
A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas falar em “realismo” nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal, algo que se chame de “realista” pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de “mundo real”. Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou se transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo que pudéssemos chamar estritamente de “realista”.
Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais realista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou contextualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esses trabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, influenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unidos (como minisséries de luxo e graphic novels).
Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um “trabalho de assassinato”. O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnicamente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crítica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspectos mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.
Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha para ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender muito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político visto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moore acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.
Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violência explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a “leitores maduros” e ambientadas numa realidade similar ao chamado “mundo real”, essas publicações não poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e editada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.
Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernado da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crânio esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo depois, bastante cinismo e alguns palavrões.
Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa, sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástico Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextualizada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revistas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabalho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperando!
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