
Por motivos óbvios, um recurso muito comum na propaganda de guerra (seja ela oficial ou não) é a detratação dos inimigos, comumente pintados como seres covardes e cruéis. Afinal, torna-se mais fácil se engajar num esforço de guerra quando se imagina que aqueles contra os quais se luta têm uma natureza desumana ou mesmo subumana (sendo, portanto, menos merecedores de continuarem vivos). Neste sentido, o que pode passar como uma mera caricaturização de um determinado grupo étnico ou nacional, acaba tendo o efeito de negar a condição humana daqueles contra os quais se luta.
Um exemplo disso pode ser visto na capa produzida pelo talentoso ilustrador Alex Schomburg para a revista The Fighting Yank, com seu herói supostamente vestido à moda do século 18 e inspirado no espírito da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Na ilustração, vemos o “mais bravo defensor da América” relaxadamente sentado numa cadeira, tendo a seus pés diversos soldados japoneses derrotados e ao fundo o Imperador Hirohito em pessoa, amarrado a seu trono, tendo às costas a bandeira do “Sol Nascente” (símbolo das aspirações expansionistas do Japão das primeiras décadas do século 20). Completam a cena vasos de plantas, um biombo decorado com flores e três soldados norte-americanos: um primeiro espantado, um segundo surpreso e um terceiro fazendo troça do governante japonês.
Mas, para mim, o que se ressalta nesta capa tecnicamente irreparável são as caracterizações desumanizadas dos soldados japoneses, com seus olhinhos espremidos, cabeça redonda, pequenas orelhas destacadas e grandes dentes proeminentes e espaçados. Mais numerosos, porém pequenos, armados, porém incompetentes, os ridículos e derrotados soldados, com seu impotente governante de vestes peculiares não representam, é claro, o povo japonês, mas sim o desprezo norte-americano por seus adversários na Guerra do Pacífico. Com sua política de dominação territorial e seu militarismo prepotente (sem falar nos incontáveis crimes de guerra cometidos contra outros povos orientais), o Império Japonês causou a si mesmo e a seu povo a destruição que viria ao fim da Segunda Guerra Mundial. Contudo, no jogo sujo da guerra, na mistura de nacionalismo e racismo, esta capa da Fighting Yank #12 parece acertar em cheio na intenção de desumanizar e diminuir, para o público norte-americano da época, aqueles inimigos odiados. O fato é que, quando se tem em mente que aqueles contra os quais se luta são, de alguma forma, menos humanos do que você é, pode se tornar mais aceitável o bombardeio incendiário de cidades de madeira e papel, ou mesmo a detonação de uma ou duas bombas atômicas sobre populações civis indefesas.

