
Entre 1938 e 1945, aconteceu o auge do que se chama nos Estados Unidos de “Era de Ouro dos Quadrinhos”. Por motivos intrínsecos ao gênero e relativos ao contexto do fim dos anos 30 e início dos anos 40, os super-heróis proliferaram no mercado norte-americano (praticamente como na multiplicação infinita sugerida pela criativa capa ao lado, criada por Alex Schomburg para a revista
America’s Best Comics). Afinal, a superação dos anos da Grande Depressão e principalmente o patriotismo do período da Segunda Guerra Mundial foram um terreno fértil para o crescimento exponencial do gênero dos coloridos seres superpoderosos e suas aventuras maniqueístas. Não é à toa, portanto, que personagens como o Capitão América apareceram nas capas de revistas esmurrando o próprio Adolf Hitler, enquanto outros como o Fighting Yank faziam pose relaxada, tendo aos pés um destacamento de bestializados soldados japoneses e ao fundo o próprio Imperador Hirohito amarrado em seu trono. Mesmo se considerarmos o contexto, aquele foi um triste momento em que estereótipos étnicos desdobraram-se em racismo, enquanto os super-heróis tornavam-se veículos perfeitos para o ufanismo e a propaganda pró-guerra.
A partir da segunda metade dos anos 40, porém, os quadrinhos de super-heróis foram perdendo espaço para outros gêneros (como o terror, o faroeste e a ficção científica) e a maior parte dos personagens teve suas revistas canceladas ou simplesmente desapareceu. Entre os poucos sobreviventes estavam os heróis da National Periodical / DC Comics: Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha (uma super-heroína criada para contemplar o público feminino e corresponder à condição mais ativa que as mulheres assumiram a partir dos anos 40). Seria a própria DC a responsável por reativar o gênero, quando em 1956 o lendário editor Julius Schwartz decidiu lançar a versão modernizada de um clássico personagem da editora: o Flash. Bem recebida pelo público, essa primeira reformulação motivou o relançamento do Lanterna Verde e de outros personagens, que ganharam um visual anos 50 e uma forte influência da ficção científica. Mais tarde viria a Liga da Justiça da América, grupo que reunia alguns dos principais super-heróis da editora (e era ela própria uma reedição da Sociedade da Justiça, o primeiro grupo de super-heróis, lançado nos anos 40). Tinha início ali a chamada “Era de Prata dos Quadrinhos”, na qual os seres superpoderosos ganharam até similares em outros países (como os brasileiros Capitão 7 e Raio Negro).
Na virada para os anos 60, as coisas iam bem para a DC. Contudo, mesmo com as modernizações, havia algo de monolítico e infalível em seus personagens que já não agradava tanto a alguns leitores. Por isso mesmo, os super-heróis mais complexos e novos em folha lançados pela Marvel Comics, a partir de 1961, logo fariam a cabeça da garotada nos Estados Unidos e em outras partes do mundo (como o Brasil, onde chegaram na segunda metade daquela década, como parte de uma campanha publicitária da Shell). A verdade é que com seus dramas, problemas, ideais e paixões, o Quarteto Fantástico, o Homem-Aranha, o Hulk, os Vingadores e outros super-heróis criados por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko tomaram de assalto o mercado de quadrinhos e o imaginário ocidental. E em relação à qualidade das HQs em si, as revistas da Marvel foram as verdadeiras responsáveis pela renovação do visual nos quadrinhos norte-americanos, imprimindo mais dinamismo e estilização às páginas. Neste ponto, é claro, destaca-se acima de todos o nome de Jack Kirby, um dos maiores artistas da história dos quadrinhos e o gênio responsável por um enriquecimento sem precedentes no repertório visual e narrativo das revistas de super-heróis.
Com tudo isso, o que se seguiu ao longo dos anos foi uma disputa titânica pela preferência dos leitores, tendo como protagonistas a DC e a Marvel, além de coadjuvantes passageiras, como a Charlton. No início dos anos 70, houve um amadurecimento na temática e no visual das revistas, com o trabalho de quadrinistas inovadores como Dennis O’Neil e Neal Adams (que incorporaram questões sociais e um traço mais dramático às HQs), o que deu início à chamada “Era de Bronze dos Quadrinhos". E enquanto desenhos animados como
Superamigos e
Homem-Aranha cativavam o público infantil, as publicações das duas grandes editoras voltavam-se cada vez mais para o público adolescente, com desenhos mais elaborados e tramas mais complexas, refletindo o sucesso dos X-Men e dos Novos Titãs. Na primeira metade dos anos 80, a Marvel parecia ter todos os trunfos na mão, contando com os personagens mais populares e alguns dos mais destacados roteiristas e desenhistas da época, como Chris Claremont, Bill Sienkiewicz, John Byrne e Frank Miller. Mas a DC tinha Marv Wolfman e George Pérez, e tratou de contratar os principais astros da concorrente, sem falar num relativamente desconhecido roteirista inglês chamado Alan Moore, que influenciaria os rumos dos quadrinhos norte-americanos definitivamente.
O resultado foram os clássicos imediatos dos quadrinhos de super-heróis, lançados entre 1985 e 1987:
Crise nas Infinitas Terras,
O Cavaleiro das Trevas,
Watchmen e as reformulações racionalistas dos principais personagens da DC, como Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Com esses trabalhos marcantes, teria início o que os fãs norte-americanos chamam de “Era Moderna dos Quadrinhos”. Mas vendo sua rival retomar espaço no mercado, a Marvel reagiu reforçando as revistas dos heróis mutantes e do popular Homem-Aranha, com um visual arrojado que agradava em cheio aos leitores de fins dos anos 80. Mas sua alegria durou pouco, pois em 1992 os desenhistas Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld, que haviam feito suas revistas baterem os recordes de vendas, deixaram a editora para fundar a Image Comics. Além disso, no que diz respeito ao conteúdo das revistas, a proposta de uma abordagem mais realista dos super-heróis (trazida por Alan Moore e Frank Miller) acabou desvirtuada numa concepção meramente pessimista e hiperviolenta, com a qual as diferenças entre heróis e vilões tornaram-se mais e mais difusas. Acumulando erros editoriais, com a concorrência de outras mídias e problemas financeiros, em meados dos anos 90 a Marvel quase faliu e as coisas na DC já não andavam muito bem (não aprender com os erros do passado é realmente um grande erro!).
Debatendo-se entre múltiplas “guerras” e “crises” Marvel e DC fizeram até “amálgamas” ao longo do caminho, sempre buscando sobreviver num mercado cada vez mais restrito e corresponder aos interesses mais imediatos dos leitores. Ao que parece, contudo, a aliança definitiva das grandes editoras não foi entre si ou com os fãs de quadrinhos, mas sim com os grandes produtores de cinema, tevê, jogos, brinquedos e outros ramos mais lucrativos da indústria do entretenimento. Embora tenham hoje condições de contratar a peso de ouro medalhões como Neil Gaiman e Joss Whedon, além de relançarem suas séries em luxuosas edições em capa-dura, as editoras de super-heróis parecem cada vez mais subsidiárias de Hollywood. E com isso, cada vez menos, os personagens que fizeram sua glória e sucesso parecem ser capazes de gerar interesse e cativar a atenção dos leitores de HQs (da forma como faziam em décadas mais simples e de menos recursos). Talvez algo da “magia” dos clássicos e até ingênuos quadrinhos do Capitão Marvel tenha mesmo se perdido definitivamente. Ou mesmo algo mais recente, como a força criativa das séries e reformulações dos anos 80, tenha já se perdido no pântano da exploração comercial e baboseiras editoriais.
Temos a tendência, é claro, de acharmos que “na nossa época” as coisas eram melhores. Mas os quadrinhos de super-heróis são um daqueles poucos casos (como o futebol, aliás) em que podemos dizer, com segurança e sem nostalgia, que antigamente as coisas eram mesmo melhores! Porque atualmente... Felizmente, temos hoje nossas coleções e também reedições de qualidade que nos permitem experimentar a magia e a força de outros tempos mais criativos e cativantes. De outras épocas ou “eras” que fizeram dos super-heróis um verdadeiro fenômeno dos quadrinhos.