Mostrando postagens com marcador Alex Schomburg. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alex Schomburg. Mostrar todas as postagens

12/02/2009

Quadrinhos em tempos de guerra (IV).


Por motivos óbvios, um recurso muito comum na propaganda de guerra (seja ela oficial ou não) é a detratação dos inimigos, comumente pintados como seres covardes e cruéis. Afinal, torna-se mais fácil se engajar num esforço de guerra quando se imagina que aqueles contra os quais se luta têm uma natureza desumana ou mesmo subumana (sendo, portanto, menos merecedores de continuarem vivos). Neste sentido, o que pode passar como uma mera caricaturização de um determinado grupo étnico ou nacional, acaba tendo o efeito de negar a condição humana daqueles contra os quais se luta.

Um exemplo disso pode ser visto na capa produzida pelo talentoso ilustrador Alex Schomburg para a revista The Fighting Yank, com seu herói supostamente vestido à moda do século 18 e inspirado no espírito da Guerra de Independência dos Estados Unidos. Na ilustração, vemos o “mais bravo defensor da América” relaxadamente sentado numa cadeira, tendo a seus pés diversos soldados japoneses derrotados e ao fundo o Imperador Hirohito em pessoa, amarrado a seu trono, tendo às costas a bandeira do “Sol Nascente” (símbolo das aspirações expansionistas do Japão das primeiras décadas do século 20). Completam a cena vasos de plantas, um biombo decorado com flores e três soldados norte-americanos: um primeiro espantado, um segundo surpreso e um terceiro fazendo troça do governante japonês.

Mas, para mim, o que se ressalta nesta capa tecnicamente irreparável são as caracterizações desumanizadas dos soldados japoneses, com seus olhinhos espremidos, cabeça redonda, pequenas orelhas destacadas e grandes dentes proeminentes e espaçados. Mais numerosos, porém pequenos, armados, porém incompetentes, os ridículos e derrotados soldados, com seu impotente governante de vestes peculiares não representam, é claro, o povo japonês, mas sim o desprezo norte-americano por seus adversários na Guerra do Pacífico. Com sua política de dominação territorial e seu militarismo prepotente (sem falar nos incontáveis crimes de guerra cometidos contra outros povos orientais), o Império Japonês causou a si mesmo e a seu povo a destruição que viria ao fim da Segunda Guerra Mundial. Contudo, no jogo sujo da guerra, na mistura de nacionalismo e racismo, esta capa da Fighting Yank #12 parece acertar em cheio na intenção de desumanizar e diminuir, para o público norte-americano da época, aqueles inimigos odiados. O fato é que, quando se tem em mente que aqueles contra os quais se luta são, de alguma forma, menos humanos do que você é, pode se tornar mais aceitável o bombardeio incendiário de cidades de madeira e papel, ou mesmo a detonação de uma ou duas bombas atômicas sobre populações civis indefesas.

11/02/2009

Quadrinhos em tempos de guerra (III).


Em tempos de guerra, torna-se muito comum a exaltação emotiva dos símbolos e ideais nacionais. Personagens como o super-nacionalista Capitão América, “o defensor da liberdade”, são um claro exemplo disso. Por outro lado, a propaganda de guerra (mesmo a não promovida por órgãos oficiais) emprega intensamente a difusão do medo como instrumento de mobilização social. No contexto de um conflito armado, o temor pela própria vida, por sua segurança e a das pessoas que se ama é algo totalmente compreensível e justificável. Mas sobre a sensação real de insegurança, costuma-se projetar simbologias e imagens que têm como efeito a reprodução de medos irracionais.

Um exemplo disso é a capa acima, desenhada pelo ilustrador Alex Schomburg. Nela vemos o herói Green Hornet, seguido por seu fiel ajudante negro, enfrentando vilões que ameaçam a vida de uma loira e indefesa mocinha. O elemento simbólico mais importante aqui são os vilões que variam de um abobado soldado nazista, até um espectro amarelo e flagelado, passando pela figura central: um homem com vestes amarelas que cobrem quase todo seu corpo, com ossos cruzados no peito, um capuz com a suástica e feições monstruosas que incluem presas vampirescas. O texto em destaque convoca o leitor a “conhecer a história por trás da capa”, que descobrimos tratar de um “navio fantasma nazista” (informação seguida de outra que fala do “espírito de [17]’76”, ano da declaração de independência dos Estados Unidos).

Vista hoje, esta ilustração de capa parece incrivelmente ingênua. Mesmo porque, ao final dos anos de destruição e barbárie da Segunda Guerra Mundial, a Humanidade descobriria atônita o verdadeiro terror que o Nazismo fôra capaz de produzir. A verdade é que os fantasmas e vampiros da ficção não são símbolos capazes de representar a terrível realidade dos campos de concentração, câmaras de extermínio e outros crimes e aberrações nazistas.

10/02/2009

Quadrinhos em tempos de guerra (II).


Muitas coisas podem ser ditas sobre a guerra. Uma delas certamente é que guerra não é coisa de criança. No entanto, alguns quadrinhos da Segunda Guerra Mundial contrariam essa afirmação. Um exemplo é Commando Cubs, série da editora Nedor que mostrava cinco garotos participando de missões, nas quais lutam contra soldados alemães ou japoneses (como vemos na capa ao lado, ilustrada por Alex Schomburg). O fato é que, empunhando armas, dirigindo tanques, navegando submarinos ou pilotando aviões, os “filhotes de comando” enfrentam e matam soldados inimigos. Num quadrinho voltado ao público infantil, que traz até alguns elementos de humor, a violência praticada por crianças e adolescentes passa despercebida, quase como a aventura de uma turma de amigos (exceto pelo fato, é claro, de que suas armas não são de brinquedo).

Mesmo considerando o contexto, não consigo deixar de me espantar com o absurdo dessa série de quadrinhos e a insensibilidade dos editores, que pareciam exclusivamente preocupados em vender revistas e promover o esforço de guerra de seu país. Na parte de baixo da capa, vemos até uma convocação para que se compre “títulos e selos de guerra, para a vitória!”.

(O arquivo de imagem que ilustra esta postagem também foi conseguido no saite Cover Browser, que tem um excelente repertório de capas de quadrinhos clássicos e modernos.)