Mostrando postagens com marcador Vertigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vertigo. Mostrar todas as postagens

10/12/2009

Um “especial de Natal” com John Constantine.


Uma criação do inglês Alan Moore, o mago John Constantine estreou nas páginas da revista Swamp Thing para logo ganhar uma revista própria, escrita pelo também inglês Jamie Delano. Tornando-se uma das bases do selo Vertigo, a revista Hellblazer conquistou fãs fiéis, tornando-se a publicação mensal mais duradoura da linha de quadrinhos adultos da DC Comics. No fim de 2008, somando quase onze anos de publicação, em seu n°250 a série ganhou uma edição especial de Natal, com cinco HQs curtas produzidas por diferentes autores. Não tive oportunidade de lê-la na época, mas finalmente consegui um exemplar dessa interessante antologia, cuja leitura divido com vocês agora. E como era de se esperar, embora seja um “especial de Natal” ou “Fim-de-Ano”, em se tratando de uma revista com John Constantine, não poderiam faltar palavrões, maldições e alguns demônios.

A primeira HQ é um roteiro de Dave Gibbons (ao qual ele se referiu na entrevista que fizemos há um ano) com desenhos de Sean Phillips (um dos desenhistas tradicionais da Hellblazer). Nela, o roubo de um artefato egípcio milenar leva Constantine a uma perseguição em plena noite de reveillon. O roteiro até consegue empolgar de início e os desenhos seguem o padrão de qualidade de Phillips, mas o final é meio fraquinho e Gibbons continua sendo um melhor desenhista do que roteirista. A história seguinte, “Cartões de Natal” (ou “Cartas de Natal” no trocadilho em inglês), traz um jogo de poker como pretexto para um drama pessoal. Nesse roteiro de Jamie Delano, ilustrado por David Lloyd, o mago londrino é apenas um observador-narrador que nos revela a história de um pai desesperado e um trapaceiro prestes a encontrar o "espírito de Natal".

A história seguinte foi o motivo principal para eu ter comprado a Hellblazer n°250. Não pelo roteiro escrito em rimas por Brian Azzarello (que mostra Constantine realizando um exorcismo num bar de Chicago), mas sim pelos fantásticos desenhos de Rafael Grampá, com cores por Marcus Penna. Num estilo bem pessoal, composto por tracejados e elementos caricaturais, o trabalho do desenhista brasileiro é o diferencial e um dos pontos altos da revista. Já a HQ seguinte traz uma “maldição de Natal”, escrita por Peter Milligan e desenhada por Eddie Campbell. Com uma alma penada e uma ceia em família, esse parece o menos pretensioso de todos os roteiros, mas se revela o melhor da coletânea. Fechando a edição, o trabalho de China Miéville, Giuseppe Camuncoli e Stefano Landini que é o mais inverossímil e fraco dessa edição.

O saldo final de Hellblazer n°250 é positivo. Algumas boas histórias com visual diversificado e dois pontos altos, no roteiro de Peter Milligan e nos desenhos de Rafael Grampá. Pode-se dizer em resumo que essa foi realmente uma revista pensada para os fãs de John Constantine, especialmente por trazer autores ligados à história do personagem, como é o caso de Jamie Delano, Sean Phillips e David Lloyd. E com o retorno das séries do selo Vertigo ao Brasil, através da Panini, há a chance de essas HQs curtas especiais serem vistas por aqui.

21/06/2009

Edições e downloads promocionais da DC / Vertigo.


Revistas com distribuição gratuita ou a preços irrisórios são boas formas de promover novas séries, edições especiais, linhas de quadrinhos específicas ou mesmo alcançar novos leitores que tenham chegado às HQs através de outras mídias. Este foi o caso da revista Vertigo Preview que, lançada em 1993 ao preço de 75 centavos de dólar, serviu para divulgar a estreante linha de “quadrinhos para leitores maduros” da DC Comics. Já em 2006, para promover a luxuosa coleção The Absolute Sandman, a editora lançou uma Special Edition ao preço de 50 ¢, trazendo o n°1 da série numa versão recolorizada, acompanhada de material bônus.

Após uma década e meia de atuação, a linha capitaneada por Karen Berger conta hoje com um catálogo dos mais invejáveis no mercado norte-americano. Uma amostra disso é dada nas coletâneas First Taste, First Offenses e First Cut que, com mais de 160 páginas e vendidas por $4.99 cada, reproduzem as primeiras edições de séries como Preacher, Os Invisíveis, 100 Balas e Transmetropolitan.

No início do ano, seguindo o exemplo da Vertigo e pegando carona na divulgação do filme, a DC lançou a série de revistas After Watchmen.. what’s next?, vendidas por $1 e trazendo reimpressões dos primeiros capítulos de obras como O Cavaleiro das Trevas, Ronin, V de Vingança, Asilo Arkham, Reino do Amanhã, entre outras. Esta foi, é claro, uma jogada esperta da editora, que aproveitou a mobilização midiática em torno da produção cinematográfica para estender o prestígio de Watchmen para outras obras de seu catálogo.

É claro que mais acessível ainda do que uma revista a preço baixo é uma HQ que se possa ler de graça. Neste sentido, a DC disponibilizou a página Vertigo #1 com downloads em PDF das edições de estréia de mais de trinta séries. As histórias estão no original, mas valem uma conferida mesmo por quem não lê em inglês. Além do link para a página geral acima, aqui vão os endereços diretos para as séries principais:

Swamp Thing:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/10793_1.pdf
Sandman:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1696_1.pdf
Hellblazer:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1618_1.pdf
Animal Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1594_1.pdf
Doom Patrol:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/2355_1.pdf
Books of Magic:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1669_1.pdf
Books of Magic #1:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1672_1.pdf
Death:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1601_1.pdf
Sandman Mystery Theatre:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1656_1.pdf
Invisibles:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1680_1.pdf
Preacher:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1645_1.pdf
Transmetropolitan:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1719_1.pdf
Fables:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1606_1.pdf
100 Bullets:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1587_1.pdf
Y - The Last Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1736_1.pdf

Completando a lista, a DC também disponibilizou, como parte da promoção em torno do filme da Warner, o primeiro capítulo de Watchmen:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1462_1.pdf

Diferentemente dos famosos "scans", os arquivos para download divulgados aqui são legais e não violam direitos autorais de autores e editores.

25/12/2008

1993, um ano ímpar!


1993, que ano para os quadrinhos! Um furacão chamado Image Comics virava de cabeça para baixo o mercado norte-americano, varrendo antigos tabus editoriais e abalando as estruturas das gigantes Marvel e DC Comics. Em seu segundo ano de atividades, a editora de Spawn, Wild C.A.T.s e Youngblood alcançava vendas astronômicas e abria espaço para criações mais interessantes, como a série The Maxx de Sam Kieth e a minissérie 1963 escrita por Alan Moore.

E as lições mercadológicas dadas por Todd McFarlane, Jim Lee, Rob Liefeld & Cia. não passaram despercebidas. Afinal, por que criar personagens para as grandes editoras, quando se pode trabalhar em cooperativa e manter os direitos autorais sobre suas criações? Foi seguindo essa idéia que surgiram Sin City, Hellboy e Madman, entre outras séries produzidas por Frank Miller, Mike Mignola, Michael Allred e mais alguns medalhões do mercado, que se uniram para criar o selo Legend, com HQs editadas pela Dark Horse Comics.

É claro que o ano de 1993 não teria sido o mesmo sem outro selo editorial: o Vertigo. Inspirados pelo sucesso comercial e pela aclamação crítica da série The Sandman, os executivos da DC Comics viram uma ótima oportunidade para uma nova linha de “quadrinhos adultos”. Capitaneada pela editora Karen Berger, tendo como fundamento as inovações trazidas nos anos 80 pelo inglês Alan Moore e espelhando-se nas concepções criativas do também inglês Neil Gaiman, o selo Vertigo contribuiu para reforçar a idéia de que os quadrinhos não são apenas “coisa de criança”.

Enquanto isso, no Brasil, ainda se faziam sentir as ondas da “revolução das graphic novels” da segunda metade dos anos 80. Mas, se as Bienais do Rio trouxeram a nossas praias grandes nomes dos quadrinhos internacionais, o mercado nacional continuava uma realidade distante para a maioria dos quadrinistas brasileiros. Exceto pelas revistas produzidas pelos Estúdios Maurício de Sousa e por algumas experiências esporádicas, encontrar publicações com personagens nacionais era algo raro (e as coisas não mudaram muito nos últimos quinze anos). Sem um espaço garantido no mercado, os quadrinistas brasileiros tiveram que inventar seu próprio caminho.

Em 1993, uma das trilhas mais usadas era o circuito dos fanzines e edições alternativas. Foi em março daquele ano que lancei minha primeira publicação: um fanzine em xérox e formato ofício, com quadrinhos e matérias, feito em parceria com o desenhista Erick Azevedo. Era o artesanal Replicantes, que teve apenas dois números, o primeiro em março daquele ano e o segundo em junho do ano seguinte. Apesar de suas limitações e até mesmo precariedade, essa primeira experiência editorial despertou em mim o gosto por publicar meus quadrinhos (o que eu voltaria a fazer em 1995 com o fanzine Ideário e nos anos seguintes com as revistas Solar e Caliban).

Em 1993, porém, já havia autores independentes publicando suas HQs não mais em xérox e sim com impressão gráfica profissional e na forma de revistas. Um grupo desses autores, no Rio de Janeiro, chegou a formar a “Frente das Revistas Independentes”. Entre as publicações que faziam parte da FRI, destacava-se a antologia Grimoire. Lançada em novembro daquele ano, editada por Thais Linhares e Bernard, a revista trazia quatro histórias de fantasia com ótimos desenhos, além de uma introdução, biografias dos autores e uma matéria sobre os quadrinhos de Neil Gaiman (tudo impresso com papel de qualidade, capa em duas cores e miolo em P&B).

Descobri a Grimore já em 1994, numa bancada de revistas nacionais e importadas que o gerente Carlos e o responsável pelos quadrinhos Evandro mantinham na entrada da livraria Leitura Savassi (em Belo Horizonte, MG). Naquele dia não sei se cheguei a comprar algum exemplar do Sandman da editora Globo ou de Books of Magic da DC/Vertigo (revistas que eu colecionava época). O que sei com certeza é que não deixei passar um exemplar de Grimoire, que é hoje um dos tesouros de minha coleção (e cuja capa, é claro, ilustra esta postagem). Na época, essa bela revista independente mostrou a mim e a outros aspirantes a editor que era possível produzir e publicar nossos quadrinhos com qualidade profissional.

A verdade é que éramos pura empolgação e paixão pelos quadrinhos e à nossa frente só víamos possibilidades abertas. Talvez tudo isso fosse um pouco de ilusão juvenil, estimulada pela agitação e pelas novidades de 1993, um ano certamente ímpar!

21/12/2008

Sandman e outras edições da Pixel.


Para quem curte séries de quadrinhos com temática mais adulta, a melhor pedida nos últimos tempos têm sido os lançamentos da Pixel. Após uma reestruturação administrativa no início deste semestre, a editora que faz parte do grupo Ediouro deixou de lado os álbuns europeus e as HQs nacionais, concentrando-se nas séries norte-americanas dos selos Wildstorm e Vertigo. Além das revistas periódicas Pixel Magazine e Fábulas Pixel, a editora tem levado às bancas e livrarias coletâneas com quadrinhos consagrados e encadernados que reúnem os exemplares não-vendidos de seus especiais.

Está à venda desde novembro Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume1 (144 páginas, formato reduzido 17cm x 24cm, capa cartonada com impressão especial e orelhas, vendido por R$29,90). A coletânea traz os quatro primeiros capítulos da série recolorizados, mostrando a captura de Morpheus por um grupo ocultista inglês, sua fuga e seus primeiros movimentos para recuperar os poderes e colocar ordem de novo em seu reino. As HQs são desenhadas por Sam Kieth e Mike Drindenberg, num estilo sombrio com elementos cartunizados que cria um clima ideal para as histórias, lembrando as clássicas antologias de terror (como a Tales from the Crypt da EC Comics ou as revistas da própria DC, das quais Gaiman resgatou coadjuvantes como Caim e Abel ou as Três Bruxas).

A edição traz ainda a “Proposta para Sandman”, publicada pela DC em The Absolute Sandman Volume1 e inédita até agora no Brasil. O extenso texto, acompanhado de estudos para o visual do Mestre dos Sonhos (incluindo esboços feitos pelo próprio Gaiman), é verdadeiramente um atrativo à parte nessa reedição. Além disso, inteligentemente, os editores brasileiros decidiram incorporar à sua coleção os conteúdos do livro Capas na Areia (as ilustrações das capas e os comentários de Gaiman e McKean), fechando essa primeira coletânea da Pixel uma seção de notas explicativas. E ao que tudo indica esse primeiro volume teve uma ótima vendagem, pois a editora decidiu antecipar o lançamento da parte final da primeira história do Mestre dos Sonhos.

Já está nas livrarias Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume2 (132 páginas, também em formato reduzido 17cm x 24cm, capa cartonada com impressão especial e orelhas, ao preço de R$29,90). Essa segunda coletânea da Pixel traz as quatro últimas partes da história, concluindo com a estréia da irmã mais velha do Mestre dos Sonhos, a Morte. Na parte dos extras, mais páginas extraídas do livro Capas na Areia, incluindo a HQ curta de Gaiman e McKean “A Última História de Sandman”. Completam este segundo volume uma introdução escrita pelo editor Leandro Luigi Del Mantlo, o responsável pelo lançamento de The Sandman no Brasil nos anos 80. Para quem ainda não escolheu o presente de Natal, Sandman: Prelúdios & Noturnos - Volume1 e 2 pode ser uma ótima pedida!

Outro lançamento para os fãs dos quadrinhos adultos da DC Comics é 100 Balas - Segundas Chances (128 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, vendido por R$16,90). Este segundo encadernado da série reúne dois especiais da Pixel, correspondendo aos números 6 a 11 da revista original. Com roteiro de Brian Azzarello e desenhos de Eduardo Risso, as HQs misturam tramas criminais, dramas cotidianos e alguns tiros, um pouquinho de sexo e muito sangue. Já Como Matar um Wildcat - Completo (160 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, vendido por R$16,90) reúne as edições 7 a 12 da segunda fase da revista norte-americana, além de uma HQ curta da Wild C.A.T.s n°50 (que encerrou a primeira fase da revista original).

Como Matar um Wildcat - Completo tem tudo para agradar aos fãs da série, trazendo bastante ação, super-heróis violentos, ciborgues e alienígenas, com destaque para as páginas desenhadas por Sean Phillips. O mesmo deve acontecer com Authority: Transferência de Poder - Completo (200 páginas, formato 16,5cm x 25,5cm, ao preço de R$19,90) que reúne as duas edições da minissérie. Com HQs publicadas nos números 22 a 29 da revista original, a edição tem como destaque os detalhados desenhos de Frank Quitely, com o tipo de ação e os personagens que consagraram a série da Wildstorm. À venda em bancas e livrarias, os três encadernados da Pixel são uma segunda chance para quem deixou passar as revistas em separado ou para quem quiser conhecer essas séries de sucesso.

Recentemente, no entanto, o editor Cassius Medauar anunciou no blog da Pixel sua saída da editora. A notícia causou descontentamento e muitas especulações entre os leitores, deixando uma dúvida sobre o futuro do projeto iniciado em 2006 e a continuação da publicação das séries e coleções em andamento.

18/12/2008

Novas edições das revistas periódicas da Pixel.


A indústria de quadrinhos passou por transformações nos últimos anos, tanto no que diz respeito ao mercado de revistas, quanto em termos da produção em si. Uma maior ligação com outras mídias (como cinema, televisão e internet) tem sido uma estratégia de sobrevivência para as grandes editoras norte-americanas, acompanhada de um direcionamento das HQs para o formato livro (em graphic novels e coletâneas das séries de sucesso). Nesse momento de “convergência midiática”, se por um lado temos filmes do cinema e séries da tevê que copiam ou adaptam elementos dos quadrinhos, por outro temos HQs que parecem seguir temáticas e recursos narrativos tirados de outras mídias. Um bom exemplo disso são os capítulos das séries Y - O último homem, Frequência Global, Hellblazer e Ex Machina, publicados nos números 19 e 20 da Pixel Magazine.

Destaque na edição de outubro, com as capas e duas HQs, e iniciando um novo volume na edição de novembro, Y - O último homem mantém a condição de melhor série da antologia mensal da Pixel atualmente. A história mostra um mundo no qual todos os machos mamíferos morreram misteriosamente, só sobrevivendo o jovem Yorick e seu macaquinho Ampersand. Em meio a hordas de feministas assassinas, disputas políticas e uma trama conspiratória, a dupla de sobreviventes inicia uma viagem em busca de respostas, na companhia de uma agente especial e de uma geneticista que pode ter a chave para solucionar o mistério. Criada pelo roteirista Brian V. Vaughan e pela desenhista Pia Guerra, a série teve seu primeiro volume (“Rumo à Extinção”) publicado na Pixel Magazine n°s 16 a 19, iniciando na número 20 uma suposta nova fase (“Ciclos”).

Essa divisão, no entanto, não é muito evidente na história em si, parecendo muito mais uma questão motivada por formatos editorais, já que as séries da Vertigo costumam ser pensadas visando à republicação em coletâneas (os trade paperbacks norte-americanos). Independentemente disso, Y - O último homem é uma história interessante, com uma ou outra provocação política, uma trama instigante e desenhos bastante adequados e agradáveis. Tudo somado, a série (que é escrita por um dos roteiristas de Lost) tem o clima de um seriado de tevê. Essa mesma sensação ocorre ao lermos o capítulo de Frequência Global publicado na Pixel Magazine n°19, com roteiro de Warren Ellis e desenhos de Roy Allan Martinez. Nele, os agentes secretos coordenados por Aleph têm que deter um grupo de terroristas suicidas: violência e sarcasmo incluídos.

Já no capítulo publicado na Pixel Magazine n°20, Warren Ellis pega mais leve, apresentando uma trama mais inteligente (embora os desenhos de Steve Dillon deixem a desejar). Em resumo, uma versão alternativa para uma invasão alienígena (que poderia ter inspirado um bom episódio de Arquivo-X) que acaba solucionada de forma um tanto óbvia. A mesma edição traz também a estréia na revista de Ex Machina, outra série escrita por Brian K. Vaughan, que mistura política e elementos de ficção científica, numa ambientação cotidiana. Mostrando ação e super-heróis tecnológicos em contraposição a sequências mais prosaicas, os desenhos de Tony Harris com arte-final de Tom Fleister e cores de J.D. Mettler oferecem uma ambientação perfeita. Para completar as duas edições, os primeiros capítulos de uma nova história de Hellblazer.

Nas partes 1 e 2 de “Congelado”, John Constantine continua sua perambulação pelos Estados Unidos, desta vez indo parar num bar, no meio de uma tempestade de neve. No roteiro escrito por Brian Azzarello, com desenhos de Marcelo Fruzin, personagens locais e uma suposta lenda local são o pano de fundo para uma trama que envolve crime e bebidas (como tradicionalmente vemos nos trabalhos daquele roteirista). Não exatamente uma história de Constantine, esse mistério abaixo de zero mais parece um filme ou episódio de tevê adaptado das histórias de Stephen King. E embora se enquadre na estética da “convergência midiática” de que falei no início deste texto, os capítulos de Hellblazer na verdade parecem um tanto deslocados, em meio às tramas conspiratórias e às temáticas de ficção científica que têm predominado na Pixel Magazine.

Talvez o ideal fosse que as histórias de Constantine passassem a ser publicadas na Fábulas Pixel. E por falar nessa outra revista periódica da Pixel, sua edição de outubro deu destaque a Astro City (trazendo a continuação do “Guia do Visitante” e uma história inédita de Jack-in-the-Box). A seguir, temos o quinto capítulo de Fábulas: A Marcha dos Soldados de Madeira e mais uma parte da série Sandman Apresenta: As Fúrias, fechando com uma história curta de Cobweb. No geral, as HQs dessa terceira edição da antologia bimestral da Pixel baseiam-se em elementos dos próprios quadrinhos, da literatura e até da mitologia, sendo não muito inovadoras. Mas nada que se compare, é claro, à mais recente edição da Spawn.

Esse n°178 traz um roteiro que copia o recurso narrativo de uma história do Monstro do Pântano de Alan Moore, além de desenhos ruins de doer (que fazem até mesmo as edições desenhadas por Todd McFarlane parecerem aceitáveis). Fechando a revista, a volta da seção de cartas e a continuação da “Mitologia de Spawn”, que narra a trajetória fictícia do personagem ao longo das eras. Para quem se interessar, Spawn n°178 tem 32 páginas em formato 17cm x 26cm, custando R$5,90. Melhor investimento mesmo são as edições de Pixel Magazine e Fábulas Pixel que têm 100 páginas no mesmo formato 17cm x 26cm, custando R$10,90 (e trazendo quadrinhos de qualidade bem superior). Ainda neste mês de dezembro, devem chegar às bancas a Pixel Magazine n°21 e a Fábulas Pixel n°4 (que podem ser as últimas edições dessas revistas).

21/11/2008

Garth Ennis em coletânea e encadernado da Pixel.


O irlandês Garth Ennis beneficiou-se da chamada “invasão britânica” que tomou conta dos quadrinhos da DC Comics nos anos 80. Afinal, foi o trabalho de outros autores britânicos (como Alan Moore, Jamie Delano, Neil Gaiman e Grant Morrison) que estabeleceu o terreno onde Ennis pôde desenvolver seus peculiares roteiros. Estreando na revista Hellblazer, ele se consagraria com Preacher, série que traz uma trama conspiratória, em meio a um pouco de sexo, muitas blasfêmias e bastante violência. Para os fãs do controvertido roteirista, a Pixel lançou recentemente a coletânea Hellblazer: Hábitos Perigosos e o encadernado Preacher: Memórias, que estabelecem várias pontes entre quadrinhos e cinema.

Publicada em 1991, Hábitos Perigosos marcou a estréia de Garth Ennis no mercado norte-americano, sendo uma das histórias mais festejadas pelos fãs de John Constantine. Dividido em seis partes, esse arco começa com a notícia de que o personagem está à beira da morte. Fumante compulsivo, o mago inglês acorda um dia tossindo sangue e acaba descobrindo que está com um câncer em fase terminal. Encarando a própria morte, Constantine tem um assunto ainda mais preocupante para tratar, pois (após anos envolvendo-se em exorcismos e invocações) sua alma é um prêmio cobiçado por forças infernais. Revendo amigos, despedindo-se de familiares, conferenciando com forças celestiais ou abissais, enchendo a cara e fumando muito, aos trancos e barrancos ele chega ao limiar de sua vida. No último instante, porém, o mago reverte a situação, mudando seu destino e enganando o próprio Diabo.

Criado por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben para a revista do Monstro do Pântano, Constantine foi desenvolvido por Jamie Delano na revista Hellblazer. Mas muitos consideram que a melhor fase do personagem foi a das edições escritas por Ennis, iniciada com Hábitos Perigosos. O fato é que, embora os desenhos de seus colaboradores sejam péssimos, o texto do roteirista irlandês vale a edição. Fora uma ou outra inconsistência, a intensa trama prende e envolve o leitor com um terror cru que não recorre a teorias conspiratórias e outros subterfúgios que se tornaram tão comuns ultimamente. Preferida por muitos leitores, não é por menos que Hábitos Perigosos forneceu vários elementos para o roteiro do filme Constantine. Contudo, além das diversas interferências hollywoodianas (como trazer o personagem com cabelos negros e usando uma arma), o filme não tem a força da HQ.

Preacher: Memórias reúne três edições lançadas pela Pixel, num total de quatro HQs especiais: “O cavaleiro altivo”, “A história de você-sabe-quem”, “Guerra de um homem só” e “Cassidy: Sangue & Uísque”. A primeira delas mostra Jesse Custer e Tulipa no tempo em que eram namorados e assaltantes de carro. A aventura passada no Texas tem muito dos chamados road movies, com suas perseguições de carros, paisagens ermas, crimes e violência (ou seja, um quadrinho que poderia ter sido feito por Quentin Tarantino). A segunda história abre com uma sátira ao filme Forrest Gump: O Contador de Histórias, na qual o personagem interpretado no cinema por Tom Hanks é substituído pelo desfigurado Cara-de-Cu. A história desse adolescente incomum (repleta de violência familiar, delinquência juvenil, niilismo e várias referências à cultura grunge) fez a cabeça de muitos leitores, mas é a menos interessante desse encadernado.

Mais interessante é a terceira HQ da edição, que conta a história de Herr Star, um assassino frio que trabalha para a organização Graal. Com muitas situações escatológicas (tanto no sentido relativo ao fim-do-mundo, quanto no relativo aos excrementos), a história lançada em 1998 aborda temas que se tornaram populares nos últimos anos, com o livro (e o filme) O Código Da Vinci de Dan Brown. Mas a melhor (e menos pervertida) das quatro histórias é a última, que enfoca Cassidy, o vampiro mulherengo e beberrão da série Preacher. Fugindo da polícia, o morto-vivo gente-boa acaba chegando a Nova Orleans, onde encontra um pedante e egocêntrico sugador de sangue, que parece saído dos livros de Anne Rice (e lembra o personagem interpretado por Tom Cruise em Entrevista com o vampiro). No geral, os desenhos servem bem às quatro histórias, com destaque para a terceira, desenhada por Peter Snejbjerg.

Com direito a palavrões, tramas envolvendo demônios e religião, dejetos humanos e uísque, as duas edições devem agradar aos fãs de Garth Ennis. A história dessa coletânea com John Constantine é um marco dos quadrinhos com temática adulta da DC Comics, sendo uma precursora do selo Vertigo. O encadernado com as histórias de Jesse Custer & Cia. é um tanto irregular e vale mesmo pela última HQ, que ironiza o universo gótico de Anne Rice e seu Entrevista com o vampiro. Para quem ficou interessado, Hellblazer: Hábitos Perigosos tem 160 páginas, custando R$37,90; Preacher: Memórias tem 244 páginas, ao preço de R$22,90.

10/11/2008

Os 20 anos de Sandman!


Em meados dos anos 80, com o sucesso do roteirista inglês Alan Moore à frente da revista Swamp Thing (Monstro do Pântano), a DC Comics decidiu “sair à caça” de outros roteiristas da Grã-Bretanha. Mais cultos e não tendo os vícios de seus colegas norte-americanos, os autores britânicos iniciaram então uma revolução qualitativa no mercado de quadrinhos. Um dos primeiros frutos da chamada “invasão britânica” foi a minissérie Orquídea Negra, lançada em 1988, com roteiro de Neil Gaiman e páginas pintadas por Dave McKean. O competente trabalho da dupla abriu as portas para um novo projeto: The Sandman. Uma mistura de realidade e ficção, terror e fantasia, a revista surgida há vinte anos é centrada na figura de Morpheus, o Mestre dos Sonhos, uma entidade que personifica os sonhos e o ato de sonhar.

Lançada em fins de 1988 e concluída no início de 1996, The Sandman foi uma das melhores séries de quadrinhos já produzidas. O nome de seu protagonista já havia sido utilizado em dois outros heróis da DC Comics nos anos 40 e 70, mas a versão de Neil Gaiman para os anos 80 e 90 partia de uma concepção completamente nova. Reunindo referências à literatura, filosofia, história, mitologia e aos quadrinhos, o roteirista construiu todo um universo ficcional, do qual fazem parte também personagens históricos (como William Shakespeare, Robespierre, Harun Al Rashid e Marco Polo). Muito premiada durante sua publicação, o prestígio da obra só fez aumentar após seu encerramento, projetando internacionalmente o nome de seu criador. Merecem também destaque especial as belas e às vezes estranhas capas criadas por Dave McKean (geralmente pinturas, colagens ou fotomontagens).

Um fator marcante nas primeiras edições da série é a influência dos roteiros de Alan Moore para o Monstro do Pântano. Aliás, Gaiman cita o nome de seu precursor logo nos primeiros parágrafos da “Proposta para [a publicação de] Sandman”, um extenso texto acompanhado de estudos para o visual do Mestre dos Sonhos (publicado pela primeira vez em The Absolute Sandman Volume1). Nele, Gaiman apresenta detalhadamente os fundamentos de sua concepção para o personagem e os principais coadjuvantes e ambientes da série, bem como a correlação com versões anteriores de Sandman e as sinopses de nove capítulos. Chama atenção não só o quanto da série já estava esboçado em seu nascimento, mas também alguns elementos que foram alterados ao longo do caminho (por exemplo, parece que inicialmente Gaiman havia imaginado os Perpétuos não como sete irmãos, e sim como uma tríade formada por Sonho, Morte e Destino).

Sucesso de público e de crítica, The Sandman foi a primeira série da DC Comics a ser inteiramente reeditada em forma de livro. Além disso, sua popularidade motivou a editora a investir em uma nova linha de “quadrinhos com temática adulta”: o selo Vertigo, lançado em 1993. E pode-se dizer que tudo isso se deveu quase exclusivamente aos roteiros de Gaiman. Afinal, até mesmo os fãs mais ardorosos do Mestre dos Sonhos têm de reconhecer que algumas edições da revista trouxeram desenhos de baixíssima qualidade (que chegam a prejudicá-la, quando consideramos a obra como um todo). É importante lembrarmos que o que define uma HQ de qualidade é o conjunto formado por uma boa história, contada com um ritmo narrativo e um visual adequados. E a verdade é que esse conjunto qualitativo, em vários momentos, não esteve presente nas páginas de The Sandman (particularmente nos arcos "Casa de Bonecas” e “Um jogo de você”).

As deficiências nos desenhos não impediram, contudo, que a revista alcançasse um prestígio nunca antes visto nos quadrinhos norte-americanos (o qual por vezes chega a ser um tanto exagerado). Somando setenta e cinco números, um especial (Sandman: Orpheus), HQs curtas e galerias de ilustrações, a série também deu origem a um livro ilustrado (Sandman: Dream Hunters), uma graphic novel campeã de vendas (Sandman: Endless Nights) e duas minisséries (com a Morte), além de novas revistas periódicas, escritas por outros roteiristas, mas inspiradas nos conceitos e personagens de Gaiman (como The Dreaming e Sandman Presents). Em 2007, a DC Comics deu início à belíssima coleção The Absolute Sandman, em quatro volumes com estojo, formato estendido, capa-dura em imitação de couro, papel de alta qualidade, vários extras com ilustrações e textos especiais, além da recolorização dos primeiros trinta e oito capítulos (do capítulo 39 em diante a colorização não precisou ser refeita).

No Brasil, Sandman já passou por duas coleções completas: a primeira e mais fiel à revista original lançada pela Globo em 1989, e a luxuosa reedição estendida, com capa-dura e em dez volumes, lançada nos últimos anos pela Conrad (sem contar aqui a inacabada e péssima reimpressão pela Brainstore). Para aqueles que não puderam acompanhar as edições anteriores, inicia-se agora uma nova coleção de Sandman, desta vez pela Pixel, que optou por um formato e uma organização inéditos. Serão ao todo dezessete volumes (reunindo os setenta e cinco números da revista e incluindo Sandman: Orpheus), seguidos de três especiais (O Mundo de Sandman, Noites Sem-Fim e Caçadores de Sonhos). A Pixel utilizará as versões recolorizadas e também os principais conteúdos extras de The Absolute Sandman. Além disso, inteligentemente, os editores brasileiros decidiram incorporar à sua coleção os conteúdos do livro Capas na Areia, com as ilustrações das capas e os comentários de Gaiman e McKean.

Em meio a todo o sucesso e prestígio, The Sandman chegou ao fim, a pedido do próprio Gaiman (que declarou ter concluído a história que gostaria de contar). O roteirista então passou a se dedicar a edições especiais e, particularmente, a projetos em outras mídias, como cinema, tevê e literatura. Nos últimos anos, ele retornou aos quadrinhos em duas minisséries para a Marvel: 1602 e Eternals. Mas o fato é que nenhuma de suas obras mais recentes chegou aos pés da importância e repercussão de The Sandman, um marco nos quadrinhos norte-americanos, que assumiu a condição de clássico e continuará a habitar a imaginação de leitores por muitos e muitos anos. Enfim, só me resta desejar a Neil Gaiman, neste 10 de novembro, meus parabéns por sua obra-prima e um feliz aniversário!

30/09/2008

Pondo ordem na casa da Pixel.


Surgida em 2006 de uma associação entre a Ediouro e a Futuro Comunicação, a Pixel Media chegou com a proposta de publicar HQs de qualidade a preços mais acessíveis. Surpreendendo inicialmente com ótimos lançamentos (como os álbuns da série Corto Maltese de Hugo Pratt e o inédito Curupira de Flavio Colin), a editora estabeleceu-se em 2007 com um contrato de exclusividade para as linhas Wildstorm, ABC e Vertigo (que originou a excelente Pixel Magazine). Este ano, porém, a baixa vendagem de algumas edições gerou problemas financeiros que parecem ter levado ao fim da parceria entre a Ediouro e a Futuro. Com isso, a editora passou por um período de reestruturação administrativa e tem buscado novas estratégias e alternativas editoriais, que parecem dar agora seus primeiros resultados.

Ganhadora do HQ MIX de Melhor Editora de 2007, a Pixel teve que reduzir drasticamente seu volume de publicações neste semestre. Nos dois últimos meses, boa parte de suas edições foram encadernados de minisséries lançadas anteriormente (Fábulas: 1001 Noites, Wild C.A.T.s: Círculo Vicioso, Ex Machina: Símbolo). Com os problemas enfrentados, alguns lançamentos anunciados foram cancelados ou adiados (como o segundo volume de Monstro do Pântano, o relançamento de Homem Animal ou as edições mensais de 100 Balas) e algumas histórias ficaram pela metade, sem ainda a definição de sua continuação (como Authority: Choque de Realidades e Emmanuelle, lançadas em junho). Outro efeito do momento de “vacas magras” foi o abandono da publicação de quadrinhos brasileiros (que talvez seja retomada por outra empresa do grupo Ediouro).

No entanto, ao que parece, a reestruturação administrativa e a comercialização dos encadernados de revistas não-vendidas podem estar fazendo efeito. Para quem aguardava ansiosamente, a editora está levando às lojas o primeiro volume de sua reedição da série Sandman de Neil Gaiman (que chegará em formato reduzido, dezessete edições trimestrais e três especiais). Para o mês de outubro, além das edições de Pixel Magazine, Fábulas Pixel e Spawn, o editor-chefe Cassius Medauar anunciou no blog da Pixel a publicação da coletânea Hellblazer: Hábitos Perigosos (uma das histórias mais conhecidas de John Constantine, que forneceu elementos para o roteiro do filme de Hollywood) e também do encadernado Preacher: Memórias (com os três números dessa minissérie reunidos). Se não é a pujança dos primeiros meses deste ano, felizmente já é o sinal da retomada de uma linha editorial.

Enquanto os lançamentos de outubro não vêm, os leitores têm à disposição nas bancas mais um número da Pixel Magazine e a volta da Spawn (após alguns meses na geladeira à espera da assinatura de um novo contrato). Completando um ano e meio de circulação, a Pixel Magazine (96 páginas, R$10,90) chega com uma nova história de Frequência Global, a conclusão de DMZ: Corpo de Jornalista, o começo de uma nova história de Hellblazer e o terceiro capítulo de Y – O último homem (de longe a HQ mais interessante deste número 18). Já Spawn n°176 (28 páginas, R$5,90) traz a primeira parte de “O monstro na bolha”, história de terror com “arte pintada” e um monstro que parece saído do filme O enigma que veio do espaço de John Carpenter ou de um conto que H. P. Lovecraft.

31/08/2008

As novas edições das revistas Pixel.


Após redefinições editoriais, problemas e atrasos, as duas revistas de antologia da Pixel chegaram novamente juntas às lojas. Muito aguardada pelos leitores, Fábulas Pixel n°2 dá continuidade às histórias iniciadas na primeira edição, lançada em junho. Já a Pixel Magazine n°17 vem mostrar que a revista entrou mesmo numa nova fase, após a saída de Planetary e Promethea e a estréia de Y - O último homem e a volta de Frequência Global.

Ainda em definição e com uma periodicidade bimestral, o segundo número de Fábulas Pixel traz a continuação de Sandman Apresenta: Fúrias, mais uma HQ fechada de Astro City e dois capítulos de Fábulas: A Marcha dos Soldados de Madeira. Com direito à ilustração de capa e abrindo a edição, Sandman Apresenta: Fúrias dá continuidade à saga de Lyta Hall, a mulher diretamente responsável pela morte do Sandman Morpheus e mãe da criança que se tornou o Sandman Daniel. A própria personagem tem uma participação menor neste segundo capítulo, em que se destacam personagens saídos da mitologia grega e cenas tiradas da série Sandman original. Chamam a atenção, mais uma vez, as imagens em estilo realista, produzidas com técnicas de pintura.

A HQ de Astro City repete os padrões da série, mostrando um velho vilão às voltas com planos de riqueza e fama, que incluem uma passagem pelo “Rio de Janeiro”, cheia de lugares-comuns e irritantes estereótipos culturais. Fechando a revista, temos os capítulos 3 e 4 de Fábulas: A Marcha dos Soldados de Madeira. Enquanto o Príncipe Encantado prossegue em sua busca por poder e o Lobo com suas investigações policiais, Branca de Neve tenta manter a cidade e uma gravidez em ordem. Para completar, Chapeuzinho Vermelho, homens de preto, um pouco de sexo e morte. Embora dê para se perceber que as equipes criativas continuam as mesmas da edição anterior, merece nota o fato de que a editora esqueceu-se de dar crédito aos autores nesta segunda edição.

Por sua vez, a nova edição da Pixel Magazine traz os devidos créditos e confirma uma linha de histórias mais urbanas e contemporâneas. A revista apresenta novos capítulos de DMZ: Corpo de Jornalista e Y - O último homem, a reestréia de Freqüência Global e a conclusão da história Hellblazer: Boas Intenções, com John Constantine. Capa desta edição, o quarto capítulo de DMZ avança na história que mostra uma Nova York de um futuro caótico e violento. A seguir, vem a publicação do primeiro capítulo de Frequência Global, num roteiro de Warren Ellis com desenhos de Garry Leach. A trama da série envolve uma organização secreta voltada a enfrentar desafios gerados pelo mundo contemporâneo, algo bem ao estilo de séries e filmes de espionagem.

O ponto alto da revista é o segundo capítulo de Y - O último homem, série que conta a história de Yorick e seu macaquinho Ampersand, os últimos machos mamíferos do mundo. Em meio a uma crise estrutural internacional e ameaças por todos os lados, além de milhões de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, o último homem da Terra só quer mesmo reencontar sua amada. Para finalizar, a conclusão de Boas Intenções, atípica história de John Constantine, escrita por Brian Azzarello, que não agradou muito aos leitores em geral. Misturando perversão, lembranças e feras, esse último capítulo acaba por decepcionar aqueles, como eu, que ainda esperavam um bom desfecho para uma história que começou bem, mas se perdeu pelo caminho.

Indispensável para quem curte os quadrinhos do selo Vertigo, Fábulas Pixel e Pixel Magazine têm 96 páginas cada, no formato 17cm x 26cm, sendo vendidas ao preço de R$10,90. Para os leitores fiéis, um novo número de Pixel Magazine sai em setembro, enquanto a terceira edição de Fábulas Pixel chegará às bancas apenas em outubro.

11/08/2008

A despedida de Sandman.


Lançada em 1988 e concluída em 1996, The Sandman foi uma das melhores séries de quadrinhos já produzidas. Muito premiada durante sua publicação, o prestígio dessa obra só fez aumentar após seu encerramento, projetando internacionalmente o nome de seu criador, o roteirista inglês Neil Gaiman. Lançada no Brasil inicialmente pela editora Globo, a saga do Mestre dos Sonhos ganhou uma luxuosa reedição pela Conrad, que chega agora a seu décimo e último volume. Sandman: Despertar tem excelente qualidade gráfica, com capa-dura e 200 páginas em formato estendido, incluindo várias ilustrações produzidas por Dave Mckean, uma seção de auto-retratos dos autores envolvidos e outra com notas informativas, sendo vendido ao preço de R$69,90.

Reunindo as edições 70 a 75 da revista original, o último volume de Sandman é uma história sobre partidas e despedidas, sobre o “trabalho de luto” por amigos e amores que se vão, e também uma sábia reflexão sobre o sentido de nossas existências. Com a morte do Sandman Morpheus no volume anterior, é hora de todos prestarem suas homenagens. Ao mesmo tempo, seguindo a tradição inglesa de “o rei está morto; vida longa ao rei”, é também a hora de reconhecer o novo monarca do Sonhar, o Sandman Daniel. E é exatamente em torno disso que giram as três primeiras histórias do livro, ilustradas por Michael Zulli, nas quais somos testemunhas dos funerais de Morpheus.

Com a presença de soberanos de terras imaginárias, deuses das mitologias antigas, personagens saídos de histórias e também de pessoas comuns, os ritos fúnebres do Mestre dos Sonhos tiveram a devida “pompa e circunstância”. Compareceram também os membros de sua família, além de poucos e verdadeiros amigos, e de antigas namoradas e amantes. Podemos, assim, dizer que Morpheus teve um funeral invejável, não pela “pompa e circunstância”, mas pelo fato de ter sido amado e, ao final, compreendido. E enquanto nos narrava essa história, Gaiman despedia-se do personagem que o consagrou, falando-nos profundamente sobre perda e a necessidade de se seguir em frente.

Já o quarto capítulo trata da importância de prestarmos contas de nossos atos e escolhas. E não haveria personagem mais adequado para este capítulo do que Robert Gadling, o homem que tem a escolha de jamais morrer e que a cada cem anos encontrava-se com Morpheus para beber e conversar. Num passeio com sua namorada por um parque temático “medieval”, o imortal inglês acaba mergulhando nas lembranças de um passado que preferia esquecer e também recebendo a visita de uma querida irmã de Sandman. Além de contar uma história com dois de seus personagens favoritos, Gaiman utiliza “Luto Dominical” para falar do vergonhoso envolvimento inglês no tráfico de escravos africanos.

As páginas de Zulli para os quatro primeiros capítulos do livro representam bem o clima de luto. Suas imagens sombrias e pesadas evidenciam o trabalho minimalista de um desenhista que, se não era um talento nato, conseguiu com persistência estabelecer um estilo próprio, de beleza peculiar. Essa impressão é o oposto da que temos com o quinto capítulo de Sandman: Despertar, ilustrado por Jon J. Muth. Um virtuose da ilustração, Muth transpõe para o papel imagens quase etéreas, que imitam a leveza das antigas ilustrações e caligrafia chinesas, ao mesmo tempo em que traduzem o clima onírico de um roteiro que narra os encontros de um velho sábio com as duas versões de Sandman.

Por fim vem “A Tempestade”, capítulo no qual o Mestre dos Sonhos se encontra pela última vez com William Shakespeare. O dramaturgo inglês já havia aparecido na HQ “Homens de Boa Fortuna”, na qual faz um acordo com o Rei dos Sonhos, e também em “Sonho de uma noite de verão”, na qual entrega a primeira de duas peças que escreveria para Morpheus. Mostrando um Shakespeare envelhecido, cansado e melancólico, esse capítulo final mistura elementos da vida do escritor, a trechos de sua última peça. Mais uma homenagem de Gaiman a um de seus autores favoritos, a história desenhada por Charles Vess é um fechamento à altura para uma grande série de quadrinhos.

Uma HQ bem elaborada, o capítulo final de Sandman trata também de como as escolhas e suas consequências influenciam nossas vidas e as das pessoas à volta. Sem ter o valor de seu trabalho reconhecido pela mulher e sendo cobrado por sua filha por não ter sido um pai presente, Shakespeare se pergunta “se valeu a pena” viver pela arte. Poderíamos responder que “sim”, a esse autor de obras que continuam relevantes quase quatrocentos anos após sua morte. Ainda assim, esse é um questionamento que deve rondar os pensamentos de Gaiman e de todos que dedicam a vida à criação artística, muitas vezes deixando de lado o que outras pessoas chamam de “felicidade”.

Prova de que as HQs podem se igualar às melhores criações literárias de nosso tempo, esse último volume de Sandman não me agradou tanto quando o li pela primeira vez. Foi preciso que alguns anos se passassem e que eu amadurecesse para poder apreciar a beleza e compreender a profundidade dessa história em quadrinhos. Coincidentemente, há alguns dias eu conversava com uma querida amiga sobre escolhas e a passagem do tempo, sobre amor e perda. Ao acabar de ler Sandman: Despertar, fecho as páginas desse belo livro com aquela boa sensação que a verdadeira arte pode nos dar: a de que outras pessoas também sentem o que sentimos e de que, no fim, não estamos sós.

30/07/2008

Séries da Vertigo em lançamentos da Pixel.


Como foi bastante divulgado nas últimas semanas, a Pixel Media está passando por uma fase de reestruturação editorial e administrativa. Com isso, o volume de lançamentos da editora foi significativamente reduzido neste mês. Além disso, edições mensais como a Fábulas Pixel têm sofrido atrasos, enquanto o projeto de lançar quatro edições mensais seguidas de 100 Balas parece ter sido suspenso. Para consolo dos leitores, a editora levou às bancas duas boas edições com séries da Vertigo: a revista Pixel Magazine n°16 (96 páginas, formato 17cm x 26cm, R$10,90) e o encadernado Monstro do Pântano: Amor em vão – Completo (96 páginas, 16,5cm x 25cm, R$12,90).

A nova edição da Pixel Magazine traz capítulos das séries Hellblazer e DMZ, além de uma HQ curta de Histórias do Amanhã: Greyshirt. Mas o principal destaque desse número é a estréia de Y – O Último Homem. Escrita por Brian K. Vaughan, um dos roteiristas do seriado de tevê Lost, a série já teve algumas edições publicadas no Brasil, mas os editores da Pixel optaram por começar do início. Um dos grandes sucessos do selo Vertigo nos últimos anos, a série promete uma boa viagem para quem a acompanhar. Nesta primeira HQ introdutória, conhecemos o artista de fugas Yorick e o irritante macaco Ampersand. Após um misterioso evento, ao que parece todos os machos do planeta simplesmente morrem instantaneamente. Os únicos sobreviventes são o jovem norte-americano e o macaco que ele adotou como bichinho de estimação.

Uma trama superestrutural é sugerida, envolvendo alguma ficção científica e segredos governamentais, porém a primeira edição da série não vai muito além de uma introdução. Conhecemos as personagens fundamentais, como a namorada e a irmã de Yorick, além da agente conhecida pelo codinome 355. Qualquer desenrolar, no entanto, fica reservado para as edições seguintes. Quanto aos desenhos, o trabalho de Pia Guerra e Jose Marzan é competente em representar personagens e situações, embora não vá muito além em termos de expressividade artística. Baseado numa ambientação cotidiana, sem personagens ou sequências fabulosas, o visual da HQ reforça a sensação de que estamos lendo um quadrinho que mais parece um seriado da tevê. Precisamos agora esperar para ver aonde a criação de Vaughan e Guerra levará.

Uma nota curiosa diz respeito à antepenúltima página dessa HQ de estréia. Quando a li pela primeira vez numa coletânea promocional da Vertigo, dei uma risada diante do desconhecimento do roteirista e desenhista sobre a realidade brasileira. No primeiro quadro da referida página, no qual se lê “São Paulo, Brasil”, vemos uma cena num campo de futebol, onde dois times devidamente uniformizados se enfrentavam. As equipes, no entanto, são de jogadoras, usando camisas com números no lugar de escudos dos times, sendo que um deles ainda por cima se chama “Dellacruz”, enquanto o juiz da partida usa calças compridas e camisa listrada. Todos sabemos, é claro, que no Brasil o futebol feminino, infelizmente, não conta com times organizados, e que muito menos se fala espanhol por aqui.

Monstro do Pântano: Amor em vão – Completo nos leva por uma macabra, grotesca e aterrorizante viagem pelos rincões da Luisiana. Mais uma vez, o defensor do Verde se vê às voltas com seu mais recorrente inimigo e também alguns demônios saídos do inferno, tudo em meio a crises de identidade e casos amorosos. Escrita por Joshua Dysart e ilustrada por Enrique Breccia, “Love in Vain” foi publicada nas edições 9 a 12 da Swamp Thing e lançada originalmente pela Pixel em duas partes. O encadernado que chega à bancas agora é, na verdade, uma colagem do encalhe daquela primeira edição. Mas quem perdeu da primeira vez não deve deixar passar a nova oportunidade. Alguns pequenos vacilos na narrativa não chegam a comprometer essa HQ de imagens estranhissimamente arrebatadoras. Um terror na medida certa, que perpassa uma trama macabra repleta de situações e imagens grotescas. Um fruto estranho dos quadrinhos norte-americanos que, de forma original, brinca de rimar amor com terror.

29/06/2008

Local, mais um bom álbum autoral da Devir.


Ao longo dos anos, a Devir notabilizou-se pela publicação de álbuns autorais. O melhor exemplo disso são os álbuns de Lourenço Mutarelli, publicados pela editora a partir dos anos 90. O mais recente lançamento nessa linha é Local: Ponto de Partida, primeiro de dois volumes com a série criada pelos norte-americanos Brian Wood e Ryan Kelly.

Lançados por uma pequena editora, entre 2005 e 2006, os seis capítulos reunidos nessa edição são na verdade seis HQs autocontidas, que têm alguns pontos em comum. A exploração de diferentes possibilidades narrativas de acordo com a temática da história, os ótimos desenhos com contrastes e texturas reticuladas, o fato de cada capítulo se passar numa cidade da América do Norte e a presença da personagem Megan McKeenan são alguns desses fatores comuns.

Embora não seja necessariamente o “fio condutor” da narrativa, Megan é o principal ponto de interseção das histórias, aparecendo em geral como protagonista, mas também como mera coadjuvante, testemunha ou vítima. Cada capítulo avança um ano na vida da personagem, ao passo que ela muda de cidade para cidade, evolvendo-se em situações complicas ou até perigosas, e demonstrando dificuldade em estabelecer relacionamentos duradouros.

Conhecido no Brasil pela série DMZ da Vertigo, em Local Brian Wood demonstra boa habilidade narrativa e capacidade de imprimir verossimilhança às personagens. Sem efeitos bombásticos ou pirotecnias surpreendentes, o roteirista utiliza a ambientação e os elementos cotidianos para contar histórias críveis e originais. Embora a qualidade varie ao longo dos capítulos, sendo o primeiro e o terceiro de longe os melhores, o saldo geral é positivo.

Mas, certamente, Local não seria tão interessante e eficiente sem os desenhos de Ryan Kelly, também conhecido no Brasil por trabalhos para o selo Vertigo. Seu desenho lembra uma mistura de Paul Pope e Joe Sacco, mas tem expressividade e caráter próprios. Sua habilidade técnica mostra-se indispensável para a condução da narrativa, deixando a desejar apenas em algumas diferenciações fisionômicas de personagens masculinos.

Um dos elementos que fundamentam a série Local é o fato de cada capítulo se passar numa diferente cidade dos Estados Unidos ou Canadá. Mas o que deve despertar interesse em leitores desses países acaba se tornando um “ruído” para o leitor estrangeiro, que não tem as mesmas referências locais. Somam-se a isso as dispensáveis notas contextuais e observações dos autores após as HQs, apesar de as páginas de esboços serem um acréscimo interessante.

Para além de quaisquer problemas de identificação, a ambientação urbana das histórias torna-as acessíveis a qualquer leitor. E se os autores ainda nos dizem qual a “trilha sonora” para cada capítulo, as eventuais associações entre quadrinhos, cinema e música acrescentam um tom contemporâneo ao trabalho. Local até parece uma HQ da Vertigo, na qual o sobrenatural e a fantasia foram substituídos por elementos cotidianos e clima de rock.

Enfim, com algumas histórias interessantes, originalidade narrativa e bons desenhos, Local: Ponto de Partida é sem dúvida uma boa pedida. A edição, que traz alguns deslizes de revisão, tem 200 páginas em formato 16,5cm x 24cm, sendo vendida a R$32,00.

22/06/2008

Coletâneas trazem sociedades secretas e tramas conspiratórias.


Quem gosta de HQs com tramas conspiratórias e sociedades secretas tem motivos para comemorar. O principal deles é Os Invisíveis - Revolução 1, primeiro volume da Pixel com a série escrita por Grant Morrison e desenhada por Steve Yeowell e Jill Thompson. Outro lançamento que pode agradar aos fãs do gênero é Rex Mundi - Livro Dois de Arvid Nelson e Eric J, lançado pela Devir.

Publicada entre 1994 e 2000, Os Invisíveis é considerada por muitos a melhor criação do roteirista escocês Grant Morrison (mais conhecido no Brasil pela reformulação do Homem Animal e pela graphic novel Asilo Arkham). Reunindo as oito primeiras edições originais, Revolução 1 atira os leitores direto numa trama de dominação que mistura história, misticismo, anarquia, psicodelia, seres extradimensionais e um pouco de devassidão. Contemporânea do seriado Arquivo-X, a série de Morrison antecipa muitos dos elementos vistos nos filmes da trilogia Matrix (o que gerou acusações de plágio), formando uma trama bastante complexa, muitas vezes hermética e até mesmo perturbadora.

A história começa quando o jovem e rebelde Dane McGowan é convocado a tomar parte de um grupo secreto auto-intitulado “Os Invisíveis”. O que vemos nos capítulos seguintes é o processo de iniciação do rapaz em fundamentos da magia e conhecimentos secretos. Na segunda metade do volume, acompanhamos o treinamento e primeira missão do novo Invisível, num passeio pelas ruas da Paris nos tempos do Terror jacobino. Contando com a participação de libertinos, libertários e literatos (como Marquês de Sade, Lorde Byron e Percy Shelley), as últimas HQs da edição são formadas por saltos históricos, referências literárias, poesia simbolista, mitologia hindu e asteca.

Com suas referências históricas e literárias, além de um texto elaborado, a série de Grant Morrison deve agradar aos fãs de Sandman e de outras séries da Vertigo. Porém, os desenhos de Steve Yeowell, para os quatro primeiros capítulos, são bem ruinzinhos, embora as coisas melhorem, nas quatro partes finais, quando o lápis fica a cargo de Jill Thompson (a mesma desenhista de Sandman: Vidas Breves). Os Invisíveis - Revolução 1 tem 228 páginas em formato reduzido, sendo vendido ao preço (um tanto salgado) de R$44,90.

Com o segundo volume de Rex Mundi, a Devir dá continuidade à publicação de quadrinhos no esteio do sucesso de O Código Da Vinci (a mesma editora lançou há pouco Revelações de Paul Jenkins e Humberto Ramos). A HQ criada por Arvid Nelson e Eric J se passa em 1933, quando o roubo de um manuscrito medieval dá início a uma série de assassinatos, desvelando segredos de uma trama conspiratória. Informações criptografadas, ordens medievais, cavaleiros mascarados e celebrações blasfemas dão o tom dos capítulos desse volume. Em meio a tudo, o Doutor Julien Saunière continua em busca de uma verdade que pode levá-lo a encontrar o Santo Graal ou a própria morte.

Série lançada em 2001 (portanto anteriormente a O Código Da Vinci), não se pode deixar de notar algumas intercessões de Rex Mundi com Os Invisíveis, a começar pela temática conspiratória e principalmente nas referências aos Templários e a João Batista (talvez meras coincidências). Além disso, na HQ de Arvid Nelson e Eric J, os desenhos também não são da melhor qualidade, parecendo muito estáticos e pouco expressivos. Rex Mundi - Livro Dois tem 192 páginas em formato reduzido, sendo vendido ao preço (também salgadinho) de R$43,50.

19/06/2008

A nova Fábulas Pixel e a Pixel Magazine nova.


Numa postagem anterior, eu analisei a Pixel Magazine, que chamei então de a melhor revista mensal do momento. O fato é que o sucesso dessa publicação motivou a Pixel Media a investir em outra antologia mensal com as séries da Vertigo, Wildstorm e ABC. Mas, com o surgimento e a abertura de espaço para a Fábulas Pixel, a revista original está passando por uma fase de transição, com a saída de séries consagradas, retornos e estréias.

Muito aguardada pelos leitores, porém atrasada por problemas editoriais e gráficos, Fábulas Pixel estreou com as séries Fábulas, Astro City, Sandman Apresenta: As Fúrias e Histórias do Amanhã: Jack B. Quick. A edição abre com um “Dossiê: Fábulas”, seguido dos dois primeiros capítulos da história “A Marcha dos Soldados de Madeira”. No centro das atenções, mais uma vez, estão Branca de Neve, Lobo Mau e Príncipe Encantado, aos quais se junta agora Chapeuzinho Vermelho.

Em seguida, Astro City nos apresenta Loony Leo, um melancólico leão saído do cartaz de um desenho animado. Essa nova HQ da cidade dos super-heróis pode ser definida como um cruzamento dos filmes Casablanca e Uma Cilada para Roger Rabbit. Já As Fúrias dá continuidade aos eventos mostrados em Sandman: Entes Queridos. Reencontramos, então, Lyta Hall ainda tentando se adaptar à vida sem seu filho Daniel, que se tornou o novo Sandman. Por fim, o inventivo Jack B. Quick testa mais uma vez as leis da física e os limites da sanidade.

Certamente, Fábulas Pixel é uma revista acima da média, embora o conjunto de HQs reunidas neste primeiro número careça um pouco de unidade. Se por um lado, devido aos estilos de desenho e personagens envolvidos, os capítulos de Fábulas e o conto de Astro City chegam quase a se confundir, por outro, o visual realista e sombrio de As Fúrias e a ficção científica cômica de Jack B. Quick destoam da proposta de fantasia da revista. Por isso, sua irmã mais velha ainda parece merecer o título de melhor revista mensal do momento.

Contudo, após pouco mais de um ano nas bancas e de ter atingido seu auge nos números 12 e 13, a Pixel Magazine está passando por uma fase de transição. Pelo menos é o que sugerem as alterações nos números 14 e 15, que trouxeram a publicação do último capítulo pronto de Planetary e a confirmação da mudança de Promethea para a Fábulas Pixel. E com a saída de duas das séries principais, seguramente muitos leitores estão se perguntando se a Pixel Magazine manterá a qualidade que mostrou em seu primeiro ano de vida.

A julgar pelos reforços e substitutos mais imediatos, a resposta infelizmente é: não. Afinal, as séries DMZ e Frequência Global podem ter seus elementos interessantes e cativarem muitos leitores, mas nem de longe chegam perto da sofisticação de Planetary e da qualidade artística de Promethea. Com isso, quem acaba não deixando a “peteca cair” é o velho e falivelmente infalível John Constantine. Para quem tem acompanhado, as Pixel Magazine n°s 14 e 15 dão continuidade à história “Boas Intenções”, com seu clima de terror e sadismos à moda norte-americana.

Para os leitores que fizeram o sucesso da Pixel Magazine em seu primeiro ano, ficam de crédito a fantástica capa e o penúltimo capítulo de Planetary no número 14 e a revolucionária composição narrativa da HQ de Promethea na número 15, além é claro dos bons capítulos de Hellblazer. Quanto a Fábulas Pixel, é preciso dar tempo para que a proposta da revista amadureça e encontre seu caminho próprio, considerando-se que a estréia mostrou-se promissora. As duas revistas mensais da Pixel têm 96 páginas, em formato 17cm x 26cm, sendo vendidas a R$10,90.

13/06/2008

Fábulas: uma visão desencantada dos seres encantados.


Nos últimos anos, a série Fábulas tornou-se (ao lado da bem-sucedida 100 Balas) um dos principais carros-chefe do selo Vertigo. Criado pelo roteirista Bill Willingham, este épico repleto de seres fabulosos voltou recentemente às prateleiras de quadrinhos no especial Fábulas: Lendas no Exílio (já lançado no Brasil pela Devir). Trazendo as cinco primeiras HQs lançadas em 2002, a edição da Pixel reúne um mistério policial e muitas referências literárias, numa abordagem “desencantada” dos personagens das histórias da carochinha.

Semelhante ao que vemos no caso da Imatéria em Promethea, em Fábulas também temos uma dimensão paralela habitada por seres saídos de histórias. Na série criada por Willingham, trata-se das chamadas “Terras Natais”, dimensão onde os personagens dos contos de fadas tradicionais seguiram vivendo suas histórias. Um dia, porém, os cruéis exércitos de um ente poderoso, conhecido como “O Adversário” ou “O Imperador”, invadiram os reinos das fábulas, expulsando ou assassinando seus habitantes. Os mais afortunados, no entanto, conseguiram encontrar uma passagem dimensional para “o mundo terreno”. E é vivendo em nossa realidade e interagindo com os seres humanos que encontramos a Branca de Neve, o Lobo Mau, a Bela e a Fera, entre outros.

Mas, ao contrário da imagem polida e idealizada dos contos de Grimm ou Perrault, em Fábulas temos uma visão mais crua desses personagens. Afinal, logo nas primeiras páginas somos apresentados a uma burocrata insensível (Neve), a um policial melancólico (Lobo) e a um casal em crise conjugal (a Bela e a Fera). Com uma considerável dose de cinismo e uma busca de interação mais realista entre os personagens, o que temos na série concebida por Willingham é um exemplo do chamado “desencantamento do mundo”, aplicado aqui aos seres encantados. Nesse sentido, a proposta de Fábulas é o inverso da que vemos em Promethea, na qual Alan More propõe um “reencantamento” do mundo cotidiano pelos aspectos mágicos e fabulosos da narrativa.

Contudo, ao reintroduzir sexo, sangue e questões cotidianas na história das fábulas, Willingham de certa forma conseguiu aproximá-las de sua origem popular. Afinal, antes de serem domesticados e moralizados pelos escritores e folcloristas que recolheram e fixaram suas versões escritas, os contos tradicionais eram bem mais explícitos, violentos e sexualizados. Num outro viés, destaca-se a narrativa da expulsão das fábulas pelos exércitos do Imperador, apresentada pelo roteirista num paralelo à sucessiva invasão de Estados europeus pelos exércitos alemães comandados por Adolf Hitler. O Imperador em si aparece como um sátiro ou o deus grego Pã, sendo na HQ também chamado de O Adversário (a tradução para o português da palavra bíblica “satã”).

Os cinco primeiros capítulos de Fábulas formam uma história interessante, com direito a trama policial, referências literárias e intrigas palacianas. O desfecho pode não ser dos mais surpreendentes, mas chega a ser engenhoso, principalmente pela forma como quadros do primeiro capítulo são reutilizados. Muito interessante mesmo é o texto que fecha o volume, “Um Lobo no Galinheiro”, que narra alguns dos fatos ocorridos logo após a invasão das Terras Natais. Quanto aos desenhos de Lan Medina, Steve Leialoha e Craig Hamilton, pode-se dizer que são competentes, embora não muito expressivos (ou seja, aquele tipo de traço em que falta algo). Fábulas: Lendas no Exílio tem 128 páginas, formato reduzido 17 cm x 24 cm, ao preço de R$32,90.

Para os fãs da série também chegou às bancas este mês uma nova revista mensal, a Fábulas Pixel, com o início de um novo arco de Fábulas, o primeiro capítulo de Sandman Apresenta: As Fúrias e HQs de Astro City e Contos do Amanhã.

04/06/2008

Pixel “manda bala” com 100 Balas.


Com o fim da série Sandman em 1996, a supervisora editorial do selo Vertigo, Karen Berger, iniciou um processo de reformulação da linha de quadrinhos adultos da DC Comics, apostando em novos gêneros e autores. Uma das séries lançadas nessa fase foi 100 Balas, criada por Brian Azzarello e Eduardo Risso. Para quem perdeu as primeiras edições, a Pixel relançou recentemente as cinco primeiras HQs dessa série de crime e vingança, enquanto, a título de experiência, lança também uma sequência de quatro revistas mensais.

Quadrinhos envolvendo detetives, policiais e bandidos fizeram muito sucesso nos anos 30 e 40, refletindo as questões sociais da realidade norte-americana da época. Com isso, personagens como Dick Tracy, Spirit, Batman e Homem-Borracha fizeram carreira ajudando a polícia a solucionar crimes e manter “a lei e a ordem”. Nas últimas décadas, porém, aconteceu uma alteração nos personagens enfocados e nos ambientes retratados, acompanhada de uma mudança na própria lógica narrativa. Os tradicionais quadrinhos de detetive e as revistas policiais passaram a ser substituídos pelo que podemos chamar de histórias de crime.

O resultado foi uma busca por enredos menos maniqueístas e mais realistas, acompanhada de deslocamentos nos papéis tradicionais do “mocinho” e do “bandido”. Uma violência urbana crua, incompetência e corrupção policial, personagens falíveis e excluídos dos benefícios de uma sociedade que os tenta ignorar, esses são os principais elementos das novas histórias de crime. Nos quadrinhos, o sucesso da série Sin City foi o grande catalisador de um renovado gênero noir. Por suas características temáticas e visuais, inegavelmente a herdeira e prolongadora da linha iniciada por Frank Miller foi 100 Balas de Brian Azzarello e Eduardo Risso.

A premissa básica é esta: um enigmático homem, que se identifica pelo nome Agente Graves, aproxima-se de uma determinada pessoa e lhe entrega uma maleta contendo uma arma, cem balas que não podem ser rastreadas e provas irrefutáveis contra alguém que tenha destruído sua vida. Além disso, Graves promete à pessoa escolhida imunidade legal para levar a cabo sua vingança contra quem a prejudicou. No geral, os roteiros de 100 Balas buscam retratar os subúrbios e submundos das grandes cidades, tendo como protagonistas pessoas comuns que acabam se deixando levar pelas circunstâncias. Já os desenhos primam por representar diferentes grupos étnicos, baseando-se fundamentalmente num contraste entre preto e branco.

A coletânea 100 Balas: Atire primeiro... traz as cinco primeiras histórias da série, acompanhadas de uma HQ curta, em 128 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço de R$14,90. Nas três primeiras partes, somos apresentados ao Agente Graves, ao Sr. Shepherd e a Dizzy Cordova, uma jovem recém-saída da prisão, que receberá a “dádiva” das cem balas. Já na história curta que se segue, na noite de Natal uma velhinha vai à delegacia, arrependida por ter aceitado a oportunidade de se vingar, três anos antes. Na sequência final em duas partes, é a vez de um ex-empresário, que viu sua vida desmoronar ao ser injustamente acusado, apostar sua sorte numa vingança, não sabendo que, na verdade, ele não passa de um peão numa trama maior.

Elementos da trama de conspiração que envolve a série anunciam ser desvelados em 10 Balas: Parlez Kung Voux 1, uma revista de 48 páginas, formato 17 cm x 26 cm, ao preço R$ 7,90. Primeira de quatro revistas que a Pixel programou lançar mensalmente, a edição traz os números 12 e 13 da série original. Passada em Paris, a história mostra a volta de Dizzy Cordova, agora trabalhando diretamente para o Agente Graves e o Sr. Shephard. A despeito da mudança de cenário, não faltam as cenas em bares, sequências de brigas e até um pouco da nudez feminina que Azzarello e Risso pegaram emprestado de Miller e tornaram a marca registrada de suas próprias revistas. Para quem tem acompanhado a série, a edição faz o prenúncio de grandes revelações.

Pessoalmente, à parte o efeito sonoro e emblemático do título, desde o início sempre questionei por que alguém precisaria de "cem balas" para matar outra pessoa. Mais que isso, a lógica “olho por olho” que embasa a série sempre me incomodou. O fato, contudo, é que a premiada 100 Balas é um sucesso também entre os leitores brasileiros, ganhando atenção mais que especial da Pixel.

05/05/2008

A melhor revista mensal do momento.


No Brasil, tornou-se comum a edição das HQs norte-americanas em publicações com mais de uma história e diferentes séries a cada mês (diferente do país de origem, onde os comic books trazem geralmente apenas uma aventura por número). As chamadas “revistas mix” ou “antologias de quadrinhos” consolidaram-se nos tempos dos formatinhos da Abril, sendo hoje utilizadas nas edições mensais da Panini para os super-heróis Marvel e DC. Mas não há dúvida de que, em termos de qualidade, a melhor revista mensal do momento é a Pixel Magazine.

Publicação que reúne algumas das principais séries das linhas Vertigo, Wildstorm e ABC, a revista mensal da Pixel Media completou há pouco um ano de circulação e sucesso comercial. Tanto que, a partir deste mês, ela ganhará uma irmã e concorrente (a Fábulas Pixel), passando por uma reformulação em seu elenco de séries. Alguns leitores manifestaram insatisfação com parte das mudanças anunciadas no blog da editora, mas só o tempo poderá dizer qual efeito elas terão. E enquanto a nova fase não vem, os números 12 e 13 da Pixel Magazine deram uma boa mostra do porquê ela merece nosso aplauso. As duas edições mais recentes da revista trouxeram uma escalação de séries semelhante: Monstro do Pântano e Hellblazer (da Vertigo), Planetary (da Wildstorm) e Promethea (da ABC).

Na capa do número 12, os leitores são convidados a uma aterrorizante viagem aos pântanos da Luisiana, levados pelo traço inconfundível de Richard Corben. O desenhista que ficou conhecido internacionalmente pelas páginas da Heavy Metal ilustra uma história escrita por Will Pfeifer, repleta de referências a seres da mitologia popular (como o Pé-Grande e o Monstro de Lock Ness). Muito bem narrada e utilizando de forma original o universo da criptozoologia (o desacreditado “estudo de animais ocultos”), essa HQ foi a melhor de toda a nova série Swamp Thing lançada nos Estados Unidos em 2004. Trata-se, porém, de uma história em duas partes e sua continuação, publicada na Pixel Magazine n°13, não tem a mesma força narrativa, perdendo-se em personagens secundários e subtramas sobrenaturais. Mas seguramente os desenhos de Corben continuam valendo a leitura.

Hellblazer traz os primeiros capítulos de uma nova história, escrita por Brian Azzarello e desenhada por Marcelo Frusin. No primeiro deles, recém-saído da cadeia John Constantine pega carona para um fim-de-mundo. Má companhia como sempre, o mago londrino faz um incauto motorista suar frio. Então, mais uma vez a sincronicidade coloca o personagem no lugar certo na hora certa para fazer o que deve ser feito. Com um roteiro bem estruturado (que se vale dos diálogos para construir uma tensão crescente), a HQ cumpre sua promessa de um bom desfecho. No capítulo seguinte, publicado na Pixel Magazine n°13, Constantine chega a uma encruzilhada, na qual questões mal resolvidas no passado podem determinar seu futuro. Repletos de crime e cotidiano, os dois capítulos parecem um híbrido de Hellblazer e 100 Balas, não apenas pelo roteiro de Azzarello, como também pelos desenhos contrastados de Frusin.

Quanto a Planetary, é a vez das edições 24 e 25 da cultuada série. Na primeira delas, Snow, Jakita e Baterista vêm ao “Brasil” em sua busca pela verdade sobre Os Quatro. Numa HQ que abre com o Cristo Redentor e mostra no próximo quadro a rua de um Rio de Janeiro um tanto hispânico, o fundamental são os diálogos que ajudam a montar o quebra-cabeça Planetary. Claro que, em se tratando de um roteiro de Warren Ellis, não poderia faltar uma carnificina no fim (que dessa vez custa a vida de alguns “brasileiros”). Na edição seguinte, os Arqueólogos do Impossível vão à caça do agente secreto John Snow, com direito a bastante pancadaria e à origem de Os Quatro revelada. Tendo conquistado os leitores com suas tramas de conspiração, citações à cultura pop e elementos de ficção científica, Planetary deve grande parte de seu sucesso ao competentíssimo desenhista John Cassaday, em grande estilo nessas edições.

Para completar os números 12 e 13 da Pixel Magazine, temos os capítulos 9 e 10 da série Promethea. No primeiro, a semideusa de Imatéria parte para um confronto direto com o Templo, em mais um bom roteiro de Alan Moore com ótimos desenhos de J.H. Williams III e Mick Gray. Mas o melhor fica para a edição seguinte, que traz na capa uma ilustração parafraseando o álbum Srt. Pepper’s dos Beatles e a fantástica história “Sexo, Estrelas & Serpentes” (ganhadora do prêmio Eisner de Melhor Edição Individual do ano 2000). Uma belíssima composição de misticismo, erotismo e quadrinhos, a HQ é ao mesmo tempo um banquete para os olhos e um deleite para a mente. Um trabalho único que consegue ser, ao mesmo tempo, profundamente culta e deliciosamente excitante. Em resumo, uma obra-prima!

No geral com uma boa seleção de histórias e desenhos, 96 páginas e vendida atualmente ao preço de R$10,90, a Pixel Magazine também se destaca pelos detalhes editoriais. Se é a história de capa que abre cada edição, os leitores não deixam de conhecer as ilustrações das capas das demais histórias, sempre reproduzidas no interior da revista. Além disso, há os textos introdutórios ou explicativos que ajudam a situar os leitores na trama (num trabalho bastante eficiente do editor Cassius Medauar). Para arrematar, temos a ótima qualidade de impressão da revista, que reproduz com fidelidade as cores das páginas originais.
Assim, por todos os motivos apresentados aqui, Pixel Magazine é a melhor revista mensal publicada no Brasil atualmente. Pode-se argumentar que, com a mesmice Marvel e DC publicada pela Panini, ser a “melhor” não é uma tarefa muito difícil. Mas, independentemente da fraca concorrência, a maior virtude da Pixel Magazine fala por si só: a de ser uma revista que trata os leitores como seres pensantes. Que continue assim por muitos meses mais!

15/04/2008

Pondo ordem na casa da Vertigo.


Surgida há dois anos de uma associação entre a Ediouro e a Futuro Comunicação, a Pixel Media chegou com a proposta de publicar HQs de qualidade a preços mais acessíveis. Surpreendendo inicialmente com ótimos lançamentos, como os álbuns da série Corto Maltese e o inédito Curupira de Flavio Colin, a editora estabeleceu-se no último ano com uma seleção de títulos das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo. Esta última, em especial, teve uma trajetória acidentada no Brasil, o que está exigindo da Pixel algum trabalho para simplesmente “por ordem na casa”.

No início dos anos 90, as editoras Abril e Globo dividiam a publicação das HQs de terror e suspense da DC Comics, Monstro do Pântano, Hellblazer e Sandman, bem como das minisséries escritas por Neil Gaiman, Os livros da magia e Morte. Mas a trajetória do selo Vertigo no Brasil começou mesmo em 1995, quando foi lançada pela Abril a revista Vertigo, um pacote que reunia as séries Livros da Magia, Sandman: Teatro do Mistério e Hellblazer. A publicação durou apenas um ano, e logo as séries da Vertigo passaram às mãos de outra editora nacional. Era a vez de a Metal Pesado fazer sua tentativa de emplacar a linha de quadrinhos adultos da DC, privilegiando personagens já conhecidos no Brasil, como Monstro do Pântano, Homem Animal e John Constantine. Apesar de alguns acertos, a experiência também não durou muito e os leitores ficaram mais uma vez “a ver navios”.

A partir daí, tudo foi só se complicando, uma vez que as HQs da Vertigo passaram a ser divididas por diferentes editoras, com as mais variadas propostas e periodicidades. Brainstore e Opera Graphica foram talvez as que mais títulos lançaram nesse período, privilegiando séries como Preacher e 100 Balas, mas deixando um legado de confusões na continuidade e edições impressas com qualidade bastante duvidosa. Nos últimos anos, somou-se ao quadro a Conrad com sua luxuosa coleção de Sandman e a Devir com suas coletâneas em formato reduzido de Monstro do Pântano, Hellblazer, entre outras séries. Mas foi aí que entrou em cena a Pixel. Conseguindo um contrato de exclusividade para a publicação no Brasil das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo, a editora tem primado por edições bem impressas, a preços mais “camaradas”. Além disso, parte de seu trabalho tem sido organizar e completar a publicação de séries que não haviam recebido um tratamento adequado por outros editores.

Um bom exemplo disso são alguns dos lançamentos mais recentes da editora. Preacher: Guerra ao sol dá continuidade à “saga” do pastor descrente Jesse Custer, de sua namorada Tulipa e de seu amigo vampiro Cassidy. Com direito a algumas cenas escatológicas, um pouco de sexo, muitos palavrões e bastante violência, a edição escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon é uma “dádiva” para os fãs de Preacher. Lembrando muito uma versão mais abismal do seriado Arquivo-X ou do filme Dogma, a série tornou-se um dos carros chefes da Vertigo, conquistando uma legião de fãs também no Brasil. Eu não me incluo entre os admiradores da série, mas é admirável o cuidado da Pixel com sua publicação. Além de seguir o formato utilizado pela editora anterior, Guerra ao sol conta com textos para situar o leitor na história, uma apresentação dos principais personagens, a reprodução das ilustrações de capa originais e a indicação do número da revista e data de publicação nos Estados Unidos.

Outro lançamento para os fãs da Vertigo é 100 Balas: Dia, hora, minute... man. Reunindo os números 8 a 11 da série original, a revista traz duas HQs completas e outra em duas partes com roteiros de Brian Azzarello e desenhos de Eduardo Risso. Como de costume, tramas criminais, dramas cotidianos e muitos tiros dão o clima para uma edição com um pouquinho de sexo e muito sangue. Melhor mesmo é o número 12 da Pixel Magazine, revista mensal com séries das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo. Abrindo a edição, uma ótima história com o Monstro do Pântano, escrita por Will Pfeifer e desenhada por Richard Corben. A seguir, pegamos carona com John Constantine num roteiro escrito por Brian Azzarello e desenhado por Marcelo Frusin. Mas o melhor desse número fica por conta, é claro, do nono capítulo da série Promethea de Alan Moore e J.H. Williams III. Fechando a revista, Warren Ellis e John Cassidy levam os personagens de Planetary numa explosiva visita a um suposto Rio de Janeiro.

Embora os preços da Pixel tenham subido um pouco neste mês, devido ao aumento dos custos gráficos, suas revistas mais simples continuam relativamente baratas. A editora lançará ainda este mês a nova revista mensal Fábulas Pixel, além de ter anunciado para breve os relançamentos de Os Invisíveis e Homem Animal de Grant Morrison, do segundo volume de Monstro do Pântano de Alan Moore e da versão “remasterizada” de Sandman de Neil Gaiman. Com tantos planos e exibindo saúde editorial, seria excelente se agora a editora voltasse um pouco de sua atenção novamente para os quadrinhos europeus e, principalmente, brasileiros. No mais, até aqui, a Pixel tem dado um bom exemplo de competência e respeito pelos leitores. Preacher: Guerra ao sol tem 176 páginas, “formato paraguaio”, como se tem chamado jocosamente, e custa R$35,90. Já 100 Balas: Dia, hora, minute... man e Pixel Magazine n°12 têm 96 páginas e “formato americano”, sendo vendidas por R$9,90.

06/04/2008

Sandman: Entes Queridos em edição luxuosa.


The Sandman foi a melhor série dos quadrinhos norte-americanos nos anos 90. Seu criador, o roteirista inglês Neil Gaiman, afirmou em diversas ocasiões ter se surpreendido com o sucesso de uma revista que ele imaginava durar apenas vinte números. O fato, porém, é que o Mestre dos Sonhos conquistou uma legião de fãs, acumulando prêmios e reedições ao longo dos anos. Agora, com uma ótima produção gráfica, a Conrad lança Sandman: Entes Queridos, o mais extenso e um dos melhores volumes da série.

A HQ que abre a edição é “O Castelo”, história curta em que Gaiman nos convida a um passeio pela morada do Rei dos Sonhos, onde encontramos alguns de seus principais auxiliares. Produzido em parceria com o eficiente Kevin Nowlan e publicado originalmente na revista Vertigo Jam, esse pequeno conto acaba sendo uma introdução bastante adequada para Entes Queridos. Lançado nos Estados Unidos entre 1993 e 1995, The Kindly Ones foi o clímax dramático da série, com sua trama inspirada nas tragédias gregas e fazendo uma espécie de revisita aos demais “arcos de histórias” (termo pelo qual os volumes de Sandman ficaram conhecidos).

Trazendo o primeiro dos treze capítulos da história, The Sandman n°57 foi bastante aguardada pelos leitores, chegando com frisos dourados na capa, um roteiro excelente, desenhos, cores e letras perfeitos (diga-se de passagem, essa talvez tenha sido a revista que mais gostei de ler nos anos 90). Gaiman e seus colaboradores iniciavam ali uma jornada repleta de mitologia clássica, povoada de personagens carismáticos e marcada por diálogos simplesmente precisos. E se os leitores na década de 1990 tiveram que esperar mais de um ano para ler a conclusão dessa verdadeira “saga”, os de hoje têm o benefício de poderem conhecer tudo de uma só vez.

Sandman: Entes Queridos é o que se pode chamar (copiando o título do livro de Gabriel García Márquez) de a “crônica de uma morte anunciada”. Basta lembrar que no volume anterior, Fim dos Mundos, os leitores já haviam presenciado o que parecia ser o cortejo fúnebre do Mestre dos Sonhos. E se Entes Queridos é uma “tragédia”, nada mais apropriado do que apresentar uma história da qual o público já saiba o fim (não deixando por isso de se envolver, emocionar e aprender com o que presencia pelo caminho). Sim, Morpheus morre no último capítulo, cumprindo exemplarmente um “destino trágico”, que é aquele no qual, por mais que atue buscando o contrário, o herói acaba contribuindo para sua trágica sina (exemplo: por mais que tente fugir, Édipo acaba matando seu pai e se deitando com sua mãe).

As primeiras páginas de Entes Queridos servem como um prólogo, no qual presenciamos um chá de fim de tarde na casa das três Moiras (entidades irmãs responsáveis por tecer os destinos dos homens e dos deuses, também conhecidas como as Parcas). Escritor afeito a metáforas, Gaiman não perde a oportunidade de iniciar aí várias referências ao próprio ato de contar histórias (com isso, o primeiro quadro dos capítulos é uma metáfora visual para o “fio da história”, ora na forma de um novelo, ora como um cabo de energia ou um fio de telefone). Além disso, o roteirista sempre demonstrou uma fascinação por tríades femininas, e acabamos revendo as três damas das primeiras páginas transfiguradas, mais tarde, nas Três Bruxas (de Macbeth) e também nas temíveis Fúrias (da mitologia clássica), entre outras entidades mitológicas. E a mitologia tem, de fato, um lugar central nessa trama.

Quem leu Vidas Breves sabe que o Mestre dos Sonhos tirou a vida de alguém da própria família, o que era considerado uma ofensa gravíssima na Antiguidade. A punição para ela ficava a cargo das Erínias (na versão grega) ou Fúrias (na versão romana), que desencadeavam os mais diversos infortúnios, culminando na destruição de quem praticara o crime de sangue. Não é à toa, portanto, que o título original do penúltimo volume de Sandman refere-se exatamente àquelas entidades vingadoras. Afinal, uma tradução mais apropriada para The Kindly Ones seria “As Benevolentes”. Esse era o eufemismo pelo qual as Fúrias eram chamadas, numa forma de superstição antiga, por se ter medo de nomeá-las diretamente. Aliás, no capítulo 4 da HQ, alguns personagens chegam a ser referir a isso, sugerindo chamá-las de “the kindly ones” (“as bondosas” na tradução da Conrad).

Mas nem só de mitologia clássica se faz Entes Queridos, uma HQ que funde realidade e ficção, terror e fantasia, citações literárias e referências televisivas, tudo costurado com uma narrativa impecável. A história começa de forma corriqueira, com a heroína aposentada Hipolyta Hall passeando com seu filhinho Daniel (que fôra concebido no Reino dos Sonhos). Passamos depois para um irrequieto Corvo Matthew (às voltas com uma crise existencial) e somos reapresentados a alguns dos funcionários do Sonhar (como o faz-tudo Merv, a fada Nuala e o bibliotecário Lucien). Os acontecimentos começam a se acelerar quando Daniel desaparece misteriosamente e entram em cena personagens saídos de volumes anteriores. O que vemos nos capítulos 1 a 5 e 7 (as partes 6 e 8 são interlúdios) é uma escalada narrativa conduzida de forma magistral por Gaiman, que ainda nos presenteia com passagens engraçadas e diálogos brilhantes.

Mas nem só de seu roteiro se faz Entes Queridos, pois para termos uma ótima HQ são necessários desenhos da melhor qualidade. E é exatamente isso que vemos na maior parte das mais de trezentas páginas desse volume (em que se destacam algumas das mais belas da série Sandman). Embora dois capítulos e algumas sequências tenham sido produzidos por outros desenhistas (provavelmente por questões de prazos editoriais), a maior parte do trabalho ficou por conta do talentosíssimo Marc Hempel. Seu traço cartunizado e conciso, conciliado às cores de Daniel Vozzo, dá origem a imagens expressivas e comunicativas, servindo tanto para ressaltar os elementos mais cotidianos do roteiro, quanto os aspectos mais arquetípicos dos personagens (vide as Moiras ou os deuses nórdicos). E pode-se dizer que raras vezes o próprio Mopheus pareceu tão melancólico, exótico ou ameaçador.

A soma de todas essas virtudes é uma belíssima HQ em que o protagonista tem inicialmente uma participação colateral, personagens secundários assumem o primeiro plano e, ao final, temos uma conclusão inteligente e uma emocionada despedida. Para coroar o trabalho, um epílogo em que revemos as damas das primeiras páginas de volta ao papel das Moiras e às voltas com chás da tarde, biscoitos da sorte e metáforas metalinguísticas. Sim, no geral, Entes Queridos é uma obra-prima e provavelmente o melhor volume de Sandman. É também um dos últimos grandes trabalhos de Neil Gaiman, que tem deixado a desejar em seus quadrinhos feitos para a Marvel, isso sem falar em seus roteiros para o cinema (devo confessar que ainda não me interessei por ler sua literatura). De qualquer forma, este penúltimo volume é um clímax mais que à altura de uma das melhores séries dos quadrinhos nas últimas décadas.

Sandman: Entes Queridos é um livro “de peso” (tanto em termos literários, quanto literais). Além das quatorze HQs, o volume traz as capas originais criadas por Dave McKean, um pertinente prefácio, um pequeno posfácio e uma detalhada seção de notas (embora algumas importantes citações literárias e referências a personagens da série tenham passado despercebidas pelos editores). Impresso em tamanho estendido (19xm x 28cm), com capa-dura e trezentas e sessenta páginas de miolo, a edição chega às lojas custando R$94,00. Embora o preço seja meio “salgado”, a qualidade artística da HQ e a boa produção gráfica do livro devem garantir a satisfação dos novos e antigos fãs de Morpheus. E mesmo para quem não acompanhou a série desde o início, mas gosta de boas histórias com muitos elementos mitológicos, esse volume é uma ótima pedida. Você na certa vai encontrar em Sandman muito mais valor literário e até mesmo “magia” que em qualquer livro de Harry Potter.