06/03/2009

Doctor Who: da tevê para os quadrinhos.


Em 2006, ao passear pelos canais da tevê a cabo, deparei com um programa de ficção científica que eu desconhecia completamente. O programa em questão mostrava uma cena à janela de uma estação espacial, tendo abaixo o planeta Terra prestes a ser consumido pela expansão do Sol (fato que deverá ocorrer daqui a uma meia dúzia de bilhões de anos). Os personagens na cena eram um estranho homem de jaqueta escura e uma loirinha bonitinha, ambos com uma inconfundível entonação britânica em seu inglês. Tive então que trocar de canal, pois o programa ao qual eu assistia de fato já havia recomeçado.

Nas semanas seguintes, voltei a esbarrar naquele seriado da tevê britânica, primeiro numa rápida cena com espectros voando pelas ruas da Londres vitoriana, depois numa sequência na Londres dos dias de hoje com estranhos alienígenas adiposos e flatulentos (simulados em roupas de borracha e defeitos visuais). Havia algo de muito diferente naquela série, em relação às produções norte-americanas do mesmo gênero. Havia algo de provisório e cômico, uma auto-ironia e uma inteligência que também vemos nos melhores quadrinhos de ficção científica vindos do Reino Unido. O fato é que naquele momento o People & Arts exibia no Brasil a primeira temporada da série produzida por Russell T. Davies, estrelada por Christopher Eccleston (no papel-título) e Billie Piper (no papel da jovem Rose Tyler). Quando finalmente consegui assistir a um episódio completo, fui imediatamente fisgado pelas excentricidades e o charme de Doctor Who!

Tornei-me um telespectador assíduo desse incomum seriado, com seus alienígenas esquisitos, vilões em forma de saleiro, uma nave em forma de cabine telefônica e viagens pelo espaço-tempo. Como dizia o protagonista em momentos de fascinação ou euforia, aquela primeira temporada era algo “Fantástico!” (merecendo que alguma produtora a lance em DVD por aqui!). No final da primeira temporada, porém, o perfeito Christopher Eccleston (que também interpretou o Homem Invisível de Heroes) foi substituído pelo não tão eficaz David Tennant. Por mudanças de horário e divulgação deficiente, não consegui acompanhar a segunda temporada por completo. Além disso, com a saída de Billie Piper ao final do segundo ano, perdi minha identificação direta com o programa, não acompanhando a terceira temporada (que na verdade nem sei se foi exibida no Brasil).

Inicialmente, eu não sabia que Doctor Who era um tradicional seriado da tevê britânica, que havia sido veiculado pela BBC entre 1963 e 1989, retornando em 2005 com mais recursos de produção. Na verdade, ao longo de suas décadas de exibição, a série contou com diferentes atores no papel-título, fator que acabou incorporado à biografia do próprio personagem, que passaria por mortes e renascimentos (na verdade Christopher Eccleston já era a nona encarnação do Doutor, quando foi substituído por David Tennant que passou a ser a décima). Uma longeva atração da tevê britânica, no fim dos anos 70, Doctor Who ganhou uma revista semanal com cenas e informações de bastidores. A publicação contava também com HQs curtas, estreladas pelo personagem ou envolvendo elementos de sua história.

Por mais comerciais que fossem, aqueles quadrinhos baseados num sucesso da tevê acabaram empregando, no início de suas carreiras, alguns dos mais destacados quadrinistas britânicos (tais como David Lloyd, Dave Gibbons, Alan Moore e Grant Morrison). Essas HQs originais estão disponíveis atualmente na coleção Doctor Who Classics lançada pela Panini no Reino Unido (no original em P&B) e reeditada pela IDW nos Estados Unidos (em versão comics colorida). A IDW também lançou em agosto de 2008 uma nova série em quadrinhos, escrita por Tonny Lee e desenhada por Pia Guerra (a desenhista de Y – O último homem), estrelada pelo décimo Doutor. A mesma IDW lançou em outubro e novembro do ano passado Grant Morrison’s Doctor Who minissérie em duas edições que reúne todos os episódios do personagem escritos pelo renomado roteirista escocês.

A dobradinha entre séries de tevê e revistas em quadrinhos é sempre algo promissor e muitas vezes bem-sucedido e lucrativo. Afinal, a transposição para as HQs atrai fãs dos personagens televisivos para a leitura das revistas, ao mesmo tempo em que é capaz de expandir as histórias e os conceitos presentes na série original (basta lembrar que a linguagem dos quadrinhos não enfrenta as mesmas “limitações de orçamento” da televisão, dependendo apenas da imaginação dos roteiristas e do talento dos desenhistas). No Brasil, nas décadas de 1950 a 1980, alguns seriados do rádio e da tevê ganharam versões em quadrinhos, como As Aventuras do Anjo, Jerônimo, Capitão 7, Vigilante Rodoviário, Carga Pesada e Sítio do Pica-Pau Amarelo. Infelizmente, no momento a tevê brasileira não tem produzido seriados de ação, que são mais adequados a uma versão em quadrinhos.

Um comentário:

Débora disse...

Assista a segunda temporada e as proximas com a participação de Tennant, com certeza vc não o achará mais "ineficaz"

ele é um dos mais divertidos, e mais queridos pelos fãs a interpretar o personagem