Mostrando postagens com marcador Garth Ennis. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Garth Ennis. Mostrar todas as postagens

20/04/2010

Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis.


A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas falar em “realismo” nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal, algo que se chame de “realista” pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de “mundo real”. Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou se transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo que pudéssemos chamar estritamente de “realista”.

Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais realista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou contextualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esses trabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, influenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unidos (como minisséries de luxo e graphic novels).

Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um “trabalho de assassinato”. O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnicamente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crítica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspectos mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.

Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha para ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender muito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político visto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moore acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.

Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violência explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a “leitores maduros” e ambientadas numa realidade similar ao chamado “mundo real”, essas publicações não poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e editada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.

Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernado da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crânio esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo depois, bastante cinismo e alguns palavrões.

Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa, sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástico Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextualizada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revistas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabalho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperando!

(CONTINUA)

21/11/2008

Garth Ennis em coletânea e encadernado da Pixel.


O irlandês Garth Ennis beneficiou-se da chamada “invasão britânica” que tomou conta dos quadrinhos da DC Comics nos anos 80. Afinal, foi o trabalho de outros autores britânicos (como Alan Moore, Jamie Delano, Neil Gaiman e Grant Morrison) que estabeleceu o terreno onde Ennis pôde desenvolver seus peculiares roteiros. Estreando na revista Hellblazer, ele se consagraria com Preacher, série que traz uma trama conspiratória, em meio a um pouco de sexo, muitas blasfêmias e bastante violência. Para os fãs do controvertido roteirista, a Pixel lançou recentemente a coletânea Hellblazer: Hábitos Perigosos e o encadernado Preacher: Memórias, que estabelecem várias pontes entre quadrinhos e cinema.

Publicada em 1991, Hábitos Perigosos marcou a estréia de Garth Ennis no mercado norte-americano, sendo uma das histórias mais festejadas pelos fãs de John Constantine. Dividido em seis partes, esse arco começa com a notícia de que o personagem está à beira da morte. Fumante compulsivo, o mago inglês acorda um dia tossindo sangue e acaba descobrindo que está com um câncer em fase terminal. Encarando a própria morte, Constantine tem um assunto ainda mais preocupante para tratar, pois (após anos envolvendo-se em exorcismos e invocações) sua alma é um prêmio cobiçado por forças infernais. Revendo amigos, despedindo-se de familiares, conferenciando com forças celestiais ou abissais, enchendo a cara e fumando muito, aos trancos e barrancos ele chega ao limiar de sua vida. No último instante, porém, o mago reverte a situação, mudando seu destino e enganando o próprio Diabo.

Criado por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben para a revista do Monstro do Pântano, Constantine foi desenvolvido por Jamie Delano na revista Hellblazer. Mas muitos consideram que a melhor fase do personagem foi a das edições escritas por Ennis, iniciada com Hábitos Perigosos. O fato é que, embora os desenhos de seus colaboradores sejam péssimos, o texto do roteirista irlandês vale a edição. Fora uma ou outra inconsistência, a intensa trama prende e envolve o leitor com um terror cru que não recorre a teorias conspiratórias e outros subterfúgios que se tornaram tão comuns ultimamente. Preferida por muitos leitores, não é por menos que Hábitos Perigosos forneceu vários elementos para o roteiro do filme Constantine. Contudo, além das diversas interferências hollywoodianas (como trazer o personagem com cabelos negros e usando uma arma), o filme não tem a força da HQ.

Preacher: Memórias reúne três edições lançadas pela Pixel, num total de quatro HQs especiais: “O cavaleiro altivo”, “A história de você-sabe-quem”, “Guerra de um homem só” e “Cassidy: Sangue & Uísque”. A primeira delas mostra Jesse Custer e Tulipa no tempo em que eram namorados e assaltantes de carro. A aventura passada no Texas tem muito dos chamados road movies, com suas perseguições de carros, paisagens ermas, crimes e violência (ou seja, um quadrinho que poderia ter sido feito por Quentin Tarantino). A segunda história abre com uma sátira ao filme Forrest Gump: O Contador de Histórias, na qual o personagem interpretado no cinema por Tom Hanks é substituído pelo desfigurado Cara-de-Cu. A história desse adolescente incomum (repleta de violência familiar, delinquência juvenil, niilismo e várias referências à cultura grunge) fez a cabeça de muitos leitores, mas é a menos interessante desse encadernado.

Mais interessante é a terceira HQ da edição, que conta a história de Herr Star, um assassino frio que trabalha para a organização Graal. Com muitas situações escatológicas (tanto no sentido relativo ao fim-do-mundo, quanto no relativo aos excrementos), a história lançada em 1998 aborda temas que se tornaram populares nos últimos anos, com o livro (e o filme) O Código Da Vinci de Dan Brown. Mas a melhor (e menos pervertida) das quatro histórias é a última, que enfoca Cassidy, o vampiro mulherengo e beberrão da série Preacher. Fugindo da polícia, o morto-vivo gente-boa acaba chegando a Nova Orleans, onde encontra um pedante e egocêntrico sugador de sangue, que parece saído dos livros de Anne Rice (e lembra o personagem interpretado por Tom Cruise em Entrevista com o vampiro). No geral, os desenhos servem bem às quatro histórias, com destaque para a terceira, desenhada por Peter Snejbjerg.

Com direito a palavrões, tramas envolvendo demônios e religião, dejetos humanos e uísque, as duas edições devem agradar aos fãs de Garth Ennis. A história dessa coletânea com John Constantine é um marco dos quadrinhos com temática adulta da DC Comics, sendo uma precursora do selo Vertigo. O encadernado com as histórias de Jesse Custer & Cia. é um tanto irregular e vale mesmo pela última HQ, que ironiza o universo gótico de Anne Rice e seu Entrevista com o vampiro. Para quem ficou interessado, Hellblazer: Hábitos Perigosos tem 160 páginas, custando R$37,90; Preacher: Memórias tem 244 páginas, ao preço de R$22,90.

15/04/2008

Pondo ordem na casa da Vertigo.


Surgida há dois anos de uma associação entre a Ediouro e a Futuro Comunicação, a Pixel Media chegou com a proposta de publicar HQs de qualidade a preços mais acessíveis. Surpreendendo inicialmente com ótimos lançamentos, como os álbuns da série Corto Maltese e o inédito Curupira de Flavio Colin, a editora estabeleceu-se no último ano com uma seleção de títulos das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo. Esta última, em especial, teve uma trajetória acidentada no Brasil, o que está exigindo da Pixel algum trabalho para simplesmente “por ordem na casa”.

No início dos anos 90, as editoras Abril e Globo dividiam a publicação das HQs de terror e suspense da DC Comics, Monstro do Pântano, Hellblazer e Sandman, bem como das minisséries escritas por Neil Gaiman, Os livros da magia e Morte. Mas a trajetória do selo Vertigo no Brasil começou mesmo em 1995, quando foi lançada pela Abril a revista Vertigo, um pacote que reunia as séries Livros da Magia, Sandman: Teatro do Mistério e Hellblazer. A publicação durou apenas um ano, e logo as séries da Vertigo passaram às mãos de outra editora nacional. Era a vez de a Metal Pesado fazer sua tentativa de emplacar a linha de quadrinhos adultos da DC, privilegiando personagens já conhecidos no Brasil, como Monstro do Pântano, Homem Animal e John Constantine. Apesar de alguns acertos, a experiência também não durou muito e os leitores ficaram mais uma vez “a ver navios”.

A partir daí, tudo foi só se complicando, uma vez que as HQs da Vertigo passaram a ser divididas por diferentes editoras, com as mais variadas propostas e periodicidades. Brainstore e Opera Graphica foram talvez as que mais títulos lançaram nesse período, privilegiando séries como Preacher e 100 Balas, mas deixando um legado de confusões na continuidade e edições impressas com qualidade bastante duvidosa. Nos últimos anos, somou-se ao quadro a Conrad com sua luxuosa coleção de Sandman e a Devir com suas coletâneas em formato reduzido de Monstro do Pântano, Hellblazer, entre outras séries. Mas foi aí que entrou em cena a Pixel. Conseguindo um contrato de exclusividade para a publicação no Brasil das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo, a editora tem primado por edições bem impressas, a preços mais “camaradas”. Além disso, parte de seu trabalho tem sido organizar e completar a publicação de séries que não haviam recebido um tratamento adequado por outros editores.

Um bom exemplo disso são alguns dos lançamentos mais recentes da editora. Preacher: Guerra ao sol dá continuidade à “saga” do pastor descrente Jesse Custer, de sua namorada Tulipa e de seu amigo vampiro Cassidy. Com direito a algumas cenas escatológicas, um pouco de sexo, muitos palavrões e bastante violência, a edição escrita por Garth Ennis e desenhada por Steve Dillon é uma “dádiva” para os fãs de Preacher. Lembrando muito uma versão mais abismal do seriado Arquivo-X ou do filme Dogma, a série tornou-se um dos carros chefes da Vertigo, conquistando uma legião de fãs também no Brasil. Eu não me incluo entre os admiradores da série, mas é admirável o cuidado da Pixel com sua publicação. Além de seguir o formato utilizado pela editora anterior, Guerra ao sol conta com textos para situar o leitor na história, uma apresentação dos principais personagens, a reprodução das ilustrações de capa originais e a indicação do número da revista e data de publicação nos Estados Unidos.

Outro lançamento para os fãs da Vertigo é 100 Balas: Dia, hora, minute... man. Reunindo os números 8 a 11 da série original, a revista traz duas HQs completas e outra em duas partes com roteiros de Brian Azzarello e desenhos de Eduardo Risso. Como de costume, tramas criminais, dramas cotidianos e muitos tiros dão o clima para uma edição com um pouquinho de sexo e muito sangue. Melhor mesmo é o número 12 da Pixel Magazine, revista mensal com séries das linhas Wildstorm, ABC e Vertigo. Abrindo a edição, uma ótima história com o Monstro do Pântano, escrita por Will Pfeifer e desenhada por Richard Corben. A seguir, pegamos carona com John Constantine num roteiro escrito por Brian Azzarello e desenhado por Marcelo Frusin. Mas o melhor desse número fica por conta, é claro, do nono capítulo da série Promethea de Alan Moore e J.H. Williams III. Fechando a revista, Warren Ellis e John Cassidy levam os personagens de Planetary numa explosiva visita a um suposto Rio de Janeiro.

Embora os preços da Pixel tenham subido um pouco neste mês, devido ao aumento dos custos gráficos, suas revistas mais simples continuam relativamente baratas. A editora lançará ainda este mês a nova revista mensal Fábulas Pixel, além de ter anunciado para breve os relançamentos de Os Invisíveis e Homem Animal de Grant Morrison, do segundo volume de Monstro do Pântano de Alan Moore e da versão “remasterizada” de Sandman de Neil Gaiman. Com tantos planos e exibindo saúde editorial, seria excelente se agora a editora voltasse um pouco de sua atenção novamente para os quadrinhos europeus e, principalmente, brasileiros. No mais, até aqui, a Pixel tem dado um bom exemplo de competência e respeito pelos leitores. Preacher: Guerra ao sol tem 176 páginas, “formato paraguaio”, como se tem chamado jocosamente, e custa R$35,90. Já 100 Balas: Dia, hora, minute... man e Pixel Magazine n°12 têm 96 páginas e “formato americano”, sendo vendidas por R$9,90.

18/01/2008

Virtudes variadas: uma entrevista com David Lloyd, parte3.


Parte final de nossa entrevista exclusiva, e David Lloyd fala porque ele prefere HQs curtas e também sobre sua nova graphic novel que será lançada no Brasil em 2008.

Wellington Srbek: Você já trabalhou com três outros importantes roteiristas britânicos: Grant Morrison, Garth Ennis e Jamie Delano. Como foi trabalhar com eles em Hellblazer?

David Lloyd: Bem, eles são todos grandes escritores. Mas trabalhar com Jamie foi diferente de trabalhar com os outros dois, porque criamos “O Horrorista” numa maneira ao “estilo-Marvel” - ou seja, trabalhando inicialmente com croquis da ação página por página, a partir dos quais eu desenhei os esboços, e a partir dos quais Jamie escreveu o texto final. Eu sempre considerei que esta forma de criar quadrinhos dá ao desenhista muito mais condições de fluir melhor a narrativa visual. Tudo que fiz com Jamie, eu fiz dessa mesma forma. Grant e Garth forneceram roteiros completos. Uma vez eu sugeri ao Garth que trabalhássemos em algo da mesma forma que eu trabalho com o Jamie, mas ele levantou as mãos para o alto horrorizado com tal perspectiva! Um roteirista sacrifica algo de seu controle se trabalha ao estilo-Marvel, e alguns roteiristas não querem isso.

WS: Você parece ter uma preferência por HQs curtas ou séries limitadas, e um gosto por experimentar diferentes técnicas.

DL: Uma razão é que me entedio facilmente, outra é que eu gosto de HQs curtas. Acho que poderia passar toda a minha carreira fazendo HQs curtas de vários tipos, se isso fosse comercialmente viável. Mas nos dias de hoje revistas de antologia sempre têm dificuldades para sobreviver. E, sim, eu gosto de experimentar se possível. Muita coisa nesse negócio [dos quadrinhos] está enraizada em práticas tradicionais voltadas a métodos de produção rápida e, como a experimentação geralmente toma tempo, não é sempre que se pode experimentar. Mas como eu disse, eu me entedio fácil - e a emoção de descobrir uma nova forma de representar algo, ou usar uma nova técnica, nunca se acaba para mim. Eu acho que a aventura de criar algo em arte é uma coisa preciosa, e eu quero preservar isso.
Uma outra parte da questão é que eu nunca quis me tornar um desenhista que vai de um trabalho para outro apenas para manter as contas em dia. Há muitos desenhistas que fazem isso, e eu os respeito por seu profissionalismo - mas eu enlouqueceria fazendo isso. Eu trabalho em coisas que acho interessantes de se trabalhar - e raríssimos projetos de longo prazo têm esse grau de atração para mim. O que aconteceria se eu ficasse entediado no meio de um projeto longo? O resto dele seria um inferno. No começo de minha carreira eu trabalhei em qualquer coisa que aparecia porque eu precisava, mas logo descobri que seria uma boa idéia ter sempre no banco um fundo de reserva que me poupasse da necessidade de pular de um trabalho a outro, a toda hora. E ter essa reserva foi muito importante quando eu quis criar minha própria graphic novel: Kickback. Se eu não tivesse podido escapar da ralação de trabalhar nos roteiros de outras pessoas, como eu teria encontrado tempo para trabalhar nela?

WS: Fale-nos, por favor, de seu novo livro São Paulo, lançado pela Casa 21.

DL: Ele é parte de uma série encomendada pela editora a vários artistas, tendo como tema cidades do Brasil. Eles são retratos dos lugares - texto e ilustração - como vistos do ponto de vista dos ilustradores. Existem volumes sobre o Rio, Belo Horizonte e Salvador, entre outros - estou certo de que você conhece os livros. E me pediram que fizesse o livro sobre São Paulo. Eu pensei muito seriamente antes de aceitar o trabalho. É um desafio e uma grande responsabilidade - retratar uma das maiores cidades do mundo em ilustração e texto não é uma tarefa para se aceitar levianamente, a menos que você seja louco. E pareceu uma responsabilidade e um desafio ainda maiores quando eu fui para São Paulo fazer a pesquisa. Eu descobri que muitas pessoas conheciam e gostavam de meu trabalho lá, e esperavam ansiosamente para ver o que eu faria de sua cidade. Foi muito diferente de minha prática usual de contar uma história sobre pessoas ficcionais num mundo ficcional, onde a verdade é uma escolha e não uma realidade. Definitivamente, no entanto, eu podia apenas responder ao que eu via e ouvia em minha jornada pela cidade naquela viagem de pesquisa, e compilar o livro com aquelas percepções, que foi o que fiz. Eu não sei quão bem, ou mal, os paulistanos responderam a ele. Muitas coisas amáveis me foram ditas sobre o livro quando voltei à cidade para o lançamento [no último mês de dezembro] e depois dele por algumas pessoas, mas não tenho noção de qual seja o consenso geral. Espero que, em geral, seja bom.

WS: Como está a indústria de quadrinhos na Grã-Bretanha hoje, e como você vê o futuro dos quadrinhos em geral, como linguagem e indústria?

DL: Na Grã-Bretanha, não há “indústria” de quadrinhos enquanto tal. Poderíamos ter tido uma aqui, se as editoras tivessem se importado o bastante com nossos talentos locais para mantê-los empregados no Reino Unido, em vez de deixá-los ser exportados no atacado para os Estados Unidos. Mas os editores não se importaram. Enquanto nação, nós não vemos realmente os quadrinhos como uma parte essencial da cultura, como os Estados Unidos e outros países vêem. Nós temos apenas uma revista que é importante em termos artísticos - e que ainda é um campo fértil para muitos novos talentos britânicos - a 2000AD. O resto é principalmente uma mistura de produtos de mercado licenciados ou títulos infantis.
É impossível fazer qualquer previsão sobre os quadrinhos em geral, porque eles variam de país para país e cobrem um enorme campo de estilos. Mas o mangá parece que ocupará um lugar permanente em cada país para o qual tenha sido exportado. Isso é o máximo que eu me arriscaria a especular com alguma certeza.

WS: No quê você está trabalhando agora? Algum novo projeto?

DL: Bem, em março ou abril, [a graphic novel] Kickback estará nas lojas no Brasil - e será algo inédito para os brasileiros. É o primeiro trabalho substancial que pude escrever para mim mesmo - anteriormente eu tive tempo apenas para escrever umas poucas histórias curtas e uma edição única de uma série. Ser um desenhista/roteirista é a melhor e mais satisfatória coisa para se fazer como criador nessa linguagem, se você tem algo que queira dizer com ela. Kickback é um suspense sobre um policial corrupto numa polícia corrupta, que decide mudar sua forma de vida - mas a história é tanto sobre porque ele é corrupto, quanto sobre como ele supera os obstáculos para alcançar uma mudança. Ela tem todos os elementos de uma história policial de ambientação urbana, mas ela é mais sobre as pessoas na situação, do que a situação em si. Eu espero que todos gostem dela aí.
O novo trabalho este ano começa com a ilustração de uma HQ curta para uma coletânea francesa de histórias sobre crianças que foram separadas de seus pais durante a Segunda Guerra Mundial. Depois uma história de fantasmas para outra publicação francesa. E então estarei começando o trabalho numa nova graphic novel, sobre a natureza da qual eu ainda estou por me decidir.

WS: Bom, muito obrigado por esta entrevista!

DL: Realmente não há de quê.

Various virtues: an interview with David Lloyd, part3.


Last part of our exclusive interview, David Lloyd talks about his most recent and future projects, and also explains why he prefers to work on short stories.

Wellington Srbek: You have worked with three other important British writers: Grant Morrison, Garth Ennis and Jamie Delano. How it was to work with them in Hellblazer?

David Lloyd: Well, they're all great writers. But working with Jamie was different to working with the other two because we created “The Horrorist” in a “Marvel-type” manner - i.e. working initially from page-by-page breakdowns of the action, from which I drew layouts, and from which Jamie wrote the final script. I've always considered this way of creating a strip gives an artist much more opportunity for producing a smooth flow to the visual narrative. Everything I've worked on with Jamie, I've done in that same way. Grant and Garth supplied full scripts. I suggested to Garth once that we work on something together in the same way I work with Jamie, but he threw up his hands in horror at the prospect! A writer sacrifices some control if he works in that Marvel-type style, and some writers don't want that.

WS: You seem to have a preference for short stories or limited series, and a taste for experimenting with different techniques.

DL: I get bored easily is one reason, another is that I like short stories. I think I could spend my whole career doing short stories of various kinds if it was commercially viable to do that. But these days anthology books always struggle to sell enough. And, yes, I like experimenting if I can. So much of this business is ingrained in common practices geared towards fast production methods, and experimenting usually takes time, so it's not always possible to do it. But like I say I get bored easily - and the thrill of discovering a new way of depicting something, or using some new technique never fades for me. I think the adventure of creating something in art is a precious thing, and I want to keep that.
Another part of the picture is that I never wanted to become an artist who goes from one job to another just to keep up with his bill payments. There are lots of artists who do that and I respect them for their professionalism - but I'd go crazy doing that. I work on things I find interesting to work on - and very few long-term projects have that degree of attraction for me. What if I got bored half-way through a long run? The rest of it would be Hell. At the beginning of my career I did anything that came along because I had to, but I figured very soon after it was a good idea to always have a back-up bank balance that insulated me from the need to jump off one job and onto another all the time. And having that back-up was very important when I wanted to create my own graphic novel: Kickback. If I hadn't been able to escape the treadmill of working on other people’s scripts, how would I have found time to spend on it?

WS: Please tell us about your new book São Paulo published by Casa 21.

DL: It's one of a series commissioned by the publisher from various artists on the towns and cities in Brasil. They're portraits of the places - text and art - as seen from the artist’s point of view. There are volumes on Rio, Belo Horizonte, and Salvador among others - I'm sure you know the books. And they wanted me to do the book on São Paulo. I thought long and hard about accepting the job. It was a challenge and a big responsibility - portraying one of the biggest cities in the world in art and word is not a task to be taken lightly unless you happen to be crazy. It seemed like an even bigger responsibility and challenge when I came to São Paulo to research it. I found lots of people knew and liked my work here, and were eagerly looking forward to seeing what I was going to make of their city. It was a whole different deal to my usual work of telling a story about fictional people in a fictional world, where the truth is a choice and not a reality. Ultimately though, I could only respond to what I saw and heard in my journey through the city on that research trip, and compile the book honestly from those perceptions, which is what I did. I don't know how well, or otherwise, paulistanos have responded to it. A lot of nice things were said to me about it when I was back in the city for the launch, and after it from some folks, but I'm not aware of the general consensus of opinion. I hope it's generally good.

WS: How is the comics industry in Britain now, and how do you see the future of comics in general, as a medium and as an industry?

DL: There's no comics “industry” in Britain, as such. We could have had one here if comics publishers had cared enough about them to keep all our homegrown talent fully employed in the UK, instead of letting it be imported wholesale to the US, but they didn't. As a nation, we haven't really seen comics as an essential part of the culture as the US and other countries do. We have only one comic that's important in artistic terms - and which is still a breeding ground for much new British talent - 2000AD. The rest is mainly a mix of licenced marketing tools or nursery titles.
It's impossible to make any predictions about comics in general because it varies from country to country and covers such a wide field of styles. But Manga seems like it'll be a permanent fixture in every country it's been exported to. That's about as much as I'd risk speculating on with any certainty.

WS: What are you working on now? Any new projects?

DL: Well, in March/April, Kickback will be in the stores in Brasil - and that'll be new to Brasilians. It's the first substantial work I've been able to write for myself - previously I'd only had the time to write a few short stories, and a single issue of a series. Being a writer/artist is the best and most satisfying thing to do as a creator in this medium if you have something you want to say with it. Kickback's a crime thriller about a corrupt policeman in a corrupt police force who decides to change his way of life - but the story's as much about why he's corrupt as how he overcomes the obstacles to achieve a change. It has all the usual elements of a crime story in an urban setting, but It's about the people in the situation more than the situation itself. I hope everyone will like it here.
New work this year starts with me illustrating a short strip for a French publisher in a book of stories about children who were separated from their parents during the 2nd World War. Then a ghost story for another French book. And then I'll be starting work on a new graphic novel, the nature of which I am yet to decide upon.

WS: Well, thanks a lot for this interview!

DL: You're very welcome.