27/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte3.


Última parte de nossa entrevista e Brian Bolland fala de como desenhar super-heróis (em quê nós discordamos sobre o quão bem ele faz isso), de suas fantásticas capas para Animal Man e The Invisibles, seus projetos pessoais, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais.

Wellington Srbek: Ninguém desenha os personagens da DC melhor que o senhor! Seu estilo detalhado com linhas clássicas e cores brilhantes dá a eles volume, peso, personalidade e vida. Seu desenho tem algo da “Era de Prata” e é ao mesmo tempo completamente moderno. O senhor tem uma abordagem conceitual para como os super-heróis devem parecer?

Brian Bolland: Bem, eu cresci como um fã da “Era de Prata” e certos desenhistas daquela era eram meus ídolos. Gil Kane, Carmine Infantino, Alex Toth, Bruno Premiani. Temo que nunca fui um grande fã de Jack Kirby. Eu era mais fã dos artistas do que dos personagens e mais ligado nos quadrinhos como artefatos colecionáveis do que nas histórias. Eu queria muito desenhar como Neal Adams, mas nunca consegui isso. Eu sou fissurado em desenhos que sejam tecnicamente e anatomicamente bem desenhados, mas eu tenho consciência de que tem que haver muito mais que isso. Eu não acho que eu seja particularmente bom nos super-heróis. Meu trabalho parece mais europeu, uma vez que fico feliz com personagens que estejam parados, posando ou congelados no tempo, no lugar da ação agitada que é requerida pelos quadrinhos norte-americanos de super-heróis. De fato me é pedido ocasionalmente para recriar uma capa da “Era de Prata” e desenhar no estilo de Premiani, Kane or Curt Swan (e esses trabalhos são mais cópias na verdade!). Eu adoro a limpeza e a clareza das capas dos anos 60.

WS: Eu simplesmente adoro suas capas para a Animal Man! Elas trazem imagens marcantes e significativas que contribuem muito para as histórias. A da número 5, por exemplo, é uma obra-prima! Como era o processo criativo nessa série? O senhor lia os roteiros e então bolava os conceitos para as capas?

BB: Obrigado. Eu realmente prefiro capas especificamente ligadas à história em vez da imagem-pôster genérica. Eu me desespero quando o editor diz: “faça simplesmente uma cena de ação”. Eu respondo: “Sim, mas o que exatamente eles estão fazendo?!” Eu sempre pensei que a 2000 AD tinha uma mistura de ação, terror e comédia que funcionava muito bem e eu não estava vendo muito dessa combinação nos quadrinhos norte-americanos da época. Eu gosto dessa combinação e as capas da Animal Man permitiam-me fazê-la. Se me recordo corretamente, para criar as capas eu geralmente tinha o roteiro para ler. Eu lia e colocava estrelas marcando as páginas que tinham algo acontecendo que eu pensava que poderia dar uma capa. Muitas vezes, eu tinha idéias que me diziam algo que provavelmente não tinha sido notado [por outros]. A capa da n°39, por exemplo, é minha homenagem à capa da House of Mystery n°1, de 1951. A n°45 é uma paráfrase ou reciclagem de capa da Judge Dredd n°1 da Eagle. Minha grande favorita é a da Animal Man n°25.

WS: Suas capas para a série The Invisibles são estética e tecnicamente diferentes de suas capas para a Animal Man. Quais foram os principais desafios do trabalho nessa complexa série de Grant Morrison?

BB: O primeiro desafio foi o fato de que os roteiros não estavam disponíveis. Na verdade, eu logo passei a gostar disso e as capas ganharam uma vida própria. Elas eram uma combinação daquilo que a editora Shelly Roeberg queria, do que Grant Morrison queria (quando ela conseguia falar com ele ao telefone) e de qualquer idéia que surgisse na minha cabeça. As últimas doze edições eram apenas eu deixando minha mente voar livre. Especialmente as últimas capas das coletâneas. Eu poderia analisar cada capa e apontar todos os segredos por trás delas, mas isso tomaria um livro inteiro.

WS: Seu trabalho é reconhecido pelos desenhos detalhados, os belas texturas e contrastes em P&B, as expressões faciais intensas, as composições eficientes e por aí vai... O que mudou no seu processo criativo agora que o senhor não produz mais trabalhos em papel (substituído pelo comutador)?

BB: A única coisa que mudou foi a parte técnica. No fim, o computador é apenas um meio para eu alcançar o que quero. Eu estou extremamente feliz em deixar para trás todos os materiais complicados, como pincéis, canetas, aerógrafos e todas as tintas, nanquins e acrílicas. Coisas todas que precisavam ser lavadas. Agora eu posso desenhar e arte-finalizar sem quaisquer problemas e tenho ocasionalmente algumas vantagens extras como a cópia de imagens. Foto-colagem quando quero.

WS: Além de incríveis super-heróis, o senhor também desenha mulheres belíssimas e algumas páginas cômicas. Mas este é um lado de seu trabalho menos conhecido. Por favor, fale a seus fãs brasileiros sobre as séries The Actress & The Bishop e Mr. Marmoulian.

BB: Mr. Mamoulian surgiu como uma reação ao tempo que eu estava gastando em meus desenhos e minha obsessão por desenhar bem. Minha velocidade lenta estava impedindo que idéias surgissem num ritmo mais rápido. Então eu decidi que deveria desenhar uma página em duas horas e o personagem-título veio da primeira página que desenhei. Mas ele ganhou vida própria e agora eu gasto mais tempo desenhando-o. The Actress & the Bishop nasceu de uma simples ilustração que eu fiz em meu portifólio para a editora francesa Editions Deesse. Eu queria escrever e desenhar essa HQ tão bem quanto eu conseguisse. Havia uma particular qualidade inglesa nela e para contrariar o fato de que, pelo seu título, as pessoas possam pensar que ela é pornográfica ou algo assim, eu resolvi que iria escrevê-la em versinhos infantis. Eu curtia muito os filmes do Peter Greenaway. Eles tinham obsessões com números e contagem e coisas assim. As rimas em The Actress & the Bishop eram uma forma de dar a mim mesmo uma estrutura obsessiva.

WS: O senhor está produzindo agora capas para a nova minissérie em seis partes The Last Days of Animal Man (a ótima capa para o número 1 já foi comentada em uma postagem anterior aqui no Mais Quadrinhos, tendo me dado o impulso inicial para realizar esta entrevista). Depois disso, quais são seus projetos futuros?

BB: Mais viagens. Estou trabalhando num livro de fotos de uma semana que passei em Burma em 1988. Já mencionei isso? Estou produzindo uma nova história de The Actress & the Bishop. Continuando as capas para Jack of Fables, enquanto me quiserem nisso! Outros projetos pipocam, mas quem sabe se conseguirei acabar realizando-os.

WS: Brian Bolland, muito obrigado por esta entrevista! E obrigado pelo brilhante e belo trabalho!

BB: Obrigado a você!

10 comentários:

Amalio Damas disse...

Parabéns Wellington! Vou muito legal conhecer um pouco mais da carreira deste brilhante e pelo visto modesto autor. Às vezes damos pouca importância a uma capa de revista, mas os editores sabem que elas vendem e Brian Bolland vende. É impossível resistir a um desenho dele.

Wellington Srbek disse...

Obrigado, Amalio! Fico muito contente que tenha gostado da entrevista.
Quanto ao Bolland, o cara é realmente um gênio! Na próxima postagem ainda falarei dele e de nosso amigo Homem Animal.
Abraços e até a próxima!

Anônimo disse...

Isso, Wellington, ele é mesmo um gênio! Concordo com ele: eu também nunca fui um fã do trabalho de Jack Kirby. Anos atrás, eu comprava os números da Mulher-Maravilha em inglês, só pelas capas de Bolland, pois o interior da revista era um lixo só! Depois, Mile Deodato entrou no título ( isso, uns 10 anos atrás )e o resto todos já sabemos. Também acho que a Mulher-Maravilha de Bolland é a mais bonita de todas que já vi nesses anos que leio quadrinhos e não são poucos não! Agora, mulheres mesmo, em termos gerais, ninguém supera o genial, o maior, o melhor de todos, Alex Raymond, criador de F Gordon, Jungle Jim e Rip Kirby, aqui chamado de Nick Holmes, mas isso já é outra história...Alex foi um monstro, um visionário, o traço mais elegante que já vi...mas, estamos falando de B Bolland e ele merece toda a nossa apreciação pelo que é belo, em termos de traços de HQs, já que ele é um um dos artistas mais talentosos que já vi. Recentemente, eu comprei de novo a Piada Mortal pela Panini, já que tenho o original, de 1986, pela Abril. Bem, é isso...
M Santiago

Wellington Srbek disse...

Eh, o trabalho do Bolland merece todos os nossos elogios! Recentemente comprei algumas edições originais da Animal Man só para ter as capas dele.
Já que gosta do Alex Raymond, M. Santiago, aqui no blog há postagens que falam do Flash Gordon. É só clicar no marcador.
Abraço!

MARCO disse...

Valeu, Wellington! Vou ler mesmo o artigo sobre F Gordon!
M Santiago

Wellington Srbek disse...

Beleza, Marko, boa leitura e grande abraço!

Guilherme disse...

Parabéns Wellington por mais essa excelente entrevista. É sempre bm ler esse pessoal que está diretamente ligado, atuando, nos quadrinhos. Ainda mais um cara como Brian Bolland.

Ele não quis falar muito sobre censura nos quadrinhos e até contemporizou sobre a cena censurada em A Piada Mortal. Diferente do Williams III, que até que deu um cutucada na DC com relação a censura em Promethea 22.

É uma pena que coisas assim ainda continuem acontecendo. Quem perde com isso são os leitores, que deixam de apreciar o que o autor, ou desenhista, verdadeiramente gostaria de ter feito. Espero que estas coisas um dia mudem.

Abraços.

Wellington Srbek disse...

Minha leitura foi semelhante à sua Guilherme. Mas, de qualquer forma, acredito que o Bolland tenha encarado de forma tranquila o episódio da Batmoça (aliás, para quem não notou, a imagem que ilustra aquela postagem é a da página original, não censurada).
Muito legal que tenha gostado da entrevista, Guilherme. Espero fazer outras como esta no futuro.
Grande abraço!

Anônimo disse...

Caralho, essa capa de The Actress and the Bishop, é muito foda, brilhante!!!! A mulher é linda demais! Mudando de assunto, Wellington, vc já tentou entrevistar o artista canadense Travis Charest? Ele é outro gênio, pode acreditar!
M Santiago

Wellington Srbek disse...

Marco, você precisa ver a Actress nas páginas internas da HQ! Dê uma olhada na galeria do saite oficial do Bolland que lá tem muita coisa bacana.
Conheço o trabalho do Charest de umas edições de Wild C.A.T.s e realmente ele tem um traço muito refinado.
A questão é mesmo tempo, pois além de uns 3 ou 4 artistas que na certa ainda tentarei entrevistar, tem outros 20 que valeriam muito a pena. Mas, como este blog ainda não rende nenhum tostão, não dá para fazer tudo que eu gostaria. Mas pode deixar que outras entrevistas virão.
Grande abraço, Marco!