
Em meados dos anos 80, com o sucesso do roteirista inglês Alan Moore à frente da revista
Swamp Thing (
Monstro do Pântano), a DC Comics decidiu “sair à caça” de outros roteiristas da Grã-Bretanha. Mais cultos e não tendo os vícios de seus colegas norte-americanos, os autores britânicos iniciaram então uma revolução qualitativa no mercado de quadrinhos. Um dos primeiros frutos da chamada “invasão britânica” foi a minissérie
Orquídea Negra, lançada em 1988, com roteiro de Neil Gaiman e páginas pintadas por Dave McKean. O competente trabalho da dupla abriu as portas para um novo projeto:
The Sandman. Uma mistura de realidade e ficção, terror e fantasia, a revista surgida há vinte anos é centrada na figura de Morpheus, o Mestre dos Sonhos, uma entidade que personifica os sonhos e o ato de sonhar.
Lançada em fins de 1988 e concluída no início de 1996,
The Sandman foi uma das melhores séries de quadrinhos já produzidas. O nome de seu protagonista já havia sido utilizado em dois outros heróis da DC Comics nos anos 40 e 70, mas a versão de Neil Gaiman para os anos 80 e 90 partia de uma concepção completamente nova. Reunindo referências à literatura, filosofia, história, mitologia e aos quadrinhos, o roteirista construiu todo um universo ficcional, do qual fazem parte também personagens históricos (como William Shakespeare, Robespierre, Harun Al Rashid e Marco Polo). Muito premiada durante sua publicação, o prestígio da obra só fez aumentar após seu encerramento, projetando internacionalmente o nome de seu criador. Merecem também destaque especial as belas e às vezes estranhas capas criadas por Dave McKean (geralmente pinturas, colagens ou fotomontagens).
Um fator marcante nas primeiras edições da série é a influência dos roteiros de Alan Moore para o
Monstro do Pântano. Aliás, Gaiman cita o nome de seu precursor logo nos primeiros parágrafos da “Proposta para [a publicação de] Sandman”, um extenso texto acompanhado de estudos para o visual do Mestre dos Sonhos (publicado pela primeira vez em
The Absolute Sandman Volume1). Nele, Gaiman apresenta detalhadamente os fundamentos de sua concepção para o personagem e os principais coadjuvantes e ambientes da série, bem como a correlação com versões anteriores de Sandman e as sinopses de nove capítulos. Chama atenção não só o quanto da série já estava esboçado em seu nascimento, mas também alguns elementos que foram alterados ao longo do caminho (por exemplo, parece que inicialmente Gaiman havia imaginado os Perpétuos não como sete irmãos, e sim como uma tríade formada por Sonho, Morte e Destino).
Sucesso de público e de crítica,
The Sandman foi a primeira série da DC Comics a ser inteiramente reeditada em forma de livro. Além disso, sua popularidade motivou a editora a investir em uma nova linha de “quadrinhos com temática adulta”: o selo Vertigo, lançado em 1993. E pode-se dizer que tudo isso se deveu quase exclusivamente aos roteiros de Gaiman. Afinal, até mesmo os fãs mais ardorosos do Mestre dos Sonhos têm de reconhecer que algumas edições da revista trouxeram desenhos de baixíssima qualidade (que chegam a prejudicá-la, quando consideramos a obra como um todo). É importante lembrarmos que o que define uma HQ de qualidade é o conjunto formado por uma boa história, contada com um ritmo narrativo e um visual adequados. E a verdade é que esse conjunto qualitativo, em vários momentos, não esteve presente nas páginas de
The Sandman (particularmente nos arcos "Casa de Bonecas” e “Um jogo de você”).
As deficiências nos desenhos não impediram, contudo, que a revista alcançasse um prestígio nunca antes visto nos quadrinhos norte-americanos (o qual por vezes chega a ser um tanto exagerado). Somando setenta e cinco números, um especial (
Sandman: Orpheus), HQs curtas e galerias de ilustrações, a série também deu origem a um livro ilustrado (
Sandman: Dream Hunters), uma
graphic novel campeã de vendas (
Sandman: Endless Nights) e duas minisséries (com a Morte), além de novas revistas periódicas, escritas por outros roteiristas, mas inspiradas nos conceitos e personagens de Gaiman (como
The Dreaming e
Sandman Presents). Em 2007, a DC Comics deu início à belíssima coleção
The Absolute Sandman, em quatro volumes com estojo, formato estendido, capa-dura em imitação de couro, papel de alta qualidade, vários extras com ilustrações e textos especiais, além da recolorização dos primeiros trinta e oito capítulos (do capítulo 39 em diante a colorização não precisou ser refeita).
No Brasil,
Sandman já passou por duas coleções completas: a primeira e mais fiel à revista original lançada pela Globo em 1989, e a luxuosa reedição estendida, com capa-dura e em dez volumes, lançada nos últimos anos pela Conrad (sem contar aqui a inacabada e péssima reimpressão pela Brainstore). Para aqueles que não puderam acompanhar as edições anteriores, inicia-se agora uma nova coleção de
Sandman, desta vez pela Pixel, que optou por um formato e uma organização inéditos. Serão ao todo dezessete volumes (reunindo os setenta e cinco números da revista e incluindo
Sandman: Orpheus), seguidos de três especiais (
O Mundo de Sandman,
Noites Sem-Fim e
Caçadores de Sonhos). A Pixel utilizará as versões recolorizadas e também os principais conteúdos extras de
The Absolute Sandman. Além disso, inteligentemente, os editores brasileiros decidiram incorporar à sua coleção os conteúdos do livro
Capas na Areia, com as ilustrações das capas e os comentários de Gaiman e McKean.
Em meio a todo o sucesso e prestígio,
The Sandman chegou ao fim, a pedido do próprio Gaiman (que declarou ter concluído a história que gostaria de contar). O roteirista então passou a se dedicar a edições especiais e, particularmente, a projetos em outras mídias, como cinema, tevê e literatura. Nos últimos anos, ele retornou aos quadrinhos em duas minisséries para a Marvel:
1602 e
Eternals. Mas o fato é que nenhuma de suas obras mais recentes chegou aos pés da importância e repercussão de
The Sandman, um marco nos quadrinhos norte-americanos, que assumiu a condição de clássico e continuará a habitar a imaginação de leitores por muitos e muitos anos. Enfim, só me resta desejar a Neil Gaiman, neste 10 de novembro, meus parabéns por sua obra-prima e um feliz aniversário!