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18/10/2010

Todo poder ao Thor.


Quem era criança ou adolescente no final dos anos 70, início dos anos 80, deve se lembrar dos desenhos desanimados com Homem de Ferro, Capitão América e os demais Vingadores. Não indo muito além das HQs originais da Marvel, às quais se dava algum movimento, locução e efeitos sonoros, aquelas animações primitivas conseguiam ser uma diversão bacana. Foi através delas que conheci o herói Thor e a miríade de personagens do reino mítico de Asgard, recriados para os quadrinhos por Stan Lee e Jack Kirby. Eu voltaria a encontrar aqueles personagens alguns anos depois, quando comecei de fato a ler e colecionar quadrinhos.

Além das HQs clássicas de Lee & Kirby, lembro-me em especial de uma fase do personagem, produzida por Walter Simonson. Os desenhos eram impactantes, as histórias interessantes e ainda ganhamos o personagem Bill Raio Beta, um alienígena que realizou a façanha de domar os poderes do Deus do Trovão. Em 1998, outra fase do personagem chamou a atenção, neste caso devido aos desenhos do talentoso John Romita Jr. Passada quase uma década, uma nova fase do Poderoso Thor mereceu a atenção dos leitores, em grande parte devido aos roteiros de J. Michael Straczynski, aos quais se somaram belas páginas e capas desenhadas por artistas como Olivier Coipel.

Trazendo o Deus do Trovão de volta do limbo, os roteiros misturam divindades nórdicas e a realidade de uma pacata cidadezinha do interior norte-americano. A influência de Sandman é evidente, sem falar na ideia dos deuses kirbyanos em corpos de simples mortais, que Straczynski parece ter copiado da minissérie Eternals, também escrita por Neil Gaiman. Apesar disso, misturando mitologia e temas tirados de páginas de jornais (como a destruição de Nova Orleans e os massacres de Darfur), o trabalho do roteirista agradou aos leitores. Tanto que, seguindo um padrão utilizado com o Homem de Ferro, alguns elementos dessas HQs de sucesso deverão parar no vindouro filme do Thor.

Numa dinâmica inversa, com a divulgação das primeiras cenas do longa dirigido por Kenneth Branagh, a Marvel passou a lançar uma enxurrada de títulos estrelados pelo Deus do Trovão. Começando com as minisséries Thor for Asgard, The Might Avenger e First Thunder, a onda inclui a nova série Ultimate Thor, além de especiais e da própria série regular do herói nórdico, que passou a ser escrita por Matt Fraction (que havia feito um bom trabalho na revista mensal do Homem de Ferro, atualizando-a e aproximando-a da versão cinematográfica do personagem). Em meio a tudo isso, um destaque vai para Tales of Asgard, que reeditou HQs clássicas de Lee & Kirby.

Enquanto o filme não estrear em maio de 2011, o que se pode esperar são mais e mais edições e promoção em torno do nome Thor, além de cenas com o martelo mágico Mjolnir. E caso o filme seja bem-sucedido, pode-se esperar que, assim como aconteceu com o Homem de Ferro, o Deus do Trovão se torne uma figura cada vez mais presente nos quadrinhos, animações e demais produtos Marvel. Fazendo assim de Thor um super-herói mais poderoso do que nunca.

09/02/2009

Quadrinhos em tempos de guerra (I).


Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos tiveram um importante papel como veículos de propaganda nacionalista e mobilização em favor do esforço de guerra. Um dos exemplos mais claros disso é o Capitão América, super-herói que já enfrentava soldados nazistas mesmo antes de seu país entrar oficialmente no conflito. Criado pela dupla Joe Simon e Jack Kirby, o personagem foi lançado pela Timely Comics (que daria origem à Marvel) na revista Captain America Comics #1, datada de março de 1941. Na capa de sua edição de estréia, vemos o herói super-nacionalista dando um soco no próprio Adolf Hitler, enquanto soldados alemães disparam contra ele. Se não bastasse a chamativa ilustração, um texto na capa promete uma aventura emocionante, quando o “Capitão América fica cara a cara com Hitler”. De quebra, o “jovem aliado do Capitão América, Bucky” bate continência para o jovem leitor, ao qual aquela revista se dirigia.

Em alguns meses, muitos desses leitores, seus irmãos ou pais estariam há milhares de quilômetros de suas casas, matando ou sendo mortos por outros jovens ou homens que também estavam há milhares de quilômetros de suas casas, lutando numa guerra bárbara e injustificável.

(O arquivo de imagem que ilustra esta postagem foi conseguido no saite Cover Browser, que tem um excelente repertório de capas de quadrinhos clássicos e modernos.)

06/02/2009

Super-heróis: um fenômeno dos quadrinhos (II).


Entre 1938 e 1945, aconteceu o auge do que se chama nos Estados Unidos de “Era de Ouro dos Quadrinhos”. Por motivos intrínsecos ao gênero e relativos ao contexto do fim dos anos 30 e início dos anos 40, os super-heróis proliferaram no mercado norte-americano (praticamente como na multiplicação infinita sugerida pela criativa capa ao lado, criada por Alex Schomburg para a revista America’s Best Comics). Afinal, a superação dos anos da Grande Depressão e principalmente o patriotismo do período da Segunda Guerra Mundial foram um terreno fértil para o crescimento exponencial do gênero dos coloridos seres superpoderosos e suas aventuras maniqueístas. Não é à toa, portanto, que personagens como o Capitão América apareceram nas capas de revistas esmurrando o próprio Adolf Hitler, enquanto outros como o Fighting Yank faziam pose relaxada, tendo aos pés um destacamento de bestializados soldados japoneses e ao fundo o próprio Imperador Hirohito amarrado em seu trono. Mesmo se considerarmos o contexto, aquele foi um triste momento em que estereótipos étnicos desdobraram-se em racismo, enquanto os super-heróis tornavam-se veículos perfeitos para o ufanismo e a propaganda pró-guerra.

A partir da segunda metade dos anos 40, porém, os quadrinhos de super-heróis foram perdendo espaço para outros gêneros (como o terror, o faroeste e a ficção científica) e a maior parte dos personagens teve suas revistas canceladas ou simplesmente desapareceu. Entre os poucos sobreviventes estavam os heróis da National Periodical / DC Comics: Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha (uma super-heroína criada para contemplar o público feminino e corresponder à condição mais ativa que as mulheres assumiram a partir dos anos 40). Seria a própria DC a responsável por reativar o gênero, quando em 1956 o lendário editor Julius Schwartz decidiu lançar a versão modernizada de um clássico personagem da editora: o Flash. Bem recebida pelo público, essa primeira reformulação motivou o relançamento do Lanterna Verde e de outros personagens, que ganharam um visual anos 50 e uma forte influência da ficção científica. Mais tarde viria a Liga da Justiça da América, grupo que reunia alguns dos principais super-heróis da editora (e era ela própria uma reedição da Sociedade da Justiça, o primeiro grupo de super-heróis, lançado nos anos 40). Tinha início ali a chamada “Era de Prata dos Quadrinhos”, na qual os seres superpoderosos ganharam até similares em outros países (como os brasileiros Capitão 7 e Raio Negro).

Na virada para os anos 60, as coisas iam bem para a DC. Contudo, mesmo com as modernizações, havia algo de monolítico e infalível em seus personagens que já não agradava tanto a alguns leitores. Por isso mesmo, os super-heróis mais complexos e novos em folha lançados pela Marvel Comics, a partir de 1961, logo fariam a cabeça da garotada nos Estados Unidos e em outras partes do mundo (como o Brasil, onde chegaram na segunda metade daquela década, como parte de uma campanha publicitária da Shell). A verdade é que com seus dramas, problemas, ideais e paixões, o Quarteto Fantástico, o Homem-Aranha, o Hulk, os Vingadores e outros super-heróis criados por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko tomaram de assalto o mercado de quadrinhos e o imaginário ocidental. E em relação à qualidade das HQs em si, as revistas da Marvel foram as verdadeiras responsáveis pela renovação do visual nos quadrinhos norte-americanos, imprimindo mais dinamismo e estilização às páginas. Neste ponto, é claro, destaca-se acima de todos o nome de Jack Kirby, um dos maiores artistas da história dos quadrinhos e o gênio responsável por um enriquecimento sem precedentes no repertório visual e narrativo das revistas de super-heróis.

Com tudo isso, o que se seguiu ao longo dos anos foi uma disputa titânica pela preferência dos leitores, tendo como protagonistas a DC e a Marvel, além de coadjuvantes passageiras, como a Charlton. No início dos anos 70, houve um amadurecimento na temática e no visual das revistas, com o trabalho de quadrinistas inovadores como Dennis O’Neil e Neal Adams (que incorporaram questões sociais e um traço mais dramático às HQs), o que deu início à chamada “Era de Bronze dos Quadrinhos". E enquanto desenhos animados como Superamigos e Homem-Aranha cativavam o público infantil, as publicações das duas grandes editoras voltavam-se cada vez mais para o público adolescente, com desenhos mais elaborados e tramas mais complexas, refletindo o sucesso dos X-Men e dos Novos Titãs. Na primeira metade dos anos 80, a Marvel parecia ter todos os trunfos na mão, contando com os personagens mais populares e alguns dos mais destacados roteiristas e desenhistas da época, como Chris Claremont, Bill Sienkiewicz, John Byrne e Frank Miller. Mas a DC tinha Marv Wolfman e George Pérez, e tratou de contratar os principais astros da concorrente, sem falar num relativamente desconhecido roteirista inglês chamado Alan Moore, que influenciaria os rumos dos quadrinhos norte-americanos definitivamente.

O resultado foram os clássicos imediatos dos quadrinhos de super-heróis, lançados entre 1985 e 1987: Crise nas Infinitas Terras, O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e as reformulações racionalistas dos principais personagens da DC, como Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Com esses trabalhos marcantes, teria início o que os fãs norte-americanos chamam de “Era Moderna dos Quadrinhos”. Mas vendo sua rival retomar espaço no mercado, a Marvel reagiu reforçando as revistas dos heróis mutantes e do popular Homem-Aranha, com um visual arrojado que agradava em cheio aos leitores de fins dos anos 80. Mas sua alegria durou pouco, pois em 1992 os desenhistas Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld, que haviam feito suas revistas baterem os recordes de vendas, deixaram a editora para fundar a Image Comics. Além disso, no que diz respeito ao conteúdo das revistas, a proposta de uma abordagem mais realista dos super-heróis (trazida por Alan Moore e Frank Miller) acabou desvirtuada numa concepção meramente pessimista e hiperviolenta, com a qual as diferenças entre heróis e vilões tornaram-se mais e mais difusas. Acumulando erros editoriais, com a concorrência de outras mídias e problemas financeiros, em meados dos anos 90 a Marvel quase faliu e as coisas na DC já não andavam muito bem (não aprender com os erros do passado é realmente um grande erro!).

Debatendo-se entre múltiplas “guerras” e “crises” Marvel e DC fizeram até “amálgamas” ao longo do caminho, sempre buscando sobreviver num mercado cada vez mais restrito e corresponder aos interesses mais imediatos dos leitores. Ao que parece, contudo, a aliança definitiva das grandes editoras não foi entre si ou com os fãs de quadrinhos, mas sim com os grandes produtores de cinema, tevê, jogos, brinquedos e outros ramos mais lucrativos da indústria do entretenimento. Embora tenham hoje condições de contratar a peso de ouro medalhões como Neil Gaiman e Joss Whedon, além de relançarem suas séries em luxuosas edições em capa-dura, as editoras de super-heróis parecem cada vez mais subsidiárias de Hollywood. E com isso, cada vez menos, os personagens que fizeram sua glória e sucesso parecem ser capazes de gerar interesse e cativar a atenção dos leitores de HQs (da forma como faziam em décadas mais simples e de menos recursos). Talvez algo da “magia” dos clássicos e até ingênuos quadrinhos do Capitão Marvel tenha mesmo se perdido definitivamente. Ou mesmo algo mais recente, como a força criativa das séries e reformulações dos anos 80, tenha já se perdido no pântano da exploração comercial e baboseiras editoriais.

Temos a tendência, é claro, de acharmos que “na nossa época” as coisas eram melhores. Mas os quadrinhos de super-heróis são um daqueles poucos casos (como o futebol, aliás) em que podemos dizer, com segurança e sem nostalgia, que antigamente as coisas eram mesmo melhores! Porque atualmente... Felizmente, temos hoje nossas coleções e também reedições de qualidade que nos permitem experimentar a magia e a força de outros tempos mais criativos e cativantes. De outras épocas ou “eras” que fizeram dos super-heróis um verdadeiro fenômeno dos quadrinhos.

20/08/2008

Chega às lojas o último volume de Supremo.


No início dos anos 90, após um período de afastamento, Alan Moore retornou aos quadrinhos de super-heróis, produzindo histórias para a recém-fundada Image Comics. Depois de trabalhar em HQs com Spawn de Todd McFarlane e Wild C.A.T.s de Jim Lee, foi a vez de ele emprestar suas idéias aos personagens de Rob Liefeld. Assim, em agosto de 1996, era lançada a revista Supremo n°41, na qual o roteirista inglês reinventou criativamente o que era, até então, meramente uma cópia mais violenta do Super-Homem.

Usando uma abordagem desconstrutivista (semelhante ao que fizera com Marvelman / Miracleman), o roteirista apropriou-se do fato de o personagem ser um plágio, escrevendo histórias que utilizavam os principais elementos da chamada “mitologia” do Homem-de-Aço. Além disso, a reformulação do personagem de Liefeld contou com sequências “nostálgicas” desenhadas por Rick Veitch, imitando o estilo de quadrinhos dos anos 40, 50 e 60 (algo próximo ao que já tinham feito com os heróis Marvel na minissérie 1963).

O resultado foram histórias originais e significativas que influenciariam trabalhos de outros autores (e lançariam as bases das séries Tom Strong e Tomorrow Stories da linha ABC). Concluindo a publicação da fase de Moore à frente da revista Supremo, a Devir lança agora A Era Moderna, quarto volume da coleção, que traz as cinco últimas edições escritas pelo consagrado roteirista. Com HQs lançadas entre 1999 e 2000 (época em que Moore já estava mergulhado no projeto ABC), boa parte desta edição final fica aquém do esperado.

A primeira história do volume é dedicada ao vilão Darius Dax e é tão fraca que chega a desanimar. Para piorar, o veterano Jim Starlin produz desenhos dignos de um iniciante sem talento. Nas três HQs seguintes, o visual melhora um pouco, mas os roteiros de Moore não convencem. A HQ com a namorada de Supremo, Diana Dane, é mal-estruturada; a seguinte com Radar, o supremo-cão, parece mais uma piada de mau-gosto; para completar, a que traz o amigo do herói, Billy Friday, enrola-se em paradoxos temporais e muita baboseira.

O que salva A Era Moderna são as sequências em estilo “retrô”, como o interlúdio estrelado pela Liga do Infinito (a versão Supremo para a Legião dos Super-Heróis da DC). Mas o melhor fica por conta da última história da edição: “New Jack City”, na qual Moore e Veitch homenageiam um dos grandes gênios dos quadrinhos. Inteligente e bem ilustrada, a HQ mostra a chegada de Supremo a uma misteriosa cidade saída das páginas dos quadrinhos de Jack Kirby, numa viagem que leva a um encontro com o “Rei” em pessoa.

“New Jack City” nasceu dos conceitos de inspiração platonista que Moore desenvolveu e adotou como filosofia pessoal, sobre uma dimensão ideal chamada “Ideaspace”. Nela, um autor tão produtivo e criativo quanto Kirby alcançaria uma condição de divindade, ocupando um lugar próprio, povoado por suas criações. Escrito por alguém que declarou ter tido um encontro real com um de seus personagens (o mago John Constantine), o roteiro de Moore é uma elaborada brincadeira ficcional e um inteligente tributo a um mestre.

O que impressiona mais, contudo, são as páginas desenhadas por Veitch, num convincente traço “kirbiano”. Página a página, estão lá versões alteradas dos heróis patrióticos (como o Capitão América), de vilões tecnológicos (como o Doutor Destino), de divindades emprestadas das antigas mitologias (como os Asgardianos) ou de seres cósmicos inventados (como os Novos Deuses). Há também as texturas, os maneirismos, os enquadramentos dinâmicos e as diagramações específicas de Kirby, tudo reproduzido em detalhe.

O clímax da HQ são as páginas em que aparece a cabeça-divindade Kirby. Evocando um sentido de respeito e temor quase religiosos, a figura brilha em raios laser, radia energia cósmica, assume a forma de pedra ou árvore, peixe ou máquina, sempre mutável e inconfundível, como era a arte do "Rei". Simplesmente fantástica, “New Jack City” foi o último capítulo que Moore e Veitch criaram para Supremo e, embora restassem duas edições a serem produzidas, este tributo em quadrinhos foi um fechamento com “chave de ouro”.

Supremo: A Era Moderna tem formato reduzido, 16,5cm x 24cm, capa cartonada e 144 páginas, ao preço de R$42,00, trazendo um texto complementar do editor Leandro Luigi de Manto sobre os quadrinhos de Jack Kirby. Não faltam também, mais uma vez, deslizes na revisão (“um amiga”, p.51) e mesmo na tradução (“aparência” no lugar de “aparição”, p.113). Uma edição para aqueles que acompanharam a série, este quarto volume também é indicado para os fãs de Jack Kirby.

07/01/2008

Eternos de… Neil Gaiman e John Romita Jr.?


A editora Panini está concluindo o lançamento no Brasil de Eternos, minissérie escrita por Neil Gaiman e desenhada por John Romita Jr., a partir dos personagens criados pelo mestre Jack Kirby. Lançada nos Estudos Unidos em sete edições reunidas posteriormente num caprichado volume de capa dura, Eternals pode até ter agradado a alguns, mas deixa muito a desejar quando consideramos os autores envolvidos.

Uma raça de seres imortais e superpoderosos, os Eternos foram criados por Jack Kirby em 1976. Tendo acabado de retornar à Marvel após um período na concorrente DC Comics, Kirby buscava um novo projeto no qual trabalhar. Após produzir uma adaptação do filme 2001: Uma odisséia no espaço de Stanley Kubrick e sob a influência do livro Eram os deuses astronautas? de Erich Von Däniken, o co-criador do “Universo Marvel” mergulhou no conceito da evolução humana influenciada por alienígenas. Assim surgiram os Celestiais (alienígenas gigantescos e quase onipotentes), responsáveis pela criação dos Eternos (uma casta de humanos geneticamente alterados) e o Povo Mutável (um grupo menos geneticamente agraciado). Apesar de ser outra criação inspirada de Jack Kirby, as especulações filosóficas de The Eternals não fizeram muito sucesso com o público da época, o que levou a interferências editorais e o cancelamento da série em 1978.

A nova versão dos personagens lançada em 2006 surgiu numa visita de Neil Gaiman aos escritórios da Marvel. Após a minissérie 1602, o roteirista inglês vinha pensando num novo projeto para a editora norte-americana, quando o editor-chefe Joe Quesada sugeriu que ele recriasse os demiurgos cósmicos de Jack Kirby. O desenhista escolhido para o projeto acabaria sendo John Romita Jr., que já havia trabalhado com vários outros personagens criados pelo mestre dos quadrinhos de super-heróis. Com um roteirista inovador e um talentoso desenhista, a proposta da nova série (intitulada simplesmente Eternals) seria definir um lugar para aqueles deuses e semideuses na continuidade dos demais personagens da Marvel. No primeiro capítulo, a série vai muito bem, com o “mito” de criação proposto por Kirby sendo recontado e as peças da trama principal sendo posicionadas. Os desenhos também são muito bons, alternando do minimalista ao monolítico, quando necessário. Todavia, não demora muito para as coisas desandarem.

A partir do capítulo dois, a trama principal começa a se perder em meio subtramas envolvendo conspirações políticas e reality shows com aspirantes a super-heróis. Há ainda os romances e draminhas cotidianos envolvendo os Eternos em suas “identidades civis” (que parecem um pastiche dos Perpétuos). Ao longo da série, a qualidade do desenho também não se mantém, variando entre algumas boas páginas e outras nada excepcionais. Há quadros, inclusive, nos quais a colorização por computador mais atrapalha que ajuda, enquanto em outros os desenhos parecem ter sido feitos meio às pressas. Do ponto de vista da criação visual, Romita Jr. soube aproveitar a fonte de inspiração, embora um ou dois personagens sejam melhores no original. Mas falando em “original”, o que não é nada original são algumas soluções do roteiro de Gaiman, como a idéia do herói superpoderoso com amnésia e a forma como o problema principal é solucionado no último capítulo, copiadas da série Miracleman de Alan Moore (embora a última página guarde uma surpresa para os leitores de São Paulo).

Eternos não é uma história em quadrinhos ruim (principalmente se levarmos em consideração a baixa qualidade média das revistas da Marvel). Mas ela também não é nenhuma obra-prima, deixando ao fim a sensação de que faltou algo. De certa forma, talvez o maior problema da HQ esteja nos nomes envolvidos. Afinal, um leitor tem direito de esperar trabalhos muito acima da média, quando os nomes envolvidos são Neil Gaiman (The Sandman, Os livros da magia) e John Romita Jr. (X-Men, Daredevil).

05/11/2007

Hellboy, uma mistura original.


Incorporando influências de grandes mestres dos quadrinhos, o norte-americano Mike Mignola aprimorou seu estilo narrativo, inventando para si um traço ao mesmo tempo sintético e bastante expressivo. E se a arte dos quadrinhos é contar uma história através de imagens e palavras, Hellboy é uma obra-prima!

Mignola ficou mais conhecido no Brasil após o lançamento de Batman 1889 (revista na qual o Homem-Morcego enfrenta Jack, o Estripador) e da minissérie Odisséia Cósmica (estrelada pelos principais heróis da DC e pelo vilão Darkseid). No primeiro trabalho, fica evidente seu talento e predileção pelo uso de sombras ao estilo do quadrinista italiano Hugo Pratt (Corto Maltese), enquanto no outro o que se destaca é a influência da estética e narrativa do norte-americano Jack Kirby (Novos Deuses). Em seguida, Mignola juntou-se a Howard Chaykin para criar Ironwolf: The Fires of Revolution, minissérie que traz personagens, ambientes e visual inspirados pelos desenhos do francês Moebius (Incal).

Em Hellboy, lançado originalmente pelo selo Legend, Mignola alcançou uma mistura perfeita dessas influências, temperada com uma boa dose de invenção e originalidade. A história começa na Inglaterra em 1944, quando um grupo de agentes anglo-americanos investiga uma conspiração nazista. Há alguns quilômetros dali, numa ilha da Escócia, agentes alemães realizam uma estranha cerimônia que envolve magia negra e bizarras tecnologias. Mas algo sai errado para os seguidores de Hitler, e o bebê Hellboy (o produto do ritual maligno) cai em mãos inimigas, sendo adotado por um pesquisador do sobrenatural norte-americano. Com uma índole bondosa e um gosto por pancadarias, Hellboy acaba se tornando um importante agente que percorre o mundo enfrentando ameaças e resolvendo enigmas sobrenaturais.

Povoada por nazistas, fantasmas, monstros, demônios e ocultistas, a série Hellboy vai muito além do gênero do terror, resgatando a origem mítica e a força cultural de tipos como o lobisomem. Recorrendo freqüentemente à História e à Literatura, as tramas criadas por Mignola dão vida nova a personagens já banalizados pelo cinema e pelos quadrinhos. Acima de tudo, Hellboy nos lembra que para se conquistar o mercado e o grande público não é preciso render-se aos modismos, deixando de lado a qualidade e originalidade.

03/11/2007

A história dos X-Men (1963-1976).


Um mutante é um ser que sofreu alterações em seu código genético. Nos quadrinhos da Marvel Comics, eles são seres superpoderosos que lutam contra o preconceito, ou pelo domínio do mundo. Representados principalmente pelos X-Men, os heróis mutantes estão entre os campeões de vendas no mercado norte-americano. Mas nem sempre foi assim.

Os X-Men foram criados em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, a dupla que transformou os quadrinhos de super-heróis ao criar o Universo Marvel. No início, eles eram apenas cinco: Ciclope, Anjo, Fera, Homem de Gelo e Garota Marvel, além do Professor X, o mentor do grupo. Os X-Men originais geralmente enfrentavam vilões mutantes que ameaçassem a ordem social ou buscassem dominar o mundo, como Magneto, o Fanático ou a Irmandade dos Mutantes. Outra ameaça contra a qual esses X-Men lutaram foram os Sentinelas, robôs criados com o objetivo de exterminar os mutantes.

A fase Lee/Kirby não durou muito, surgindo vários substitutos para estes autores, durante a década de 1960. Entre eles, o destaque é o desenhista Neal Adams que, em parceria com o roteirista Roy Thomas, produziu algumas das melhores HQs dos X-Men originais. Contudo, na primeira metade da década de 1970, os heróis mutantes passaram pelo pior momento de sua história. As vendas caíram e a revista The X-Men passou a reeditar antigas histórias.

A situação só melhorou quando, em 1975, foram criados os novos X-Men. Os responsáveis pelos novos heróis foram os roteiristas Len Wein e Chris Claremont e o desenhista Dave Cockrum. Introduzindo personagens como Tempestade, Noturno, Colossus e Wolverine, esses autores revitalizaram a revista, abrindo espaço para o sucesso que viria em seguida.

Com heróis e histórias mais agressivos, os roteiros de Claremont davam ênfase aos problemas e dramas dos personagens, enquanto levavam os X-Men a enfrentar ameaças em âmbito mundial e até interestelar. Assim, personagens como Fênix e Wolverine, que lutam para controlar seu “lado sombrio” ou selvagem, passaram a ter mais espaço. Mas ainda faltava algo para o sucesso dos X-Men se concretizar!

O legado do “rei” Kirby.

Nos anos 60, os novos super-heróis lançados pela Marvel Comics surgiram com um sucesso avassalador, o que se deve em grande parte aos desenhos de Jack Kirby. Mas sua contribuição para os quadrinhos de super-heróis é anterior e vai muito além de seus trabalhos para a Marvel. Apelidado de Jack “King” Kirby, suas HQs transformaram a estética, a narrativa e a temática dos quadrinhos.

No início, as HQ’s de super-heróis estavam ainda bastante presas à estrutura das tiras de jornal. Na verdade, algumas páginas nada mais eram que três ou quatro tirinhas empilhadas. Jack Kirby foi um dos pioneiros em explorar novas possibilidades de diagramação. As páginas divididas em “cruz”, com quatro quadros do mesmo tamanho, são uma de suas contribuições para o aumento do dinamismo nas seqüências de ação. A página com um único desenho é outra contribuição sua, para dar mais dramaticidade à narrativa.

Ao “aumentar” o tamanho dos desenhos, diminuindo o número de quadros por página, Kirby pôde desenhar os personagens com mais liberdade, introduzindo novos enquadramentos, e explorar novas possibilidades gráficas. Com as linhas indicando movimento ou explosões de energia, e o uso gráfico das onomatopéias, ele conseguiu transmitir sensações de velocidade e impacto, como nenhum outro desenhista fizera antes.

Para os padrões de hoje, alguém poderia dizer que os desenhos de Jack Kirby são ultrapassados ou rústicos. Isso só demonstraria o pouco conhecimento que esta pessoa tem da arte dos quadrinhos, pois foi justamente por ter um traço sintético que o quadrinista conseguiu imprimir tanto dinamismo e energia a seus desenhos. Sem exageros, os personagens e acontecimentos representados em suas HQs praticamente saltam da página!

Quando criou o Poderoso Thor e os deuses de Asgard, Kirby não se contentou em copiar as roupas dos Vikings. No quartel general do Quarteto Fantástico as parafernálias científicas de Reed Richards não são meros monitores e tubos de ensaio. Ao criar os mundos de Nova Genesis e Apokolipse e personagens como Galactus e Darkseid para a DC Comics, ele não se inspirou em apenas numa referência. Enfim, para dar forma às imagens de seu mundo imaginário, Kirby fez uma colagem de inúmeras referências, misturando magia, misticismo, ciência e, é claro, o mundo real. O resultado é uma estética original e inconfundível.

Essa incrível originalidade das HQs de Jack Kirby influenciou não apenas os novos desenhistas norte-americanos que surgiam, mas também seus contemporâneos (como John Buscema e John Romita) e até quadrinistas europeus (como Moebius e Phillippe Druillet). Mas o discípulo mais fiel e competente de Kirby é sem dúvida John Byrne, que ao longo de sua carreira desenhou praticamente todos os personagens criados pelo mestre, além de apropriar-se de sua estética e temática.

A trajetória de Jack Kirby se confunde com a dos quadrinhos norte-americanos. Além de ter contribuído para o desenvolvimento da indústria dos comics, ele foi um dos responsáveis pelo aperfeiçoamento da linguagem dos quadrinhos de super-heróis, transformando-os num gênero original e expressivo. E se ainda hoje seus trabalhos são copiados ou citados, isso se deve certamente à sua riqueza e inventividade.

90 anos de Jack Kirby, um “rei” dos quadrinhos.


Na história dos quadrinhos, alguns autores surgiram com um estilo inovador ou introduziram novos elementos que transformaram esta arte. Ao lado de nomes como Will Eisner, Hugo Pratt e Osamu Tezuka, um destes mestres que fizeram escola é Jack Kirby, que teria completado 90 anos em 2007.

Jacob Kurtzberg nasceu em Nova York, a 28 de agosto de 1917. Começou sua carreira de desenhista profissional em 1935, trabalhando em estúdios de animação. Após animar personagens como Popeye e Betty Boop, o jovem artista trocou a animação pelas tirinhas e charges de jornal. Pouco depois, ele estrearia em revistas em quadrinhos, através do estúdio de outro grande mestre dos comics, Will Eisner. Porém, com o crescente sucesso dos super-heróis, Kirby partiu para uma nova etapa em sua carreira.

No final de 1940, após trabalhar em revistas de heróis pouco conhecidos (como Blue Bolt e Red Raven) e desenhar HQs com o Capitão Marvel (Shazam!), Kirby criou, em parceria com o roteirista Joe Simon, seu primeiro herói de grande sucesso: o Capitão América. A revista Capitain America Comics nº 1 foi lançada no início de 1941 e traz o herói patriota dando um soco em Adolf Hitler.

Encerrado o contrato com a Timely Comics (editora que se tornaria a Marvel Comics), a dupla Kirby e Simon foi parar na National Periodics (futura DC Comics), onde passou a assinar as HQs do primeiro Sandman. Depois de criar histórias com outros personagens, os jovens quadrinistas tiveram sua carreira interrompida pela entrada efetiva dos Estados Unidos na Segunda Guerra. Quando retornaram do serviço militar, o gênero super-herói não estava mais em primeiro plano, e eles passaram a criar quadrinhos de romance, faroeste e terror.

Depois de se separar de Simon, Jack Kirby voltou à DC, onde criou Os Desafiadores do Desconhecido (um grupo de aventureiros que se assemelha a uma primeira versão do Quarteto Fantástico). Neste trabalho já estão presentes os elementos do novo filão que se firmava nos anos 50: os quadrinhos de monstros e ficção científica.

Não há dúvidas de que a bomba atômica e a Guerra Fria foram os principais inspiradores deste novo gênero. Nas histórias que mostram catástrofes causadas por monstros criados ou despertados pelo homem, ou em tramas que envolvem invasões alienígenas e discos voadores, Kirby desenvolveu seu estilo e sua narrativa pessoal, e lançou alguns dos elementos da estética que caracterizaria seus futuros trabalhos com super-heróis.

Em 1958, Jack Kirby transferiu-se novamente para a Marvel, onde desenhou uma memorável galeria de monstros. Nas páginas de revistas como Tales of Astonish, aconteceram as primeiras colaborações com seu novo parceiro, o roteirista Stan Lee. Foi misturando características dos quadrinhos de monstros e de super-heróis que a dupla lançou, em 1961, o primeiro número da revista Fantastic Four.

Experiências científicas, viagens espaciais, monstros e super-heróis criados a partir de radioatividade fizeram das histórias do Quarteto Fantástico um sucesso absoluto, que deu origem a um novo estilo de quadrinhos e a um novo panteão de super-heróis. Incrível Hulk, Poderoso Thor, X-Men e Vingadores tornaram-se o centro do universo Marvel, e as maiores criações da dupla Kirby / Lee.

Após ressuscitar o Capitão América e criar personagens marcantes como Galactus e o Surfista Prateado, Kirby deixou a Marvel. Em 1970, ele recebeu um convite da DC Comics para desenvolver novos personagens. Nesta nova empreitada, Kirby teria mais liberdade criativa, pois além de escrever e desenhar ele era o editor das revistas. O resultado foi um novo universo de deuses e heróis cósmicos, como Darkseid e Senhor Milagre.

Contudo, a complexidade dos roteiros criados para a DC não fez muito sucesso entre os leitores, o que causou o cancelamento das revistas. Isso motivou Kirby a criar histórias mais simples, que enfocavam um personagem-solo. Nessa fase, surgiram Kamandi (um herói que vive numa Terra devastada por uma guerra nuclear), o demônio Etrigan (uma entidade que habita o corpo do imortal Jason Blood) e OMAC (o Exército de um só homem).

Antes de encerrar sua carreira, Jack Kirby ainda retornou à Marvel, para a qual criou os personagens cósmicos Eternos, além de produzir histórias do Pantera Negra e do Capitão América. No final dos anos 70 e ao longo dos anos 80, o desenhista lançou novos personagens através de pequenas editoras e voltou a trabalhar em desenhos animados. Um de seus últimos trabalhos em quadrinhos foi a série Phantom Force, criada com o apoio dos principais desenhistas da Image Comics.

Após uma carreira de mais de 50 anos dedicados aos quadrinhos, Jack Kirby faleceu em 1994, deixando um legado que sempre influenciará os quadrinhos e certamente justifica o título de “rei” dos quadrinhos de super-heróis.