21/07/2010

The Ultimates, a melhor série de super-heróis da década (II).


Dividida em treze capítulos, desde sua primeira edição The Ultimates foi um sucesso “de público e de crítica”. E não é por menos: uma trama bem conduzida, diálogos inteligentes, abordagem contemporânea, além de um visual detalhadíssimo e bem finalizado fazem dessa uma revista que realmente merece ser lida e vista. O interessante é que parte do que torna esse um trabalho tão particular aconteceu quase acidentalmente (como revelam os comentários dos autores na edição em capa-dura). Inicialmente, a ideia era ter-se uma primeira edição com 48 páginas, cuja metade inicial seria o prólogo passado na Segunda Guerra e o restante equivaleria ao que se vê nas quatro edições seguintes. Na melhor das hipóteses, o resultado seria uma boa HQ de super-heróis, mas sem uma das melhores qualidades da série: seu caráter compassado e comedido.

Nas primeiras edições de The Ultimates, não há uma cena de luta ou a ameaça de um supervilão a cada página; não há sequer exatamente um supervilão (pelo menos até o líder alienígena se revelar no décimo capítulo). Tudo começa com a que é possivelmente a melhor HQ do Capitão América na Segunda Guerra (influenciada pelas sequências iniciais do filme O Resgate do Soldado Ryan); ali se inicia uma situação que será resolvida apenas doze edições (e dois anos) depois. Passado o prólogo bombástico, nas três edições seguintes a ação dá lugar aos diálogos e à interação dos personagens, numa intrincada trama em que mais informações vão sendo adicionadas a cada página. Tudo culmina no número 5, em que temos uma das melhores e mais verossímeis sequências de luta dos quadrinhos de super-heróis (Os Supremos x O Hulk).

Em The Ultimates n°s 6 a 13, a história continua acima da média, mas há uma queda na qualidade (o que equivale a dizer que as HQs deixam de ser brilhantes para se tornarem ótimas). As piadas e tiradas acontecem, mas é a dramaticidade que predomina. E se o clima “pós-11 de setembro” dera o tom desde o início (com a presença do presidente George W. Bush e parte de Nova York em escombros), esse caráter é reforçado na sequência do memorial aos mortos no “Incidente Hulk” e pela retórica da segurança nacional, sem falar na ligação direta entre Os Supremos e as forças armadas. Outro fator que evidencia que estamos lendo uma série realmente contemporânea são as várias referências à mídia e as implicações de ser um super-herói num mundo em que a vida privada das "celebridades" não raramente se torna assunto dos telejornais.

Comparados à qualidade excepcional do trabalho de Millar no início da série, os números finais são revistas de super-heróis mais convencionais, com uma maior dose de ação e uma trama envolvendo nazistas e alienígenas (digna de Indiana Jones e A Guerra dos Mundos). O visual também perde um pouco da elegância e da linha mais clássica vistas inicialmente, assumindo um acabamento mais rápido e mais “fotojornalístico”. Ainda assim, o trabalho ricamente detalhado e as concepções originais de Hitch para os heróis Marvel comprovam porque ele é considerado um dos melhores desenhistas dos quadrinhos de super-heróis na atualidade. Além disso, a ótima dinâmica cinematográfica das páginas e os diálogos na medida permitem que os números 6 a 13 desenvolvam bem a história, fechando num confronto épico contra os alienígenas nazistas.

Sem violência excessiva ou polêmicas gratuitas, as cinco primeiras edições de The Ultimates conseguiram revitalizar heróis que andavam bastante desprestigiados. Isso é ressaltado pelo fato de essas revistas serem uma recriação da história de estreia dos Vingadores, produzida em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby. E se todos os louros devem ser lançados sobre os mestres do passado, os devidos créditos devem ser dados a Millar e Hitch. Sua atualização dos heróis para o século 21 nos deu a mais condizente versão do Capitão América (antes de tudo, um soldado a serviço do país), uma simpaticíssima encarnação de Tony Stark (com uma armadura de aparência funcional), um interessantíssimo Thor (seria ele um deus nórdico ou um doente psicótico?) e um complexo Bruce Banner, que esconde o animalesco Hulk (uma montanha de músculos idiota).

Embora Gigante e Vespa pareçam menos críveis, podendo ter ficado de fora dessa série realista (afinal, para onde vai e de onde vem a massa corporal quando eles diminuem ou aumentam de tamanho?), todos os demais personagens se encaixam bem na trama. O destaque vai para Nick Fury, cuja versão Ultimate é a que mais se afasta dos quadrinhos originais, ganhando as feições e a presença espirituosa do ator Samuel L. Jackson. Aliás, numa das sequências, Os Supremos discutem quais astros de Hollywood interpretariam seus papeis num possível filme, e Nick Fury logo dispara: “O senhor Samuel L. Jackson, é claro!”. Inusitadamente, esse vaticínio se cumpriria em 2008, quando o ator interpretou o personagem na cena pós-créditos do primeiro filme do Homem de Ferro (numa caracterização obviamente copiada de Os Supremos).

Em The Ultimates, a ligação entre quadrinhos e cinema vai além dos comentários sobre o elenco de um suposto filme ou as referências a atores como Brad Pitt ou Johnny Depp. Uma das melhores sequências de ação da HQ, quando Viúva Negra e Gavião Arqueiro invadem os escritórios dos alienígenas, foi clara e declaradamente inspirada no filme Matrix, então lançado há poucos anos e ainda uma sensação (antes de ser avacalhado por suas tolas e dispensáveis continuações). Mais significativamente e num sentido inverso, a série de Millar e Hitch tem servido de modelo para concepções e cenas vistas nos filmes dos heróis Marvel. Notoriamente em O Incrível Hulk, que pegou emprestado a ligação entre os monstros e a fórmula do super-soldado, a quebradeira no centro de Nova York e a cena da transformação caindo de um helicóptero.

O sucesso comercial e o prestígio alcançados pela série garantiram uma continuação: The Ultimates 2 (que também teve treze edições, acompanhadas de um anual). Vieram em seguida diversas coletâneas em capa cartonada e em capa-dura, que culminaram numa omnibus editon (que reuniu as duas séries num volume de 880 páginas). Se não bastasse, a HQ também deu origem a dois filmes de animação, rebatizados nos Estados Unidos como Ultimate Avengers (e reintitulados no Brasil como Os Supremos – O Filme e Os Supremos 2). Houve ainda uma nova série The Ultimates 3, produzida por outros autores (sem a mesma qualidade) e mais recentemente foram lançadas Ultimate Comics: New Ultimates e Ultimate Comics: Avengers (esta última escrita por Millar).

Se tivessem produzido apenas os primeiros capítulos de The Ultimates, Mark Millar e Bryan Hitch já teriam criado a melhor série de super-heróis da década (além de oferecer um “mapa da mina” para os filmes da Marvel). Desde O Cavaleiro das Trevas e Watchmen em meados dos anos 80, nenhuma outra HQ de super-heróis havia conseguido articular tão bem a narrativa ficcional com uma representação do ambiente político e cultural. E nenhuma outra recriação de antigos heróis havia conseguido escapar à sombra de Miracleman. Idealizada como um filme de orçamento milionário, The Ultimates provou que ainda é possível criar revistas de super-heróis inovadoras. Uma série brilhante e contemporânea que, com ótimos desenhos e narrativa, apresentou uma “versão definitiva” para os antigos heróis Marvel. Em resumo, um trabalho imperdível!

4 comentários:

Lillo Parra disse...

É verdade Wellington. Essa série é uma paulada. Me deu até vontade de ler de novo. É uma daquelas séries que produzem dois efeitos em mim (e acredito que em outras pessoas também): primeiro me deixa embasbacado, pois não é todo dia que nos deparamos com tanta qualidade junta em tantas páginas. Um momento ou outro aqui até encontramos em outras séries, mas desenhos e roteiro tão casados e bem feitos é difícil. Talvez no Poder Supremo (achava bem bacana quando saía pelo selo Max) ou DC: a Nova Fronteira. Por outro lado, ao lermos ou relermos uma série dessas, percebemos com os quadrinhos de super heróis estão chatos ultimamente. Sem qualquer tipo de desrespeito ou menosprezo às pessoas que vão lá todos os meses e compram, eu não consigo mais ler tantas ressureições, tantas sagas mutantes e tantos vilões sem pé nem cabeça (ou com pés e cabeças numa quantidade muito acima do normal). Penas que coisas assim só saiam duas ou três vezes por década...

Wellington Srbek disse...

Fala, Lillo!
Rapaz, tive uma sensação semelhante após ler The Ultimates - deu vontade de ler de novo.
E sobre as revistas mensais, é o que venho dizendo aqui: as revistas mensais e os quadrinhos regulares, em especial as "super-sagas", não têm valido o papel em que são impressos. É uma mesmice danada que não leva a nada. Uma grande enganação, cheia de páginas tecnicamente bem-trabalhadas, mas sem conteúdo de fato.
Felizmente, de vez em quando, saem coisas como The Ultimates que valem muito serem lidas. Ainda não li The Ultimates 2, mas farei isso em breve. Estou curioso pra ver se a qualidade foi mantida.
Valeus e grande abraço!

Manuel Frederico disse...

Concordo essa serie sera 1 marco.
Já agora The Ultimates foi reeditado pela Marvel em 2 volumes da Ultimate Colection que reunem o ano 1 e 2.

Wellington Srbek disse...

Sim, mas esta é apenas uma reedição em formato comum e capa cartonada do que havia saído nos dois volumes em capa-dura e formato estendido.