13/06/2008

Fábulas: uma visão desencantada dos seres encantados.


Nos últimos anos, a série Fábulas tornou-se (ao lado da bem-sucedida 100 Balas) um dos principais carros-chefe do selo Vertigo. Criado pelo roteirista Bill Willingham, este épico repleto de seres fabulosos voltou recentemente às prateleiras de quadrinhos no especial Fábulas: Lendas no Exílio (já lançado no Brasil pela Devir). Trazendo as cinco primeiras HQs lançadas em 2002, a edição da Pixel reúne um mistério policial e muitas referências literárias, numa abordagem “desencantada” dos personagens das histórias da carochinha.

Semelhante ao que vemos no caso da Imatéria em Promethea, em Fábulas também temos uma dimensão paralela habitada por seres saídos de histórias. Na série criada por Willingham, trata-se das chamadas “Terras Natais”, dimensão onde os personagens dos contos de fadas tradicionais seguiram vivendo suas histórias. Um dia, porém, os cruéis exércitos de um ente poderoso, conhecido como “O Adversário” ou “O Imperador”, invadiram os reinos das fábulas, expulsando ou assassinando seus habitantes. Os mais afortunados, no entanto, conseguiram encontrar uma passagem dimensional para “o mundo terreno”. E é vivendo em nossa realidade e interagindo com os seres humanos que encontramos a Branca de Neve, o Lobo Mau, a Bela e a Fera, entre outros.

Mas, ao contrário da imagem polida e idealizada dos contos de Grimm ou Perrault, em Fábulas temos uma visão mais crua desses personagens. Afinal, logo nas primeiras páginas somos apresentados a uma burocrata insensível (Neve), a um policial melancólico (Lobo) e a um casal em crise conjugal (a Bela e a Fera). Com uma considerável dose de cinismo e uma busca de interação mais realista entre os personagens, o que temos na série concebida por Willingham é um exemplo do chamado “desencantamento do mundo”, aplicado aqui aos seres encantados. Nesse sentido, a proposta de Fábulas é o inverso da que vemos em Promethea, na qual Alan More propõe um “reencantamento” do mundo cotidiano pelos aspectos mágicos e fabulosos da narrativa.

Contudo, ao reintroduzir sexo, sangue e questões cotidianas na história das fábulas, Willingham de certa forma conseguiu aproximá-las de sua origem popular. Afinal, antes de serem domesticados e moralizados pelos escritores e folcloristas que recolheram e fixaram suas versões escritas, os contos tradicionais eram bem mais explícitos, violentos e sexualizados. Num outro viés, destaca-se a narrativa da expulsão das fábulas pelos exércitos do Imperador, apresentada pelo roteirista num paralelo à sucessiva invasão de Estados europeus pelos exércitos alemães comandados por Adolf Hitler. O Imperador em si aparece como um sátiro ou o deus grego Pã, sendo na HQ também chamado de O Adversário (a tradução para o português da palavra bíblica “satã”).

Os cinco primeiros capítulos de Fábulas formam uma história interessante, com direito a trama policial, referências literárias e intrigas palacianas. O desfecho pode não ser dos mais surpreendentes, mas chega a ser engenhoso, principalmente pela forma como quadros do primeiro capítulo são reutilizados. Muito interessante mesmo é o texto que fecha o volume, “Um Lobo no Galinheiro”, que narra alguns dos fatos ocorridos logo após a invasão das Terras Natais. Quanto aos desenhos de Lan Medina, Steve Leialoha e Craig Hamilton, pode-se dizer que são competentes, embora não muito expressivos (ou seja, aquele tipo de traço em que falta algo). Fábulas: Lendas no Exílio tem 128 páginas, formato reduzido 17 cm x 24 cm, ao preço de R$32,90.

Para os fãs da série também chegou às bancas este mês uma nova revista mensal, a Fábulas Pixel, com o início de um novo arco de Fábulas, o primeiro capítulo de Sandman Apresenta: As Fúrias e HQs de Astro City e Contos do Amanhã.

2 comentários:

Marcelo Terres disse...

Muito legal esse teu post.

Acabei de ler o encadernado agora há pouco e também fiz uma análise em meu blog.

Teu feed já foi pro meu Google Reader.

[]s

Wellington Srbek disse...

Legal, Marcelo, valeu!
Em breve teremos novas resenhas.
Grande abraço!