original. Com vocês então, um virtuoso desenhista chamado David Lloyd!

Wellington Srbek: É uma grande alegria estar conversando com você! Por favor, diga a seus fãs brasileiros quando e onde nasceu e como começou sua carreira?

David Lloyd: Nasci em 1950, numa cidade chamada Enfield na Inglaterra. Saí da escola aos 16 anos e consegui um trabalho como aprendiz de arte publicitária, mensageiro e faz-tudo num estúdio de publicidade no centro de Londres. Fiquei lá por dois anos e meio, aprendendo um pouco sobre o negócio, então saí sob a tênue promessa de vender, para uma distribuidora européia, uma série de tiras que eu tinha criado. Lamentavelmente, essa promessa revelou-se uma ilusão, mas eu não queira voltar a meu trabalho de nove-às-cinco. Então fui forçado a fazer pequenos trabalhos de ilustração como freelancer, e depois, por fim, uns trabalhos de meio-horário sem relação com ilustração, durante quatro anos. Eu firmei o pé no negócio dos quadrinhos com uma encomenda para fazer todo o trabalho de ilustração para uma revista da série de tevê Logan’s Run. Minha carreira decolou a partir daí, felizmente.

WS: No fim dos anos 70, início dos 80, havia na Inglaterra várias revistas relacionadas com a tevê e o cinema, e também as publicações da sucursal britânica da Marvel. Você, Steve Moore, Alan Moore, Alan Davis, Dave Gibbons e muitos outros conseguiram seus primeiros trabalhos regulares nessas revistas. Qual importância elas tiveram?

DL: Bem, alguns de nós conseguiram os primeiros trabalhos regulares nelas, outros não - Dave começou na 2000AD. A Grã-Bretanha tem uma tradição em quadrinhos inspirados por programas do rádio e da tevê, que vem desde os anos 40. O cinema inspirou menos edições. Mas é claro que elas foram importantes porque elas nos deram trabalho e uma chance de praticar nosso ofício. Os anuais para crianças - edições que são publicados na época do Natal, com artigos, fotos, histórias e quadrinhos sobre programas de tevê populares na época - eram especialmente importantes para abrir espaço a desenhistas iniciantes. Essas edições tinham baixos orçamentos e pagavam mal aos colaboradores, então os editores não tinham como empregar artistas com uma carreira já estabelecida. Logan’s Run foi uma dessas edições. Eu fiz um monte de outras depois dela.

WS: Foi com a série Night Raven, publicada na Hulk Weekly, que você começou a ficar conhecido pelos leitores. Conte-nos sobre esse personagem e seu trabalho nessa série.

DL: Esta vai ser uma longa resposta. Um de meus primeiros trabalhos foi desenhar uma adaptação para os quadrinhos de um dos filmes de Quatermass [série de ficção científica da tevê Britânica] para uma revista mensal de cinema chamada House of Hammer, cujo editor era um cara chamado Dez Skinn. Mais tarde, ele conseguiu o trabalho de editor de uma revista chamada Hulk Weekly da Marvel Britânica, que foi lançada para capitalizar em cima da série de tevê do Hulk. Por mérito próprio, Dez convenceu a Marvel a produzir material original para a revista, e não apenas reimprimir material norte-americano. Dez gostava da qualidade do que eu tinha feito para ele antes e pediu que eu me juntasse à equipe de arte da Hulk e criasse o visual do principal personagem de uma das séries programadas para aparecer na revista: o Night Raven. Eu o imaginei meio como o Indiana Jones - antes de Os Caçadores da Arca Perdida ser lançado. Esta foi a caracterização que dei a ele numa posterior reformulação: Night Raven - House of Cards. De qualquer forma, eu concebi esse visual “Indiana Jones” porque fazia dele um personagem de ação. Eu estava ciente de que fazíamos o projeto para a Marvel, então eu pensei que aquela era uma abordagem mais apropriada a se seguir.
Infelizmente, esse visual foi rejeitado por Dez e Steve Parkhouse - que era o escritor - porque eles queriam um cruzamento entre o Spirit e o Sombra. Steve fez alguns esboços que colocaram um casacão no personagem. Eles até me deram fotocópias do Sombra de Mike Kaluta para me colocarem na direção correta. Eu pensava que era a direção errada, considerando que era uma revista da Marvel, mas eu não tinha poder para fazer objeções a esses requerimentos - eu estava no negócio há poucos anos e não tinha qualquer influência. E, é claro, eu era um profissional cujo trabalho era seguir uma indicação, e não questionar as decisões de meu editor. Mas eu lamento não ter sido capaz de dar ao personagem um visual original - em vez de uma mistura de dois outros conceitos. Eu tinha sim a liberdade de livrá-lo do casacão quando ele estava envolvido em mais ação, mas do contrário ele tinha que usá-lo. Foi uma pena, porque como parte do conceito inicial eu tinha dado a ele dois coldres e a habilidade de sacar as armas rápido como um raio, que agora só funcionaria efetivamente quando ele não estivesse com o casacão.
Mais tarde, Dez recebeu a visita de um dos executivos da Marvel norte-americana, que tinha vindo supervisionar o progresso da revista. Uma das coisas que ele sugeriu a Dez foi que o Night Raven tivesse mais ação ao estilo Marvel. Eu podia ter dito ao Dez: “eu te disse”, mas eu ainda era um ninguém tentando ganhar a vida, e criar agitação não iria me beneficiar. De qualquer forma, daquele ponto em diante, eu comecei a usar mais efeitos no estilo Marvel, mas foi em vão porque pouco depois Dez me tirou da série e passou-a para John Bolton. Ironicamente, o que John acabou fazendo com Night Raven mostrou-se um tratamento bem conservador, e nada marvelesco. E então a serie foi cancelada. Anos mais tarde, eu fui convidado a retornar ao personagem, mas apenas aceitei sob a condição de que eu poderia desenhá-lo da forma que havia concebido originalmente. E assim surgiu [a graphic novel] House of Cards.

WS: Filmes noir e literatura pulp são influências importantes em Night Raven. Mas quais quadrinhos influenciaram você no desenvolvimento de seu estilo único?

DL: Bem, eu era um grande fã de Steve Ditko em Amazing Adult Fantasy. Frank Bellamy - um artista inglês que desenhava uma tira chamada Garth. Ron Embleton, Tony Weare e John M. Burns. As revistas da EC Comics e da Warren de meados dos anos sessenta, como Blazing Combat e Creepy. Eu era fascinado por muitos trabalhos publicados nelas, criados por gente como Gene Colan, Angelo Torres, [Alex] Toth, etc. Eu admirava o trabalho de muitos artistas em vários quadrinhos e revistas, geralmente do tipo dramático, mas nenhum quadrinho ou tipo de quadrinho em específico - exceto pelo fato de a maioria não ser revistas de super-heróis.

WS: Falando de suas histórias complementares para a Doctor Who Weekly, eu realmente adoro “4-D War”! Pois você alcança tanto em termos de trabalho artístico, considerando que ela tem apenas 4 páginas. Que técnicas de finalização você utiliza nela?

DL: Se tenho chance, eu sempre gosto de experimentar, e a idéia de usar a aguada para representar o mundo portal [uma realidade extradimensional na HQ escrita por Alan Moore] - se é a isso que você se refere - para diferenciá-lo foi fácil de colocar em prática. Os vários desenhos foram transferidos para impressões em meio-tom, e então colados sobre a página - o impressor não teve que fazer separações. E quando os personagens estão fragmentados no espaço, bem, isso foi conseguido simplesmente recortando as impressões e colando-as no lugar certo. No que diz respeito ao número de páginas - bem, muita história pode ser contada em poucas páginas, mas hoje em dia os quadrinhos gastam seu tempo desenrolando uma historinha. É um jeito de a indústria se agarrar à sua base de leitores e manter os quadrinhos vendendo quando as vendas estão caindo.

A seguir: V de Vingança!

Various virtues: an interview with David Lloyd, part1.


One of the great artists of British and American comics, David Lloyd gently agreed to talk to me about his early works, new projects and of course V for Vendetta. So, here is part1 of our e-mail interview.

Wellington Srbek: It is a great joy to be talking to you, Mr. Lloyd! Please tell your fans when and where you were born, and how did you begin your carrier?

David Lloyd: Born in 1950, in a town called Enfield in England. I left school at 16 and got a job as a trainee commercial artist, messenger and general gofer at an advertising art studio in central London. I was there for two and a half years, learning some of my trade, then left it on the tissue-thin promise of being able to sell a strip series I'd created to a European features syndicate. Regrettably, the prospect turned out to be an illusion, but I didn't want to go back to a nine-to-five job, so I was forced to do small art jobs as a freelancer, and then, eventually, a couple of non-art-related part-time jobs for four years. I got a foothold into the comics business with a commission to do all the illustration work in a book of the TV series Logan's Run. My career snowballed from there, I'm glad to say.

WS: In late 70s and early 80s, there were in England lots of magazines related to television and movies, and also the Marvel UK publications. You, Steve Moore, Alan Moore, Alan Davis, Dave Gibbons and many others got the first regular jobs in those magazines. How important they were?

DL: Well, some of us got our first regular work on them, others not - Dave started in 2000AD. Britain has a tradition of comics inspired by radio and TV shows that stretches back to the 40s. Films inspired less of them. But of course they were important because they gave us all work and a chance to practice our craft. The children’s annuals - gift books that are published for sale at Xmas time, featuring articles, photos, stories and strips on popular TV shows of the time - were especially important in giving breaks to up-and-comers. They had low production budgets and paid contributors poorly, so the publishers couldn't employ established artists to work on them. Logan’s Run was one of those books. I did a bunch more after that.

WS: The Night Raven strip in Hulk Weekly was the work that brought you to the attention of comic book readers. Tell us about this character and your work on that strip.

DL: This'll be a long answer. One of my earliest jobs was drawing a comic strip adaptation of one of the Quatermass movies for a monthly film magazine called House of Hammer, whose editor was a guy called Dez Skinn. Later, he got the job of editing a weekly comic called Hulk Weekly for Marvel UK, which was launched in England to capitalize on the appearance here of the Hulk TV show. To his credit, Dez convinced Marvel to invest in originated product for the comic, not just reprint US material. Dez liked the quality of work I'd done for him before and asked me to join the art team on Hulk and come up with a visualization of the main character of one of the series scheduled to feature in it: Night Raven. I saw him as looking kind of like Indiana Jones - before Raiders of the Lost Ark came out. It was the outfit I gave him in a later prequel: Night Raven - House of Cards. Anyway, I conceived of this “Indiana Jones” look because it made him an action character. I was aware we were doing this for the Marvel company, so I thought that was a perfectly appropriate approach to take.
Unfortunately, this design was rejected by Dez and Steve Parkhouse - who was the writer - because they wanted a cross between The Spirit and The Shadow. Steve did some sketches which put a trenchcoat on the character. They even gave me some photocopies of Mike Kaluta's Shadow to put me on the right track. I thought it was the wrong track considering it was a Marvel book, but I had no power to object to these requirements - I'd only been in the business for a couple of years and had no influence. And, of course, I was a professional whose job was to follow a brief, not question my editor's judgment. But I regretted not being able to give the character an original look - not one blended from two other old concepts. I did have the freedom to get him out of the trenchcoat when he was involved in actionful moments, but otherwise he had to wear it. It was a shame, because as part of the early concept I'd given him the skill of a lightning quick draw from twin shoulder holsters, which now only worked as an effective fighting tool when he'd dispensed with his trenchcoat.
Later on, Dez had a visit from a US Marvel exec who'd come over to overlook progress on the comic. One of the things he suggested to Dez was that Night Raven be more actionful and Marvel-like. I could have said “I told you so” to Dez, but I was still just a nobody artist trying to earn a crust, and creating waves was not to my benefit. Anyway, from that point on I started using more Marvel-style effects, but it was pointless because shortly thereafter Dez took me off the strip and gave it to John Bolton. Ironically, what John ended up doing with Night Raven turned out to be quite conservative in treatment, and not Marvel-ish at all. And then the strip was cancelled.
I returned to the character years later by request, but did so only on the condition that I could draw the character the way I'd originally envisioned it. And that was House of Cards.

WS: Film noir and pulp literature are very important influences on Night Raven. But what comics have influenced you in the development of your unique style?

DL: Well, I was a big fan of Steve Ditko in Amazing Adult Fantasy. Frank Bellamy - an English artist who drew a newspaper strip called Garth. Ron Embleton, Tony Weare and John M. Burns. EC comics and the Warren comic magazines of the mid-sixties like Blazing Combat and Creepy. I was astounded by much of the work in those, from people like Gene Colan, Angelo Torres, [Alex] Toth, etc. I admired the work of many artists in various comics and comic books, usually of the dramatic type, but no specific comics or styles of comic - except most of them were not superhero titles.

WS: Talking about your backup stories to Doctor Who Weekly, I really love "4-D War"! I mean, you accomplish so much in terms of artwork considering it's only a 4-page story. What finishing techniques do you use there?

DL: I always love to experiment if I get the chance, and the idea of using wash to depict the portal world - if that's what you're referring to - to differentiate it was easy to put into practice. The separate drawings were screened into half-tone prints, then actually stuck on the artwork - the printer didn't have to do any separations. And when the characters are fragmented in space, well, that was achieved by just cutting the prints up and sticking them down in place.
As far as the page count is concerned - well, a lot of story can be told in a small number of pages, but these days comics take their time spinning a yarn. It's one way the industry can hold on to it's fan base and keep comics selling when sales are falling.

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