25/08/2010

Homem-Aranha: o super-herói mais popular dos quadrinhos (II).


Entre o final dos anos 70 e o início dos 80, a qualidade e relevância das revistas tinham diminuído, mas a popularidade do Homem-Aranha só crescia internacionalmente. Ganhando um filme e um seriado para tevê e, mais tarde, novas séries de animação, o herói tornou-se de vez o “garoto-propaganda” da Marvel (talvez apenas rivalizado pelo Hulk, que em 1978 também ganhou um seriado). Incrivelmente popular entre as crianças, o Homem-Aranha deu origem a uma infinidade de produtos, que iam de superalmanaques e álbuns de figurinha, a diferentes bonecos e fantasias (a minha roupa de super-herói, porém, era do Batman). Não faltavam ainda paródias em programas como Os Trapalhões, ou a versão satírica do tema de abertura do desenho, em que cantávamos no lugar da letra original: “Homem-Aranha, Homem-Aranha... nunca bate, só apanha...” (na época, tudo era mais simples, mas nós nos divertíamos!).

Nos quadrinhos, em 1984, o herói ganhou uma de suas mais tocantes histórias: “O garoto que colecionava o Homem-Aranha”, produzida por Roger Stern e Ron Frenz. Contudo, tendo perdido espaço para outros personagens (em particular para o mais violento Wolverine), pela primeira vez o Aranha teve que correr atrás da popularidade. Com uma participação central na minissérie Guerras Secretas, ele ganhou um visual mais moderno e menos simpático: o “uniforme negro”. Como efeito colateral, em 1988, surgiria o vilão Venon, que estreou pelo traço de Todd McFarlane (que fizera sucesso na revista do Hulk). Com seu estilo arrojado de desenhar o herói e sua teia, o desenhista conquistou os leitores, revitalizando a revista The Amazing Spider-Man. Transformado num astro dos quadrinhos, em 1990 McFarlane ganhou a série Spider-Man, para a qual escreveria e desenharia as HQs e com a qual bateria recordes de vendas.

No meio do caminho, houve o ridículo casamento de Peter com Mary Jane; mais adiante, lançaram a estúpida “Saga do Clone”, que deu início ao ponto mais baixo da trajetória do herói. Aí, eles ressuscitaram o Duende Verde original. Então, eles mataram a Tia May e também mataram a Mary Jane. Mas, no fim, tudo se revelou uma enganação e tanto uma quanto a outra apareceram sãs e salvas. Essas trapalhadas editoriais e autorias minaram o importante pacto ficcional entre personagem e leitores, fazendo o antes mais popular super-herói dos quadrinhos tornar-se uma figura sem rumo e totalmente desinteressante. Tanto que, ao longo dos anos 90, o que se viu de mais interessante com o personagem foi sua versão futurista, criada por Peter David e Rick Leonard, para a linha alternativa Marvel 2099. Em 1998, houve uma malfadada tentativa de recomeço, com a fraca Homem-Aranha: Capítulo Um de John Byrne.

Desacreditado e tendo perdido grande parte de seus leitores, o Aranha precisava desesperadoramente de uma renovação. E essa veio no ano 2000, com o lançamento da revista Ultimate Spider-Man (que deu início à linha alternativa com versões atualizadas dos heróis Marvel). Idealizada pelo então chefão da editora, Bill Jemas, roteirizada por Brian Michael Bendis e desenhada por Mark Bagley, a nova série partiu de elementos das histórias originais do Homem-Aranha, recriando o personagem para o público e a realidade do século que se iniciava. Deixando de lado décadas de “cronologia” e não tendo que lidar com os equívocos dos anos 90, a nova série partiu da história que lançou o personagem em 1962, alterando alguns elementos, expandindo e incorporando outros. Com isso, a “história de origem” básica, que os primeiros leitores do Aranha tinham lido numa HQ de onze páginas, foi recriada em sete edições.

Sem a narração grandiloquente de Stan Lee ou o estilo peculiar de Steve Ditko, a origem Ultimate do Homem-Aranha chegou como um quadrinho moderno convencional (explorando a narrativa visual e alguns efeitos de colorização digital). Diferenças de estilo à parte, a mudança mais significativa entre uma versão e outra está no acidente que deu poderes a Peter: sai a aranha radioativa e entra uma aranha geneticamente alterada; sai o ambiente universitário e entra o laboratório das empresas Osborn (o que liga a origem do Aranha àquele que será seu principal inimigo, o Duende Verde). Além do protagonista e de seu antagonista, a edição de estreia também traz as versões Ultimate de Tio Ben e da Tia May, de Mary Jane e de Harry Osborn. O resultado foi um sucesso comercial que durou mais de cento e trinta edições e deu origem a diversas coletâneas, motivando também a Marvel a expandir a linha Ultimate.

O Homem-Aranha Ultimate foi a mais bem-sucedida versão em quadrinhos do personagem nos últimos dez anos, chegando a influenciar o filme Homem-Aranha de 2002 (do qual falarei na próxima postagem). Enquanto ela experimentava uma longa regularidade criativa e comercial, a versão tradicional do personagem contou com os bons desenhos de John Romita Jr., mas atolava em tramas absurdas, como “Um dia a mais” que apagou anos de HQs como se elas simplesmente não tivessem existido (não é à toa que essa história causou a fúria de muitos leitores!). Atualmente, o Homem-Aranha faz parte do grupo Vingadores, ao lado de Wolverine, Capitão América, Thor e Homem de Ferro, todos personagens que já ganharam ou ganharão versões cinematográficas nos próximos anos (uma prova de que cada vez mais os quadrinhos da Marvel são vistos como uma ponte para ou uma extensão das produções cinematográficas).

(CONTINUA)

10 comentários:

celtic-warrior disse...

Estou a gostar bastante destes artigos :) O Aranha é a minha personagem preferida.

Continua assim!

Wellington Srbek disse...

Bacana! Teremos ainda mais um texto, no qual falarei dos filmes com o Cabeça-de-Teia.
Abraços!

Kteno disse...

Olá Wellington. Que tal comentar também sobre as séries animadas do Aranha e o que elas aproveitaram das HQs?

Wellington Srbek disse...

Olá Kteno,
Todos os textos deste blog são baseados em pesquisas direto nas edições, e quando falo sobre desenhos ou filmes (como será na próxima postagem) assisto ou reassisto as produções para fazer uma análise fundamentada. Assim, não teria como escrever especificamente sobre os desenhos do Aranha, pois não os tenho (embora tenha várias lembranças deles em minha infância).

Lillo Parra disse...

Wellington,

Essa série do Aranha que você está escrevendo merece aplausos. Essa segunda em particular está muito boa. O Garoto que colecionava Homem Aranha é - sem dúvida - uma das melhores histórias do cabeça de teia em todos os tempos. Deu vontade de ler de novo.Aguardando ansiosamente a terceira parte...

Wellington Srbek disse...

Poxa, Lillo, valeu demais! É bacana me dedicar a uma série ou personagem, pesquisando nas revistas e escrevendo o texto; mas tudo se completa mesmo na leitura e é sempre fantástico quando vocês gostam!
Mas imagine um livro inteiro com algumas dezenas de textos nessa linha. Bom, este livro já existe, só não consegui uma editora para ele...
Abraços!

Lillo Parra disse...

Meu amigo, pode ainda não existir uma editora interessada. Mas não tenha dúvidas que já existem leitores interessados...

Wellington Srbek disse...

Eh, mas no Brasil as coisas são difíceis. Convencer esses editores de que um trabalho vale a pena é um milagre! Meu melhor exemplo disso é o Estórias Gerais, que ficou 3 anos na gaveta e só foi lançado porque consegui o financiamento para uma edição independente.
Esse livro sobre os super-heróis eu mandei a proposta para algumas editoras, sem ter sequer uma resposta da maioria. É um mapeamento dos principais momentos dos quadrinhos de super-heróis, de 1938 aos tempos atuais. Ele inclusive tem a ver com essa sequência de textos sobre as revistas Marvel. E o que faltava era justamente escrever sobre o Aranha.
Abraços e bom fim de semana!

Manuel Frederico disse...

Muito bom o texto,por acaso eu sou um dos mts chateado pelo pacto de Omd.

Wellington Srbek disse...

Obrigado, Manuel! Em breve a terceira parte dessa "trilogia" sobre o Aranha.